Experiências digitais na Adolescência: “like” / “dislike?

As nossas vidas foram irrevogavelmente alteradas com o aparecimento da Internet, mas para os adolescentes da atualidade (que já nasceram online) a realidade é praticamente digital. Não é estranho usar o telefone ou ipad para acalmar um bebé que chora, não é estranho ver crianças de 2 ou 3 anos agarradas a smartphones, não é estranho oferecer o primeiro telefone a uma criança de 10 anos… não é estranho ver um adolescente mergulhado em aplicações e redes sociais.

Para os adolescentes do século XXI “a vida” acontece nas redes sociais! E por isso ou conhecem bem as suas regras e normas de funcionamento… ou ficam de fora! Façamos então uma visita de estudo pelas redes sociais mais populares entre os jovens.

O Instagram permite a partilha de fotos e aplicação de filtros digitais, bem como compartilhá-los com outras redes sociais, como o Facebook, Twitter ou Tumblr, por exemplo. Quando se publica uma fotografia no Instagram, o objetivo é provocar reações na plateia: gostos, comentários, emojis… Um adolescente que acompanhei em consulta contou-me que ele e os seus amigos competiam entre si pelo maior número de seguidores e reações nas suas postagens. Talvez por isso, a grande maioria dos adolescentes com 16 anos tem mais de 1000 seguidores na sua conta e muitos deles nem sequer conhece (isto acontece mesmo em contas privadas). Muitos destes ‘posts’ chegam a concentrar 300 gostos, o que significa a aprovação de uma grande fatia dos seus seguidores. Outras fotos são publicadas em segundas contas (com nomes diferentes), para que não fiquem associados a si comportamentos como o consumo de álcool, drogas… ou presença em determinados sítios. Online é possível construir o perfil que se deseja.

Depois, sempre que um amigo publica uma fotografia de si, existe uma ‘obrigação social’ de gostar e essa obrigação é tanto maior, quanto a proximidade desse mesmo amigo. Uma opção segura, sobretudo para a selfie de um amigo é o emoji com corações ou elogios diretos como “que lind@”! Não é necessário muito mais do que isso para carregar as baterias de auto-estima de quem a postou. Sim, baterias que ‘carregam’ quando vêem os outros confirmar que são bonitos, admirados, seguidos, foco de atenção e, por isso, aprovados pelos outro; ou baterias que ‘descarregam’ quando este cenário não acontece.

Mais do que uma moda, a exibição contínua de auto-retratos (ou outras fotografias pessoais) pode denunciar tanto excesso… como falta de amor próprio! A linha que separa uma realidade da outra está (de uma forma simples) nas sensações e/ou expectativas que o usuário tem aquando da publicação: uns são vistos como exibicionistas, outros como carentes de afirmação e aprovação pelo grupo… ambos podem ser tanto criticados pelos pares, como admirados ao jeito de celebridades! É por isto que a adolescência é uma fase tão exigente!

Mas outra parte da realidade escondida nas fotografias que se publicam, são os comentários que se fazem. Que tipo de relações sociais estamos a construir na rede? Verdade que muito do que aqui lemos é transversal a adultos, mas quando pensamos em adolescentes a grande diferença consiste no facto de estarem em pleno processo de formação. Sabemos, por exemplo, que algo tão simples como a utilização de abreviaturas nas mensagens tem consequências no processamento cerebral e na linguagem.

Quando vemos adolescentes comunicarem grande parte do tempo em chat, jogarem online, namorarem através de aplicações, conviverem em grupos virtuais… quando vemos adolescentes constantemente atrás de um ecrã será pertinente questionar quais as consequências ao nível das competências emocionais e sociais? Dificuldade na expressão e leitura das emoções nos outros, falta de empatia, maior agressividade… Já em 2012, um estudo publicado pela Universidade de Coimbra alertava para uma percentagem significativa de cyberbullying nas camadas jovens através de SMS e redes sociais, mas sobretudo para a elevadíssima percentagem de jovens que admitiam ter presenciado casos de agressividade e humilhação pública na rede.

Instagram, Snapchat, Pokémon Go-Pro, chat’s de jogos online… há um mundo de interação adolescente que gera trilhões a nível mundial e muito contribui para esta falência socioemocional das futuras gerações. A comunicação mudou: antigamente, os adolescentes precisavam de conversar ‘na rua’ ou por telefone com os seus amigos. Hoje em dia, os adolescentes comunicam de forma vaga para uma legião de seguidores e desconhecidos e por esta razão é fundamental cuidar da imagem na net. Alguns adolescentes chegam mesmo a apagar posts que não atingem um número mínimo de gostos. O tempo de espera para chegar a 40 gostos, por exemplo, é de cerca de 2h… a partir daqui o post é apagado ou guardado para ser novamente publicado em melhor hora (normalmente, após o horário escolar). As selfies são ótimas oportunidades para mostrar uma roupa gira, um acessório novo, uma comida de fazer água na boca, um local diferente ou uma atividade interessante. Depois espera-se a reação dos seguidores, que é bem diferente se vem de um usuário masculino ou feminino, através de um sistema de comunicação emoji bastante desenvolvido! São mesmo muitos os adolescentes escravizados pela imagem perfeita, como principal impactante no bem-estar emocional e qualidade de vida.

O Snapchat é outra plataforma de publicação de fotos e vídeos, mas com a particularidade das postagens desaparecerem 24h depois. Isso diminui significativamente a pressão sobre todos (os que publicam e os que são alvo de publicação), mas também justifica as muitas horas que os adolescentes dispensam diariamente ao seu telefone, a produzir material novo para a web (excepto facebook que, para os adolescentes, é um currículo público, logo um aborrecimento atualizar) e a tentar gerar conversas em chat, muitas vezes sem a intenção de obter uma conexão real posteriormente. O que não é surpreendente, porque em chat, uma conversa que não gere interesse rápido pode terminar sem qualquer explicação, o que em conversas ao vivo será mais difícil de acontecer. Estamos mergulhados na cultura do rápido… do “fast relationship”.

Os adolescentes estão em constante mudança e a melhor forma de os conhecer ainda é interagindo com eles, observá-los com atenção, questioná-los sobre gostos, interesses, sentidos… Para os adolescentes watsapps, snaps e chamadas de vídeo são a vida real… Contudo, a capacidade de usar a tecnologia de forma segura, aproveitando todos os seus benefícios depende em grande parte da relação que tem com os seus filhos!

Nunca tivemos uma geração tão “social” e, simultaneamente, tão carente de pessoas.

