Porque é que as mães dormem tão pouco

Eram 8h da noite de sábado e a minha mulher, a Mel, queixava-se de como estava cansada por ter dormido pouco na noite anterior e eu perguntei-lhe a que horas tinha  ido para a cama na véspera.

Nós temos 3 filhos mas eles dormiram a noite completa. Até porque lá em casa dividimos as noites e por isso se tivessem acordado eu teria sabido. Aliás, o Aspen, o nosso filho mais novo só acordou às 7h30, ou seja, cerca de hora e meia mais tarde do que o habitual.

Eu não consigo perceber porque é que ela não dormiu o suficiente, a não ser que se tenha deitado tarde outra vez, que foi o que provavelmente aconteceu.

“Por volta da 1h30” – respondeu-me. Estava com os olhos vermelhos e o cansaço estampado na cara.

Porque é que ficas acordada até tão tarde?” – perguntei-lhe: “Porque é que não vens deitar-te ao mesmo tempo que eu?”

Nessa noite eu fui para a cama por volta das 22h e ao sair da sala ela disse: “Ate já, vou daqui a 5 minutos. ” – Mas não foi.

Fiz-lhe a minha cara de “Temos pena”, até porque não é a primeira vez que a Mel se deita tardíssimo sem necessidade ou razão nenhuma.

Desde que temos filhos, eu comecei a deitar-me mais cedo. Aliás, dormir tornou-se na minha prioridade nº 1. Entre as noites a pé por causa dos miúdos e aguentar dois empregos durante o dia, sempre que tenho uma oportunidade para fechar os olhos não penso duas vezes. Mas a Mel não. A Mel não é assim!

Estamos casados há cerca de 12 anos, e temos filhos há nove. Desde os dois anos do nosso filho mais velho que a Mel se deita, invariavelmente, tarde. Ao longo dos anos chegamos a um ponto que nunca vamos para a cama ao mesmo tempo. Além de que tenho saudades de adormecermos juntos, o que mais me incomoda é o facto de se deitar tardíssimo a fazer sabe Deus o quê, e no dia a seguir queixa-se que está cansada.

Faz-me lembrar os adolescentes que estão diariamente a queimar a vela nas duas extremidades, sem razão aparente.

Estamos os dois a viver com uma dose diária de sono muito baixa. Acordamos os dois à noite para tratar dos miúdos. Eu trabalho durante o dia e a Mel, até há pouco tempo ainda estava a fazer um Doutoramento. Acho que nessa altura eu achava mais normal, talvez estivesse no computador a pesquisar ou a escrever a tese.  Mas hoje em dia, já nem se justifica.

A Mel não me respondeu à minha pergunta e eu assumi que nem ela sabia o porquê de ficar a pé até tão tarde. Ela ainda estava de pijama com o seu rabo-de-cavalo mal-amanhado, e os miúdos estavam a tomar o pequeno-almoço.

A Mel sentou-se no sofá, cruzou as pernas e ficou em silêncio. Sentei-me ao lado dela porque queria ver se chegávamos a uma conclusão para acabar com este cansaço.

Eu passo o dia inteiro com os miúdos. O dia inteiro. E quando eles vão dormir, eu estou contigo… o que é óptimo, mas…” Ficou em silêncio. – “Eu preciso de tempo para mim!”

Deitei-me para trás no sofá e fiquei a pensar no que ela disse. Para mim não faz muito sentido. Eu nunca precisei de tempo para mim. Preciso de dormir mas isso é outra coisa.

“O que é que queres dizer, com tempo para ti?” – Perguntei-lhe

A Mel suspirou. Não percebi se estava irritada ou se lhe seria difícil de explicar.

Eu quero sentar-me no sofá sozinha sem ter ninguém ao colo, a chorar ou a agarrar-me. Eu quero que não me toquem durante algum tempo. Há dias, quando as crianças estão sempre em cima de mim a agarrar-me, que sinto uma sobrecarga sensorial. Quero enfiar-me numa bolha, numa redoma. E sinto falta de me sentar e ver um programa de Tv sem ser infantil ou notícias. Quero aproveitar o tempo que a casa está em silêncio para poder ler um livro em silêncio. Eu só quero um tempo para ser…” – Levantou as sobrancelhas e disse uma coisa que realmente me fez pensar.

