Respirar Gratidão Pelas Crianças

Embora a gratidão tenha uma vibração própria, a gratidão pulsa na frequência do amor.

Quando respiramos gratidão, respiramos amor.

Um dos maiores motivadores de bem-estar, a gratidão é uma das fontes mais poderosas de conexão.

Como pais, podemos ser aprendizes incessantes, se estivermos dispostos a ouvir e a observar profundamente.

São-nos oferecidos dons preciosos e vulneráveis ​​que devemos respeitar com todo o coração, com todos os nossos actos.

A conexão profunda às vezes pode parecer um desafio. A maneira como somos programados para entender as crianças – influenciadas pela nossa própria cultura e criação – bloqueia a verdadeira percepção do reino das crianças.

Todos os dias, tentamos ao máximo orientar nosso barco na direcção amorosa e gentil, mas às vezes nosso piloto automático engana-nos e leva-nos de volta ao tipo de pais que não queremos ser.

Há momentos em que questionamos as nossas capacidades como pais, sentimos arrependimento, culpa, vergonha. Às vezes, simplesmente não entendemos porque é que não podemos ser sempre os pais que queremos ser. De tempos em tempos, experimentamos momentos de desespero. Mas, de alguma forma, temos que encontrar uma maneira de voltar e segurar o volante. Às vezes é apenas uma fracção de segundo que temos.

A gratidão ajuda-nos a colocar nosso barco de volta à nossa rota. A gratidão ajuda-nos a reconectar com nossos filhos. E com a situação com que estamos lidar.

E à medida que praticamos mais e mais gratidão, essas reconexões não são fragmentadas. Eles começam a acontecer instantaneamente.

A gratidão tem poderes profundamente misteriosos e infinitos.

Orientar os nossos filhos faz parte de nossa missão como pais. No entanto, orientar os nossos filhos também significa permitir que as crianças liderem o caminho. Permitindo-nos aprender com a sua sabedoria. As crianças sabem muito mais do que se manifestam para o  exterior.

Praticar a gratidão ancora soluções construtivas ao lidar com nossos desafios. Exercer gratidão diariamente ajuda-nos a reformular e crescer a partir de nossas experiências.

A gratidão encoraja aceitação e flexibilidade.

Uma vez que recebamos a gratidão junto com nossa respiração natural, a gratidão renova sua pulsação como um movimento abstrato puro e simples, e expande seu poder em uma parte intrínseca do nosso DNA.

Então a gratidão expande-se no ar que inspiramos e expiramos espontaneamente. E quando respiramos gratidão, amplificamo-la em todo o nosso ambiente.

Escreva ou apenas pense, neste momento, em cinco coisas sobre seus filhos pelos quais você é grato. E todos os dia pratique esse exercício.

Quando começamos este simples hábito, começamos a compreender a mudança imediata que acontece no nosso cérebro. Quando somos gratos, tornamo-nos mais conscientes das coisas verdadeiramente importantes. As nossas prioridades da vida prática são reformuladas.

Quando somos gratos, tocamos a energia do amor. E conectarmo-nos com o amor é conectarmo-nos com bondade e sabedoria. E é aí que começamos a libertar-nos da necessidade de controlo.

Quando sentimos um profundo apreço por termos os nossos filhos nas nossas vidas, os nossos olhos mudam. Os nossos olhos mudam de uma forma que acabamos por expandir a nossa percepção da verdade sobre as crianças. Sobre o que eles estão a tentar comunicar. Começamos a perceber que quando choram ou se revoltam, há sempre uma motivação para essa emoção. Mesmo que nós não a consigamos ver. E passamos a perceber que a criança precisa de ajuda. E não de uma repreensão ou de um castigo.

O nosso trabalho como pais é aceitar os nossos filhos como eles nos são apresentados.

O nosso trabalho como pais é nutrir quem os nossos filhos são.

É incentivá-los a serem sempre fiéis a si mesmos.

E essa é outra das lições que a gratidão nos ensina. A gratidão ensina-nos a aceitar o que é. Como é. Apesar do que é. O que nos faz sentir bem. O que nos deixa desconfortáveis. O que move nossas emoções mais profundas. O que move o núcleo de nossas crenças.

Tudo começa a fazer sentido no momento em começamos a respirar gratidão. O que lemos aparece-nos no momento exacto em que precisamos de lêr. Com quem nos cruzamos, aquilo por que passamos traz consigo uma lição secreta a ser aprendida.

Primeiro temos que SER. Então estaremos prontos para DAR. Só então podemos RECEBER.

Os nossos filhos são coração, corpo e alma. Assim como nós somos. E sermos gratos por eles ajuda-nos a enxergar os desafios com uma mentalidade diferente. Ajuda-nos a olhar para eles de uma perspectiva diferente.

Sermos gratos pelos nossos filhos ajuda-nos a perceber que há coisas sobre as quais temos pouco controlo.

Respirar gratidão pelos nossos filhos estimula-nos a ser mais amigos e parceiros, sermos mais pacientes, resilientes e mais gentis nos momentos mais desafiadores.

Quando inserimos o ato de sermos gratos por tudo o que acontece nas nossas vidas, começamos a abraçar cada experiência como uma oportunidade de crescer e evoluir. Isso traz à consciência coisas que precisamos de trabalhar dentro de nós mesmos.

Traz consciência de que cada circunstância é um presente.

Quando respiramos gratidão pelos nossos filhos, criamos uma nova consciência. Também aprendemos a ser mais cuidadosos com as nossas palavras, com o nosso tom. Com as nossas acções.

Mas além de tudo isso, ensinamos os nossos filhos através do nosso exemplo, a sermos gratos e a valorizar-se a si mesmos como indivíduos, apreciando as suas experiências como uma contribuição para quem eles são.

Respire gratidão pelos seus filhos todos os dias.

E isso trará benefícios para sua vida e para sua família durante toda a sua vida e além dela. Porque isso fará parte do legado que seus filhos transmitirão ao mundo e que, esperamos, se espalhe pelas próximas gerações.

A gratidão pulsa na frequência do amor.

E quando respiramos gratidão, respiramos amor.

As Crianças Não Fazem Birras | M.J.Silva

Livro recomendado pela Up To Kids 

SINOPSE
Conhecer e compreender as crianças é um passo fundamental para conseguirmos agir e interagir com elas. Sem conhecermos o seu interior, a forma como vêm o mundo, como se movimentam no mundo, é o nosso estado de não-consciência que tantas vezes prevalece quando educamos os nossos filhos. 

