O mau humor do pai afeta o desenvolvimento intelectual dos filhos

Um pai irritado, na maioria das vezes, reflete não só a falta de controle das suas emoções, como gera um efeito negativo no desenvolvimento cognitivo e emocional dos filhos.

Embora este comportamento seja mais comum nos homens, convém reforçar que é tão prejudicial como quando exercido pela mãe. E, pior ainda, quando é característico em ambos os progenitores.

Os gritos, por exemplo, independentemente da causa, devido à violência intrínseca, têm um efeito extremamente forte nas crianças (pela negativa). A euforia manifestada por gritos quando uma equipe de futebol  marca um golo pode ter o mesmo efeito negativo do que gritar durante uma discussão entre o casal. A criança olha mais para a forma do comportamento do que propriamente para a sua causa. Além disso, comportamentos carregados de ansiedade têm efeitos similares em crianças. Ansiedade gera ansiedade.

O estágio de maior vulnerabilidade das crianças frente a este tipo de comportamento ocupa a faixa etária desde o nascimento até aos três anos de idade. Mas isto não significa que se forem mais velhas as crianças não se sintam afetadas. O mau humor de um pai é geralmente traduzido por um sentimento de culpa nas crianças. Isto significa que as crianças podem sentir-se responsáveis ​​pela falta de controle emocional dos pais.

Os efeitos do mau humor do pai, ou síndrome do pai stressado

Os filhos de um pai mal-humorado desenvolvem, com o passar do tempo, problemas de insegurança, angústia e stress . Estes sintomas irão afetar a sua evolução cognitiva, emocional e linguística, bem como as suas habilidades de sociabilização. Infelizmente, o mau humor age como uma epidemia e rapidamente se espalha a toda a família. Torna-se um “estilo de vida” que se repete como um ciclo vicioso.

A ansiedade é uma condição que não facilita o aprendizado. Há um “excesso” nas emoções e isso impede que se concentre a energia psicológica para outros aspectos. Além de que o stress também supõe um obstáculo para a continuidade da atividade. Habitualmente quem sofre de ansiedade acaba por se tornar instável perante as suas responsabilidades.

O mau humor do pai gera uma tensão adicional na criança. As obrigações académicas são por si só uma fonte de tensão para as crianças. Nestes casos, terão de lidar com duas fortes demandas simultaneamente. Por um lado, com o conflito de culpa e confusão que se origina no mau humor do pai. Por outro lado, com a necessidade (e obrigatoriedade imposta) de responder às suas obrigações.

 

Não consigo pensar em nenhuma necessidade da infância tão intensa como a necessidade de proteção de um pai – Sigmund Feud

 

Agressividade como um exemplo

Um pai rabugento e alterado transmite mensagens agressivas e assustadoras aos filhos. Por isso é que é, cada vez mais, se encontram adolescentes (e adultos) fracassados ​​e, muitas vezes, vítimas de algum tipo de vício. São pessoas que se tornam tão atormentadas quanto os seus progenitores e vagueiam pela vida sem esperança.

As crianças aprendem essencialmente pelo exemplo. Inconscientemente, imitam o comportamento dos pais (os seus elementos referenciais), quer este seja positivo ou negativo. Assim, nestes casos, aprendem a ser emocionalmente descontroladas. Ao acatarem os ataques dos progenitores, acreditam que a sua resposta reflete o que eles sentem. Portanto, é muito provável que a criança acabe também por desencadear conflitos na escola. Torna-se tão descontrolada quanto o seu pai e reagindo de forma irracional à mais pequena adversidade.

As relações na escola

O ambiente escolar tem um papel fundamental no desempenho académico. Ora, se a criança transformar as relações na escola numa nova fonte de angústia, provavelmente prejudicará ainda mais a sua capacidade de tirar proveito disso. É uma corrente que se estende e que, na pior das hipóteses, levará ao fracasso escolar, o que levará ao aumento do sentimento de culpa, ao aumento das suas inseguranças e à frustração.

Por outro lado, o pai que está positivamente envolvido na educação dos filhos está a criar condições para que eles desenvolvam autoconfiança. Esta segurança é manifestada através de habilidades sociais superiores e melhores resultados académicos. Aprender passa a ser encarado como uma aventura interessante e os objetivos como desafios assumidos com entusiasmo.

Algumas recomendações

As alterações emocionais dos pais como raiva, tristeza e stress, inibem o bom desenvolvimento da criança. Os filhos de pais com essas características replicam esse comportamento com efeitos nocivos a longo prazo. Estes podem causar depressão e problemas de aprendizagem e de linguagem.

