“E ele fica apenas a brincar?”

“Mas o que é que ele faz entre a escola e a hora do jantar? Não achas que tem demasiado tempo livre?”

“Mas Ana, tem de entender que temos de lhe ocupar estas horas vagas. Se não ele não consegue aprender a utilizar o tempo de uma forma útil”

“Mas está a sugerir o quê, que o deixemos apenas a brincar?”

Sim, de facto estou a sugerir que as crianças devem ficar um tempo bastante alargado “apenas” a brincar. De preferência em espaços abertos. De preferência em espaços naturais. De preferência com outras crianças que não sejam necessariamente colegas. De preferência sem a interferência dos adultos.

No caminho para o sucesso não há lugares sentados

Numa sociedade cada vez mais acelerada e mais competitiva, é normal que sintamos que todos os nossos segundos acordados sejam no sentido de produzir alguma coisa. Quantas vezes chegamos a cortar nas horas de sono e de descanso para mais uma horinha no escritório?  Ou mais uns minutos para acabar aquele relatório. Parece que o sentar, só por sentar já não existe sem alguma culpa por não estarmos a ser “produtivos” para o nosso caminho de “sucesso”.

A brincar? No caminho para o sucesso não há lugares sentados

Neste caminho, resolvemos também levar as nossas crianças.

Muitas crianças têm um horário tão ou mais preenchido que os adultos. Começam as aulas muito cedo. Têm um dia repleto de aprendizagens, de absorção de conhecimento que muitas vezes continua para as AEC e outras atividades de enriquecimento curricular. Depois os ATL, centros de explicações e afins. E quantas vezes seguem para desportos, músicas, atividades de expressão, entre outras

A oferta é tanta, que muitas vezes o próprio fim-de-semana é sacrificado, perdendo-se tempo em família em prol das tais atividades.

“Ah, ele está nos escuteiros, porque tem de desenvolver as capacidades sociais”

“Está no xadrez para desenvolver o raciocínio”

“Está na música e no violino para desenvolver a motricidade fina e o ritmo. Também ouvi dizer que era muito importante para a leitura”

“Não quisemos abdicar da vela, para melhorar a concentração e a motricidade global”

Estas, entre tantas outras justificações para a sobrecarga horária das nossas crianças. Estas e a minha preferida do:

“Antes isto, do que ficar apenas a brincar”.A brincar? No caminho para o sucesso não há lugares sentados

Actividades extra-curriculares ou tempo para ficar a brincar?

A verdade é que existe hoje em dia uma oferta extremamente abrangente de atividades infantis e uma quantidade de informação que chega a sobrecarregar os pais na hora da tomada de decisões. As atividades extracurriculares, em certa medida, são de extrema importância para o desenvolvimento de diversas capacidades. Mas o brincar livre, ao ar livre e em ambientes naturais de preferência sem a interferência permanente de um adulto é também muito importante. Há que haver um equilibrio, como em tudo na vida.

Tanto nas atividades extracurriculares, como em grande parte do dia da criança, está sempre um adulto presente. Salvo raras excepções, nós adultos temos a tendência de orientar a criança para o que consideramos ser mais importante para o seu desenvolvimento. Para resolvermos as dificuldades imediatas do seu quotidiano. Para interferir nos pequenos conflitos entre crianças que possam aparecer. Ao fazermos isto estamos a tirar à criança a sua capacidade de decisão, de autonomia e de desenvolvimento então das suas capacidades sociais.

A brincar? No caminho para o sucesso não há lugares sentados

Que competências se desenvolvem a brincar?

O brincar não é “apenas brincar”. É o palco de diversas de aquisições de extrema importância no desenvolvimento psicomotor, académico e sócio-emocional. Ao colocarmos a criança ao ar livre, e sobretudo em ambientes naturais, a criança tem a hipótese de ter uma estimulação multisensorial. Isto vai permitir-lhe fazer uma generalização do mundo que a rodeia.

Mais do que isso, vai perceber a existência das flores, árvores, solos e vários animais que a rodeiam. Esta descoberta é essencial para a construção da sua curiosidade, espírito crítico e noção ecológica.

Por outro lado, sendo uma brincadeira livre, poderá subir às árvores, correr, saltar e realizar outras ações motoras. Estas ajudarão no desenvolvimento do equilíbrio, noção de corpo, estruturação espacial, avaliação de risco, resolução de problemas, entre outros. Estes factores serão necessários mais tarde para as aquisições académicas.

 

Sociabilizar desde criança

Se a esta brincadeira livre se associar o estar com outras crianças, a criança tem a oportunidade de inventar jogos e brincadeiras de grupo, fomentando a criatividade, o raciocínio na construção de regras, o trabalho em equipa, o ceder e perceber o lado do outro.

