Será possível vencer as birras dos nossos filhos?

As birras das crianças podem ser uma verdadeira dor de cabeça para pais e cuidadores.

Em situações mais graves as birras podem interferir significativamente no quotidiano de pais e filhos, visto que simples tarefas como ir ao supermercado podem ser uma tormenta!

É importante compreender o fenómeno das birras considerando o período desenvolvimentista em que as crianças estão.

Entre os 2 e os 5 anos é expetável que surjam algumas birras, o que se justifica em grande parte pelas características cognitivas típicas destas idades. Nesta fase o pensamento das crianças é caracterizado por algum egocentrismo, isto é, tendem a perceber as situações apenas do seu ponto de vista e não se colocam no ponto de vista das outras pessoas, nomeadamente dos pais ou demais cuidadores. Experienciam a mesma dificuldade face à capacidade para anteciparem e compreenderem os sentimentos dos outros – leitura da mente. Desta forma, as crianças centram-se nos seus próprios interesses e negligenciam as regras impostas pelos adultos.

Assim, as birras fazem parte do processo de desenvolvimento e aprendizagem de uma criança, sendo necessário estabelecer regras e limites claros que permitam estruturar o seu quotidiano e compreender o mundo que as rodeia, bem como, ajudá-las a gerir o sentimento de frustração.

Assim, deixamos aqui 10 dicas para vencer as birras.

10-dicas-para-vencer-as-birras

1.Implemente regras claras

Quando se dirige a um sítio público, apresente-lhe as consequências positivas e negativas decorrentes do seu comportamento. Antes de entrar numa loja, estabeleça contacto visual com o seu filho e exponha de forma clara o comportamento que espera e o que vai acontecer como resultado: “Quando entrarmos na loja, quero que fiques ao pé de mim. Não foges para lado nenhum. Se ficares ao pé de mim, divertimo-nos e depois tens uma recompensa. Se não ficares ao pé de mim, vais fazer uma pausa para o carro.” Confirme que o seu filho percebeu as instruções, fazendo-o repeti-las.

2. Dê apoio ao seu filho

Ao entrar num local público, comece imediatamente a comentar de modo positivo o comportamento do seu filho. “Obrigado por ficares ao pé de mim. Gostei muito.” Continue a reforçar a atitude do seu filho com frequência.

3. Seja firme

As birras das crianças podem ser muito poderosas e por diversos motivos os pais são tentados a ceder. Em lugares públicos os olhares dos outros são muitas vezes motivo de incómodo para os pais. Noutras situações de maior cansaço, ou indisponibilidade emocional para “lutar” contra as birras, a saída mais fácil parece ser mesmo ceder. Tente ser firme e consistente nas regras que implementou, caso contrário, a tendência será para que a criança tente sempre contornar as regras na esperança que os pais cedam às suas vontades.

4. Mantenha calma

Pode ser muito difícil lidar com situações de birra e a calma nem sempre prevalece. É importante que não se exalte quando o seu filho faz uma birra e que lhe dê um exemplo adequado de como gerir emoções. Se queremos que a criança aprenda a lidar com a frustração e com as emoções de valência negativa, o adulto deverá constituir um modelo de comportamento.

5. Use a pausa, se necessário

Assim que o seu filho começar a violar as regras, pode pegar-lhe na mão com firmeza e levá-lo até ao carro (ou canto da loja) para uma pausa de cinco minutos.

6. Não preste atenção à birra

Na presença duma birra, o passo essencial é não satisfazer o pedido da criança. Se o fizer, estará a dizer à criança que o seu mau comportamento lhe oferece privilégios. Em vez disso, afaste-se da criança e ignore-a. Se não for capaz de tomar esta atitude, retire a criança do espaço em que se encontra. Leve-a para casa e coloque-a numa divisão da casa sem distrações, onde possa refletir acerca do seu mau comportamento. Não lhe dê atenção, nem procure dar nenhum sermão à criança nesta altura, pois o seu estado emocional de exaltação não o vai permitir.

7. Quando a birra terminar, converse com o seu filho

Explique-lhe com clareza que este tipo de comportamentos não leva a nada. Poderá aplicar um pequeno castigo, de acordo com a regra que havia estipulado. Não ameace, aplique o castigo! Seja consistente, se não o fizer, a criança poderá aproveitar-se desse facto para obter mais recompensas. Se decidir aplicar um castigo, faça-o imediatamente a seguir ao mau comportamento. Se deixar passar muito tempo, a criança deixará de associar o castigo a esse comportamento em concreto, pelo que o castigo deixará de ter o efeito pretendido.

8. Planeie de forma adequada a sua rotina

Para evitar confusões e brigas constantes, planeie a sua rotina, e evite levar o seu filho para locais onde se desestabilize frequentemente.

9. Esteja atenta ao comportamento do seu filho

Se as birras não faziam parte do comportamento do seu filho e nota que têm vindo a surgir com mais frequência, esteja atenta! Tente perceber se algo mudou na sua rotina, no seu comportamento na escola ou noutros contextos. As birras poderão ser um reflexo de instabilidade emocional provocada por outras problemáticas.

