Qual o lugar da mulher quando se torna mãe

Ser mãe é a realização de um sonho. Uma experiência de comunhão e amor única e singular que, ao mesmo tempo, que é desafiante, consegue ser reconfortante e reparadora.

Mas, muitas vezes, as mães parecem resguardar-se nesse amor maior que só um filho parece ser capaz de lhes dar. E, mais vezes do que aquilo que desejaríamos vemos mães que se sentem um bocadinho ‘magoadas’ na relação com a vida, com o amor e com o Ser mulher.

Assim, um filho acaba por se transformar em tudo aquilo que uma mãe tem como esperança e expectativas.

E, pouco a pouco, ao mesmo tempo crescem enquanto mães, afastam-se um bocadinho de si próprias. Como se, todos os seus sonhos e a sua identidade se tivessem esbatido para dar lugar ao papel de mãe. Como se se sentissem incapazes de conjugar a pessoa que são com a maternidade.

Mais difícil que este sentimento de não conseguir conjugar o papel de mulher com os seus sonhos e com o de mãe, é vermos que algumas mães parecem ter medo de dar vida a todas as suas facetas depois de serem mães. Como se sentissem que a sociedade reprova os seus rasgos mais espontâneos que vão para além das exigências da maternidade.

Nestas circunstâncias, aquilo que uma mãe faz é depositar todos os seus sonhos nos filhos, e esperarem que eles cumpram tudo aquilo que elas não conseguiram atingir. Estas expectativas estendem-se ao mundo académico, profissional, ao desporto e até às relações que esperam que os filhos estabeleçam ou não.

É importante não perdermos de vista que este movimento não é saudável nem para a mãe nem para os filhos.

Estes, a certa altura, sentem que façam o que fizerem parecem bater sempre ao lado daquilo que a mãe esperaria. Neste novelo de expectativas, os próprios filhos calam os seus apelos mais espontâneos porque, no limite, querem apenas corresponder aos desejos da mãe.

A logo prazo, poderá levar ao afastamento entre mãe e filhos, dificultando a relação que têm entre si.

As mães só precisam de ter a certeza que são melhores mães quanto mais se conectarem consigo próprias. Quanto melhor conseguirem dar vida à sua essência enquanto mulher, à sua relação, à sua profissão, às suas amizades e claro ao seu papel enquanto mães.

Um dos grandes desafios da maternidade é precisamente continuar a conseguir dar vida a todas as suas vertentes. Assim, tornar-se-à numa mãe ser mais completa, mais realizada, mais feliz. Consequentemente, permitirá que os filhos dêem vida aquilo que eles são de verdade sem terem que ir apenas no caminho das expectativas da mãe.

Não duvidem que as crianças serão mais felizes e terão mais espaço para ser crianças, quanto mais realizadas e completas se sentirem as suas mães.

Em cada mãe, há espaço para o amor, para a vida e para os filhos, de forma simples e completa.

Por Cátia Lopo & Sara Almeida para Up To Kids®

Educamos para a igualdade?

Vamos contar-vos um episódio.

No outro dia fomos assistir a um jogo de hóquei em patins de seniores masculinos da 1ª divisão, cheio de emoção, e com os nervos à flor da pele. Era um jogo diferente do habitual: um dos dois árbitros que estavam no centro do pavilhão, era uma mulher. Existiram golos, existiram faltas, existiram calafrios por quase golos, no entanto, houve algo que não estávamos à espera de ouvir.

Já quase no final do jogo, a árbitra apita para assinalar uma falta. E, imediatamente, salta um senhor muito exaltado com a falta, que grita: ’vai é lavar loiça’. Todos nós já dissemos coisas exaltadas e estapafúrdias no calor do momento. Mas o que nos preocupa, é que na realidade, isto é o que acredita uma grande maioria das pessoas, que a mulher que estava a arbitrar bem podia estar em casa a lavar a loiça. Que a arbitragem devia estar exclusivamente destinada aos homens.

Este é um dos exemplos, que nos alerta, para a desigualdade entre as mulheres e os homens, e esta é uma preocupação cada vez mais urgente.

Sabemos que há crenças que culturalmente estão enraizadas, no entanto, ficamos apreensivas, pois uma grande quantidade de crianças que estavam a assistir ao jogo e diariamente, não só em contexto desportivo, como no seu dia-a-dia, continuam a crescer com estas crenças. Assim, crescem com a concepção que a desigualdade – nos seus mais amplos contextos – é normal.