Se existirem conflitos, como é tão comum na infância, ao estarem livres as crianças terão a oportunidade de, sozinhas, encontrar o melhor caminho para resolver a situação. Todas estas aquisições são essenciais para o desenvolvimento da empatia, uma capacidade tão falada hoje em dia.

Desta forma, estando num parque, num recreio, num jardim, as crianças desenvolvem ao seu tempo, no seu ritmo e em conjunto, grande parte das competências que atribuímos a necessárias de serem desenvolvidas de forma estruturada e fechada.

A brincar? No caminho para o sucesso não há lugares sentados

Brincar é a preparação para a aprendizagem

Vários estudos já nos mostraram que o brincar e as várias fases do brincar são na realidade a preparação para aprendizagens mais permanentes e necessárias em outros períodos de vida, pelo que tirar mérito ao brincar é no fundo desvalorizar a infância e a sua importância.

Como dissemos, realmente existe um grande interesse em atividades extracurriculares. Claro que a presença adulta é sempre necessária na vigilância das nossas crianças. Mas tudo isso não tira mérito ao jogo e ao brincar. E acima de tudo, à agência da criança como construtura do seu próprio desenvolvimento.

O pincel da coragem, o pincel da calma e o pincel da motivação

Eu sei que estão chateados comigo mas não percebo porquê

Estamos a começar a fase das provas de aferição do segundo ano dentro das expressões, tanto as físicas-motoras como as artísticas. As escolas estão a organizar-se para que as mesmas ocorram, sente-se alguma ansiedade no ar e é notório para quem costuma ir às escolas.

Eu sabia disto e estava preocupada.

Vera (nome fictício) era uma menina do segundo ano com grandes problemas de imagem corporal, auto estima, expectativas e com algumas dificuldades ao nível da realização motora, tanto fina, como global.

As provas não iriam ser fáceis para ela, isso eu conseguia prever.

A relação com o colégio não era óptima.

A Vera vinha de um jardim de infância pequeno. Passou para um colégio grande onde estava constantemente na sombra das irmãs, que também lá andavam. A relação que tem com a professora é sobretudo de medo, o que é aliás o seu padrão para com os adultos. Medo de que não esteja a fazer bem, medo de que vá desiludir, medo de fazer perguntas porque já devia saber as respostas.

Esta semana cheguei pela hora do habitual, dentro do período de almoço. Percorri os diversos espaços de recreio a procurar a Vera e nada. Acabei por me cruzar com o diretor que me informou que estava na sala, juntamente com outros colegas que não tinham acabado o trabalho da manhã. É uma prática habitual no colégio da Vera, o que a prejudica bastante, visto que necessita realmente daquele espaço de tempo para brincar e recarregar energias. Fui para a sala e bati à porta para pedir que a Vera me acompanhasse para a terapia.

As palavras são potentes armas

–  Ainda bem que veio! – disse a professora, bem alto, à frente dos 9 alunos que lá estavam, incluindo a Vera – A Vera está impossível! A semana passada foi a prova de expressão físico-motora e ontem a de expressão artística. A Vera não fez nada! Sabe o que é nada? Nada! E hoje está ali, olhe, ainda nem pegou no lápis, só olha para o caderno e para o teto. Nada! E olhe que eu sei que é fácil! É fácil e ela de certeza que sabe!

A Vera estava encolhida a tentar esconder as lágrimas.

– Se isto continua assim – continuou a professora – nem sei como é que vão ser as de português e de matemática!

Chamei a Vera e fomos para a sala. Pela má relação corporal que vive, a Vera tem realmente dificuldades em admitir que não consegue fazer e lida muito mal com a frustração. Detesta tentar coisas novas e diferentes. Mas por outro lado, é brilhante a matemática e escreve muito bem, numa letra muito bonita. No português também é boa, mas, pelas suas dificuldades em expressão, por vezes tem dificuldade em perceber o que não seja literal.

Comunicar eficazmente. O pincel da coragem, o pincel da calma e o pincel da motivação

– Vera, o que se passou ontem? – perguntei com calma – Não estou chateada, só quero que tu me contes o que se passou, porque não consegui perceber e quero entender se estás bem…

– Eu não fiz nada e portei-me muito mal – respondeu ela, olhando para as mãos que estavam sob o colo.

– Não fizeste nada, ou a professora disse-te que não fizeste nada? Percebeste o que era para fazer?

– Eu achava que sim… e fiz o que a professora me tinha mandado… o meu trabalho estava um pouco diferente dos outros, mas cada menino fez à sua maneira, não achava que estivesse mal… Mas depois a professora olhou, fez uma cara muito chateada e disse que eu não tinha feito nada… Eu sei que estão chateados comigo, mas não consigo entender o porquê…

– E não perguntaste, Vera?