“Eu! À noite é o único momento que tenho para me sentir “eu”. “Eu” antes de ser mãe.”

Ao longo destes anos todos nunca me passou pela cabeça que isso pudesse ser questão. Eu assumi que a Mel adorava ser mãe. Não quer dizer que nunca tenhamos falado sobre os desafios da maternidade e como a parentalidade pode ser avassaladora. Mas eu não fazia ideia de que a minha mulher precisava de tempo para se sentir uma não-mãe.

Não gostas de ser mãe” – Perguntei a medo. Nem sabia se estava nervoso porque não queria que nada mudasse – a Mel é uma mãe espectacular! –  ou se era por ter descoberto que havia uma parte da minha mulher que eu, claramente, não conhecia.

A Mel riu-se. “Eu adoro os miúdos, mas isto não tem nada a ver com gostar ou não de ser mãe. Tem apenas a ver com querer estar sozinha. Às vezes nem sequer a ti te quero por perto. Não significa que te ame menos. Nem aos miúdos. Mas eu preciso de me sentir “eu”. Não ter sempre alguém a pedir-me coisas. Não ter sempre alguém a discutir por isto ou aquilo. Não ter sempre alguém à espera e a precisar da minha atenção. Neste momento, para mim, isso é mais importante do que dormir. Faz algum sentido?”

“Nem por isso” – respondi. “Quer dizer, eu não consigo entender porque eu não sinto a mesma necessidade. Mas respeito este teu sentimento”

Abraçamo-nos e ficamos ali um bocado sem falar.

“Então, vais ficar outra vez acordada até tarde esta noite?”

Ela acenou com a cabeça.

Ok. Eu vou certificar-me de que tens esse teu tempo”

 

Por Clint Edwards, Para Scary Mommy

 

Autorizado, traduzido e adaptado por Up To Kids®

Obrigada por teres segurado a minha filha nos braços

Querida Mãe, a quem não cheguei a ter tempo de perguntar o nome, hoje quero agradecer-te convenientemente.

Obrigada por teres segurado a minha filha nos braços.

Obrigada por naquele curto intervalo de tempo teres sido tu a mãe que esteve perto dela.

Eu tenho duas filhas, a que tu seguraste e a outra a quem eu estava a dar atenção. Foram 30 segundos apenas, o suficiente para o pior acontecer.

Vê-la no teu colo foi tão frustrante como confortante. Queria ser eu a estar por perto a segurá-la nos braços e a limpar-lhes as lágrimas. A dizer-lhe “está tudo bem” e a dar-lhe o beijinho mágico que faz desaparecer a dor.

Mas no momento em que corri aflita na tua direção eu vi nos teus olhos o que sofreste por ela, como a apertaste contra o teu peito, lhe deste um beijinho e me procuraste com tal angústia que me pergunto se já conseguiste ultrapassar o susto.

As poucas palavras que trocámos foram ditas com uma voz tremida, a minha e a tua. Não te conheço mas quero dizer-te que que já foste muito importante para mim.

Deves estar a perguntar-te que raio estava eu a fazer para não estar ali com a criança? A ajudá-la a trepar e a subir em segurança… sim, onde raio estava eu….

Bem, querida mãe, eu estava no parque não muito longe dela, a socorrer a mais velha. E a sensação de impotência no momento foi tão grande que as lágrimas me caiam da cara da raiva que sentia por não ter braços elásticos, quatro olhos e pernas super  rápidas.  Mas felizmente tu estavas lá.

Sei que é impossível impedir todas as quedas no parque, todos os trambolhões na rua, a subir um espaldar ou a andar de trotineta, sei que não posso estar em todo o lado a toda a hora, mas espero que em cada queda, a cada novo erguer as minhas filhas tenham sempre uma mãe por perto.

E porque todas nós somos um bocadinho mães de todas as crianças, acho que devo tranquilizar-te. Está tudo bem. Nem eu, nem tu poderíamos impedi-la de cair. Eu prefiro que ela tenha a audácia de tentar, do que o medo de não conseguir.

Querida mãe que aconchegaste a minha filha contra o teu peito,
Obrigada.

imagem@gettyimages

Mais Mulheres, Melhores Mães

A maternidade é sem dúvida um ponto de viragem na vida de uma mulher, no entanto a rota a seguir depende da bússola interna que cada uma de nós tem, ou quer ter.