Não são educadas para os valores, para se questionarem, para respeitar o outro. Assim, continuamos a criar uma sociedade desigual que promove a violência, ora contra as mulheres, ora contra os mais desfavorecidos e mais frágeis.

Se queremos igualdade, temos de educar para a igualdade e temos de praticar a igualdade no nosso dia-a-dia.

Continuamos a ver meninos a menosprezar meninas, continuamos a ver crianças bater sistematicamente noutras crianças, porque os sentem como mais frágeis, continuamos a assistir a violência doméstica, em qualquer dos sentidos. E no fundo, tudo isto é reflexo de violência.

Preocupa-nos que cada vez mais, assistamos, nos mais diversos contextos, a violência de forma clara e manifesta, que em nenhuma circunstância é positiva ou protetora.

Trata-se de termos consciência que as crianças absorvem tudo aquilo que vivenciam. Se, por exemplo, apenas dizemos que o mundo deve ser igual para meninos e para meninas, e não o colocarmos por acções, continuaremos sistematicamente a assistir a desigualdades.

É importante que as meninas também possam jogar à bola e os meninos brincar aos pais e as mães, se for esse o seu desejo.

É importante que a violência doméstica – quer sobre homens quer sobre mulheres – seja amplamente punida e que haja medidas de protecção robustas a todas as crianças que assistem a esses episódio.

É importante que, em cada criança, haja a noção que todas as outras, independentemente de serem meninos ou meninas, independentemente da classe social ou etnia, têm direitos e têm valor.

E é importante que todos nós exerçamos uma função reguladora e protetora sempre que assistimos a episódios de discriminação ou violência em qualquer que seja o contexto. Só assim, podemos almejar um futuro igual para todos.

 

Por Cátia Lopo e Sara Almeida para Up To Kids®

 

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Ser obediente, é bom?

Quando fazemos o exercício de pensar em crianças, por norma, imaginamos crianças com energia, a rir e a brincar. Por outro lado, dá-nos um sentimento de certa estranheza imaginar uma criança no seu cantinho quieta, como se, não existisse. Não raras vezes, estamos demasiado preocupados com as crianças ditas “hiperativas” e esquecemo-nos de olhar para as crianças “hiperpassivas”. Crianças que fazem os possíveis para serem invisíveis, que nunca perturbam e são, regra geral, extremamente obedientes.

Queremos crianças obedientes, desde que a acompanhar a obediência existam gestos espontâneos e a expressão daquilo que a criança sente e pensa. Aquilo que nos preocupa é quando a obediência vem tolhida de uma certa invisibilidade.  Quando a criança por tão assustada que se encontra, às vezes, faz os possíveis para ‘não existir’. E, ‘não existir’ é, muitas vezes, um reflexo de obediência com base no medo. Sempre que uma criança obedece com base no medo, está a distanciar-se de si própria e torna-se incapaz de respeitar o seu espaço e de apreender a noção de empatia e respeito pelos outros.

As regras e as recompensas

É essencial que as crianças sejam capazes de obedecer e ter um conjunto de regras que balizam os seus comportamentos, sem que vivam permanentemente sufocadas pelo que imaginam que esperam delas. Da mesma forma que, as crianças devem aprender que ter um bom rendimento escolar, ajudar nas tarefas domésticas, responder de forma adequada aos adultos. Estas são atitudes que devem ter porque estão correctas e são a base do respeito e não para serem recompensadas de forma directa e imediata. Pois, sempre que uma criança faz uma tarefa com a expectativa de ter uma recompensa, a noção de que o faz porque é assim que deve ser e porque é uma responsabilidade sua, perde-se e, a certa altura, temos crianças que só se movem com base nas recompensas.

É importante que a criança compreenda que tem deveres e que tem direitos e que entre eles, existe respeito, compreensão, empatia e amor.

