No dia 16, eu e o pai catita fizemos 10 anos de namoro. Para comemorar a data decidimos criar um painel da história da nossa família.

O pequeno catita, como qualquer outra criança, tem uma grande necessidade em saber de onde veio, o que o ajuda a definir para onde vai.

Ele delira com as histórias do “quando eu tinha a tua idade…”, com as espatifadelas do mini-pai catita mais-arranhão-menos-arranhão na sua bicicleta, com as aventuras da mini-mãe nas aulas de ciências. Com todos os medos e desafios que cada um enfrentou, tão semelhantes aos que agora ele está a viver.

“No meu tempo não havia televisão. Tu tens é muita sorte!” não conta como história construtiva e inspiradora. Apenas os pormenores, as personagens tão conhecidas, os problemas, aprendizagens e as emoções experienciadas constroem a riqueza e profundidade da mensagem. 

Contar histórias de família tem inúmeros benefícios. Ajudam as crianças a fazerem relatos mais ricos e pormenorizados do seu dia a dia, a compreenderem e identificarem os pensamentos e as emoções do outro lado, favorecem o crescimento de uma autoestima saudável, e de uma noção mais forte do seu “eu”. As suas identidades ficam mais definidas, resultando numa maior resiliência e capacidade de lidar com os desafios da vida.

Estas histórias criam fios invisíveis que ligam a criança a todos aqueles que são importantes na sua vida, criando uma rede robusta onde a criança se sente amparada e protegida.

Contar a nossa história conta muito!

O painel chegou a semana passada, e o pequeno catita não conseguia tirar os olhos dele. De certa forma lembrou-me o poder hipnotizante das pinturas rupestres, ou dos hieróglifos do Egito. Desde sempre que os seres humanos se juntam para passar histórias de geração em geração. A nossa estava impressa em PVC, e era mais na onda da banda desenhada, mas o poder da história era claramente visível nos seus pequenos olhos fascinados.

“Ó Mãe e aqui? Foi onde conheceste o pai?” Apontava entusiasmado com o seu dedinho para o desenho do primeiro encontro.

Contámos várias vezes cada episódio. VÁRIAS, várias vezes…

No pedido em casamento no Japão, ele descobriu que a mãe tem dificuldade em responder rapidamente a perguntas difíceis, daquelas que podem mudar a vida de uma pessoa. Desde aí, responde “vou pensar um bocadinho” antes de responder a perguntas que ele acha que merecem o seu tempo.

Descobriu que a mesma música que ainda hoje cantamos para ele, era a música que o embalava ainda estava ele na minha barriga, o genérico do “Conan, o rapaz do futuro” (o pai catita tem uma “ligeiríssima” adoração pelo Japão).

Apercebeu-se que gostar de uma pessoa é crescer com ela, e isso leva tempo, como todas as coisas que valem mesmo a pena.

E descobriu que a vida dele é uma enorme tela, onde vão nascer muitas memórias maravilhosas que um dia ele também vai contar a alguém, muitas e MUITAS vezes.

Vamos falar sobre os trabalhos de casa?

Vamos, mas não em frente aos miúdos, por favor.

Este é um tema recorrente e pouco consensual e, por esse motivo, é bastante falado nas reuniões escolares e fora delas, entre os pais.

No outro dia estava na companhia de duas mães de rapazes que frequentam o terceiro ano e que se cruzaram, com os respectivos filhos, à entrada do colégio.

– Então, hoje há trabalhos de casa?

– Há e não são poucos. Uma seca, aquilo nunca mais acaba, estou com os exercícios pelos cabelos.

Este diálogo aconteceu entre as duas mães. Com os filhos ao lado. Filhos esses que mais tarde iriam pegar nos ditos exercícios, sentarem-se à secretária e fazê-los.

Entendo a frustração das ditas mães e sei que nem sequer pensaram no que lhes estava a sair da boca naquele momento, mas como se podem motivas as crianças a fazer uma tarefa que muitas vezes não é divertida, quando ouvem os seus pais queixarem-se dela? Aquele tipo de comentários legitima que os próprios alunos sintam que os trabalhos de casa não só não servem para nada como é uma chatice terem de os fazer. E mesmo que essa seja a verdade absoluta para os pais, considero uma irresponsabilidade estarem a passar este tipo de mensagem aos filhos.

Não que as crianças não devam ser ouvidas quanto a este assunto. Eles são o objecto em discussão, não nos enganemos, mas existe uma diferença entre ouvir e condicionar a opinião. Numa conversa sobre o que sentem sobre os trabalhos de casa, a sua utilidade, os resultados que deles retiram, as palavras como “chatice” e “seca” não deviam ser proferidas.

Como antiga aluna e mãe tenho a minha opinião sobre os trabalhos de casa: nem todos os alunos precisam deles e a acontecer não devem ser em quantidade que faça com que as crianças passem o dia inteiro a estudar, mesmo quando chegam a casa depois de saírem da escola, onde deveriam passar o seu tempo com os pais a serem crianças e a estreitarem as suas relações. E esta minha opinião nunca me fará olhar para o caderno da minha filha com expressão de aborrecimento e nem ela ouvirá da minha boca “mas tu não precisas destes exercícios todos…” ou “o que é que a professora estava a pensar em mandar estes trabalhos todos para as férias”. O que irei fazer (digo eu, que quando a batata quente nos cai no colo é que sabemos como agiremos, mas quero acreditar que seguirei as linhas orientadoras das minhas atitudes até agora) será motivas a minha filha. Ajudá-la a tirar as dúvidas e tentar que os momentos em que tem de se sentar em casa a fazer os trabalhos de casa não sejam um suplício mas sim algo que tem de ser feito e tem a sua utilidade e por isso mais vale fazer tudo e o mais depressa possível para ter o seu tempo livre.