Iremos traçar caminhos que não teremos tempo nem força para percorrer, mas também surgirão novos caminhos com surpresas e alegrias.

É difícil balizar a maternidade com o nosso intrínseco ímpeto feminino! É difícil para nós e também para os outros! Numa sociedade de aparências e estereótipos existem “comportamentos” proibidos para as mães!

Mas antes de sermos mães somos mulheres e como tal adoramos ter tempo para nós, jantar com os amigos, ler um livro, sentir a casa deserta e sossegada, gostamos muito de sermos a prioridade, e precisamos de o ser!

A maternidade hoje em dia está mediatizada e é alvo de criticas constantes. Temos que nos assumir, enquanto mulheres, parar de procurar a utópica perfeição, parar de agradar aos outros, porque também perdemos a cabaça, porque também somos egoístas, porque muitas vezes só queremos sossego e algum tempo para nós. E depois? em algum momento deixamos de amar os nosso filhos de forma incondicional? Obviamente que não! Este amor é recíproco e construído com respeito, autonomia e diferenças. As crises não são mais do que grandes oportunidades.

Se as criticas destrutivas escasseassem, haveria mais espaço para crescermos enquanto pessoas, seremos melhores mães quanto mais mulheres conseguirmos ser!

Quando começa a adolescência?

A adolescência é uma fase que me assusta. Espero não ter de me reinventar como mãe! Receio não estar preparada para todos as mudanças de humor, preocupações e principalmente para os ver voar.

Sempre disse que durante a infância plantamos sementes e na adolescência normalmente faz-se a primeira colheita … mas agora pergunto-me se terei dado o melhor de mim, se os meus filhos irão reconhecer a nossa casa como o seu porto seguro, se irão continuar a gostar de mim e a ouvir-me, se farei parte das pessoas que procurarão quando têm dúvidas ou preocupações, como tem sido até aqui …

Não acho que deva ser a melhor amiga dos meus filhos pelo simples facto de que, para mim, sou algo absolutamente maior, sou amor de mãe e neste amor tem de entrar a educação e o Não. Como chamar a atenção, proibir ou impor limites se formos compinchas? … Mas não é preciso colocarmo-nos do outro lado da barricada … não pretendo passar a ser vista como o inimigo… a bruxa má das histórias que lhes contei!

Fala-se tanto da fase do gavetão, da fase do armário … mas a fase da adolescência começa realmente quando?

A Organização Mundial da Saúde define que a fase dura dos 10 aos 20 anos.

Socorro! Então, a adolescência cá em casa entrou de mansinho e eu não dei por ela, não se fez anunciar. Mas agora que penso e revejo, algumas atitudes há muito que se modificaram. Realmente as amizades passaram a ser um factor primordial – é verdade que já não querem andar tanto connosco, o tempo passado em casa muitas vezes é de phones nos ouvidos, já procuram outro género de roupa (igual à multidão), e não gostam de sobressair … E já ouvi um “não percebes disto!” Estava à espera das mudanças físicas, mas as emocionais e psicológicas afinal começam antes … a adolescência não se faz anunciar!

Será que na hora da verdade estarei à altura? Conseguirei ter a mesma postura para ele e para ela? Muitas pessoas aconselham para que não forcemos a nossa presença, não sejamos invasivos, respeitemos o espaço e estejamos abertos ao diálogo… agora estes conselhos espalho-os pela casa para que eles os interiorizem…? ou sento-me e espero que me procurem, no momento em que se sentirem preparados?

E estarei eu preparada? Não sei … vou dar o meu melhor, no meu caso triplamente … no fim, com amor e paciência espero que consigamos sair “vivos”, felizes e com muito respeito e carinho mutuo.

Esta historia só a poderei contar daqui a uns bons anos, se não enlouquecer até lá … desejem-me sorte!!!

Um dia ensino-te…

Um dia ensino-te a importância de saber perdoar;
A assumir as tuas responsabilidades;
A pensares nos outros e não só em ti.

Um dia ensino-te que nem todo o friozinho na barriga é amor;
Que há pessoas que nunca irás esquecer, independentemente de a vida vos afastar irremediavelmente;
A rir das tuas fragilidades.

