Brincar ao Faz de Conta

O faz de conta permite à criança resolver problemas presentes, mas também passados.

Servir chá às bonecas, brincar aos polícias e ladrões e fazer teatro de fan.oches.

Conversar com o amigo imaginário, trocar de papéis com os pais, fingir ser a personagem de desenhos animados que adoramos, cozinhar com lama,…

Quem nunca? Quem já não observou os mais pequenos a fazê-lo?

Embora manifestando-se de forma diferente, o faz de conta está presente nas crianças de todas as idades. E ainda bem! De facto, ele é fundamental para o crescimento e desenvolvimento da criança aos níveis intelectual, social e motor.

Ao recriar o “mundo real” no seu mundo imaginário, a criança está a compreendê-lo e a assimilá-lo da forma como o apreende. Ao simular situações, está a desenvolver a imaginação, a fantasia, a criatividade.

Ao imitar o polícia, o bombeiro ou outra qualquer profissão, está a assimilar os valores que lhes estão subjacentes e a criar o seu próprio “quadro ético”.

O faz de conta permite à criança resolver problemas presentes, mas também passados. Isto contribui para a aprendizagem da tomada de decisões, reforçando a sua autonomia e sem medo das imposições dos adultos.

A capacidade de planeamento é também reforçada, bem como a assimilação de regras sociais, familiares e/ou escolares que lhe são impostas.

Mesmo a simulação de lutas de faz de conta é muito importante para o desenvolvimento das crianças.

Canaliza a agressividade natural para uma experiência lúdica. E observar uma criança a brincar ao faz de conta é muito enriquecedor. Permite não só conhecê-la melhor, mas perceber como ela interpreta o mundo que a rodeia. Não raramente, permite também tomarmos consciência de como ela nos vê e aos nossos comportamentos.

Todos os pais e educadores deveriam facilitar e incentivar actividades de faz de conta.

Algumas brincadeiras estruturadas são muito importantes, mas fundamental mesmo é deixar a criança brincar livre e naturalmente, participando quando a tal é convidado.

 

 

Hoje acordei com dores de cabeça, borboletas na barriga e um vazio no coração….

Naqueles escassos segundos de reflexão depois do despertador tocar e antes de por o pé fora da cama para começar um novo dia, dei por mim a pensar…. Consigo perceber as dores de cabeça, de facto tem sido um mês maravilhosamente difícil, cheio de novos projectos, assuntos para pensar, decisões para tomar. Mas e o resto?

A cabeça logo se ressente quando anda em turbilhão e as dores de cabeça são sempre um primeiro sintoma para a lembrar de parar e respirar. Mas porquê a ansiedade e o vazio no coração que lhe dava vontade de chorar e de não ir trabalhar?

Num mundo perfeito seria assim! Mas não é esse o nosso mundo e mesmo quando sentimos as pernas a fraquejar ou o coração a apertar, lá vamos nós, resgatando toda a energia que ainda existe no submundo do nosso ser para podermos cumprir as nossas responsabilidades. No momento em parou e de alguma maneira tentou escutar sobre o que lhe falava o seu corpo, pensou na sua família.

Geralmente o meu coração de mãe “apita” quando eles não estão bem ou quando sinto que estou mais longe deles e das suas vidas. Este era um claro sinal do que lhe falava o seu corpo e o seu coração e por aqui começava a encontrar o caminho da sua reflexão, o caminho da sua ansiedade e o caminho da sua tristeza.

A agitação em que andava fazia com que se sentisse assoberbada, desenraizada e longe. Quando nesta vida que nos atropela pela quantidade e velocidade com que se processa tudo à nossa volta, não conseguimos contrariar a tendência para a alienação; Quando grande parte de nós se torna num mero automatismo, sem conteúdo e sem capacidade de ver, estar e sentir; Quando todo este furacão nos faz perder o acesso a dimensões necessárias de profundidade…. Sentimo-nos assim!

Embora nada tivesse sido diferente nessa semana, em termos do seu tempo em casa, a verdade é que estava absorvida pela hiperactividade mental e como tal fisicamente presente mas emocionalmente ausente. Encontrava-se alheada nos seus pensamentos e o tempo de qualidade de que todas as crianças, mães, pais e famílias precisam estava comprometido pela indisponibilidade emocional.

Surge assim esse sentimento que tão bem conhecemos e que é uma mistura entre o prazer ou a necessidade de uma vida profissional e a culpabilidade de não termos tempo para os nossos filhos. Será que nos sentimos assim porque realmente temos pouco tempo para a nossa família, ou existem outros mistérios por decifrar?

Na verdade não precisamos de muito tempo uns dos outros, mas precisamos de tempo de qualidade. Tempo no qual estamos presentes e entregues à dinâmica da relação e não emersos nos nossos fantasmas e nas nossas preocupações; Tempo em que apenas estamos, sem stress e nos deliciamos a vê-los crescer; Tempo para conversar, rir, chorar e brincar; Tempo em que não os levamos a passear mas passeamos com eles; Tempo no qual, como diria o meu filho, partilhamos a vida!

Na verdade o que nos falta não é quantidade, mas sim Tempo de Qualidade!

Por Ana Galhardo Simões, Psicoterapeuta Corporal
para Up To Lisbon Kids®

Todos os direitos reservados

O título é divertido e não se fala noutra coisa entre a gente miúda e mesmo a graúda, senão no filme que estreou há poucos dias no cinema: “Inside Out” ou “Divertida Mente”, o qual aconselho vivamente, enquanto psicóloga e mãe.

