Escolher ser mãe

O cansaço das Mães acumula-se devagarinho, lentamente, noite após noite em que se dorme de forma intermitente, entre as refeições engolidas à pressa, em discussões diárias sobre assuntos pouco relevantes, insignificantes até, sobre o relógio que te apressa o passo e te acusa o constante atraso, com as palavras que se atrapalham umas sobre as outras e que te levam à dislexia que te tolda o discurso, nas birras exaustivas e frequentes, quando se trabalha dentro e fora de casa, quando tentamos cuidar de nós mesmas, quando chegamos ao ponto de esforço para conseguir alimentar o Amor.

Mas como gerir o efeito colateral deste Amor maior que é ter um filho? Porque o cansaço é nada mais, nada menos do que a consequência inevitável de uma escolha livre. Escolher ser Mãe!

E esta escolha faz-me viver sempre como se tivesse outros dois corpos para além do meu, corpos esses que também precisam de ser alimentados e cuidados, que me trazem angustia se ficam doentes, se não estão a respirar bem à noite, se não comem, se não estão a crescer como deveriam, outros dois corpos que tento proteger a todo o instante de toda e qualquer agressão, mas há ainda o meu corpo, que tem que existir e resistir porque aqueles outros corpos precisam de mim e às vezes o meu corpo não consegue acompanhar.

Não consegue porque as escolhas livres, às vezes, também são insidiosas, tal como o cansaço das mães é insidioso, suga-te por dentro e torna-se quase uma condição crónica, e às vezes és envenenada pela falta de paciência, pela frustração, pelo julgamento, pela falta de consolo, pela culpa, pelo descontrolo, pelos gritos, pela vontade de fugir, pelas respostas tortas e menos correctas, porque és humana e falível, e tudo isto porque simplesmente, estamos cansadas.

Mas às vezes, e independentemente da decisão de ter filhos ter sido minha, eu preciso de me permitir deixar de sentir este cansaço e preciso de um tempo.

Mas precisas de um tempo como? Mas não são os teus filhos o meu melhor da tua vida?

O Amor pelos meus filhos não tem limites ao contrário da minha energia que é tantas vezes levada pelo cansaço, quase como se o Amor fosse o motor da maternidade e a energia o seu combustível, e sem combustível todo o Amor que sinto não será suficiente para trazer sempre à tona o melhor de mim.

Querida mãe de primeira viagem,

ainda me lembro quando estava no teu lugar. Os medos, os receios, as dúvidas, os “ses ”…

Sim, tal como tu, também tinha essa necessidade de saber todas as estatísticas e explicações para o valor de cada exame e cada análise, mas acredita, basta saberes que está tudo a correr bem, confiar no médico que te acompanha e preocupar-te com assuntos como a decoração do quarto. Podes guardar a médica e enfermeira que há em ti para quando o bebé nascer.

Vive a tua gravidez com serenidade, longe de perguntas, de medos e do Dr. Google.

Controla essa tendência de querer planear tudo: o dia em que o bebé vai nascer, o tipo de parto ou a amamentação em exclusivo. Não te preocupes com o desconhecido, há coisas que só saberás depois de acontecerem. Deixa os dias acontecerem, um a seguir ao outro, um de cada vez.

Vais ter medo da dor, do parto, da amamentação, das noites mal dormidas, da exaustão e da responsabilidade de ter de cuidar de alguém 24h por dia para o resto da tua vida. Sim, vai ser para o resto da tua vida, e ainda bem.

Quando um dia deres por ti atrás de uma porta de casa de banho a chorar e sem saber porquê, não fiques preocupada, acredites ou não, faz parte e é normal. Aos poucos, as coisas vão entrando nos eixos, começas a criar a tua/vossa rotina, vais conseguir tirar o pijama, tomar banho, dormir 3 horas seguidas, e responder a perguntas básicas como: como é que te chamas?