Quando um filho te diz que há um colega no recreio que lhe está sempre a bater, tentas ser sensato: Já disseste à professora? Quando ele te fizer isso vai logo ter com o adulto mais próximo e explica o que se passou. Mas depois ele responde que já fez isso tudo e que a situação continua a repetir-se. Tem medo da escola, anda mais ansioso. E tu também. Durante o trabalho a avó liga para te avisar que hoje o neto voltou da escola arranhado. O colega do costume. Então percebes que a pressão vai surgir de outros lugares. Haverá um novo tema de conversa durante os almoços de domingo em família. Respiras fundo, e decides. Amanhã é melhor passar pela escola, o braço dele está mesmo feio e esta situação é insustentável.

Sabes o nome dele, mas não o mencionas: Vim falar consigo porque há um menino que está constantemente a magoar o meu filho e alguém tem que fazer alguma coisa. Compreendo que há crianças com problemas mas os colegas não têm culpa, e ele já está com medo de vir para a escola. Recebes uma resposta, política, gasta, formatada: Não podemos fazer nada, os pais nem aparecem, não há funcionários para vigiar o recreio, já pedimos apoio mas tarda em chegar. No final da conversa, uma sugestão amarga, mascarada de profissional: ensine-o a defender-se e verá como isto deixa de acontecer.

Enquanto conduzes para o trabalho sentes-te ainda mais confuso, mas apoiado. Por um lado não te parece correto ensinar o teu filho a bater, mas por outro sentes que és negligente quando o impedes de ser vítima de um agressor. Afinal, foi o professor, em pessoa, quem te autorizou a usares os teus próprios meios para lidar com esta a situação. Ensinar o teu filho a defender-se parece justo. Instintos básicos de sobrevivência gritam mais alto, e entretanto, tu já não és tu, és só reacção. Dás um pequeno passo para fora daquilo que sempre foste, mas não interessa. Agora és uma fera a defender a sua cria e a ensinar-lhe tudo o que for preciso para se proteger.

Eficaz. Aprendeu a lição esse menino do costume. De qualquer forma também já ninguém queria brincar com ele, os pais que lhe dêem educação. Teve o que merecia e agora o teu filho já não tem medo de ir à escola. E tu voltaste a ser tu, aquilo foi uma situação isolada, mas serviu de exemplo: o teu filho já aprendeu que para se defender só tem dar um pequeno passo para se afastar daquilo que tu sempre lhe ensinaste, do que os teus pais sempre te ensinaram a ti.

Atacar é uma palavra legítima quando se é vítima de alguém. Bem que podia ser o menino agressor do costume a dizer isto. Esse que também é filho, neto e aluno de alguém e que usa a força, como o teu filho agora, para parar de ser vítima. Pequenos passos.

O apoio chegou mas agora nada parece servir para controlar os miúdos no recreio. A indisciplina aumentou muito e há grupos que se protegem a atuar à laia de gang organizado. Tudo pode ser dito, pensado, feito e acusado por impulso. Todos temem: eles já não são eles.

A situação está fora de controlo, e ninguém sabe como é que isto aconteceu de um momento para o outro. Nem tu, nem todos os que à tua volta deram pequenos passos isolados, para longe de si mesmos.

imagem@Robbie Cooper “Emmersion”

Bullying em alunos com NEE (necessidades educativas especiais)

O bullying é um fenómeno preocupante, cada vez mais frequente no meio escolar. O bullying define-se como todos os comportamentos agressivos (físicos e/ou verbais) de intimidação, aplicados de forma regular e frequente, traduzindo-se em práticas violentas exercidas por um indivíduo ou por pequenos grupos (Costa, 1995).

Sabe-se que, os alunos com deficiência e/ou NEE, são menos aceites que os seus colegas, e são mais suscetíveis de sofrer de bullying, devido às suas limitações tanto físicas como mentais.

Habitualmente, os alunos com NEE que sofrem de bullying não o partilham com os adultos, contudo existem alguns sintomas presentes nas vítimas de bullying aos quais se poderá estar atento: enurese noturna, alterações do sono, cefaleia, desmaios, vómitos, paralisias, hiperventilação, queixas visuais, síndrome do cólon irritável, anorexia, bulimia, isolamento, tentativas de suicídio, irritabilidade, agressividade, ansiedade, perda de memória, depressão, pânico, relatos de medo, resistência em ir à escola, insegurança por estar na escola, mau rendimento escolar e autoagressão.

O conceito de Escola Inclusiva, tem como objetivo perspetivar a criança/adolescente como um tudo, ou seja, tendo em conta o seu ritmo de aprendizagem escolar, desenvolvimento pessoal, social e emocional, de forma a que também tenha acesso ao ensino, de acordo com a suas competências e capacidades (Correia, 2008).

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Apesar da redefinição do conceito de NEE com a Declaração de Salamanca e de se terem verificado benefícios para estes alunos, como a melhoria do seu comportamento pró-social, auto-estima, autoconceito e também o sucesso académico, têm-se verificado igualmente algumas barreiras na aplicação de uma Escola Inclusiva. Nomeadamente, a falta de competência dos professores em relação aos alunos com NEE, falta de tempo, valorização excessiva nos resultados académicos, falta de iniciativas de interações sociais e o bullying.

De acordo com a minha experiência profissional enquanto Psicóloga Clínica numa Equipa CRI, tenho vindo a constatar a frequência de fenómenos de bullying junto de alunos com NEE, e a sua influência nas relações interpessoais e aproveitamento/motivação escolares. São alunos com poucos recursos ao nível das competências sociais, pessoais e emocionais, tornando-se urgente o acompanhamento e/ou uma atuação preventiva, de forma a estimular o treino destas competências e torná-los mais autónomos e integrados socialmente. Tal poderá ser trabalhado através da aplicação de projetos de desenvolvimento de competências sociais, pessoais e emocional, ao nível individual e/ou grupal.

É importante que o meio escolar não tenha apenas como foco principal o aproveitamento escolar do aluno, mas também estar atento à sua conduta social e relacionamentos interpessoais, uma vez que o estabelecimento de amizades nos alunos com NEE, contribuem para o desenvolvimento interpessoal e emocional (auto-estima e auto-conceito).

O Bullying tem implicações não só em toda a comunidade escolar, como também nos alunos e seus familiares, neste sentido, torna-se essencial uma abordagem multidisciplinar, mobilizando todos os agentes educativos para uma resolução mais eficaz.

Os profissionais de saúde são agentes fundamentais, estes devem clarificar o impacto do bullying nas crianças/adolescentes e escolas, promovendo ambientes de amizade, respeito face à diversidade e de solidariedade.

Também os auxiliares de ação educativa e alunos, devem ser sensibilizados a supervisionar e intervir nas situações de bullying. Sendo conhecido os benefícios da amizade nos alunos NEE, é importante sensibilizar/estimular o aluno a estabelecer relações com um colega ou colegas com quem se sinta bem e aceite.