E este filme foi o mote para o fluir dos seguintes pensamentos…

A alegria, o medo, a tristeza, a raiva, a repulsa…tantos sentimentos que coexistem dentro de uma pessoa.

Chegamos ao mundo equipados com esta bagagem sentimental e depois vamos desenvolvendo cada uma destas emoções à medida que vamos crescendo, vivendo…e sentindo, sempre em relação e como reacção ao que nos rodeia.

E valeu a pena…sair do casulo, do ventre da mãe, onde protegidos já sentíamos tanta coisa, para um mundo nem sempre bom, nem sempre agradável, nem sempre acolhedor ou cuidador, mas só pela oportunidade de sentir tudo, o bom e o menos bom, pela oportunidade de viver e podermos criar vida, só por isso, já valeu a pena!.. Pela oportunidade de amar e ser amado…claro que vale a pena!..

Viver é um desafio diário, que tem tanto de belo como de assustador. Mas vale pela viagem, pelo caminho que vamos fazendo e pelos sentimentos que vamos experienciando ao longo do mesmo.

Se ficarmos tolhidos pelo medo, não fazemos a viagem, ou pior, a viagem acontece mas nós não embarcámos.

As crianças devem brincar muito, tudo o que puderem, e ter o máximo de experiências, enriquecedoras e desafiantes, usufruir em pleno da felicidade de estar vivo, sem que lhes sejam incutidas demasiadas regras ou limites ou metas. Atenção, regras têm sempre que existir, mas sempre na medida certa!.

É importante ensinar a pensar mas é muito mais importante deixar espaço para o sentir. As crianças devem ser educadas para o Ser e não tanto para o Ter. É tão mais importante ser…e só se consegue ser um bom ser humano (interessante escolha de palavras) se formos sentindo desde crianças todas estas emoções, de forma espontânea e livre…o medo, a alegria, a raiva, a inveja, o ciúme, a ansiedade, o amor. Todas estas emoções têm de ser vividas desde cedo e só assim um adulto se pode considerar preparado (e mesmo assim nunca por completo) para fazer face às exigências diárias da vida.

A exploração, a conquista, o desafio e a aventura, é isso que torna a infância tão especial, exactamente porque nessa fase da vida tudo se pode (e tudo se deve) e como tal é nessa fase que devemos ser confrontados com todas estas emoções e aprender a lidar e a gerir as mesmas, ou criar defesas.

E claro, que mesmo assim, nunca estaremos preparados, nada na vida é linear e somos seres incompletos e imperfeitos, mas pelo menos devemos disso ter consciência, devemos confrontar-nos com a nossa humanidade. Ser humano implica falhar, errar, levantar e tentar de novo. Tomar consciência da nossa pequenez face ao universo e saber que falharemos mas que não deixaremos de nos levantar (para possivelmente falhar de novo), isso sim é aceitar o desafio de viver.

Só temos uma vida, pelo menos é o que se diz, por isso ponham tudo o que são em tudo o que fazem. Façam uso do coração…que é o músculo que carece de mais exercício…sintam e procurem incansavelmente atingir a felicidade…e sejam felizes pelo caminho…

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=3c4NORepKt4]

 

Dermatite das Fraldas

Como pai e médico de família, sei que um dos problemas mais frequentes, e que preocupa os pais de recém nascidos se deve à dermatite das fraldas, sendo que esta é provavelmente a afecção cutânea mais frequente na primeira infância nos países desenvolvidos.

Com este texto, pretendo explicar as principais causas deste problema, mas acima de tudo mostrar as melhores formas de o evitar!

Em bom rigor, dermatite das fraldas ou eritema das fraldas são termos que abrangem uma serie de problemas de pele que atingem a zona do corpo coberta pela fralda.

Habitualmente, esses termos são utilizados para designar uma irritação simples da pele do bebé nesta área, e que acontece devido às condições muito específicas a que aquela zona está sujeita. A pele do bebé é, já de si, muito delicada e frágil, facilmente sujeita a irritação e vermelhidão. Numa zona sujeito ao contacto com urina e fezes, ainda por cima num ambiente escuro, quente e húmido, sujeito a atrito e fricção constante,  facilmente se criam as condições para maceração da pele que fica vermelha, irritada e por vezes fissurada. Esse é o aspecto típico da dermatite simples da fralda, sendo que atinge habitualmente a zona das fraldas mas costuma, em regra, poupar a zona das pregas.

Podem no entanto existir outras causas para a dermatite das fraldas:

– por atrito, quando a fralda não é do tamanho mais indicado por exemplo;

– causada pelo contacto com outros produtos ou estímulos irritantes para a pele – diarreia por exemplo, que por si só é suficiente para desencadear e manter uma dermatite das fraldas, ou outros produtos irritantes (por exemplo os toalhetes de limpeza);

– causadas por verdadeiras alergias a algum dos constituíntes da fralda – atenção que esta forma de dermatite é bastante rara, habitualmente evolui com vermelhidão da pele, que vai agravando e não tem resposta aos tratamentos habituais.

As dermatites da fralda podem também ser complicadas por infecções fúngicas, habitualmente candidíase. Quando isso acontece, o aspecto típico são lesões de uma cor vermelho vivo, brilhante, com presença de pústulas satélites nas bordas das lesões e podendo ter descamação na região periférica. As dermatites complicadas por candidiase, ao contrário das dermatites simples das fraldas, habitualmente afectam também as pregas!