Assim, deixamos aqui algumas recomendações, para pais e mães:

  • Fortaleçam o relacionamento com os vossos filhos:

Expressem os seus sentimentos. Falem sobre o que gostam e não gostam. Das vossas preocupações, anseios, medos e sonhos. Não só estarão a criar um clima de confiança, mas também promovem o diálogo e terá um efeito terapêutico para toda a família.

  • Responsabilidades profissionais e filhos são fundamentais, mas não são tudo.

Devem saber manter um espaço e um tempo para para cada um de vocês, e para os dois em conjunto (se for o caso de estarem juntos). Vocês também merecem atenção. Façam atividades que possam desfrutar. Dividam-se e aprendam a libertar a mente das tensões. Relaxam ou pratiquem um desporto.  Arranjem um hobbie!

  • Fiquem atentos a qualquer sinal de desestabilização do vosso humor, como stress, depressão, angústia ou raiva.

É aconselhável estabelecer limites e manter o autocontrole. É melhor agir na altura certa e não permitir que os conflitos aumentem. Assim não haverá arrependimentos mais tarde. Se for preciso, procure um profissional para o ajudar..

Nós, pais, queremos que nossos filhos sejam felizes.

Tente oferecer-lhes tempo de qualidade, aproxime-se deles e não se esqueça de dizer (todos os dias) o quanto os ama. Não tenha medo de pedir desculpas se agiu de forma menos correta. É muito positivo que os miúdos saibam que esse é um comportamento positivo e que toda a gente deve desculpar-se quando erra e tentar não repetir “a graça”.

Artigo publicado em La mente es maravilhosa traduzido e adaptado por Up To Kids®

Treinar a voz interior

Se há situação em que notamos logo como é a nossa voz interior, é quando “queremos” ir ao ginásio, mas na verdade não queremos.

No meio dos vou mais ao fim do dia”, “2019 é que vai ser”, “amanhã é que há uma aula boa” e o hoje está demasiado frio”, o nosso mindset está em tenho de ir ao ginásio”.

Quando não vou, sinto-me mal comigo própria, o que resulta em ainda menos idas ao ginásio. O “tenho de ir” tem a carga da obrigação e da falta de opção, o que despoleta uma falta de envolvimento da nossa parte.

Parece que alguma força exterior me está a obrigar a fazer algo que não quero, o que também nos leva inconscientemente à procura do culpado. A nossa atribuição de culpa soa mais ou menos a isto:

“Tenho de ir ao ginásio porque fartei-me de comer no Natal!”,
“Tenho de ir arrumar a casa porque vou ter cá um jantar mais logo”,
“Tenho de ir às compras porque o meu filho come que se farta”

Isto faz com que ao executar qualquer uma destas tarefas, seja bastante difícil encontrar a mínima alegria no processo. Sentimo-nos à mercê de tudo o que temos para fazer, sem a mínima escolha.

Quando trocamos o “eu tenho de ir” por eu escolho ir”, esse poder e responsabilidade são-nos devolvidos.

O nosso envolvimento cresce, e a nossa vontade também. Mesmo que ao princípio pareça um pouco estranho, quanto mais treinares mais habitual e natural fica o processo. É um clássico e poderoso “Fake it until you make it”.

“AH! Mas eu não escolho ir às compras. Se eu não for o que é que se come cá em casa?” 

Todas as escolhas têm consequências. Se eu não comprar a comida, de facto ela não aparece. Quer dizer pode sempre aparecer uma pizza com a morada errada… mas há várias formas de comprar. Posso comprar online ou comprar no dia seguinte, e fazer o jantar com o que há em casa. Posso fazer jejum intermitente, ou acabar com todos os restos perdidos no frigorífico.

Na verdade, tenho escolha entre várias hipóteses quando escolho ir às compras, apenas no momento não estou a tomar consciência das outras opções.

Esta mudança na forma de verbalizar e ver as situações, deve ser passada aos nossos filhos desde cedo.

Uma abertura de enquadramento e tomada de consciência das opções escondidas, que é a forma de os ensinar a terem um papel activo nas suas vidas. A envolverem-se, a importarem-se, a tomarem responsabilidade, a encontrarem novas soluções, a desenvolverem o seu potencial. Ensina-os a terem uma voz interior que os apoia, e uma autoestima saudável cheia de jogo de cintura.

Ao encontrarmos o poder da escolha em nós, a nossa motivação dispara. Imediatamente. Por exemplo, eu hoje já com o saco da ginástica à porta disse para mim “Eu escolho ir ao ginásio”. Aí percebi que também me apeteciam igualmente outras opções: fazer yoga na sala, fazer uma caminhada para apanhar este sol de Inverno catita, ou fazer nada no sofá. Mas quando acrescentei:

“Eu escolho ir ao ginásio… para tomar banho SOZINHA sem ouvir ó mãeeeeeeee!”, peguei no saco, imediatamente, e saí a correr de casa altamente motivada.