Se não concordar com o método escolhido pelos professores, há um lugar para discutir o assunto: a escola. E com os professores. Fazendo-lhes chegar a minha opinião e dando as minhas sugestões e aceitando ou não a sua forma de trabalhar.

É por este motivo que é muito importante que os pais e a escola estejam em sintonia, o que muitas vezes não acontece. Mas o trabalho que ambas as instituições desenvolvem são os mais determinantes nos primeiros anos dos nossos filhos. Deve ser um trabalho conjunto, não deve haver um “nós” e um “eles” e tudo deve ser feito para pensar no bem-estar e evolução dos nossos filhos.

Eles nem sempre vão dominar a matéria. Nem sempre serão os melhores alunos, os mais rápidos, os mais audazes.

Mas a forma como “pintarmos” as suas ferramentas na obtenção de conhecimento será essencial na sua formação enquanto adultos.

Muitas vezes, nas empresas em que vão trabalhar, terão de desenvolver tarefas que não acrescentam muito. Elas fazem parte. E eles, os nossos filhos, são parte de um todo. São parte importante de um todo importante.

Todos importam e devem ser ouvidos, mas não legitimemos os nossos filhos a virarem a cara às suas obrigações porque desabafámos em frente a eles.

É uma chatice ter os miúdos sentados a uma secretária no fim de semana quando poderiam estar a passear com os pais? Claro que sim, mas para muitos deles será nos trabalhos de casa que conseguem desenvolver algumas dificuldades com que se depararam durante a semana. Para muitos pais será esse o momento em que ficam a par do que estão afinal os filhos a estudar. Para outros será efectivamente uma seca, porque fazem os trabalhos com uma perna às costas.

Mas é importante que os nossos filhos entendam as suas obrigações, concordem ou não com elas.

É importante que aprendam e é muito importante que haja espaço para que continuem a ser crianças.

Vamos falar de trabalhos de casa?

Vamos, mas em frente aos miúdos não, por favor.

image@weheartit

 

Estás a sair-te bem. Não importa o que os outros te digam nem o que pensam sobre as tuas opções, sobre o que deixaste  para trás ou a forma como vives a vida… Vai correr bem!

Mesmo que às vezes tenhas dúvidas, sabes que a vida é um processo e, enquanto tiveres confiança em ti próprio, as coisas vão seguir o seu rumo com tranquilidade e harmonia.

É este o tipo de reflexão que frequentemente precisamos de ouvir da boca de alguém. Precisar não significa, que procures a aprovação alheia ou que duvides de ti. Por vezes, um reconhecimento, um simples reforço positivo no momento exato e no instante adequado, resulta como um carinho emocional e um impulso vital.

Por exemplo, a frase “Estás a sair-te bem” é essencial no universo pessoal de uma criança. Um elogio é na verdade muito mais do que um simples reforço positivo. É um modo de incentivar a criança a continuar, a seguir em frente, enquanto alimentamos a autoestima, a confiança e a sensação de segurança. Ao mesmo tempo, também se apresenta como uma expressão que se foca no processo, mais do que no próprio resultado

Os adultos também precisam desse tipo de interação positiva na qual por um lado, está o reconhecimento pessoal e por outro, o apoio. Por exemplo, a mãe e o pai que dia após dia realizam a complexa tarefa da criação e da educação de um filho. Uma pessoa que em determinada altura decide fazer uma mudança na sua vida e alguém do seu círculo próximo hesita em dizer-lhe que sua decisão é correta, que esse passo é um acto de coragem…

Os diferentes tipos de apoio pessoal que podemos encontrar no dia a dia

Nós já calçamos sapatos de adultos. Servem-nos perfeitamente e nós  sentimo-nos confortáveis. No entanto, as solas podem estar gastas do grande caminho que percorremos, pelas pedras e poças que encontramos ao longo do caminho. Mas esta viagem ainda está a meio, falta-nos viver uma série de experiências, e há um aspecto que ainda continua a afetar-nos de várias maneiras.

Falamos, sem dúvida, do apoio, da consideração e da proximidade que recebemos dos que nos rodeiam. Podemos dizer que “nada nos afeta”,  que já chegamos a um ponto do nosso desenvolvimento pessoal em que as palavras das outras pessoas são como ar viciado, e que “entram a 100 e saem a 200”…. Mas a verdade é que,  por mais que queiramos nem sempre funciona assim. O que os nossos pais ou irmãos nos dizem, às vezes, atinge-nos. Os comentários dos amigos e do nosso companheiro ou da nossa companheira têm importância.

Por isso é que, às vezes, ouvir um “Estás a sair-te bem” é tão gratificante e nos confirma que essa relação, esse vínculo, valioso é muito importante. Assim, ao longo da vida, teremos três tipos de apoio pessoal.

Pessoas que ajudam, pessoas que habilitam e pessoas que dificultam

Niall Bolger é um investigador do departamento de psicologia da Universidade de Columbia, especialista em realizar estudos sobre relações pessoais e seu impacto no nosso bem-estar psicológico. Num dos seus trabalhos, demonstrou que a forma como o nosso círculo mais próximo nos confere ajuda ou apoio pode basear-se em três tipos de dinâmicas.