Ao longo das páginas d’AS CRIANÇAS NÃO FAZEM BIRRAS vai percorrer juntamente com a autora os trilhos que M.J.Silva desbravou sobre o universo da criança, vão navegar juntos pela interligação entre a conexão, o amor e a empatia e outras emoções ligadas ao desenvolvimento saudável na infância. Alternando afirmações incisivas e outras provocatórias, desenvolvidas com a intenção de fazer reflectir, vai compreender como introduzir estes novos conceitos no seu dia-a-dia. E ao compreender as emoções, vai aprender a conseguir desenvolver mecanismos para melhorar a forma como lida com os seus próprios filhos.

AS CRIANÇAS NÃO FAZEM BIRRAS é um livro para ser lido, riscado, escrito, sublinhado. É um livro construído para tomar notas, registar os seus pensamentos, destacar com marcador, fazer desenhos à volta das palavras que lhe fizerem sentido. M.J.Silva convida-o a fazê-lo directamente aqui, de modo a que este livro se torne também um registo pessoal para si.

Este livro conta com o apoio da Associação Portuguesa para a Igualdade Parental e Direitos dos Filhos e da Up To Kids e está já disponível na Amazon.
as crianças não fazem birras

Todos nós precisamos de coisas diferentes. Por exemplo, eu preciso das minhas canetas para escrever e o meu filho precisa delas para construir foguetões. De todas elas. Eu preciso do meu computador para editar as minhas crónicas e o meu filho precisa de ver documentários sobre construção de motores. Ao mesmo tempo que eu preciso de trabalhar.

Muitas vezes situações como esta podem transformar-se num dilema. Ou numa fonte de conflito.

No entanto, como adulto responsável, cabe-me a mim escolher se quero transformar este momento numa luta de poder. Ou simplesmente parar, olhar para o grande plano das coisas por um segundo – em vez de reagir imediatamente – e decidir em consciência.

Isto significa que as crianças não tenham limites?

Não. Mas significa que os limites devem ser passados de forma tranquila, com base na empatia, na conexão.

Ao dizer: Estou a escutar que gostavas de…. Mas não vai ser possível… porque | Quem me dera… | Como é podemos fazer? | Estou aqui. Vejo que estás aborrecido. Queres ajuda? estamos a escolher compreender o que a criança sente antes de estabelecer o limite. Mesmo que não possamos satisfazer a necessidade ou vontade imediata da criança, ela vai receber que somos compreensivos em relação às suas emoções e às suas vontades.

As crianças, tal como nós reagem muito melhor a uma energia de conexão. Se nos conectarmos primeiro com os sentimentos da criança, distanciando-nos das nossas próprias necessidades, conseguiremos ajudá-la a construir uma auto-imagem positiva e um verdadeiro sentido de valor.  E isso constrói-se momento após momento.

Isto quer dizer que devemos deixar as crianças fazerem tudo o que querem?

O mais possível. Sou uma defensora do sim. Mais do que do não. O sim expande. O não limita. E se queremos educar uma geração melhor, precisamos aprender a expandir com eles.

Verifico que passamos a grande maior parte do tempo a barrar. A travar. A limitar. E tenho observado que o fazemos por medo. Por um caleidoscópio de medos. Normalmente medos que residem dentro de nós e que ainda não libertámos. Ou medos relativamente ao exterior. Medo que caiam. Medo que cheguem atrasados. Medo que fiquem doentes se não comerem a sopa toda. E medos relativamente às expectativas dos outros. Da sociedade. Do mundo.

Todas as crianças precisam de sentir-se amadas. Ouvidas. Vistas. Acarinhadas. Apoiadas.

Quando nós adultos temos dificuldade em gerir, controlar as nossas próprias emoções, abrimos portas e janelas que dificilmente se voltarão a fechar facilmente. Com as palavras que usamos e com o tom que as empregamos. Confundimos facilmente firmeza com agressividade, definição de limites com hostilidade.

Nós próprios precisamos de fazer o único trabalho de casa realmente relevante: trabalhar as nossas próprias emoções. Sarar as nossas próprias feridas. Fazer um trabalho de alma profundo. Ganhar uma nova consciência. Voltar ao coração.

É certo que todos nós precisamos de coisas diferentes, no entanto todos operamos muito melhor num ambiente de apoio, aceitação e compreensão. Especialmente nos nossos momentos mais difíceis. Quando estamos à espera da resposta de um trabalho que nunca mais chega. Quando queremos sair de casa para dar uma voltinha, mas acabamos por ir para a praia com os três baldes, quatro pás, uma mochila cheia de ovos cozidos e hambúrguers em fanicos, um podengo e um basset hound completamente alucinados que mais parecem leões enjaulados quando encontram outros cães.

Todos nós precisamos de coisas diferentes.

É certo. Mas quantos de nós precisamos de sermões, opiniões, conselhos ou o ponto de vista de outros quando estamos a ter um momento menos bom? Quando estamos frustrados, ansiosos ou confusos? Quando somos tratados de uma forma que não merecemos? Quando nos sentimos injustiçados?

É certo que todos precisamos de coisas diferentes. Por exemplo, quando vivíamos em casa dos meus pais, a minha irmã precisava de ter as coisas arrumadas e eu desarrumava tudo. Não era por mal. Simplesmente não sou um ser humano organizado.

Mas todos funcionamos melhor – e nos sentimos melhor –  quando nos sentimos compreendidos, apoiados e aceites.

Por vezes somos mal interpretados por pessoas que não nos conhecem tão bem ou não conseguem compreender o nosso mundo interior. Por exemplo a minha irmã nunca compreendia porque razão arrumava o lavatório da casa de banho e dois dias depois já estava tudo completamente desarrumado. Como a compreendo agora!!!

Posso nunca ter sido um ser humano organizado, mas sempre consegui encontrar-me na minha desorganização. Quer dize, na maioria das vezes. Mas por precisarmos de coisas diferentes ou funcionarmos de formas diferentes, isso significa que estamos errados? Que merecemos menos?

Um dos maiores desafios da vida é saber respeitar os outros como eles são. Mas aprendi que isto talvez aconteça porque também não sabemos ainda bem como respeitar-nos e aceitar-nos a nós próprios, na nossa totalidade. Vivemos ainda num mundo de separação e julgamento.