Ser obediente, é bom?

Quando fazemos o exercício de pensar em crianças, por norma, imaginamos crianças com energia, a rir e a brincar. Por outro lado, dá-nos um sentimento de certa estranheza imaginar uma criança no seu cantinho quieta, como se, não existisse. Não raras vezes, estamos demasiado preocupados com as crianças ditas “hiperativas” e esquecemo-nos de olhar para as crianças “hiperpassivas”. Crianças que fazem os possíveis para serem invisíveis, que nunca perturbam e são, regra geral, extremamente obedientes.

Queremos crianças obedientes, desde que a acompanhar a obediência existam gestos espontâneos e a expressão daquilo que a criança sente e pensa. Aquilo que nos preocupa é quando a obediência vem tolhida de uma certa invisibilidade.  Quando a criança por tão assustada que se encontra, às vezes, faz os possíveis para ‘não existir’. E, ‘não existir’ é, muitas vezes, um reflexo de obediência com base no medo. Sempre que uma criança obedece com base no medo, está a distanciar-se de si própria e torna-se incapaz de respeitar o seu espaço e de apreender a noção de empatia e respeito pelos outros.

As regras e as recompensas

É essencial que as crianças sejam capazes de obedecer e ter um conjunto de regras que balizam os seus comportamentos, sem que vivam permanentemente sufocadas pelo que imaginam que esperam delas. Da mesma forma que, as crianças devem aprender que ter um bom rendimento escolar, ajudar nas tarefas domésticas, responder de forma adequada aos adultos. Estas são atitudes que devem ter porque estão correctas e são a base do respeito e não para serem recompensadas de forma directa e imediata. Pois, sempre que uma criança faz uma tarefa com a expectativa de ter uma recompensa, a noção de que o faz porque é assim que deve ser e porque é uma responsabilidade sua, perde-se e, a certa altura, temos crianças que só se movem com base nas recompensas.

É importante que a criança compreenda que tem deveres e que tem direitos e que entre eles, existe respeito, compreensão, empatia e amor.

Claro que, se uma criança consegue levar a cabo um conjunto de comportamentos e atitudes que até então não tinha conseguido, os pais podem e devem recompensá-la. No entanto esta recompensa deve funcionar como um reconhecimento e não como uma recompensa por si só. Isto é, a criança teve uma série de atitudes que deixaram os pais muito satisfeitos, então, os pais vão exercer um gesto de reconhecimento para com a criança. Este gesto acontece sem que a criança esteja a contar e se for imaterial tanto melhor. Se em vez de um brinquedo ou um jogo os pais proporcionarem à criança um momento relacional de que ela goste, como uma ida ao cinema, ou um piquenique a criança será capaz de ter uma linha orientadora que lhe sinaliza que está no caminho certo e que deve continuar desta forma.

Passo por passo, a criança vai adquirir valores que vão reger toda a sua atitude perante os desafios do seu dia-a-dia. Aprende assente nas linhas orientadoras dos pais sem que delas tenha medo, sem que para ser obediente precise de ser invisível.

Desta forma, é importante que as crianças riam com o corpo todo. Que as famílias permitam a liberdade de expressão e dêem espaço à individualidade de cada criança. Que eduquem praticando o amor, o afeto e o respeito, pois, só quando uma criança cresce num ambiente que é estruturante e que lhe permite a individualidade com a retaguarda do calor dos pais, se permite a existir em plenitude.

Com o que não deve, nunca, castigar!

Os castigos sempre fizeram parte da humanidade. Por mão divina, recriações mitológicas ou julgamentos humanos vem punir o erro, a atitude e o comportamento desviante. 

Até há bem poucos anos eram essencialmente corporais. Os países do norte da Europa foram dos primeiros a considerar crime os castigos violentos a crianças e adolescentes.

Com a introdução dos estudos comportamentais começaram a ser postas em prática outras técnicas de regulação comportamental, como por exemplo, o time out (ou tempo para pensar) que até pode ser interessante na medida em que promove a capacidade reflexiva da criança. Mas quando se lhe diz “agora ficas aí de castigo a pensar no que fizeste” todo o objetivo é desvirtualizado. O pensar sobre as atitudes fica associado a uma punição, ou seja, algo a evitar.

Os castigos foram então “evoluindo” para uma forma mais aceite e mais intelectual – os castigos restritivos. Provavelmente já terá ouvido pais comentarem – eu não bato nos meus filhos, eu castigo-os!

As punições trazem consigo a manutenção do auto-conceito de bons pais, exigentes e que educam os filhos corretamente.

Conhece alguma criança que não teste os limites, fazendo tudo certinho, sem erros e correspondendo automaticamente ao que lhe pedem? Se a sua resposta é sim… algo estará mal com essa criança.