Pode ainda acontecer que as dermatites das fraldas estejam associadas a outros tipos de doenças da pele (dermatite seborreica, eczema atopico, etc). Isto é mais raro, e quando acontece, habitualmente existem associadas lesões noutros locais da pele que não apenas na zona da fralda.

Conhecendo todos estes factores predisponentes para o eritema da fralda, torna-se mais fácil evita-lo, mantendo a área limpa e seca, minimizando o contacto com os factores agressivos e irritantes e não expondo a irritantes desnecessários. Assim, algumas medidas que devemos adoptar para prevenir o eritema das fraldas são:

– Limpeza da área com compressas com água apenas, devendo evitar-se o uso de sabão e de toalhetes

– Evitar o uso de pó de talco (ainda que as nossas avozinhas nos digam que é a melhor forma de prevenir os eritemas das fraldas) pelo risco de aspiração e problemas pulmonares

– Escolha de boas fraldas absorventes (e atenção que uma boa fralda absorvente não é necessariamente uma fralda de uma marca cara ou conhecida!) e muito importante, de tamanho adequado para evitar o atrito! Não tenham medo das alergias às fraldas, como explicado anteriormente, os eritemas raramente são causados por verdadeiras alergias à fralda.

– Muda frequente da fralda. O ideal seria a cada dejecção ou micção, mas temos de ser realistas e acima de tudo, ter bom senso. Na minha opinião, mudar a fralda a intervalos de 3 a 4horas já me parece bastante razoável, mas óbvio que se nos apercebermos de uma dejecção, mesmo que tenhamos acabado de mudar a fralda, não vamos esperar 3h para a mudar novamente e devemos muda-la logo, tal como se um bebé estiver a dormir tranquilamente, mesmo que ultrapasse um período de 4h, não o vamos acordar para lhe mudar a fralda.

– Utilização de cremes barreira (que são as pomadas com oxido de zinco, existem imensas no mercado, por exemplo Mitosyl, Halibut, Carena, etc.) numa camada fina, a cada muda de fralda.

Quando todas estas medidas não são o suficiente para evitar ou mesmo tratar um eritema das fraldas, a melhor opção será consultar o médico de família ou o pediatra. Nessa situação ele irá provavelmente pensar e excluir outras causas para o eritema como aquelas acima descritas, e poderá eventualmente ser necessário outro tipo de cremes como pomadas com cortisona se existir uma reacção inflamatória extensa ou pomadas com antifúngico se as lesões forem sugestivas de candidiase.

Por  André Pedras,  Nós e as Marias
para Up To Lisbon Kids®

Todos os direitos reservados

Como muitos de vós já sabem, circula pela internet uma petição que se dirige a nós, pais, da seguinte forma:
Pais e cidadãos unidos contra a proposta da CONFAP para anos letivos de 11 meses de aulas e a favor de uma mudança do sistema de ensino primário e secundário que beneficie os nossos filhos”.  Para quem não sabe, a CONFAP, é a Confederação Nacional das Associações de Pais.

Posto isto, e sem qualquer ponta de pretensiosismo, esta Plataforma entendeu fugir dos lugares comuns e dos “sound bytes” da indignação fácil e de plástico.

Nesse sentido, procurou ouvir a voz do “condenado à morte da semana transata” pelo que passamos a transcrever integralmente uma comunicação da CONFAP, que nos foi amavelmente enviada, para que de forma esclarecida cada um possa tirar as suas ilações.

“A nossa opinião sobre a Escola (porquê, para quem e como) está no nosso site.

O que veio a público na CS foi na sequência das declarações do conselho de Escolas que defendeu mais uma pausa letiva no 1º período sem mais, quando todos reclamam a falta de tempo para os programas. As nossas crianças e jovens já nem respiram em face da concentração e intensidade da carga letiva e testes com que são assoberbados diariamente durante os períodos de aulas.

Por isso, o que dizemos, desde de há anos, é que o ano letivo deve ser bem programado e com antecedência. Às Escolas deve ser possível planear, organizar e funcionar nas melhores condições, sem pressões desnecessárias e imprevistas, desde o primeiro dia de funcionamento que deve ser no início de Setembro, até ao último dia de funcionamento que acontece no fim de Julho. O Serviço Público Educativo tem que responder com qualidade às necessidades e expectativas de todas as famílias.  

Não é de agora que o dizemos, a missão da Escola do Séc. XXI já não é (não pode ser) apenas a função de ensinar. Hoje tem que ter uma função social e educativa, imprescindível para uma sociedade promotora de equidade. Engloba (deve incluir) por isso muitas atividades não letivas e muitos profissionais não docentes,  por exemplo as expressões distribuídas pelas diferentes áreas disciplinares ao longo do ano, o que nos exige outra capacidade de gerir.

Defendemos a autonomia das escolas e das comunidades, respeitando diferentes interesses, mas sem nunca por em causa o superior interesse da criança.

Para isso, lá vem à colação o debate sobre a “revolução na educação”.
Percebemos bem o que está em causa com toda a desinformação que alguns tentam passar. Não é inocente a tentativa de tentarem confundir Escola com aulas.

Mas também sabemos que o que dissemos foi bem percebido, como aliás o demonstrou o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa na sua intervenção semanal de Domingo na TVI há 8 dias. E também não ignoramos que uma nova organização do ano escolar, ou seja a Escola do Séc. XXI que tantos  reclamam e ninguém tem a coragem de alterar, põe em causa um status quo que a poucos interessa manter.

