Carta de um pai divorciado

Não foi isto que eu sonhei. Sei que o cenário do vestido branco e da festa é uma representação maioritariamente feminina. Talvez seja uma imposição cultural. Como homem, também tive os meus sonhos. Sei que posso ser um pouco conservador (às vezes os meus amigos chamam-me “careta”) mas tenho legitimidade para sonhar. Não tenho?!

Sonhei com um casamento para a vida. Pronto, já disse. Sonhei que íamos ao jardim das estrelas do nosso entendimento. Sonhei com passeios à beira mar em tardes de cinema. Passeios sempre com a temperatura amena. Brisas afáveis e doces, partilha e entendimento.
Sonhei com a concórdia na educação dos nossos filhos. Idealizei uns sogros que ajudavam.
Mas as coisas não foram assim.

Quando recebi a primeira carta do tribunal, já tudo me parecia um pesadelo. Hoje, já não me custa como no primeiro dia. A dor mudou. A dor está diferente. A dor piorou. É quase insuportável.
O pai só não pode amamentar! De resto podemos fazer tudo.
Claro que há pais que não são assim. Conheço demasiados maus exemplos. Mas eu sou diferente!

Quando recebi a segunda carta do tribunal, já nem era eu. O solavanco, as mentiras, as acusações, a maré negra de sentimentos a matar os sonhos. Quero educar os meus filhos. Estou sozinho nesta luta. Até a minha mãe diz que “os filhos são das mães”. Das mães? Os filhos são do mundo! Estou errado? Hoje sou pai em dias alternados. Há a guarda partilhada dos afetos. Há esta expressão sem sentido.

Suponho que tenhas receio que não os saiba educar. Suponho que a advogada te aconselhou mal. Suponho…e custa-me tanto. Quero ser pai a tempo inteiro, quero voltar a sonhar. Posso?

Nem quero acreditar no que me dizem. Algumas das pessoas que me rodeiam falam na hipótese de manipulação da tua parte. É verdade? Eras capaz de manipular os nossos filhos?

Espero que consigas rodear-te de amigos verdadeiros. Amigos capazes de alertar, caso comeces a falhar.

Lembro-me que os psicólogos em Portugal, uma das primeiras intervenções que tiveram, foi exatamente nas questões do divórcio. Só que isto foi há 20 ou 30 anos! Agora, no século XXI ainda há quem instrumentalize as crianças? Ainda há quem ache que a razão está só de um lado? Agora faz algum sentido, eu dar comigo a pesquisar por “Richard Gardner”? Levo os nossos filhos para férias e sinto a condescendência das pessoas. “Ai tão lindo, o pai a tratar deles todos” “Que corajoso, um pai sozinho com tantas crianças.” “Quer ajuda? Onde está a sua mulher?” E as “partilhas de amigos” que fizemos? Muitos ficaram do teu lado.

 

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O que eu quero que os meus filhos se lembrem

Muitas vezes sinto que estou a dar cabo desta coisa chamada maternidade. Há dias que estou tão cansada que não consigo ter um pensamento coerente, quanto mais dizer uma frase com sentido. Estou cansada de mais para brincar com meus filhos. A minha paciência esgotou-se. Sinto que se mais alguém me pedir mais alguma coisa vou ter um ataque de nervos.

Passo os dias atrás dos meus filhos: “Toma o pequeno almoço!”, “Apanha as meias do chão!”, “Faz as pazes com o teu irmão!”, “Para de enfiar papel higiénico no lavatório!”, Por amor de Deus, faz pontaria para não fazeres xixi na tampa da retrete!”  Que cansativo!

Às tantas questiono-me se lhes estarei a proporcionar uma boa infância. Estaremos realmente a criar memórias? 

Quando eles tiverem a minha idade, o que será que lhes ficará na memória sobre a infância? E sobre a mãe?  Será que me vão ver apenas como a pessoa que os alimentou, que lhes deu deu ordens e lhes limpou o nariz? Ou como uma mãe que lhes trouxe felicidade imensa, que tinha sempre ideias giras para partilhar, que foi divertida e brincalhona, atenciosa e gentil?