  1. Pessoas que habilitam.
    Quem nos “habilita” não nos apoia. Quem habilita procura, acima de tudo, dizer-nos como fazer bem as coisas segundo os seus desejos, crenças ou valores. São amigos, familiares ou companheiros que, longe de entender a nossa perspectiva ou de aceitar os nossos desejos ou escolhas, tentam “habilitar-nos” para que nos encaixemos no seu universo pessoal.
  2. Pessoas que dificultam.
    São pessoas que estão constantemente a convencer-nos que querem o melhor para nós, mas ao mesmo tempo têm comportamentos que dificultam as coisas. Neste perfil não encaixam expressões como “Estás a sair-te bem, mas lembra-te que já agiste assim e correu mal, e é provável que aconteça outra vez. Só estou preocupado contigo” ou “sabes que te adoro e admiro, mas acho que é melhor acabares com essa pessoa”…
  3. Pessoas que ajudam.
    O doutor Bolger, responsável por este estudo, definiu um terceiro tipo de relação, tendo sido considerada a mais importante. São pessoas que não só têm a capacidade inata de dizer as coisas mais sensatas no momento certo, mas que também nos conferem um “apoio invisível”. Ou seja, às vezes não precisamos de ter a pessoa por perto para saber que temos todo o seu apoio, o seu interesse e preocupação…

Assim, o melhor apoio é aquele que “deixa ser” e que nos transmite a todos os momentos a sensação de eficiência, de segurança e de apoio constante.

Estás a sair-te bem porque…

Sabemos que esses reforços verbais e emocionais por parte das pessoas mais próximas são úteis em muitas situações. Ajudam-nos a seguir em frente. No entanto, também não podemos esquecer-nos de que é impreterível que procuremos incentivar-nos, validar-nos, motivar-nos de forma a proporcionar-mos apoio emocional adequado para encontrar essa energia vital para enfrentar o dia a dia.

Nunca é demais refletir e interiorizar as seguintes frases:

  • Estás a sair-te bem porque, estás conseguir viver em harmonia contigo próprio, com os teus valores e necessidades. Não importa os momentos difíceis porque esse é o custo de seres coerente contigo próprio.
  • Estás a sair-te bem porque cada dia é uma pequena vitória onde alcanças algo novo e enriquecedor.
  • Estás a sair-te bem porque deixaste para trás o que te atrasava, pessoas e dinâmicas próprias que faziam mal, que não te ofereciam nem equilíbrio nem felicidade.
  • Estás a sair-te bem porque viver é arriscar, é pores-te em movimento e não parar. A felicidade é um processo e estás no bom caminho, o caminho que tu escolheste.

Vamos pôr em prática estas premissas.

Afinal de contas, não custa nada e traz-nos muitas coisas boas.

 

Publicado em A mente é maravilhosa, adaptado por Up To kids®

imagem@e-volos

Esta é má e fria, não gosta de ninguém” – foi assim que uma mãe descreveu a filha a uma amiga que acabara de encontrar. A menina, com pouco mais de 1 ano, estava sentada no carrinho e ignorava a amiga da mãe, desejando apenas continuar a brincar com um coelho de peluche que trazia na mão. A amiga da mãe tentava desvalorizar, referindo que as crianças são assim, mas a mãe continuava: “esta miúda é parva, nunca cumprimenta ninguém! Olha, Joana, és feia, não gosto de ti!“. Confesso-vos que fiquei incomodada ao ponto de sair disparada da loja e as palavras me terem ecoado na cabeça durante a tarde toda.

As crianças não são feias, más, nem tão-pouco parvas

Em primeiro lugar, ninguém é, as pessoas estão a ser! Existe uma grande diferença entre “é” e “está a ser” – o “é” envolve rigidez, passa a mensagem de que será sempre assim e por isso não há possibilidade de mudança, criando um rótulo definitivo de “és isto” (esta expressão promove a rigidez cognitiva em que as pessoas analisam as situações em termos de tudo-ou-nada, não existe meio-termo); o “está a ser” transmite a ideia de que o comportamento depende das circunstâncias e que por isso pode alterar-se – numa situação, em determinado contexto, és assim, noutra já poderás não o ser – o que facilita a flexibilidade cognitiva (de pensamento), característica fundamental no bem-estar psicológico. Mais, o “é” cria uma determinada expectativa de comportamento tanto na criança como nos outros – a criança sabe que esperam que seja, por exemplo, agressiva e por isso tenderá a reproduzir esse género de comportamentos; os outros esperam ver agressividade na criança e por isso a sua atenção estará direccionada para isso (a chamada atenção selectiva em que o nosso cérebro, para poupar recursos, procura informação que se encaixe naquilo que procuramos; tal como quando entramos numa loja em busca de um vestido vermelho, se nos perguntarem se existiam muitos vestidos azuis não iremos conseguir responder, a nossa atenção foi canalizada apenas para a primeira cor).

Enquanto cuidadores existem comportamentos que consideramos mais e menos aceitáveis de acordo com as nossas crenças e aquilo que a sociedade defende. Reparem que comportamentos está a negrito pois é isso que está em causa, não a criança em si. Quando digo “já não gosto de ti” a uma criança que faz algo que considero menos adequado não estou a focar o seu comportamento, coloco-a integralmente em causa, o que abrange até as suas qualidades – parece-vos justo?

E se os nossos companheiros dissessem que já não gostam de nós porque não lavámos a loiça do jantar? E se a nossa mãe deixasse de nos amar devido à discussão que tivemos a semana passada? Repito: o que está em causa é o comportamento e podemos expressar o nosso desagrado relativamente a isso – “a mãe não gosta que te ponhas em cima da cadeira” – não em relação à criança em si.