E se as dinâmicas familiares têm vindo a sofrer alterações, as respostas pelos castigos são, também, o resultado disso. Então, fará sentido ter castigos ou enfrentar consequências? Qual a diferença?

Castigos ou consequências?

Os castigos não têm uma lógica associada à ação praticada. De uma maneira simples, seria idêntico a você não parar num sinal vermelho e em vez de pagar a multa ser-lhe descontado um dia de férias!

Já as consequências têm diretamente a ver com a ação ou comportamento incorreto e por isso existe uma lógica interiorizável. E se a aprendizagem for positiva em vez punitiva o comportamento desejado é conseguido de forma mais saudável. Dito de outra forma, se em vez de castigos optar por consequências e objetivos a alcançar a criança aprende a regular-se não pelo medo de represálias, mas pelo desejo de conquista e porque se sente bem.

Se ainda assim, lhe faz sentido usar castigos para punir comportamentos, há situações a que NÃO deve jamais recorrer:

  • Usar as atividades de lazer ou desporto.

Se o desporto é algo bom e saudável, castigar com ausência destas atividades cria associações negativas e, com a recorrência, desmotivação para a prática. Lembre-se – desporto é saudável, não pode ser usado para punir

  • Hora de dormir

Dizer “agora vais para a cama de castigo” é meio caminho andado para arranjar vários problemas na hora de dormir, que se arrastam por vezes até à idade adulta. Há adultos que, curiosamente, dormem muito bem no sofá mas quando vão para a cama perdem o sono… porque será?

  • Ficar sozinho e/ou fechado.

Fechar a criança no seu quarto ou dizer-lhe “agora vais sozinho para o teu quarto” é dar corda às angústias de separação e alimentar a ideia de que estar sozinho é algo negativo e a evitar. Mais tarde tenderá a isolar-se para não ser criticado ou a criar distanciamento quando discorda ou quer mostrar desagrado.

  • Usar os trabalhos escolares.

Felizmente são cada vez menos os professores que passam TPC’s como castigo ou que mandam escrever repetidamente uma ou duas folhas com “não vou voltar a portar-me mal”. Há pais que ainda usam os TPC para castigar, algo do género “agora como castigo não vais ver mais desenhos animados e vais fazer os TPC’s”. Escrever não pode ser castigo, aprender não pode ser castigo, pelo contrário as aprendizagens escolares devem ser reforçadas positivamente. 

A educação e inclusão na vida dos nossos filhos

Hoje falava com uma pessoa amiga, mãe, que me dizia, de lágrimas nos olhos, que sentia que o seu filho era tratado de maneira diferente por não ser português.

Eu, habituada às nossas conversas num outro tom, estaquei. Olhei-a, como se fosse a primeira vez e eu própria senti as lágrimas a molharem-me os olhos.
Quis dizer que era impressão sua, que não podia ser assim, mas à medida que ela ia falando fui percebendo que, estando no mesmo sítio a fazer as mesmas coisas, pura e simplesmente, não me tinha apercebido. E eu sou atenta, preocupada.

Mas não vi.

Ela disse-me que é porque não tenho esse preconceito, porque ajo com ela, com o filho, com toda a gente, da mesma forma e, por isso, nem sequer pus em causa que pudesse ser de outra forma. E está certa.
Sabem aquele momento nos filmes em que a mulher percebe finalmente que o marido a trai e depois começa a ligar todos os pontos e percebe que esteve sempre à sua frente? Foi assim que me senti, a reviver todos os momentos e a dar-lhe razão. E com o coração partido por, no meu lugar de privilégio, nunca ter notado.

Quis dizer que entendia, que compreendia, mas na verdade não é possível nenhuma dessas coisas sem sentir na pele. Não sei o que é sentir que tratam os nossos filhos como alguém menos digno de carinho, afecto ou consideração apenas porque a sua origem é diferente. Magoou-me enquanto portuguesa, feriu-me enquanto mãe. Não aceito uma coisa destas, não acho legítimo nem justo. E sei que está em todo o lado, em várias situações no dia a dia.

No caso destas pessoas ambos os filhos nasceram em Portugal e são, na verdade, portugueses, apesar de os pais serem emigrantes. E estes filhos ainda não pequeninos para, na maioria das vezes, perceber a diferença de tratamento mas os pais sentem. E vivem isso diariamente.

E sofrem a angústia do futuro dos filhos.

Eu tento falar com a minha de diversidade, e andando ela numa escola multicultural com um aclamado projecto de inclusão e integração de várias comunidades, sei que lida diariamente com a diferença, de tal forma que para ela não é assim tanta diferença do que para outros meninos que partilhem o seu espaço só com crianças de origem semelhante. Isto para dizer que no outro dia, já não consigo precisar a propósito de quê, lhe disse mais uma vez a minha célebre frase “somos todos diferentes”. E ela revidou, “mas a minha educadora diz que nós somos todos iguais”.