Tenho a certeza de que se vão lembrar um pouco de tudo. 

Pelo menos, é assim que eu me lembro da minha própria infância e dos meus pais. Lembro-me dos gritos, das lágrimas, das preocupações. Mas há certos momentos que ainda estão guardados religiosamente na minha memória, momentos de pura felicidade e conexão. E espero conseguir dar alguns desses momentos aos meus filhos.

Eu quero que os meus filhos me vejam em primeiro lugar, como uma mãe, mas também como uma mulher, como um ser humano imperfeito com todo este amor incondicional livre e sem pretensões.

Eu sei que ainda faltam alguns anos para que a infância dos meus filhos se torne em memórias distantes. E (bate na madeira) espero, com todas as minhas forças, ainda estar presente em muito anos do crescimento deles. 

Quando penso na nossa vida agora e naquilo que quero que fique na memória dos meus filhos é tudo muito simples e pouco concreto. São pequenas coisas que não consigo dizer por palavras mas que espero que eles estejam a ”apanhar” e a arquivar tudo.

Meus queridos filhos, vou escrever-vos algumas das coisas que quero que se lembrem de mim.

Eu quero que se lembrem das noites em que eu disse repetidas vezes que estava cansada de mais para fazer qualquer coisa divertida mas às 7h da tarde de sábado vestimos os casacos por cima do pijama e fomos à rua comprar guloseimas e sentamo-nos na varanda a comer e sentir a magia da noite.

Que se lembrem das vezes que vos pegava ao colo como se fossem bebés, sempre que estavam doentes. Como vos embalava nos meus braços, enquanto vos cantava as vossas músicas preferidas numa espécie de sussurro e desafinação num tom baixo de mais, até que adormecessem com a cara encostada ao meu peito, ao meu coração. Details

Eu exijo que exijam de mim!

Há mães que não contam que os filhos não são sempre queridos e fofos.

A verdade é que os filhos também são chatos. Acordam de mau humor, repetem vezes sem conta as mesmas palavras e frases, fazem reiteradamente as mesmas perguntas às quais por vezes ou não temos resposta ou não queremos responder, insistem em modo burro do Shrek se estamos a chegar, mal saímos da nossa rua! Ainda falta muito? nem há 5 segundos dissemos que estamos a chegar e fazem birras do nada e sem razão, choram e gritam nos sítios e ocasiões menos apropriadas. Definitivamente, os filhos não são sempre queridos e fofos.

Mas e as Mães?

Eu também não sou sempre querida e fofa e aposto que há mais Mães que não o sejam.

Mas o problema  é que exigimos demais. Exigimos que as crianças se portem sempre bem, exigimos que não interrompam as conversas dos adultos, exigimos que façam as coisas ao nosso ritmo, exigimos que cumprimentem as pessoas, às vezes até que beijem e abracem alguém que só vêem uma vez por ano. Exigimos que emprestem os brinquedos, exigimos que os partilhem, exigimos que se entendam com o(s)  irmão(s), primo ou amigo, exigimos que aceitem se o amigo raivoso lhe bateu, exigimos que não batam de volta, exigimos que não chorem. Exigimos que não falem quando não for o seu tempo, exigimos que não interrompam as refeições, exigimos simplesmente que não interrompam porque, por exemplo, têm um desenho muito bonito e o querem mostrar.

– Não vês que estou a comer, ai que lindo que está, agora vai lá continuar a pintar para eu e o Pai almoçarmos sossegados…

Espera lá, um desenho? Mas que desenho é este? Ah, sou eu, a Mãe!

Pára tudo…

Tu querias interromper-me para mostrar-me o desenho que aprendeste a fazer?

Querias tão somente a minha presença, a minha atenção, o meu amor?

Queridos filhos, desculpem-me! Vocês também têm o direito de exigir! Aliás, eu exijo que exijam de mim!