Todos precisamos de coisas diferentes, mas quando estamos cansados, angustiados, frustrados, aflitos ou zangados precisamos de alguém que nos oiça. Que nos escute activamente. Sem condicionantes. Sem moralismos. Sem cobranças. Alguém que reconheça a nossa dor interior e nos dê a hipótese de falar ou desabafar da maneira que precisamos. Só isso tantas vezes ajuda a que fiquemos menos confusos, menos ansiosos e mais aptos a lidar com os nossos próprios sentimentos e resolver o nosso problema.

O processo não é diferente com as crianças. Sem tirar nem pôr. Para conseguirem aprender a encontrar soluções para lidar com os seus sentimentos, as crianças precisam do nosso apoio, a nossa aceitação e o nosso carinho. Não precisam de castigos, repreensões, lições de moral ou sermões.

É imperativo aprender a linguagem das crianças, como se voltássemos a aprender a ler e a escrever.

Estudar essa linguagem abre-nos caminhos mágicos na arte de educar. Aprender a descodificar cada momento menos bom e saber ler o que está por detrás de cada emoção, de cada explosão. De cada manifestação.

Em todos os momentos, verbal ou não verbalmente, a criança tenta comunicar. Tenho vindo a compreender cada vez mais que para conseguirmos ter uma relação saudável com os nossos filhos, precisamos aprender a compreender como funcionam. Para conseguirmos dar-lhes o que realmente precisam para crescerem de forma saudável. Aprendi que só alterando a forma como olhamos, percebemos e tratamos as crianças é possível criar novas gerações de adultos mental e emocionalmente saudáveis.

“Todos começamos esta viagem, cheios de sonhos, de esperança e de amor. Muito antes do mundo nos ensinar o medo temos momentos puros. Momentos em que os ratos são mais espertos que grufalos, vacas conseguem saltar luas e os gatos vivem em chapéus.” – Eric Christian Olsen

Todos nós nascemos livres. Seres cristalinos. Seres de amor. Puros. Com uma marca própria, uma assinatura única a deixar no mundo.

Depois, o ambiente que nos acolhe, os lugares onde nos movimentamos, as respostas que vamos recebendo às nossas necessidades e as nossas próprias vivências, vão marcando profundamente as fundações da nossa existência e conduzindo a nossa jornada.

O início da nossa viagem como pais não é muito diferente.

Antes de sermos pais, temos uma visão incrivelmente deslumbrante dos pais que vamos ser. Calmos. Pacientes. Controlados. Sábios.

E de repente… BOOM. Somos esmagadoramente abalroados pelo despertador da realidade.

Quando somos pais, é fácil sentirmo-nos arrebatados. Triturados pelo medo. Ofuscados pela rotina. Confusos pela incerteza. Desgastados pelas noites sem dormir. Alérgicos com o chão por aspirar. De cabelos em pé com os brinquedos espalhados. Descompensados pelos Himalaias de roupa suja para lavar.

Porque que é que a roupa não se lava sozinha? Porque é que a minha filha não pára de chorar? Porque é que não come? Porque é que não dorme? Porque é que não se veste sozinha? Mas não estava tudo bem agora mesmo? O que é que se passa?????

Comecei a aperceber-me recentemente que sermos pais é assim como uma longa e surpreendente travessia de mota. E consoante a nossa condução, assim as duas rodas nos vão respondendo. Consoante o estado da mota que conduzimos e as condições do terreno e do tempo, assim a nossa viagem por entre os desertos e os vales, as planícies e as encostas vai exigindo uma adaptação na nossa condução. Pode estar chuva. Pode estar sol. E quando chove, podemos sempre decidir se queremos levar o fato de chuva, se queremos seguir caminho ou se paramos um pouco, à espera que a chuva passe. Ou se avançamos mesmo assim e aproveitamos a ventura.

Apesar da nossa visão antes de sermos pais possa contrastar ofuscantemente com a realidade, no segundo em que escutamos, no momento em que prestamos atenção, em que nos conseguimos sintonizar com o grande esquema das coisas, conseguimos recordar o início da viagem. Sintonizar com a nossa visão. Com o nosso sonho.

E aí estamos prontos para dar um novo passo e reconectarmo-nos com o nosso ponto de partida.

Por vezes, encontramo-nos a navegar uma estrada oleosa, esburacada, cheia de curvas e contracurvas. Em rota descendente com curvas bem apertadas. Umas a seguir às outras. De repente, a gravilha no caminho parece ameaçar a resistência da nossa condução. O óleo da estrada ameaça fazer-nos tombar na próxima volta. Literalmente.

E os sonhos, a esperança e o amor que orientaram a visão inicial da nossa viagem parecem ser colocados à prova. Momento sim, momento sim.

Maya Angelou dizia que quando sabes melhor fazes melhor. Com conhecimento adequado, podemos mesmo tornar-nos pais calmos. Mesmo quando estamos exaustos. Fora de nós. À beira de um ataque de nervos.

Por vezes damos por nós a ouvir a voz – uma ou mais vozes –  tão longe no tempo, mas tão perto agora a ressoar dentro dos nossos ouvidos.

Damos por nós, aniquilados pela pressão, pelo stress, pelos eventos da vida, a fazer exactamente as mesmas coisas que sempre criticámos, a dizer aquilo que sempre detestámos e que jurámos a pés juntos que nunca iríamos fazer.  Ficamos mal. Estamos a dar o nosso melhor com o que temos, mas cá dentro sabemos que podemos fazer melhor. Queremos fazer melhor.

A nossa intenção é a melhor. No entanto, parece que, por mais que queiramos, no momento, não conseguimos fazer de outra forma. E é na fragilidade, na vulnerabilidade, que o nosso piloto automático fica no comando. Apesar dele nos despertar aquilo que sabemos já não se coadunar com aquilo que queremos fazer, acontece. O piloto automático fica no comando. Recorremos ao que conhecemos. Ao nosso próprio padrão interno. Que na grande maioria das vezes é fundado no nosso estado de não- consciência.

Então, procuramos culpados, culpamo-nos a nós próprios. Sentimo-nos incapazes. Um falhanço. Ficamos zangados, frustrados.

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Se há seres que vêm para nos transformar, para expandir a nossa percepção, são as crianças. As crianças como um todo. E cada uma delas. Individualmente.

Se conseguimos entender, se estamos dispostos a aceitar que assim é, isso já é um desfio diferente. No entanto isso não anula esta verdade. As crianças são catalisadores de expansão. Todas elas e cada uma individualmente.

