O que aprendi com as crianças

Com as crianças aprendi que um ataque de cócegas salva o mundo.

Que um escorrega pode ser uma prancha num navio pirata, uma construção de areia uma cidade imaginária.

Com as crianças aprendi que temos tantas certezas porque muitas vezes deixámos de fazer perguntas.

Que o amor é a coisa mais pura do mundo e faz tanta falta…

Que uma palavra fere, mas também tem o poder de transmitir confiança.

Que um incentivo é tudo o que precisamos para acreditarmos em nós.

Que saltar em cima da cama é bom, que andar descalço na relva é maravilhoso, que fazer competições de “golfinhos” na praia é incrível.

A importância de brincar.

Que não é preciso muito para nos divertirmos, que com uma colher de pau e uma panela se faz música, que podemos fazer render um livro durante meses, por mais que na altura nos tenha custado gastar aquele dinheiro, talvez mais útil para outras coisas.

Com as crianças aprendi que só percebemos as diferenças quando alguém nos vem apontá-las, até lá somos apenas pessoas, iguais, irmãos.

Que o que é básico para uns é um luxo para outros.

Que o tempo é precioso e nem sempre sabemos usá-lo da melhor maneira.

Que encarnando super heróis somos capazes de tudo (e às vezes bastava pensarmos em nós como a Mulher Maravilha para aquela tarefa complicada parecer mais simples).

Que sujar é bom, e já me tinha esquecido.

Qual a sensação de saltar nas poças.

Que bons amigos nunca são demais e que o nosso primeiro instinto raramente nos engana.

Que cantar tem outro encanto, dançar outra dinâmica, sorrir outro valor.

Como é bom fazer bolas de sabão e tentar apanhá-las.

Com as crianças aprendi a importância de ser visto, reconhecido. A importância de ouvir e valorizar.

Como é importante estar verdadeiramente.

Que os telemóveis distraem e nos roubam momentos que não voltam mais.

Que o que dizemos importa e deve ser pensado.

Que a forma como vemos o mundo pode determinar a forma como elas o vão receber na sua vida.

Com as crianças aprendi o peso de saber pedir desculpas.

Que os bens materiais não interessam para nada, mas que algum dinheiro ajuda a levar os dias mais confortavelmente. Algum dinheiro, não uma fortuna, porque a riqueza verdadeira dos nossos dias está na forma como os vivemos. E não há fortuna nenhuma que nos salvaguarde isso.

Que a culpa que sentimos enquanto pais muitas vezes não é apontada pelos filhos.

Que os nossos filhos nos vêem com óculos de amor sempre postos e perdoam a maior parte dos nossos defeitos.

Com as crianças aprendi a importância de se ser criança.

De deixar os nossos filhos serem crianças sem lhe pormos constantemente o peso do amanhã nas costas, nem mil actividades, nem o stress que é e deve ser só nosso.

Aprendi a importância de esquecer o que não importa. De passar menos tempo preocupada com a casa e mais tempo a saber viver nela.

Com as crianças aprendi como é essencial não deixarmos morrer a que vive dentro de nós.

E fazermos perguntas ousadas.

Sem medo das respostas.

Sermos gentis. Abraçarmos mais.

Ligarmos menos ao que pensam de nós.

Sermos tão bons quanto fomos um dia, antes de o facto de sermos adultos nos ter distraído.

Com as crianças aprendi que não é preciso muito para ser feliz.

E é esse trabalho diário que pratico.

Olhar em volta e reter o que nos faz bem, deixar para lá o que não nos acrescenta nada.

Que nunca nos esqueçamos que os nossos filhos são (ou foram) crianças e nunca deixemos esmorecer a que ainda temos dentro de nós!

Temos de pesar o que dizemos aos nossos filhos

Os nossos filhos são verdadeiras esponjas.

Crescem a cada segundo, surpreendendo-nos com as mais fascinantes tiradas, com declarações súbitas que nos demonstram que, apesar de nós, eles existem. Eles existem e bebem de tudo o que está ao seu redor, seja em forma de vivências, seja em forma de diálogo.

É por esta razão que importa cada vez mais não esquecer que tudo o que dizemos fica registado. Pode não ser transmitido de imediato, mas fica lá. Todos os comentários que fazemos à sua frente, a forma como verbalizamos as emoções, as críticas que fazemos aos outros e a nós próprios.

Há uns dias, a minha filha veio dizer-me “Sabes, mãe. A X diz que a comida que comemos vai para as pernas”. Inocente à partida, a declaração. Mas não é.

A minha leitura, depois de alguns segundos, foi a de: foi dito a esta criança que tudo o que ela come vai para o seu corpo. Mas em vez de lhe ter sido passada esta mensagem de uma forma positiva, do género todos os nutrientes, toda a comida que ingerimos vai trazer alguma coisa ao nosso organismo, é importante comer laranja ou manga por causa da vitamina C, o que lhe foi dito foi aquilo que muitas de nós ouvimos a crescer e que algumas de nós perpetuámos já em adultas; “um segundo na boca, uma eternidade nas coxas”.

