A importância de ouvir as nossas crianças

Hoje trago-vos um tema um pouco diferente, que sai um tanto de dentro do nosso espaço terapêutico e abre antes as portas da sala de aula e da escola, mostrando a importância que tem escutarmos as nossas crianças no seu processo de ensino e de aprendizagem.

Mas antes de chegarmos à voz delas, importa compreender alguns conceitos primeiro.

O processo de ensino

Em primeiro lugar temos de compreender que o processo de ensino e aprendizagem não é algo tão linear e direto como poderia parecer. Numa primeira visão, temos um aluno, receptor, que escuta uma fonte de conhecimento, sendo ela o professor. No entanto, esta é uma visão unidirecional e que não reflete assim tanto o que realmente acontece numa sala de aula.

O espaço/local de aprendizagem

A sala de aula, ou escola, ou mesmo em casa e ainda a terapia, são espaços compostos por indivíduos, com as suas próprias características e oportunidades de intervenção.  No caso da escola, temos os professores, com as suas próprias características cognitivas e afetivas e com os seus atos pedagógicos e currículo para aplicar. Por outro lado, temos a criança, que tem também as suas próprias características afetivas e cognitivas, e que tem as suas necessidades de participação e as suas manifestações comportamentais.

Ou seja, temos efetivamente o professor que pretende ensinar, mas depois temos de ter em conta um conjunto de processos mediadores socioafetivos, cognitivos, motores, emocionais, até se chegar à aprendizagem da criança.

Características e envolvente

Estas características, tanto da criança, como do professor, ou do espaço e do próprio currículo podem levar a situações de maior stress ou de questionamento, sendo que algumas características podemos alterar e trabalhar, mas outras não. Ou seja, podemos mudar uma criança de lugar caso ela não consiga ver o quadro, mas dificilmente conseguimos alterar um diagnóstico que traga, ou o seu envolvimento social e económico.

Mais importante ainda, temos algumas questões que são visíveis e que reparamos logo, como por exemplo a criança ter uma cadeira de rodas, ou não vir asseada de casa, ou mesmo chegar notoriamente com fome; mas há questões que não são visíveis, que continuam a ser de extrema importância, como a briga que a criança assistiu antes de chegar à escola, ou a medicação que tem de tomar, algum diagnóstico relacionado com o seu comportamento, ou mesmo uma dificuldade que tenha na aprendizagem, e que se sinta inibida de dizer.

Neste caso, nós, enquanto adultos ou professores, temos várias escolhas.

Ser diretivo ou ouvir as crianças

Podemos optar por um processo mais fechado em que não partilhamos objetivos, em que decidimos tarefas e tempos, em que somos diretivos e em que decidimos tudo. Ou por outro lado, podemos optar por ouvir o que as crianças têm a dizer sobre as suas próprias histórias, dificuldades ou formas de alcançar os objetivos propostos.

Esta escolha, que não é linear e que não se situa no preto ou no branco, pode ser vista como uma opção por levar a criança a ser o foco do processo de ensino e aprendizagem, aumentando a sua motivação para a escola ou para a aprendizagem, e ainda tornando a mesma significativa para ela.

Criar objetivos em conjunto com as crianças

Assim, partilhando com a criança os objetivos que pretendemos que esta alcance e partilhando a tomada de decisões neste processo de ensino e aprendizagem, temos a oportunidade de apresentar tarefas que são mais desafiantes e diversificadas. Oferecemos opções de escolha e promovemos a autonomia e liderança da criança dentro do seu próprio desenvolvimento. Por outro lado, temos um processo de feedback que é individualizado e não por comparação. Aqui a própria criança também pode entrar e permite que o professor, pai, auxiliar ou terapeuta vão, junto com a criança, ajustar os objetivos intermédios e atividades consoante as suas próprias capacidades e necessidades.

Claro que este processo é um desafio, e claro que muitas vezes as próprias infraestruturas ou sistemas colocam em causa esta alteração. Mas pensemos, serve de muito pouco ensinar uma criança a escrever, se ela não vir a possibilidade que tal abre para a criação das suas próprias histórias. Serve de muito pouco aprender os números se a criança não conseguir contar as suas conquistas. E serve de muito pouco mandar uma criança sentar-se e calar-se, quando falamos do seu caminho e da sua história.

Por isso, fica o desafio:

Que consigamos ultrapassar-nos e ouvir as nossas crianças sobre algo que nos interessa mutuamente, o seu crescimento.

 

Image by mozlase__ on Pixabay 

Educamos para a igualdade?

Vamos contar-vos um episódio.

No outro dia fomos assistir a um jogo de hóquei em patins de seniores masculinos da 1ª divisão, cheio de emoção, e com os nervos à flor da pele. Era um jogo diferente do habitual: um dos dois árbitros que estavam no centro do pavilhão, era uma mulher. Existiram golos, existiram faltas, existiram calafrios por quase golos, no entanto, houve algo que não estávamos à espera de ouvir.

Já quase no final do jogo, a árbitra apita para assinalar uma falta. E, imediatamente, salta um senhor muito exaltado com a falta, que grita: ’vai é lavar loiça’. Todos nós já dissemos coisas exaltadas e estapafúrdias no calor do momento. Mas o que nos preocupa, é que na realidade, isto é o que acredita uma grande maioria das pessoas, que a mulher que estava a arbitrar bem podia estar em casa a lavar a loiça. Que a arbitragem devia estar exclusivamente destinada aos homens.