Para prevenção de futuros incidentes, podem ser trabalhadas junto dos alunos algumas estratégias como forma de proteção; Ignorar os apelidos; fazer amizades com colegas não agressivos; evitar locais de maior risco; informar professores ou funcionários sobre o bullying sofrido.

Por último, podem ser aplicadas técnicas de dramatização e ou grupos de apoio, para os alunos adquiram estratégias para lidar com as diferentes situações.

A Escola Inclusiva não deve apenas ser visto como um conceito ou utopia, é importante que seja trabalhada continuamente e concretizada. O bullying apresenta-se como uma das suas principais barreiras pelo que deverão ser tomadas medidas urgentes de forma a prevenir, eliminar ou diminuir a sua frequência. Tornemos a escola um espaço saudável e seguro, que aceite e se adapte a todas as diferenças contribuindo para o desenvolvimento de futuros cidadãos, responsáveis e autónomos.

 

Por Telma Santos, Psicóloga Clínica, para Up To Kids®

Era a intuição de Santo Agostinho de que as palavras são ‘etiquetas’ que servem para nomear e representar coisas no mundo por via da linguagem. As ideias de Santo Agostinho estão longe de se aproximar das noções mais contemporâneas sobre a linguagem, mas inauguram uma discussão muito interessante sobre o estatuto da ‘palavra’. Uma das concepções que julgo ser extremamente interessante, no seio da psicologia e da filosofia, é de que não existem depressões em tribos ou culturas onde não existe a palavra ‘depressão’. É como se, sem código linguístico, as experiências e coisas do mundo, não existissem.

Foi isso a que todos assistimos com o aparecimento do termo Bullying. Ele sempre existiu, e as pessoas que aqui se encontram acima dos 45 anos sabem-no muito bem (o termo Bullying só surge nos anos 70 com as investigações do psicólogo sueco Dan Olweus).

Na alçada dos eventos decorridos relativos ao Bullying, gerou-se uma onda de indignação nas redes sociais e na imprensa. Na nossa opinião, contudo, pouco se aprofundou acerca do tema. Uma boa parte das reacções iam ao encontro do aforismo ‘olho por olho, dente por dente’, os mais conservadores não se coibiram de tecer considerações parecidas com ‘miúdas a bater num rapaz!? Se fosse meu filho chegava a casa e levava mais‘. No outro extremo surgiu a opinião de um psiquiatra que afirmava que os agressores também estavam em sofrimento. Esta última afirmação, não há dúvida que suscitou muita polémica. Pareceu inconcebível à maior parte das pessoas a possibilidade de empatizar com o agressor.

A afirmação deste médico psiquiatra pode ter sido controversa, e por isso mesmo somos obrigados a reflectir sobre ela.

O que é que faz com que alguém seja agressivo? O que é que faz com que alguém desenvolva este verdadeiro sadismo moral?

Transformemos pois a afirmação deste psiquiatra numa lógica aristotélica de tipo dedutivo:

Todos os agressores sofrem
As crianças do vídeo são agressores
Logo as crianças do vídeo sofrem

Muitos contestariam desde logo com a primeira premissa pela impossibilidade de identificação ao agressor. Neste sentido, retomemos pois à questão: porque agredimos?

Habitualmente agredimos quando nos sentimos ameaçados ou quando o nosso desejo é frustrado. O facto das ameaças poderem pertencer à ordem do real ou da fantasia aumenta exponencialmente as nossas possibilidades de análise. E, de forma semelhante, a natureza dos desejos que um ser humano possa sentir é igualmente abrangente, pelo que, o nosso universo analítico torna-se praticamente infinito.

Nesta análise encontramos implícitas algumas das funções da agressividade, a saber: proteger, adquirir e castigar.

A agressividade, como os vectores, também tem uma direcção, ela pode ser dirigida para o exterior (para alguém ou alguma coisa) ou por retornar para o interior (para o corpo), habitualmente sob a forma de culpa, comportamentos de risco, auto-mutilações e até, veja-se bem, hipocondria.

Uma das dinâmicas chave da agressividade está ligada à sua possibilidade de transformação/modificação das representações mentais que temos de nós próprios e dos outros. Imaginemos o seguinte cenário (com a consciência de que não se trata de uma condição universal): os pais de uma criança são agressivos e, através da sua força e da potência, conseguem o que desejam dentro da constelação familiar. Podemos imaginar que esta criança vê frustados os seus desejos, podemos supor que estes pais causam angústia e sofrimento e que têm um impacto negativo na construção da auto-estima da criança. Uma possibilidade defensiva desta criança hipotética seria a de mobilizar a sua agressividade como forma de transformar a dinâmica das representações vítima-agressor. Nas relações com os pais e adultos, mas muito mais facilmente com os pares e ainda mais facilmente com crianças que considere mais vulneráveis, ela poderá encarnar o papel de agressor e colocar o outro no lugar de vítima. Assim fechasse a ciclo de modificação das representações mentais, a criança já não é mais a vitima-fraco e passa a ser o agressor-forte. Se esta dinâmica estiver ao serviço das defesas da criança, o trabalho terapêutico é facilitado, mas se esta agressividade está ao serviço da obtenção de prazer e se é encarada como instrumento omnipotente para obter o que se deseja, estes traços irão constituir-se como obstáculo à terapêutica. Como dizia um psicanalista argentino: ‘a verdade jamais poderá tomar o lugar do prazer’.

De forma não premeditada acabámos por introduzir o que se passa com a vítima, quando afirmámos que o agressor vai preferir pessoas que tenham características mais frágeis e que, aos seus olhos, são fracos.

Muitas vezes o agressor pode ganhar um maior sentido de potência se se inscrever num grupo de indivíduos que nutrem a mesma cultura agressiva com a qual todos se identificam. E assim, que passa a ser objecto de identificação é a idealização da agressividade como instrumento omnipotente para a obtenção do que se pretende.

A ideia de que existem traços da personalidade de uma vítima que a empurram e mantêm em situações de violência é controversa. Pensar a vítima como masoquista equivaleria e assumir esta interpretação como mais um ataque à vítima. Mas a realidade é que a natureza desconhece a moralidade, e como tal, devemos olhar, sem preconceitos para o que ela nos demonstra todos os dias.

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Não queremos cair aqui nas falácias típicas da lógica indutiva ao tornarmos universal uma verdade que apenas é encontrada em alguns casos. Nem toda a vítima é masoquista. Mas a realidade é que a investigação nos demonstra a existência de um conjunto abrangente de traços da personalidade que se encontram associados à emergência de situações de bullying.

Apesar do sofrimento não ser manifesto no agressor não podemos cair na tentação ingénua de negar a sua dor. Apesar do sofrimento ser manifesto na vítima (depressão, ansiedade, distúrbios alimentares, insónia, enurese, baixo rendimento escolar…) não podemos negar a existência de traços da personalidade que a empurram para a posição de vítima.