Claro que, se uma criança consegue levar a cabo um conjunto de comportamentos e atitudes que até então não tinha conseguido, os pais podem e devem recompensá-la. No entanto esta recompensa deve funcionar como um reconhecimento e não como uma recompensa por si só. Isto é, a criança teve uma série de atitudes que deixaram os pais muito satisfeitos, então, os pais vão exercer um gesto de reconhecimento para com a criança. Este gesto acontece sem que a criança esteja a contar e se for imaterial tanto melhor. Se em vez de um brinquedo ou um jogo os pais proporcionarem à criança um momento relacional de que ela goste, como uma ida ao cinema, ou um piquenique a criança será capaz de ter uma linha orientadora que lhe sinaliza que está no caminho certo e que deve continuar desta forma.

Passo por passo, a criança vai adquirir valores que vão reger toda a sua atitude perante os desafios do seu dia-a-dia. Aprende assente nas linhas orientadoras dos pais sem que delas tenha medo, sem que para ser obediente precise de ser invisível.

Desta forma, é importante que as crianças riam com o corpo todo. Que as famílias permitam a liberdade de expressão e dêem espaço à individualidade de cada criança. Que eduquem praticando o amor, o afeto e o respeito, pois, só quando uma criança cresce num ambiente que é estruturante e que lhe permite a individualidade com a retaguarda do calor dos pais, se permite a existir em plenitude.

A importancia de deixarmos que as crianças se sintam tristes

No nosso dia a dia, temos por hábito supervalorizar tudo aquilo que é bom e positivo. Querer sempre que as crianças estejam a rir e felizes.

É inquestionável que, é bom que as crianças estejam felizes e a rir, no entanto, só gostamos que estejam a assim, porque genuinamente o estão a sentir.

O que nos preocupa, é que, cada vez mais, na ânsia de querermos crianças felizes, exercemos uma grande força de bloqueio a tudo o que é socialmente considerado como negativo. Ou seja, é como se não permitíssemos que as crianças fiquem tristes, ou sintam medo, por exemplo.

Assim, aos poucos, as crianças vão interiorizando, ao longo do seu crescimento, que não devem chorar, que não devem estar tristes, que não se devem zangar com ninguém e que sentir medo é para os fracos. Estamos a abrir espaço à contenção daquilo que as crianças vão sentido, estamos subtilmente a ensina-las que não aceitamos esses estados  socialmente considerados como menos bons, com os quais elas se vão deparando. Estamos a fazer com que a criança se vá distanciado de si, e que só nos mostre os lados bons de si própria e todos os outros os atire para debaixo do tapete.

O grande problema é que ao atirar todos os outros lados para debaixo do tapete, embora nos pareça à partida que resolveu essas questões, todas elas estão a acumular-se dentro de si. Estão todas dentro do seu coração sem que ela lhe consiga dar sentido. Vão-se acumulando até ao dia em que a criança explode e de repente, uma criança que até aí parecia perfeita, desenvolve um quadro depressivo, perturbações do comportamento ou até a tão característica agitação, entre tantas outras fragilidades que vão comprometendo os seus recursos saudáveis.

As crianças e as emoções

As crianças – tal como os adultos – vivem com um sem fim de coisas dentro de si, que se não lhe permitimos em tempo real expressar, vão ficando a pairar dentro dela.  A criança não consegue dar um nome a estas emoções. Não consegue pensar sobre isso, e estas vão-se acumulando sobre a forma de ruído.

O essencial é que quando a criança está triste, permitamos que chore. Permitamos que se sinta triste e sejamos capazes de suportar essa tristeza. O mesmo quando a criança tem medo, ou se zanga – sim ela pode zangar-se, desde que à custa de se zangar não bata nos colegas, ou nos pais. A criança precisa de aprender que pode sentir tudo e que há uma linha que a permite expressar as suas emoções de forma a que não se magoe, nem aos outros.

No fundo, a premissa é simples: ninguém está feliz todos os dias.

Por isso, não o podemos exigir a uma criança, e temos de lhe ensinar que é normal e desejável que assim não seja, para que, de tristeza em tristeza, de decepção em decepção, de zanga em zanga, de medo em medo, a criança aprenda a expressar e reciclar em tempo real tudo aquilo que vai sentido.

Pois, só somos plenamente felizes se aceitarmos, integrarmos e dermos sentido a tudo o que se vai passando dentro de nós e na relação com os outros. Só assim nos estamos a respeitar e a criar um espaço de encontro com a felicidade e o bem-estar pessoal.