Este é um dos exemplos, que nos alerta, para a desigualdade entre as mulheres e os homens, e esta é uma preocupação cada vez mais urgente.

Sabemos que há crenças que culturalmente estão enraizadas, no entanto, ficamos apreensivas, pois uma grande quantidade de crianças que estavam a assistir ao jogo e diariamente, não só em contexto desportivo, como no seu dia-a-dia, continuam a crescer com estas crenças. Assim, crescem com a concepção que a desigualdade – nos seus mais amplos contextos – é normal.

Não são educadas para os valores, para se questionarem, para respeitar o outro. Assim, continuamos a criar uma sociedade desigual que promove a violência, ora contra as mulheres, ora contra os mais desfavorecidos e mais frágeis.

Se queremos igualdade, temos de educar para a igualdade e temos de praticar a igualdade no nosso dia-a-dia.

Continuamos a ver meninos a menosprezar meninas, continuamos a ver crianças bater sistematicamente noutras crianças, porque os sentem como mais frágeis, continuamos a assistir a violência doméstica, em qualquer dos sentidos. E no fundo, tudo isto é reflexo de violência.

Preocupa-nos que cada vez mais, assistamos, nos mais diversos contextos, a violência de forma clara e manifesta, que em nenhuma circunstância é positiva ou protetora.

Trata-se de termos consciência que as crianças absorvem tudo aquilo que vivenciam. Se, por exemplo, apenas dizemos que o mundo deve ser igual para meninos e para meninas, e não o colocarmos por acções, continuaremos sistematicamente a assistir a desigualdades.

É importante que as meninas também possam jogar à bola e os meninos brincar aos pais e as mães, se for esse o seu desejo.

É importante que a violência doméstica – quer sobre homens quer sobre mulheres – seja amplamente punida e que haja medidas de protecção robustas a todas as crianças que assistem a esses episódio.

É importante que, em cada criança, haja a noção que todas as outras, independentemente de serem meninos ou meninas, independentemente da classe social ou etnia, têm direitos e têm valor.

E é importante que todos nós exerçamos uma função reguladora e protetora sempre que assistimos a episódios de discriminação ou violência em qualquer que seja o contexto. Só assim, podemos almejar um futuro igual para todos.

 

Por Cátia Lopo e Sara Almeida para Up To Kids®

 

Image by mcconnmama on Pixabay

A bronquiolite é uma inflamação da parte terminal do aparelho respiratório (bronquíolos) e geralmente é causada por uma infecção vírica.

 

No nosso país é extremamente comum, com um claro pico de incidência entre Janeiro e Fevereiro. É uma causa frequente de internamentos, particularmente em crianças pequenas e na maior parte dos casos não é uma doença muito grave (embora haja algumas excepções, principalmente quando estão presentes factores de risco, tais como a prematuridade, o baixo peso ao nascer e o convívio com outras crianças, entre outros).

Afecta crianças até aos 2 anos de idade e caracteriza-se por uma combinação variável dos seguintes sinais e sintomas:

  • dificuldade respiratória
  • “chiadeira” a respirar (espécie de “assobio” que se ouve na expiração)
  • tosse
  • dificuldade na alimentação
  • apneias (paragens respiratórias), particularmente em bebés pequenos
  • febre, geralmente baixa

 

Neste momento, o tratamento das bronquiolite é um tema de grande controvérsia em Pediatria. A maior parte dos estudos não comprovam a eficácia das nebulizações ou outros medicamentos, o que nos coloca com um problema para resolver: o que fazer?

Na prática, é costume testar-se as nebulizações e, por vezes, medicamentos da família da cortisona, pois muitas vezes aliviam parcialmente os sintomas e tranquilizam um pouco as crianças (e os pais!).

Os critérios de internamento para esta situação são os seguintes:

  • falta de oxigénio no sangue
  • dificuldade respiratória significativa
  • bebés pequenos (abaixo dos 3 meses de idade)
  • dificuldades marcadas na alimentação
  • ansiedade dos pais (esta é uma questão polémica, mas é sempre importante perceber se os pais estão capazes de lidar com o filho doente; se não estiverem, é preferível internar 1-2 dias e ensiná-los a lidar com esta situação)

Por fim, quero deixar apenas uma palavra para a relação entre bronquiolite e asma.

 

É também um tema que suscitou grandes debates há uns anos e neste momento parece mais ou menos consensual que a bronquiolite não pode evoluir para asma. No entanto, por vezes o primeiro episódio de falta de ar de um asmático pode ser falsamente rotulado de “bronquiolite”. Com o tempo essas crises vão-se repetindo e, a posteriori, percebe-se que afinal já era uma asma desde o início (só o tempo dá essa resposta).

Por um Carnaval mais ecológico

No ano passado, como relatei num texto publicado há uns meses, um colega da minha filha ficou aflito quando lhe entregaram para a mão confetis no desfile de Carnaval para atirar ao ar.

O lixo não é para atirar para o chão, dizia ele – e com toda a razão.

A preocupação era legítima mas fizemos aquilo que tantas vezes fazemos enquanto adultos – arranjamos excepções para as regras por nós criadas.

No final dos desfiles de Carnaval fica o lixo. Papéis e mais papéis, garrafas e copos descartáveis espalhados pelas ruas por esse Portugal (mundo) fora.

Fala-se tanto da sustentabilidade do planeta, nas alterações que devemos introduzir no nosso dia-a-dia, e por que não aproveitar estas situações para criar a mudança?

Este ano, e em homenagem a esse colega da minha filha, decidimos fazer diferente. Decidimos tornar o carnaval mais ecológico.