Podemos mesmo dizer que concordamos e temo-lo debatido, com os pontos II, IV, V, VI e VII da petição em causa.

Porque acreditamos que estamos a defender o superior interesse da criança e do jovem, no seu direito a uma Educação de Qualidade, permita ainda acrescentar que aquando do início do seu mandato, o Sr. MEC apresentou as alterações aos programas, retirando a educação cívica e outras atividades educacionais das escolas. A CONFAP foi a única das instituições presentes, e estavam lá associações de professores e sindicatos, que se opôs por considerar que o aumento de carga letiva não é a solução. Eventualmente mais um sinal da hipocrisia que chegamos a referir.

Nunca defendemos e nunca falamos em 11 meses de aulas ou nos referimos a um só tempo de férias. Como atrás é dito, temos defendido a necessidade de profissionais que sejam capazes de trabalhar com as crianças e com os jovens, sem que seja necessariamente num ambiente de sala de aulas onde, aliás, muitos pretendem que os seus alunos sejam estátuas e a quem ensinam como se fossem um só. Criticamos mesmo o modelo de edifício de escola que ainda hoje construímos, baseado quase exclusivamente em salas de aulas, sem espaços para desenvolvimento de novas metodologias de ensino/aprendizagem, de debate e de experimentação. 

Queremos uma Educação plena da pessoa e dos valores, mas é preciso tempo, espaço e meios para essa missão em conjunto com as comunidades e o envolvimento das famílias.

Este é um tema que dá um grande debate, mas tem de ser feito de forma séria e onde as crianças e os jovens sejam a principal preocupação e possam, também elas, dizer o que pensam da educação que lhes é ministrada.

Procuramos ser e manter a nossa coerência na defesa de uma Educação de Excelência e de um serviço público educativo de qualidade que responda às necessidades das famílias.” –  Jorge Ascenção- Presidente do Conselho Executivo da CONFAP

Por Up To Lisbon Kids®

Todos os direitos reservados

imagem@TVI24

Algumas horas após ter deitado o meu filhote, oiço um grito aflitivo e um choro assustado vindo do seu quarto. Corro ao seu encontro. Chora aflito sentado na cama. Parece estar a dormir e nada do que diga ou faça parece acalmá-lo. De repente, ao fim de breves instantes, volta a pegar no seu ursinho, aninha-se nos lençóis e dorme tranquilamente, como se nada se tivesse passado. Na manhã seguinte, não se recorda de nada.

Esta é uma situação que parece descrever um terror nocturno. Estes são diferentes dos pesadelos, que são “sonhos maus”, fazendo despertar a criança que, por vezes, corre para a cama dos pais, contando em pormenor o que estava a sonhar. Um terror nocturna é algo que pode ser perturbador para quem está a assistir, no entanto, não constitui uma situação perigosa, parecendo ocorrer com maior frequência entre os 18 meses e os 6 anos de idade.

O sono é uma necessidade vital do ser humano, desempenhando um papel crucial no desenvolvimento e crescimento harmonioso das crianças. O sono é um importante pilar para o bom funcionamento cerebral, boa saúde física e psicológica e capacidade de aprendizagem.
Nos primeiros anos de vida, a quantidade e qualidade de sono é ainda mais importante porque as crianças passam por etapas de desenvolvimento cerebral fulcrais que requerem boas condições internas e o estado reparador que o sono proporciona. Por esse motivo, cuidar do sono das crianças, logo desde o seu nascimento é uma tarefa verdadeiramente importante a levar a cabo pelos cuidadores.

Deixamos algumas dicas orientadoras, para ajudar a promover um soninho descansado dos pequenotes.

  • Valorize a higiene do sono – salvaguardando rotinas, horários e ambientes promotores do descanso.
  • Tome atenção a experiências de elevado stress, ou dias de maior cansaço e desgaste, uma vez que estes podem estar associados a sonos mais agitados;
  • Garanta que a criança dorme as horas de sono adequadas à sua idade;
  • Evite bebidas estimulantes ao final do dia;
  • Evite actividades muito agitadas antes de dormir, bem como actividades que impliquem o recurso a televisão, computador ou telemóvel;
  • Introduza uma actividade de relaxamento antes de ir dormir;
  • Evite assuntos que podem despertar emoções difíceis de gerir, perto da hora de deitar;
  • No decorrer de um episódio de “despertar” nocturno, mais ou menos agitado, não tentar acordar a criança, nem demonstrar apreensão ou desorientação. É importante falar com calma, reconduzi-la para o quarto, caso tenha saído do mesmo, esperando que volte a acalmar-se e a “adormecer”.

Bom soninho e bons sonhos!

Por Inês Afonso Marques, Psicóloga Clínica Coordenadora área Mindkiddo –
equipa infanto-juvenil, Oficina de Psicologia, para Up To Kids®

Todos os direitos reservados

Desde sempre que o processo de aquisição e desenvolvimento da linguagem tem sido alvo de inúmeros estudos, não fosse a linguagem vista por muitos como “a janela do conhecimento humano”. Muitos foram os que a consideraram como uma capacidade inata. No entanto, actualmente sabe-se que o seu desenvolvimento depende de questões neurobiológicas e sociais, isto é, da interacção entre as características neurobiológicas de cada criança e a qualidade dos estímulos do meio em que está inserida (Mouzinho et al, 2008).