Um dia ensino-te que nem todo o ciúme é saudável;
Que a confiança se constrói pouco a pouco mas que se pode acabar num ápice;
Que por te terem magoado uma vez não significa que todas as outras pessoas o façam.

Um dia ensino-te a aproveitar os abraços que dás a quem amas;
A valorizar os raros momentos em que podes fazer exactamente aquilo que queres;
A não olhares apenas para o teu umbigo.

Um dia ensino-te que nem toda a mentira tem perna curta;

Que nem toda a verdade tem de ser dita;
Que ganhas muito mais se pensares antes de falar.

Um dia ensino-te que não tens de gostar de toda a gente, mas a todos deves respeito;
A aceitar que nem toda a gente goste de ti;
A não transformar esse facto na luz orientadora do teu caminho.

Um dia ensino-te que há amigos que se amam como a irmãos;
Que há viagens que não se repetem;
Oportunidades que não voltam.

Um dia ensino-te que há certezas que viram dúvidas;
Que não há problema em mudares de opinião;
Que não deves envergonhar-te por não pensares como a maioria.

Um dia ensino-te que a curiosidade é um dom;

Que a felicidade é, basicamente, estarmos aqui e agora;
Que o único responsável por te fazer feliz és TU!

Um dia ensino-te que mesmo quando tudo parece estar a correr-te mal o mundo não está contra ti – apenas te cabe olhar esse mundo com outros olhos para que consigas encontrar um novo rumo;
A não julgar pelas aparências, a não teres preconceitos;
Que nunca saberás tudo sobre toda a gente.

Um dia ensino-te que te vais desiludir com as pessoas mais insuspeitas – e isso faz parte;
Que o amor é uma dádiva e serás uma sortuda se o conseguires ver à tua volta;
Que todas as histórias têm duas versões e deves procurar que a tua seja a mais fidedigna.
Que não deves esperar dos outros exactamente aquilo que dás, sob pena de viveres numa insatisfação permanente.

Ensino-te que há memórias que te irão acompanhar para sempre, por isso procura construir mais momentos bons que maus;
Que por mais que olhes para trás não podes mudar o passado – aceita-o.
Que és a dona das tuas conquistas e dos teus erros.

Um dia ensino-te a valorizares as tuas melhores características e a não chamares a atenção dos outros para os teus defeitos.
Um dia ensino-te que o dinheiro não é tudo;
Que um verdadeiro amigo às vezes é tudo o que precisas;
Que a vida é demasiado curta para culpares os outros por algo que nunca conseguiriam fazer (ou agir) de outra forma.

Um dia ensino-te a amar os livros;
A não responderes a tudo o que te dizem – tantas vezes o melhor é deixar passar e não dar importância;
A ser boa, a não esquecer as tuas origens, a tua família.

Um dia ensino-te a não usares o poder como arma;
A amares-te;
A amares o que a vida tem de bom.

Ensino-te a aceitares todas as tuas cicatrizes;

A procurar o equilíbrio;
A não maltratar os outros, a tratá-los sempre com educação e, aos que precisam, com compaixão.

Um dia ensino-te a saltar mesmo quando sentes medo (para que possas sentir que és quem és e estás onde estás pelo que fizeste mais do que pelo que deixaste de fazer);
A filtrar tudo o que é negativo.
A não te ires abaixo quando estás “sozinha” nas tuas convicções.

Um dia ensino-te a teres orgulho em ti e nos teus.
Que é normal questionares-te.
Que podes tudo, basta trabalhares para isso.

Sei que só serei responsável por te ensinar uma pequenina parte destas lições. A vida encarregar-se-á do restante mas, mesmo assim meu amor, nunca te esqueças que os teus dias são o que fazes com eles, os problemas têm a proporção que lhes dás, que uma atitude positiva é meio caminho andado para seguires em frente.

Um dia ensino-te a voar – com um mapa desenhado nas costas com a ponta dos meus dedos, para que possas regressar sempre.

A mãe deseja-te a melhor e mais rica das viagens.