Em vez de comprarmos confetis de papel vamos fazê-los usando outros recursos da própria natureza que não resultam do abate de árvores.


Apanhámos, durante alguns dias, folhas caídas no chão do jardim e nas ruas por onde fomos passando.

Aproveitámos para escolher folhas de várias cores, umas mais secas que outras, para podermos ter confetis coloridos.

Em casa lavámos as folhas que precisavam, por causa da terra, e deixámos ao sol a secar.

Fomos buscar o furador de papel cá de casa e a Mariana o seu cortador em forma de estrela.

Em vez de ligarmos a televisão nos finais de tarde de chuva juntámos todas as folhas e furámos uma a uma com o cortador e o furador.

É um trabalho que demora tempo, é certo, para ficarmos com uma quantidade de confetis considerável. E os miúdos acabam por se fartar, de acordo.

Mas os dez minutos em que eles ficam parados a fazerem uma coisa para seu próprio benefício e que sabem que é bom para o planeta é de um valor inestimável.

Falámos do abate de árvores. De como é importante reciclar papel e utilizar coisas que sejam produzidas recorrendo a materiais reciclados. Falámos das espécies animais que estão a ficar sem casa e, por isso, a desaparecer por não terem onde viver. Falámos do lixo que as pessoas continuam a mandar para o chão, para a sanita, para o mar. E do fim de outras espécies que estão a sofrer por causa disso.

Falámos do nosso caso, em que temos cuidados importantes.

Reduzimos os plásticos ao mínimo. Não usamos praticamente plásticos de utilização única, com excepção para os sacos do lixo (em que mesmo assim usamos marcas que usam materiais reciclados). Reciclamos todas as embalagens e nas compras usamos sacos de pano para comprar frutas e legumes. Estamos a comprar menos roupa (por causa dos danos que a indústria do algodão provoca no ambiente e na água, já para não falar da quantidade impressionante de água que é necessária para produzir uns simples jeans), usando os recursos durante mais tempo e cedendo cada vez menos às compras por impulso e de mero consumismo.

Estamos a fazer a nossa parte. E a geração dos nossos miúdos vai enfrentar problemas graves se não acelerarmos a cura do planeta. É uma geração mais consciente, com mais opções mas também mais responsabilidades.

Acho que estamos no bom caminho.

Cá por casa (e esperamos que em algumas outras depois de lerem este texto) vamos lançar ao ar confetis coloridos feitos com amor e provenientes de folhas caídas. Que serão lixo orgânico.

A ideia foi apresentada na escola e pelo menos na sala da minha filha vão fazer o mesmo. Só o impacto de menos lixo proveniente de trinta mini pessoas é um começo.

Um passo de cada vez.

Juntos.

Por um mundo melhor.

A ti que opinaste sobre o comportamento das minhas filhas com autismo

Primeiro que tudo, deixa-me tratar-te por “tu”, já que a partir do momento em que te achas em condições de opinar sobre o que quer que seja da minha vida ou, mais especificamente da das minhas filhas sem nos conheceres de lado nenhum, pressupõe um nível de familiaridade que, na nossa língua, se traduz num tratamento pela 2ª pessoa do singular.

Sabes, não sou a mãe perfeita.

Não sou a mãe zen. Não sou a mãe devoradora de livros e manuais e estudos e artigos escritos pelo Dr. A em articulação com a Universidade C em compadrio com o dr. B, vendido pela editora X.

Não sou a mãe imaculadamente bem vestida com criancinhas tratadas por “você” com nomes coquettes. Não sou a mãe exemplo.

Vou dizer-te que tipo de mãe sou:

sou a mãe que consigo ser com todas as minhas forças, dedicação, paixão, amor, que cada célula viva ou morta do meu corpo, da minha mente, da minha alma possa transmitir.

Sou a mãe que se esforça para poder proporcionar o melhor da vida às suas filhas – e isso não implica dinheiro ou bens! Quero apenas que sejam felizes, capazes, autónomas, resistentes, resilientes, justas.

Sou a mãe que não desiste mesmo quando tudo indica que é melhor parar por ali. Ou quando algum iluminado diz que “se calhar, não será capaz de…” ou “é melhor evitar…”.

Sou a mãe que lhes saiu na rifa, com tudo o que de bom e de mau há nisso.

Sou mãe até ao âmago, sem tirar nem pôr.

Sou a mãe devoradora de livros, artigos dos Dr. X, Y e Z numa determinada especialidade, da qual já te falarei.

Portanto, quando passas por mim e estou, como habitualmente, acompanhada pelas minhas filhas e me ouves falar com elas de forma autoritária, quase à Cesar do “Dog Whisperer”, e paras propositadamente, fingindo-te de ocupado, para ouvir tal sermão, não sabes nem sonhas nem tens a mínima ideia do que originou essa situação e, sem esse sermão, que consequência poderá advir daí.

Falta-te o contexto. Ou seja, tudo o que envolve aquele momento. Todo o seu background para que possas compreender, em pleno e no seu todo, e assimilar aquilo que ouves. Mas, como te falta essa base, aquilo que fazes é ouvir, julgar, tomar notas e, muitas das vezes, abrir essa tua boca de onde brotam os mais absurdos disparates. Ou mais grave ainda, frases feitas e clichés pseudodidáticos em tom de brincadeira, como se, naquele momento, eu estivesse louca de vontade de me atirar ao chão a rir.