Enquanto adulta eu tenho a capacidade de perceber, analisar e tirar conclusões sobre esta simples frase. Sim, aquela segunda taça de gelado provavelmente vai fazer menos bem do que deveria, e seria mais sensato parar na primeira.

Mas a uma criança está a passar todo um peso.

Um sentimento de culpa associado a algo que deveria, em primeiro lugar, ser visto como algo positivo: comer.

Educo a minha filha para ser consciente em relação à comida e ela diz muitas vezes “aquilo faz mal porque é só açúcar e não ficamos sem fome, nem tem vitaminas”. Pode ser informação a mais, mas ela apreendeu-a de acordo com a educação alimentar que recebe. E a sua conclusão tem a ver com saúde, não tem a ver com as alterações que eventualmente teria no seu corpo. Nunca ouviu nem ouvirá algo como “se comes doces vais ficar gorda”. E acho que é disto que se trata quando a tal colega lhe falou da comida ir para as pernas. Subjacente à mensagem estava lá um “vê lá o que comes se não queres ficar com pernas gordas”.

É mesmo isto que queremos passar às nossas filhas de cinco anos?

Basta da ditadura da beleza, da pressão da sociedade… Se educarmos os nossos filhos a serem gentis com eles próprios (também pela forma como encaram a comida  e a compreendem) e com os outros, certamente haverá uma geração menos focada nas diferenças e mais engajada no que realmente importa.

Dias depois desta conversa, a minha filha disse-me: “A X diz que eu sou gorda”.

Mais uma vez o peso da palavra, usada para ferir, para magoar. E a minha filha não é gorda. Tem barriga de bebé mas é toda ela músculos e agilidade, força e destreza. E mesmo que assim não fosse, custa-me que a palavra usada pela amiga tenha sido “gorda”. Como acusação.

Fiz o que senti que deveria. Desconstruí.

Tu não és gorda, Mariana. E se fosses não era nada simpático dizer-te isso para te deixar triste. Tens tantas coisas que ela podia ter apontado, mesmo que estivesse triste contigo. Coisas que tu podes melhorar. Como “às vezes falas alto comigo e eu não gosto” ou “fico triste quando não tens cuidado a brincar com os brinquedos que trago de casa”. O que lhe respondeste?”. E ela foi sucinta: “Que não era gorda. E fui brincar”.

Isto acontece porque a Mariana tem uma autoestima que lhe permite passar por cima do problema. Não a atingiu o comentário porque para ela não é relevante. Mas e se fosse? Veio de uma das pessoas de que ela mais gosta e podia deixar marcas. Aprofundar inseguranças.

Fiquei triste. Pensei que a mãe da outra menina podia melhorar a forma como comunica as suas ideias. Os seus preconceitos. Porque infelizmente a imagino a comentar o peso ou o excesso dele relativamente às outras pessoas como sendo algo do género ”não queremos ser aquela pessoa…”.

Os outros podem não ser bons connosco

Uma das autoras que mais gosto de ler (e que não escreve sobre parentalidade) fala muito da relação que tem com a filha de 12 anos e da sua vivência com as outras raparigas na escola. De como fortaleceu a confiança dela mostrando-lhe que os outros, por mais que façamos, podem não ser bons connosco. E que tantas vezes a culpa não é nossa. Não há nada que possamos fazer, simplesmente nem toda a gente vai gostar de nós. E relatava uma situação em que a bully da escola dizia à filha que a roupa dela era horrenda (para que fique registado era pura maldade, a miúda é incrível e veste-se de uma maneira original, isso sim, mas que por vezes acredito que suscite aquela inveja tola dos 13/15 anos…). A resposta da filha foi “Já eu gosto muito da tua. Acho que te fica super bem”. Para mim foi uma chapada. Achei aquilo maravilhoso. Interiorizei, acho que foi a maneira mais bonita de lidar com a situação e a mãe não estava por perto. Ela tinha aprendido aquilo com a mãe, sim, e com a forma como a mãe a ensinou a lidar com os outros.

Nem sempre é ou será fácil, mas cabe-nos a nós não criar este sistema de críticas.

Eu sei que os alunos de aparelho, de óculos, os mais gordinhos ou magrinhas, altos, com maminhas, ou falta delas, os marrões, etc sempre foram alvos. E talvez nunca deixem de ser. Mas quero acreditar que podemos mudar pelo menos o número de miúdos que vão ter dedos apontados na sua direcção.

Somos todos tão diferentes por dentro, por que razão deveríamos ser todos iguais por fora?

A diversidade é importante.

A gentileza salva vidas.

Acreditem.

Há demasiadas crianças a sofrerem depressões à conta da maldade alheia.

Há crianças que decidem acabar com a própria vida.

Quando os nossos filhos apontarem as características dos outros, tentemos que se foquem em características que realmente importam. Sem lhes tirar a oportunidade de questionar, é certo, mas abrindo a sua mente.

Por exemplo “aquela senhora tem o cabelo verde”.