Só quando permitirmos que uma criança esteja triste sem dizermos “pára de chorar” estamos a permitir a verdadeira expressão das suas emoções e dar-lhe espaço para a verdadeira felicidade.

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Os filhos não são uma segunda edição dos pais. Deixe-os viver os seus próprios sonhos.

Algumas mães – por terem o coração cheio de amor – têm a sensação que a partir do momento em que se tornam mães, tudo vai girar em torno dos seus filhos e, assim, de passo em passo,  as mães parecem perder a sua individualidade e o seu direito a sonhar por si, para sonhar pelos filhos, para crescer pelos filhos.

Sim, os filhos devem estar na linha da frente do coração dos Pais!

Sim, os Pais devem dar o seu melhor pelos filhos, devem questionar-se, devem lutar por eles! Mas nunca os pais devem desistir de si em prol dos filhos!

Quando assim é temos pais mais controladores e ansiosos do que tranquilos. Temos pais que projectam em massa os seus sonhos nos filhos, contaminando a individualidade e autonomia da criança. E se mais tarde a criança não se torna exatamente no adulto que os pais sonharam, acaba-se tudo o que é flexibilidade e abre-se espaço a conflitos abertos. Porque os pais, nessas circunstâncias têm dificuldade em aceitar que deram tudo àquele filho, para ele ser exactamente aquilo que eles sonharam e, esse filho, teve a ousadia de ser aquilo que ele próprio sonha.

Os filhos não são uma segunda edição dos pais. Deixe-os viver os seus próprios sonhos.

Não raras vezes, temos mães e pais que retardam o crescimento dos filhos tentando mantê-los no ninho para sempre, evitando que se tornem independentes e autónomos. Continuam a escolher a roupa que os filhos vestem mesmo aos 14 anos. Evitam que eles pensem por si, pois quando começam a pensar por si, esses filhos que amam profundamente os pais, começam a magoa-los sem querer, só porque sentem ou agem fora daquilo que os pais consideravam expectável.

Quando os filhos saem de casa

Mais tarde, esses filhos, saem de casa e vão atrás dos seus sonhos e os pais ficam de ‘ninho vazio’. Ficam com a ideia que aquele filho não está grato e a retribuir tudo aquilo que os pais lhe deram. Isto porque, no limite, aquele filho está a seguir os seus sonhos e não os sonhos dos seus pais.

E aí, um filho que sempre teve amor sente-se só pela primeira vez. Sente-se incompreendido, e entre a ingratidão que os pais sentem e a solidão deste filho tão amado, pais e filhos afastam-se de coração e soltam as mãos, ficando ambos os lados contaminados, enfraquecidos e tristes.

Em suma, os pais devem sempre investir em si em primeiro lugar. Pais realizados, melhores pais serão. Aprenderão a dar espaço à sua individualidade e aos seus próprios sonhos.

Os Pais são assim, como uma espécie de super heróis, com uma força inigualável e que, por muito que o caminho seja difícil não desistem, são guerreiros! Mas, o grande desafio na viagem da parentalidade é saber amar e proteger, ao mesmo tempo que se dá asas para a criança voar e ser aquilo que ela própria é na sua essência.

Assim, quando cresce, temos uma pessoa que voa sozinha, sempre com o coração ligado aos pais, em plenitude.

Por Cátia Lopo e Sara Almeida Psicólogas Clínicas

 

Quando os pais se divorciam…

Como fica a criança, quando os pais se divorciam?

Os pais são o melhor do mundo para as crianças, é como se fossem assim uma entidade superior comparando com todas as outras.  Mas, quando o pai e mãe se separaram, como fica a criança? Qual é o seu lugar?

Ora, por entre uma discussão e um fazer de malas, uma criança muitas vezes sente-se apenas sozinha. Quando, de repente, uma criança é confrontada com a separação dos pais, pode acontecer que reaja de várias formas, sendo que, não raras as vezes, reagem com indiferença, raiva ou tristeza. Isto é, ou a criança reage com uma aparente indiferença, como quem diz “não tenho nada a ver com a vossa vida, não quero saber”, ou reage com uma revolta canalizada para os progenitores, como quem diz “vocês são culpados de todos os males e é uma injustiça”. Ou em alternativa, a criança reage cheia de efeitos especiais, com choro e uma tristeza profunda, como o quem diz “se se separarem a minha vida acaba e nunca mais vou ser feliz!”.