É incrível a capacidade do ser humano de, sem esforço e em apenas 40 meses, evoluir de um simples choro (como forma de comunicar que tem fome) para a frase “Gostava tanto de comer um gelado!”, provida de sofisticação gramatical e pragmática. Embora rápido, é um processo dotado de grande complexidade (Sim-Sim, 1998). Mas afinal, o que é isto da linguagem? Entende-se por linguagem “um sistema complexo e dinâmico de símbolos convencionados, usado em modalidades diversas para [o homem] comunicar e pensar”(A.S.H.A., 1983). Se pensarmos bem, falar implica uma vasta diversidade de processos. Necessitamos de ouvir, processar o que ouvimos, pensar, recorrer a símbolos para expressar o nosso pensamento, escolher as palavras adequadas, construir frases, utilizar de forma correcta os músculos para articular as palavras e ainda regular a capacidade respiratória… E tudo isto numa fracção de segundos.

À semelhança do que sucede no desenvolvimento das outras áreas, também na linguagem o desenvolvimento é gradual e o ritmo não é o mesmo em todas as crianças. No entanto, existem alguns marcos deste processo. Assim:

  • 1/4 meses
    Começa a palrar, produzindo vogais e posteriormente algumas consoantes como p, b, k, g. Reage aos sons e dirige o olhar e/ou cabeça na direcção dos mesmos;
  • 4/6 meses
    Começa a reconhecer o próprio nome e entende quando está a ser chamado. Começa a distinguir os rostos conhecidos dos rostos estranhos. Responde com tons emotivos à voz materna e inicia a fase do balbucio. Produz uma maior variedade de vogais e consoantes, produzindo sílabas do tipo consoante-vogal sem mudar a consoante (por ex: “dudadá”);
  • 6/8 meses
    Começa a fazer jogo vocal, aumenta o reportório de sons e experimenta diferentes combinações de sílabas (por ex: “pabada”);
  • 8/12 meses
    Começa a tentar repetir e imitar tudo o que ouve, desenvolve a sua intenção comunicativa e começa a utilizar um discurso aproximado do real, usando a entoação e um conjunto de sílabas com diferentes funções comunicativas (chamar a atenção, questionar e protestar) e já reconhece algumas palavras do seu quotidiano (por ex: bola; carro; rua; não);
  • 12/18 meses
    Uso repetido do mesmo som para um determinado significado, produz as primeiras palavras, reconhece o nome de pessoas próximas, objectos e partes do corpo, compreende ordens simples (por ex: diz adeus; dá o carro). No final desta etapa, a criança já imita palavras e os sons de objectos e animais e utiliza cerca de 8/10 palavras relacionadas com o seu dia-a-dia;
  • 18/24 meses
    Utiliza uma linguagem simples e directamente ligada às descobertas sensório-motoras, começa a utilizar algumas regras de comunicação (entoação e turnos de comunicação) e recorre a diferentes formas de comunicação não verbal para chamar a atenção (apontar, olhar e tocar). Utiliza a linguagem enquanto brinca, frequentemente fazendo monólogos com uma linguagem própria e de difícil compreensão. Compreende e responde a perguntas simples (por exe: tens fome?; o que é aquilo?), faz pedidos e o seu vocabulário aumenta de forma explosiva.No final desta etapa, surgem as primeiras combinações de palavras, dando origem a um discurso telegráfico (por ex: “João rua”; “João dá”);
  • 24/36 meses
    Compreende cerca de 300 palavras e a cada dia que passa o seu vocabulário aumenta, começa a adquirir regras e padrões básicos da organização da estrutura frásica da linguagem, utiliza frases de duas ou três palavras e começa a generalizar enunciados de três palavras, formando frases na ordem correcta (sujeito/verbo/objecto), como por exemplo “Maria quer água” ou “mãe dá colo”;
  • 3/4 anos
    Utiliza frases mais complexas com 3 ou mais palavras, adquire regras de concordância (número e género), começa a questionar tudo (idade dos “porquê’s”);
  • 4/5 anos
    Expressa-se bem através de um discurso mais complexo, utilizando frases mais elaboradas. A articulação verbal pode ainda não ser totalmente correcta.Embora todo este processo de aquisição e desenvolvimento da linguagem seja natural, podemos e devemos estimulá-lo.
    Como? Proporcionando experiências interactivas mais ricas.
    Eis algumas ideias:

    • Falar e associar alguns gestos do quotidiano (por ex: olá; adeus; vem cá; ali; em cima);
    • Dizer o nome do que está à vossa volta, para que serve e alguma característica observável (por ex.
      cor, tamanho);
    • Descrever as actividades do dia-a-dia, diversificando e adequando o vocabulário;
    • Ler livros e contar histórias;
    • Incentivar o brincar e o cantar;
    • Ir ao teatro ou ao cinema e depois discutir a história.Em síntese: Fale! Fale muito com a sua criança!Se identificar uma criança cujo desenvolvimento da linguagem não esteja de acordo com a sua idade, deverá recomendar uma avaliação em terapia da fala.

 

Por Joana Firmino, Terapeuta da Fala, para Up To Kids®
Todos os direitos reservados


Sabemos que estamos a falhar quando visitamos uma criança e a primeira coisa que ela faz é procurar um saco ou um embrulho nas nossas mãos.