Comunicar positivamente

Existem palavras cuja única função é magoar, nada se constrói com base nelas. “Feia, má, parva, burra” são apenas alguns exemplos de palavras que destroem a auto-estima de qualquer um, sobretudo quando proferidas por pessoas significativas cuja opinião é importante para nós. Além disso, são altamente subjectivas, difíceis de decifrar, e por isso em nada promovem a aprendizagem – O que torna uma criança feia? Que comportamentos levam a esse título? Será que a mensagem que queremos transmitir é que tem de se tornar bonita?

Sejamos objectivos no que queremos para que a criança se possa regular – “não quero que estejas em cima da cadeira pois podes magoar-te, fico preocupada contigo“. Depois disto é fundamental apresentar uma alternativa para onde a criança possa canalizar a sua energia – “vamos descer da cadeira, podemos ir brincar a saltar do chão para o tapete”.

Os elogios podem e devem ser aplicados sempre que se justifique. Noto que muitas vezes os pais passam grande parte do tempo a apontar os defeitos dos filhos em público, eu própria já me senti tentada a fazê-lo apenas por estar habituada a que seja esse o registo. Novamente, remetendo para nós próprios, gostaríamos que o nosso companheiro encontrasse um amigo na rua e começasse a apontar os nossos defeitos? Por que o fazemos com aqueles que mais amamos?

Que estes momentos sirvam para desabafar, e aqui podem expressar-se algumas preocupações, mas sejam sobretudo uma oportunidade de reconhecimento público do valor que os nossos filhos têm, daquilo que mais gostamos neles. Como referi, estamos a criar expectativas e isso irá moldar o comportamento da criança, além de promover o seu auto-conceito (como se caracteriza) e a sua auto-estima (como valoriza as suas características).

Por último, as crianças (felizmente) não são mini-adultos! Não esperem que uma criança prefira estar a interagir com uma desconhecida (no caso da amiga da mãe) do que com um brinquedo, não esperem que as crianças expressem afecto por encomenda (podem pedir, eu peço sempre que ela cumprimente as pessoas, mas sei que é natural que tal não aconteça), não ambicionem uma criança robótica que faz tudo que desejamos (se o faz hoje também o fará no futuro e aí já não terá tanta piada).

Percebam e respeitem a essência das vossas crianças, tal como elas aceitam diariamente a nossa.

imagem@tokkoro

Era fim do dia e eu estava a ajudar o pequeno catita com os seus trabalhos de matemática da primeira classe. Mesmo no final dos trabalhos, apareceu o desafiante exercício 5 da página 14, enquanto o pequeno catita lutava para chegar ao resultado sozinho, eu mordia a língua para não lhe dar a resposta certa.

A cada minuto que passava, contorcia-me mais na cadeira. Era tão fácil. Tão óbvio. A solução estava mesmo ali. Só precisava dizer o resultado, e os trabalhos estavam acabados.

Uma parte de mim gritava para ter razão, para dar a resposta certa e durante 2 segundos ficar ofuscada com o holofote do “eu é que sei”. A outra parte, só queria ficar pacientemente calada, e dar-lhe tempo. Era de tempo e confiança que ele precisava para escrever, apagar, pensar, errar e tentar outra vez. Precisava de sentir que estava tudo bem, que eu confiava nas suas capacidades e que estava ali para o apoiar. Só assim seria possível aprender, descobrir e ganhar confiança em si próprio e nas suas decisões.

Sabes, sempre me disseram o que fazer, como fazer. Instruções e mais instruções da forma “certa” de viver a Vida. A comida certa, a roupa certa, a decisão adequada. Tudo era feito com muito amor e com as melhores intensões. Oferecido para me proteger e ajudar a ser uma “boa” menina. Mas na verdade, não ajuda nada. Tira-nos a nossa capacidade natural de caminhar pelo nosso pé. Perante qualquer pequena decisão que temos de tomar, sentimos que temos de consultar os pais, os amigos, a ajuda telefónica e meia dúzia de pesquisas no Google. Sentimos que a resposta está sempre fora de nós, e não dentro, o que nos tira um enorme poder e autonomia. Simultaneamente, se não conseguimos decidir, não somos capazes de lidar com decisões erradas. Como a decisão é sempre do outro, excluímos o nosso papel em todo o processo, o que compromete muito a nossa responsabilidade pessoal.

Ficamos à deriva, à espera da opinião mais acertada, ou da pessoa mais assertiva. E às vezes a pessoa mais assertiva, não está NADA certa.

Estamos sempre danadinhos para resolver os problemas dos outros. Para nos sentirmos úteis e importantes, necessários e admirados. A maioria das vezes, quando estamos a ouvir os problemas dos outros, disparamos mil e uma soluções milagrosas; “Tu devias…” “Se fosse eu…” “É muito simples…” Parecem ajudar, mas não ajudam. Dizem “tu não és capaz de chegar lá sozinho”. E, quando o dizemos muitas vezes, o outro lado acredita. Aí tem duas opções, ou rende-se, ou revolta-se. Nenhuma delas reforça, de todo, a qualidade da relação entre pais e filhos.

Eu sei que, tal como eu, amas o teu filho. E também sei, que é tão difícil transformar esse amor num comportamento amoroso para com ele. Há tanto que se mete no caminho… as nossas expectativas, a nossa infância, os nossos medos e os medos que temos em relação ao seu futuro. Os outros, as suas opiniões e olhares críticos. As nossas constantes incertezas de que estamos a fazer a coisa certa… de que estamos a ser “bons” pais.