– Não Ana, nem hoje… estamos a ler um poema muito difícil. Eu entendo as palavras que estão escritas, mas tudo junto não faz sentido… E nem vou perguntar à professora. Ela diz que é fácil e que eu tenho que saber, mas eu não consigo… E depois ela diz que as provas de aferição vão correr muito mal… Nem quero pensar…

– E como é que isso te faz sentir? – perguntei eu, tentando ser o porto de abrigo que precisava naquele momento.

– Mal Ana, muito mal… e já sei o que vais perguntar, onde é que me sinto mal, não é? Nas mãos, Ana, sinto-me muito mal nas mãos… Eu olho para elas mas elas não se conseguem mexer…

– Vera, acho que sei do que precisamos! Vamos buscar o pincel da coragem, o pincel da calma e o pincel da motivação! Aposto que se passarmos esses pincéis nas nossas mãos elas vão ficar cheias de força!

E ficaram.

Mensagens claras, crianças esclarecidas, crianças mais calmas

Os seus ombros voltaram para baixo, consegui ver o seu pescoço, as costas endireitaram-se e os pés pararam de bater repetidamente no chão. A minha Vera estava de volta. O mundo terá sempre desafios destes para a Vera e para as nossas outras crianças. É sempre importante dar-lhes estes pincéis da calma, coragem e motivação. Mas acima de tudo, temos de ser claros nas mensagens que passamos para as nossas crianças. Se lhes dissermos apenas que fizeram mal, sem indicar o que esperávamos delas, sem ouvirmos o seu feedback e sem elogiarmos o que fazem bem, não estamos a mostrar-lhes o caminho. Estamos apenas a ser ervas daninhas.

Aproximam-se semanas intensas, o ano letivo está no fim e o cansaço começa a aparecer em todos os elementos da escola. Mas que essa não seja a desculpa para sermos pedras no caminho, quando devíamos estar a regar as nossas flores.

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Dificuldades de aprendizagem na criança

Quando falamos do encaminhamento de dificuldades de aprendizagem, muitas vezes surgem dúvidas sobre a necessidade de psicomotricidade, ou qual o seu sentido. Afinal, o que estamos a dizer é que a criança não consegue ler, escrever, somar, subtrair ou decorar…

O que é que o corpo dela tem para estar relacionado com estas dificuldades?

Dificuldades de aprendizagem

Antes de passar para a analisar esta questão, sinto que é importante falarmos um pouco das dificuldades de aprendizagem em si… As dificuldades de aprendizagem, ou DA, são palavras tantas vezes ouvidas na escola, em relatórios médicos ou ditas por pais sobre crianças que tiveram más notas no teste de inglês, na ficha de leitura ou no exame de matemática. Mas na realidade, as dificuldades aprendizagem são uma área muito mais específica, alvo de inúmeros estudos, definições e de uma complexidade enorme.

Quociente de Inteligência

Parte do problema que faz a definição desta área tão difícil é o ensino e a aprendizagem de hoje estarem tão centradas no chamado Quociente de Inteligência (QI), fazendo com que muitas crianças que realmente têm DA se vejam privadas de apoio, por terem um QI dentro do esperado, e por outro lado, existirem encaminhamentos orientados como DA, quando na realidade existe uma dificuldade cognitiva maior, ou um diagnóstico ou síndrome escondido por trás de uma dificuldade específica. É importante compreender: uma criança apenas com DA é uma criança que tem dificuldade a aprender e apresenta resultados escolares mais fracos, apesar de nada no seu QI indicar que isso fosse expectável.

Assim, e apesar da sua definição estar constantemente a ser debatida e atualizada, podemos ver as DA como um grupo variado de desordens que se refletem em dificuldades significativas, tanto a aprender, como a utilizar o seu conhecimento, ao nível da compreensão auditiva da fala e leitura, da escrita e do raciocínio matemático. Estas dificuldades são da criança e estão no fundo relacionadas com uma disfunção do sistema nervoso central. É importante compreender que, apesar das DA estarem presentes em crianças com outras deficiências ou síndromes, não são o resultado das mesmas.

Tendo isto em conta, é importante ter em atenção que as dificuldades de aprendizagem são um campo efetivamente largo, levando a que cada criança apresente comportamentos ou um perfil diferente. Ainda assim, existe um conjunto de sinais psicomotores que costumam estar presentes nestas crianças, levando a que a intervenção psicomotora tenha interesse para estas crianças.

As dificuldades de aprendizagem e o sistema nervoso central

Como vimos, as DA derivam de uma disfunção ao nível do sistema nervoso central. Ora, se pensarmos, a maturação do sistema nervoso central parte do nosso desenvolvimento motor, inicialmente, passando este a ser integrado a partir do momento em que vamos crescendo e vamos sendo capazes de dar significado e de integrar novas aprendizagens. Assim, as crianças com DA têm muitas vezes dificuldades em controlar o seu tónus – tensão muscular permanente – alternando entre movimentos impulsivos e descontrolados, com uma postura completamente oposta, de quase ausência de movimento. Ao não controlarem o seu corpo na base, têm também dificuldades ao nível do equilíbrio, provocando que o seu referencial de aprendizagem não seja fixo, e dificultando ainda mais a aprendizagem.