Há já algumas gerações que os pais tentam dar aos filhos mais do que eles próprios tiveram: mais conforto, melhor roupa, mais diversão, mais coisas, enfim, uma vida melhor. Mas esquecemos que as crianças precisam do básico para estarem bem, precisam de pouco para serem felizes. Preferem duas tampas de tachos para fazer barulho do que o mais sofisticado jogo didático estudado para a sua faixa etária. A felicidade faz-se de coisas simples e somos nós, os adultos, que vamos criando necessidades, que vamos acrescentando pequenas características aos dias para que eles possam ser considerados perfeitos. Não o fazemos por mal, queremos que não lhes falte nada. Mas ao estarmos constantemente a dar coisas acabamos por lhes retirar o mais importante: a noção de que o que realmente é essencial é estar junto, estar presente, dar afectos.

Há pouco tempo fui a um aniversário em que a criança tinha feito uma lista de coisas que gostaria de receber. Eu também as fazia, se bem que se recebesse uma dessas coisas era razão para aquilo não sair do meu colo durante uma semana, apertada em abraços e beijos, fosse uma saia rodada, uma boneca ou um jogo. Ao receber um dos presentes mais caros da lista a tal criança limitou-se a rasgar o papel, a olhar para a mãe e a pousar a caixa (do carro telecomandado) do que tinha acabado de receber. O meu coração parou.

Nunca tinha visto uma criança que nem sequer esboçasse um sorriso ao receber uma coisa com que ele próprio tinha sonhado. Lembrei-me do orgulho que senti sempre da minha irmã, que ficava tão feliz com o primeiro presente no Natal, com o rasgar do papel, arrancar o laço, que a noite seria fantástica apenas com aquele presente. Ali foi diferente. Aquele miúdo esperava que as pessoas lhe dessem o que estava na lista. Era obrigação nossa. Não eram sonhos, não houve antecipação, houve uma mecanização das necessidades. Viu os anúncios no intervalo dos desenhos animados, apontou o que queria (e não o que gostaria de ter), a mãe diligentemente tratou de comunicar a toda a gente e ele não esperava outra coisa senão receber. TUDO.

Estava tão habituado a receber coisas que deixou de lhes dar valor. Provavelmente não sabe sequer o valor do que recebeu. Estou a falar de dinheiro, claro, mas também da atenção, da lembrança, do cuidado investido para que aquele carro telecomandado lhe chegasse às mãos. Saí de lá invadida por uma enorme tristeza. A desejar que não seja tarde demais, porque aquele miúdo só tem seis anos e já tem um caminho tão traçado. Ainda há pouco tempo ele ficava feliz quando me deitava de barriga no chão ao seu lado a fazer corridas de carros. Onde foi que ele se perdeu? Onde foi que o perdemos?

Queremos dar. Queremos ver a alegria dos miúdos a receber coisas. Queremos que estejam rodeados de pequenos objectos que lhes alegrem o dia, mas temos – nós, adultos – de perceber quando é que basta. Um presente que se dá só porque sim não pode substituir o carinho de estar lá. Não podemos dar constantemente porque não estamos tanto tempo quanto gostaríamos. As coisas são coisas e têm o seu espaço, a sua utilidade, mas nós é que devemos ser a força motriz da vida das nossas crianças. Nós é que temos de tirar tempo para nos descalçarmos e brincar com eles. De os envolver nas tarefas da casa, para que se apercebam de que as coisas não aparecem feitas como que por artes mágicas. De ir com eles ao supermercado para que percebam o dinheiro que custa aquilo que têm sempre em casa. Para os ouvir (mas não para fazer todas as suas vontades), para conversar com eles, para os habituar aolhar em volta, para que levantem os olhos do próprio umbigo. Para que aprendam a juntar dinheiro para comprar um brinquedo mais caro, que demora a conseguir, mas sabe tão bem. Para que percebam que mais tarde, mesmo que não tenham necessidade disso, ter um emprego de Verão não lhes vai roubar a preciosa adolescência e ainda lhes vai ensinar responsabilidade e o que custa ganhar dinheiro.

Porque o dinheiro custa a gastar e gasta-se muito depressa. Mas dá gozo podermos pagar do nosso bolso algo que gostaríamos de ter e de outra forma não poderíamos. E há quem não possa mesmo trabalhando. Adultos e meninos. Crianças exploradas cujo único indício de serem crianças é a sua idade. Crianças que mesmo não tendo praticamente nada são felizes. Que não se podem dar ao luxo de fazer uma birra.

Queremos tanto bem às nossas crianças que as estamos a estragar. Mas é tempo de irmos aprendendo também as nossas lições. Dizer mais vezes “não” mesmo quando poderíamos dizer mais vezes que “sim”. Educar é um trabalho difícil, pouco reconhecido, por vezes ingrato, mas somos nós que temos de o fazer.

Porque a responsabilidade é nossa quando trazemos uma criança ao mundo. De lhe dar o que precisa, de o mimar com o que talvez não precise tanto, de lhe ensinar o que sabemos e de irmos aprendendo em conjunto para sermos melhores. Para que o facto de hoje haver mais (apesar da maldita crise), não torne o nosso mundo num lugar menos desejável para se viver. O que se pretende é exactamente o contrário.

Eugénio de Andrade dizia:

É urgente o amor
É urgente um barco no mar
É urgente destruir certas palavras,
Ódio, solidão e crueldade,
Alguns lamentos, muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
Multiplicar os beijos, as searas,
É urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

(…) “

Não nos esqueçamos do que realmente importa. Porque o que é urgente está dentro de nós e não há dinheiro que o possa comprar.