Estas são apenas algumas das vicissitudes das moções agressivas que se encontram nas relações de Bullying na criança e, é importante não esquecer, nos adultos. Apesar da complexidade do tema, que vai muito além do que aqui escrevemos, de uma coisa não nos podemos esquecer, existe sofrimento, desespero e agressividade em ambos vítima e agressor. Neste sentido, é urgente sensibilizar e informar o público sobre a importância das intervenções psicoterapêuticas com ambos. Se transpusermos e desvirtuarmos o dito de Michel Foucault a propósito da linguagem, aqui para o nosso projecto de sensibilização, ‘se os textos sobre bullying fossem tão ricos como as intervenções psicoterapêuticas, eles seriam o seu duplo mudo e inútil’.

Por isso se o seu filho é o terror da escola ou se o seu filho é vítima de bullying procure apoio especializado.

Dr. Fábio Veríssimo Mateus

imagem@good-citizen.org

Abc para uma educação feliz

A – Abraços. Amizade. Amor.
As crianças precisam de se sentir amadas, e os pais podem e devem ajudar a desenvolver o seu caráter e auto-estima com manifestações de amor. Pergunte-lhes todos os dias “Já te disse hoje que te adoro?”

B – Brincar.
Brincar é uma das ferramentas chave na educação de uma criança. Brinque com o seu filho todos os dias. Nem que seja no trajeto Escola-casa. Invente personagens e brinquem ao faz-de-conta! Brinque antes do banho ou brinque no banho. Brinque quando os vai buscar à escola. Convide amigos para brincar lá em casa. Tudo o resto se irá compor com mais facilidade se o seu filho brincar todos os dias.

C – Conversar
Conversar com os filhos é um ato de partilha que deve começar desde que estão na barriga da mãe. Só assim poderá criar uma forte ligação e conhece-los ao longo do seu crescimento. Ninguém quer acordar e ter um estranho de 14 anos dentro de casa, pois não?

D – Dormir
Tal como os adultos, as crianças precisam de dormir para se sentirem bem consigo próprias. Para terem a concentração necessária na escola. Para não estarem de mau humor nem irritadas. Ensine-os a privilegiar as horas de sono.

E – Exemplo. Educação
A melhor  maneira de educar uma criança é através do exemplo. Seja o adulto que quer que os seus filhos se tornem.

F- Fluir
A parentalidade deve ser descomplicada. Há situações inesperadas que não podemos antever ou controlar. Não seja demasiado rigoroso ou severo. Deixe fluir o seu instinto. É de certeza o melhor palpite que terá em diversas situações ao longo do crescimento.

G – Gerir
Uma mãe/pai tem de saber gerir os seus filhos. As crianças precisam de ser guiadas, e esperam que os pais sejam o seu farol. Gira a vida dos seus filhos, mas enquanto o faz, não se esqueça que é suposto ensiná-los a, no futuro, a gerir por si só. Torne-os autónomos.

H – Hoje
Todos os dias são bons dias para começar algo. Se sente que é preciso uma mudança no dia a dia dos seus filhos, hoje é um ótimo dia para mudar

I – Interesses
Envolva os seus filhos em atividades. Uma criança com interesses e que integre grupos ou equipas irá desenvolver uma série de competências, nomeadamente sociais, que serão mais valias na formação da sua personalidade, e no seu desempenho futuro.

J – Jogar
Jogue em família. Seja às cartas, ao mikado, à macaca, ou às escondidas. Além do reforço de auto-estima catapultado por esses momentos, a criança aprende a ganhar e a perder, a lidar com a vitória e com as frustrações.

K – KO
Às vezes é melhor assumir que está KO do que andar a arrastar-se e a tentar fazer programas com os miúdos. Eles vão compreender e possivelmente agradecer.

L – Limites
É essencial, na educação de uma criança, dar limites. Verá que respondem melhor do que pensa aos limites impostos.

M – Mimar
As crianças precisam de mimo. Não só mimo de afetos, mas mimo de serem “levadas ao colo”, de vez em quando. Há um dia que o seu filho não quer adormecer sozinho? Leia mais uma história, fique um bocadinho no quarto a fazer companhia. Pode estar ansioso por algum motivo. O seu filho de 8 anos pede ajuda para tomar banho? Diga-lhe que lhe faz companhia na casa de banho enquanto ele toma banho. Tal como nós, as crianças têm dias em que se sentem em baixo, e precisam do nosso mimo. Dê colo sempre que for preciso.

N – Não
É importante saber dizer não. O não ajuda a definir limites desde pequenos, e orienta a criança. Mas lembre-se: as crianças precisam de tempo e espaço para explorar. Não diga sempre que não, só porque sim, ou porque é mais fácil. Eles próprios têm de aprender a dizer não a si próprios em vez de nos perguntarem tudo.

O – Obrigado
Ensine o seu filho a ser grato. É uma das características mais positivas que um ser humano pode desenvolver.

P – Prioridades
Ensine-os a gerir prioridades. Muitas vezes não conseguimos fazer tudo o que queremos num só dia. As crianças, que dispersam com a brincadeira, têm de organizar o seu tempo gerindo prioridades.

Q – Queixinhas
As crianças começam a fazer queixinhas logo que aprendem a falar (ou até antes disso). Embora, muitas vezes, seja já um hábito queixarem-se de tudo e apontar o dedo ao irmão ou ao colega do lado, tente sempre perceber se existe algum fundamento na queixa. Não proíba nem recrimine as queixas. É importante que a criança perceba que pode e deve queixar-se aos pais de tudo o que a incomoda, desde que não seja um capricho. Se o nosso filho é vítima de bullying, nós queremos saber. Se lhes ensinamos a a não se queixarem, vão apanhar e calar. Há que conseguir encontrar aqui um meio termo.

R – Respeito
Trate os seus filhos com respeito e eles aprenderão a respeitar os outros.

S – Sonhar
As crianças nem sempre vivem com os pés assentes na terra. Sonhar pode ajudar a desenvolver a criatividade e definir objetivos.

T – Ter
Hoje em dia as crianças querem ter tudo. Mostre-lhes que o Ser é mais importante que o Ter.

U –  Uma vez não são vezes
Para todas as regras existe uma exceção. A educação, ou a forma de educar não é estanque. Tenha as suas regras definidas, mas saiba quando podem ser quebradas.

V – Valores
A tradição já não é o que era, mas os valores são para manter. Transmita valores aos seus filhos. Ensine-lhes o que deve ser valorizado. Quais os valores por que se rege? O que lhes quer transmitir? 

W – Wow
Seja expansivo. Demonstre as suas emoções, exprima-se bem, converse entusiasticamente. Não reprima emoções. As crianças criadas por pais com quociente emocional elevado desenvolvem uma consciência social mais apurada, tornando-se mais adaptáveis e mais seguras de si próprias.

