Treinar a voz interior

Se há situação em que notamos logo como é a nossa voz interior, é quando “queremos” ir ao ginásio, mas na verdade não queremos.

No meio dos vou mais ao fim do dia”, “2019 é que vai ser”, “amanhã é que há uma aula boa” e o hoje está demasiado frio”, o nosso mindset está em tenho de ir ao ginásio”.

Quando não vou, sinto-me mal comigo própria, o que resulta em ainda menos idas ao ginásio. O “tenho de ir” tem a carga da obrigação e da falta de opção, o que despoleta uma falta de envolvimento da nossa parte.

Parece que alguma força exterior me está a obrigar a fazer algo que não quero, o que também nos leva inconscientemente à procura do culpado. A nossa atribuição de culpa soa mais ou menos a isto:

“Tenho de ir ao ginásio porque fartei-me de comer no Natal!”,
“Tenho de ir arrumar a casa porque vou ter cá um jantar mais logo”,
“Tenho de ir às compras porque o meu filho come que se farta”

Isto faz com que ao executar qualquer uma destas tarefas, seja bastante difícil encontrar a mínima alegria no processo. Sentimo-nos à mercê de tudo o que temos para fazer, sem a mínima escolha.

Quando trocamos o “eu tenho de ir” por eu escolho ir”, esse poder e responsabilidade são-nos devolvidos.

O nosso envolvimento cresce, e a nossa vontade também. Mesmo que ao princípio pareça um pouco estranho, quanto mais treinares mais habitual e natural fica o processo. É um clássico e poderoso “Fake it until you make it”.

“AH! Mas eu não escolho ir às compras. Se eu não for o que é que se come cá em casa?” 

Todas as escolhas têm consequências. Se eu não comprar a comida, de facto ela não aparece. Quer dizer pode sempre aparecer uma pizza com a morada errada… mas há várias formas de comprar. Posso comprar online ou comprar no dia seguinte, e fazer o jantar com o que há em casa. Posso fazer jejum intermitente, ou acabar com todos os restos perdidos no frigorífico.

Na verdade, tenho escolha entre várias hipóteses quando escolho ir às compras, apenas no momento não estou a tomar consciência das outras opções.

Esta mudança na forma de verbalizar e ver as situações, deve ser passada aos nossos filhos desde cedo.

Uma abertura de enquadramento e tomada de consciência das opções escondidas, que é a forma de os ensinar a terem um papel activo nas suas vidas. A envolverem-se, a importarem-se, a tomarem responsabilidade, a encontrarem novas soluções, a desenvolverem o seu potencial. Ensina-os a terem uma voz interior que os apoia, e uma autoestima saudável cheia de jogo de cintura.

Ao encontrarmos o poder da escolha em nós, a nossa motivação dispara. Imediatamente. Por exemplo, eu hoje já com o saco da ginástica à porta disse para mim “Eu escolho ir ao ginásio”. Aí percebi que também me apeteciam igualmente outras opções: fazer yoga na sala, fazer uma caminhada para apanhar este sol de Inverno catita, ou fazer nada no sofá. Mas quando acrescentei:

“Eu escolho ir ao ginásio… para tomar banho SOZINHA sem ouvir ó mãeeeeeeee!”, peguei no saco, imediatamente, e saí a correr de casa altamente motivada.

As grandes lições o pequeno Catita

Sempre ouvi dizer que ser mãe muda tudo.

Sempre achei que era conversa. O que podia mudar assim de tão profundo em nós de um dia para o outro? O que podiam seres tão pequenos ensinar-nos de tão grandioso?
Logo com o teu primeiro olhar, inesperadamente intenso comecei a aprender. Aprendi logo ali que tinha uma energia inesgotável quando o teu choro chamava por mim, e comecei a desconfiar que tudo o que sabia sobre mim estava prestes a mudar.
Foi pouco a pouco, dia a dia, ano a ano. Cada cm que crescias, eu aprendia contigo.

Aprendi a olhar para dentro, antes de olhar para fora.