Perante tudo isto, nem o pai, nem a mãe se devem sentir fragilizados e voltar atrás numa decisão tão importante e tão pensada como um divórcio. Sim, porque quem se divorcia, não o faz de ânimo leve, habitualmente é uma decisão pensada e repensada.

Os pais enquanto pais e enquanto indivíduos

Nunca os pais devem evitar uma separação apenas com a ideia de que é melhor para as crianças. Pois, um pai e uma mãe com uma má relação entre si, serão seguramente piores pais, do que, um pai e uma mãe que, com sensatez e cuidado, decidem divorciar-se, tornando-se assim, mais felizes cada um deles a nível pessoal e, por consequência, melhores pais.

Os pais são tão melhores, quanto mais tempo tiverem para si e mais felizes forem, enquanto pessoas. Apesar de quando nasce um filho, os pais sentirem que aquele filho pode representar todo o mundo para eles, nunca se devem esquecer da sua individualidade e de cuidarem de si, isto, se querem ser bons pais.

Desta forma, o que devem fazer os pais com as reacções dos filhos ao divórcio?

Devem ser capazes de aceitar e suportar a reacção da criança, isto é, é natural que a criança se zangue, ou fique triste com uma separação dos pais. Esse assunto nunca deve passar a tabu, e deve ser falado com a criança de forma a que os pais a ajudem a ligar tudo dentro dela. Se a criança tiver necessidade de chorar ou temporariamente ficar triste, devemos permitir-lhe que o faça e que expresse tudo aquilo que está a sentir relativamente à nova situação familiar.

Ora, assim sendo, o essencial numa separação é que a criança nunca se sinta culpada e que nenhum dos pais, ou avós, sejam culpados pela separação. Isto é, o divórcio dos pais só acontece porque os dois pais em conjunto tomaram essa decisão que nada tem a ver com o comportamento ou postura de algum dos filhos.

Onde está a culpa quando os pais se divorciam?

É ainda essencial, que os pais não se culpem mutuamente. Não são raras as vezes, em que o pai ou a mãe culpam o outro progenitor da separação e o fazem deliberadamente para obter uma simpatia superior dos filhos, ou a compaixão da outra figura paterna. Também nos cruzamos várias vezes, com situações em que os pais culpam os avós pelo desfecho da relação. Mesmo que efectivamente exista um culpado, o essencial é que os pais percebam que para a criança ambos são figuras de referência e como tal, todas as crianças têm o direito a uma figura parental positiva. Assim, mesmo que o pai ou a mãe tenham um conjunto de características que o outro progenitor reprova, a criança tem direito à protecção da imagem dos pais. A criança não pode ser colocada num conflito de lealdades, como quem para estar com a mãe não pode gostar do pai e para estar com pai tem de deixar de gostar da mãe.

Um pai e uma mãe com sensatez, devem permitir que a criança goste e pratique o amor para com o outro progenitor. O mesmo deve acontecer perante os avós.

O pais devem reagir em conformidade com a protecção da criança, assumir a decisão em conjunto, sem culpas para ninguém. Se comunicarem a decisão com firmeza, com a certeza de que convictamente sabem que esta decisão é o melhor para todos e com afecto, mesmo que haja um período inicial difícil, as crianças irão aceitar. As crianças irão adaptar-se e compreender todos os lados da decisão dos pais e destas novas circunstâncias.

Por Cátia Lopo e Sara Almeida Psicólogas Clínicas

Quando os adultos perdem a magia

A quando passamos muito tempo rodeados de crianças, a grande maravilha é que voltamos a sentir curiosidade pelas coisas mais pequenas, voltamos a desenvolver um sentido de exploração e de criação que parecia estar esquecido no mais ínfimo de nós. É absolutamente encantador a forma como, quase todas as crianças, são de uma sensibilidade e intuição fora do vulgar, ao mesmo tempo que, é absolutamente assustador a forma como a maior parte dos crescidos parece ter-se distanciado tanto de si próprio, ao ponto de ter perdido uma das suas facetas mais acutilantes.