Parei.

É a mesma abordagem para a mesma temática e para a minha filha aquilo parecia que estávamos cada uma a dizer uma coisa. E por isso expliquei que isso queria dizer a mesma coisa. Somos todos diferentes e devemos aceitar as diferenças com respeito e somos todos iguais, temos direito às mesmas coisas e os mesmos deveres.

Ela percebeu.

Vivemos num tempo em que ainda se dizem coisas terríveis como “volta para a tua terra”. Mas as pessoas esquecem que no seu ADN têm as mais variadas origens. Que os seus antepassados e até gerações mais recentes, andaram pelo mundo, vieram e foram de e para os sítios mais distantes no planeta. Por isso já começa a ser um bocadinho absurdo mandarmos as pessoas seja para
onde for em vez de tentar fazer como que sejam bem-vindas, incluídas e contribuam todas para o bem comum.

Não sei se a minha filha vai viver sempre em Portugal ou se haverá um dia em que a estrangeira será ela. Mas desejo-lhe o mesmo que desejo para os filhos dos outros: muito amor, respeito, paz e oportunidades de mostrar o que vale e o que é apesar de onde vem.

Da próxima vez que qualquer um de nós estiver em contacto com alguém diferente, seja essa diferença qual for, pensemos um pouco antes de agir.

Às vezes, só essa pausa já pode mudar tudo.

Porque se pararmos muitas vezes somos a melhor versão de nós mesmos.
Como se espera que os nossos filhos também sejam.

image@weheartit

Em toda a minha carreira de 18 anos na Educação, esta é uma das frases que eu ouço mais frequentemente: “Não sei o que hei-de fazer com este meu filho”. Pensamos: “Deve ser um adolescente de 17 anos, que já aprontou todas”. Aí vem o susto: o tal filho, é uma criança de 1 ou 2 anos!

E os pais já não sabem o que hão-de fazer com ele!

A verdade é que os pais encontram-se cada dia mais fragilizados e sem saber o que fazer para educar os filhos. Talvez porque tenham sido a última geração de filhos que obedeceu aos pais, tornando-se também a primeira geração de pais que, covardemente, obedece aos filhos.

Seja por preguiça ou por falta de conhecimento (nunca por má fé, acredito eu), os pais estão a abrir mão de exercer o papel que lhes compete na educação, comprometendo seriamente o desenvolvimento psicológico dos seus filhos que esperam, sequiosos, por um adulto competente que os direcione nos caminhos da vida.

E já que a frase é “Não sei o que hei-de fazer…”, trouxe 5 dicas para que vocês, pais, recuperem o seu lugar único e exclusivo, pois acredito muito no poder do conhecimento para despertar a transformação nas nossas ações diárias.

1ª – “Reintegração de posse afetiva”.

Expressão utilizada pelo psicólogo Rossandro Klinjey, para referir a necessidade que os pais têm de reassumir a sua posição hierárquica na relação. Conquiste outra vez o seu lugar e assuma o controle da situação;

2ª – Repita a norma até a exaustão

Educação é o conjunto de hábitos adquiridos. E construir hábitos não é uma tarefa fácil. Exige repetição. E repetição cansa. E cansados abrimos mão.

Não desista! Repita as regras até que haja interiorização. Como quando falamos com nossas crianças para calçar os chinelos ou escovar os dentes um milhão de vezes.

3ª – “Vou dar tudo que não tive ao meu filho!

Cuidado! Foram exatamente as frustrações que precisamos vivenciar que nos formaram com o caráter de hoje. Dê ao
seu filho o suficiente para que ele cresça saudável e feliz, mas não dê tudo. Assim, ele reconhecerá o valor das coisas;

4ª – Dê uma base sólida à criança

Se os alicerces de conhecimentos e valores que damos aos nosso filhos forem firmes e seguros, quando os conflitos começarem a surgir na sua vida, terão uma base sólida onde se apoiar e conseguirão equilibrar-se.

5ª – Apresente a frustração.

Há um conceito na psicopedagogia chamado de frustração ótima, que é a frustração apresentada pelo amor da família. Se os nãos
começarem a ser recebidos do pai e da mãe, as estruturas emocionais e psicológicas estarão fortalecidas para as frustrações que surgirem ao longo da vida.

Passe a vivenciar estas 5 dicas no exercício quotidiano da sua parentalidade. Isto já produzirá grandes transformações na convivência com sua criança, bem como com toda a família.

As grandes lições o pequeno Catita

Sempre ouvi dizer que ser mãe muda tudo.