10. Procure ajuda profissional

Se as birras assumem presença constante no vosso quotidiano, a sua frequência e intensidade já ultrapassaram o que seria normativo em termos de  desenvolvimento, até já utilizou diversas estratégias aqui apresentadas e não vê melhorias no comportamento do seu filho, o melhor será mesmo procurar aconselhamento junto de um profissional, nomeadamente de um psicólogo infantil, que o poderá ajudar a compreender as causas das birras, ajudá-lo a alcançar maior estabilidade emocional e capacidade de auto-controlo, ajudando também os pais a lidar mais eficazmente com este problema e a modificar possíveis fatores de manutenção do mesmo.

 

Artigo das Psicólogas Carla Pereira e Sandra Alves

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Sobre o desenvolvimento infantil

A teoria da geração espontânea nasce das construções dos filósofos pré-socráticos e estende-se ao longo de séculos.

A ideia da geração espontânea postula que a vida pode organizar-se e criar-se de forma espontânea. Trata-se de uma ideia há muito descomprovada e descartada, como sendo o produto de falta de rigor científico e de métodos pouco apropriados de observação.

Julgo que ninguém, isento de contaminações religiosas ou mágicas, considere a teoria da geração espontânea como aceitável.

Não obstante, na prática clínica é extremamente comum observar que os pais acreditam numa espécie de mito de uma ‘geração espontânea mental’. De acordo com esta hipótese a criança terá desenvolvido, espontaneamente, um modo de funcionamento mental desadequado. Os pais mais informados tendem a pensar que a espontaneidade da organização depende dos efeitos da carga genética. Como se a mentira, a manipulação, a regulação dos impulsos agressivos ou a regulação e elaboração da angústia tivessem origens inatas e genéticas.

As construções parentais em torno do mito da ‘esponteidade’, cumprem frequentemente uma função defensiva. A ideia de que o desenvolvimento mental é estruturado a priori constitui-se muitas vezes enquanto fuga à ideia de que os pais poderão estar envolvidos na causa dos comportamentos desadequados que observam nos seus filhos.

Ignora-se a importância da história da concepção do filho, ignoram-se as fantasias e projectos que os pais fazem em relação ao bebé imaginado, ignora-se a relação entre essas fantasias e a própria história dos pais, ignora-se a importância dos meses de gestação, ignora-se o efeito das condições do parto na estruturação do psiquismo, ignoram-se os primeiros meses de vida, ignora-se a história do desenvolvimento da criança, ignoram-se os pequenos sinais da comunicação mãe-bebé, pai-bebé, mãe-pai…

Como é possível que a história da amamentação tenha um efeito sobre a criança? De certeza que ela não se vai lembrar.

De facto a criança/adolescente/adulto não tem recordações da amamentação, ou pelo menos não as tem no sentido tradicional em que as concebemos.

Trata-se de um tipo de memória automática, inconsciente, estrutural, desligada. Não se trata de uma memória associada à evocação de imagens, mas sim uma memória que se entranha na  própria forma que temos de sentir e de pensar. É uma espécie de incorporação, de internalização, de registos relacionais.

As fases do desenvolvimento infantil são inúmeras e passam por mudanças drásticas do ponto de vista maturativo e evolutivo. Estes picos de crescimento frequentemente traduzem-se numa alteração brusca no modo de funcionamento habitual da criança.

Quando ouvimos afirmações como ‘ele não era nada assim’, devemos reflectir sobre se esse aspecto da personalidade já não se encontrava, em germe, na mente infantil.

A crença, ou o mito, que se cria em torno das origens dos modos de funcionamento mental, gira, frequentemente, em torno da ideia de que o pensamento e o comportamento têm uma base inata e constitucional. A realidade é muito mais complexa. Mesmo quando existe efectivamente uma base genética ou inata ou constitucional, ela não é condição suficiente para que certas formas de pensamento e de regulação dos impulsos se origine.

Por Dr. Fábio Veríssimo Mateus

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Importância do pai no desenvolvimento da criança

Ao longo do tempo, e de uma forma discreta, o papel da figura paterna tem vindo a passar por importantes transformações, acompanhando o desenvolvimento cultural e social. Cada vez mais se torna evidente a sua grande importância na estruturação psíquica e no desenvolvimento social emocional e cognitivo da criança.

A condição de pai evoluiu, e continua em processo de evolução, deixando cada vez mais este de ser visto apenas como suporte financeiro da família e mentor das grandes decisões. Num passado não tão longínquo assim, a função do pai focava-se essencialmente nas questões educativas e de disciplina, tendo por base um modelo frequentemente rígido e repressivo. A interacção entre pai-filho/filha, na maioria das famílias revelava-se parca em termos afetivos, particularmente nos primeiros anos de vida. Ao longo dos últimos anos o pai foi-se tornando mais participativo e emocionalmente presente na vida da criança. O número cada vez maior de mulheres no mercado de trabalho, que conquistam desta forma a sua independência, teve uma grande influência nesta importante transformação do núcleo e organização das famílias que trás, por sua vez, significativas mudanças nas relações entre homens e mulheres, assim como nos papeis parentais.

O pai e a função paterna:

O papel do pai (ou seu representante) e da função paterna no desenvolvimento da criança, quer a nível cognitivo, facilitando a capacidade de aprender, quer a nível emocional e relacional, torna-se, assim, cada vez mais evidente. As representações que um adulto possui da relação com o seu pai, desde os tempos mais precoces, ou seja, desde bebé, refletem-se na forma como este se vê, se sente e se vai relacionar com os outros.