Em vez de dizermos “que horror!”, poderíamos perguntar, “o que é que achas disso?” E enaltecer a coragem que é preciso para andar com um cabelo diferente na rua sem ter receio do que os outros pensam.

É um trabalho em construção.

Mas quando a minha filha ouvir que é gorda ou algum impropério do género, quero que quando já não tiver a capacidade de sacudir o pó dos ombros seja capaz de dizer  “e se for? Por que é que me estás a dizer isso?” Ou “em que é que isso muda a nossa relação?”.

Até lá continuarei a dizer-lhe aquilo que quero que nunca esqueça: é importante é ser bonito por dentro.

E essa beleza ainda falta a demasiadas pessoas…

Conta Comigo | De Marta Coelho | Ilustrações Ana Rita Malveiro | Editora Máquina de voar | Uma parceria Up To Kids

 

Conta comigo é um dos primeiros dois álbuns ilustrados que nascem de uma parceria da Up To Kids com a editora Máquina de voar Editora.

 

SINOPSE

O que há de comum a todos os pais do mundo? A vontade de proteger, o desejo de estar perto, a presença de um amor eterno e inabalável. Todas as promessas que são ditas em voz alta e as que os pais sussurram ao ouvido são, no fundo, Conta Comigo.

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Marta Coelho e aRita

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Não tenhas medo | De Marta Coelho | Ilustrações Ana Rita Malveiro | Editora Máquina de voar | Uma parceria Up To Kids

 

Não tenhas medo é um dos primeiros dois álbuns ilustrados que nascem de uma parceria da Up To Kids com a editora Máquina de voar Editora.

 

SINOPSE

Não tenhas medo ilumina os possíveis obstáculos no caminho que, com os pais eternamente por perto, serão sempre ultrapassados. Palavras doces sobre auto descoberta e confiança nas características que nos tornam únicos, palavras que mesmo depois de lidas ficarão para sempre no subconsciente do amor.

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Não é normal

#nãoénormal

O Movimento Não é Normal (#nãoénormal) surgiu na sequência de um simples pedido do comediante Diogo Faro aos seus (suas) seguidores. Estava a preparar um vídeo sobre o assédio e a sua intenção era falar do tema usando a comédia. Pedia apenas que as pessoas interessadas em participar enviassem um e-mail com a palavra “eu” se tivessem passado por alguma situação deste tipo. Nas primeiras três horas recebeu mais de 700 e-mails com relatos chocantes que o fizeram querer chamar os holofotes para o problema. Juntou-se a alguns amigos e lançou o movimento que está prestes a chegar à fala com a Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Rosa Monteiro.

Uns dias depois partilhei com a minha mãe que fui uma das primeiras centenas de pessoas a responder ao apelo. Como resposta vi o choque no rosto dela, acompanhado pela pergunta “mas tu foste vítima de assédio?”. Imaginei que sentiu o que eu sentiria se fosse a minha filha a dizer-me o mesmo. E limitei-me a responder “mãe, conheces alguma mulher que não tenha sido?”. E ela sabia que era verdade e concordou. Disse que ela mesma tinha passado pela última situação há apenas uns dias.

Isto significa que o assédio e o abuso diário a que as mulheres estão sujeitas caiu numa certa normalidade. “Habituámo-nos” a que faça parte do dia-a-dia, do que somos. Se não tivermos experienciado situações extremas de abuso sexual ou violência doméstica (ou de qualquer outro tipo), a verdade é que não olhamos para nós como vítimas.

Tenho muitas histórias minhas, nenhuma delas que tenha chegado a extremos. E sei de mais histórias do que gostaria.

Como a daquela miúda que vi crescer e soube que aos 14 anos disse repetidamente ao namorado que não estava preparada para perder a virgindade e ele se cansou de “esperar” e a violou, tendo acabado a tortura apenas uns minutos antes de a mãe dela chegar a casa e ele a ter obrigado a limpar as lágrimas e a ajeitar-se para que a mãe não percebesse. Com a ameaça de que faria a vida num inferno se ela contasse o que acabara de acontecer.

Ou a da rapariga da secundária que engravidou e apanhou tanto do namorado (porque a culpa só podia ser dela por estar grávida) que acabou a fazer um aborto clandestino para seguir com a vida em frente.

Ou daquela vez que uma colega minha, aos 14 anos, chegou à escola afogueada e nos contou que estava com outra colega nossa na casa de um rapaz da nossa turma, casa essa onde tantas vezes convivemos todos. E os rapazes tinham começado a brincar e a querer tocar-lhes. E ela tinha dito que não queria. E eles não pararam. E a outra colega deixou-se ficar, petrificada e com medo, porque eles eram mais, e esta tinha fugido. Tinha ido para a varanda do primeiro andar e saltado cá para baixo numa das avenidas mais movimentadas da cidade.

Na altura houve indignação e choque mas não fizemos mais que isso.