Era de tudo isto que eu me estava a aperceber, enquanto mordia a língua e travava a solução do problema de matemática. Apercebia-me de que os processos e as aprendizagens são muito mais importantes do que os resultados. E, que a minha solução pode ser certa para mim, mas não ser certa para o outro. Sou eu que lhe devo dar a possibilidade e a confiança para encontrar a “sua solução”. Sou eu que devo acreditar nele, para que ele possa acreditar também.

É impressionante como quando estamos disponíveis, podemos com um pequeno exercício da primária, aprender tanto sobre a matemática da Vida.

LER TAMBÉM…

Os benefícios da parentalidade preguiçosa

Brincar Aumenta a Autoestima das Crianças

7 erros a evitar na educação dos filhos

 

O formigueiro começa e vai crescendo nos pequenos e nos graúdos.

É o Verão a chegar! Prepare a família a rigor para a tão aguardada época.

Férias de verão rimam com praia. Mas também com campo. Há dicas transversais aos dois cenários. Para além dos habituais cuidados a ter – e nunca é demais relembrar – tais como a atenção a ter com as horas de exposição ao sol (até ao meio-dia, e após as 16h), a necessidade redobrada com a criança na praia (perigo de afogamento ou de se perder) e de ingestão de água, deixamos,  para os mais pequenos, os essenciais de Verão:

  • roupa fresca, com materiais naturais (bodies de manga curta, túnicas, calções largos, vestidos, t-shirts, tapa-fraldas, etc). Para as noites de menos calor, leve um ou dois casacos de malha.
  • sandálias confortáveis e flexíveis, que permitam boas caminhadas
  • fato de banho, calção de praia, fralda de natação («swim nappy»).
  • chapéu com abas bem largas, que protejam as meninges. Opte por um chapéu de algodão e/ou cânhamo, dado que são matérias-primas mais frescas.
  • protetor solar fator 50+. Vale a pena apostar num protetor solar mineral biológico, cuja acção é de barreira física da pele, em vez de ser por degradação do produto no interior da pele.
  • kit de cremes de bebé em tamanho de viagem (creme para a fralda, creme de rosto, óleo)
  • toalha de praia
  • capa respirável para o ovo/cadeirinha do carro – existem capas próprias, com uma camada interior que permite que o ar passe facilmente, evitando a transpiração. Existe também uma versão mais económica de capa protetora, que serve apenas para o assento em si e cuja ação é essencialmente proteger contra a fuga do xixi ou eventual transpiração na zona do rabinho.
  • brinquedos de praia apropriados para a idade – estes brinquedos vão servir durante verões consecutivos (e até poderá usá-los na Primavera ou no Outono, num jardim ou parque infantil), pelo que vale a pena investir num bom balde, uma boa pá, entre mais um ou outro briquedo. O  plástico ecológico será a melhor opção, dado que não transmite materiais tóxicos para a pele da criança. Ao mesmo tempo, se for resistente, dificilmente se partirá. Compensa, em vez dos sucessivos baldes e pás que se partem devido à fraca qualidade.
  • Se a criança estiver preparada, então aproveite a chegada do verão para iniciar o desfralde. Existem cuecas de treino giras e com materiais não tóxicos – reutilizáveis, à base de algodão e bambu.

Finalmente, porque todos os anos surgem casos de crianças que se perdem na praia, partilhamos um método que já circulou pelas redes sociais – na esperança, porém, de não ser necessário recorrer. Se detetar alguma criança perdida na praia, coloque-a aos ombros e peça para que as pessoas na praia batam palmas. Assim a criança fica visível e as palmas captam a atenção, tornando mais fácil reencontrarem a criança.

Este verão, relaxe e usufrua realmente do tempo em família, aproveite para observar como os seus filhos cresceram, dê férias aos gadgets e divirtam-se juntos!

imagem@mariagorda coleção 2017

LER TAMBÉM…

O que levar na mala de férias das crianças?

Manter a calma nas férias com Mindfulness

Marie Kondo – Destralhe o seu armário

Os pais não tiram férias

Quando penso em férias em família, a imagem que me passa pela cabeça envolve adultos perfeitamente descontraídos e crianças impecavelmente limpas, penteadas e cheirosas.

Não sei onde vou buscar essa ideia, mas claramente essa família não é a minha.

Quando vamos de férias só consigo preparar a mala no dia anterior e esqueço-me, quase sempre, de peças importantes que tento airosamente substituir por outras mas que resulta, a maioria das vezes, em combinações catastróficas (como o vestido preto de festa que calcei com chinelos de praia amarelos!).

As minhas filhas são sempre as mais despenteadas, e só estão sem nódoas na primeira meia hora do dia. Têm uma propensão incrível para se sujarem todas cada vez que comem um gelado, de tal forma que se consegue adivinhar o sabor que comeram só por mera observação à camisola.

São sempre as mais barulhentas também. Suportamos olhares desaprovadores, por vezes furiosos, quando o nosso alvoroço entra pela porta de um qualquer restaurante.

Uma olhadela de lado, um abanar de cabeça, uma expressão de aflição.

No entanto, as minhas filhas são também as miúdas que se esquecem da televisão quando estão de férias. Do tronco de uma árvore fazem um parque infantil e se na rua há música, elas param para dançar. Em Itália pedem “gelati” e em Marrocos andam de camelo.