Mas para que possam fazer bem o seu trabalho, precisam de ter ao seu lado adultos conscientes, que os aceitem. Que os respeitem. Que mesmo que não consigam entender na totalidade a forma como se expressam, a forma como sentem ou vivem, consigam nutrir e acompanhar partindo do ponto mais importante. Da raiz fundamental.

Ficamos frustrados quando não conseguimos compreender os nossos filhos.

“Mas eu quero a minha chávena amarela com riscas azuis!”… “Não quero ir à escola hoje. Não vou!”… “Não me lavaste as calças e hoje tenho treino de ginástica, tiro ao alvo e salto à vara!”

Só conseguimos ver o que está à superfície. Então o nosso piloto automático fica no comando. Reagimos. Recorremos àquilo que aprendemos ao longo do nosso próprio crescimento. Às nossas referências.

No entanto, muitos pais – cada vez mais reconhecem que o seu piloto automático não se coaduna com o caminho que querem seguir na educação dos seus filhos.

É o coração a falar mais alto.

Não é por acaso que o coração é o primeiro órgão a formar-se. Já pensou porque razão não é o primeiro nas nossas decisões e escolhas?

A resposta é simples. Não aprendemos. Não sabemos. Crescemos desconectados do nosso coração. Das nossas emoções.

Passamos a vida inteira a sentir: segue o teu coração. Mas no dia-a-dia, atolado de situações e posições desafiantes e pensamos: Sim. Pois. Claro. O coração.

E, claro, depois há a nossa infância – o gigante disfarçado onde vivem todas as raízes de como pensamos e agimos.

Na infância, somos permanentemente bombardeados com frases que nunca esperámos ouvir.

Porque na infância não se vive noutra frequência senão a do coração. Que é a frequência da conexão.

Quem não ouviu frases do tipo: “Usa a cabeça. Tens de usar a cabeça.”… “Quem manda aqui sou eu.”… “Não quero saber se a Agripina se deita às 11 da noite!”

E o coração vai-se desvalorizando. Vai perdendo a força enquanto elemento fundamental na conexão entre as pessoas. De confiança. De valor.

Quando o coração é, não apenas a raiz física – fisiológica –  como também, a raiz emocional. Simbólica. De onde tudo parte.

Crescemos – e daí vivermos – de forma tão desconectada que se torna tarefa quase impossível reconectarmo-nos. Parece impossível mas não é.

No entanto, reconectarmo-nos, de forma a podermos Criar com o Coração, implica refazer ligações – novas ligações – que ficaram danificadas ao longo do nosso próprio crescimento.

Então o que é Criar Com o Coração? Começo pelo que Criar Com o Coração NÃO É. Criar Com O Coração não é uma escolha que se faz uma vez e se abandona.

Criar Com O Coração é libertar-se do controlo. É libertar-se da necessidade de poder. É libertar-se de todos os mitos, preconceitos e percepções que construiu durante o seu próprio crescimento. Das suas próprias experiências de desconexão.

É conectar-se consigo mesmo em primeiro lugar. E amar-se como um ser pleno.

Criar com o Coração é ancorar, depois, na sua forma de educar apenas em práticas e ferramentas que partem de um ponto de amor. De gratidão.

Criar Com O Coração É deitarmo-nos hoje e decidir: sou grato pelas crianças que estão na minha vida. Pode nem sempre ser fácil, mas hoje tenho CORAGEM de escolher MUDAR a maneira como ajo com os meus filhos.

É acordarmos amanhã de manhã e pensarmos que por mais difícil que seja, hoje vou ser corajoso e conseguir gerir as minhas emoções antes de falar/ de agir/ de reagir.

Hoje, em vez de ser a projecção das minhas dores ansiedades ou do meu passado, hoje vou ser quem eu SOU. Hoje vou abrir uma nova página e ser quem eu quero ser.

Quero desde já assegurar que apesar de à primeira vista isto parecer aterrador  ou mesmo até conversa fiada –  garanto-lhe que esta pequena prática vai provocar alterações significativas num processo a que vou chamar reconexão (rewiring em inglês).

Há inúmeros estudos que cobrem esta matéria. O seu cérebro vai fisicamente estabelecer novas conexões e restituir ligações que estavam quebradas.

Criar Com O Coração é um processo, uma caminhada de avanços, recuos e novos avanços. Não é um toque de varinha mágica que elimina desafios, momentos difíceis os medos ou as incertezas.

Não, não vai acordar amanhã e o mundo estar perfeito. Vai continuar a ter momentos em que vai ter vontade de trepar paredes, arrancar os cabelos ou enfiar-se num vaivém espacial e aterrar noutro planeta. E ficar lá até os seus filhos terem trinta e cinco anos.   

Mas a boa notícia é que não temos de ser perfeitos. Temos de ir caminhando. Não gostamos da maneira como agimos com os nossos filhos? Arrependemo-nos constantemente do que dizemos ou fazemos?

Esta é uma forma de o nosso coração nos confirmar que estamos  prontos para mudar. Devemos escutá-lo.

Parece ser demasiado exigente? É na verdade apenas mais consciente. E esta é uma palavra vital na interacção humana. E muito em especial na formação de crianças mentalmente saudáveis.

Não vamos acordar amanhã e estar diferentes. Não. Espere. Isso provavelmente vai acontecer. É um dos efeitos de expandir a nossa percepção e de absorver novo conhecimento.

Sei que cada adulto que implemente esta prática verá melhorias não apenas na comunicação com as crianças, nas suas manifestações verbais e não verbais, mas também melhorias na sua própria vida.

Ao ampliar a sua percepção, o seu cérebro vai fazer novas conexões.

A mente que se abre a uma nova ideia jamais regressa ao seu tamanho original.  Jamais. Já dizia Einstein.

 

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Hábitos dos pais positivos

 

 

Visualize a sua casa. Estável. Estruturada. Direita. Mas ao mesmo tempo flexível, resistente e segura.

Segura de si. Segura para si.

Visualize o telhado. Consegue vê-lo? As paredes exteriores, as janelas, as portas em todos os seus detalhes. Quer seja mais antiga ou mais recente, convive harmoniosamente com a restante paisagem à sua volta. Quer tenha varandas, terraço ou apenas uma janela pequena por onde a luz pode espreitar, a sua casa e sólida. Não cai. É robusta. Não desmorona. Mesmo que surjam fissuras, ela não cai.