A perceber que muitas das minhas reações não eram minhas mas estavam gravadas na minha cassete interior. Que a voz cá dentro era muitas vezes crítica, e não uma boa amiga. E que para ser gentil contigo, tinha de primeiro ser gentil comigo.
Compreendi que na pausa está o poder para agir, em vez de reagir. Que as palavras devem passar pelo coração para serem filtradas das ideias pré-concebidas e dos hábitos adquiridos, de forma a não magoarem o teu pequeno coração.
Vi que na vulnerabilidade dos dois, está o segredo de uma relação próxima e verdadeira. Que para te inspirar a dares o melhor de ti, devo dar o melhor de mim.

Descobri que o que funciona hoje, amanhã não faz sentido.

Que só com curiosidade e presença posso criar uma estrutura flexível que acompanha o teu crescimento. O nosso crescimento.
Percebi que as verdades absolutas apenas criam lutas de poder. Que existe espaço para cada um ter o seu ponto de vista e comunicá-lo. Que quando nos ouvimos encontramos sempre o caminho do meio. O nosso caminho.
Entendi que tenho de confiar na tua voz interior, para a conseguires encontrar. Aprendi a ouvir-te, sem tentar resolver os teus problemas. Percebi que quando me contas as coisas mais pequenas, abres caminho para me contares as mais difíceis.
Compreendi que as feridas que ainda carrego fazem-me saltar a tampa, e com ela salta também a possibilidade de olhar para essa parte de mim que não está em paz. Obrigada por me lembrares que está na hora de as curar.
Aprendi a ver o errar como a melhor forma de aprender, e não uma razão para desistir.
Como um “ainda não consigo” e não um “não sou capaz”. Aprendi a dar-me colo, como te dou a ti.
Entendi que olhas para mim como um exemplo a seguir, e mais do que dizer-te o que tens de fazer, tenho viver nos valores que acredito serem importantes.

Compreendi que as expectativas que criamos só nos magoam aos dois.

Afastam-nos do nosso verdadeiro potencial, e magoam fortemente a nossa autoestima. Aprendi a não esperar, mas a ficar encantada diariamente ao ver a tua vida desenrolar-se para caminhos que nunca imaginei.
Descobri que mais do que estar certa, é preciso fazer o que o coração sente que é certo.
E que no meio de dezenas de livros sobre ser mãe, o teu livro de instruções nasceu contigo e que temos uma vida pela frente para o lermos. Juntos.

Para enfrentarmos alguma coisa, precisamos de saber o que ela é. De a conhecer e a encarar de frente.

O bullying tem várias características próprias, como a repetição do comportamento abusivo, um claro desequilíbrio entre o agressor e a vítima, e uma intenção do agressor em prejudicar a sua vítima. É algo dirigido, e não aleatório. É continuado no tempo e tem uma vítima sem a mesma capacidade de resposta que o agressor, que exerce o seu poder sobre ela.

O que podemos fazer para tirar poder ao bullying?

É muito importante cultivar um canal de comunicação com os nossos filhos deste cedo, para que eles sintam que nos podem contar as coisas mais pequenas e as maiores. Que somos um porto seguro, e um dos seus adultos de confiança a quem se podem dirigir sempre que precisarem. Para isso, nota como recebes alguma coisa que o teu filho te vai contar, especialmente quando fez uma asneira. Eu penso sempre na coragem que ele teve em ser verdadeiro comigo, por isso a primeira coisa que lhe digo sempre é  “Obrigada por me teres contado”.

Funciona como uma pausa interior minha de micro segundos, que me ajuda a alinhar tudo o que vou fazer e dizer à minha intenção como mãe. Ajuda-me a valorizar o facto de ele sentir que pode falar comigo, algo essencial para a nossa relação, e para os desafios que ele vai enfrentar no seu crescimento.

O Bullying não é simples.

Tem muitos fios enrolados, muita dor envolvida, muitas pessoas que acabam por ter um papel ativo sem terem noção disso. Ser espectador também fomenta o bullying. Ele existe alimentado pela audiência que tem. Não ser plateia, ajuda a diminuir o seu poder.

Trabalhar desde cedo a empatia nos nossos filhos é para mim uma das mais poderosas aliadas anti-bullying. Deve estar lá desde sempre. Tal como lhes ensinamos a ler e escrever, deviam aprender a ler emoções, a colocar-se no lugar do outro a perceber o impacto das suas ações, a trabalhar o seu lado humano.

Como é silencioso, temos de ter atenção às pistas.