Por Marta Coelho,
para Up To Lisbon Kids®

Todos os direitos reservados

Mito ou facto?

A terapia da fala e o desenvolvimento da linguagem

A terapia da fala é uma profissão pouco conhecida pela população em geral, originando mitos e ideias sobre as suas áreas e formas de actuação. Assim, com o propósito de desmistificar alguns desses mitos, neste caso sobre o desenvolvimento da linguagem, surge este artigo com 10 exemplos.

Mito 1: A terapia da fala é para as crianças que não falam bem.”
Podemos dizer que a terapia da fala não se limita à fala propriamente dita, como a designação da profissão indica. O terapeuta da fala pode apoiar crianças, adultos e idosos, nas mais variadas áreas de intervenção.
De um modo geral temos a: linguagem, comunicação verbal e não-verbal, consciência fonológica, leitura e escrita, deglutição, motricidade, sensibilidade oro-facial, voz e fala.

Mito 2: “Não precisa de terapia, isso com a idade passa e fala bem.”

Em alguns casos, isso acontece e a criança ultrapassa a dificuldade com a continuidade do seu desenvolvimento. Contudo, não é algo observável em todos os casos e esperar que tal aconteça, poderá agravar o problema e aumentar o atraso no desenvolvimento da linguagem.

Mito 3: “Os bebés prematuros começam a falar mais tarde.”
Os bebés prematuros que nascem saudáveis, geralmente, apresentam um ritmo de aprendizagem e desenvolvimento igual ao dos bebés que nasceram com o tempo de gestação completo (40 semanas). Apenas em casos de bebés prematuros, que ficaram com sequelas neurológicas ou físicas, poderão vir a ter dificuldades no desenvolvimento da linguagem. Nesses casos, o acompanhamento em terapia da fala é aconselhado.

Mito 4: “O nascer dos dentes atrapalha a fala.”
O nascimento dos dentes requer uma adaptação da língua, porém, esse processo é imperceptível à criança. Podem sentir dor e ficar irritadas com o aparecimento dos primeiros dentes, mas isso não significa que afecte o desenvolvimento da linguagem.

Mito 5: “A criança que não fala com 2 anos, tem problemas auditivos.”
Para ter a certeza, é aconselhável realizar um exame auditivo com um audiologista, pois a causa do atraso na linguagem poderá estar relacionado com a audição ou não. Poderá fazer uma avaliação com um terapeuta da fala, para melhor compreender o que poderá originar esse problema na criança.

Mito 6: “Antes dos 3 anos, não vale a pena fazer terapia.”

A intervenção do terapeuta da fala não se restringe a idades. O desenvolvimento da linguagem tem início na gravidez, porque o cérebro humano está “pré- programado” para a linguagem, O percurso dos bebés começa por uma fase pré-linguística em que as palavras ainda não são utilizadas. Assim, ao observar e interagir com a criança, o terapeuta da fala pode verificar se o desenvolvimento da linguagem decorre normalmente ou não, evitando alterações maiores e mais complicadas no futuro.

Mito 7: “Agora não fala, mas quando começar a falar diz logo frases”
Conforme antes de começar a correr aprendemos a andar, também não começamos a produzir frases antes de conseguirmos dizer palavras isoladas. Por vezes, quando a inteligibilidade da fala da criança está comprometida, os cuidadores, família ou profissionais que cuidam da criança, poderão não entender que esta usa palavras com significado. Assim, os cuidadores acham que a criança passou directamente para a construção frásica porque, nessa fase, através do contexto, compreendem o que ela quer transmitir.

Mito 8: “Ele é preguiçoso, quando quer diz o som sozinho mas não o diz nas palavras.”
É normal que a criança consiga repetir determinado som quando lho pedimos, mas não o pronuncie correctamente em palavras. Não é uma questão de “preguiça”, mas sim um hábito que a criança adquiriu e que agora terá de substituir pela forma correcta. Poderá precisar de apoio para aprender a produzir o som correctamente, para depois passar a produzi-lo em palavras seguindo uma linha de dificuldade gradual..

Mito 9: “Quando a gaguez aparece na infância, torna-se crónica.”
A disfluência fisiológica, conhecida como gaguez, é comum até aos 5 anos de idade e tende a desaparecer com o desenvolvimento da criança. Tal acontece por consequência do processo de aprendizagem que a criança está a passar, isto é, o seu pensamento poderá ser mais rápido que a capacidade de produzir as palavras que quer transmitir.

Mito 10: “A terapia da fala é para os gagos e sopinhas de massa.”
A terapia da fala intervêm em casos de gaguez e de sigmatismo (“sopinha de massa”), contudo essa é apenas uma pequena parte daquilo que o terapeuta da fala faz. Os profissionais desta área podem se especializar numa destas alterações de
fala, trabalhando só com casos desse género. No entanto, a maioria não se restringe apenas a uma área.

Por Catarina Olim, licenciada em Terapia da Fala, Directora geral da empresa Arte & Fala,
para Up To Kids®

Todos os direitos reservados

Ao pai dos meus filhos, um estranho na pele de família: eu não estou zangada contigo. Estou triste por ti. Estás a perder tudo.