Sempre achei que era conversa. O que podia mudar assim de tão profundo em nós de um dia para o outro? O que podiam seres tão pequenos ensinar-nos de tão grandioso?
Logo com o teu primeiro olhar, inesperadamente intenso comecei a aprender. Aprendi logo ali que tinha uma energia inesgotável quando o teu choro chamava por mim, e comecei a desconfiar que tudo o que sabia sobre mim estava prestes a mudar.
Foi pouco a pouco, dia a dia, ano a ano. Cada cm que crescias, eu aprendia contigo.

Aprendi a olhar para dentro, antes de olhar para fora.

A perceber que muitas das minhas reações não eram minhas mas estavam gravadas na minha cassete interior. Que a voz cá dentro era muitas vezes crítica, e não uma boa amiga. E que para ser gentil contigo, tinha de primeiro ser gentil comigo.
Compreendi que na pausa está o poder para agir, em vez de reagir. Que as palavras devem passar pelo coração para serem filtradas das ideias pré-concebidas e dos hábitos adquiridos, de forma a não magoarem o teu pequeno coração.
Vi que na vulnerabilidade dos dois, está o segredo de uma relação próxima e verdadeira. Que para te inspirar a dares o melhor de ti, devo dar o melhor de mim.

Descobri que o que funciona hoje, amanhã não faz sentido.

Que só com curiosidade e presença posso criar uma estrutura flexível que acompanha o teu crescimento. O nosso crescimento.
Percebi que as verdades absolutas apenas criam lutas de poder. Que existe espaço para cada um ter o seu ponto de vista e comunicá-lo. Que quando nos ouvimos encontramos sempre o caminho do meio. O nosso caminho.
Entendi que tenho de confiar na tua voz interior, para a conseguires encontrar. Aprendi a ouvir-te, sem tentar resolver os teus problemas. Percebi que quando me contas as coisas mais pequenas, abres caminho para me contares as mais difíceis.
Compreendi que as feridas que ainda carrego fazem-me saltar a tampa, e com ela salta também a possibilidade de olhar para essa parte de mim que não está em paz. Obrigada por me lembrares que está na hora de as curar.
Aprendi a ver o errar como a melhor forma de aprender, e não uma razão para desistir.
Como um “ainda não consigo” e não um “não sou capaz”. Aprendi a dar-me colo, como te dou a ti.
Entendi que olhas para mim como um exemplo a seguir, e mais do que dizer-te o que tens de fazer, tenho viver nos valores que acredito serem importantes.

Compreendi que as expectativas que criamos só nos magoam aos dois.

Afastam-nos do nosso verdadeiro potencial, e magoam fortemente a nossa autoestima. Aprendi a não esperar, mas a ficar encantada diariamente ao ver a tua vida desenrolar-se para caminhos que nunca imaginei.
Descobri que mais do que estar certa, é preciso fazer o que o coração sente que é certo.
E que no meio de dezenas de livros sobre ser mãe, o teu livro de instruções nasceu contigo e que temos uma vida pela frente para o lermos. Juntos.

Deixem-me chorar!

Entrei no elevador, um elevador grande, de um prédio grande, cheio de espelhos grandes.

Em cada piso, vários consultórios, muitos médicos, muitas batas e muitas coisas desconhecidas e assustadoras.

Ele não tinha mais de 5 anos, escondido atrás da mãe. Já o tinha visto antes de entrar. Reparei como estava assustado. Tinha o corpo retraído, os olhos colados no chão e o soluço preso na garganta.

Antes do piso 1, começou a chorar. Era um choro encolhido, sem espaço, que não libertava todo o turbilhão interior. A mãe começou a pedir para ele parar. Schhhh! Schhhh! Como se o choro fosse uma falta de educação. Algo não permitido e incomodo. O rapazinho tentava engolir o próximo soluço, mas todo o corpo pedia um choro profundo. Todo o corpo pedia uma forma saudável de expressar o que ia dentro dele.

Sem aviso, a mãe virou-se para mim e pediu desculpa. Pediu-me desculpa por o filho estar assustado, e a chorar. Hã???

Nunca ninguém me pediu desculpa por ter a música alta demais, por atirarem um papel pela janela do carro, ou por passarem à frente só porque lhes apeteceu. Coisas que para mim fariam algum sentido serem seguidas de um “Desculpe”. Mas ali… fiquei atónita. Quando voltei a ter reação disse “Não tem de pedir desculpa, chorar faz bem. Todos precisamos de chorar.” Desta vez, foi ela que ficou atónita.

Para grande alívio da senhora, chegaram ao seu destino, não fosse eu desatar a chorar no elevador. Pisquei o olho ao rapazinho, continuei o meu caminho mas o episódio ficou comigo. Fiquei a pensar na forma como lidamos com o “CHORAR”.