X – “Xeretar”
Não fale da vida dos outros à frente dos seus filhos. Aliás, não fale da vida dos outros. Pequenos hábitos são absorvidos pelas crianças. se você estiver constantemente a “xeretar” sobre a vida alheia, descobrirá que naturalmente os seus filhos também o farão.

Y – Yes
Porque o Sim é uma palavra que devemos usar várias vezes. É um reforço positivo na personalidade da crianças. Sim, adorei o teu trabalho na escola, Sim, hoje podemos ir ao parque, Sim, gosto de ti todos os dias. Sim, sim, e sim. Use e abuse do sim. Mas nunca se esqueça de equilibrar com o Não.

Z –  Zelar
Zele sempre pelos seus filhos. Aconteça o que acontecer, eles vão precisar sempre de si.

É verdade, um dia, provavelmente, vão tentar afasta-lo. Vão exclui-lo e vão tomar decisões sozinhos. Vão achar que sabem tudo e que os pais não sabem nada. Vão querer estar na linha da frente e dar o peito às novas aventuras, amizades e experiências. Mas independentemente disso, eles sabem (têm de saber) que os pais não vão a lado nenhum. E que se “tudo” correr mal, podem sempre contar connosco.
Se for preciso, estamos lá em silêncio.
Porque é isso que os pais fazem. Educam o melhor que podem, e quando finalmente as crias ganham asas, dão-lhe espaço para voar. E aqui, rezamos, para que que se lembrem de tudo o que lhes dissemos, de tudo o que lhes ensinamos, e que saibam fazer boas escolhas.

Se tudo falhar, recebemo-los de braços abertos, ajudamo-los a sarar e a recomeçar de novo.

Esperançados, agora, que com mais maturidade, a coisa corra melhor!
Porque é isso que os pais fazem.

 

De vez em quando ainda me dizes para não abrir a porta a estranhos e para apressar o ritmo se alguém se meter comigo a caminho das aulas. Ouço-te contar que a coisa que mais gostas lá na escola é ter porteiro. Que um adulto a controlar as entradas e saídas é muito importante para uma mãe ir trabalhar descansada.

Podes confiar, mãe: lá na escola um visitante também é muito controlado. É obrigado a mostrar identificação quando chega e a levar um cartão ao peito para poder circular.

É por isso que acho que quando eles aparecem, o mundo fica de pernas para o ar. Só quero que o porteiro me deixe fugir e que apareçam visitas em cada recanto da escola. Que todas as grades se afastem para eu poder sair. Quando os vejo,  só quero tudo aquilo que tu não queres, mãe. Alguma coisa que os faça parar.

Como é que eu te vou contar isto?

Como é que eu te vou contar que é dentro desta escola com porteiro que me gozam, me batem e me maltratam por causa daquilo que tu mais gostas em mim?

Acalma-te mãe, a culpa não é nossa. O mundo, quando eles chegam, é que fica de pernas para o ar (e eu também acredita). Ser bom aluno, ter sardas no nariz e usar calças de bombazine não deve incomodar assim tanto. Às vezes gosto de pensar que a vida destes colegas deve ser mesmo muito complicada e que é por isso que andam sempre a pisar nos outros. Mas a maior parte do tempo, só sinto medo. Medo de ir para escola, medo de lá estar, medo de sair. Medo de adormecer, da noite passar depressa demais e da manhã chegar, com mais medo que me apanhem.

Lembras-te quando vocês me tiraram as rodas pequenas da bicicleta e eu deixei de andar nela, com medo de cair? Disseste que o medo podia ser bom, que deixaria de ser medo quando eu o conseguisse ultrapassar, usando a tua ajuda e um pouco de coragem.

Ouvi dizer que agora há cá na escola um programa de prevenção do bullying. No fim das aulas, se eu for corajoso, podemos falar com um professor que promete não contar nada a ninguém.

Gostava que viesses comigo. O medo ainda pode ser bom, mãe? Se contar o que eles me fazem, fosse tão fácil como pedalar sem rodinhas, amanhã até vestia as calças de bombazine.

imagem@bugaga.ru

Começo por perguntar o que é a Força? Teríamos de ter em conta os seus vários espectros e dividi-los entre o que corresponde ao físico e o que corresponde ao psicológico. Ao aspecto físico apontaríamos o óbvio: massa muscular. À psique, a definição é mais difícil. Lealdade, integridade e honestidade, talvez. Bravura, sem dúvida. Também ao sermos beijados  na face pela adversidade, o termos a capacidade de ver luz ao fundo do túnel. É sobre isso que vos vou falar. De Força e falta dela.

Não existe qualquer dúvida que o ser humano sempre foi um animal providenciado de uma certa dose de crueldade. Essa carrinha de fornecedores chegou a tempo e horas, algures no decorrer da nossa aprendizagem do Ser. É, no entanto, uma característica que tentamos afastar ao máximo das nossas vidas. Desdobramo-nos como pequenos flyers informativos e revelamos o que de melhor há em nós. Deixamos a roupa suja fora da vista dos convidados que chegam a nossa casa. É perfeitamente normal. Ninguém se apresenta juntamente com um anexo agrafado à testa contendo uma pequena lista de defeitos. No reverso da moeda, há também alguns pontífices na arte da demonstração de crueldade, arte esta que se evidência muitas vezes em idade miúda e que, por vezes, se prolonga até à idade graúda..

Há um ano atrás, na Figueira da Foz, foi filmado um vídeo que nos mostra, com exatidão, esta mesma demonstração artística por parte de duas adolescentes e um pequeno grupo de colegas seus que desenhou um pequeno perímetro em semi-círculo à volta do jovem agredido. Acredito que o vídeo não fosse exatamente classificado “para todas as idades”, portanto, recomendaria prudência ao vê-lo. É-nos mostrado uma rapariga que prontamente toma a liderança, incitando os restantes colegas a participarem interessadamente nesta actividade extra-curricular. Chapadas atrás de chapadas precedem murros e pontapés. Não passou a mais nada talvez, pois o rapaz teve o bom senso de não resistir. Atentem, neste caso sim, chamo-lhe bom senso. Imaginem que, porventura, o jovem decidia ripostar. Facilmente as coisas ganhavam outras medidas.

Outro exemplo de violência desmedida: no domingo passado em Guimarães, aquando do jogo do Benfica, um polícia ataca um adepto por, alegadamente, ter cuspido e ameaçado o agente. O filho deste adepto estava a escassos centímetros do pai, a vê-lo ser espancado e algemado. A criança ficará obviamente com estas imagens gravadas na sua cabeça. Algo que nunca desejaríamos aos nossos filhos.