Nos primeiros meses o pai desempenha um importante papel de suporte e reforço da díade mãe-bebé. É fundamental a sua presença no apoio e segurança emocional que proporciona e que será, inevitavelmente, sentido e reconhecido pelo bebé. Actualmente estão ainda a surgir evidências de que a interacção precoce do pai com a criança, inclusive desde o momento do nascimento, parece promover o interesse e o envolvimento de ambos nas seguintes etapas da sua vida. Posteriormente a presença do pai vai permitindo trazer e ensaiar a questão de um terceiro na relação entre a criança e a mãe, alguém que vai interferir, que vai mostrar que se pode estar a três tranquilamente, permitindo ir elaborando e transformando o medo da perda, da rejeição e da exclusão. Ao mesmo tempo que o pai abre esta possibilidade, base de um desenvolvimento social e relacional adequado, a valorização que faz da criança será fundamental para a imagem que esta terá de si própria no futuro. Um pai que investe, valoriza, está presente e se mostra disponível afectivamente está a proporcionar a construção de uma boa auto-estima e de uma personalidade mais flexível e segura. Por outro lado o pai também representa a regra, a firmeza. É necessário que seja sentido como forte, um bom exemplo de autoridade, mas também tolerante, flexível e compreensivo. Desta forma a criança interiorizará com mais facilidade a diferença entre o que deve ou não fazer, assim como o modo de agir consigo perante o erro, a infracção e a falha. Pais muito autoritários, inflexíveis e agressivos poderão estar na base de crianças que desenvolvam comportamentos desviantes (como forma de protesto ou desafio à autoridade) ou, pelo contrário, crianças muito auto-críticas, que se castigam e desvalorizam constantemente, o que terá efeitos devastadores para a sua auto-estima.

A identificação da criança com o universo do seu pai dá-se por meio da experiência da interação, quando ele aparece como interdito na relação entre mãe-filho/filha e a sua presença marca, simbolicamente, a dinâmica de rompimento necessária na infância. A presença do pai poderá facilitar, ou dificultar se não for adequada, à criança a passagem do mundo da família para o da sociedade. A ausência ou desinvestimento paterno tem potencial para gerar conflitos no desenvolvimento psicológico e cognitivo da criança, bem como influenciar o desenvolvimento de distúrbios de comportamento.

O vazio promovido pela ausência do pai, ou pelo seu desinvestimento na criança, é formado pela fantasia que esta faz (perante a sua falta) de não ser verdadeiramente amada ou ter suficiente valor para ser desejada, porque se o fosse o seu pai mostrar-se-ia presente e interessado. Esta fantasia infantil, para além de promover a auto-desvalorização, promove ainda sentimentos de culpa na criança por esta acreditar que se o pai não aparece, não existe ou não a procura é porque ela é má, não merecedora de “coisas” boas. Como se o pai refletisse uma parte do valor da criança, fosse o “medidor” desse valor. Um valor que ela tanto procura para se poder ver e sentir a si própria.

Eu quero ser como o meu pai…”  frase tantas vezes dita pelos meninos significa, eu quero sentir-me amado, valorizado, gostado pelo meu pai para poder também vir a gostar de mim. Quero poder identificar-me com ele e ver que tipo de homem poderei vir a ser. Não será estranho que as meninas queiram ser as princesas do seu pai, base de uma dinâmica um pouco diferente mas que na sua base tem um significado idêntico, eu quero ser desejada, amada, valorizada pelo meu pai para poder gostar de mim própria e ter desta forma uma ideia como vou ou não permitir que os outros homens me tratem no futuro.

As implicações da representação da figura paterna são inúmeras, complexas e importantíssimas na vida emocional da criança, menino ou menina. A par do indispensável papel da mãe, o pai  é um pilar fundamental no desenvolvimento de qualquer criança. O crescimento ao lado de pais afetivos, firmes mas que mostram apoio incondicional, conforto, proteção e tolerância permite desenvolver estruturas psíquicas mais fortes, flexíveis e seguras para enfrentar os vários obstáculos da vida, o que dá conta de uma robusta vida emocional e saúde mental.

Por Dra. Dina Cardoso

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imagem@weheartit

Era a intuição de Santo Agostinho de que as palavras são ‘etiquetas’ que servem para nomear e representar coisas no mundo por via da linguagem. As ideias de Santo Agostinho estão longe de se aproximar das noções mais contemporâneas sobre a linguagem, mas inauguram uma discussão muito interessante sobre o estatuto da ‘palavra’. Uma das concepções que julgo ser extremamente interessante, no seio da psicologia e da filosofia, é de que não existem depressões em tribos ou culturas onde não existe a palavra ‘depressão’. É como se, sem código linguístico, as experiências e coisas do mundo, não existissem.

Foi isso a que todos assistimos com o aparecimento do termo Bullying. Ele sempre existiu, e as pessoas que aqui se encontram acima dos 45 anos sabem-no muito bem (o termo Bullying só surge nos anos 70 com as investigações do psicólogo sueco Dan Olweus).

Na alçada dos eventos decorridos relativos ao Bullying, gerou-se uma onda de indignação nas redes sociais e na imprensa. Na nossa opinião, contudo, pouco se aprofundou acerca do tema. Uma boa parte das reacções iam ao encontro do aforismo ‘olho por olho, dente por dente’, os mais conservadores não se coibiram de tecer considerações parecidas com ‘miúdas a bater num rapaz!? Se fosse meu filho chegava a casa e levava mais‘. No outro extremo surgiu a opinião de um psiquiatra que afirmava que os agressores também estavam em sofrimento. Esta última afirmação, não há dúvida que suscitou muita polémica. Pareceu inconcebível à maior parte das pessoas a possibilidade de empatizar com o agressor.