Não acredites que vais ter dificuldades para cuidar do teu bebé ou para manter a tua sanidade no turbilhão que é ter um bebé em casa (sim não é mito, é mesmo!). Existe uma coisa chamada instinto que nunca te vai falhar e que se vai manifestar em TODOS os momentos que precisares.

Também vais morder a língua: todas nós mordemos em algum momento, mas também está tudo bem, até porque não podes nem deves cobrar-te nunca. Não deves ler tudo o que existe, nem absorver tudo o que ouves sob pena de enlouqueceres com tanta opinião, conceitos e valores que muitas vezes nem vestem a tua pele, mas como a vizinha fez também vou fazer.

Não vais nada!

Tenho a certeza que tu vais construir a tua própria maneira de viver a maternidade e acredita que será única, pessoal e intransmissível.

Ah sim, claro que vais andar cansada, aliás, esgotada é o termo mais apropriado, e se deres por ti a perguntar-te: “O que eu fui fazer da minha vida?” também é normal.

Vais conseguir superar os dias difíceis e saborear os bons, até porque, quando aquele gordo mais querido cor de rosa solta um gemido e encosta a sua mão minúscula de pele macia e cheirosa na tua pele, o teu mundo vai parar e vais esquecer tudo ali, naquele momento.

O tal amor arrebatador, incondicional, encantador, total, absoluto e integro que tudo explica é o único sentido de toda esta experiência.

E lembra-te, as horas podem parecer muito longas, os dias podem parecer intermináveis, mas confia em mim quando te digo que os anos são curtos. É mesmo, mas mesmo verdade, que passa e crescem num instante.

Boa viagem!

Vais ser capaz ♥️

imagem@fotolia

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Visitar o bebé à Maternidade! Não obrigada!

A minha maternidade não é igual à tua

É hora! O que levar para a Maternidade?

A minha maternidade não é igual à tua, nem igual à de ninguém.

A minha maternidade é uma maternidade simples, não vivo obcecada com a opção pela amamentação em exclusivo ou pela opção pelo LA, não defende o uso de fraldas descartáveis ou fraldas orgânicas, não alimenta a polémica da pratica ou não do co-slepping.

A minha maternidade adapta-se às necessidades e gostos de cada filho.

A minha Maternidade não são só alegrias nem só tristezas, não é um sentimento único e imutável. É indescritível. Tento ser e fazer o melhor que consigo e não julgar os que fazem ou sentem diferente.

A minha maternidade não é o que se vê nos filmes. A minha maternidade todos os dias me esfrega na cara que tenho que continuar haja o que houver porque isto não é um round trip ticket e por isso às vezes é assustadora mas também estimulante. E não! Não é só amor. Tento aceitar as emoções e os sentimentos sem negação, sem julgamento, sem culpa, assumindo que às vezes estou triste e cansada, que tenho medo mas que nunca vou gostar menos dos meus filhos por isso.

Na maternidade tende-se a ter medo de assumir outros sentimentos porque a sociedade nos convence que na Maternidade só o amor pode existir sem dar lugar a outros sentimentos. Mas não há nada de errado quando me irrito. Estou cansada e sem paciência mas não sou menos Mãe ou pior Mãe por isso. Não sou a Mãe das telas de cinema – eu falho, erro e fracasso, mas  tento superar os erros e falhas de forma serena, não com o objectivo da perfeição mas com o mesmo objectivo da lagarta que vira borboleta – uma metamorfose materna à procura do seu melhor.

A minha maternidade não é igual à tua, nem igual à de ninguém. Aceito a minha sem procura de modelos ou padrões. Aceita a tua sem medos.

Assumir o que somos e como somos, é o que define a nossa maternidade, é o que nos define como mães.