Quando assistes a uma birra de miúdas de 8 anos que choram e berram e gritam por um motivo, para ti, tão irrisório, como não terem tido um brinquedo ou um bolo que queriam, não assumas o que te vem de imediato à cabeça e não a acenes como se tivesses Parkinson.

É feio e fica-te mal.

Vou explicar-te uma coisa:

cada indivíduo, desde o seu nascimento, tem mecanismos de regulação internos que o auxiliam a acalmar-se, a combater a ansiedade, a reconhecer padrões neurológicos, a regular a sua emoção, os seus estados de agitação e vigília. Alguns indivíduos têm essa função – chamemos-lhe assim – tão bem conectada que são pessoas extremamente pacíficas, serenas e calmas. Outras têm mais dificuldade em conseguir esse tipo de regulação e podem até mostrar alguma agitação, ansiedade, ter um ou outro vício como roer as unhas ou fumar. Outras não possuem reguladores tão bem interligados e é aí que se inserem as minhas filhas bem como tantas outras crianças, jovens e adultos.

São indivíduos que têm Autismo ou uma Perturbação do Espectro do Autismo.

E, além de muitas outras coisas associadas, uma das suas maiores e mais evidentes dificuldades em todos eles é alcançar um nível de regulação saudável e funcional e manter esse nível. Consegues compreender esta simples explicação?

Aquele “espetáculo”, como lhe chamas em surdina soprada de modo a que eu ouça, é um efeito avassalador e desgastante da ausência e dificuldade de autorregulação para elas e para mim, a mãe. E para o pai também. Porque, sabes, apesar de termos muitos homens armados em machos latinos por cá, os verdadeiros pais sofrem com e pelos filhos. É-lhes, a elas, complicado entender e assimilar de uma só vez a informação de que há coisas que nos escapam ao controlo e que não podemos, nem devemos, nem é saudável fazermos as mesmas coisas sempre da mesma maneira. Porque o mundo e a sociedade simplesmente não funcionam assim.

Apesar de elas não gostarem nem saberem lidar com isso, eu – a tal mãe que criticas – tenho que as preparar para esse mundo.  Tenho que lhes dizer “não” à rotina do donuts com chocolate de cada vez que vamos ao Lidl e não ao mini-brinquedo caríssimo que só existe naquela determinada loja e é sempre ali que se compra, por hábito. E, deixa-me dizer-te que, muitas vezes, basta uma vez para se tornar um hábito – é um bocado como fumar, percebes?

Vês-me de cara fechada e de nariz arrebitado, com ar arrogante até, a sair do shopping ou do hipermercado em passo certo com duas crianças a gritar desalmadamente.

Às vezes, vais ouvir-me zangar-me com elas. Outras vezes vais ver-me ignorá-las enquanto elas gritam cada vez mais.

O que tu não vês é as lágrimas a subirem-me aos olhos. Não vês os meus ouvidos a apanharem todas as vossas bocas e indiretas. Os gestos dos vossos filhos a apontar descaradamente para as minhas filhas e a terem comportamentos piores que o delas.

Não vês o meu olhar periférico a captar todas as vossas expressões faciais – que elas não compreendem nem interpretam (também é uma das coisas inerentes ao autismo) mas eu interpreto muitíssimo bem.

O que tu não vês nem ouves, sou eu, com a calma que me é possível, colocá-las no carro e ensiná-las, ainda que entre berros e uma agitação motora descomunal e esperneares impossíveis que, muitas vezes, me magoam fisicamente.

A vida é feita de ações e que cada ação tem consequências.

Por vezes, essas consequências podem ser um castigo por terem sido incapazes de se controlar um bocadinho mais. Ou não terem pedido para sair quando sentiam uma birra a chegar. Ou até por terem cedido à ansiedade quando até já aprenderam uma ou outra estratégia para a controlar.

Imagina-te a treinar uma equipa de futsal (porque talvez 11 jogadores seja demais para ti). A formação que treinaste com a equipa desaparece em campo em pleno jogo e, por muito que grites e ralhes e ameaces nada volta ao controlo. A culpa não foi tua mas sim da vespa que entrou / do chão demasiado encerado / do capitão de equipa que naquele dia se zangou com o seu amigo e quer dar-lhe uma abada. Escolhe.

O que tu não vês – porque não te interessa nem estás lá para  ver – é o ar de cansaço que se abate subitamente nessa mãe e nessas crianças. Que, segundos depois, já reguladas devido ao ambiente familiar e semiobscuro do carro e (aparente) calma da mãe, já se parecem com as demais crianças daquela idade.

Quando me apontas o dedo, quando comentas algo com a pessoa que vai contigo, quando permites que o teu filho mais velho faça cenas do género tapar os ouvidos e dizer que é pior que as birras do irmão mais novo, odeio-te. E penso que te faria bem passares pelo que eu passo.

Afinal, tens filhos neurotípicos (é o rótulo que damos aos “normais”) e eu não.

Mas, no segundo seguinte, ocorre-me que não é esta a mensagem que eu quero transmitir ao universo:

desejo que nunca venhas a conhecer a dor que é querer ajudar um filho e não saber nem perceber como e, em 90% das vezes, ires às adivinhas. Não te odeio, lamento-te… lamento que não tenhas mais discernimento para pensar além do que com os teus olhos vês. E fico feliz por me dares a oportunidade de fazer, eu própria, a minha comparação com os teus filhos: as minhas filhas com autismo são bem educadas. Não posso nem quero desperdiçar a minha energia contigo porque, talvez já tenhas reparado, eu preciso dela para me dedicar ao que é realmente importante para mim – as minhas filhas. E, felizmente, nesse campo, o treinador sou eu e tu e as tuas opiniões descontextualizadas e inconscientes valem zero.