A afirmação deste médico psiquiatra pode ter sido controversa, e por isso mesmo somos obrigados a reflectir sobre ela.

O que é que faz com que alguém seja agressivo? O que é que faz com que alguém desenvolva este verdadeiro sadismo moral?

Transformemos pois a afirmação deste psiquiatra numa lógica aristotélica de tipo dedutivo:

Todos os agressores sofrem
As crianças do vídeo são agressores
Logo as crianças do vídeo sofrem

Muitos contestariam desde logo com a primeira premissa pela impossibilidade de identificação ao agressor. Neste sentido, retomemos pois à questão: porque agredimos?

Habitualmente agredimos quando nos sentimos ameaçados ou quando o nosso desejo é frustrado. O facto das ameaças poderem pertencer à ordem do real ou da fantasia aumenta exponencialmente as nossas possibilidades de análise. E, de forma semelhante, a natureza dos desejos que um ser humano possa sentir é igualmente abrangente, pelo que, o nosso universo analítico torna-se praticamente infinito.

Nesta análise encontramos implícitas algumas das funções da agressividade, a saber: proteger, adquirir e castigar.

A agressividade, como os vectores, também tem uma direcção, ela pode ser dirigida para o exterior (para alguém ou alguma coisa) ou por retornar para o interior (para o corpo), habitualmente sob a forma de culpa, comportamentos de risco, auto-mutilações e até, veja-se bem, hipocondria.

Uma das dinâmicas chave da agressividade está ligada à sua possibilidade de transformação/modificação das representações mentais que temos de nós próprios e dos outros. Imaginemos o seguinte cenário (com a consciência de que não se trata de uma condição universal): os pais de uma criança são agressivos e, através da sua força e da potência, conseguem o que desejam dentro da constelação familiar. Podemos imaginar que esta criança vê frustados os seus desejos, podemos supor que estes pais causam angústia e sofrimento e que têm um impacto negativo na construção da auto-estima da criança. Uma possibilidade defensiva desta criança hipotética seria a de mobilizar a sua agressividade como forma de transformar a dinâmica das representações vítima-agressor. Nas relações com os pais e adultos, mas muito mais facilmente com os pares e ainda mais facilmente com crianças que considere mais vulneráveis, ela poderá encarnar o papel de agressor e colocar o outro no lugar de vítima. Assim fechasse a ciclo de modificação das representações mentais, a criança já não é mais a vitima-fraco e passa a ser o agressor-forte. Se esta dinâmica estiver ao serviço das defesas da criança, o trabalho terapêutico é facilitado, mas se esta agressividade está ao serviço da obtenção de prazer e se é encarada como instrumento omnipotente para obter o que se deseja, estes traços irão constituir-se como obstáculo à terapêutica. Como dizia um psicanalista argentino: ‘a verdade jamais poderá tomar o lugar do prazer’.

De forma não premeditada acabámos por introduzir o que se passa com a vítima, quando afirmámos que o agressor vai preferir pessoas que tenham características mais frágeis e que, aos seus olhos, são fracos.

Muitas vezes o agressor pode ganhar um maior sentido de potência se se inscrever num grupo de indivíduos que nutrem a mesma cultura agressiva com a qual todos se identificam. E assim, que passa a ser objecto de identificação é a idealização da agressividade como instrumento omnipotente para a obtenção do que se pretende.

A ideia de que existem traços da personalidade de uma vítima que a empurram e mantêm em situações de violência é controversa. Pensar a vítima como masoquista equivaleria e assumir esta interpretação como mais um ataque à vítima. Mas a realidade é que a natureza desconhece a moralidade, e como tal, devemos olhar, sem preconceitos para o que ela nos demonstra todos os dias.

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Não queremos cair aqui nas falácias típicas da lógica indutiva ao tornarmos universal uma verdade que apenas é encontrada em alguns casos. Nem toda a vítima é masoquista. Mas a realidade é que a investigação nos demonstra a existência de um conjunto abrangente de traços da personalidade que se encontram associados à emergência de situações de bullying.

Apesar do sofrimento não ser manifesto no agressor não podemos cair na tentação ingénua de negar a sua dor. Apesar do sofrimento ser manifesto na vítima (depressão, ansiedade, distúrbios alimentares, insónia, enurese, baixo rendimento escolar…) não podemos negar a existência de traços da personalidade que a empurram para a posição de vítima.

Estas são apenas algumas das vicissitudes das moções agressivas que se encontram nas relações de Bullying na criança e, é importante não esquecer, nos adultos. Apesar da complexidade do tema, que vai muito além do que aqui escrevemos, de uma coisa não nos podemos esquecer, existe sofrimento, desespero e agressividade em ambos vítima e agressor. Neste sentido, é urgente sensibilizar e informar o público sobre a importância das intervenções psicoterapêuticas com ambos. Se transpusermos e desvirtuarmos o dito de Michel Foucault a propósito da linguagem, aqui para o nosso projecto de sensibilização, ‘se os textos sobre bullying fossem tão ricos como as intervenções psicoterapêuticas, eles seriam o seu duplo mudo e inútil’.