A vocês meus amores,
Gostava de explicar com palavras certas o que é, e como é o amor,
Gostava de conseguir explicar de forma exacta como se sente e como se processa,
Gostava que a vida não vos apanhasse desprevenidos quando fossem tomados por ele,
Gostava de conseguir preparar-vos para o enfrentarem,
Mas não o sei fazer, não sei explicar, não sei responder a essa pergunta – o que é o amor?
O amor é o sentimento mais importante que vão descobrir ao longo da vossa vida. Garanto-vos que nada vai ser tão importante ou mais forte do que ele, mas lidar com este sentimento é uma tarefa difícil. Mais difícil do que passar àquela disciplina que vão odiar ou mais difícil do que aquela cambalhota da aula de ginástica, mas é tão importante, tão forte, que ao contrário daquilo que não gostam não vão desistir dele.
O amor não é uma coisa que se goste ou não se goste, não é assunto que interesse só a algumas pessoas – interessa a todos – o amor está presente em toda a vossa vida, nas coisas mais simples, numa palavra, num gesto, num filme, num livro, numa música.O amor faz falta, precisamos dele para viver. É o amor que nos move mas não temos que gritar ao mundo que nos importamos com o amor. Podemos importar-nos em silêncio, porque o que importa é o que sentimos..
Estejam atentos para aprender como funciona o amor, e não, o amor não é disciplina da escola, mas o amor aprende-se. Eu não nasci ensinada a amar e ninguém me ensinou a amar. Apenas nascemos a precisar de amor. Mas não se preocupem a vida vai encarregar-se de vos ensinar tal como me ensinou a mim.
Não quero que fiquem com uma visão pessimista do amor mas não vos posso mentir, ele não traz só coisas boas. Às vezes o amor assusta-nos, prega partidas e deixa-nos com medo (mesmo muito medo) O amor nem sempre é correspondido, nem sempre resulta, nem sempre funciona. Mas existe e é possível que aparece em qualquer lado, num gesto. em qualquer pessoa, qualquer animal.
Acredito que cada pessoa construa a sua forma de amar, o seu próprio amor, pois não existem padrões existem atributos, características, requisitos, necessidades e exigências que fazem cada um feliz de acordo com suas preferências, desejos e vontades. O amor, transforma, confunde, agita, fortalece, constrói, marca, enlouquece, muda as pessoas por dentro e por fora, e faz girar o nosso mundo. Quem explica isto?
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Eu exijo que exijam de mim!

Há mães que não contam que os filhos não são sempre queridos e fofos.

A verdade é que os filhos também são chatos. Acordam de mau humor, repetem vezes sem conta as mesmas palavras e frases, fazem reiteradamente as mesmas perguntas às quais por vezes ou não temos resposta ou não queremos responder, insistem em modo burro do Shrek se estamos a chegar, mal saímos da nossa rua! Ainda falta muito? nem há 5 segundos dissemos que estamos a chegar e fazem birras do nada e sem razão, choram e gritam nos sítios e ocasiões menos apropriadas. Definitivamente, os filhos não são sempre queridos e fofos.

Mas e as Mães?

Eu também não sou sempre querida e fofa e aposto que há mais Mães que não o sejam.

Mas o problema  é que exigimos demais. Exigimos que as crianças se portem sempre bem, exigimos que não interrompam as conversas dos adultos, exigimos que façam as coisas ao nosso ritmo, exigimos que cumprimentem as pessoas, às vezes até que beijem e abracem alguém que só vêem uma vez por ano. Exigimos que emprestem os brinquedos, exigimos que os partilhem, exigimos que se entendam com o(s)  irmão(s), primo ou amigo, exigimos que aceitem se o amigo raivoso lhe bateu, exigimos que não batam de volta, exigimos que não chorem. Exigimos que não falem quando não for o seu tempo, exigimos que não interrompam as refeições, exigimos simplesmente que não interrompam porque, por exemplo, têm um desenho muito bonito e o querem mostrar.

– Não vês que estou a comer, ai que lindo que está, agora vai lá continuar a pintar para eu e o Pai almoçarmos sossegados…

Espera lá, um desenho? Mas que desenho é este? Ah, sou eu, a Mãe!

Pára tudo…

Tu querias interromper-me para mostrar-me o desenho que aprendeste a fazer?

Querias tão somente a minha presença, a minha atenção, o meu amor?