O meu pensamento dirige-se mais para a análise comportamental do Homem e dos seus porquês. Quais são os requisitos necessários durante a criação de um ser humano que fazem com que estes intintos animais se sobreponham à racionalidade e civilidade. Quem somos nós enquanto  pais, filhos, professores e enquanto elementos integrantes de uma sociedade e cultura para agirmos desta forma perante os outros?

Força não é bater em alguém porque podemos. Força não é ridicularizar alguém porque temos a possibilidade de o fazer. Força não é exercer poder sobre alguém aparentemente mais frágil. A verdadeira força está em saber que não gostamos de alguém e conseguirmos respeitá-los independente disso. Força  está em saber amar sem vergonha. Força é saber olhar uma pessoa nos olhos e pedir desculpa. Força é enfrentar o erro e repará-lo. Força é saber expressar sentimento na palavra como na acção. A grandeza não está nas pernas ou nos braços. Está no coração e na mente.

Para mim, e cito, “isto é força, isto é força”.

Por Diogo Lopes, 
para Up To Lisbon Kids®

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Anda a circular um vídeo que nos dói na alma. Vemos jovens que podiam ser os nossos sobrinhos ou filhos, os filhos dos nossos vizinhos ou os colegas dos nossos filhos, a levarem a cabo um conjunto de atividades violentas. Vemos uma vítima (ou serão todos vítima?) a ser esbofeteada e esmurrada várias vezes. A sua passividade também nos inquieta. Tudo é perturbador naqueles minutos. O vídeo deixa-nos tristes, com medo, deixa-nos impotentes e revoltados. No rosto do jovem agredido ficarão marcas. Ficarão marcas também na sociedade?

Serão essas marcas capazes de nos impelir a mudar alguma coisa?

Proponho algumas notas e reflexões para nos ajudar a lidar com a situação, com o choque, com este verdadeiro “murro no estômago”:

NOTA 1 – Nas Escolas o número de Assistentes Operacionais está a diminuir. Os Professores têm cada vez mais trabalho burocrático, os Psicólogos nas Escolas são uma miragem e outros estão mal preparados. Como se fosse pouco, as exigências são cada vez maiores e há a contaminação natural das convulsões sociais típicas da crise e das crises que vivemos.

REFLEXÃO – O que podemos fazer para forçar o poder a dar mais condições às Escolas? As Escolas precisam de mais Assistentes Operacionais, mais Formação (de qualidade, claro!) para os Professores, de mais espaço para se trabalharem as competências sociais, as emoções. E como sociedade civil, o que podemos fazer para ajudar as Escolas? Quais as salas que podemos ajudar a pintar, quais as sessões de sensibilização que podemos dinamizar, quais as associações que podemos criar?

NOTA 2 – Este tipo de acontecimento surge com alguma frequência. Só que a máxima “longe da vista, longe do coração” aplica-se de forma perversa. Como foi filmado e reproduzido nas redes sociais, torna-se mais evidente. Mais real. Mas não podemos esquecer que já aconteceu outras vezes e ninguém gravou. Há números que indicam mais de mil agressões por ano a Professores, Alunos e Funcionários. Os números são assustadores, mas importa reforçar que, no geral, as Escolas conseguem proporcionar ambientes positivos.

REFLEXÃO – Este tipo de acontecimento surge independentemente do nível social ou do tipo de Escola. Devemos estar atentos aos sinais. Porque temos a ideia de que “a mim é que não”?

Não precisamos de Pais ansiosos. Não é positivo demasiada preocupação. Mas ocupemo-nos das questões. Na alegoria da caverna a realidade são as sombras. Era a visão da realidade para os prisioneiros. Libertarmo-nos da escuridão necessita de esforço, de mudança de paradigmas.
Quais são as suas verdades sombra? Porque não põe em causa as suas certezas? O seu filho nunca vai ser vítima? Nunca vai ser agressor? Refletir com conta peso e medida sobre estas questões vai faze-lo estar mais atento. Mais presente. Vai faze-lo ir mais vezes ao quarto dele quando ele estiver entretido com as coisas da Escola. Vai ajudá-lo a quebrar mais vezes o silêncio. Vai dar-lhe mais motivação para o ajudar nas áreas que por vezes não se aprendem na Escola, como a área das emoções.

NOTA 3 – A frase “para educar uma criança é preciso toda uma aldeia” faz todo o sentido.

REFLEXÃO – Mas quantas vezes nos fechamos nos nossos apartamentos, quantas vezes nos limitamos ao nosso mundinho? Quantos de nós viram a cara, se por ventura assistem a um ato desprezível perpetrado por um jovem? E quantos de nós ficamos demasiado ofendidos, quando um estranho, num local público repreende a nossa criança por estar a fazer o que, supostamente, não devia?

A agressividade nasce com o ser humano. É a Educação, o contato com a família, com os pares, é a socialização que vai dando capacidade ao jovem de escolher comportamentos não agressivos.

Onde estão aqueles pais a falhar? Ainda tive receio de usar a palavra falhar, a situação está ainda “a quente”, irmos demasiado à pressa arranjar culpados, pode ser contraproducente. No entanto, terá que se fazer, mais tarde ou mais cedo, esta reflexão.

As marcas da violência estão na cara daquele jovem. Ficarão também na sua alma? Ficarão na minha? Ou amanhã já me esqueci? Farei alguma coisa de diferente?

Um dos meus grandes desafios como Psicólogo, é dar ferramentas para ajudar os Pais ou Professores a passar à ação. Para dar um exemplo, até porque o verão está a chegar, usaremos a questão das dietas. Não basta ler o livro das dietas, é preciso começar a comer melhor. Não basta querer comer melhor, deve começar-se pela qualidade da lista de compras. Com as competências sociais é semelhante, não basta ler, há-que praticar. Há, no entanto, uma boa notícia. Se lermos bastante, se lermos com atenção, se pensarmos sobre o assunto, começamos a abrir portas à mudança. Já aconteceu comigo começar a comer legumes salteados, sem entender bem de onde tinha vindo a ideia. Passados uns dias, descobri um livro onde estava essa sugestão e uma receita de legumes salteados. Eu já tinha lido e relido. Demorou um pouco até colocar em prática, mas aconteceu.

Ajude o seu filho a compreender melhor este mundo das competências sociais, das emoções, para não ser vítima nem agressor. Impelindo-o a passar a ação, dá uma “aula prática” e desenvolve nele algumas competências. Há quatro componentes fundamentais neste mundo de emoções. Conhecê-las ajuda a prevenir a violência. Pratica-las ajuda ainda mais. Tenha atenção a elas e veja ideias de atividades para ajudar os seus filhos a praticar.