Eu deixei de falar com os rapazes em questão durante duas semanas mas depois voltou tudo ao normal. Nunca, em altura alguma, nos juntámos para lhes dizer que era imperdoável o que tinham feito. Que tinha sido uma violação da dignidade e da vontade e liberdade daquelas duas raparigas, que eram amigas deles. Nunca guardámos esse rancor contra eles e eles cresceram para se tornarem homens e provavelmente nem se lembram desse episódio. Mas aposto que elas sim. Eu nunca esqueci, também muito por causa da culpa que sinto por ter deixado isso passar, mas na altura não soube fazer mais nem melhor. Não que isso seja desculpa.

Aquela situação em específico é muito demonstrativa das duas posições de vulnerabilidade em que as mulheres ficam em situações como estas: não conseguir fazer nada, por causa do medo, e arriscar fugir, pondo-se em perigo. Porque raramente há lugar para um meio termo.

Considero que tive uma infância e uma adolescência perfeitamente saudáveis mas quando penso nestas e noutras situações (ocupariam demasiadas páginas), algumas com quase 20 anos, tenho a certeza que me marcaram. Sei que sim.

Porque ser mulher não é efectivamente o mesmo que ser homem.

Porque quando ando de metro sozinha à noite vou o caminho todo a rezar baixinho, sem conseguir relaxar, até enfiar a chave na porta de casa. E até chegar lá acelero o passo, escolho os caminhos mais iluminados e respiro com mais tranquilidade se houver gente a passar.

Porque quando preciso que vá um técnico a casa (electricista, etc) tento usar a roupa mais desinteressante do mundo porque isso me dá uma segurança, apesar de ser totalmente contra a crença de que a roupa dita o consentimento: mas a realidade é que a minha maneira de pensar não é partilhada por muitos homens e isso coloca-me numa posição de risco.

Porque quando peço uma pizza e estou sozinha em casa deixo a tv da sala ligada e em bom volume para dar a sensação de que há vida algures nas outras divisões e não estou sozinha.

Porque foram demasiadas as vezes em que tive alguém a roçar-se em mim nos transportes.

Porque ao ir para a escola, em miúda, tantas vezes apanhei com a minha melhor amiga tarados a tocarem-se.

Porque quando peço um táxi ou um uber tento organizar-me mentalmente para abrir a porta e sair assim que possível se for necessário.

Porque quando saio à noite só com amigas sei que somos um alvo fácil e raramente voltamos para casa sem alguém nos ter importunado de forma inapropriada.

Porque li algures que a maior parte dos homens heterossexuais só dá valor ao consentimento quando entra num bar gay. E isso é demasiadamente triste e verdadeiro (e até um pouco absurdo e bizarro).

Sou mãe de uma menina e tento criá-la com os princípios básicos para que se torne um ser humano decente.

Sei que vai ter de enfrentar muitas mais barreiras do que se fosse um rapaz. Que vai viver situações horríveis para as quais não a vou conseguir proteger. Sei disso porque sou mãe mas também sou filha e a minha mãe só soube de algumas das histórias que vivi muitos anos depois. Porque simplesmente há muitas coisas que não partilhamos pelas mais variadas razões.

Disse num dos e-mails que enviei ao Diogo Faro que é mais “fácil” criar uma rapariga feminista do que um rapaz feminista, por motivos óbvios.

E é por isso que ele está de parabéns, porque está a dar a cara e a fazer chegar a mensagem a muitos homens que ainda vão a tempo de mudar a nossa realidade.

Como mãe faço o que posso e desejo que todos os que estão no meu lugar façam o mesmo.

Por um mundo em que as raparigas não andem com medo na rua. Num país sem guerra. Em Portugal.

Deixo-vos o manifesto do Movimento Não é Normal para reflexão. Que subscrevo na totalidade.

Tentarei ser melhor para que haja mudança à minha volta. Porque pura e simplesmente #nãoénormal.

“NÃO É NORMAL: Um Manifesto

Não é normal deixar as coisas mal, não querer evoluir, deixar andar.

Não é normal não querer ouvir, não querer saber, ignorar ou compactuar.

Não é normal não saber, perceber e aceitar que “não” é “não”.

Não é normal forçar, pressionar, chantagear.

Não é normal assediar, ameaçar, assustar.

Não é normal agredir, humilhar, violar.

Não é normal haver tantas vítimas. Por ano, por mês, por dia, por hora.

Não é normal homens estarem contra as mulheres, nem mulheres contra homens. Tão pouco o é homens contra homens ou mulheres contra mulheres.

Não é normal o ódio ser a solução. Não é, nunca foi, nunca poderá ser.

Não é normal confundir opiniões com verdades ou ideias com factos.

Não é normal ser do contra apenas por ser, nem ser a favor só porque sim.

Não é normal não pensar pela própria cabeça nem pensar apenas sozinho.

Não é normal crianças não saberem o que é igualdade de género. Nem jovens, nem adultos.

Não é normal saber e não querer lutar por ela.

Não é normal ser demasiado insensível, não ter empatia, ser tão egoísta.

Não é normal um assunto tão certo ter um caminho tão difícil.