Queridos filhos, desculpem-me! Vocês também têm o direito de exigir! Aliás, eu exijo que exijam de mim!

Exijam que eu pare para vos olhar, exijam que vos oiça, exijam que eu pare para me dedicar a vocês em exclusivo nem que seja por meia hora, exijam que brinque com vocês, exijam que eu esqueça os adultos, o telemóvel, o trabalho, o cansaço, a casa e as suas obrigações, exijam que me sente no chão a brincar com vocês, exijam que eu vos oiça, exijam que eu vos ensine, exijam que eu vos dê atenção, exijam que entre com vocês no mundo do faz de conta, exijam que eu não me esqueça que são crianças, exijam que eu deixe de exigir.

Sejam exigentes comigo!

*para lerem quando crescerem

Ser Mãe todos os dias cansa!

Sem tempo para recuperar o fôlego nem conseguir respirar fundo, saímos do bloco de partos e num segundo mudamos de estatuto.

Somos MÃES!
Aliado ao que já tínhamos na nossa vida, passamos agora a ter que dar conta de uma quantidade de coisas que se tornam efectivamente reais na nossa nova vida. A realidade da amamentação, das fraldas, dos banhos, do colo, do choro, das cólicas, das birras, das noites sem dormir. O peso da responsabilidade de ter alguém totalmente dependente de nós.
Somos levadas pelas hormonas, pela emoção do parto, pela ansiedade de ver a cara que imaginamos durante meses. Pela excitação de segurar pela primeira vez no colo aqueles que dizemos ser NOSSOS. Pela chapada de amor, pela grandeza deste acontecimento de nos termos tornado Mães.No meio deste estado meio alterado de consciência, por conta das hormonas, das emoções, do novo ritmo e das exigências, não damos conta dos dias e das noites, não damos conta do passar do tempo.

A nova rotina é levada pelos acontecimentos e pelas necessidades do bebé. Pensamos pouco, apenas vamos agindo. Vamos agindo como se sempre tivesse sido assim. É uma mudança radical mas num simples instante já não conseguimos conceber a nossa vida sem eles.

Os filhos chegam e instalam-se.

Instalam-se, curiosamente, no lugar daquilo que parece ser agora, o essencial para vivermos.  A partir desse momento torna-se impossível imaginar a nossa vida sem eles. Parece que tudo sempre existiu desta forma.

Parece simples…
Parece fácil…

Mas nem tudo é cor de rosa. Ser Mãe todos os dias cansa!

Há um momento em que o cansaço toma conta de nós. Um corpo cansado, uma cabeça exausta, um sono descontrolado e atrasado, ritmos e rotinas diferentes, o isolamento do mundo pela dedicação em pleno e em exclusivo a estes seres que nos engolem na nossa plenitude, a constante exigência e, às vezes, as Mães cansadas também choram.  Choram de amor, choram por não saber, choram por insegurança, choram de medo, choram de preocupação, choram de cansaço.

Mas às vezes as mães não contam.

Não contam que choram, não contam que é difícil, não contam que ser Mãe é cansativo. Os timelines de fotografias felizes e bonitas, a pressão social de que tudo na maternidade é maravilhoso e de que as Mães têm que estar sempre felizes, tende a falar mais alto.

Confesso que tenho dias que me apetece sair a correr, bater com a porta, deixar para alguém tratar e só chegar quando já estiverem a dormir.

Confesso também que, por vezes, um simples sorriso desfaz como que por magia este cansaço. Um olhar cúmplice que me enche de força para estar outra vez pronta para tudo, mas no entanto, uma coisa não anula a outra.

O amor, a felicidade e a alegria da maternidade não impedem que o corpo e a cabeça façam tilt, não impedem que tenhamos dias difíceis, dias cansativos demais.