As paredes foram erguidas tijolo após tijolo com o suor precioso de alguém que deu o seu tempo e a sua dedicação a cada momento, a cada detalhe. Alguém que deu o seu melhor para que um dia essa fosse a sua casa. O seu lar.

Visualize agora o interior. Percorra cada divisão e aprecie como em tempos houve mãos de homens e mulheres a trabalhar arduamente para que a sua casa se fizesse. Pessoas. Como cada um de nós. Pessoas com famílias. Homens e mulheres com sentimentos, emoções, fragilidades.

Agora suba até ao telhado. O telhado foi colocado telha após telha, com vagar, arte e perícia, seguindo a técnica com que cada material precisa de ser manuseado. A madeira não se trabalha da mesma forma que o ferroou que a telha. O cimento é assentado à mão e delicadamente alisado para que as paredes consigam ficar direitas. Cada material necessita de uma manuseamento próprio para conseguir ser trabalhado.

Vários materiais podem ser aplicados simultaneamente, mas raramente com atropelos.

O telhado foi aplicado apenas após as paredes exteriores – e interiores – estarem construídas. Nunca antes. Nunca ao mesmo tempo. E caso acontecesse, os construtores teriam de voltar atrás, redefinir estratégias, gerir equipas e voltar ao processo correcto para dar estabilidade à construção. Mas SEMPRE respeitando os materiais. O que os materiais precisam. Utilizando cada uma das ferramentas que o material precisa.

Agora, ousemos ir um pouco mais profundamente. Visitemos aquele lugar que os nossos olhos não alcançam Aquele lugar que está lá e que tão raramente nos lembramos que existe. No entanto ele esta lá. Ele foi o início.

A origem a partir da qual tudo se ergueu.

Está lá de uma forma tão presente que sem ela seria impossível a nossa casa, segura e estável, se aguentar por um milésimo de segundo.

A nossa casa só se ergue durante anos, décadas ou gerações quando as suas fundações são estáveis o suficiente para lhe dar estrutura, mas flexíveis o suficiente para – em caso de um abanão forte – ela permanecer erguida.

Foi graças ao respeito pelos materiais que os construtores conseguiram edificar as nossas casas, começando por uma dedicação atenta às fundações.

Aquilo que os nossos olhos nunca vêem mas que sem elas, nenhuma casa resistiria.

E nós somos como as casas que vivemos.

A nossa infância são as nossas fundações, o lugar onde aprendemos o que partilharemos com o mundo, o que partilhamos com os nossos filhos, onde aprendemos a amar ou a castigar, a tolerar ou a julgar, a agredir ou a integrar.

Se os construtores usarem nas fundações material deteriorado, se optarem por não respeitar os materiais e insistirem em trabalhar o aço da mesma forma que trabalham a madeira, se usarem instrumentos que não funcionam para que a casa se erga de forma flexível, mas estruturada, dificilmente a casa resistirá sem colapsar. Eventualmente.

Sem fundações emocionais assentes no respeito, no amor, na tolerância – especialmente por aquilo que não conhecemos ou não entendemos – dificilmente a casa que somos se erguerá de forma saudável, preparada, sustentada para receber quem podemos tornar-nos.

A infância é onde as emoções se formam. Como pais, é da nossa responsabilidade –  tal como é da responsabilidade dos construtores das nossas casas construir as fundações das nossas casas –  formar as emoções dos nossos filhos, educá-los com compreensão, respeito e amor – em vez de reprimendas, etiquetas, críticas, castigos ou imposição de poder – dando-lhes as ferramentas que precisam para que se sintam valorizados e apoiados em todos os momentos. Desde bebés.

Se formarmos as emoções dos nossos filhos da mesma forma que os alimentamos ou vestimos, tendo como base a beleza, os sonhos, o amor, a compreensão, a integração – trabalhando ao mesmo tempo as nossas próprias emoções, as nossas próprias crenças e valores – serão casas felizes, emocionalmente bem estruturadas, acolhedoras e tolerantes.

E ao olharmos para eles daqui a uns anos, do interior da nossa própria casa – ou do nosso telhado – para a casa que eles também serão, ao vê-los serem eles também pais de pequenas fundações que se erguerão noutras casas e noutras e noutras, teremos a certeza de que cumprimos o nosso propósito. A nossa missão. E que lhes deixamos um legado de amor e de bondade.

Aquele legado que sonhámos deixar a primeira vez que imaginámos sermos pais.  E do qual o mundo precisa. E o mundo começa em nós

Hábitos dos pais positivos

Felizmente, é cada vez maior o número de pais que procuram soluções mais positivas para a educação dos seus filhos. Felizmente cada vez mais são os pais que procuram soluções mais naturais, conscientes, pacificas  – enfim, mais humanitárias – quando se trata de lidar com os seus filhos. Pais que procuram ser mais justos, mais motivadores.

Pais que querem deixar um legado positivo na vida dos seus filhos.

Numa sociedade que não olha para as crianças como iguais, ainda há um longo percurso a fazer. Um percurso diário, um trabalho interior intenso de gestão emocional. E isso não se aprende na escola. Não seria maravilhoso Gestão de Emoções ser uma disciplina de base desde o ensino pré-escolar? E uma cadeira obrigatória em todas as Universidades? Que pais tão diferentes seríamos.

A infância é a base de tudo na nossa vida. Se optarmos por educar os nossos filhos através de estímulos negativos, essa é a forma como o seu cérebro se vai desenvolver. A forma como nos expressamos, como nos dirigimos aos nossos filhos, o que lhes dizemos, torna-se não apenas o seu diálogo interior, mas a forma como se vêm a si próprios, os outros e o mundo. Colheremos – e eles mais do que nós – aquilo que semearmos. Se optarmos por ajuda-los a crescer de forma positiva, motivando-os e encorajando-os, tornar-se-ão jovens e adultos com uma estrutura emocional forte, levando consigo esse legado ao longo da sua jornada.

Para sermos pais positivos, precisamos de acreditar nos nossos filhos e trata-los como iguais. Escutá-los e deixá-los ter uma voz nas decisões grandes e pequenas, assuntos grandes e pequenos. Desde que as crianças são muito, muito pequenas. Observar mais do que intervir, guiar mais do que mandar.

Para sermos pais positivos, precisamos de compreender que cada criança é um individuo independente de nós. Cada um com a sua personalidade e a sua forma de contribuir positivamente para o ambiente. Não comparar o que não é comparável. Somos todos únicos. Para sermos pais positivos precisamos de aprender a ensinar através do exemplo, olhando para os nossos filhos como parte da equipa.