Não é normal aceitar que o normal seja uma anormalidade.

Não é normal, mas acontece. E isso tem de mudar.”

Façam-se ouvir. Sempre.

O que desejo neste dia é que todos os pais tenham em si um pouco do pai da Malala.

Malala Yousafzai cresceu num país onde as mulheres são vistas como seres inferiores. Onde é proibido frequentarem a escola. Onde a taxa de iliteracia ronda uns chocantes 70%.

Malala foi criada como o ser humano capaz que é, independentemente do seu género. Foi educada da mesma forma que os irmãos rapazes. E conforme foi crescendo quis ser mais, quis ser maior. Acreditava num mundo diferente daquele onde vivia.

Onde a educação tinha um papel crucial, principalmente pela forma como o seu pai, professor, via a realidade. E o seu pai não a calou. Podia, afinal viviam num país machista e misógino onde as raparigas deveriam ficar em casa e aprender a cozinhar para o pai e os seus irmãos rapazes. Mas o seu pai, professor e ele próprio activista do direito à educação, amou-a incondicionalmente. Inspirou-a a perceber como a educação era essencial. Fê-la acreditar que a sua voz importa. Apoiou-a, apesar do medo que sempre sentiu. Porque apoiar as convicções de Malala era aceitar que ela corria perigo. E ele poderia ter feito o seu trabalho e apoiado as raparigas que queriam deixar a iliteracia para trás e conseguir independência sem deixar a filha ser o seu maior exemplo.

Mas o pai de Malala fez o oposto. Viu-a fazer frente às autoridades paquistanesas e, por isso, ser cobardemente atingida por tiros. Tinha 15 anos.

Malala foi ferida mas não silenciada.

E teve o pai sempre do seu lado.

O seu nome é Ziauddin Yousafzai e decidiu lutar pelos direitos das mulheres porque, ao crescer, nunca viu escrito o nome das suas irmãs em lado algum – como se não fossem dignas de existirem, serem contabilizadas e deixarem a sua marca por serem mulheres. Porque as deixava em casa quando ia para a escola e não percebia por que motivo não havia a partilha de conhecimento com elas.

O meu desejo para este dia e todos os que a ele se seguem é que todos os pais do mundo sejam capazes de lutar pelos direitos dos seus filhos.

Os oiçam e valorizem.

Lhes dêem a mão quando o caminho é difícil.

Os amem incondicionalmente, os aceitem e os ensinem a falar por si.

A procurar a verdade.

A defender a justiça e a igualdade.

Os ensinem a brincar.

A estudar. E não falo apenas dos manuais escolares, falo do mundo.

O mundo que chega às crianças pela nossa mão. Que seja um mundo interessante, com lugar para curiosidade (e curiosidades), histórias de países próximos e distantes e dos seus povos, dos artistas e dos grandes homens e mulheres que determinaram a história. Das invenções, das descobertas. Do desporto, da música e das artes em geral. A natureza e a necessidade de nos equilibrarmos com ela.

Os ensinem a importância de corrigir os seus erros.

A sentir e a permitirem-se expressar emoções.

Os nossos filhos serão sempre uma parte dos seus pais.

Que essa parte seja a melhor.

Feliz Dia do Pai.

Criar crianças feministas

Acredito que serão precisos muitos anos até o machismo que corre nas coisas mais corriqueiras do nosso dia a dia ser erradicado. Se é que alguma vez será.

Falámos já muitas vezes na importância que a educação tem e no papel que os pais (ambos!) têm ou devem ter para que as nossas crianças sejam efectivamente a mudança.

A minha cunhada ofereceu-me no Natal um livro da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, que em português tem o título “Querida Ijeawele: Como Educar Para o Feminismo”. Recomendo a todas as pessoas que têm filhos (independentemente do género) e para aqueles que com elas lidam diariamente.

É um livro curto e que tem como contexto a Nigéria e a forma misógina como as crianças são educadas. Mas muitos dos ensinamentos e reflexões podem ser adaptados para o nosso caso.

Lembro-me de ter crescido a ouvir expressões tão simples e aparentemente inocentes como “sim senhora, cozinhaste X, já podes casar”. Isto é de um machismo intrínseco que nos passa muitas vezes ao lado. Estamos habituadas a ele, não lhe prestamos atenção e é assim que ele vai sendo perpetuado.

E porquê? Porque nunca tal comentário foi dirigido a um rapaz, como se:

1ª – A função de cozinhar fosse exclusiva das raparigas

2ª – A possibilidade de arranjar um marido estivesse directamente dependente das capacidades da dita rapariga na cozinha

3ª – Esse casamento fosse o objectivo importante da vida de uma rapariga.

Falo deste caso como exemplo, haveria muitos outros.