1) A emoção dá sinais. Podemos sentir o coração a bater ou o aumento da transpiração. Podemos sentir “borboletas” na barriga. Ajude o seu filho a fazer uma lista destes “sinais”. Pensem em conjunto sobre alguma situação recente em que tenham sentido essas mudanças fisiológicas. Treine-o a ouvir o corpo. Melhor, treine-o a escutar o corpo. Converse com ele sobre a diferença entre escutar e ouvir. Reflita sobre a aceleração do dia-a-dia e da forma como este ritmo pode impedir que sejamos capazes de sentir estes sinais, de ter noção destes sinais. Tentem identificar outras expressões como “borboletas” na barriga para poderem conversar sobre os significados.

2) As emoções são boas ou más. Agradáveis ou desagradáveis. Não quer dizer que sejam simples. Geralmente, o leque de emoções conhecido pelas pessoas, é reduzido. É importante aumentarmos esse leque. Assim, não ficaremos pelo “estou bem” e pelo “estou mal”. Vamos abrir o leque. O espelho da alma (ou dos centros de prazer e desprazer do cérebro) é a face.

3) As expressões faciais são capazes de denunciar as seis emoções básicas e universais. Já agora, sabe quais são as seis? Pesquise com o seu filho em sites de referência ou em livros quais são essas seis emoções. Fale-lhe da importância de estarmos atentos às expressões faciais das outras pessoas. Conte-lhes estórias de detetives e de espiões. Debata com ele a importância de sabermos a cada momento se a nossa expressão está a dizer o que estamos a sentir.

4) As emoções costumam desencadear comportamentos. Geralmente comportamentos de fuga ou aproximação. De luta ou de combate. De ternura ou agressão. As emoções estão ligadas a comportamentos. Conversem sobre os possíveis comportamentos que podem advir das diferentes emoções. Conversem sobre as formas de controlar esses comportamentos. Conversem sobre os momentos em que devemos controlar esses comportamentos e os momentos em que nos podemos deixar ir.

Por Alfredo Leite, Mundo Brilhante, 
para Up To Lisbon Kids®

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Passamos a vida a criticar o método (de vida) do vizinho. A facilidade com que se entra no bullying apenas com o intuito de ficar a olhar de “CIMA”, e de nos sentirmos seres todos poderosos. Há mesmo quem só tenha graça a falar mal dos outros.

As redes sociais vieram aumentar fenómenos de grupo perigosos. As pessoas unem-se para apontar o dedo a um pobre coitado que errou. Errou na cor das cuecas, ou na quantidade de sopa que dá aos filhos, errou porque gasta o dinheiro onde bem lhe apetece. ERROU! O estúpido ERROU!!!

E merece que todos os outros que “nunca erraram”, demonstrem desagrado e até que aproveitem para achincalhar a pessoa em questão. Depois de o verem espezinhado e completamente nu, aparecem as vozes protectoras com o intuito de demonstrar que também sabem ser bons samaritanos. No dia seguinte já ninguém se lembra de nada. Passou! Aquilo que parecia ser algo de extrema importância, deixou de ser assunto de conversa. ACABOU!

Mas, o ciclo começa de novo e repete-se vezes sem conta. Atenção! Por vezes não houve erro da parte da “vítima”, só não fez aquilo que toda a gente faz: leva os miúdos ao colégio no seu desconfortável topo de gama da ferrari; dorme em lençóis de seda de tal forma bons que quando entra na cama sai a escorregar pelos pés; convida a Madonna ou o Tony para animar a festa do filho de 3 anos; passa a vida a partilhar fotografias dos pés cheios de calos, em praias paradisíacas; não sabe andar de saltos agulha, mas anda; expôs-se demais; porque lhe pedimos a opinião e não ia de encontro à nossa… Discutir este tipo de coisas é importante! E leva-nos a … quer dizer… é bom para???? Ahhh! Exactamente! NADA! Enche-se o ego, vomita-se umas palavras lindas de morrer (muito convincentes) e dá-se umas sovas em pessoas que não são como nós. Sim, inteligente! Quando tantas vezes se escondem atrás de um ecrã, de um perfil falso ou de uma religião (que me perdoem esta da religião, mas ultimamente é com cada beata sonsa, achei que esta geração era mais evoluída neste aspecto). Apenas para poderem deitar cá para fora e inundar o mundo com toda a sua raiva e inveja. Única e exclusivamente por não conseguirem viver as suas aborrecidas vidas.

Meus amigos, não me estou a excluir… também eu já caí nesta estupidez! Partilhei a minha opinião, igual à de outras 20 pessoas… como se a minha opinião trouxesse algo de novo. Neste caso é apenas mais uma pedra que se atira! Todos temos alguma maldade dentro de nós …. é verdade. Mas também temos um lado bom que nos leva a ser auto-críticos e a descobrir estes erros que vamos cometendo.

Exigimos dos outros aquilo que nunca poderíamos exigir de nós próprios? Qual o objectivo?

“A primeira página do jornal de hoje embrulha o peixe de amanhã”

 

Imagem capa@shifter.pt

Quando era mais pequena sofri de bullying de uma suposta amiguinha – filha de umas das grandes amigas da minha mãe. Na altura chamava-se mesmo ‘levar porrada’ de ‘amigos’, e toda a gente sabia. A minha mãe dizia-me muitas vezes ‘tens que te defender, filha!’ e ás vezes ‘não me chateies mais com isto! Porque é que não lhe dás também?’ A amizade entre as duas mães, ficava muitas vezes tremida, zangavam-se porque uma dizia para a outra fazer com que filha não usasse tantas vezes as botas ortopédicas nos pontapés com que atingia a amiga, leia-se a mim. A mãe da ‘bully’ dizia ‘a tua filha em vez de fugir a chorar para fazer queixinhas, tem que se defender. Quanto mais mostra medo mais a minha lhe bate!’. Nunca me defendi, nem eu, nem as dezenas de outras crianças que a tentaram confrontar ou fugir do seu radar, mas que não escaparam das suas potentes botas ortopédicas, nem as dos seus amigos que pertenciam à sua mini gangue. Lembro-me de só estar feliz que nem uma cobarde das vezes que, ainda foram algumas graças a Deus, em que caía nas suas boas graças e, não era eu o alvo. Afinal as nossas mães eram amigas! (Ironia) Lembro-me de um dia, apresentar-lhe uma amiga, e já nem sei bem porquê, do nada, espetou-lhe um murro certeiro e quase cinematográfico no estômago. Percebi a mensagem, fiquei zangada, mas cantei baixinho. Sobrevivi, cresci e não, não estou traumatizada. Mas podia estar.