Para sermos pais positivos, precisamos redefinir o conceito de amizade, estando lá nós mesmos – prontos para ajudar, escutar sem julgar – nos momentos mais difíceis. Desde a primeira infância. Para sermos pais positivos precisamos aceitar os nossos filhos por aquilo que são- não tentando moldá-los ou mudá-los para como gostaríamos que fossem. Para sermos pais positivos, precisamos de usar o diálogo como catalisador para ampliar emoções e a inteligência dos nossos filhos. Para sermos pais positivos, precisamos de redefinir as nossas prioridades, de compreender que  as crianças precisam de mais do nosso tempo, mais da nossa tolerância, mais do nosso respeito, mais da nossa calma, menos da nossa aprovação. Os nossos filhos precisam de nós, como pilares, como guias, como seus parceiros na aventura da vida. As crianças precisam de nós como seus melhores amigos e apoiantes incondicionais.

Para sermos pais positivos, precisamos de curar os nossos corações, libertar nossas almas e desobstruir o nosso espírito das nossas próprias dores. Precisamos de resolver os nossos próprios problemas, medos, ansiedades e frustrações, a fim de proporcionar às crianças o valor de calma, respeito, compreensão e segurança que eles merecem e precisam.

Para sermos pais positivos, precisamos de deixar de tomar os nossos filhos como garantidos. Eles são as pessoas por conta própria. Com desejos, paixões e necessidades. Não importa a idade da criança, todas as crianças têm coisas para ensinar-nos.

Para sermos pais positivos, precisamos de aprender a escutar todas as perguntas que os nossos filhos nos fazem. Todas as perguntas são válidas. E são muito válidas para quem as faz. E todos as crianças têm direito – tal como nós – a questionar. A nunca deixar de questionar. Somos pais mais ricos quando permitimos que os nossos corações e as nossas vidas sejam tocadas e enriquecidas pela sabedoria das crianças.

Para sermos mais positivos, precisamos de aprender a pedir desculpa. Pedir desculpa é um dos actos de ouro da parentalidade positiva. Pedir desculpa é um dos atributos mais significativos dos pais positivos. Sermos corajosos o suficiente para reconhecer as nossas próprias falhas e aceitar que também cometemos erros. Os pais ricos são gratos pelos seus filhos.

Sermos grato é um dos maiores segredos dos pais positivos. Sermos gratos pelos nossos filhos estarem na nossa vida. Quando estamos gratos, afastamo-nos de todos os sentimentos de controlo. Quando praticamos a gratidão abrimo-nos à nossa voz interior, a voz que nos conecta com nosso eu, onde os nossos pensamentos são invadidos pelo nosso propósito enquanto pais, entregando os nossos corações e oferecendo a nossa vidas para o propósito de servir.

Para sermos pais positivos nunca podemos desistir dos nossos filhos, especialmente nos momentos mais difíceis. Mesmo que nos sintamos desiludidos. Precisamos de acreditar no potencial infinito da espécie humana. Nunca podemos desistir dos nossos filhos. Independentemente dos problemas, das condições, dos desafios. E nunca podemos desistir de nós mesmos enquanto pais. Apesar dos problemas, as situações. Apesar dos desafios. Todo o sucesso depende da persistência, da flexibilidade, da abertura para aprender.

E também de sabermos que se semearmos amor, harmonia e felicidade no coração dos nossos filhos, a semente brotará amor, harmonia e em felicidade.

Por não conseguirmos vê-la, não significa que não esteja lá.

 

Não há crianças desafiadoras

Tem filhos que o contrapõem?

Que estão sempre a discordar consigo? Crianças que contrapõem o que lhe diz? Crianças persistentes, determinadas, que gostam de levar a sua sempre avante? Crianças que parecem ficar coladas ao chão quando lhe mandam fazer uma coisa? Que não fazem o que lhes diz nos momentos em que lhes diz?

Então parabéns. Tem consigo pessoas saudáveis, extremamente inteligentes, com grandes capacidades de liderança, com opiniões fortes, determinadas, fortes de caracter, persistentes, que – se bem direccionados – terão muito para dar ao mundo.

No entanto, estas ainda são características que fazem pais, educadores e outros especialistas catalogarem as crianças de desafiadoras. Elas respondem, manifestam-se através de expressões faciais, corporais e vocais o seu descontentamento sobre opiniões nossas ou sobre a forma como nos exprimimos. Elas revoltam-se, dizem não, perguntam porquê a toda a hora  e debatem tudo aquilo que lhes dizemos.

Estas são crianças que precisam de perceber a logica de TODAS as coisas, que – se os encorajarmos e lhes dermos asas – compreenderemos que pensam pela sua própria cabeça desde muito cedo, e, se lhes dermos abertura, demonstrarão os seus talentos a conhecer e explorá-los-ão.  Podem ser pessoas pequenas, no entanto, se as observarmos atentamente, elas ensinam-nos TUDO sobre como se devemos agir e interagir com os outros, especialmente com aqueles que pensam e agem de forma diferente da nossa.

São crianças que precisam de muita conexão, compreensão, respeito e aceitação.

Nem sempre conseguem manifestar da forma mais harmoniosa a sua opinião e precisam que lhes ensinemos calmamente e com muita calma. Não são crianças que precisam de ser quebradas. São crianças que, tal como todos nós, precisam de ter – e de sentir –  liberdade para se manifestar. São crianças com convicções, ideias e visões fortes que precisam de ser amparadas de forma gentil, tendo o respeito e a compreensão como linhas mestras ao longo de todo o seu percurso.

Muitas destas crianças, são crianças altamente criativas, enérgicas, com ideais, convicções e gostos muito definidos. Se parar para observar, com certeza vai questionar-se se serão desafiadores ou se estarão a tentar ser ouvidos, escutados, valorizados.

Podemos escolher acolher os nossos filhos tal como são, e deixá-los guiar o caminho, ajustando à sua forma de ser  ou podemos escolher quebrar o seu espírito, travá-los, reduzindo-os a etiquetas ou a categorias redutoras.

Não há crianças desafiadoras.

Tal como tantos outros, esse é um mito criado por uma sociedade de adultos que não compreende o universo infantil na sua essência, uma sociedade feita de adultos para adultos, em que a sede do poder e de ter razão se sobrepõe à partilha do amor, da paz.