Por isso se o seu filho é o terror da escola ou se o seu filho é vítima de bullying procure apoio especializado.

Dr. Fábio Veríssimo Mateus

imagem@good-citizen.org

Era uma vez uma Eva!

E isso, “ser digno de ser amado”, foi algo que Eva guardou dentro de si, cuidando e alimentando à medida que ia crescendo, no compasso de vida entre perdas e ganhos que a permitiram, com segurança, chegar à idade adulta!

Até que um dia conheceu um Adão!

Já tinha conhecido outros; uns amou, outros desamou mas, foi aprendendo nestes amores e desamores, o ritmo adequado na dança dos afectos e a batida certa no compasso das relações.

Mas este era, claramente, diferente! Não que ela precisasse de alguém que lhe mostrasse o quanto era especial nem de um olhar que refletisse a pessoa linda que ela era; vivendo sempre num registo de dentro para fora e nunca de fora para dentro, a descoberta de si própria ao longo do seu crescer, permitiu-lhe sempre nunca necessitar do outro para se preencher ou, ocupar um vazio, um vazio daqueles que muitas vezes destrói e corrói a alma de quem o sente e não permite, a quem o vive, amar-se em pleno.

Este Adão, encantava-a! Perdida nos seus pensamentos, divagando com o coração, ela olhava para ele e sentia-o seu! Não o via como o Príncipe que todas as mulheres sonham, tal conto infantil, via-o, como reza a Bíblia, como alguém de onde poderia ter sido retirada enquanto metade da sua costela!

E amou-o. Muito!

Quando lhe trazia flores; quando lhe cantava ao ouvido (era assim que ela ouvia) palavras comuns mas que soavam a especiais; quando conversavam os dois sobre tudo e sobre nada; quando se olhavam de manhã ao acordar; quando discutiam sobre coisas sérias e banais; quando se calavam e preenchiam os silêncios só com o olhar; quando se ralhavam e amavam com a intensidade permitida e sentida por ambos; quando se complementavam nas decisões que tinham que tomar ao longo do tempo que durou a relação; quando se perdoavam por momentos difíceis de suportar e quando se perdoavam, mais uma vez, pelo afastamento sentido e calado por ambos.
E mesmo quando se reencontraram na relação após anos de dispersão, de sentires e afazeres supostos a quem tem filhos e os ajuda a crescer, quando se olharam e comentaram um com o outro o quanto estavam ambos tão parecidos com os pais e quando deram as mãos enrugadas e perceberam que o percurso agora, era mesmo só a dois, amou-o ainda mais!

Até que um dia, o Adão saiu da sua vida e não voltou mais!

Eva, como sempre acontecera nesta relação tão sua e dele, sabia exatamente o que tinha acontecido! Porque o par que compunham na dança da vida, entrava sempre no ritmo e compasso certo mesmo que tropeçassem, não precisava de muitas explicações para entender o que sucedera.

Agora, neste percurso solitário perfeitamente justificável, com menos uma costela suportada por um corpo frágil, na insuportabilidade suposta, pela ausência, Eva, vivia uma saudade saudável, nas memórias construídas a dois e agora pensadas só por um, nas palavras ditas e nas que ficaram por dizer, nos relatos enfatizados pelo seu próprio reviver sem necessidade de público mas que passavam sobretudo pelo seu relembrar; Eva, vivendo de dentro para fora, nunca precisou do seu Adão para se sentir viva! Eva, viveu o seu Adão enquanto a metade que a complementava e não a que a completava; perante a sua ausência, ela não se sentia incompleta, nem só! Sentia-se viva pelo legado que ele lhe deixara, triste pela sua partida mas nunca, isso nunca, com a sensação de ter sido mal amada! E isso, era o suficiente para a manter viva! Até um dia…

Afinal, até há finais felizes!

 

eva

Ana de Ornelas

Mãe, confia em mim, vai correr tudo bem! Eu estou bem, eu sei a batalha que tenho pela frente mas, do alto dos meus baixos 18 anos penso, o que é que eu tenho a perder? Se calhar por isso, pela minha inconsciente juventude e sede de vida, pela força que vem sabe-se lá de onde, é que enfrento este cancro, não como o bicho mau de que tanto se fala, mas como o bicho bom que me vai ensinar a ser mais e melhor.

Mas tu não, mãe! Tu tens tudo a perder! Tens a perder o fôlego, tens a perder cada pedaço do teu ser, tens a perder o que te faz acordar de manhã e querer enfrentar mais um dia, tens a perder o fruto de um amor imenso, tens a perder tudo que tens na vida, a tua única e amada filha!

Podes chorar, não precisas de te esconder de mim. Podes falar ao pé de mim sobre o que vais sabendo sobre a minha doença. Sobre o pouco tempo de vida que os médicos dizem que posso ter… e que eu sei que é verdade, mas em que opto por viver como se não o soubesse. Podes falar com os meus amigos à vontade, eles, agora, fazem parte da tua família, fazem parte do pelotão que comigo combate nesta guerra desleal. Se eu penso positivo, se eu estou tão envolvida com a cura e “entretida” entre sacos de quimioterapia, períodos de sonolência, períodos de melhoras em que tento sugar todo o tutano do mundo… tu só tens pela frente o medo de perder o melhor de ti! Como é que vais lidar com os sentimentos de medo, amor, culpa, raiva, tristeza, dor, angústia e morte, que te assolam a mente a cada segundo de respiração? Acreditar para mim é mais fácil, mal tenho tempo para pensar, o relógio do tempo passa tão depressa e envolve tantos episódios, dos bons e dos maus, dos que surpreendem e dos que assustam, que nem me apercebo que pode correr mal. Para ti, por mais que seja o que mais queres, acreditar é um esforço, uma coisa que quem foi atropelada assim de repente com a notícia de poder perder o coração que tem fora do seu corpo, tem de se forçar a fazer todos os dias.