Estas alterações na maturação do sistema nervoso central fazem como que os próprios referenciais de organização no espaço sejam percebidos de forma diferente, o que se reflete em sinais tão simples como distinguir letras ou números que sejam parecidos (como o “q” e o “p” ou o 6 e o 9).

O próprio corpo desta criança começa a ser sentido pela mesma como um corpo com dificuldades, não capaz, baixando a sua auto-estima e diminuindo a sua disponibilidade para a aprendizagem. E mesmo o movimento, tanto global, como fino, são afetados por todas as questões de base que já falámos.

E nisto, a psicomotricidade pode aparecer como uma ajuda.

Se a criança com DA tem dificuldades ao nível da percepção da informação, da memória, atenção, organização e retenção da mesma e da sua expressão, o uso do corpo pode ser essencial nas várias fases do processo ensino-aprendizagem. Com o nosso corpo podemos fazer letras, em vez de olharmos apenas para elas. Com as nossas mãos podemos contar pequenas argolas ou fazer bolas de plasticina e derrubar pinos, percebendo a noção de quantidade e relacionando com o número, em vez de olhar apenas para cadernos e ardósias. Podemos usar legos para construir palavras e tintas para memorizar sequências. Podemos usar o corpo e os materiais tanto na percepção do meio que nos rodeia, como em estratégias de chamamento e em formas de expressão.

Assim, e numa avaliação dinâmica e transdisciplinar, compreendendo a origem das dificuldades, podemos com a psicomotricidade encontrar estratégias que nos permitam ultrapassar-nos. Damos desta forma às crianças com DA uma igualdade de oportunidades para elas aprenderem, segundo o que lhes faz sentido, para que elas possam crescer, aprender e também ensinar.

A importância de ouvir as nossas crianças

Hoje trago-vos um tema um pouco diferente, que sai um tanto de dentro do nosso espaço terapêutico e abre antes as portas da sala de aula e da escola, mostrando a importância que tem escutarmos as nossas crianças no seu processo de ensino e de aprendizagem.

Mas antes de chegarmos à voz delas, importa compreender alguns conceitos primeiro.

O processo de ensino

Em primeiro lugar temos de compreender que o processo de ensino e aprendizagem não é algo tão linear e direto como poderia parecer. Numa primeira visão, temos um aluno, receptor, que escuta uma fonte de conhecimento, sendo ela o professor. No entanto, esta é uma visão unidirecional e que não reflete assim tanto o que realmente acontece numa sala de aula.

O espaço/local de aprendizagem

A sala de aula, ou escola, ou mesmo em casa e ainda a terapia, são espaços compostos por indivíduos, com as suas próprias características e oportunidades de intervenção.  No caso da escola, temos os professores, com as suas próprias características cognitivas e afetivas e com os seus atos pedagógicos e currículo para aplicar. Por outro lado, temos a criança, que tem também as suas próprias características afetivas e cognitivas, e que tem as suas necessidades de participação e as suas manifestações comportamentais.

Ou seja, temos efetivamente o professor que pretende ensinar, mas depois temos de ter em conta um conjunto de processos mediadores socioafetivos, cognitivos, motores, emocionais, até se chegar à aprendizagem da criança.

Características e envolvente

Estas características, tanto da criança, como do professor, ou do espaço e do próprio currículo podem levar a situações de maior stress ou de questionamento, sendo que algumas características podemos alterar e trabalhar, mas outras não. Ou seja, podemos mudar uma criança de lugar caso ela não consiga ver o quadro, mas dificilmente conseguimos alterar um diagnóstico que traga, ou o seu envolvimento social e económico.

Mais importante ainda, temos algumas questões que são visíveis e que reparamos logo, como por exemplo a criança ter uma cadeira de rodas, ou não vir asseada de casa, ou mesmo chegar notoriamente com fome; mas há questões que não são visíveis, que continuam a ser de extrema importância, como a briga que a criança assistiu antes de chegar à escola, ou a medicação que tem de tomar, algum diagnóstico relacionado com o seu comportamento, ou mesmo uma dificuldade que tenha na aprendizagem, e que se sinta inibida de dizer.

Neste caso, nós, enquanto adultos ou professores, temos várias escolhas.

Ser diretivo ou ouvir as crianças

Podemos optar por um processo mais fechado em que não partilhamos objetivos, em que decidimos tarefas e tempos, em que somos diretivos e em que decidimos tudo. Ou por outro lado, podemos optar por ouvir o que as crianças têm a dizer sobre as suas próprias histórias, dificuldades ou formas de alcançar os objetivos propostos.