É como se à medida que se cresce, toda a magia se fosse apagando… um dia deixamos de acreditar no Pai Natal, no outro dia, deixamos de acreditar nos nossos sonhos, depois, aos poucos, vamos deixando de colocar questões (e, a idade dos porquês – não tenha dúvidas! – sempre foi uma espécie de alavanca de nós próprios), passamos a piloto automático e deixamos de acreditar nos nossos sinais mais subtis e na nossa sensibilidade (ou, em circunstâncias limite, deixamos que desapareçam).

Quando as crianças perdem a magia

Às vezes, é como se os crescidos estivessem tão afastados de si próprios, que mais parecessem desligados, e este estado de estar ‘ausente’, pode tornar-se uma luta com as crianças que vivem perto de cada adulto, que de repente, saltam para o campo dos crescidos mais rápido e parecem, também elas, já ter deixado cair a sua luz e a sua capacidade de questionar e acreditar...

Nestas circunstâncias, os crescidos dessintonizam-se não só de si, mas também do mundo e das crianças, pois parece-lhes impossível alguns dos voos das crianças, por exemplo, que elas tenham medo de um fantasma – afinal, quem com juízo acredita num fantasma? – parece-lhes impossível que elas sejam capazes de construir histórias e fantasias, que sejam capazes de perceber que a mãe está triste, mais depressa que a própria mãe, ou que se sintam gratas pelas mais pequenas coisas. Assim perdem a magia.

Quando os adultos se desligam de si próprios

Quando os adultos se desligam de si próprios, é que tudo se torna confuso para as crianças que, a certa altura, parecem ter de explicar tudo aos adultos, parecem ter de falar e sentir por eles… E assim, aos poucos, crianças e adultos vão soltando as suas mãos! A não ser quando o mais trágico acontece (e não raras vezes acontece!), para se ligarem aos adultos que amam, as crianças perdem a sua criança e viram pequenos adultos… E não há dúvidas que, nenhuma criança devia crescer muito rápido para ser uma amostra de adulto, mas todos os adultos deviam – em alguns aspectos, continuar a ficar pequeninos – ser amostras de crianças.

Pois – acreditem! – só perdemos a ligação connosco próprios, só deixamos de ser sensíveis e intuitivos, só deixamos que a luz se apague, quando deixamos de acreditar em nós e no mundo à nossa volta, quando aos poucos nos fomos deixando amputar do melhor de nós.

Por Cátia Lopo e Sara Almeida Psicólogas Clínicas

O mimo não estraga as crianças. A falta de limites, sim.

Ser criança é muitas vezes concebido como um pano de fundo em que tudo parece perfeito, ou pelo menos, quase perfeito… Mas, Ser criança, não é sempre um arco-íris, cheio de cor, de vida e bem- estar, às vezes, ser criança é cinzento, umas vezes mais claro, outras cinzento escuro, quase negro, sem pontos de luz… Mas, afinal, que bicho papão é esse que parece tirar a cor à infância? Que bicho papão é esse que, às vezes, se torna tão grande dentro de cada criança que parece contamina-la em todas as áreas?

Quais os ingredientes para uma criança feliz?

A criança nasce e precisa de protecção, que cuidem dela e garantam o seu correcto desenvolvimento, é dependente! Mas se cuidarmos fisicamente do bebé, e depois nos esquecermos de lhe dar amor, a criança entra naquilo a que os técnicos de saúde mental chamam de ‘depressão analítica’, um estado que reflecte a não satisfação da necessidade de um amor seguro e incondicional.

O coração de mãe e também o coração de pai (sim, porque não nos podemos esquecer que o pai pode ter um coração tão grande como o da mãe, temos de deixar de o subestimar!) sabe bem no seu intimo que o principal ingrediente para uma criança feliz é o Amor. O amor seguro e incondicional, o afeto e o mimo – como só os pais de alma e corpo cheio sabem dar!

O mimo não estraga as crianças. A falta de limites, sim.

O mimo não estraga as crianças. Nunca uma criança ficou estragada por ter mimo a mais, ou amor a mais! O mimo e o amor funcionam como o combustível que nos faz mover, não só em criança, mas ao longo de toda a nossa vida. É o amor que nos prende à vida e só quando o amor nos segura podemos alcançar a felicidade.

Mas, então, o que é isso de “ele é mimado, ninguém faz nada dele”?, que ‘mimo mau’ é esse que afecta tantas das nossas crianças?

É a falta de limites.