Exijam que eu pare para vos olhar, exijam que vos oiça, exijam que eu pare para me dedicar a vocês em exclusivo nem que seja por meia hora, exijam que brinque com vocês, exijam que eu esqueça os adultos, o telemóvel, o trabalho, o cansaço, a casa e as suas obrigações, exijam que me sente no chão a brincar com vocês, exijam que eu vos oiça, exijam que eu vos ensine, exijam que eu vos dê atenção, exijam que entre com vocês no mundo do faz de conta, exijam que eu não me esqueça que são crianças, exijam que eu deixe de exigir.

Sejam exigentes comigo!

*para lerem quando crescerem

Os filhos são a melhor coisa do mundo.

Os filhos dão um trabalho que só quem os tem entende.

Às vezes só querem (e precisam de) atenção.

Os pais fazem o melhor que podem, na maior parte dos dias. Nos outros sabem que têm direito a uma excepção de vez em quando.

Os pais fingem que não vêem um disparate ocasional porque os filhos já estão a fazer outra coisa em segundos e dar importância ao que aconteceu não mudaria nada.

Os pais escolhem que guerras comprar, para bem da sua sanidade mental.

Noutras alturas o mínimo deslize espoleta uma guerra civil.

Os filhos, muitas vezes culpa dos pais, acham que estes nasceram para os servir.

Os pais, ainda mais vezes, acham que nasceram para servir todas as necessidades dos filhos. Mesmo que as necessidades sejam um bolo cheio de creme na pastelaria depois de terem lanchado na escola – porque “coitadinho, é só um bolo e se posso por que não hei de lho dar?”.

Há pais para quem os filhos são uma verdadeira bênção.

Há pais que de pais têm apenas o título.

Há pais que deveriam receber prémios pelos esforços continuados que fazem.

Há pais cujos esforços são tão bem disfarçados que os filhos nunca os vêem.

Há filhos que gostavam de ter outro tipo de pais.

Há filhos para quem os pais são simplesmente o melhor do mundo.

Há filhos que são pais dos seus pais.

Os dias são todos diferentes, mesmo quando parecem sempre iguais.

Uma brincadeira conforta os mais pequenos e ajuda os mais velhos a ultrapassarem um dia pior.

Às vezes basta um sorriso.

Basta um abraço.

Basta saber que os filhos estão em casa à espera.

A convivência é uma estrada de dois sentidos. Dar e receber. Muitas vezes esta troca é escassa. Tantas outras vezes é repleta de bons momentos. A aprendizagem de se ser pai não vem em nenhum dos livros, nem mesmo nos mais afamados – porque é uma experiência única.

Não há pais perfeitos, como não há também filhos ideais.

 

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As crianças aprendem o que vivem

Se as crianças vivem com críticas, aprendem a condenar.

Se as crianças vivem com hostilidade, aprendem a ser agressivas.

Se as crianças vivem com medo, aprendem a ser apreensivas.

Se as crianças vivem com pena, aprendem a sentir pena de si próprias.

Se as crianças vivem com o ridículo, aprendem a ser tímidas.

Se as crianças vivem com inveja, aprendem a ser invejosas.

Se as crianças vivem com vergonha, aprendem a sentir-se culpadas.

Se as crianças vivem com encorajamento, aprendem a ser confiantes.

Se as crianças vivem com tolerância, aprendem a ser pacientes.

Se as crianças vivem com elogios, aprendem a apreciar.

Se as crianças vivem com aceitação, aprendem a amar.

Se as crianças vivem com aprovação, aprendem a gostar de si próprias.

Se as crianças vivem com reconhecimento, aprendem que é bom ter objectivos.

Se as crianças vivem com partilha, aprendem a ser generosas.

Se as crianças vivem com honestidade, aprendem a ser verdadeiras.

Se as crianças vivem com justiça, aprendem a ser justas.

Se as crianças vivem com amabilidade e consideração, aprendem o que é o respeito.

Se as crianças vivem com segurança, aprendem a confiar em si próprias e naqueles que as rodeiam.