Antes de terminar, deixa-me só dizer-te mais umas coisas:

Tolerância, inclusão, sociabilização.

Não gosto do teu perfume / aspeto de tia de cascais / de gordo desleixado / dos teus filhos a apontarem dedos mas tolero e não faço nem digo nada que te possa magoar, não são contas do meu rosário. Ajudo-te se vir que precisas.

Não me agrada mesmo nada que te sentes na mesa ao lado e metas conversa comigo ou com as minhas filhas, mas somos todos diferentes e, apesar do teu olhar estrábico ou de seres obeso, eu não te rejeito pelo teu aspeto nem pela tua deficiência, acolho-te e incluo-te naquele meu espaço. Dou aulas aos teus filhos sem nunca deixar que as suas ações interfiram com o meu profissionalismo; mesmo que não te agrade – e, acredita, é mútuo – levares comigo e com as minhas filhas, eu não vou desistir de sair com elas, de tomar café com elas, de ir às compras com elas, de as ensinar a atravessar a estrada porque sociabilizar é também aprender a conviver em sociedade e ser-se tolerante e inclusivo.

Reparaste como estas coisas funcionam como um ciclo?

Observa em vez de veres apenas.

Todos nós nascemos com um cérebro: usa-o, é uma app biológica gratuita!

E, mais importante, arranja uma vida em vez de te preocupares com a minha.

Photo by Eli DeFaria on Unsplash

Quase nunca me sinto cansado.

O mundo é um sítio enorme, cheio de coisas para descobrir, mas… tenho de ir para o colégio. Lá, tenho de fazer coisas que, às vezes, não me apetece nada.

Prefiro mil vezes brincar no recreio.

Eu sei que custa a acreditar, mas eu bem que quero e tento passar a matéria do quadro, só que é sempre nessa altura que tudo acontece. O meu colega do lado começa a conversar comigo, lá fora um carro apitou, ouço o Manel a falar baixinho lá atrás, um lápis caiu no chão, eu distraio-me e… Pronto! Quando volto a olhar para o quadro, já não sei onde é que eu ia. Fico baralhado e demoro a achar em que parte fiquei. Entretanto, já todos acabaram de passar a matéria, menos eu. Fico chateado…

A professora costuma dizer: – João, já acabaste de passar a matéria? Preciso de apagar o quadro!

Custa-me prestar atenção à aula e ao que a professora diz.

Ela pede-me para eu ser mais organizado com o material, mais atento à explicação da matéria, mas… Uma coisa é certa: concordo que me mexo muito, levanto-me da cadeira várias vezes, faço barulho com o lápis, falo muito e atrapalho a aula.

Acontecem-me quase sempre duas coisas: ou faço as coisas mal feitas porque quero fazê-las o mais depressa possível para ser o primeiro a acabar, ou então até quero fazer tudo bem feitinho e até ao fim, mas… não consigo! Começam os comentários: “preguiçoso”, “não te esforças”… Às vezes parece que ninguém me entende.

Por mais que eu tente, não consigo prestar atenção e terminar as tarefas tão bem como os outros. Como eu gostaria… A sério!

Quando estou com os meus amigos e vem à baila a matéria da aula, começam a rir. Às vezes até me chamam “totó”. Todos acham imensa graça… menos eu!

Quando estou na sala, sentado sozinho na mesa, sem perceber nada do que a professora está a dizer, começo a roer o lápis, a desmontar as canetas, a fazer desenhinhos no livro, a dobrar as pontas das folhas do caderno e a mexer com os pés sem parar.

Acho que preciso de estar em movimento para me sentir melhor.

A professora até diz que parece que tenho um tal de “bicho carpinteiro” no corpo. Às vezes também pergunta se a cadeira tem formigas porque não paro sossegado. Já reparei que quando a professora me faz uma pergunta eu respondo imediatamente. Na verdade, às vezes até respondo antes de ouvir a pergunta até ao fim. E só quando estou a responder é que reparo que não era nada daquilo…

E quando é para escrever? É complicado… Eu bem que gostaria de não ter de escrever aquilo tudo. Custa tanto!

Vou confessar um segredo: acho muito mais interessante ver o que se está a passar fora da sala de aula. Pela janela, vejo as folhas das árvores a balançarem, as nuvens a andar e o passarinho a voar. Pela porta, vejo quem está a passar no corredor.

Fico triste, irritado e confuso porque sei que as pessoas às vezes ficam cansadas de mim.

A minha professora já escreveu vários recados na agenda para a minha mãe: “ O João não fez os trabalhos de casa!”, “O João não trouxe o material”, “O João…”. Diz que sou distraído, que quando vou no corredor não olho por onde ando, que deixo cair as coisas das mãos, que vivo “no mundo da lua”. Fico triste. Às vezes tento disfarçar, finjo que não ligo… mas não é verdade!

Um dia, gostaria que todos dissessem: “- Olha, o João foi top! “ – Ah, como eu gostaria de ser top a fazer uma tarefa da escola. Lá em casa não é muito diferente da escola. Quando alguém faz alguma coisa de errado… “Foi o João!” E na verdade fui mesmo. Sei que não sou tão cuidadoso como deveria ser. Quando dou por mim… já fiz! E quando chega a hora de fazer os trabalhos de casa? É mau. A minha mãe começa a dizer para eu ir fazer os trabalhos de casa, eu enrolo, digo que vou já fazer, enrolo mais um bocadinho, digo que vou agora, ainda consigo arranjar mais uma desculpa, até ao ponto de ela ficar irritada e perder a paciência. Uma vez até fez o trabalho por mim… mas a professora percebeu logo!