Olhei para ti quando, de coração nas mãos, te entreguei os miúdos que não vias há mais de um mês, e lembrei-me de como tu és. Olhei para ti, e vi o vazio nos teus olhos. O mesmo vazio que sempre vi, e tentei preencher comigo, com o meu amor, com os nossos filhos.

Percebi pela rouquidão da tua voz a quantidade de cigarros que deves ter fumado na noite anterior. Percebi que te sentias mal, que tinhas passado o dia a dormir e que estavas para morrer. Percebi que não era boa ideia cumprires a tua obrigação de passar o fim de semana com os miúdos. Cheiravas a álcool, a ressaca, e só me lembrava de te ver assim todos os fins de semana durante anos.

Senti o coração no estômago por deixares que os miúdos te vejam assim, e por ter de deixa-los contigo nesse estado. A memoria trouxe tudo ao de cima.

Sorri-te  como se estivesse tudo bem, e fingi não perceber o que se passava. Perguntei se estava tudo bem. Disseste que sim, mas eu sabia perfeitamente… Não estava nada bem.

E estás a perder tudo.

Era suposto seres o homem. O homem que eles admiram. O homem que eles querem ser quando crescerem. O homem que os ensina a ser um homem. O homem em quem eles podem confiar. Mas não és.

Sim, eles adoram-te. E neste momento eles até olham para ti. Mas não estás a ser um exemplo, e de certeza que não podem confiar em ti.

Mandaste-me uma mensagem nessa noite, apenas algumas horas depois de eu ter saído. E eu sabia aquilo que te recusaste a admitir.

“Eu sei que não vais querer saber, e que provavelmente irás usar esta mensagem contra mim de alguma forma, mas estou farto de vomitar e de suar. É um bocado assustador, e não, não estive a beber”

Eu sei que estavas mal e a ressacar. Tinha percebido horas antes. Não foi a primeira vez e não será a última. Na verdade até fiquei aliviada por teres mandado mensagem. Mesmo que não tenhas admitido a verdade sobre a tua “má disposição”, eu fiquei contente por ir buscar os meus filhos e leva-los para casa. O meu instinto materno dizia-me que eles estavam a precisar da mãe, e que tu não estavas em condições de passar o dia com eles. Por isso obrigada por teres assumido que não conseguias aguentar até à hora de jantar. Mesmo que não admitas qual o verdadeiro motivo.

Eu já não estou zangada contigo. Pelo menos como costumava estar. Agora é a desilusão que me assola cada vez que estou contigo.

Eu sinto pena por ti, e pelas pessoas que acreditam nas tuas mentiras.

Adorava que fosse diferente. Mas já desliguei.

Não queria que te afastasses dos rapazes, mas a verdade é que já o fizeste.

Enquanto passas o tempo, que deverias estar com eles, a beber, eu aproveito  e desfruto cada minuto das suas companhias. Enquanto destróis tudo à tua volta, eu ensino-os a consertar e construir coisas.

Enquanto dormes a aconchegar a tua ressaca, eu aconchego os nossos filhos.

Enquanto sais com outras pessoas, eu também saio. Com três outras pessoas, para ser mais precisa. A diferença é que eu estou nestas relações para toda a vida, e as tuas duram uma noite.

Enquanto inventas desculpas, eu estou a criar memórias.

Estás a perder tudo.

Quando estás com eles, perdes tempo a mandar-me sms a contar as suas piadas e saídas humorísticas, e esqueces-te que eu estou com eles todos os dias.

Eu sei que eles são espetaculares.

Ficas surpreendido com coisas que eles dizem e fazem e contas-me como se fosse novidade para nós os dois. Eu sei que eles são espertos. Eu é que lhe ensino as coisas que eles sabem.

Ficas surpreendido quando os vês abraçados um ao outro muita cumplices. Eu sei que eles são carinhosos. Eles aprenderam a gostar intensamente, comigo.

Enquanto vives de volta do teu umbigo, perdido nesta vida que tanto dizes adorar, estás a perder tudo.

Não sabes que o Ethan gosta de ser empurrado muito alto no baloiço, mas que tenho de fazê-lo de frente para que consiga sempre ver a minha cara.

Não sabes que o Connor também gosta que o empurre, mas só devagarinho, porque alto é assustador para ele.

Não sabes que eles já se vestem sozinhos, mas que o Ethan veste primeiro os braços e depois a cabeça, e o Connor faz exatamente ao contrário.

Não sabes qual a refeição preferida deles, ou a música preferida ou o jogo preferido. Não sabes que eles os três adoram dançar. Não sabes que o Luke tem tanto de selvagem e forte como de doce.

Não sabes que o Connor se esconde quando está envergonhado.

Não sabes que eles querem jogar futebol e que são bons de bola. E provavelmente não vais estar lá nos treinos, nem tampouco nos jogos. Sou eu que vou estar lá a apoiá-los. É a minha cara que vão procurar no meio das bancadas. Não sabes como ensiná-los a serem cavalheiros, porque tu próprio ainda és um miúdo mimado.

Estás a perder tudo.

Quando eles nasceram o meu mundo mudou. O teu continuou igual. Perdeste a beleza do que é ter filhos e nunca compreendeste o quão importante era o teu papel. Nunca quiseste na verdade assumir esse papel. Mas quiseste ser pai, e agora estás a perder tudo.

Eu já não estou zangada contigo.

Estou triste por ti.

Porque tu estás a perder tudo.

Eu não.

Por Rachael Boley, para Scary Mommy; tradução e adaptação autorizada para Up To Kids®