 

imagem@weheartit

A vocês meus amores,
Gostava de explicar com palavras certas o que é, e como é o amor,
Gostava de conseguir explicar de forma exacta como se sente e como se processa,
Gostava que a vida não vos apanhasse desprevenidos quando fossem tomados por ele,
Gostava de conseguir preparar-vos para o enfrentarem,
Mas não o sei fazer, não sei explicar, não sei responder a essa pergunta – o que é o amor?
O amor é o sentimento mais importante que vão descobrir ao longo da vossa vida. Garanto-vos que nada vai ser tão importante ou mais forte do que ele, mas lidar com este sentimento é uma tarefa difícil. Mais difícil do que passar àquela disciplina que vão odiar ou mais difícil do que aquela cambalhota da aula de ginástica, mas é tão importante, tão forte, que ao contrário daquilo que não gostam não vão desistir dele.
O amor não é uma coisa que se goste ou não se goste, não é assunto que interesse só a algumas pessoas – interessa a todos – o amor está presente em toda a vossa vida, nas coisas mais simples, numa palavra, num gesto, num filme, num livro, numa música.O amor faz falta, precisamos dele para viver. É o amor que nos move mas não temos que gritar ao mundo que nos importamos com o amor. Podemos importar-nos em silêncio, porque o que importa é o que sentimos..
Estejam atentos para aprender como funciona o amor, e não, o amor não é disciplina da escola, mas o amor aprende-se. Eu não nasci ensinada a amar e ninguém me ensinou a amar. Apenas nascemos a precisar de amor. Mas não se preocupem a vida vai encarregar-se de vos ensinar tal como me ensinou a mim.
Não quero que fiquem com uma visão pessimista do amor mas não vos posso mentir, ele não traz só coisas boas. Às vezes o amor assusta-nos, prega partidas e deixa-nos com medo (mesmo muito medo) O amor nem sempre é correspondido, nem sempre resulta, nem sempre funciona. Mas existe e é possível que aparece em qualquer lado, num gesto. em qualquer pessoa, qualquer animal.
Acredito que cada pessoa construa a sua forma de amar, o seu próprio amor, pois não existem padrões existem atributos, características, requisitos, necessidades e exigências que fazem cada um feliz de acordo com suas preferências, desejos e vontades. O amor, transforma, confunde, agita, fortalece, constrói, marca, enlouquece, muda as pessoas por dentro e por fora, e faz girar o nosso mundo. Quem explica isto?
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Quando se fala em maternidade grande parte das mulheres associa essa experiência a algo maravilhoso, polvilhado de amor e ternura. Ser mãe é descrito, no geral, como uma experiência gratificante e bastante positiva.

Mas a maternidade implica uma mudança interna e identitária: de mulher e filha a mulher e mãe, com novos papéis, novas expectativas, numa reestruturação progressiva e contínua de ser e de estar. Sendo um processo relativamente tranquilo, mesmo em situações de gravidez não desejada, em função do contexto, das vivências e da estrutura da personalidade, nem sempre é assim.

A par da observação clínica, vários estudos vêm suportar a ideia de que uma gravidez indesejada (não quer dizer, necessariamente, não planeada), influencia o vínculo mãe-filho. Se a afetividade é um constructo complexo, nestes casos o afeto vai emergindo da ambivalência entre o sentimento de culpa pela rejeição e a tentativa de compreensão e aceitação. Em casos patológicos, a ligação mãe-bebé tem uma construção deficitária, levando à continuidade da rejeição, de forma mais ou menos evidente, após o nascimento.

Quando em contexto interventivo ouvimos expressões como: “tirem isto de dentro de mim” ou “devia ter ido parar à sanita como foram os outros”, é a evidência clara de que o papel de mãe não foi interiorizado. É a expressão crua do mal-estar da mãe e da sua incapacidade em lidar com a maternidade e com a nova identidade que lhe está associada.

Pare para pensar, antes de fazer qualquer juízo de valor. Conhece a história de vida daquelas mulheres? Como foi a construção dos seus próprios afetos? Alguma vez terá sido amada? Que contornos e que significado tem aquela gravidez?

A experiência clínica diz-nos que estas mulheres têm uma relação patológica com a afetividade e, na maioria dos casos, não conseguem “sentir” de outra forma. Muitas tiveram, também, uma infância complicada, outras sentiram que não eram amadas, ou que nunca foram verdadeiramente aceites. Por norma, são pessoas que não aprenderam a amar de forma positiva.