O cansaço é legitimo, porque as Mães são humanas, e nós as Mães também nos cansamos.

imagem@babble.com

Das coisas que não se perguntam

Vivemos numa sociedade regulada por um estereótipo de vida. As pessoas que nos rodeiam empurram-nos para aquilo que socialmente consideram “o caminho a percorrer”.
Nascemos e crescemos habituados a que nos perguntem o que queremos ser quando formos grandes. Na adolescência perguntam-nos se já temos namorado. Quando acabamos o curso, querem saber – Então? quando é que te casas?
Casamos. No dia da cerimónia: Queres ter filhos? O bebé é para quando?
Nascido o primeiro filho, ainda na maternidade, avançam: Para quando um irmão?

A maternidade tem sido para mim um constante ensinamento não só enquanto mãe, mas enquanto mulher e enquanto pessoa. Aprendi que há coisas que não se perguntam. Não se pergunta a uma mulher (casada ou solteira) se quer ter filhos. Por trás desta pergunta pode haver uma resposta difícil e dolorosa.

Um dia também eu estive grávida. Não uma, mas duas vezes antes da minha primeira filha. Foram gravidezes sem sucesso que me foram difíceis de superar. Difícil de superar por quem tanto anseia a maternidade. E sim, faziam-me às vezes as perguntas que considero proibidas. Por vezes respondia o politicamente correcto – sim, um dia! Outras vezes, respondia de forma a terminar logo a conversa – quando a natureza o permitir! Outras vezes, fingia que não ouvia, mas a realidade é que, foram tantas as vezes que me apeteceu responder de forma rude e mal educada – não tens nada a ver com isso!

Parece que o sentir na pele não me foi o suficiente.

Quando estava grávida do segundo filho encontrei uma amiga na última consulta antes do parto. Tinha sido minha colega de faculdade, daquelas que tive mesmo pena de não conseguir manter por perto. Sempre gostei muito dela. Divertida, bem-disposta e de sorriso na cara. Perguntei-lhe se estava grávida já que ali estava, e arrependi-me de imediato, mas respondeu-me que sim. Suspirei de alivio e perguntei-lhe se era a 1ª vez, pois tinha a sensação de que ainda não tinha filhos, raios partam o Facebook… Respondeu-me que não, que já tinha tido uma gravidez anterior e perdera o bebé.

Não foi por mal, queria de alguma forma transmitir-lhe confiança e esperança e começo a dizer-lhe que não fique triste. Que não conseguir levar uma gravidez a bom porto é mais comum do que se pensa e que eu própria já tinha perdido uma vez com 9 semanas outra vez com 10 semanas, e que o stress a que estamos sujeitos blá blá blá quando sou interrompida: –Eu estava de 35 semanas!

Fiquei literalmente sem chão. Gelei, engoli em seco… afinal eu estava quase a fazer 35 semanas, senti-me a pessoa mais estúpida ao cimo da terra, na minha cabeça imaginava-me a esbofetear-me a mim própria. Desfiz-me em desculpas e disse-lhe que me sentia ridícula.

Este episódio tem quase 3 meses e todos os dias me assalta o pensamento, não consigo esquecê-lo por nada.

Aprendi de uma vez por todas: há coisas que não se perguntam.

 

“Mesmo com poucas semanas de gravidez perder um bebe é devastador.”