Mas a verdade é que ainda hoje olho à minha volta e vejo que são as mães (perdoem-me as mães de rapazes/homens, mas vão ter de concordar que é verdade) que tratam os filhos como se eles fossem diferentes das filhas. Como se não fossem capazes de tratar da própria roupa, da limpeza da casa, da comida. Quantos rapazes solteiros que vivem sozinhos conhecem que tratam destas tarefas por si? Sem empregadas? Sem as mães a lavarem, secarem e passarem a roupa (elas mesmas ou as suas empregadas)? Sem lhes fazerem comida que dura para a semana? Há, mas são a minoria.

E se olharmos em volta também podemos concluir que muitas raparigas se estão absolutamente nas tintas para as tarefas domésticas e não querem para si esta responsabilidade.

Acho que devemos ensinar aos nossos filhos, independentemente do género, as coisas básicas para que saibam cuidar de si de forma independente.

Mesmo que cresçam para ser adultos que não querem executar as tarefas. Ênfase aqui para o não querem e podem não o fazer porque podem pagar a quem o faça. Queremos mesmo que os nossos filhos, já adultos, tenham uma relação umbilical connosco que se baseia na necessidade de lhes facilitarmos a vida como se continuassem a ser crianças?

Ao escrever esta linha lembrei-me do namorado de uma colega minha, que com 38 anos, quando almoçava em casa da mãe recebia o prato de peixe arranjado por ela. Sem espinhas. Pronto a comer. 38 anos. Não é exagero. Não é anedota. É um facto. E a culpa aqui tanto é da mãe como do filho. É absurdo.

Como mãe e pais queremos estar lá para os nossos filhos. Seremos sempre que nos for possível, os primeiros a estender a mão como os nossos pais fizeram connosco. Mas ajudar não significa fazer. Se ensinamos os nossos filhos a vestirem-se sozinhos, por que motivo permitimos que essa autonomia não seja espelhada nas restantes vertentes da sua vida?

Haveria muito para dizer sobre este tema, mas acho importante reflectir. Sei que muitos dos que estão a ler pensam que no seu caso não é assim. Até pode ser, mas os vossos filhos vão conviver com todo o tipo de pessoas, relacionar-se com elas.

Muito do machismo que tenho visto ultimamente tem origem em mulheres. Seja relativamente a acontecimentos públicos graves como violações, seja nas coisas mais básicas do dia a dia.

Como educadores temos um papel determinante na forma como os futuros líderes do mundo crescem e apreendem a realidade. Se essa realidade for distorcida pelas convenções sociais (e será sempre, não vale a pena termos ilusões, somos todos condicionados por elas) temos então a importante missão de passar valores de igualmente, mérito, a dádiva de amor altruísta, solidariedade, empatia, valorização da paz…

Muitas vezes neste complexo trabalho de criar seres humanos cometemos erros. Fazemos coisas por amor que talvez não sejam as melhores para eles, para nós.

Não é fácil e sou a primeira a dizê-lo.

Estamos aqui para fazermos o melhor que conseguimos.

Mas temos de ir parando no caminho para respirar. E olhar para trás e perceber onde podemos ir melhorando.

Ajudando-nos mutuamente sem nos anularmos.

Com amor tudo se faz, mas o amor não justifica tudo.

Vamos pensar nisto?

Por um Carnaval mais ecológico

No ano passado, como relatei num texto publicado há uns meses, um colega da minha filha ficou aflito quando lhe entregaram para a mão confetis no desfile de Carnaval para atirar ao ar.

O lixo não é para atirar para o chão, dizia ele – e com toda a razão.

A preocupação era legítima mas fizemos aquilo que tantas vezes fazemos enquanto adultos – arranjamos excepções para as regras por nós criadas.

No final dos desfiles de Carnaval fica o lixo. Papéis e mais papéis, garrafas e copos descartáveis espalhados pelas ruas por esse Portugal (mundo) fora.

Fala-se tanto da sustentabilidade do planeta, nas alterações que devemos introduzir no nosso dia-a-dia, e por que não aproveitar estas situações para criar a mudança?

Este ano, e em homenagem a esse colega da minha filha, decidimos fazer diferente. Decidimos tornar o carnaval mais ecológico.

Em vez de comprarmos confetis de papel vamos fazê-los usando outros recursos da própria natureza que não resultam do abate de árvores.


Apanhámos, durante alguns dias, folhas caídas no chão do jardim e nas ruas por onde fomos passando.

Aproveitámos para escolher folhas de várias cores, umas mais secas que outras, para podermos ter confetis coloridos.

Em casa lavámos as folhas que precisavam, por causa da terra, e deixámos ao sol a secar.

Fomos buscar o furador de papel cá de casa e a Mariana o seu cortador em forma de estrela.

Em vez de ligarmos a televisão nos finais de tarde de chuva juntámos todas as folhas e furámos uma a uma com o cortador e o furador.

É um trabalho que demora tempo, é certo, para ficarmos com uma quantidade de confetis considerável. E os miúdos acabam por se fartar, de acordo.

Mas os dez minutos em que eles ficam parados a fazerem uma coisa para seu próprio benefício e que sabem que é bom para o planeta é de um valor inestimável.