No caso da vítima, os sinais de alerta são, por exemplo:

  • desaparecerem com frequência as suas coisas na escola;
  • aparecerem com marcas ou nódoas negras regularmente;
  • evitarem os recreios;
  • não serem convidados para as festas de aniversário;
  • apresentarem resistência constante em ir para a escola.

No caso dos agressores:

  • aparecem com objetos ou dinheiro extra regularmente;
  • são pouco empáticos perante a situação dos colegas;
  • desvalorizam a escola;
  • são desafiadores da autoridade;
  • respondem com uma atitude provocadora;
  • gozam com a situação das vítimas;
  • nunca aceitam as suas responsabilidades culpando os outros;
  • demonstram agressividade nos jogos e situações de desafio.

O bullying já não tem limites físicos. Com a evolução das redes sociais já salta os portões da escola. Acompanha a vítima de uma forma silenciosa mesmo quando está em casa. Persegue-a e aumenta em número e impacto a sua audiência.

Para prevenir o cyberbullying para além de trabalhar a empatia, essencial para perceberem o impacto das suas ações nos outros, devemos mostrar aos nossos filhos como utilizar de uma forma equilibrada as redes sociais. De uma forma humana e consciente. Nas redes sociais, como não vemos a cara, não vemos a reação do outro. Uma sequência de emojis e fotografias retocadas, de cenários fabricados, de vidas “perfeitas” onde a desumanização dá por vezes origem a situações de grave violência psicológica.

Mesmo que o bullying não aconteça ao teu filho, não é por isso que possa ser ignorado.

É como um vírus, espalha-se. Contamina quem o faz, quem dele sofre e quem assiste. Não pode ser trabalhado isoladamente, mas todos devemos intervir, participar, prevenir, denunciar, tomar um papel ativo nas escolas e na vida para que o bullying diminua.

O bullying afecta TODA a escola. Por isso, todos temos de ter um papel.

Tudo está a mudar muito depressa. Perdemos o pé, o foco, ficamos enrolados e não notamos o que se está a passar mesmo à nossa frente. Temos muito tempo para fazer, temos pouco tempo para ser.

Os nossos filhos precisam da nossa ajuda para navegarem neste intenso novo mundo. Nós também precisamos de ajuda…

O bullying precisa de ser resolvido por todos, em conjunto, em comunidade para que nenhuma criança se sinta sozinha. Nem nenhum pai.

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Deixem-me chorar!

Entrei no elevador, um elevador grande, de um prédio grande, cheio de espelhos grandes.

Em cada piso, vários consultórios, muitos médicos, muitas batas e muitas coisas desconhecidas e assustadoras.

Ele não tinha mais de 5 anos, escondido atrás da mãe. Já o tinha visto antes de entrar. Reparei como estava assustado. Tinha o corpo retraído, os olhos colados no chão e o soluço preso na garganta.

Antes do piso 1, começou a chorar. Era um choro encolhido, sem espaço, que não libertava todo o turbilhão interior. A mãe começou a pedir para ele parar. Schhhh! Schhhh! Como se o choro fosse uma falta de educação. Algo não permitido e incomodo. O rapazinho tentava engolir o próximo soluço, mas todo o corpo pedia um choro profundo. Todo o corpo pedia uma forma saudável de expressar o que ia dentro dele.

Sem aviso, a mãe virou-se para mim e pediu desculpa. Pediu-me desculpa por o filho estar assustado, e a chorar. Hã???

Nunca ninguém me pediu desculpa por ter a música alta demais, por atirarem um papel pela janela do carro, ou por passarem à frente só porque lhes apeteceu. Coisas que para mim fariam algum sentido serem seguidas de um “Desculpe”. Mas ali… fiquei atónita. Quando voltei a ter reação disse “Não tem de pedir desculpa, chorar faz bem. Todos precisamos de chorar.” Desta vez, foi ela que ficou atónita.

Para grande alívio da senhora, chegaram ao seu destino, não fosse eu desatar a chorar no elevador. Pisquei o olho ao rapazinho, continuei o meu caminho mas o episódio ficou comigo. Fiquei a pensar na forma como lidamos com o “CHORAR”.

Quando vem do bebé, encaramos como uma forma de comunicação, um pedido de ajuda, algo que devemos amparar emocional e fisicamente. No entanto, parece que com sorte só podemos chorar no máximo até aos 6 anos…

Quando o meu filho entrou para a primária, de um dia para o outro, o cenário mudou.