Quando vem do bebé, encaramos como uma forma de comunicação, um pedido de ajuda, algo que devemos amparar emocional e fisicamente. No entanto, parece que com sorte só podemos chorar no máximo até aos 6 anos…

Quando o meu filho entrou para a primária, de um dia para o outro, o cenário mudou.

Logo nos primeiros dias de aulas, no meio das suas intermináveis corridas, espatifou-se no recreio. Quando o fui buscar, estava arranhado de cima a baixo. Claro que quando me viu, apesar do episódio ter acontecido algumas horas antes, voltou a chorar. Uma descarga emocional natural perante um adulto de referência.

A auxiliar veio logo explicar com ternura “Já lhe disse que não é preciso chorar, que ele agora está na primária e já é crescido.” Hã??? “Curioso, eu tenho quase 40 anos e choro sempre que preciso. Já não chora?” perguntei com um sorriso. Auxiliar atónita do outro lado.

Não percebo porque há tamanha diferença na aceitação do riso e do choro. São os dois fundamentais para digerir emoções e expressar sentimentos. Os dois estão ligados como o sol e a chuva. Cada um com funções distintas mas igualmente importantes. A sua dança alternada cria o equilíbrio e, como o arco-íris, podem aparecer juntos no maravilhoso chorar a rir.

O choro acompanhado (quando a criança está a chorar mas sente-se totalmente apoiada) é profundamente curativo, ajuda a libertar tensão, medo, frustração, raiva, tristeza. A criança sabe que está segura para entrar em contacto com essa parte mais escura e lamacenta, que nós estamos ali, mesmo à mão. Essa segurança permite-lhe lidar com emoções peludas e crescer emocionalmente.

Não chorar não significa que está tudo bem. Significa que há um mar de lágrimas preso numa barragem que vai enchendo em vez de a água ir fluindo para onde precisa. Nunca peças desculpa por chorar. É esta água salgada e doce que nos faz ser humanos.

 

“Do not apologize for crying. Without this emotion, we are only robots.” Elizabeth Gilbert

image@mãecatita

 

A educação dos nossos filhos começa em cada um de nós, pais.

“De onde tirámos a ideia louca de que para conseguirmos que uma criança seja boa, primeiro devemos fazê-la sentir-se mal?” A famosa frase da norte americana Jane Nelson, uma das mentoras da Disciplina Positiva, dá que pensar.

Vivemos um dia a dia tão frenético que nos resta pouco tempo para dedicar ao que deveria ser a nossa principal prioridade: a família. E quando os nossos filhos se “portam mal”, é mais fácil reagir com um grito, um castigo ou pior, uma palmada. E que tal começar por tentar perceber qual a razão por detrás dessa conduta? E se eu lhe disser que há alternativas, bem mais… positivas?

O que é a Disciplina Positiva?

Todas as crianças querem sentir-se importantes. E têm o desejo de pertencer.  À família, à escola, à equipa de futebol, ao grupo de amigos.

Disciplina Positiva não é mais do que um modelo educativo que permite entender o comportamento das crianças e oferece ‘ferramentas’ para actuar, sempre de forma positiva. Ou seja, com firmeza mas com afetividade ao mesmo tempo, sem autoritarismos ou controlo excessivo, mas sem permissividade. Baseia-se, pois, no respeito mútuo e na cooperação. A Disciplina Positiva permite também aos pais ajudar os mais novos a desenvolverem competências básicas para enfrentar o mundo lá fora. E um sentido de responsabilidade apurado.

Autoconhecimento, uma ‘arma’ poderosa para a Disciplina Positiva

A educação dos nossos filhos começa em cada um de nós, pais. Para podermos mudar comportamentos nos nossos filhos é preciso, primeiro, olharmos para nós próprios. E percebermos o que está mal e o que podemos mudar. Melhorar. Chama-se a isto autoconhecimento.

A maior responsabilidade de todas é clara: educar. Sem culpa, com amor, respeito, firmeza e amabilidade.

Sei que vou continuar a errar, neste caminho tão maravilhoso e desafiante da paternidade.

Mas eu aceito o desafio, e você?

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A casa é a primeira escola e os pais são os primeiros professores

 

Resistir à tempestade é não desistir de ser Feliz…. É criar instantes de vida que valham por si mesmos.

Vivemos num mundo moderno, em pleno século XXI, onde as exigências são enormes….

As mulheres com todas as suas conquistas, passaram a trabalhar fora de casa, sim porque antes também trabalhavam muito, mas dentro de casa, onde infelizmente não eram vistas nem apreciadas. Passaram a ter voz ativa, uma palavra a dizer, mas não deixaram de estar um pouco sozinhas da gestão doméstica e educação dos filhos. Alguns homens, justiça seja feita, adapataram-se e aprenderam não só a partilhar como a responsabilizarem-se pela dinâmica familiar, outros nem tanto…

As crianças estão mais sozinhas, com menos apoio familiar e em dinâmicas sociais vazias, num culto de imagem que torna as relações mais líquidas e quase sem vínculo…

Ensinamos desde pequenos que a vida é dificil e que a carreira se começa a desenvolver desde o nascimento, com um conjunto infindável de atividades extra-curriculares que pensamos serem úteis no seu desenvolvimento, mas que na verdade as impede de brincar e de serem simplesmente crianças.