Se as crianças vivem com amizade, aprendem que o mundo é um lugar bom para se viver.

 

Poema de Dorothy Law Nolte (1954)

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 Ser filha, ser mãe

Sou filha.

Sou mãe.

Sinto-me ainda mais filha desde que a minha própria filha nasceu, logo ela que me deu o privilégio de ser mãe.

Ser filha é:

– Dizer ao meu pai que não sei como é que ele aguentou estar longe de nós tantos dias (quando os meus pais se separaram e passámos a ir aos fins de semana para casa do meu pai) e ele dizer que aproveitava bem os sábados e domingos, sem pressas, o tempo todo uns para os outros.

– Pensar na minha mãe e dois minutos depois tê-la a telefonar-me sem eu ter dito nada.

– Saber que ensaie o que ensaiar o meu pai vai sempre perceber se estou bem simplesmente pelo tom da minha voz.

– Ter, na casa da minha mãe, uma escova de dentes para quando lá vou.

– O meu pai enviar uma mensagem à noite a perguntar se está tudo bem (preocupado) porque há dois dias que não nos falamos pelo telemóvel.

– Continuar a fazer hoje, com a minha mãe, os mesmos programas que fazia quando éramos só mãe e filha – em vez de também avó e mãe.

– Sempre que me acontece alguma coisa: boa, má, assim-assim, ligar à minha mãe e ao meu pai de imediato. Sem ordem definida. Porque eles atendem sempre. Vibram com as coisas boas, emocionam-se com as vitórias, encorajam nas derrotas, querem saber de mim.

É sentir que importo para quem mais admiro no mundo.

Ser mãe é:

– Acordar várias vezes por noite quando a minha filha me chama e, mesmo assim, sorrir quando a vejo e dizer tranquilamente “está tudo bem, a mãe está aqui”.

– Ficar com o coração a bater mais depressa quando vejo a minha filha tentar algo pela primeira vez e dar-lhe espaço para que o faça sozinha.

– Ouvir o dialecto que a Mariana criou para se fazer entender e ser quem mais a percebe, às vezes só com um som.

– Saber que tenha dormido bem, mal, esteja doente, mal disposta, com febre, a arrastar-me pelo chão, terei de dar a volta e recuperar com a melhor energia possível porque há alguém que “depende” de mim.

– Dar por mim a fazer alguma coisa e a cantarolar “sapo sapo sapo, à beira do rio, quando o sapo canta é porque tem frio” em vez de uma qualquer música da rádio.

-É querer ser mais. Melhor. Errar. Aprender. Viver.

– Querer, mesmo quando é ela quem mais me exaspera, um abraço da minha filha.

Fazê-la sentir que importa, que trouxe uma felicidade imensa à nossa casa, que somos tão mais completos pelo simples facto de ela existir.

Ser mãe, ser filha. Duas metades de uma existência tão rica, complexa e importante.

Gosto tanto de ser filha.

Não trocaria ser mãe por nada no mundo.

E assim é que deve ser.

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Eu amei-vos o suficiente para…

Um dia, quando meus filhos forem crescidos o suficiente para entender a lógica que motiva os pais e as mães, eu hei de dizer-lhes:

Eu amei-vos o suficiente para ter perguntado “onde vão, com quem vão e a que horas vão voltar”.

Para não ter ficado em silêncio e fazer-vos saber que aquele novo amigo não era boa companhia.

Eu amei-vos o suficiente para os fazer pagar os doces que tiraram do supermercado ou revistas do quiosque, e obriga-los a dizer ao dono: “Nós levamos isto ontem e queríamos pagar“.

Eu amei-vos o suficiente para ter ficado de pé, duas horas, enquanto limpavam o vosso quarto, tarefa que eu teria feito em 15 minutos.

Eu amei-vos o suficiente para vos deixar ver para além do amor que eu sentia por vocês. Viram também o desapontamento e e por vezes lágrimas nos meus olhos.