Chegam-nos ao consultório crianças para acompanhamento psicológico em que a abordagem necessária seria a familiar ou sistémica mas, na maior parte dos casos, é a criança que continua a ser “rejeitada”, continua a ser “aquela” que tem problemas identificados. Muitas das vezes não é a criança que precisa de ter acompanhamento psicológico e sim a mãe.

Noutros casos a mãe entra numa espiral comportamental (inconsciente) para alívio culpa, que se manifesta em atitudes de compensação: permissividade, excesso de tolerância ou falta de limites, compensações materiais, entre outras. No fundo sente arrependimento pelos seus pensamentos ou atitudes e teme, também, ser rejeitada pelo filho/a.

Claro que nos passa pela cabeça muitas questões: como será a vida desta criança? Será algum dia verdadeiramente aceite e amada de forma saudável? Nestes casos e na impossibilidade de haver um acompanhamento familiar, resta-nos ajudar a criança. Como? Através do restabelecimento de relações afetivas e vínculos afetivos saudáveis, quebrando o ciclo transgeracional de rejeição e de insegurança.

Fica a sugestão de ver (ou rever) o filme “Álbum de família” onde o tema da transgeracional está bem presente na história de 3 mulheres (irmãs), todas elas com as suas próprias “feridas narcísicas”, em que a imagem de uma mãe contentora não foi construída e interiorizada, condicionando um desenvolvimento pleno e saudável a cada uma delas.

 

Uma mãe é aquele ser estranho e louco capaz de heroísmos e dramas com a mesma intensidade;
Uma mãe escreve cartas ao Pai Natal, é fada dos dentes e coelho da páscoa.
Uma mãe pede autógrafos a artistas deploráveis, assiste a programas e shows horríveis, revê milhares de vezes os mesmos desenhos animados, conta as mesmas histórias centenas de vezes, vai à Disney e A D O R A!
Uma mãe faz escândalos, pede justificações aos professores, grita em público, arma barraca, envergonha-nos.
Uma mãe não dá espaço, é barulhenta, tendenciosa, leoa e dona dos seus filhos.
Uma mãe exalta extremos e ganas, irrita-se, enlouquece, mas… é mãe.
Uma mãe faz promessas, mete-se em prestações e horas extras para que nós tenhamos aquilo que precisamos e aquilo com que sonhamos.
Uma mãe passa-se, ultrapassa limites e diz-nos as verdades mais difíceis de ouvir.
Uma mãe pede desculpas, mortificada… Uma mãe é um bicho de 7 cabeças, louco pelas crias.
Uma mãe chora no espectáculo de balet, na competição de natação, chora quando os filhos se apaixonam, se casam e têm filhos.
Uma mãe quer arrancar a cabeça a todos os desgraçados que fizerem os seus filhos sofrer, enlouquece enquanto espera que cheguem a casa após a sua primeira saída à noite, morre por dentro quando perde um filho.
Uma mãe é uma espécie esquisita que varia entre uma fada e uma bruxa com uma naturalidade espantosa. É competente quando assume culpas e insuperável a distribuir amor, mas por vezes tem um lado B… ou até C, D e E.
Uma mãe é melosa, excessiva, obsessiva, repulsiva, comovente e até histérica. Mas não se é feliz sem uma mãe.
Uma mãe é um contrato irrevogável, vitalício e intransmissível.
Uma mãe lê o pensamento, tem premonições e sonhos estranhos. Reconhece uma cara de choro, cara de gripe ou cara de medo. Entra sem bater, telefona de madrugada, pede favores chatos, dá palpites e implica com os nossos amigos, namorados, com as nossas escolhas.
Uma mãe dá a roupa do corpo, dá o seu tempo, dá dinheiro, dá conselhos, dá cuidados e dá proteção.
Uma mãe dá um jeito, dá castigos, dá ralhetes, dá força.
Uma mãe cura cólicas, ressacas (e bebedeiras), tristezas, cura o pânico nocturno e os nossos medos. Espanta monstros, pesadelos, bactérias, mosquitos e perigos.
Uma mãe tem intuição e é “Messias”: Uma mãe salva. Uma mãe guarda tesouros, conta histórias e cria memórias. Uma mãe é arquivo!
Uma mãe exagera e extrapola. Uma mãe transborda, inunda, transcende. Ama, desmama, desarma, denota, manda, desmanda, desanda, demanda. Rumina o passado, remói dores, dá sempre troco, adora uma cobrança e um perdão em lágrimas.
Uma mãe abriga, afaga, alisa, lambe, conhece as batidas do nosso coração, o toque dos nossos dedos, as cores do nosso olhar e sente música quando nós nos rimos.
Uma mãe tem um coração de mãe! Gigante!
Uma mãe é uma pedra no caminho, é rumo, é pedra no sapato, é rocha, é novela mexicana, tragédia grega e comédia italiana.
Uma mãe é colo, cadeira de baloiço e cadeira de psicólogo…
Uma mãe é o deus-me-acuda, o graças-a-deus, o mãezinha-do-céu, o nosso Deus-me-valha.
Uma mãe é absurda e inexoravelmente para sempre e é, para cada um de nós, apenas uma: não há mistério maior! Só cabe uma mãe na vida de um filho. Às vezes, nem cabe inteira. Porque uma mãe é imensurável.
Uma mãe é a saudade instalada desde o instante em que descobrimos a morte.
Uma mãe é eterna, não morre jamais.