Os Pais são capazes de sentir no seu intimo que só com limites claros a criança cresce segura de si! Quase todos os pais conseguem senti-lo, mas só os Pais conscientes, os que estão seguros de si, de alma e corpo cheio conseguem fazê-lo; só esses pais conseguem estabelecer as balizas sem resvalar para um lado de ‘general autoritário’, sem parecerem mais assustadores do que seguros.

A criança precisa de limites

Os limites – embora na fase inicial uma criança os rejeite – atribuem-lhe segurança e robustez. É como se o pai e a mãe lhe dissessem ao coração: “avança, que nós estamos aqui para garantir que tens o caminho seguro. Aconteça o que acontecer, nós não te vamos deixar cair”.

Uma criança sem limites é uma criança em auto-gestão que, mesmo que sinta com o coração todo, ainda não sabe onde pode pisar ou não, explorando, aos poucos, o mundo de forma assustada, sempre com a ideia que um dia, se for preciso, pode ninguém estar lá para a proteger.

Uma criança sem amor ou sem limites será sempre um adulto em apuros. Se queremos crianças felizes, precisamos de uma boa dose de amor em equilíbrio com uma boa dose de limites. Assim, de falha em falha, como só os bons pais se permitem a falhar, subtraímos birras, multiplicamos sorrisos e somamos felicidade em cada criança, em cada família.

Por Cátia Lopo e Sara Almeida Psicólogas Clínicas

Dos filhos que fomos, aos pais que somos!

Quando os pais começam a desempenhar o seu papel, para além de um bebé, há todo um conjunto de novas personagens que nascem! Em volta de um bebé, há toda uma família que se alinha e re-alinha, há uns pais que se tornam avós, há um irmã que se torna tia, há um amigo que sente saudades, há um casal que inicia uma viagem… Quando os pais se tornam pais, tudo se mistura e se conjuga, o amor não se aprende, um filho não se desliga, mas a paternidade pode ser mágica se conseguirmos multiplicar tudo o que de bom há em nós.

Cada criança tal como cada um dos pais é singular, mas todas as crianças à sua maneira refletem os lados de heróis e de vilões dos pais. Afinal, como é que um Pai se pode tornar melhor?

Um Pai tem de olhar para o Mundo colocando-se no papel da criança.

Mas, acima de tudo, tem de olhar para um filho, livre daquilo a que ao longo da vida o foi condicionando aos poucos… A forma como cada um dos pais exerce o seu papel, é condicionada pela sua história, pelas suas expectativas, pela forma como foi filho, como foi irmão, como desejou ser Pai, como foi, ou não, sendo amado ao longo da sua vida e do seu crescimento, enquanto criança e enquanto adulto.

Muitas vezes, porque fomos filhos assustados, presos a um sistema parental rígido e autoritário, procuramos exatamente o oposto para os nossos filhos e tornamo-nos pais absolutamente liberais, não introduzindo segurança, regras e limites. Ou o oposto, porque fomos filhos em auto-gestão, exercemos um controlo absolutamente fora do vulgar com os nossos filhos, não lhes dando espaço e liberdade para serem crianças à sua maneira.

O difícil na montanha russa da parentalidade é que é preciso conjugar num só, os pais que tivemos, os filhos que fomos e os pais que somos, e, às vezes, é como se cada um andasse para o seu lado, como se estivessem zangados, como se dentro de cada um dos pais vivessem muitas personagens em vez de darem vida a um Pai. Naturalmente, essas personagens fraturam-no, tornando-se incompatível o filho que se foi, com o pai que se quer ser e com os pais que tivemos.

Por isso é que às vezes, é preciso parar, olhar para dentro de nós, separar e unir mundos, para fazer as pazes com a criança e com o filho que se foi, com os pais que se teve e assim, tornarmo-nos melhores pais e ficarmos cada vez mais perto dos pais que queremos ser.

Um pai, ou uma mãe, são sempre feitos de histórias, de amores e desamores, de conquistas e derrotas. Mas, não se pode desejar que seja um filho a ligar todos os nossos mundos e fazer-nos sonhar, muito menos, podemos querer que seja um filho a concretizar todos os nossos sonhos, a sarar as nossas feridas e dar as mãos às nossas infâncias.

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Por Cátia Lopo e Sara Almeida Psicólogas Clínicas