Eu amei-vos o suficiente para vos deixar assumir a responsabilidade das vossas ações, mesmo quando as penalidades eram tão duras que me partiam o coração.
Acima de tudo, eu amei-vos o suficiente para lhes dizer NÃO, quando eu sabia que vocês me iam odiar por isso (e por momentos até odiaram). Essas eram as mais difíceis batalhas de todas.

Estou contente, venci… Porque no final vocês também venceram!

E qualquer dia, quando os meus netos forem crescidos o suficiente para entender a lógica que motiva os pais e as mães, e lhes perguntarem se a mãe era má, os meus filhos vão lhes dizer:

“Sim, a nossa mãe era má. Era a mãe mais má do mundo…”

As outras crianças comiam doces no café e nós tínhamos que comer cereais, ovos e torradas.
As outras crianças bebiam refrigerantes e comiam batatas fritas e sorvete ao almoço e nós tínhamos que comer arroz, feijão, carne, legumes e frutas.
A mãe obrigava-nos a jantar à mesa, e as outras mães deixavam os filhos comerem a ver televisão.

Insistia em saber onde estávamos a todas as horas (ligava-no para o telemóvel de madrugada e “cuscava-nos” os e-mails).

A Mãe tinha de saber quem eram os nossos amigos e o que é que nós fazíamos com eles.

Insistia que lhe disséssemos com quem íamos sair, mesmo que demorássemos apenas uma hora ou menos. Nós tínhamos vergonha de admitir, mas ela violava as leis do trabalho infantil. Nós tínhamos que tirar a louça da mesa, arrumar os nossos quartos, esvaziar o lixo e fazer todo o tipo de trabalho em casa, que nós achávamos cruel.

Eu acho que a mãe nem dormia à noite, a inventar coisas para nos mandar fazer.

Insistia sempre connosco para que lhe disséssemos a verdade e apenas a verdade. E quando éramos adolescentes, até conseguia ler-nos os pensamentos.
A nossa vida era mesmo chata. Não deixava os nossos amigos buzinarem para sairmos. Tinham de subir, bater à porta, para a mãe os conhecer.

Enquanto os outros miúdos não tinham horas para chegar a casa, nós tivemos que esperar até aos 16 para anos chegar um bocadinho mais tarde. E aquela chata levantava-se para saber se a festa foi boa (só para ver como é que estávamos).

Por causa da nossa mãe, perdemos imensas experiências na adolescência. Nenhum de nós esteve envolvido com drogas, roubos, atos de vandalismo, violação de propriedade, nem fomos presos por qualquer crime.

TUDO POR CAUSA DA NOSSA MÃE.

Agora que já somos adultos, honestos e educados, estamos a dar o nosso melhor para sermos “PAIS MAUS”, como minha mãe foi.
E este é um dos males do mundo de hoje: as mães não suficientemente más!

 

Artigo do Psicólogo Dr. Carlos Heckteuer, sugestão do leitor

A Família é o primeiro grupo onde ser humano tem a sorte de experimentar quase todas as emoções.  É onde tudo é vivenciado normalmente pela primeira vez.

É na família que os indivíduos aprendem a viver em comunidade, onde num ambiente controlado tudo é sentido ou experimentado, muitas vezes intensamente, onde somos testados para depois podermos ser postos a voar e a viver em sociedade.

Nos últimos anos as famílias têm sofrido mudanças e transformações, por isso a ONU resolveu escolher um dia para mais do que homenagear a família, obrigar ao debate e ao pensamento.

O primeiro Dia Internacional da Família foi celebrado em 1994. O tema do Dia Internacional da Família de 2016 foi: “Famílias, vidas saudáveis e futuro sustentável”. Mas a mensagem base será sempre a importância da família como o núcleo vital da sociedade.