Uma sociedade que educa para o TER e não para o SER, que precisa de catalogar para hierarquizar, que avalia a qualidade de um ser humano pelos seus erros em vez de glorificar os seus talentos e o seu valor inato, reduzindo as mais belas características do ser, em vez de elevá-las glorificar e valorizar aquilo que cada um tem de melhor.

Podemos tentar que os nossos filhos sejam aquilo que não são. Ou que sejam aquilo que queremos que sejam. Mas isso é uma ilusão. Os nossos filhos serão aquilo que tiverem de ser. Deixarão a marca no mundo que nasceram para deixar. E é desde a infância que muito deste propósito de cada um de nós se manifesta.

Podemos fazer diferente ou podemos escolher fazer o que os outros fazem, mesmo quando o nosso coração não concorda.

Podemos conduzir os nossos filhos numa direcção oposta àquela que trazem para dar a si próprios e de si próprios, a nós, ao mundo. A escolha é nossa. Podemos catalogá-los ou tentar entendê-los. Escutá-los. Ensiná-los formas gentis de discordar connosco. Porque têm esse direito. Como pais não somos seres omnipotentes. Por mais que muitas vezes achemos que somos. Porque fomos educados assim. Porque os outros nos dizem que é assim.

Não há crianças desafiadoras. Este é um dos grandes mitos acerca das crianças que tem vindo a prejudicar seriamente a forma como ainda educamos os nossos filhos.

Não há crianças desafiadoras.

Se discordarmos vivamente com a opinião de alguém, seremos desafiadores nós próprios? Ou estaremos apenas a querer manifestar a nossa opinião discordante? Imaginemos que alguém nos diz alguma coisa com a qual não concordamos de maneira nenhuma. Uma coisa que nos choca, magoa ou mexe com as nossas convicções. Seremos desafiadores se respondermos? Sabemos sempre responder da forma mais correcta?

Como pais, na maioria das vezes em auto piloto, não conseguimos olhar para o Grande Cenário das coisas. Da vida. Se olharmos para os nossos filhos com outros olhos, é muito interessante –é uma bênção! – viver com crianças com convicções fortes. Por vezes é um desafio. Mas isso não faz delas crianças desafiadoras. Talvez nos revejamos também um pouco nelas quando assim se manifestam e seja para nós difícil gerir as nossas próprias emoções. Será mais isso? Ou será porque aprendemos que os adultos têm voz superior à das crianças?

Por que razão achamos que uma criança com estas características é desafiadora?

Será porque realmente o sentimos ou porque há estímulos exteriores a dizer que é assim? Seremos desafiadores por gostarmos das coisas de uma certa maneira e não de outra? O que nos leva a achar que alguém é desafiador porque questiona ou discorda?

Porque será que de cada vez que uma criança responde ao adulto, expressando uma opinião forte discordante da nossa, aprontamo-nos a afirmar e a cataloga-la como desafiante? Crianças impacientes, que debatem ou se recusam a obedecer são pessoas que precisam de autonomia e espaço de manobra para se manifestarem.

Precisam de amor, compreensão e que os guiemos de forma gentil. Se assim o fizermos, tornar-se-ão adolescentes e adultos saudáveis, responsáveis e com um sentido de justiça fortíssimo.

Crianças com estas características estão nas nossas vidas para nos ensinar a agir de outra forma, a pensar de outra forma. São crianças que vêm instaurar um novo paradigma de educação, se estivermos dispostos a dar-lhes oportunidade de se exteriorizarem.

Estas crianças vêm ensinar-nos que as crianças sabem mais do que aquilo pelo qual lhes damos crédito. Vêm romper padrões, mitos, conceitos pré-estabelecidos.

Na sociedade moderna, a crianças ainda são vistas como seres menores. Elas têm de ser perfeitas. Fazerem o que lhes dizem, não têm quereres, têm de gostar daquilo que lhes dizemos que têm de gostar. Têm de ter boas notas, fazerem tudo o que esperamos delas. Têm de estar prontas no segundo em que as mandamos estar. Não podem falar alto com os pais, ou então são mal-educadas, nem podem responder, senão são desafiadoras. As crianças têm de gostar do que lhes damos para comer, tem de estar caladas porque nós queremos falar.

Mas serão máquinas operadas por comando? Carregamos no botão e elas fazem? Ou são pessoas? Terem os seus próprios gostos? Poderem exprimir-se quando querem e precisam?

Esquecemos que as crianças precisam de falar alto, precisam de revelar os seus gostos, as suas vontades e expor a sua opinião. São pessoas, por que razões não hão-de poder faze-lo? Admitamos que talvez seja porque não nos convém. De que forma vão aprender a pensar por si próprias, saber fazer escolhas, caso não possam exprimir aquilo que é tão natural ao ser humano? As crianças têm direito a cometer erros. Todos os dias. Tal como cada um de nós.

Todos erramos todos os dias, várias vezes por dia. Por que razão exigimos dos nossos filhos que eles sejam perfeitos?

Porque é que exigimos dos nossos filhos aquilo que nos próprios não conseguimos dar, fazer?

Todos somos seres vulneráveis, sensíveis. Todos com direito a ser quem somos. E as crianças também. Cada um a sua maneira, da melhor forma que sabe e pode.

Não há crianças desafiadoras. Há seres, com ideias inovadoras, sonhos próprios e agendas exclusivas que apenas querem expressar a sua voz no mundo.

 

imagem@Thinkstock

Porque exigimos tanto dos nossos filhos?

Como pais não temos de ser infalíveis. Mas temos a responsabilidade de sermos melhores pessoas a cada dia. Queremos um mundo mais justo, queremos mais amor, mais respeito, mais harmonia, mas será que estamos dispostos a dar tudo isto?

Nós próprios precisamos de fazer o nosso trabalho de casa. Precisamos de aprender a deixar de educar em auto piloto. Ter filhos não e apenas tê-los. É um compromisso para a vida. É como gerir pessoas numa empresa. Temos de ser bons líderes e não patrões. Todos sabemos a diferença entre um patrão e um líder. E todos sabemos, também qual deles preferimos ter.

Uma das grandes diferenças entre um patrão e um líder e que o patrão manda, o líder convida e envolve. O líder sabe que é parte integrante nas responsabilidades. Para dar o exemplo inclui-se nelas, concentra-se em soluções, não nos erros. Aceita os erros como fazendo parte do processo, mas poucas ou raras vezes o refere. Aceitar erros, motivar, ensinar sem bloquear, guiar sem envergonhar. Respeitar a natureza de cada um e trazer ao de cima os seus talentos, valorizando aquilo que consegue fazer. Um líder olha para o Cenário Geral.