Esta escolha, que não é linear e que não se situa no preto ou no branco, pode ser vista como uma opção por levar a criança a ser o foco do processo de ensino e aprendizagem, aumentando a sua motivação para a escola ou para a aprendizagem, e ainda tornando a mesma significativa para ela.

Criar objetivos em conjunto com as crianças

Assim, partilhando com a criança os objetivos que pretendemos que esta alcance e partilhando a tomada de decisões neste processo de ensino e aprendizagem, temos a oportunidade de apresentar tarefas que são mais desafiantes e diversificadas. Oferecemos opções de escolha e promovemos a autonomia e liderança da criança dentro do seu próprio desenvolvimento. Por outro lado, temos um processo de feedback que é individualizado e não por comparação. Aqui a própria criança também pode entrar e permite que o professor, pai, auxiliar ou terapeuta vão, junto com a criança, ajustar os objetivos intermédios e atividades consoante as suas próprias capacidades e necessidades.

Claro que este processo é um desafio, e claro que muitas vezes as próprias infraestruturas ou sistemas colocam em causa esta alteração. Mas pensemos, serve de muito pouco ensinar uma criança a escrever, se ela não vir a possibilidade que tal abre para a criação das suas próprias histórias. Serve de muito pouco aprender os números se a criança não conseguir contar as suas conquistas. E serve de muito pouco mandar uma criança sentar-se e calar-se, quando falamos do seu caminho e da sua história.

Por isso, fica o desafio:

Que consigamos ultrapassar-nos e ouvir as nossas crianças sobre algo que nos interessa mutuamente, o seu crescimento.

 

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Comemorou-se dia 19 de setembro o dia europeu da psicomotricidade. E compreendo que estas informações tragam imensas perguntas associadas. A primeira e mais óbvia será: “que raio é a psicomotricidade?”. A segunda será porque temos direito a um dia e a terceira qual a importância.

Não tentarei dar a definição de psicomotricidade. Passei mais de 5 anos a estudar este assunto, escrevi dezenas de trabalhos sobre este tema e até uma tese. Realizo este trabalho diariamente e mesmo assim, não vos consigo trazer uma definição que seja larga o suficiente para lhe fazer justiça.

Claro que existem definições (muito completas) desta simples palavra, que vão desde autores conceituados como Soubiran, Ajuriaguerra ou mesmo portugueses como Vítor da Fonseca. Existem outras definições mais simples de compreender, algumas que dividem a palavra ao meio – psico + motricidade. Existem até algumas definições de terreno dadas pelos incríveis profissionais que trabalham no quotidiano. Todas elas estão certa. A questão é que a maioria das vezes estas definições não são o suficiente para esclarecer quem nunca ouviu falar de nós, e por isso é que invariavelmente, de tempos em tempos, ouvimos um: “Para que é que vocês servem mesmo?”

Por muito frustrante que seja, acontece.

Sabemos explicar perfeitamente o que é a psicologia ou para que serve um psicólogo? “Ah, é para tratar dos problemas da cabeça”, muitos dizem. Mas esta é uma definição tão lata… Os psicólogos trabalham com crianças, adultos e idosos. Com traumas passados, com dificuldades de aprendizagem ou com situações pontuais e em empresas e recursos humanos…

Para que serve um terapeuta da fala? “Ah, para falar melhor claro”, mas que é tão mais também, abrangendo problemas de deglutição ou recuperação de casos de AVC, por exemplo. Mesmo médicos, advogados e engenheiros… Definir uma profissão numa mera frase é complexo e quase impossível e se tal é o necessário para sermos considerados uma profissão, então nós somos quem ajuda a cabeça e o corpo serem um só.

Não, não será por definições que faremos com que o nosso trabalho seja reconhecido… Nós seremos reconhecidos pelo trabalho que fazemos no terreno, pelos nossos conhecimentos específicos e pelo nosso trabalho de investigação. É cada um de nós que parte de manhã para uma escola, para uma clínica, para uma creche, para uma instituição, para uma casa de repouso. É no abraço que damos e na regulação tónica que esse contacto provoca. É no darmos a mão e promovermos o equilíbrio. É no jogar à bola enquanto desenvolvemos a coordenação. É nas histórias que escrevemos enquanto observamos o trabalho grafomotor. É no apoio ao familiar quando a situação fica difícil. É na conversa com os restantes profissionais, na ajuda e partilha de estratégias.

Por isso este dia é tão importante. É uma porta que se abre e que nos permite atravessar todos juntos ao mesmo tempo. É dia de dizer: sim, sou psicomotricista, tenho orgulho e sirvo para tanto.

É dia de todos falarmos ao mesmo tempo do mesmo e tão, tão alto que um dia não será mais necessário responder a esta pergunta.