Não tens de ser a super mulher, a que conduz todo este comboio cheio de carruagens sozinha, basta seres a super mãe que tens sido até agora, a que não se importa de falhar, a que se permite a chorar mesmo que seja à minha frente, a que pode partilhar comigo os receios, as preocupações, todas as “galinhices” de mãe… e a que pode pedir ajuda para caminhar!

Quando eu estiver boa, quero que tu também estejas! Quero que estejas preparada para comemorar comigo esta taça da champions league da vida! Quero que consigas saborear, sem mais medos, sem estares sempre no sobressalto em que agora te sinto.

Lembras-te do dia em que tivemos a notícia…a Drª Sónia esteve lá, foi ela que me ajudou a ver a luz ao fundo do túnel, a manter o meu sorriso e a minha confiança e é ela que está presente cada vez que me sinto a quebrar… Acho que devias também encontrar o teu porto seguro, aquela que te ajudará a desvendar os segredos, a trabalhar os teus medos e a olhar para o futuro com olhos de quero mais! Sim, mãe, uma Psicóloga! Vais ver que te vais sentir melhor! E eu preciso de ti melhor!

Sofia, 18 anos, doente oncológica

imagem@gofundme

A avaliação psicológica, de um modo geral, é um processo de investigação sobre o funcionamento mental do sujeito. O funcionamento mental funciona como uma variável continua em constante mutação. Neste sentido, a avaliação psicológica transforma a continuidade da mente numa variável discreta, constituindo-se assim, enquanto corte no funcionamento mental do sujeito.

Existe uma certa analogia que se pode tecer entre a avaliação psicológica e as análises médicas em geral. Ambas servem o propósito de investigar, ambas produzem resultados diferentes consoante a condição actual do sujeito e ambas funcionam de acordo com critérios estatísticos.

A aplicação do mesmo teste a uma amostra alargada de uma dada população permite-nos construir um nível de ‘normalidade’; como consequência podemos também afirmar se o sujeito se encontra abaixo, muito abaixo, acima, ou muito acima do expectável para a sua faixa etária.

A avaliação da dislexia, por exemplo, funciona de acordo com os pressupostos da avaliação psicológica no geral, tendo por objectivo a investigação. E para que seja possível estabelecer este diagnóstico é necessário que se entenda o que devemos procurar.

Falemos agora um pouco deste bicho chamado “dislexia”.

A palavra dislexia deriva do grego Δυσλεξία, referindo-se a dificuldades ou a um distúrbio do processo de leitura. Neste sentido, a avaliação da dislexia deve encontrar evidência de um défice significativo na fluência e na precisão de leitura. É essencial que se obtenha por isso um nível de leitura, ou seja, devemos verificar onde se posiciona o nível da criança/adolescente/adulto, em relação a outros indivíduos da mesma faixa etária, e por tanto, nesse sentido, os testes aplicados devem ser padronizados. Encontrado o défice de leitura é necessário que se entenda o motivo do distúrbio.

Existem múltiplos factores que intervêm no processo de leitura, sendo essencial que se identifiquem quais os factores que se encontram comprometidos no sujeito, no sentido de propor uma intervenção que seja adequada.

Uma possibilidade é que o défice de leitura se deva a uma dificuldade de organização perceptiva ou de lateralização. Neste contexto o que promove a dificuldade leitura será uma distúrbio na capacidade de organizar perceptivamente o estímulo gráfico (grafema). Aqui são relativamente frequentes trocas ou substituições de letras com base na semelhança gráfica (e.g. d/p, q/d) e não na semelhança de som. Estaríamos na presença de uma Dislexia Diseidética. Uma vez que esta é uma possível explicação para o défice de leitura é necessário que sejam aplicados testes padronizados que avaliem as capacidades de organização perceptiva, coordenação mão-olho e lateralidade.

Outra possibilidade é que a dificuldade de leitura seja explicada por intervenção de um défice cognitivo. É preciso que se entenda se o défice de leitura é produto de uma dificuldade de atenção (em termos de qualidade ou de manutenção), especificamente de atenção visual, ou de memória, ou de outro qualquer tipo de função cognitiva.Se for encontrada evidência de debilidade cognitiva, regra geral, não se considera o défice de leitura como sendo produto de uma dislexia.

Este último ponto, no entanto, é controverso. Em parte porque por vezes existe um quadro de co-morbilidade entre debilidade cognitiva e dislexia, e por outro lado porque os critérios de diagnóstico da CIF (Classificação Internacional de Funcionalidade) e DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico), são pouco específicos quanto à origem do défice de leitura; pelo que, no contexto deste manuais, apenas interessa o problema manifesto, isto é, o défice de leitura propriamente dito.