Logo nos primeiros dias de aulas, no meio das suas intermináveis corridas, espatifou-se no recreio. Quando o fui buscar, estava arranhado de cima a baixo. Claro que quando me viu, apesar do episódio ter acontecido algumas horas antes, voltou a chorar. Uma descarga emocional natural perante um adulto de referência.

A auxiliar veio logo explicar com ternura “Já lhe disse que não é preciso chorar, que ele agora está na primária e já é crescido.” Hã??? “Curioso, eu tenho quase 40 anos e choro sempre que preciso. Já não chora?” perguntei com um sorriso. Auxiliar atónita do outro lado.

Não percebo porque há tamanha diferença na aceitação do riso e do choro. São os dois fundamentais para digerir emoções e expressar sentimentos. Os dois estão ligados como o sol e a chuva. Cada um com funções distintas mas igualmente importantes. A sua dança alternada cria o equilíbrio e, como o arco-íris, podem aparecer juntos no maravilhoso chorar a rir.

O choro acompanhado (quando a criança está a chorar mas sente-se totalmente apoiada) é profundamente curativo, ajuda a libertar tensão, medo, frustração, raiva, tristeza. A criança sabe que está segura para entrar em contacto com essa parte mais escura e lamacenta, que nós estamos ali, mesmo à mão. Essa segurança permite-lhe lidar com emoções peludas e crescer emocionalmente.

Não chorar não significa que está tudo bem. Significa que há um mar de lágrimas preso numa barragem que vai enchendo em vez de a água ir fluindo para onde precisa. Nunca peças desculpa por chorar. É esta água salgada e doce que nos faz ser humanos.

 

“Do not apologize for crying. Without this emotion, we are only robots.” Elizabeth Gilbert

image@mãecatita

 

Dia da mãe – Vale mimar-me

Começamos logo de manhã. Corre para aqui, corre para ali. Prepara isto, pensa naquilo, faz malabarismos para encaixar todas as atividades extracurriculares, o nosso trabalho, os tpcs, a comida saudável, os banhos, as horas a que os miúdos precisam de estar na cama. Ufa!

Só quando aterramos no sofá, é que notamos como estamos exaustas. E dois segundos depois, já estamos a programar tudo o que é preciso para o dia seguinte. A nossa cabeça parece o gabinete da direção de uma multinacional. Uma autêntica loucura.

Sinceramente, não sei onde vamos buscar a energia. Não sei onde vamos buscar tanto amor e colo para dar aos outros. Não sei como conseguimos ter na cabeça frações complicadas, e onde estão as bolachas na despensa. Mas sei como me sinto exausta e zangada se não cuido de mim. Foi algo que fui notando com curiosidade. Percebi que não consigo ter tanta paciência quando estou esgotada. Que me zango mais facilmente. E que muitas vezes, depois do calor do momento, percebo que não era nada daquilo que queria dizer ou fazer.

Instruções

As instruções de segurança nos aviões são muito claras nos procedimentos a seguir. Primeiro, temos de colocar a máscara de oxigénio em nós, e só depois ajudar as crianças. O mesmo devia acontecer na parentalidade. Só conseguimos dar, se tivermos algo para dar. Caso contrário, estamos em esforço contínuo. Em desgaste contínuo.

Uma mãe precisa de cuidar de si. Cuidar sem culpa. Precisa de descansar, carregar a pilha, sentir-se inteira para ser capaz de cuidar e dar aos outros. Além disso, uma mãe ao cuidar de si, inspira nos filhos o autocuidado e a auto-valorização.

Pensei com carinho, no que te podia oferecer para começares a cuidar de ti. Pouco a pouco. A mimares-te como mereces. A sentires como faz toda a diferença.  Que isto do “cuidar de mim”, não faz de ti uma má “mãe”, mas sim uma mãe humana.

Pensei e decidi dar-te momentos. Momentos de auto-mimo para cortares, usares e mimares-te.

Lembra-te, vale mesmo a pena cuidares de ti todos os dias, e não só no dia da mãe.

      Clique na imagem para abrir em grande e imprima <3

Dia do Pai. Dia de criar memórias felizes

As memórias felizes criam fios invisíveis que ligam a criança a todos aqueles que são importantes na sua vida. Uma rede que nos une, e que enche continuamente o nosso depósito emocional de amor.