Chegou um dia que a professora chamou os meus pais à escola e aconselhou-os a levar-me a um psicólogo porque ele poderia ajudar-me. Claro que disse logo que não. Fiquei com medo que os meus colegas inventassem mais um apelido. Mas… não tive saída. Lá fui, e até gostei, senti-me mais tranquilo! Conversou comigo e pediu-me para fazer umas coisas.

Então, num outro dia, o psicólogo chamou os meus pais e recomendou que eu fosse a um médico.

Pensei: “Será que estou doente?”. Quando cheguei lá, o médico falou comigo, fez-me muitas perguntas e até me pediu para fazer umas coisas também. Bem simpático! Ele disse que eu tinha dificuldade em prestar atenção e em ficar quieto e até disse como é que isso se chamava, mas é um nome tão comprido que eu não me lembro agora. Aliás, o psicólogo e o médico disseram que eu sou um miúdo inteligente. Como eu gostaria que os meus amigos tivessem ouvido!

Às vezes fico a pensar: Mas porque é que eu não consigo prestar atenção e fazer as tarefas se sou inteligente? Porque é que eu consigo passar horas infinitas em frente à televisão? Porque é que eu consigo jogar tão bem no computador e até ganhar ao Duarte?

A verdade é que me sinto melhor desde que todos me estão a ajudar: a minha família, a minha professora, o psicólogo e o médico. E eu estou a fazer o melhor que posso: a minha letra melhorou, já consigo prestar mais atenção, agora penso mais antes de fazer alguma coisa. Às vezes relaxo um bocadinho, mas depois esforço-me e continuo. Um dia, já nem sequer irei lembrar-me da frase: “- João, já acabaste de passar a matéria? Preciso de apagar o quadro!”.

Esta história é para ti

A ti: A história do João foi escrita para ti. O João conta coisas que sabes melhor do que ninguém. Por exemplo, como é ter aquilo que tem um nome mais difícil e comprido que “otorrinolaringologista”, a “perturbaçãodehiperatividadecomdéficedeatenção”.

De certeza que já te passou pela cabeça conversar com os teus pais, com a tua professora, ou com um profissional sobre como é difícil prestar atenção ou permanecer quieto. Poderás ler a história com eles, contar-lhes no que te pareces com o João e no que és diferente dele, e fazer-lhes todas as perguntas sobre as tuas dúvidas.

A história do João poderá ajudar-te a ter essa conversa!

Photo by Eddie Kopp on Unsplash

As histórias que ouvia…

Ultimamente tenho me interessado muito pelas histórias tradicionais e as de tradição oral. São contos que sobreviveram ao longo dos tempos, que foram sendo contados de geração em geração e que de alguma forma conseguiram sobreviver até aos nossos dias e são muito importantes. Quem não conhece uma história que ouviu contar quando era criança devia procurar rapidamente alguém mais velho e pedir que lhe conte uma. Todos os adultos devem conhecer pelo menos uma história do antigamente para que estas possam chegar ao futuro.

“Mas as histórias tradicionais nos tempos de hoje já estão desatualizadas! Porquê contá-las?”

É dos comentários que mais ouço, especialmente da parte dos pais. Eu digo-vos que a forma de escutar essas histórias é diferente hoje em dia, mas a essência não mudou. Elas continuam a servir para aproximar as crianças de sentimentos e de vivências no plano da imaginação para estas depois saberem lidar com eles na realidade. As histórias preparam-nas para a vida e as suas personagens como as bruxas, os lobos, os ogres e outras, têm uma função muito importante, que é a de estabelecer uma limitação entre o mundo das coisas reais e o das imaginárias.

Isto da tradição oral tem ainda muito que se lhe diga…

Diz o sábio povo que “quem conta um conto aumenta um ponto” e no caso das histórias tradicionais ainda bem! A história raramente é recontada tal como nós a ouvimos. Há uma coisa chamada imaginação que nos leva a acrescentar ou retirar algo da história quando a recontamos. Por isso há tantas versões diferentes das mesmas histórias de tradição oral. Nalguns casos é com mais intenção do que outros.

Por exemplo Gianni Rodari (Jornalista, escritor e pedagogo nas décadas de 60 e 70) brinca com as histórias tradicionais baralhando-as ou alterando-as com um fim especificamente terapêutico e lúdico. Ele defendia que pessoas diferentes podem levar as histórias por caminhos diferentes e até mensagens diferentes. E este para mim é a beleza e o poder das histórias de tradição oral.

Na falta de melhores palavras para terminar este texto, peço emprestadas as do Eduardo Sá quando diz “(…) as histórias dão-lhes a História (que faz com que se chegue, no mesmo instante, ao passado e ao futuro)”.

Boas leituras, tradicionais e não só…

A timidez nas crianças

Encontramos muitos pais que se questionam e preocupam com a timidez dos seus filhos. Dizem que os filhos não conseguem olhar nos olhos, que qualquer palavra só tirada a ferros. Que estão muito metidos consigo próprios. Que não conseguem falar com estranhos, nem mesmo num café para simplesmente pedirem a sua torrada… Um conjunto infindável de pequenas grandes coisas que vão condicionando a vida dessas crianças e preocupando os seus pais.

O que afinal a timidez?