Não obstante, a avaliação das capacidades cognitivas do sujeito dislexico é sempre fundamental. Não só porque permite investigar a origem das dificuldades de leitura, mas também porque esperamos que exista um perfil cognitivo típico da dislexia (QI’s normais ou superiores à média, QI verbal inferior ao QI não-verbal, capacidades espaciais > conceptualização verbal > processamento sequencial).

De um modo geral, consideramos a dislexia como produto de uma dificuldade de consciência fonológica (dislexia disfonética). Assim, mais uma vez será necessário que sejam avaliadas as capacidades de consciência fonológica, recorrendo a testes padronizados.A aplicação de uma bateria de testes que tem por objectivo o diagnóstico e o tipo de intervenção mais adequado é fundamental para que o potencial de aprendizagem seja reposto.

Por Dr. Fábio Mateus

imagem@veja.abril

“ Eu não quero crescer!

Quando crescemos tornamo-nos “maus”, deixamos de ser inocentes. Olho para o meu primo de 2 anos e fico triste de pensar que ele, coitado, vai crescer. Eu detesto fazer anos…estou quase a fazer 16 anos, e estou a crescer e é horrível!!”

Quando estas inquietações invadem a mente de uma adolescente, como armas perfurantes que picam e cortam um futuro que se desejava sonhador e brilhante, quase perdemos a fala e nos rendemos ao eco ensurdecedor de uma existência dilacerada e incompreendida. O que a I. me trouxe na forma de embrulho amachucado, escondendo uma angústia dolorosa não é novo. Infelizmente o medo de crescer tem invadido os gabinetes de consulta entre os mais pequenos e os “quase adultos já não crianças”.

“ No outro dia fui tomar café com a minha mãe e as amigas dela a um barzito/discoteca e de repente ela começou a dançar!! A dançar!! Eu passei-me e disse: O que é que tás a fazer?? – Estou a divertir-me!! (respondeu a mãe) – Mas os pais não se divertem. Os adultos não se divertem, pára com isso!

Que imagem estaremos nós a dar aos nossos filhos? Às nossas crianças? Que reflexo é este que os faz temer o seu amanhã e desejar regredir a uma dependência imatura, protectora e desajustada, como quem teme um bicho papão que nada nem ninguém deterá?

De alguma forma fica latente a ideia que andamos a alimentar “lobos maus” e “bruxas más” na nossa sombra, que nos acompanha passo a passo dentro e fora de casa, que leva à escola, dá banhos, come à mesa e (com sorte) se senta na beira das suas camas.

E explorando um pouco mais a imagem que a I. tem dos adultos, surge um reflexo gritantemente depressivo e exasperado que os adultos são “despejadores de zangas e frustrações”. A I. está longe de ser a única a expor esta hodierna concepção dos adultos que somos. Infelizmente tenho encontrado todo um abecedário que de olhos lacrimejantes e baços, espelham o medo e a incompreensão dos “lobos maus” que saíram dos livros e do imaginário e ganharam forma na realidade diária. Dos professores, aos pais, passando pela família, esse mundo dos crescidos outrora aliciante é hoje visto como uma gigantesca caverna escurecida e fria, da qual não há retorno.

E por outras linhas, já meias tremidas e apagadas é certo, podemos perceber que ser crescido parece, hoje, bem mais do que aniquilar a criança e jovem que fomos, é padecer de um mal no qual jamais cabe um sorriso que abrace, contenha e faça florescer a vontade de crescer.

Drª Joana Cloetens, Setúbal

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Existem inúmeros momentos no desenvolvimento psíquico de uma criança que deslumbram os adultos e dão conta da complexidade da mente infantil. Argumentavelmente, um dos momentos mais interessantes é quando a criança adquire a capacidade de mentir e omitir.

Na mentira a criança encontra um escape da realidade por via da expressão do desejo: ‘o meu pai construiu esta ponte’. Outras vezes evita o desprazer de ser castigado: ‘não, não fui eu que fiz‘.

Ainda outras vezes vemos as crianças completamente silenciosas (que o adulto sabe que bom sinal não será). Em princípio a omissão será uma forma específica de mentira, ao serviço do evitamento do desprazer.

Digo que estes fenómenos são, argumentavelmente, importantes não só porque assim podemos observar o desenvolvimento da moralidade na criança, mas sobretudo porque trata-se um marco importante da distinção entre o ‘eu’ e o ‘não-eu’.

Se esta diferenciação não existisse não haveria propósito na mentira, nem tampouco na omissão, uma vez que o outro, magicamente, fusionalmente, simbioticamente saberia no que estou a pensar.

Relembro o título de uma importante obra do filósofo francês Paul Ricoeur: o si-mesmo como um outro. Neste trabalho o autor mostra, à boa maneira estruturalista, como o ‘eu’ pode ser compreendido com um ‘outro’.

Obtemos assim a possibilidade de mentir de nós-para-nós. Certos pensamentos e sentimentos que acabam por ser negados, escotomizados, recalcados, reprimidos (esquecidos) ou projectados. Isto é muito evidente na clínica do adulto, mas torna-se particularmente transparente na clínica infantil.

Quais as consequências desta mentira/negação? Como se comporta então uma criança deprimida? Se está à espera de manifestações depressivas como as encontramos no adulto desengane-se. Em termos bioquímicos trata-se do mesmo padrão, o substrato orgânico mantém-se, mas o padrão comportamental não, porquê?