 

Baseado no poema de Hilda Lucas, adaptado por Up To Kids®
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Estás prestes a completar dois anos.

Corres, falas, compreendes o que te dizem, respondes com graça e adoras brincar.

Sei do privilégio que é ter-te comigo todos os segundos que temos disponíveis só para estarmos uma com a outra. Sei do privilégio que é seres saudável e fazeres todos os disparates que fazes – aprendi a estar agradecida por eles.

Não sabes, mas muitos anos antes de acreditar que um dia seria mãe, escolhi o teu nome. Sonhei-te em segredo, desejei-te quando conheci o teu pai, ainda era eu – mesmo que não o sentisse – quase uma criança.

Estás comigo há muito mais do que estes dois anos. Estarás, se Deus quiser, muitos mais.

Tenho-te tatuada no corpo numa tatuagem que só poucos conhecemos (e a que achas tanta graça!), mas a tua presença na minha vida está-me estampada no rosto: nas olheiras que não passam, nas linhas que ficam mais carregadas, nos cabelos brancos que cessaram de aparecer (um dos teus milagres). Também no corpo deixaste marcas: levaste-me os quilos que tinha a mais e que não faziam falta nenhuma, deixaste-me os braços mais “musculados” de tanto te pegar e brincar contigo, os pés meio número acima desde a gravidez.

Fizeste-me ter saudades infinitas dos meus avós que já não estão cá para te conhecerem, fizeste-me enternecer com as brincadeiras que tens com os que ainda andam por cá.

Fazes-me agradecer por ter o teu pai ao meu lado – sempre, para sempre.

Sorrio muito mais desde que te tenho. Sonho por mim, mas mais por nós. Desejo coisas boas, tento apagar as coisas más que, bem vistas as coisas, não servem para nada.

Vibro contigo a cada nova palavra (e adoro a forma como dizes “pêssego”, “queijo”, “avó Fernanda”, “queres!”, “posso?” e por aí fora).

Emociono-me ao ver-te com a tua tia materna, uma reprodução quase exacta do amor que senti por ela quando era bebé e brinquei, cuidei, ensinei: como ela faz contigo (tão pacientemente).

Deixo-te voar nas brincadeiras no parque, na praia, na piscina, ajudo-te a alcançar novos patamares, a venceres pequenos medos.

Vejo-te cair e sacudir as mãos e os joelhos como te ensinei: e pedires beijinho para passar se te tiveres magoado.

Delicio-me com a forma como cuidas das bonecas (e preocupo-me quando as deixas dentro do alguidar com água de barriga para baixo).

Admiro a tua memória afectiva e orgulho-me das pessoas que te rodeiam.

Foram dois anos para mim, para ti foi toda a tua vida. Espero que estejas a gostar dela – faço por isso.

Vou continuar aqui quando precisares e quando já não for tão precisa assim. Por enquanto ajudar-te-ei a deixar as fraldas, a limpar as lágrimas do teu rosto, a não esqueceres a tua história preferida, a cantar animadamente, a brincar da forma mais disparatada possível, a ser feliz só porque sim – como devia ser sempre.

Lembras-te do que te segredei na maternidade quando o sol brilhava forte lá fora mas estávamos fresquinhas no quarto?

Pois bem, nunca deixarei de o repetir, meu amor.