Nas férias as minhas filhas correram livres sempre que possível. Dançaram com os artistas de rua e até compraram um quadro ao senhor da banca na esquina. Molharam os pés no lago, brincaram na areia preta, magoaram os joelhos em quedas imprevistas, caíram e voltaram a cair.

Aprenderam geografia, culinária, história, arte e uma língua diferente.

Mas nós… Os pais não tiram férias

Quanto a nós, pais e mães, sedentos de férias…. Pode ser que venha o dia em que o descanso volte a ser descansado. Pode ser que venha o dia em que possamos andar de férias perfeitamente descontraídos como a imagem que não me sai da cabeça.

Por enquanto trocamos o ginásio pela musculação livre (aka cavalitas), o pequeno-almoço por bolas de Berlim, o almoço pela lancheira da praia, a casa pelo quarto de hotel.

Vamos de férias mas não estamos de férias. Pais não tiram férias, fazem intervalos do trabalho.

Não cochilamos na praia, não acordamos tarde nem saímos à noite.

Não temos direito a silêncio, a intervalos para descansar só um bocadinho. A refeições calmas ou fora de horas ou à sessão da meia-noite no cinema.

E apesar de tudo tenho a estranha sensação que há de chegar o dia em que vou sentir saudades destas nossas não- férias e desejar nostálgicamente não ter tempo para ter tempo.

 

Porque exigimos tanto dos nossos filhos?

Como pais não temos de ser infalíveis. Mas temos a responsabilidade de sermos melhores pessoas a cada dia. Queremos um mundo mais justo, queremos mais amor, mais respeito, mais harmonia, mas será que estamos dispostos a dar tudo isto?

Nós próprios precisamos de fazer o nosso trabalho de casa. Precisamos de aprender a deixar de educar em auto piloto. Ter filhos não e apenas tê-los. É um compromisso para a vida. É como gerir pessoas numa empresa. Temos de ser bons líderes e não patrões. Todos sabemos a diferença entre um patrão e um líder. E todos sabemos, também qual deles preferimos ter.

Uma das grandes diferenças entre um patrão e um líder e que o patrão manda, o líder convida e envolve. O líder sabe que é parte integrante nas responsabilidades. Para dar o exemplo inclui-se nelas, concentra-se em soluções, não nos erros. Aceita os erros como fazendo parte do processo, mas poucas ou raras vezes o refere. Aceitar erros, motivar, ensinar sem bloquear, guiar sem envergonhar. Respeitar a natureza de cada um e trazer ao de cima os seus talentos, valorizando aquilo que consegue fazer. Um líder olha para o Cenário Geral.

Se tivermos optar por ser patrões ou lideres dos nossos filhos, optemos por ser líderes. Ser um bom líder pode ter os seus momentos desafiantes, especialmente quando ainda existem tantos mitos que influenciam a forma como educamos os nossos filhos. Mitos que tem despertado, ao longo de gerações, sentimentos enganadores que vão corroendo e afectando dramaticamente as fundações da casa que somos cada um de nós.

Curioso pensar que quando são bebés, damos aos nossos filhos tudo o que querem. Preocupamo-nos com tudo o que precisam e tentamos ao máximo dar-lhes. Se querem mamar, damos de mamar, se choram porque querem colo, damos colo. Porque será que a partir do momento que se começam a manifestar – se mais activamente – quando começam a andar, a falar, a querer – achamos que é hora de imediatamente balizar, ser rigorosos, não deixar, mandar, proibir, e até punir?

As crianças, como qualquer um de nós, querem apenas ser quem são. E querem ser respeitados nas suas necessidades, ideias e vontades. Porque insistimos em achar que elas querem mais do que apenas ser elas próprias? Porque exigimos tanto dos nossos filhos?

Estamos nós dispostos a dar-lhes a elas – a nós próprios e ao mundo – o que exigimos?

Os nossos filhos precisam de melhores liderem. Não de patrões. Preocupamo-nos tanto que saibam cumprir regras, em obedecer, em ficar quietos, calados quando um adulto fala, que nos esquecemos de ser flexíveis. Assim como gostamos que sejam connosco.   Temos medo. E o medo apodera-se de nós. Temos medo que não sejam autónomos se dormirem connosco, temos medo que não saibam comer sozinhos se lhes fizermos um miminho dando a comida na boca quando estão mais cansados. Temos medo que fiquem doentes, temos medo que não saibam controlar, temos medo que não tenham boas notas. Temos medo. E o medo rege todo o nosso percurso.

Os nossos filhos precisam que brinquemos com eles ao que eles gostam de brincar. Não àquilo que nos faltou brincar na nossa infância. Precisam que aceitemos todos os sentimentos que têm, mesmo que não saibamos lidar com eles. Temos de aprender.

Bons lideres confiam e dão ferramentas para que os colaboradores tragam ao de cima o melhor de si. Os bons lideres escutam e valorizam as opiniões e ideias dos outros – SEMPRE – e não apenas quando lhes convém, em vez de imporem as suas próprias ideias.

Bons lideres reinventam o tempo, mesmo que para isso tenham de abdicar dos seus próprios interesses, preocupações ou assuntos. Bons lideres são flexíveis e compreendem que as emoções e a motivação estão na base de toda a produtividade.

Os nossos filhos não precisam de pais infalíveis, mas precisam – e pedem-no permanentemente – de pais compreensivos, respeitadores, motivadores e que os seus sentimentos sejam considerados, ouvidos e aceites. Pais que os aceitem como eles são. Não pais que os queiram mudar e adaptar àquilo que eles não chegaram a ser.