imagem capa@santagenoveva.net

O despertador toca. Sou profissional liberal, não há horários viro-me para o lado descansada. Estava a sonhar, adormeci e já estou atrasada.  Levanto-me mal disposta, com sono, remelenta e descabelada. Já estou mesmo atrasada… só há tempo para um duche rápido. Já não consigo lavar o cabelo, nada de caracóis definidos ou um cabelo impecavelmente esticado, carrapito no alto da cabeça e está óptimo. Visto-me, tento disfarçar as olheiras e sigo para a cozinha para preparar biberons, almoços e lanches e pelo meio tomo o pequeno almoço a prestações. Vou acordá-lo: também está mal disposto. Digo-lhe para despachar um que eu despacho outro, vira-se para o lado e diz que também tem que ter tempo para se arranjar. Vou tentar dar conta do recado sozinha. Acordo a mais velha. Dou-lhe o leite, mudo a fralda, visto-a e instala-se uma birra gigante porque não se quer despir, igual todos os dias.  Acordo o bebé, dou-lhe o leite e visto-o. O barulho que vem da sala é idêntico a uma martelo pneumático a partir a parede, deixo o bebé. na sala na espreguiçadeira ao lado de um sem fim de brinquedos espalhados por todo o lado. O pai,  entretanto aparece impecável, todo cheiroso, com o cabelo perfeitamente penteado, discussão matinal porque devia ter-se levantado para me ajudar, calço-me, olho-me ao espelho e nem estou assim tão mal, estes sapatos de salto alto ficam mesmo bem neste vestido, lembro-me das escadas da escola, tiro os saltos altos, calço umas sabrinas, deixo os sacos de cada um à porta, distribuo 3 beijos, ele bolsa-me o vestido, passo um Toalhete não há tempo para mais e sigo para o trabalho. Não há transito. Acordada há duas horas e já atrasada, encontro lugar para estacionar, fila para o elevador, carrego no 11º piso, fila para picar o ponto, já passa das 9h00. Finalmente sento-me à secretária, um sem fim de emails, um telefone que não pára, um devedor que é uma soda, prazos a expirar e julgamentos sem fim, almoço a correr para ter um bocadinho de tempo para mim, vou pintar as unhas, dou atenção a este meu filho, vou fazer umas compras para o jantar e algumas coisas que faltam para eles. Felizmente que trabalho por cima de um centro comercial, já vou outra vez a correr para cima, 1 hora não dá para nada, vou à casa de banho, olho para o relógio para confirmar as horas, são 14h00, a cara do espelho apresenta no mínimo umas 22h00, a tarde passa num ápice queria despachar hoje o prazo de amanhã para estar mais desafogada mas já não consigo por causa da reunião de última hora, os objectivos não estão a ser cumpridos, tenho que pressionar se não quero ser pressionada. 18h00 está na hora de sair, às 18h30 pico o ponto, a escola fecha às 19h00 vou a voar 2ª circular fora, está calor, está frio, está a chover, está a nevar, raios partam que qualquer que seja o motivo há sempre trânsito. Chego à escola faltam 5 minutos para as 19h00. Ela abraça-me feliz de me ver, ele sorri-me e estica os braços, ele de um lado dentro do sling, ela do outro porque insiste que também quer colo – benditas sabrinas para conseguir descer as escadas com dois ao colo. Chegamos a casa, tropeço nos brinquedos espalhados, ai se eu tivesse com os saltos altos, banhos, despacho-a a ela e ele fica na espreguiçadeira a ver televisão. Ela chora porque não quer sair do banho. O pai chega e vai preparando os jantares, e depois dá jantar à M.. Eu dou banho ao bebé e ela chora porque quer que seja eu a dar a sopa, trocamos as posições. O bebé também já está a jantar, tentamos dar-lhes alguma atenção antes de irem para a cama, jogar um jogo, cantar uma canção, ela não quer que ele brinque com os seus brinquedos, ele puxa-lhe os cabelos, eu encho-os de beijos e abraços, eles vão para a cama depois de chorarem porque não queriam ir. Ainda não jantamos, discutimos outra vez à hora de jantar por qualquer coisa banal e sem importância, arrumo a cozinha, ele pede-me desculpa. Já está a saltar o verniz das unhas pintadas à hora de almoço, estendo roupa, passo roupa, eu dou-lhe um beijo e um abraço também em jeito de desculpa. Preparo o dia seguinte, roupas e comidas, sopa para os miúdos, a bimby não descasca legumes, é meia noite está na hora de dormir, passo pelo sofá como quem passa na casa de partida do monopólio sem receber os 2 contos, ronda aos quartos para vê-los, beijo ao pai de noite feliz, passado duas horas a M. chora perdeu a chucha, ele encosta-se a mim e põe-me o braço na cintura, passado uma hora o bebé quer leite, agora vais lá tu, não eu fui há um bocado é a tua vez, eu afasto-me dele, passado duas horas a M. também quer leite, foi uma noite difícil a dormir mal e pouco, o despertador toca, acordo mal disposta …