No Dia do Pai, oferece-lhe um frasco cheio de memórias felizes e juntos relembrem, um a um, todos os instantes que geraram estas recordações. É mais uma oportunidade de criar outra memória feliz, papelinho a papelinho.

Para teres o teu KIT CATITA, basta salvar a imagem para o teu computador, imprimir e seguir as instruções. Imprime várias vezes para teres todos os papelinhos que precisas. Se tiveres dificuldades em tirar e imprimir a imagem, ou se a quiseres com mais resolução, manda-me um mail para maecatita@gmail.com e envio a imagem para ti.

FELIZ DIA DO PAI!

MATERIAL. Vais precisar de:

  • Frasco de Vidro
  • Tesoura
  • Cola ou fitacola dupla
  • memórias felizes
  • impressora

COMO FAZER?

  • Clica na imagem seguinte, e imprime.
  • Recorta o rótulo, e cola num frasco de vidro
  • recorta os papelinhos e preenche-os com os teus filhos (os que já escrevem fazem sozinhos)
  • Dobra ou enrola os papelinhos a teu gosto e coloca dentro do frasco!

Dica: para cada filho imprime uma das imagens para que cada um tenha o seu frasco para oferecer ao pai!

 

No dia 16, eu e o pai catita fizemos 10 anos de namoro. Para comemorar a data decidimos criar um painel da história da nossa família.

O pequeno catita, como qualquer outra criança, tem uma grande necessidade em saber de onde veio, o que o ajuda a definir para onde vai.

Ele delira com as histórias do “quando eu tinha a tua idade…”, com as espatifadelas do mini-pai catita mais-arranhão-menos-arranhão na sua bicicleta, com as aventuras da mini-mãe nas aulas de ciências. Com todos os medos e desafios que cada um enfrentou, tão semelhantes aos que agora ele está a viver.

“No meu tempo não havia televisão. Tu tens é muita sorte!” não conta como história construtiva e inspiradora. Apenas os pormenores, as personagens tão conhecidas, os problemas, aprendizagens e as emoções experienciadas constroem a riqueza e profundidade da mensagem. 

Contar histórias de família tem inúmeros benefícios. Ajudam as crianças a fazerem relatos mais ricos e pormenorizados do seu dia a dia, a compreenderem e identificarem os pensamentos e as emoções do outro lado, favorecem o crescimento de uma autoestima saudável, e de uma noção mais forte do seu “eu”. As suas identidades ficam mais definidas, resultando numa maior resiliência e capacidade de lidar com os desafios da vida.

Estas histórias criam fios invisíveis que ligam a criança a todos aqueles que são importantes na sua vida, criando uma rede robusta onde a criança se sente amparada e protegida.

Contar a nossa história conta muito!

O painel chegou a semana passada, e o pequeno catita não conseguia tirar os olhos dele. De certa forma lembrou-me o poder hipnotizante das pinturas rupestres, ou dos hieróglifos do Egito. Desde sempre que os seres humanos se juntam para passar histórias de geração em geração. A nossa estava impressa em PVC, e era mais na onda da banda desenhada, mas o poder da história era claramente visível nos seus pequenos olhos fascinados.

“Ó Mãe e aqui? Foi onde conheceste o pai?” Apontava entusiasmado com o seu dedinho para o desenho do primeiro encontro.

Contámos várias vezes cada episódio. VÁRIAS, várias vezes…

No pedido em casamento no Japão, ele descobriu que a mãe tem dificuldade em responder rapidamente a perguntas difíceis, daquelas que podem mudar a vida de uma pessoa. Desde aí, responde “vou pensar um bocadinho” antes de responder a perguntas que ele acha que merecem o seu tempo.

Descobriu que a mesma música que ainda hoje cantamos para ele, era a música que o embalava ainda estava ele na minha barriga, o genérico do “Conan, o rapaz do futuro” (o pai catita tem uma “ligeiríssima” adoração pelo Japão).

Apercebeu-se que gostar de uma pessoa é crescer com ela, e isso leva tempo, como todas as coisas que valem mesmo a pena.

E descobriu que a vida dele é uma enorme tela, onde vão nascer muitas memórias maravilhosas que um dia ele também vai contar a alguém, muitas e MUITAS vezes.