A ansiedade e a depressão

A ansiedade e a depressão são as novas doenças do século, que avassalam todos sem dó nem piedade e cada vez mais as pessoas estão desesperadas, sem saber que caminho seguir. Na generalidade não compreendem a razão de estarem assim, mas sentem-se incapacitadas para prosseguir como antes. Não identificaram os sintomas que com certeza já iam aparecendo e quando finalmente não conseguem mais ignorar, porque o mal-estar é permanente e parece comandar as suas vidas, já não podem passar sem medicação. Infelizmente isto é verdade também nas crianças e jovens, que cada vez mais sofrem de distúrbios de ansiedade, que lhes retiram qualidade de vida.

Sofremos cada vez mais de hiperatividade mental! Sobrecarregamos o nosso pequeno computador, como se ele não se desgastasse e cansasse de tanto pensamento, tantos afazeres, tantas listas que inundam a nossa cabeça e não nos deixam dormir! Precisamos fazer tudo em tempo útil, estar em todo o lado, cumprir com as obrigações familiares e profissionais e ainda assim ter tempo para amar e ser feliz!

Parece que tem sido impossível completar essa tarefa que a vida moderna nos impõe. O custo tem sido a tristeza das nossas crianças, a nossa tristeza e todos os distúrbios e patologias que temos vindo a desenvolver.

O mar que em tempos beneficiava de períodos de tranquilidade, hoje está repleto de ondas ininterruptas, que batem com força na areia e por vezes fazem buracos complicados de tapar ou disfarçar. O mar está claramente bravo e difícil de navegar….

“A nossa mente é como a água, quando está calma e em paz, pode refletir a beleza no mundo. Quando está agitada, pode ter o paraíso em frente e não o reflete!”  – David Fischman

O que é que cada um de nós pode então fazer para resitir a esta tempestade?

Diria que antes de mais precisamos todos de Respirar!

Precisamos de sair do alheamento que a hiperatvidade nos confere para vivermos mais inteiros, mais conscientes, mais presentes em nós e nos outros. Precisamos criar tempo e espaço para simplesmente parar e Respirar!

Por parar não nos estamos a referir a meditações complexas logo pela manhã. Sabemos que existe um conjunto infindável de tarefas para completar antes de podermos sair de casa. Não! Basta acordar 15 minutos antes da hora fulcral, para poder executar todas as tarefas com calma e de forma consciente. Porque não tirar uns minutos para nós próprios para começar o dia respirando o seu dia, sem pensar… Praticar esse estado de presença consciente ou mindfulness, não é nada que requeira muito do seu tempo e muito menos da sua cabeça!

É um estado que possibilita a nossa autoregulação. Viver no momento presente e aliviar o excesso de energia na zona da cabeça, a hiperatividade mental, preocupação e confusão que nos esgota e nos obriga a ligar o piloto automático na execução das tarefas quotidianas, anulando a possibilidade de estarmos atentos e conscientes.

Quando vivemos com o piloto automático ligado é como se vivêssemos na estratosfera! Viver na estratosfera é o contrário do que o mundo exige de nós e todas as nossas tarefas ficam dificultadas.

Precisamos de Caminhar e sentir os nossos pés no chão! Precisamos de nos enraizar na vida, no aqui e no agora, na nossa capacidade de acção e concretização… Precisamos de nos apropriar do nosso corpo e do nosso sentir. Caminhar possibilita não só a nossa autoregulação como o nosso enraizamento. Quando estamos ligados à terra estamos centrados e conectados a receber e escoar a energia do nosso corpo. Esse porcesso dá-nos a segurança e a base para que possamos experimentar a vida sem medo e em plenitude.

Estar vivo não é um acaso inútil ou um lanche grátis, que nem nos soube assim tão bem! Estar vivo é uma responsabilidade para connosco, com os outros, com a nossa felicidade e o nosso caminho! Dizem que felicidade é um instante de vida que vale por si mesmo… Vamos produzir mais instantes aos quais possamos chamar de Felicidade!

Resistir à tempestade é não embarcar na loucura que são as exigências da vida moderna. É criar espaços para Parar, Respirar e Conectarmos com nós próprios no dia-a-dia agitado do século XXI.

Resistir à tempestade é não desistir de ser Feliz…. É criar instantes de vida que valham por si mesmos.