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Mesas desarrumadas, canetas que caem e letras que voam

Houve numa altura um rapaz. Um doce de miúdo, mais velhinho e muito respeitador. Tinha sempre passado de ano na corda bamba, e apesar de ter genica, e apesar de ser falador, e apesar de se distrair facilmente, nunca nenhum destes sinais foi grande o suficiente para ser considerado motivo de preocupação. A bem dizer, até ao sétimo ano, nunca tinha havido motivo de preocupação de todo. Só agora, chegado ao sétimo, é que a mãe viu que a criança precisava de algum tipo de ajuda.

Quando a mãe chegou até mim, vinha bastante consciente das dificuldades do filho, ainda que não soubesse a origem. Sim, é verdade que por volta da entrada no ensino primário tinham havido alterações drásticas em casa: o pai viu-se obrigado a emigrar, vindo a casa apenas de mês e meio em mês e meio; o irmão nasceu, obrigando o rapaz a dividir o quarto; e o avô mudou-se lá para casa, no sentido de dar algum apoio à mãe. Ao nível da escola primária os problemas existiam, mas nada que chamasse demasiado a atenção: a sua secretária era uma bagunça, estava constantemente a deixar tudo cair e as letras nunca assentavam nas linhas… tudo problemas de rapazes, segundo dizia a professora.

Agora, já crescido, a confusão continuava, deixava tudo em todo o sítio, estar a apanhar material do chão era uma constante, e a sua letra estava cada vez mais confusa com o avançar da escolaridade. As aprendizagens representavam um desafio cada vez maior.

Finalmente, conheci a criança e aí tudo ficou compreendido. Apesar dos seus 13 aninhos, não era capaz de distinguir a esquerda da direita, se lhe pedisse que seguisse um percurso básico perdia-se dentro da própria sala e desorientava-se, mesmo indicar-lhe a casa de banho era difícil… orientava-se nos dias da semana segundo os dias em que tinha basket, e não tinha ideia do que era possível fazer em uma hora. Era uma criança que não se tinha ainda apercebido que vivia num espaço e num tempo, e como tal, nunca se tinha nem organizado, nem estruturado.

E como não?

Numa das principais alturas em que se deveria ter estruturado todo o seu espaço foi alterado: perdeu o seu espaço pessoal no quarto, a sua casa teve de se adaptar a mais uma pessoa e teve de perceber o quão longe era outro país. Mesmo a nível de tempo, enquanto se habituava à estrutura semana, tinha de lidar com o mês e meio que o pai estava fora.

Claro que esta sua desorganização não se tardou a fazer esperar: não era capaz de organizar o seu material e perceber como o dispor na secretária. Com esta dificuldade em se estruturar, era também difícil não mandar o material ao chão, o que era o suficiente para o distrair do que se estava a passar na sala. Mesmo ao nível da folha, era difícil para ele perceber como orientar a sua letra consoante aquelas linhas…

No entanto, como era bem educado, curioso e honestamente interessado, foi avançando, assim como a sua dificuldade.

Foram precisos muitos origamis, muitas construções e muitos percursos, muitos tangrans e muitos puzzles. Muita intencionalidade e muita relação. Mas no último dia houve um sorriso e uma promessa: “um dia, vou brincar com crianças, tal como tu”.

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Num espaço de semanas ou meses, diversas séries ou tendências da internet, como a baleia azul, têm vindo a intensificar o diálogo e a reflexão sobre a auto-mutilação, o suicídio e os comportamentos de risco entre os jovens. Pois bem, mais do que sobre os jovens, hoje pretendo chamar a atenção que estes comportamentos não se prendem apenas com adolescentes… uma criança também pode sentir depressão, uma criança pode tentar suicídio, uma criança pode isolar-se e até auto-mutilar-se.

São pensamentos horríveis e assustadores e que nos colocam a questão: Mas que motivo teria uma criança para ficar deprimida?

Primeiro que tudo, e muito antes de continuar sequer a reflexão, há algo que todos nós adultos temos de compreender: as crianças não estão apenas a começar a crescer, elas estão também a começar a sentir. Sentir é algo constantemente novo para elas, o que quer dizer que dia sim, dia sim, as crianças conhecem um sentimento novo. Imaginam o quão avassalador isto é? É verdade que todos nós passámos por isso e hoje estamos todos cá, contudo, temos agora uma coisa chamada relatividade. Ou seja, com base na nossa experiência de vida, temos a capacidade de relativizar o que sentimos e perceber com a maturidade de hoje, os sentimentos que tivemos na altura. Esta capacidade de maturação permite-nos entender o sofrimento, a dor, a alegria e o êxtase com maior ponderação. Ou seja, se calhar já não consideramos que deixar cair o rebuçado ao chão é a pior coisa do mundo, tendo já perdido um familiar, por exemplo. Mas com as crianças não… o que quer dizer que se a criança deixar cair o rebuçado ao chão, este é realmente o maior problema da vida dela, não tem como comparar e, pior, não tem como saber que melhora depois. É uma estreia.