Finalmente chegou o dia da reunião de família. Fazemos sempre uma, quando temos um assunto importante a tratar ou simplesmente quando nos apetece falar em modo reunião de condomínio catita e votar em qualquer coisa.

Esta era uma reunião fabulosa-especial, era a reunião onde iriam ser definidas as regras para ser feliz.

Durante uma semana, cada membro da família tirando o gato, tinha de pensar em duas regras importantes para a felicidade e bem-estar da nossa família. Estas seriam depois apresentadas e votadas na reunião pelos restantes membros. Após a reunião, seriam afixadas com lugar de destaque no frigorífico as “Regras da Casa Catita”.

O pequeno catita, em grande euforia, apresentava as suas duas propostas a serem votadas.

Regra número 1

“Número 1: Não nos podemos magoar uns aos outros, no corpo nem no coração.” 

Fiquei um bocado atrapalhada-feliz com aquela primeira regra, ao pé das minhas a dele era muito mais madura e profunda. Tinha tantos níveis implícitos do que tentamos, apesar dos mais variados trambolhões, respeitar nele e em nós… Tinha empatia, cuidado com o outro, noção de que o coração se magoa tanto ou mais do que o corpo… Pensei que em vez de regra da casa, devia era ser regra do Mundo.

Sem qualquer tipo de dúvida, a regra número 1 foi aprovada por unanimidade!

Regra número 2

“Número 2” gritava entusiasmado “Respeitar o tempo e o trabalho de cada um.” Ora bem, quem és tu e onde está o meu filho?! Os miúdos têm esta característica fabulosa de nos surpreender. Desde sempre que lhe explico como é importante termos o nosso tempo, darmos tempo e respeitarmos os outros no que estão a fazer. Refiro a importância de passarmos tempo sozinhos, de estarmos na nossa própria companhia e de fazermos o que nos entusiasma para carregar a nossa pilha interior. Ele parecia não ouvir NADA do que lhe estava a dizer. E do nada, vem a regra número 2 cheia de respeito e consideração pelo outro. Foi neste momento, que pensei em dizer que o gato tinha comido o meu TPC das regras.

Regra número 3

Seguiu-se o pai catita com a regra número 3 “Todos os dias, passar 20 minutos em família.” Não temos todo o tempo do mundo, mas temos aqueles 20 minutos. Até podem ser passados no carro parados no trânsito a fazer coreografias idiotas com as músicas que estão a dar na rádio. Ou a dobrar os lençóis da cama, enquanto o pequeno catita mergulha animado por baixo deles. São 20 minutos em que estamos lá todos, juntos. Totalmente presentes.

Regra número 4

Regra número 4 “Não podemos ir dormir chateados uns com os outros”. Esta regra foi a única que definimos quando eu e o pai catita começámos a viver juntos. Nos dias em que ainda estávamos chateados na hora de dormir era MUITO incómoda, mas é tão importante para os sentimentos e pensamentos enrolados não crescerem dentro de nós como ervas daninhas que nos separam um do outro. É uma espécie de restart do computador, em vez de levar a noite toda com um murro no estômago e vontade de morder em alguém. Antes de dormir, tínhamos de falar e resolver a situação. Ou pelo menos dar o primeiro passo, ou o primeiro abraço.

Regra número 5

Já eram quatro as regras aprovadas em família. A regra 5, surge de uma antiga e acarinhada tradição cá de casa. “Fazer uma refeição na mesa e uma no sofá, sempre juntos.” Ora na mesa, ora acampados no sofá com tabuleiros. É a nossa versão de pic-nic na sala. O importante é estarmos todos JUNTOS e a conversar!

Regra número 6

Regra número 6 “Contar sempre as coisas como elas aconteceram” . O ano passado, percebi que o pequeno catita não me contava filme todo. Usava uma versão trailer dos acontecimentos com os ingredientes que achava pertinentes e úteis para a sua versão. Para o ajudar a ser mais claro na sua comunicação e versão dos factos, inventei o jogo Contar as coisas como elas aconteceram”, que vai trabalhando de uma forma divertida o primeiro passo da comunicação não-violenta, a observação sem julgamento. Olhar com olhos de polícia para os acontecimentos, e apenas referir o que foi visto e ouvido. Para além do ajudar a ser mais objectivo e verdadeiro, trabalha a naturalidade de nos contar o que se passa na vida dele, criando e fortalecendo o canal de comunicação. Esta regra estendia-se agora a toda a família, por isso os “tu nunca lavas a loiça” e “chegas sempre atrasado/a” iriam ser substituídos por observações neutras que promovem o diálogo e não o ping-pong de acusações.