A timidez pode ser definida como um desconforto ou inibição em situações de interação pessoal, que interferem na concretização de objetivos pessoais, profissionais ou sociais.

Pode comprometer de forma significativa a realização pessoal. Constitui-se num fator de empobrecimento da qualidade de vida, mas, por si mesma, não é considerada como uma perturbação.

Passa a ser problemática quando inviabiliza o normal funcionamento da pessoa, das suas atividades, compromete relações pessoais e diminui a qualidade de vida.

O que está na base da timidez é que pode ser problemático ou indiciar questões que precisam ser resolvidas, nomeadamente:

  • Medo de falar;
  • Medo do desconhecido;
  • Falta de autoestima;
  • Dificuldade em fazer e manter amizades;
  • Dificuldade nos relacionamentos sociais;
  • Ou qualquer situação traumática que pode não ser consciente….

Num grau moderado, todos os seres humanos são, em algum momento de suas vidas, afetados pela timidez. Esta funciona como uma espécie de regulador social, inibidor dos excessos. A timidez funciona também como um mecanismo de defesa que permite à pessoa avaliar situações novas através de uma atitude de cautela e buscar a resposta adequada para a situação.

Fisiologicamente parece estar ligada à amígdala (responsável pelas emoções ligadas ao medo e à ansiedade) e ao hipocampo que fazem com que as pessoas se sintam constantemente ameaçadas e de forma mais intensa do que outras pessoas com um nível de atividade regular destas zonas cerebrais.

É muito importante que os pais procurem ajuda no momento em que reconhecem que esta característica já está a comprometer a qualidade de vida dos filhos.

E mais importante ainda é que diariamente incentivem as crianças a vencer esse medo e a entrar em relação.

Seja com os senhores do supermercado, seja com os do café que a família frequenta, tudo são boas ocasiões para lhes pedir que paguem a conta, peçam a fruta, etc. Que desmistifiquem esse movimento de se dirigirem aos outros, para que seguidamente possam ir estando mais preparados para o fazer com os colegas da escola e com os professores.

Uma criança excessivamente tímida vai ficar bloqueada nas suas competências de relacionamento interpessoal. Isso vai ser prejudicial ao seu desenvolvimento.

Precisamos de os apoiar e ensinar como fizemos para eles começaram a andar ou a falar. Isto para que não fiquem isolados e sem vida social. Convidar amigos para programas de fim de tarde ou fim-de-semana, conhecer os pais dos seus amigos de escola, providenciar atividades “sociais” para as nossas crianças é tão importante como tudo o resto. É nessa interação “supervisionada” que muitas vezes encontramos as palavras certas. Os conselhos sábios e a intervenção imediata correta para ir ensinando os nossos pequenos como é este mundo das relações!

Nem sempre nascemos com essa competência inata…

image@kidoz.in

As palavras positivas e o aumento da auto-estima dos nossos miúdos

Há uns dias assisti a um programa onde a convidada era uma professora com formação na área da psicologia que desenvolvia um trabalho muito interessante junto das escolas.

Começou a fazê-lo quando se apercebeu que as crianças do primeiro ciclo, nomeadamente as de sete e oito anos, tinham dificuldade em utilizar palavras positivas para se descreverem.

Enquanto pais acredito que achemos isto estranho porque se pedirmos aos nossos filhos para falarem de si eles apontarão a cor do cabelo, dos olhos e por aí. Mas é das emoções que se trata e da forma como se vêem a eles próprios. Nenhuma das crianças dizia que era divertida, bem-disposta ou forte.

Tenho uma rotina com a minha filha depois de a ir buscar à escola que passa por a fazer enumerar as duas coisas que gostou mais no seu dia e as duas que gostou menos. Invariavelmente as negativas são as chamadas queixinhas. Comecei por não aceitar mas percebi que ao fazer-me as tais queixas havia emoções por trás das acções que as desencadeavam.

Assim, quando ela me diz “o que gostei menos foi quando o X me empurrou no recreio” ou “quando a Y disse que não queria ser minha amiga” tento, em vez do automático “pois, isso não se faz”, enveredar pelo “e como é que isso te fez sentir?”.

Porque é importante as crianças conseguirem identificar as suas emoções.

Só estando estas emoções devidamente identificadas podem ser descritas e só assim se pode explicar por que motivo são consequência dos comportamentos dos outros e, acima de tudo, o que gostaríamos que tivesse acontecido. E o que faríamos no lugar do outro.

Não raras vezes quando a minha filha está a brincar ao faz de conta ralha com os amigos. Aponta o que estão a fazer de errado. Outras vezes até diz “a não sei quantas não quer ser minha amiga, não sejam amigos dela”. Isto existe desde sempre, lembro-me quando era eu a estar no meio deste ritual. Tinha uma amiga mais nova com a qual nunca brincava no recreio da escola, apesar de sermos amigas fora da escola, porque havia uma amiga sua que não a deixava. A marca que isso me deixou foi a da irritação, mais do que a da mágoa. Porque tinha a sorte de ter outros amigos e de não sentir esta falta. Mas há crianças cujo núcleo duro de amizades próximas se reduz a mais um amigo. E nestes casos estas atitudes podem ter um impacto muito grande.

Ainda na semana passada, ao falar com uma das meninas novas da sala da minha filha que sempre que me vê me abraça, perguntei: “o teu dia foi bom?” E ela disse que não porque uma das amigas não quis brincar com ela.

Faz parte? Claro que sim.