Falámos do abate de árvores. De como é importante reciclar papel e utilizar coisas que sejam produzidas recorrendo a materiais reciclados. Falámos das espécies animais que estão a ficar sem casa e, por isso, a desaparecer por não terem onde viver. Falámos do lixo que as pessoas continuam a mandar para o chão, para a sanita, para o mar. E do fim de outras espécies que estão a sofrer por causa disso.

Falámos do nosso caso, em que temos cuidados importantes.

Reduzimos os plásticos ao mínimo. Não usamos praticamente plásticos de utilização única, com excepção para os sacos do lixo (em que mesmo assim usamos marcas que usam materiais reciclados). Reciclamos todas as embalagens e nas compras usamos sacos de pano para comprar frutas e legumes. Estamos a comprar menos roupa (por causa dos danos que a indústria do algodão provoca no ambiente e na água, já para não falar da quantidade impressionante de água que é necessária para produzir uns simples jeans), usando os recursos durante mais tempo e cedendo cada vez menos às compras por impulso e de mero consumismo.

Estamos a fazer a nossa parte. E a geração dos nossos miúdos vai enfrentar problemas graves se não acelerarmos a cura do planeta. É uma geração mais consciente, com mais opções mas também mais responsabilidades.

Acho que estamos no bom caminho.

Cá por casa (e esperamos que em algumas outras depois de lerem este texto) vamos lançar ao ar confetis coloridos feitos com amor e provenientes de folhas caídas. Que serão lixo orgânico.

A ideia foi apresentada na escola e pelo menos na sala da minha filha vão fazer o mesmo. Só o impacto de menos lixo proveniente de trinta mini pessoas é um começo.

Um passo de cada vez.

Juntos.

Por um mundo melhor.

As mães também choram

A maternidade é uma das coisas mais universal do mundo.

Se, por um lado, isso nos ajuda a sentir que somos como tantas outras mães, muitas vezes também sentimos que por isso, por ser tão universal e tantas mulheres o viverem os nossos dramas nos isolam. Sentimos culpa, sentimos que não devíamos sentir coisas menos positivas, que não devíamos perder a paciência, que somos mal agradecidas em algumas ocasiões.

Sermos mais uma na maioria em alguns dias faz-nos sentir pequenas.

À conversa com a mãe de um amigo da minha filha senti mais uma vez a importância de sermos sinceras umas com as outras e partilharmos também as nossas derrotas. Ela contava-me que num final de um dia mais complicado, com birras, se tinha sentado na cama e chorado. E que o marido lhe tinha perguntado por que estava ela a chorar, porque não se tinha apercebido de nada de extraordinário.

Às vezes é assim, cumprimos esta nossa missão com tamanha assertividade que é uma surpresa para as outras pessoas quando nos vamos abaixo.

Mas isso acontece e é comum a todas as mais, numa altura ou outra do seu caminho.

Há as que choram no pós parto, as que choram quando amamentam, quando deixam de amamentar. Quando têm de pôr os filhos na creche, quando os vão buscar à creche mais tarde do que gostariam, quando vêem as contas a aumentar e têm de fazer ginástica para fazer face a todas elas. Quando se separam e percebem que a vida dos filhos nunca será igual (nem a sua) à que planearam, as que choram simplesmente porque estão cansadas.

Há alguns meses eram raros os dias sem incidentes à saída da escola da minha filha. Foi uma fase de birras feias em que a maior derrotada fui eu e a parentalidade positiva. Mas aí percebi que nenhum tipo de parentalidade resultaria porque simplesmente a minha filha entrava em modo automático e não via nem ouvia nada. Era exasperante e ela acabava por adormecer no caminho de casa, exausta. E não foram raras as vezes em que acompanhei o seu sono com lágrimas silenciosas. Lágrimas que me escorriam pelo rosto enquanto revia uma e duas vezes o que poderia ter feito de outra maneira, onde podia melhorar, o que poderia fazer no dia seguinte para evitar este desgaste.

Aos poucos as coisas foram melhorando, até porque as crianças vão crescendo de dia para dia, ultrapassando as suas próprias barreiras.

Chorei em frente à minha filha – contra o que algumas pessoas me disseram que deveria fazer “para ela não perceber o efeito que tinha em ti”. Permiti-me chorar exactamente pelo contrário, para que ela pudesse testemunhar que as suas acções têm consequências. Naturalmente que não chorei para lhe imputar um sentimento de culpa, num discurso de “vês como a mãe fica quando te portas assim?”. Chorei porque não aguentava mais e em vez de ir para o quarto esconder-me, deixei que ela visse. Abri a porta ao diálogo.

E senti a empatia dela.

Ajudou-nos a falar do que tinha corrido mal.

E foi a excepção, naturalmente. Não tenho qualquer memória de ver os meus pais a chorar. E não quero que essa seja uma memória activa da infância da minha filha. Mas ali foi orgânico. Porque ao pé dela já chorei de felicidade, de emoção.

Por que motivo nos escondemos quando as nossas emoções não são positivas?