Reformatar o nosso chip parental e um processo. E é um processo que está ao alcance de todos que queiram nele embarcar. E um processo de avanços e recuos progressivos que apenas dependem das nossas escolhas diárias. Que despendem de nós.

Se esperamos que as coisas mudem a nossa volta sem que nós próprios mudemos os nossos hábitos, as nossas ideias, os nossos pensamentos e os nossos sentimentos, os nossos comportamentos, isso será improvável.

Se não nos transformarmos por dentro, nada se transformará à nossa volta.

A infância é a fundação da casa que somos. Se formos rígidos, educaremos pessoas rígidas e inflexíveis. Se educarmos para a tolerância e para a integração, promoveremos pessoas tolerantes, cooperantes e com vontade de ajudar.

Basta olharmos para dentro, para o nosso espelho interior para compreendermos  isto.

imagem@huffingtonpost

 

Como comunicar com os filhos de forma positiva e eficaz

Uma comunicação eficaz está na base de uma relação equilibrada e saudável, revestindo-se de maior importância quando falamos da relação entre Pais e Filhos. É através da comunicação que expressamos aos outros o que queremos, o que sentimos, o que não gostamos, o que precisamos e é graças a ela que podemos atingir a sensação de que somos plenamente compreendidos e respeitados.

Porque é que ele não me ouve?”, “Não liga nada ao que eu lhe digo!” ouTenho que repetir a mesma coisa mil vezes!”, são frases que surgem recorrentemente no discurso de Pais e Mães, de crianças ou adolescentes, como reflexo da dificuldade que muitas vezes sentimos em chegar aos nossos filhos através das palavras.

Ora se os nossos filhos não nos escutam, não falam connosco ou a muito custo cumprem as ordens que lhes damos é porque algo está mal na forma como comunicamos uns com os outros. Talvez aquilo que dizemos, ou como o dizemos, não traduza correctamente o que realmente queremos expressar, resultando no incumprimento de uma regra ou ordem, ou mais grave ainda, influenciando negativamente a relação que estamos a estabelecer com os nossos filhos.

Porque a forma como falamos é tão ou mais importante como o que falamos, seguem-se algumas estratégias facilitadoras de uma comunicação mais positiva e eficaz entre Pais/Filhos:

Diga o que quer que o seu filho faça e não o que não quer

Sempre que a criança adoptar um comportamento desadequado, pense num comportamento alternativo desejável e formule estão a frase.

Em vez de dizer “Não faças tanto barulho.”, diga “Estás a incomodar-me com os teus gritos. Brinca sem fazeres tanto barulho.”

Em vez de dizer “Não deixes os teus brinquedos desarrumados.”, diga “ Gostava que arrumasses os teus brinquedos.”

– Não diga tantas vezes NÃO

O não talvez seja a palavra que mais usamos quando falamos com os nossos filhos. O não e o despacha-te.

Para dizermos mais vezes sim temos que ser mais flexíveis, estarmos abertos à negociação e, acima de tudo, sermos mais criativos para podermos dar alternativas ou escolhas aos nossos filhos. Como? Assim:

Em vez de dizer “Já te disse que hoje não há gelado para a sobremesa.”, diga “Hoje temos fruta para a sobremesa. Melancia ou pêssego. Tu escolhes.

Em vez de dizer “Agora não podes jogar no telemóvel.”, diga “Podemos fazer juntos um puzzle ou um desenho. O que preferes?”

– Reduza o número de ordens

Está provado que filhos de pais que recorrem excessivamente às ordens desenvolvem mais problemas de comportamento.

Para aumentar a colaboração e empatia dos nossos filhos para connosco é importante darmos alguma liberdade para que as crianças possam decidir certo tipo de coisas sozinhas, diminuído, ao mesmo tempo, o número de ordens que damos lá por casa.

Evite dar ordens relativamente a aspectos que considere que não são assim tão importantes, como por exemplo, qual a t-shirt que a criança deve vestir, com que jogo deve brincar, que desenho deve fazer, etc.

Não repita uma ordem quando o seu filho já a está a cumprir, como dizer “Veste-te.”, quando a criança já se está a vestir ou “Come.”, quando o seu filho já está a comer.

– Avise previamente que vai chegar o momento de cumprir uma acção

Porque a concepção temporal das crianças em muito difere da dos adultos, sendo muito fácil elas se perderem no tempo, sempre que possível prepare-as para a transição de uma acção, avisando-as previamente de que algo vai acontecer a seguir, principalmente se elas estiverem a fazer algo de que gostam.

Assim, alerte-as para que “Daqui a 5 minutos temos que ir tomar banho.” ou “Tens mais 10 minutos para brincar, porque depois temos que ir jantar.”, e não exija obediência imediata.

Quando o fizer, opte por estar junto da criança, evitando gritar a ordem numa outra divisão da casa, certificando-se assim de que a criança ouviu e entendeu o que lhe está a dizer.

– Dê ordens sem se zangar e sem ofender nem humilhar a criança

Mais vezes do que com certeza gostaríamos, porque estamos cansados, fartos ou irritados, acontece que ao chamarmos à atenção aos nossos filhos fazemos uso da crítica negativa, transformando um simples comentário num verdadeiro ataque à criança, resultando em frases do género “És mesmo irresponsável! Todos os dias tenho que te mandar fazer os TPCs” quando um simples “Não te vejo a fazer os TPCs.” bastaria.

