Gerir o divórcio com filhos: dicas para pais preocupados

Seja qual for a idade dos filhos, todos sofrem de alguma forma com o divórcio. Poderá ser no momento da separação ou uns anos mais tarde.

Apesar de todos os desencontros que a vida possa trazer, havendo filhos o divórcio deve ser sempre gerido em torno deles. Assim, seguem alguns conselhos/dicas para todos os pais preocupados:

1 – Comunicação – Fortalecer o diálogo

Os filhos devem ser informados do que se está a passar. Afinal, serão eles os principais afetados de todo o processo. Inevitavelmente um dos pais passará a estar mais ausente (nem que seja de forma alternada). Os filhos devem entender que a culpa não é sua e que os pais não passam a gostar menos deles por não estarem a viver sempre debaixo do mesmo teto;

2 – Os filhos em primeiro lugar: redobrar a atenção

Independentemente de todas as alterações, seja na morada, seja uma nova companheira do pai ou companheiro da mãe, sejam irmãos, o filho deve sempre sentir que é amado e que não foi esquecido na vida dos pais;

3 – Evitar discussões e ambientes de tensão

É importante que todos se dêem bem! – Apesar do que possa ter acontecido e da mágoa que possa ter trazido, há alguém que é fruto de um amor que já existiu e que com certeza quererá que os pais consigam ter uma relação cordial e que estejam presentes nas suas ocasiões especiais, sem rancores ou mau ambiente;

4 – Sintonia na educação

É importante que todos estejam em sintonia com a educação e decisões dos seus filhos. Os assuntos devem ser discutidos em particular para apresentar uma força unida, de forma a não confundir os filhos e não criar situações em que se possa ouvir a frase “se fosse o pai/mãe deixava”.

O divórcio é uma mudança na vida dos pais, das famílias e dos filhos. É necessário explicar-lhes que a culpa não é deles e que são igualmente amados pelos dois.

Não se deve esquecer: o divórcio é muitas vezes a rutura necessária para a construção de uma estrutura mais firme no futuro.

 

Por Catarina Marques Lobo, Assistente Social

Quando os pais se divorciam…

Como fica a criança, quando os pais se divorciam?

Os pais são o melhor do mundo para as crianças, é como se fossem assim uma entidade superior comparando com todas as outras.  Mas, quando o pai e mãe se separaram, como fica a criança? Qual é o seu lugar?

Ora, por entre uma discussão e um fazer de malas, uma criança muitas vezes sente-se apenas sozinha. Quando, de repente, uma criança é confrontada com a separação dos pais, pode acontecer que reaja de várias formas, sendo que, não raras as vezes, reagem com indiferença, raiva ou tristeza. Isto é, ou a criança reage com uma aparente indiferença, como quem diz “não tenho nada a ver com a vossa vida, não quero saber”, ou reage com uma revolta canalizada para os progenitores, como quem diz “vocês são culpados de todos os males e é uma injustiça”. Ou em alternativa, a criança reage cheia de efeitos especiais, com choro e uma tristeza profunda, como o quem diz “se se separarem a minha vida acaba e nunca mais vou ser feliz!”.

Perante tudo isto, nem o pai, nem a mãe se devem sentir fragilizados e voltar atrás numa decisão tão importante e tão pensada como um divórcio. Sim, porque quem se divorcia, não o faz de ânimo leve, habitualmente é uma decisão pensada e repensada.

Os pais enquanto pais e enquanto indivíduos

Nunca os pais devem evitar uma separação apenas com a ideia de que é melhor para as crianças. Pois, um pai e uma mãe com uma má relação entre si, serão seguramente piores pais, do que, um pai e uma mãe que, com sensatez e cuidado, decidem divorciar-se, tornando-se assim, mais felizes cada um deles a nível pessoal e, por consequência, melhores pais.

Os pais são tão melhores, quanto mais tempo tiverem para si e mais felizes forem, enquanto pessoas. Apesar de quando nasce um filho, os pais sentirem que aquele filho pode representar todo o mundo para eles, nunca se devem esquecer da sua individualidade e de cuidarem de si, isto, se querem ser bons pais.

Desta forma, o que devem fazer os pais com as reacções dos filhos ao divórcio?

Devem ser capazes de aceitar e suportar a reacção da criança, isto é, é natural que a criança se zangue, ou fique triste com uma separação dos pais. Esse assunto nunca deve passar a tabu, e deve ser falado com a criança de forma a que os pais a ajudem a ligar tudo dentro dela. Se a criança tiver necessidade de chorar ou temporariamente ficar triste, devemos permitir-lhe que o faça e que expresse tudo aquilo que está a sentir relativamente à nova situação familiar.

Ora, assim sendo, o essencial numa separação é que a criança nunca se sinta culpada e que nenhum dos pais, ou avós, sejam culpados pela separação. Isto é, o divórcio dos pais só acontece porque os dois pais em conjunto tomaram essa decisão que nada tem a ver com o comportamento ou postura de algum dos filhos.

Onde está a culpa quando os pais se divorciam?

É ainda essencial, que os pais não se culpem mutuamente. Não são raras as vezes, em que o pai ou a mãe culpam o outro progenitor da separação e o fazem deliberadamente para obter uma simpatia superior dos filhos, ou a compaixão da outra figura paterna. Também nos cruzamos várias vezes, com situações em que os pais culpam os avós pelo desfecho da relação. Mesmo que efectivamente exista um culpado, o essencial é que os pais percebam que para a criança ambos são figuras de referência e como tal, todas as crianças têm o direito a uma figura parental positiva. Assim, mesmo que o pai ou a mãe tenham um conjunto de características que o outro progenitor reprova, a criança tem direito à protecção da imagem dos pais. A criança não pode ser colocada num conflito de lealdades, como quem para estar com a mãe não pode gostar do pai e para estar com pai tem de deixar de gostar da mãe.