Se tivermos optar por ser patrões ou lideres dos nossos filhos, optemos por ser líderes. Ser um bom líder pode ter os seus momentos desafiantes, especialmente quando ainda existem tantos mitos que influenciam a forma como educamos os nossos filhos. Mitos que tem despertado, ao longo de gerações, sentimentos enganadores que vão corroendo e afectando dramaticamente as fundações da casa que somos cada um de nós.

Curioso pensar que quando são bebés, damos aos nossos filhos tudo o que querem. Preocupamo-nos com tudo o que precisam e tentamos ao máximo dar-lhes. Se querem mamar, damos de mamar, se choram porque querem colo, damos colo. Porque será que a partir do momento que se começam a manifestar – se mais activamente – quando começam a andar, a falar, a querer – achamos que é hora de imediatamente balizar, ser rigorosos, não deixar, mandar, proibir, e até punir?

As crianças, como qualquer um de nós, querem apenas ser quem são. E querem ser respeitados nas suas necessidades, ideias e vontades. Porque insistimos em achar que elas querem mais do que apenas ser elas próprias? Porque exigimos tanto dos nossos filhos?

Estamos nós dispostos a dar-lhes a elas – a nós próprios e ao mundo – o que exigimos?

Os nossos filhos precisam de melhores liderem. Não de patrões. Preocupamo-nos tanto que saibam cumprir regras, em obedecer, em ficar quietos, calados quando um adulto fala, que nos esquecemos de ser flexíveis. Assim como gostamos que sejam connosco.   Temos medo. E o medo apodera-se de nós. Temos medo que não sejam autónomos se dormirem connosco, temos medo que não saibam comer sozinhos se lhes fizermos um miminho dando a comida na boca quando estão mais cansados. Temos medo que fiquem doentes, temos medo que não saibam controlar, temos medo que não tenham boas notas. Temos medo. E o medo rege todo o nosso percurso.

Os nossos filhos precisam que brinquemos com eles ao que eles gostam de brincar. Não àquilo que nos faltou brincar na nossa infância. Precisam que aceitemos todos os sentimentos que têm, mesmo que não saibamos lidar com eles. Temos de aprender.

Bons lideres confiam e dão ferramentas para que os colaboradores tragam ao de cima o melhor de si. Os bons lideres escutam e valorizam as opiniões e ideias dos outros – SEMPRE – e não apenas quando lhes convém, em vez de imporem as suas próprias ideias.

Bons lideres reinventam o tempo, mesmo que para isso tenham de abdicar dos seus próprios interesses, preocupações ou assuntos. Bons lideres são flexíveis e compreendem que as emoções e a motivação estão na base de toda a produtividade.

Os nossos filhos não precisam de pais infalíveis, mas precisam – e pedem-no permanentemente – de pais compreensivos, respeitadores, motivadores e que os seus sentimentos sejam considerados, ouvidos e aceites. Pais que os aceitem como eles são. Não pais que os queiram mudar e adaptar àquilo que eles não chegaram a ser.

Reformatar o nosso chip parental e um processo. E é um processo que está ao alcance de todos que queiram nele embarcar. E um processo de avanços e recuos progressivos que apenas dependem das nossas escolhas diárias. Que despendem de nós.

Se esperamos que as coisas mudem a nossa volta sem que nós próprios mudemos os nossos hábitos, as nossas ideias, os nossos pensamentos e os nossos sentimentos, os nossos comportamentos, isso será improvável.

Se não nos transformarmos por dentro, nada se transformará à nossa volta.

A infância é a fundação da casa que somos. Se formos rígidos, educaremos pessoas rígidas e inflexíveis. Se educarmos para a tolerância e para a integração, promoveremos pessoas tolerantes, cooperantes e com vontade de ajudar.

Basta olharmos para dentro, para o nosso espelho interior para compreendermos  isto.

imagem@huffingtonpost

 

Imagine que podia começar tudo de novo. Tudo. Hoje. Agora.

Imagine que arrancava de cima de si, de dentro de si, toda a informação que tem sobre as crianças. Que apagava da sua mente tudo o que leu até hoje e por onde se guiou para educar os seus filhos. Imagine que se libertava da opinião da sua mãe, da sua sogra, das suas amigas, dos seus amigos. Que se libertava dos seus próprios conceitos. Das suas próprias ideias. Imagine que se libertava de todos os ” é suposto” na sua e da sua vida.

Imagine que se libertava da sua própria infância, dos seus traumas. Dos seus medos. Dos seus piores pesadelos. Imagine ainda que se libertava dos seus problemas, das suas dores, das suas frustrações.

Imagine que se libertava do tempo que precisa para lavar a loiça, para engomar a roupa, para tratar do almoço, para tratar do jantar, do lanche, do periquito, do cão, do gato. Imagine que se libertava da ideia que tem de vestir o seu filho assim ou a sua filha assado.

Imagine que voltava ao dia em que sonhou em ter filhos. Como iria criá-los? O que iria fazer? Como iria agir?

Imagine que se libertava de todos os conceitos, pré-conceitos e mitos e que começava tudo de novo. Imagine que se libertava de todos os rótulos, categorias, prateleiras, julgamentos, discriminações, ideias preconcebidas acerca das crianças.

Imagine que se libertava de tudo isto e que se limitava a observar como as crianças interagem. Que se limitava a escutar com todo o seu ser tudo o que as crianças dizem. A sentir com toda a sua alma as reacções físicas e emocionais dos seus filhos. Que se limitava a abraçar quando os seus filhos choram, acolhendo-os no seu colo, em silêncio. A apoiar em vez de criticar ou deteriorar, mesmo que não concorde com as suas visões, opiniões ou escolhas.

Imagine que era mais companheiro do que pai ou mãe.

Imagine.

Seria maravilhoso, verdade?

Imagine que se libertava de todos os gadgets. Que se libertava de todos os compromissos. Que se libertava de todos os seus interesses próprios. Que se libertava agora da revista que está a ler. Que largava já este artigo para se atirar para cima dos seus filhos e rebolar com eles no chão só para os fazer rir.

Imagine como seria. Consegue imaginar?

Se o pode imaginar, então pode fazê-lo. Hoje. Agora. Já.

Do que é que está à espera?

 

Que todos os seus sonhos se concretizem.