Antes de avançarmos para as possibilidades clínicas da depressão infantil, gostaria que o leitor reflectisse sobre as funções da depressividade.

Porque deprimimos/entristecermos? A visão pós-moderna e materialista da depressão entende-a como um erro, um desiquilibrio (neuroquímico), um estorvo. Mas se a capacidade de entristecer é comum à espécie humana (a psicologia comparativa e etologia acrescentariam ao mundo animal) não estaremos a falar de algo que faz parte da própria natureza (pelo menos) humana? Em termos darwinianos, porque raio é que está característica terá sido seleccionada naturalmente?

Talvez o génio e o estilo peculiar do psiquiatra e psicanalistas António Coimbra de Matos nos ajude a clarificar pelo menos uma das funções da depressão, a saber: tratar dos lixos tóxicos. Restituiu-se assim o verdadeiro estatuto funcional da ‘depressão’.

A depressão, bem como as suas características (no adulto) – como são a lentificação, a inércia, a introspecção e a introversão – têm, neste sentido, um significado quase digestivo, aplicado à mente. O indivíduo rumina, mastiga, digere, elabora sobre episódios difíceis. No adulto, e de forma simplista/linear, assumimos que algum episódio despertou ou precipitou no sujeito um estado depressivo (reactivo) que tem por função ‘tratar o lixo tóxico’.

No adulto este esquema torna-se possível porque tem acesso a um sistema simbólico evoluído (digestivo) – a linguagem – e pode fazer tentativas de atribuição de significado aos acontecimentos depressivos. A criança não tem a mesma sorte…

Mesmo nos casos onde observamos uma boa capacidade de articulação e de raciocínio verbal (na criança) a capacidade de atribuição de significado está comprometida, até porque, não raras vezes, o que o deprime é o que faz parte do seu contexto mais próximo – a família – e a criança, diferentemente do adulto, não lhe pode fugir nem fazer frente. Pode então mentir de si-para-si e de si-para-o-outro… negando, recalcando, reprimindo, projectando…

Neste sentido as manifestações mais típicas de depressão na infância não passam pela visão clássica – deitar-se na cama com estores fechados a chorar sem querer ver ninguém.

A visão mais clássica da depressão da infância, na realidade é contrária e extremamente diversificada: agitação muito intensa, dificuldade em manter a atenção (combinação explosiva que a psiquiatria e psicologia moderna gostam de rotular de hiperactividade com défice de atenção), comportamentos de oposição, irritabilidade, delinquência, debilidade cognitiva, confabulações, somatizações, insónias, terrores nocturnos, enurese Enfim, poder-se-à afirmar que as manifestações da depressividade na criança apanham todo o espectro conhecido da psicopatologia. Dito de outro modo, é como se as manifestações clínicas fossem construções em cima da depressão.

Dada a sua diversidade não é de espantar que, ao olhar do adulto, a depressão infantil passe despercebida, muda, amordaçada pelos sintomas satélite que orbitam à sua volta. E assim se fecha o ciclo depressivo retornando à solidão não-vista e não-sentida.

Dr. Fábio Veríssimo Mateus

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Os Direitos dos Casais. De Todos os casais

Todos os casais têm direito a se apaixonarem. Pelo menos, uma vez por semana com direito a borboletas na barriga e olhares cruzados;

Os casais têm direito a se desapaixonarem. Porque o amor segura e ampara no colo a desilusão de não ser o que estávamos à espera;

Os casais têm direito a dormir em conchinha. A tomar banho de espuma e a ousar fazer cafuné sem competir quem fez pela última vez;

Os casais têm direito ao sofá de domingo à tarde (ou à noite quando os filhos têm direito ao sofá da tarde) e a ver filmes com pipocas doces e salgadas porque normalmente todos os elementos de todos os casais têm direito a gostar de sabores diferentes nas pipocas;

Os casais têm direito à lua, ao pôr-do-sol, à estrela mais brilhante e ao “amo-te” mais profundo e genuíno;

Todos os casais têm direito à crise. Porque a crise traz mudança e porque a mudança é terapêutica e os casais têm direito à terapia se apoiar na mudança e se devolver aos casais os seus direitos;

Os casais têm direito aos abraços. Daqueles tão íntimos que, pele com pele, se tornam em amaços e se prolongarem mais um bocadinho se transformam naquela doce e terna energia que nos devolve a esperança;

Os casais têm direito a serem damas e vagabundos, todos os casais têm direito à sua própria música e ao nome gravado na árvore do parque (ou na carteira da escola…);

Todos os casais têm direito a serem os melhores amigos, daqueles que têm privilégios mas que nos momentos mais difíceis estão presentes, incondicionalmente, sem atrasos, patrões ou trânsito na 2ª circular;

Os casais têm direito a ficar juntos, se essa soma contribuir para a felicidade das partes. Se não, todos os casais têm o direito de se respeitarem nas decisões das partes para que o todo seja feliz;

Os casais têm direito a uma dança;

Todos os casais têm direito a uma contra-dança;

Os casais têm direito ao euromilhões afetivo. A ganhar jackpots de beijos e a serem milionários do amor. Porque os casais têm direito a todos os dias lutarem para que os seus direitos sejam libertados em balões vermelhos sob forma de coração. Porque no final das contas, todos os casais têm direito a apontar direito para o coração.

 

Por Dr.ª Lúcia Paço, Psicóloga e Terapeuta Familiar e de Casal

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