Por isso imaginem o peso que tem para estas crianças passar por períodos mais complicados, como por exemplo, o afastamento de alguém, perder algo de que gostem muito, uma mudança repentina ou mesmo a morte de um familiar próximo. É como se fosse um mar e um oceano de novidades negativas que se aproximam.

Outro ponto fundamental para entender é que, enquanto nós adultos somos capazes de dialogar e exprimir o que sentimos por palavras, organizando e refletindo sobre as emoções, as crianças não sabem ainda como fazer isso. Por isso, muitas vezes as expressões que elas passam são confusas, mal percebidas e catalogadas de outra forma. Por exemplo, as crianças expressam-se pelo corpo. Ora, quando estão em situação de desconforto, as crianças tendem a ficar mais agitadas, mais irrequietas ou com uma maior tendência para a oposição. Por isso, muitas vezes, crianças com depressão são confundidas com hiperativas ou mal criadas.

Outra reflexão a ter é que, tal como nos adultos, a depressão infantil não se reflete sempre da mesma forma: sim, para algumas crianças significa muita agitação irrefletida, mas para outras poderá ser o isolamento, o afastar-se da escola, a recusa de uma atividade, entre tantas outras coisas.

Como lidar com os sentimentos de uma criança

Por isso, existem vários pontos a ter em atenção. O primeiro é nunca diminuir a dor da criança. Pensemos, quando nos sentimos tristes, sentimo-nos tristes. O alguém nos dizer que não vale a pena estar triste não muda nada, e para as crianças acontece o mesmo. Contudo, o adulto deve apresentar um papel contentor que lhe mostre que tudo passa e que tudo ficará bem. Falar sobre as emoções e os sentimentos é também essencial, de forma a facilitar e a promover o diálogo. Por fim, é essencial pedir ajuda. E não só as crianças… pais, professores, monitores, todos os responsáveis da criança devem saber quando pedir ajuda a um profissional para ajudar. Porque a depressão não é apenas uma doença de adultos, e se é séria em adultos, também o é em crianças.

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Psicomotricidade em saúde mental infantil

Apesar da estranheza que a aplicação da psicomotricidade em saúde mental pode trazer, a verdade é que foi aqui que tudo começou. Verdade. Foi graças a dois profissionais que conseguiram ver mais além que esta magnífica profissão hoje existe.

Estes dois profissionais verificaram que, em diversas crianças que não apresentavam sintomas na esfera psicológica, existiam sinais corporais que indicavam que estas crianças estavam a ter algum tipo de problema do âmbito psicológico, mas com uma expressão predominantemente corporal. Seguindo a mesma lógica, estes profissionais concluíram que diversas crianças com problemas ao nível da saúde mental, beneficiavam mais a partir de estratégias de intervenção corporal do que por diálogo ou reflexão. E assim nasceram os dois primeiros psicomotricistas.

A lógica deles não só era válida como se mostrou também verdadeira e ainda hoje justifica a intervenção psicomotora em crianças com dificuldades em saúde mental. É verdade que a terapia que costuma sempre surgir-nos quando pensamos em saúde mental é a psicologia, e é verdade que esta é uma terapia com inúmeros benefícios. Contudo, não é raro que crianças que tenham sofrido algum trauma, ou que estejam a ultrapassar uma dificuldade emocional,  não sejam capazes de verbalizar as suas dificuldades.

Por isso, começam a exprimir o seu sofrimento da melhor forma que sabem: pelo corpo.

Esta expressão pode-se encontrar de diversas formas: em crianças que não conseguem parar, crianças que agem de forma inconsequente, as famosas dores de barriga, dores de cabeça, até através de alergias.

Neste sentido, a psicomotricidade e o psicomotricista aparecem como elementos muito importantes. O psicomotricista, neste caso, vai falar na mesma linguagem que a criança: pelo corpo e pelo movimento. Assim, a sala e o espaço terapêutico vão tornar-se num esconderijo seguro, onde a criança poderá ser livre para se exprimir, sabendo que está lá um adulto que irá ler aqueles sinais e responder numa linguagem que a criança consiga compreender.

O psicomotricista irá fazer uso das muitas ferramentas que tem do seu lado, como o jogo simbólico, a relaxação, as atividades expressivas, e vai aos poucos tentar aliar este trabalho a palavras promovendo a reflexão por parte da criança.

Quando esta conexão está feita, então o trabalho está lançado. Por isso é tão regular que as crianças passem a ser seguidas por um psicólogo depois deste trabalho. Ou ainda que trabalhem em conjunto… porque a psicomotricidade serviu como consolidação da segurança da criança e da percepção desta de si mesma, para que possa conseguir aliar a palavra à ação, e vice-versa.