Bastantes anos mais tarde, quando me tornei mãe, decidi que iria fazer de tudo para, acima de tudo, a minha filha sentir que poderia contar comigo como mãe, amiga e que a iria proteger ou dar-lhe ‘armas’ para se defender. Não queria, contudo, ser uma mãe histérica daquelas que à menor coisa corre à escola e leva tudo à frente.
Quando a minha filha estava no primeiro ano do ensino básico, numa linda tarde de sol, estacionei o carro do lado de fora da escola. Ía busca-la para leva-la ao Ballet. Quando paro o carro viro a cabeça na direcção da escola e vejo-a, linda, com as suas amigas. O cenário era perfeito, quase que tirei uma foto. Continuei a observar aquilo que parecia um momento idílico entre crianças. De repente, e enquanto saio do carro, reparo que uma das quatro miúdas está encostada à parede, nervosa a chorar. Não é a minha filha a vitima, é uma outra menina. A minha filha não é a principal instigadora, mas está do lado a sorrir, de quem está a colocar a outra menina nervosa e chorosa. Estou em choque! A minha filha é uma bully!! Grito para dentro de mim, e fiquei para morrer!
Enquanto a menina alvo dos ataques verbais de uma, e da complacência de outras duas, foge para longe, eu sigo-as  do lado de fora da escola enquanto seguem recreio fora como se nada tivesse acontecido. Sentam-se e começam a desenhar. De repente chamo pelo seu nome, sorri-me mas eu não estou a sorrir. Vêm ao meu encontro, pergunto-lhe directamente ‘porque estava aquela menina a chorar e porque é que saiu de perto de vocês?‘ A minha filha estava encarnada que nem um tomate e perdera o piu, uma das outras fazia-se de sonsa e perguntava ‘qual menina?’. Virei-me de novo para a minha filha e disse ‘Pega nas tuas coisas temos que falar! Não vais ao Ballet hoje!’
Na volta para casa de carro, fiquei um bom tempo calada. No carro não havia a habitual música, nem os nossos desafinanços musicais. Estava triste e um pouco desapontada, mas apesar de tudo queria que confiasse o suficiente em mim e me contasse a verdade. Que admitisse e percebesse que o que fizera estava errado.
Antes de começar a falar viajei no tempo: lembrei-me de uma vez, quando eu e os meus colegas no ATL eramos vitimas de bullying psicológico e, um a um por cobardia abandonava o barco para se colocar do lado da bully e dos seus comparsas. Até que fiquei eu e uma outra colega, que resistíamos estoicamente. No final o medo tomou de novo conta de mim, e aí eu também abandonei o barco. Deixando a única verdadeira heroína do todo ATL sozinha. Não a insultei depois, nem a atacamos claro, apenas a deixamos sentir que era fraca e estava só. ‘Apenas’.
Nunca esqueci este episódio. Em que a cobardia levara o melhor de mim. Mais uma vez fora cobarde, mas a verdade é que cada vez que me lembrava de levantar a garimpa a coisa corria mal para mim. Ainda uns meses antes, tivera a brilhante ideia de insultar a bully do alto do meu prédio ‘aqui não me apanhas!‘ a ela e ao seu temível grupo. A coisa parecia esquecida, até que uns dias depois, alguém me chamou do portão da escola… cerca de dez miúdos e miúdas levantaram-se do lado de fora. Não haviam esquecido a minha ousadia, e aquilo saiu-me caro.
Mais uma vez sobrevivi. O mais estranho que possa parecer, e não sofro do síndroma de Estocolmo, mas lembro-me destas situações com algum sentido de humor. Mas não do momento em que por cobardia, traí uma coleguinha e aliei-me aos bullys.
Parei o carro, virei-me para trás e contei-lhe tudo. Disse-lhe que é horrível passar pelo que eu passei, mas que nunca devemos por cobardia aliarmo-nos a quem comete atos de bullying. Que apesar de tudo lembro-me mais do mal que fiz sendo cobarde, do que das vezes em que levei pontapés. Que não devemos ficar quietas perante a injustiça, mas muito menos cria-las. Ficou de castigo duas semanas, teve que pedir desculpa e por sua iniciativa disse às outras amigas ‘ sou vossa amiga, mas não vou concordar em fazer alguém chorar.’
Eu na altura falei com as outras duas mães, que pelo seus discursos acharam exagerado a minha reacção. Com sorrisos de soslaio diziam ‘já passou, agora vai negar tudo’. Não as critico, é bem mais fácil aceitar que são coisas de crianças. E sim, talvez eu tenha exagerado um pouco. Mas não é de pequenino, que se torce o pepino? Não podia negar o que havia observado. Claro que tendo em conta que a minha filha é uma aluna exemplar, que os professores fazem questão de elevar o facto de ter respeito pelo outro,  ter noção de justiça e de ser muito equilibrada, esta história deixou-me um bocado na dúvida… E sim dúvidei! Mas não me arrependo. Amo a minha filha, mas é um ser humano que erra, e ainda vai errar muito. Mas como plena encarregada de educação e mãe é o meu papel charmar-lhe a atenção na devida altura. Ninguém quer ser mãe de um  potencial bully.
Quando no dia seguinte passei a pente fino toda a questão, tanto auxiliares como a professora, asseguraram-me de que sou mãe de facto de uma criança exemplar e que todos os dias aconteciam coisas do género e que ‘calhava a todas, sem excepção!’
De facto, calha a todos sem excepção. A uns mais que outros. Admiro a minha filha, e às vezes temo estar a criar alguém com excesso de empatia e compaixão. Quando ao conversarmos sobre os problemas entre as amigas lhe digo ‘sabes se calhar essa menina faz isso porque ela tem imensos problemas e é insegura.’ ou ‘já pensaste que talvez ela esteja somente a chamar a atenção?
No entanto também me apercebi, porque isto da maternidade é uma aprendizagem contínua, que nós, adultos também não gostamos de todas as pessoas que passam pela nossa vida. Que também não aturamos tudo o que nos é atirado para cima. Então porque é que forçamos esses padrões que nem nós cumprimos, aos nossos filhos? Na verdade a escola é mesmo um teste para a vida adulta e em sociedade. Um mar de experiências umas boas, outras menos boas, mas é com as menos boas que aprendemos mais. Que aprendemos quem somos de verdade, ao aprendermos a reagir perante certas situações menos positivas. Que acima de tudo, devemos seguir o que é certo e nos deixa mais felizes.
Apesar de na escola ter inúmeros exemplos que nós pais educamos os filhos de formas diferentes, não vou deixar de fazer o que acho certo. Mesmo que seja remar contra a maré. Às vezes questiono-me como poderei encontrar o equilíbrio. Não quero ser mãe de uma bully, mas também não quero ser mãe de uma vitima. Quero ser mãe da minha filha, segura, justa e feliz. É então nestas alturas que a minha filha Francisca me surpreende, com a sua desenvoltura. Eu mãe mostro-lhe o caminho, ela pega no skate e por vezes caindo, vai também fazendo brilharetes.
Por Sónia Pereira de Figueiredo,
para UpTo Lisbon Kids®
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 imagem capa @motherhoodthetruth.com