Queremos que os nossos filhos cresçam para serem emocionalmente independentes dos outros, mas o crescimento, o verdadeiro crescimento, faz-se das relações que se estabelece com o meio e com os que nos rodeiam.

Por isso tento explicar à minha filha que se não gostou de se sentir excluída não deverá fazê-lo quando a situação for oposta. E isto serve para tudo na vida.

Outro exercício que tento fazer com a minha filha é “gostas da X porquê?” e só aceito as respostas quando têm alguma profundidade, quando chegam ao “ela tem paciência para brincar comigo” ou “quando estamos juntas cantamos e isso deixa-me feliz”.

Trabalho muito a questão da imagem própria valorizando o que se é e não o que se aparenta.

Valorizo as conquistas.

Elogio o esforço.

Evito que a minha filha me oiça falar de forma menos positiva das outras pessoas.

É expressamente proibido criticar os mais velhos. Quando ela me aponta um comportamento que supostamente vai contra aquilo que lhe foi ensinado eu texto explicar. E muitas vezes explico que há coisas que não têm explicação, as pessoas fazem coisas que não devem. Erram. Porque somos todos humanos, mesmo os mais crescidos.

E os mais crescidos também ainda estão a aprender.

Acredito que miúdos que têm as suas emoções reconhecidas têm menor tendência para as retrair. 

Muitas vezes podem não nos parecer legítimas ou justas (“nunca me compras nada, não me deixas fazer nada”) mas é importante que sejam valorizadas no contexto, nem que seja para a criação do diálogo.

Quantas vezes estamos a fazer uma coisa e nem nos apercebemos do quão errados estamos? Este feedback também nos ajuda a ser melhores pais. E a ganhar confiança nas opções que tomamos quando elas correm bem.

Queremos que os nossos filhos sejam adultos saudáveis e isso só é possível se esta saúde lhes for proporcionada por nós. Seja em forma de sopa e legumes, seja em forma de amor e inteligência emocional.

Os ciúmes na criança. O segundo filho.

Os ciúmes, presentes durante toda a vida da criança, podem manifestar-se na idade adulta, mas não durante o aleitamento.

A explicação é muito simples: os ciúmes surgem sempre numa situação a três, e para o bebé, do ponto de vista afectivo, só existem duas pessoas – ele e a mãe.

O bebé, vai percebendo, a pouco e pouco, que a mãe também tem de dar atenção a outras pessoas e essas pessoas transformaram-se automaticamente em seus rivais na disputa do carinho materno.

O estabelecimento de novas relações com a mãe deve ser gradual, para evitar ao filho ciúmes desnecessários.

Os carinhos e mimos dados na altura própria, a demonstração de que o filho desempenha um papel da maior importância e a progressiva introdução de normas de conduta irão levando à superação do problema.

Os ciúmes dos irmãos representam um problema mais difícil.

O segundo filho, costuma chegar, quando o primeiro tem 18 meses a três anos e meio. A consequência é de que a mãe tem de dedicar a maior parte do seu tempo ao novo bebé. Para o filho mais velho é como se o mundo se desmoronasse.

A criança com ciúmes pode ter comportamentos exagerados nomeadamente:

  • A agressão física ao irmão,
  • A enurese (nova perda do controle dos esfíncteres), 
  • O retrocesso na fala,
  • Ou o regresso a comportamentos anteriores já superados.

De uma maneira geral, estes comportamentos costumam ser dirigidos em dois sentidos.  Anular o irmão, ignorando-o, e reconquistar a mãe, fazendo-se mais pequeno e procurando ter graça de qualquer modo.

Os ciúmes são uma das muitas crises por que passam as crianças e não se lhes deve dar excessiva importância. No entanto, deve procurar-se diminuí-los o mais possível e facilitar a sua superação.

Uma situação critica de ciúmes pode revelar comportamento incorrecto da mãe.

A superação desta crise passa pelo sentido materno de justiça, não significando aqui justiça dar igualmente a ambas as partes. Falar de partes iguais entre um bebé recém-nascido e uma criança de três anos é como dividir um peixe igualmente entre uma pessoa e um gato. O importante é dar a cada um aquilo de que precisa. E não tirar a um aquilo que não faz falta ao outro.

A criança desta idade costuma descobrir rapidamente que consegue atrair para si a atenção da mãe, se se aproximar do irmão. Deve-se estimular este processo, pois permite muitas vezes solucionar o problema.

Em qualquer caso, o que se deve fazer é distinguir as duas crianças, e não compará-las. Não quer dizer que um dos filhos é melhor que o outro. O  que se passa é que um deles é maior. Dar realce às possibilidades reais da criança maior e às limitações verdadeiras da mais pequena, salientar as diversas vantagens das suas diferenças pessoais e a possibilidade de se completarem, costuma ajudar a melhorar a situação.

Normalmente, o problema começa a solucionar-se quando a criança se relaciona com outras, nas suas brincadeiras, e dá escape às suas rivalidades, mais ou menos desportivamente, dentro do grupo.

Não devemos esquecer que o filho mais novo também pode vir a sentir ciúmes do mais velho.

Durante o processo de separação entre o bebé e a mãe, podem surgir ciúmes desse tipo após os dois anos.

Como é lógico, este tipo de ciúmes é mais atenuado. A criança viveu sempre com o irmão e a rivalidade pelo carinho da mãe já lhe é familiar. Todo este problema se costuma repetir do segundo filho para o terceiro, e assim sucessivamente, mas sendo cada vez mais atenuado quanto maior é o número de irmãos.

 

Paula Norte, psicóloga na Psicomindcare para Up to Kids