Por Vanessa Muchagata, originalmente postado em Crónicas de Uma Grávida acamada,
adaptado por Up To Lisbon Kids®

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Há dias uma leitora pediu-me que escrevesse sobre o seguinte tema:  “Sexo depois de um aborto”.
Ainda estive uns dias a pensar se conseguia escrever sobre este assunto que considero ser um assunto menos consensual do que “Sexo depois da maternidade”. É um assunto pessoal, intimo, delicado e com alguma complexidade sentimental.
Não há bebé, não há amamentação, não há pontos, não há todo um novo mundo que preenche a mulher que se torna mãe. Há silêncio, lágrimas, tristeza, raiva, frustração, revolta, um vazio, um sentimento de perda, senti-me diminuída, culpada, senti que falhei enquanto mulher, olhava para as mães, para as grávidas e questionava porquê eu? Porquê comigo? Porquê?

Para quem não me conhece, infelizmente, tenho legitimidade para escrever sobre o tema.
Antes da minha primeira filha sofri dois abortos retidos. Foram os maiores socos no estômago que levei na vida. Lembro-me bem o que senti, o silêncio de um coração que não bate, a expectativa frustrada, o vazio no peito, na cabeça, no ventre, entre nós os dois que olhávamos um para o outro sem saber o que dizer, os olhos dele que olhavam para mim com pena, a firmeza dele em proteger-me e engolir o seu próprio sofrimento, o abraço dele que naqueles momentos me abrigavam em pleno, e ainda assim sentia-me sozinha e achava que nem ele nem ninguém compreendia o que eu estava a sentir.

Da primeira vez tive medo, muito medo. O meu corpo não expelia aquele feto que teimava em continuar dentro de mim como que: não quero sair deste que é o meu lugar! O que me obrigou a ter que entrar num bloco  de partos, eu de um lado com os olhos cheios de lágrimas de medo e tristeza, do outro lado uma mãe com os olhos cheios de lágrimas de alegria com um filho nos braços.

Na segunda vez, as mesmas personagens, o mesmo guião, o filme repetia-se, desta vez sabia bem ao que ia, já não tinha medo só tristeza e uma certeza momentânea: Não queria voltar a engravidar, não queria mais aquilo que me fazia mal e me estava a destruir por dentro.

O facto de ter sido submetida a duas curetagens obrigava-nos a uma abstinência sexual de três meses. Três meses que eu contava religiosamente para começarmos outra vez a tentar.

Não havia medos nem receios, retomar a minha vida sexual era natural e quase necessário, eu queria mesmo engravidar e sabia que remávamos os dois na mesma direcção, nunca tive dificuldade na entrega, nunca senti que o meu corpo tivesse sido dilacerado, assumi que a natureza sabia o que fazia e deixei as coisas fluírem com naturalidade e assim foi assim das duas vezes.

Mesmo com poucas semanas de gravidez perder um bebe é devastador. Tudo necessita de sarar: o corpo, o espírito, a cabeça, até o casal em si precisa de recuperar-se emocionalmente e arrumar ideias. Usei sempre o tempo a meu favor para conseguir um novo começo, nunca desisti do que queria, os abortos em nada abalaram a minha vida sexual, após cada perda estive sempre pronta e preparada para engravidar outra vez.

Mas nem sempre é assim. Há mulheres com medos e receios que sentem realmente que o seu corpo foi dilacerado, torturado, flagelado, rasgado, maltratado. Há mulheres que não se entregam, que não se julgam à altura, e se culpam pelo que aconteceu. Sentimento de impotência que leva ao isolamento e ao silêncio, a exaustão psicológica e as perdas de sangue apoderam-se de nós, o que poderá ser causador de não se estar preparada para retomar a vida sexual. Há quem não esteja pronta a engravidar de novo vivendo com um eterno medo e receio de que tudo possa voltar a acontecer. Há quem não consiga ver solução numa nova gravidez.