É no seio da família que podemos ser nós mesmos. Que podemos mostrar as nossas fraquezas, que nos podemos mostrar sem adereços, make-up ou adornos.
É onde nos zangamos mais, refilamos (por vezes vezes sem razão) pois sabemos intuitivamente que nunca deixarão de gostar de nós.
É onde não temos medo de acordar descabelados, com mau hálito ou mesmo ranhosos.
Onde nos queixamos dos outros, por sabermos que vamos receber colo ou simplesmente nos vão ouvir.
Só no seio da família é possível  ir à casa de banho de porta aberta, ouvir gritar já fiz cocó, e deixar, a determinada altura, de segurar os puns …
Só no seio de uma família é possível uma casa inteira acordar todinha numa mesma cama.

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A vida também me ensinou que família vai muito para além da família nuclear, para além daqueles membros que vivem debaixo do mesmo teto e para além daqueles que partilham o nosso sangue.

Aprendemos a contar com outros que se cruzam nas nossas vidas, a quem chamamos amigos e nos momentos em que estamos tristes ou atrapalhados são os nomes que nos vêm à mente ou o número que surge no telemóvel, pois sabemos que são quem nos salva, quem nos conhece, quem nos ajuda, quem escolhemos para fazer parte da nossa família.

Estão muitas vezes mais presentes, preocupados e e disponíveis. São a nossa família de coração. Algumas vezes vamos fazendo uns ajustes, mas o núcleo é preservado por anos, mesmo com ausências, silêncios, afastamentos ou acompanhamentos diários.

Existem vários tipos de famílias e vários nomes pomposos para denominar a estrutura familiar nos dias de hoje. Por aqui por casa parece-me que na maioria dos dias, comportamo-nos como sendo “normais”. Zangamo-nos, choramos, temos ciúmes, gritamos, ralhamos, implicamos, rimo-nos, gozamos e não vivemos uns sem os outros ….

Mas somos uma família especial porque somos únicos.

Família

 

 

Nisto do amor (como se fosse uma coisa simples e definitiva), as coisas mudam muitas vezes.

Quando nos apaixonamos. Quando percebemos que afinal não era bem amor, que agora é que é (e que daquela(s) outra(s) vez(es) nem contou). Quando encontramos pessoas que nos fazem amá-las de uma forma não amorosa. Quando conhecemos sítios e culturas novas. Quando encontramos a casa dos nossos sonhos. Quando somos tios, ou padrinhos de uma criança, quando os nossos amigos têm filhos. Quando somos pais de um bebé.

Definir o amor seria uma tarefa demorada, bastante relativa e ainda mais redutora, mas há quem, tendo chegado à parte de ter filhos, se esqueça dos outros amores que sentiu – e deveria continuar a sentir.

A gestão do tempo é complicada e ter um filho requer uma entrega gigante, nunca ninguém o negará, mas este amor, este viver com o coração fora do peito, não pode nem deve obliterar o restante amor que existe nas nossas vidas.

Há pessoas que passam a ir trabalhar a olhar para o relógio, ansiosos que chegue a hora de voltarem para perto dos rebentos, há pessoas que quase se esquecem que precisaram do companheiro para que aquele bebé ali estivesse. Há pessoas que deixam, pura e simplesmente, de ter amigos. Nos casos mais extremos, as pessoas esquecem-se de se amar a si próprias.

Amar um filho é reaprender a amar. É não conseguir compreender como é que tanto amor cabe dentro do peito… como é que esse amor, não se repetindo, também não se divide quando chegam outros filhos.

Mas tal como o amor materno e paterno é elástico, também todos os outros níveis de amor o são. E têm de ser nutridos, alimentados ou desaparecem.

Os nossos filhos, se tudo correr bem, estarão sempre lá. Mas chegará a altura em que voam. E vai saber bem ter alguém ao nosso lado para os ver voar, seja um companheiro, sejam amigos. E vai saber ainda melhor perceber que mesmo tendo eles voado, nós continuamos a existir na nossa plenitude. Porque nos lembrámos de nos amar. Porque não nos esquecemos de distribuir o amor à nossa volta.

Às vezes precisamos de nos lembrar disto e abrir um pouco a roda. Para deixar chegar perto quem nunca deixou de ali estar.

Para o bem deles.

Para o nosso bem.