Se desejamos comunicar positiva e eficazmente com os nossos filhos, é fundamental que estejamos muito atentos à forma como os chamamos à atenção para algo que está menos bem ou quando lhe damos uma ordem, sem ofender ou humilhar, expressando-nos de forma educada e respeitosa.

Boas Comunicações

 

imagem@detinjarije

Mensagem que deixei ao meu filho adolescente na noite de Natal:

Querido filho:

Os preparativos para o natal tornaram mais claro e difícil que alguma coisa não anda bem entre nós. Fica descansado, hoje não vou falar das notas, da tua preguiça para levantar, nem do quarto desarrumado. Posso bem com a tua oposição às minhas reclamações, e até já aprendi a divertir-me com as tuas respostas em forma de suspiro controlado.

É mais grave.

Estamos distantes como nunca, e por mais que tente, parece que não consigo ligar-me a ti como dantes. Tu sabes que é verdade.

Quando te contar como tentei resolver isto na minha cabeça, vais odiar-me: ando tão preocupada, que pedi ajuda a literalmente todas as pessoas com filhos da tua idade que conheço. Sim, a alguns pais dos teus amigos, já deves estar a imaginar quem são.

Parece que te estou a ver a ler isto, e a mergulhar repentinamente a testa no travesseiro – sobreviverás. Não esperava deles uma cura milagrosa para o meu problema, contava sim com alguma sugestão que me surpreendesse, uma estratégia que tivesse resultado com eles e que eu pudesse replicar, para errar menos contigo. Mas nada, nenhum foi capaz de me ajudar na medida que eu precisava. Custa-me aceitar que os conselhos que me deram sejam tudo o que podemos fazer por nós: conformar-me  que na tua idade é assim mesmo, que te devo deixar estar alheado da tua relação comigo enquanto durar, e que por tempo indefinido possamos somente conversar de assuntos puramente funcionais – a que horas é que te vou buscar; se as calças que tu mais gostas já estão prontas; ou se tu achas que estar frente ao computador até de madrugada é normal.

Não me parece mesmo que a opção dar tempo ao tempo vá funcionar, e não é por detestar frases feitas.

Não gosto, acho perigoso ter com o meu filho uma relação de improviso, nem que seja a prazo. E porque há qualquer coisa que me diz que esperar que sejas tu a dar o primeiro passo é o mesmo que aumentar este intervalo vazio que aconteceu nas nossas vidas, pus tudo no papel, tal como fazia na escola antes dos testes, mas com muito mais cuidado. Tive mil cuidados, filho, para vermos se isto resulta melhor entre nós. Quem dera poder dizer-to, em vez de escrever, mas não consigo.

Vais pensar que não tem nada a ver, mas faço analogias muito óbvias entre ter que colocar este papel debaixo da tua almofada e a nossa vida quotidiana, porque parece que andamos mesmo a jogar às escondidas.

Sei que já não és uma criança, nem desejo que voltes a sê-lo, garanto-te. Deves pensar que o meu desejo é agarrar-te por debaixo dos braços e fazer círculos com o teu corpo pelo ar a grande velocidade, como quando eras pequeno. Nem penses, serias demasiado pesado. Mas já pensaste como estabelecemos tão pouco contacto físico? Podes abraçar-me de vez em quando, não te vou levantar a camisola da barriga e começar a fazer um alarido de sons com a minha boca, na tua pele arrepiada. Podes deitar a tua cabeça no meu colo quando estivermos no sofá, bem sei que perdi os teus caracóis de criança para a cera modeladora. Posso quando muito dar-te um beijo na testa, daqueles que já não te dou há meses, porque já nem sei como fazer para chegar a ti, sem que sintamos algum desconforto.

Agora compreendo porque cometi um erro em procurar ajuda junto dos pais dos teus amigos.

Tu não és o filho deles, tu és o meu filho, uma fusão da educação que te dei e da tua vontade. Demorei muito tempo a perceber isso porque temia a resposta, mas agora estou pronta.

Vá, podes dizer-me que começaste a caminhar com apoio nas minhas pernas. Que fui eu quem te ensinou a tomar banho sozinho e a apertar os cordões aos sapatos. Que fiz de conta que as tuas braçadeiras preferidas estavam furadas, só para que aprendesses a nadar com a minha mão insegura na tua cintura. Explica como não só não me arrependi disso, como ainda te contei que o fiz, alguns anos depois. Havemos de rir. Vais falar-me daquele aniversário em que te ofereci uma viagem a Londres para melhorares o inglês. A tua cara de alegria a rodopiar para espanto, quando eu disse que não ia contigo, porque já te achava capaz de ires sozinho, motivou a maior gargalhada familiar de que há memória.

Vais perguntar-me porquê, filho.

Porque foi que passei a vida toda a dizer que os miúdos não nos pertencem e que os geramos para oferecer ao mundo, preparados com o melhor que lhe pudermos ensinar. Porque estou  agora a reclamar daquilo que eu sempre procurei desenvolver em ti?

Eu não sabia que ia ser tão difícil, e é-me muito difícil explicar. O tempo passou depressa demais, tu cresceste com ele, e já não precisas de mim para planear as tuas conquistas. Eu sei, nada me deves, nem posso cobrar-te. Por isso, se devolveres outra vez este papel ao lugar entre o lençol e o travesseiro, prometo acreditar que não reparaste, não leste, nunca soubeste.

E continuarei a aprender o mundo sem ti, o melhor que puderes ensinar-me.

Mãe.

 

Resposta em  “Carta do meu filho adolescente em resposta à minha mensagem”

imagem@digistar