 

P.S. – Amo-te.

A depressão pós-parto não é banal

Muitas vezes vemos posts, cartoons, textos e desabafos acerca de uma mãe extremamente cansada e esgotada, quando percorremos as redes sociais.

Efetivamente, a maternidade exige uma grande mudança, implicando uma alteração ao estilo de vida, diminuindo a disponibilidade para outras tarefas e mudando a identidade da mulher. No entanto, não podemos confundir estas alterações normais e saudáveis com uma depressão pós-parto. É negligente desvalorizar sentimentos tão fortes e intensos que constituem uma patologia bem descrita e conhecida.

Banalizar o sofrimento não acaba com ele e pode levar a que uma mulher deprimida não peça ajuda, podendo pensar que é normal que se sinta assim tão em baixo. Na realidade, não é normal estar deprimido em nenhuma fase da vida, incluindo no puerpério e, mais à frente, no decorrer da infância da criança.

A depressão é uma doença e pode ser tratada com a ajuda certa. A psicoterapia torna-se uma ferramenta fundamental para ultrapassar esta patologia e para evitar futuras recaídas, a par com a avaliação do médico para eventual intervenção psicofarmacológica. Uma depressão pós-parto que não é tratada, pode perdurar anos e não é raro receber pacientes em consulta com queixas depressivas que, ao procurarmos o início dos sintomas, vamos encontrar o nascimento de um filho que pode até já ser adolescente.

Diferente do blues pós-parto, em que existe uma perturbação breve e moderada do humor, num número muito elevado de mulheres, e também diferente da psicose puerperal, que atinge um número reduzido de mulheres e que se trata de uma perturbação psicopatológica grave, a depressão pós-parto surge por volta do 2.º ou 3.º mês após o nascimento do bebé. Os sintomas podem ser menosprezados porque estão associados ao cansaço e ao desgaste provocados pela acumulação dos cuidados a prestar ao bebé. No entanto, importa perceber se estes sintomas são intensos e permanecem no tempo: tristeza, perda de interesse, alterações no apetite, perturbações do sono, perda de energia, pessimismo ou culpabilidade, ideação suicida. Paralelamente, na depressão pós-parto os sintomas físicos costumam estar mais exacerbados: cefaleias, cansaço extremo, choro fácil, etc.. De acordo com a literatura, existem poucas evidências de que a depressão pós-parto esteja associada apenas a mecanismos biológicos (alterações hormonais e metabólicas). Neste sentido, muitos autores têm evidenciado a importância dos fatores biológicos, obstétricos, sociais e psicológicos como causas conjuntas para a depressão pós-parto.

O suporte social é fundamental na prevenção da depressão pós-parto, com o cônjuge e a família como prestadores principais da mulher.

Uma gravidez não desejada, as dificuldades na amamentação ou um parto difícil, podem ser o rastilho para o declínio do bem estar psicológico da mãe.

Importa aqui salientar que uma mãe deprimida está em sofrimento e precisa de ajuda. A culpabilidade característica da doença, juntamente com a conivência do exterior, pode levar esta mãe a não pedir ajuda, afetando a evolução dos sintomas, a relação conjugal e a relação mãe-bebé. A mãe deprimida pode sentir-se menos competente, menos ligada emocionalmente ao bebé, mais dependente de terceiros e mais isolada socialmente. E assim chegamos de um extremo a outro: num lado temos a “super-mãe”, fiel aos seus instintos, capaz de tudo, cuidadora incansável e ultra-resistente à frustração; do outro lado temos uma mãe que luta contra todas as dificuldades, internas, físicas e do exterior e que acaba o dia desesperada, mas que recebe uma certa confirmação do senso comum de que é normal sentir-se assim.

Nenhuma mãe é perfeita, mas é suposto que possa viver a maternidade de uma forma positiva e satisfatória.

Não isenta de frustrações, a maternidade dá à mulher uma resposta emocional sobre que filha fomos e que mãe somos agora… em que mulher nos tornámos. E é suposto que sejamos capazes de usufruir do lado positivo da maternidade, sem lentes depressivas que ofusquem essa maravilhosa experiência.

A depressão pós-parto não é banal e deve ser tratada.

Por Marta Russo, Psicóloga Clínica /Psicoterapeuta, Healthy Mommy

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