E quando a mãe do amigo da minha filha, que eu considero uma super mãe, super assertiva e firme, sempre no controlo de tudo, me disse que tinha chorado eu senti-me abraçada. Acompanhada. Compreendida. Senti que fazia parte para todas nós.

As mães mais ou menos seguras.

As mães mais ou menos disciplinadoras.

As mães mais ou menos sensíveis.

As mães.

Porque as mães choram.

E não há mal nenhum nisso.

As palavras positivas e o aumento da auto-estima dos nossos miúdos

Há uns dias assisti a um programa onde a convidada era uma professora com formação na área da psicologia que desenvolvia um trabalho muito interessante junto das escolas.

Começou a fazê-lo quando se apercebeu que as crianças do primeiro ciclo, nomeadamente as de sete e oito anos, tinham dificuldade em utilizar palavras positivas para se descreverem.

Enquanto pais acredito que achemos isto estranho porque se pedirmos aos nossos filhos para falarem de si eles apontarão a cor do cabelo, dos olhos e por aí. Mas é das emoções que se trata e da forma como se vêem a eles próprios. Nenhuma das crianças dizia que era divertida, bem-disposta ou forte.

Tenho uma rotina com a minha filha depois de a ir buscar à escola que passa por a fazer enumerar as duas coisas que gostou mais no seu dia e as duas que gostou menos. Invariavelmente as negativas são as chamadas queixinhas. Comecei por não aceitar mas percebi que ao fazer-me as tais queixas havia emoções por trás das acções que as desencadeavam.

Assim, quando ela me diz “o que gostei menos foi quando o X me empurrou no recreio” ou “quando a Y disse que não queria ser minha amiga” tento, em vez do automático “pois, isso não se faz”, enveredar pelo “e como é que isso te fez sentir?”.

Porque é importante as crianças conseguirem identificar as suas emoções.

Só estando estas emoções devidamente identificadas podem ser descritas e só assim se pode explicar por que motivo são consequência dos comportamentos dos outros e, acima de tudo, o que gostaríamos que tivesse acontecido. E o que faríamos no lugar do outro.

Não raras vezes quando a minha filha está a brincar ao faz de conta ralha com os amigos. Aponta o que estão a fazer de errado. Outras vezes até diz “a não sei quantas não quer ser minha amiga, não sejam amigos dela”. Isto existe desde sempre, lembro-me quando era eu a estar no meio deste ritual. Tinha uma amiga mais nova com a qual nunca brincava no recreio da escola, apesar de sermos amigas fora da escola, porque havia uma amiga sua que não a deixava. A marca que isso me deixou foi a da irritação, mais do que a da mágoa. Porque tinha a sorte de ter outros amigos e de não sentir esta falta. Mas há crianças cujo núcleo duro de amizades próximas se reduz a mais um amigo. E nestes casos estas atitudes podem ter um impacto muito grande.

Ainda na semana passada, ao falar com uma das meninas novas da sala da minha filha que sempre que me vê me abraça, perguntei: “o teu dia foi bom?” E ela disse que não porque uma das amigas não quis brincar com ela.

Faz parte? Claro que sim.

Queremos que os nossos filhos cresçam para serem emocionalmente independentes dos outros, mas o crescimento, o verdadeiro crescimento, faz-se das relações que se estabelece com o meio e com os que nos rodeiam.

Por isso tento explicar à minha filha que se não gostou de se sentir excluída não deverá fazê-lo quando a situação for oposta. E isto serve para tudo na vida.

Outro exercício que tento fazer com a minha filha é “gostas da X porquê?” e só aceito as respostas quando têm alguma profundidade, quando chegam ao “ela tem paciência para brincar comigo” ou “quando estamos juntas cantamos e isso deixa-me feliz”.

Trabalho muito a questão da imagem própria valorizando o que se é e não o que se aparenta.

Valorizo as conquistas.

Elogio o esforço.

Evito que a minha filha me oiça falar de forma menos positiva das outras pessoas.

É expressamente proibido criticar os mais velhos. Quando ela me aponta um comportamento que supostamente vai contra aquilo que lhe foi ensinado eu texto explicar. E muitas vezes explico que há coisas que não têm explicação, as pessoas fazem coisas que não devem. Erram. Porque somos todos humanos, mesmo os mais crescidos.

E os mais crescidos também ainda estão a aprender.

Acredito que miúdos que têm as suas emoções reconhecidas têm menor tendência para as retrair. 

Muitas vezes podem não nos parecer legítimas ou justas (“nunca me compras nada, não me deixas fazer nada”) mas é importante que sejam valorizadas no contexto, nem que seja para a criação do diálogo.

Quantas vezes estamos a fazer uma coisa e nem nos apercebemos do quão errados estamos? Este feedback também nos ajuda a ser melhores pais. E a ganhar confiança nas opções que tomamos quando elas correm bem.

Queremos que os nossos filhos sejam adultos saudáveis e isso só é possível se esta saúde lhes for proporcionada por nós. Seja em forma de sopa e legumes, seja em forma de amor e inteligência emocional.