O amor, essa dádiva, chega para todos.

Mãe… Pai… Há algumas coisas que vos gostava de conseguir dizer por palavras, só que muitas vezes não tenho as palavras certas, mas hoje vou tentar. Estejam com atenção! Aqui vai…

Eu sei que há uma coisa que vos deixa um bocadinho zangados… é quando eu faço birras… Mas olhem, quando eu faço uma birra, eu não preciso que me dêem tudo só para eu parar de chorar. Isso ensina-me que chorar é uma boa maneira de conseguir o que quero, mas na verdade eu até nem gosto de chorar, faz-me sentir mal.

E há também outra coisa… eu às vezes só faço birra para ter um bocadinho da vossa atenção, se vocês perceberem isso se calhar eu vou conseguir controlar-me melhor.

Lembrem-se de uma coisa, o que eu mais quero é a vossa atenção, e se vocês não dizem nem fazem nada quando eu me estou a portar bem, o que eu penso é que vocês não me estão a ligar. Mas se assim que eu faço um disparate vocês vêm logo ter comigo (mesmo que seja para ralhar), então eu fico a achar que vocês só me vão ligar se eu me portar mal e, por isso, volto a fazê-lo. Às vezes fico um bocadinho confusa, afinal vocês não querem que eu me porte bem?… Prefiro que me dêem atenção quando me porto bem, e quando eu fizer algum disparate (se não for nada de grave), não me dêem atenção. Eu vou acabar por perceber que não vale a pena fazer isso para vos ter por perto.

Quando vocês me impõem regras, vocês já devem ter percebido que eu às vezes não gosto muito e, na verdade, preciso testar um bocadinho para perceber até onde é que vocês estão realmente dispostos a deixar-me ir. Mas, sinceramente, eu fico um bocadinho assustada quando não sei quais são os limites, fico perdida e desorientada… Acho que eu preciso de regras, mesmo que às vezes pareça ficar zangada, não deixem de as colocar e me fazer cumpri-las.

Há momentos em que vocês me criticam muitas vezes e não me dizem as coisas boas que eu tenho e que sei fazer, e nessas alturas eu acabo por acreditar mesmo nisso, afinal de contas, vocês são os meus pais e se vocês o dizem é porque é verdade, mas isso deixa-me desanimada, insegura e faz-me sentir ainda mais pequenina.

Sabem… eu fico mesmo feliz quando vocês me elogiam pelas coisas que eu consigo fazer. Para vocês, podem parecer pequenas coisas, mas na verdade eu sou pequenina e, por isso, para mim, essas coisas são muito grandes! Eu gosto muito dos vossos mimos, aplausos e elogios nesses momentos.

Eu sei que às vezes sou um pouco mexida, que faço disparates e que vocês, por vezes, estão muito cansados, mas eu não faço de propósito para vos chatear ou zangar… preciso que me aceitem como sou, me compreendam e que tenham um bocadinho (do tamanho do mundo) de paciência e tolerância comigo.

Eu preciso muito que me respeitem, mas eu preciso também que lá em casa não mandemos todos o mesmo… para eu me sentir segura, eu preciso sentir que são vocês quem toma as decisões nas situações mais importantes. Não eu… Na verdade, eu não gosto muito de lutas de poder. É uma coisa estranha eu estar a “lutar” com um adulto para ver quem ganha.

E só mais uma última coisinha… eu não estou à espera que vocês sejam perfeitos, eu vou amar-vos sempre. Mesmo que às vezes diga o contrário, não é verdade, está bem?! É só porque estou zangada.

Há muita coisa que não vos consigo dizer por palavras. Ainda sou criança e isso é difícil para mim, mas se me fizerem sentir segura e protegida e me ajudarem a falar de sentimentos, tenho a certeza que, quando for mais crescida, vou conseguir fazê-lo muito melhor. Conto convosco para isso. Amo-vos muito!

A vossa filhota

(5 anos)

Cátia Teixeira, Psicóloga Clínica

imagem@freepics