Para mim o truque foi nunca desistir, seguir sempre em frente e lutar por aquilo que queria – um filho – e sexo era a palavra de ordem para o conseguir ter.

Por Vanessa Muchagata, originalmente postado em Crónicas de Uma Grávida acamada,
adaptado por Up To Lisbon Kids®
Todos os direitos reservados

Carta de uma mãe aos filhos

Um dia vão perceber o porque desta minha luta contra o tempo…
Crescem de dia para dia sem o meu consentimento.
Assim como vos crescem os pés e os sapatos deixam de servir, cresce o meu amor por vocês, amor desmedido, ilimitado…
Sou egoísta… que egoísmo o meu querer-vos só para mim.
Pergunto-me se estou a fazer um bom trabalho.
Procuro sempre ser melhor – fazer melhor é o maior desafio da minha vida.

Preparar-vos para o mundo.

Dei-vos asas mas estou aqui para vos ensinar a voar, para vou amparar as quedas e serei sempre o ninho onde podem pousar.
Pulem, corram, sonhem, fantasiem, desenhem, pintem, cantem, gritem, brinquem! Brinquem muito, brinquem tanto, tenham uma infância cheia de brincadeiras e aventuras para sempre a recordarem.
Cresçam ao vosso tempo, sem saltar nenhuma fase.
Falem, desabafem comigo. Tentarei dar-vos os melhores conselhos.
Não tenham medo de errar.
Sigam os vossos instintos, mas pensem duas vezes antes de agir. Por vezes é bom agir de impulso mas pode ter consequências, percebem nesta pequena frase a dualidade da vida? O quanto por vezes pode ser complicada? Ter duas escolhas? Que podemos seguir dois caminhos? Espero conseguir ensinar-vos qual o vosso caminho.
Não tenham medo de arriscar, façam o que gostam, escolham o que gostam, descubram a vossa vocação e tenham a profissão dos vossos sonhos, experimentem coisas novas, sempre aprendendo, vivendo, ampliando os vossos limites, transformando o vosso mundo.

Rir é bom, mas chorar por vezes também é.

Não faz mal chorar, não tenham vergonha de chorar, não se fechem em vocês próprios.
Faz mal esconder o que sentimos.
Sorriam muito por favor.
Não posso impedir que tenham problemas, tristezas e decepções, mas desejo que saibam vencê-las para depois valorizar os momentos bons.
Sejam responsáveis, pacientes, bondosos, generosos, sinceros, humildes.
Peçam desculpa se errarem – pedir desculpas e perdoar os outros, às vezes, é difícil, eu sei.
Preservem os bons amigos, não se deixem levar pelos outros – pensem por vocês.
Se caírem, levantem-se e comecem de novo, façam as vossas escolhas e quando elas não forem bem feitas, sejam resilientes e aprendam com os vossos erros.

Confiem em vocês, não desistam. Sejam persistentes.

Façam por serem respeitados e respeitem os outros.
Defendam aquilo que acreditam.
Aprendam a ouvir pontos de vista diferentes.
Observem à vossa voltam.
Valorizem aquilo que têm.
Olhem para as pessoas sempre do mesmo modo, independentemente do sexo, raça, classe ou religião.
Não guardem rancor nem deixem nada por dizer – Atenção, sinceridade e frontalidade é diferente de arrogância e prepotência.
Orgulhem-se dos pequenos feitos que forem conquistando pelo vosso esforço.
Aproveitem a vida, aproveitem tudo o que a vida vos proporciona, mesmo as coisas que são (quase) um dado adquirido, as coisas simples, as coisas pequenas da vida.
Nunca se esqueçam de, primeiro, amar a vocês mesmos.
Sejam amigos um do outro.
Sejam felizes!
Estarei aqui sempre por vocês e para vocês.
Com amor
Mãe

 

Por Vanessa Muchagata, originalmente postado em Crónicas de Uma Grávida acamada,
adaptado por Up To Lisbon Kids®
Todos os direitos reservados

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