A reunião acabou e todos se sentiam entusiasmados com as novas regras. Nos dias seguintes, perante alguma situação menos consciente, o pequeno catita referia que cá em casa cumprimos as regras, e apontava para o frigorífico.

Sabes, quando as crianças se sentem parte do processo a sua vontade de colaborar é gigantesca porque sentem-se vistos, reconhecidos e ouvidos. Sabem que contam, e que nós também contamos com eles e com os seus pequenos dedinhos para nos apontarem o caminho para as regras mais importantes, as regras que nos fazem felizes.

O poder de ser desobediente

Confesso, tenho 39 anos e sou desobediente. Quando estou na fila do supermercado e vejo alguém com uma única compra na mão, deixo passar à minha frente. Às vezes até deixo passar só porque está com um ar cansado ou apressado. Quando coloco moedas no parquímetro e me sobra mais de 30 minutos de estacionamento, ofereço o talão a um estranho. Depois há os dias em que está friooooo e como não tenho nada para fazer, fico de pijama o dia TODO, a rebolar de um lado para o outro. Às vezes como comida com a mão, mesmo que não esteja na Índia, sabe ainda melhor se estiver sentada no sofá a ver qualquer coisa catita.

Não consigo seguir receitas, invento todos os pratos que cozinho, para grande alegria e tristeza do meu marido, porque nunca consigo repetir nenhum sucesso culinário. Preciso de saber o porquê de tudo, e questiono sempre quando me dizem para fazer alguma coisa que sinto que não quero fazer.

Ser obediente não é aquela característica fabulosa que todos pensam. Às vezes, ser desobediente pode salvar-te a vida. Como quando és adolescente e tens um macho alfa a dizer-te para fazeres algo profundamente idiota. Ou quando tens um chefe sem escrúpulos que quer que faças algo ilegal.

Ah! Então agora era a anarquia e cada um fazia o que queria? Claro que há regras que devem ser seguidas, regras de segurança e sociais, mas não é dessas que estamos aqui a falar.

Ao contrário do que muitos pensam, as crianças querem naturalmente colaborar com os pais. Querem sentir-se vistas, amadas e reconhecidas. O seu comportamento é apenas uma manifestação do que se passa dentro delas. Também tu quando te sentes mal, te portas mal. Se olhares com atenção vais ver MUITOS adultos durante o dia de hoje a fazer grandes birras, basta ires a uma repartição de Finanças ou passar alguns minutos no trânsito.

Se o comportamento do teu filho te mostra que algo não está bem, investiga. Descobre o que se passa com ele, o que ele te está a tentar comunicar. Investiga também o que se passa contigo, o que TU estás verdadeiramente a precisar. Se apenas mudas o seu comportamento, sem tentar compreender a necessidade que não está a ser preenchida, vais para sempre fechar um importante canal de comunicação.

Investiga, também, quais são os teus limites, e como os estás a comunicar.

A obediência consegue-se, com meia dúzia de técnicas, meia dúzia de recompensas, castigos, ou 7 minutos a pensar no cantinho da vergonha. Mas senta-te lá tu. Senta-te e sente o que vai dentro de ti quando tens 7 minutos para pensar como és uma “má” pessoa. Sente o que aprendes. Ouve a voz crítica que começa a crescer como uma erva daninha dentro de ti, a raiva que te arranha a garganta, e a tristeza que te salta em cascata dos olhos. Sente como algo se quebra em ti. Ali sentado, calculo que tenhas vontade de obedecer, mas a que custo… Ao teu custo.

Há uma outra forma. A construção da relação entre pais e filhos. Não é rápida, tal como não o é nada que valha mesmo a pena. Não é apenas pintar a fachada de uma casa a cair, é construir fundações, estruturas fortes, olhar com compaixão para tudo o que precisa mudar, e ter a coragem para o fazer. É uma mudança de dentro para fora. Uma mudança que faz toda a diferença num mundo que precisa de pessoas que pensem com todo o coração e não que sigam apenas ordens cegamente.