Porque no fundo, foi isso que o psicomotricista fez: ligou os pontos que estavam soltos e preparou para o que vinha a seguir.

 

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O meu filho é desajeitado… o que posso fazer?

 

Por motivos de investigação, foi-me pedido que realizasse um levantamento da literatura científica que existia sobre a parentalidade na PHDA (perturbação da hiperatividade e défice de atenção). Muito obediente, lá fui aos motores de busca académicos mais conhecidos e comecei a ler o que já existia sobre este tema. Aos poucos fui ficando cada vez mais decepcionada: apenas informações sobre como os pais e mães não lidavam com a hiperatividade. Erros, erros e mais erros. Tudo sobre como a parentalidade era mal exercida. Tudo como estes pais colocavam ainda mais em risco crianças, que por si só, apresentam já um desafio. Procurei em diversas línguas e encontrei apenas mais do mesmo: autores de renome, de faculdades conhecidas, a apontar problemas que todos sabemos que são conhecidos. De positivo, nada.

Nada sobre como estes pais são guerreiros ao enfrentarem uma escola estandardizada não preparada para comportamentos desviantes, sobretudo quando aparentemente tudo está bem. Nada sobre como estes pais são fortes ao enfrentarem uma sociedade que ainda encara esta dificuldade como um problema menor e de educação, sem apresentar soluções viáveis. Nada sobre como estes pais são faróis, para crianças que procuram respostas, onde os pais ainda encontram dúvidas. Nada sobre como estes pais são mudança, quando discutem com médicos e questionam os caminhos que são mostrados.

Vivemos numa sociedade onde a palavra hiperatividade tem vindo a ser de mais em mais banalizada, como corrente no nosso quotidiano, mas onde ainda poucos sentem o seu peso. Vivemos numa sociedade em que a educação ainda está assente no passado, mas acontece na velocidade de um futuro. Vivemos numa sociedade em mudança, com novos desafios, mas onde ninguém guia estes pais num caminho claro e longe da culpa.

Desta forma, mesmo quem estuda estas famílias e quem deveria aproximar-se para dar a mão, aponta antes o dedo para os erros, mas sem apresentar soluções.

Porque se é verdade que quando entramos na perturbação da hiperatividade e défice de atenção, entramos também em terreno pantanoso onde ainda temos muito que cimentar, é também verdade que não é apontando dedos entre adultos que se chega a quem mais precisa: a criança.

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Querido adulto,

Precisamos urgentemente de falar. Posso não ser muito crescido e pode parecer que passo mais tempo a brincar que a trabalhar (se bem que ainda não notei muito a diferença que tu tanto gostas de referir), mas já reparei em algumas coisas. Já reparei que achas que faço coisas de forma diferente e já reparei que sempre que estás comigo esforçaste por me comparares aos meus amiguinhos. Até aqui tudo bem. Eu gosto muito deles e confio em ti, e por isso, acredito que se o fazes é para meu bem.

Agora adulto, o que não pode acontecer é esqueceres-te do meu nome para me começares a chamar uma data de coisas complicadas que não são o que eu sou. Por algum motivo que que eu não consigo entender, desde há uns tempos para cá que eu perdi a minha identidade para passar a ser o PHDA ou hiperativo, passar a ser o PEA ou asperger, passei a ser o paralisia cerebral ou tantas e tantas outras que podiam caber para aqui. Diz-me adulto, se eu te vejo sempre ansioso ou mal disposto devo também passar a chamar-te o rabugento, o mal-encarado ou o stressadinho?

Eu sei e compreendo que tu e todos os outros adultos tenham necessidade de dar um nome ao que eu faço, sobretudo quando há outros meninos que crescem e que se comportam da mesma forma do que eu. Mas parem de me reduzir a isso. É que a partir do momento em que vocês adultos se concentram só nessas palavras, é como se elas crescessem e crescessem, tanto e tanto que começam a sugar tudo à minha volta. A minha vida inclusivé.

É como se de repente fosse causa e consequência. É como se fosse desculpa e sentença. É como se eu deixasse de ser eu para ser uma palavra que nem sei o que significa ao certo. Eu sei que esse nome tem um significado, eu sei que esse nome tem um impacto e sei que ao me darem esse nome, no fundo, querem apenas ajudar-me e acompanhar as minhas dificuldades.

Mas lembra-te querido adulto, eu continuo aqui. Eu continuo a ser eu. E muito mais importante, eu sou e sempre serei muito mais do que esse nome. Eu irei aprender, eu irei crescer e eu irei surpreender, muito além do que esse diagnóstico ou do que qualquer adulto expecte de mim.

Por isso adulto, fica lá com o teu diagnóstico se isso te ajudar a ti e aos outros adultos de alguma forma. Mas quando olhares para mim, olha mesmo. Porque eu continuo cá, com diagnóstico ou não.

Publicado originalmente em Terapeuta Ana Fonseca

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