Sê o exemplo que queres ver crescer no teu filho. Se valorizas a generosidade, sê generoso. Se valorizas a comunicação, a colaboração, a simpatia, a ordem, a organização, é só viveres isso no teu dia a dia.

E sabes porque isso é fantástico? Porque as crianças aprendem pelo exemplo e não pelas palavras que são gritadas. Porque quanto mais de te conheces, aceitas e és coerente com o que vai dentro de ti mais reconstróis a tua autoestima. E sabes o que um pai que constrói, dia a dia, uma autoestima saudável faz a um filho? Inspira-o a fazer o mesmo. É super, não é?

Publicado originalmente em Mãe Catita

Era fim do dia e eu estava a ajudar o pequeno catita com os seus trabalhos de matemática da primeira classe. Mesmo no final dos trabalhos, apareceu o desafiante exercício 5 da página 14, enquanto o pequeno catita lutava para chegar ao resultado sozinho, eu mordia a língua para não lhe dar a resposta certa.

A cada minuto que passava, contorcia-me mais na cadeira. Era tão fácil. Tão óbvio. A solução estava mesmo ali. Só precisava dizer o resultado, e os trabalhos estavam acabados.

Uma parte de mim gritava para ter razão, para dar a resposta certa e durante 2 segundos ficar ofuscada com o holofote do “eu é que sei”. A outra parte, só queria ficar pacientemente calada, e dar-lhe tempo. Era de tempo e confiança que ele precisava para escrever, apagar, pensar, errar e tentar outra vez. Precisava de sentir que estava tudo bem, que eu confiava nas suas capacidades e que estava ali para o apoiar. Só assim seria possível aprender, descobrir e ganhar confiança em si próprio e nas suas decisões.

Sabes, sempre me disseram o que fazer, como fazer. Instruções e mais instruções da forma “certa” de viver a Vida. A comida certa, a roupa certa, a decisão adequada. Tudo era feito com muito amor e com as melhores intensões. Oferecido para me proteger e ajudar a ser uma “boa” menina. Mas na verdade, não ajuda nada. Tira-nos a nossa capacidade natural de caminhar pelo nosso pé. Perante qualquer pequena decisão que temos de tomar, sentimos que temos de consultar os pais, os amigos, a ajuda telefónica e meia dúzia de pesquisas no Google. Sentimos que a resposta está sempre fora de nós, e não dentro, o que nos tira um enorme poder e autonomia. Simultaneamente, se não conseguimos decidir, não somos capazes de lidar com decisões erradas. Como a decisão é sempre do outro, excluímos o nosso papel em todo o processo, o que compromete muito a nossa responsabilidade pessoal.

Ficamos à deriva, à espera da opinião mais acertada, ou da pessoa mais assertiva. E às vezes a pessoa mais assertiva, não está NADA certa.

Estamos sempre danadinhos para resolver os problemas dos outros. Para nos sentirmos úteis e importantes, necessários e admirados. A maioria das vezes, quando estamos a ouvir os problemas dos outros, disparamos mil e uma soluções milagrosas; “Tu devias…” “Se fosse eu…” “É muito simples…” Parecem ajudar, mas não ajudam. Dizem “tu não és capaz de chegar lá sozinho”. E, quando o dizemos muitas vezes, o outro lado acredita. Aí tem duas opções, ou rende-se, ou revolta-se. Nenhuma delas reforça, de todo, a qualidade da relação entre pais e filhos.

Eu sei que, tal como eu, amas o teu filho. E também sei, que é tão difícil transformar esse amor num comportamento amoroso para com ele. Há tanto que se mete no caminho… as nossas expectativas, a nossa infância, os nossos medos e os medos que temos em relação ao seu futuro. Os outros, as suas opiniões e olhares críticos. As nossas constantes incertezas de que estamos a fazer a coisa certa… de que estamos a ser “bons” pais.

Era de tudo isto que eu me estava a aperceber, enquanto mordia a língua e travava a solução do problema de matemática. Apercebia-me de que os processos e as aprendizagens são muito mais importantes do que os resultados. E, que a minha solução pode ser certa para mim, mas não ser certa para o outro. Sou eu que lhe devo dar a possibilidade e a confiança para encontrar a “sua solução”. Sou eu que devo acreditar nele, para que ele possa acreditar também.

É impressionante como quando estamos disponíveis, podemos com um pequeno exercício da primária, aprender tanto sobre a matemática da Vida.

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