Um pai e uma mãe com sensatez, devem permitir que a criança goste e pratique o amor para com o outro progenitor. O mesmo deve acontecer perante os avós.

O pais devem reagir em conformidade com a protecção da criança, assumir a decisão em conjunto, sem culpas para ninguém. Se comunicarem a decisão com firmeza, com a certeza de que convictamente sabem que esta decisão é o melhor para todos e com afecto, mesmo que haja um período inicial difícil, as crianças irão aceitar. As crianças irão adaptar-se e compreender todos os lados da decisão dos pais e destas novas circunstâncias.

Por Cátia Lopo e Sara Almeida Psicólogas Clínicas

“Tu é que sabes” não é resposta, pedir “um tempo” não é um direito e dizer “então oh desaparecida..?”, não te dá livre acesso para voltar. Estas são algumas das atitudes dos indecisos que, além de precisarem da aprovação dos outros para tomarem decisões, brincam com os sentimentos alheios como quem joga consola.

Vizinhos barulhentos são irritantes, gente fútil mais ainda, mas gente indecisa supera tudo que há no universo! Não me refiro às que não conseguem escolher um restaurante, ou as que vestem mil outfits antes de sair. Refiro-me às que usam e abusam do amor e da paciência dos outros para beneficiarem da vida de solteiro.

Gosto de ti”, mas não estou pronto para uma relação. “És perfeito”, mas não estou preparada para assumir nada. “Vamos dar um tempo e deixar que a saudade decida por nós”. Por favor, chega! Vamos por os pontos nos is: a tua vida não está nas mãos de ninguém. Se o outro é indeciso, tu não tens de ser.

As pessoas indecisas são imaturas, inseguras e chatas! Não querem assumir compromissos mas também não querem que o outro seja livre. A verdade é que querem o melhor dos dois mundos: a liberdade de estar solteiro com o comodismo em ter alguém quando quiserem.

Confesso que estas pessoas me assustam. Gosto de objetividade, de mensagens diretas, decisões certeiras. Não sei lidar com a indecisão alheia.

Pessoas com vontade própria e determinadas fascinam-me. Mas pessoas que estão sempre em cima do muro, que não conseguem decidir o que é que querem para as suas próprias vidas, imagina o que farão com as dos outros.

Desde muito cedo aprendemos a tomar decisões que envolvem renúncias (o que, talvez, explique o facto de tanta gente ter medo dela).

Decidimos o nosso curso e faculdade, o emprego, a cidade onde vamos viver, se vamos casar, se vamos ter filhos…e assim por diante. Mas, quando as decisões envolvem os sentimentos alheios, a história é diferente. Se é difícil tomar uma decisão, imagina gramar com um “eu gosto de ti, mas…”

Não dá para manter um relacionamento com uma pessoa que desaparece sempre que alguém pergunta quando é que se vão casar. Não dá para ser o porto seguro de quem não sabe se ama ou se está carente. Não dá para manter por perto quem não se comprometeu a voltar amanhã. A tua vida é importante demais para que uma pessoa indecisa dite as regras.

Deixa-o(a) ir.

A decisão em partir ou não pode ser do outro, mas aceitar de volta e aceitar desculpas esfarrapadas é uma decisão SÓ tua.

Por Pamela Camocardi em ObviouseMag, adapatado por Up To Kids®

imagem@flickr

Da separação à alienação parental!

Numa tarde de domingo, tinha eu dez anos, quando a minha mãe se sentou ao meu lado no sofá da sala e começou a chorar, para me tentar contar que o meu pai ia sair de casa e eles se iam separar. Perante aquela informação, passaram-me muitas perguntas pela cabeça, mas fiquei calado pois a minha mãe não parava de chorar e senti-me na obrigação de tomar conta dela, abraçá-la e dizer que ia ficar tudo bem. Mas não ia…! Que eles se iam separar não era novidade para mim, eu ouvia-os a discutir no quarto há meses e meses, com insultos e ameaças de separação. Depois de processar a informação que a minha mãe me tinha acabado de dar, primeiro, fiquei chateado pelo facto do meu pai não estar presente e não ter tido coragem para falar comigo sobre isso. Segundo, o que realmente eu queria saber e ouvir era: “se fui eu o culpado? ”; “o pai deixou de gostar de nós?”; “como iria ser a minha vida daí em diante ?”. As respostas a todas estas perguntas apareceram, gradualmente, muito mais tarde e não da melhor forma possível.

Aquilo que pensava ser um tormento de discussões que naquele dia teria terminado, era apenas uma ilusão porque a partir daí foi muito pior! No início, pequenas atitudes inconscientes, da parte da minha mãe, denunciavam o decorrer deste filme de terror. Atitudes como: no momento de ir para casa do meu pai, a minha mãe ficava agarrada a mim durante imenso tempo e dizia que se eu quisesse, ela ia buscar-me a casa do pai. Sem ser propositado, era como se a minha mãe estivesse a dizer que o meu pai não conseguia tomar conta de mim e que eu não ia gostar de estar com ele. Quando eu voltava da casa do meu pai, a minha mãe fazia-me muitas perguntas e todas as respostas que eu dava, ela contra-argumentava: “já vi que gostas mais de estar com o teu pai”. Estas pequenas atitudes, muitas vezes, inconscientes por parte da minha mãe, foram tomando proporções desmedidas.  As discussões pelo telefone aumentaram de tom, os insultos eram cada vez piores e agora já era sobre mim, tudo na minha vida servia de desculpa para eles discutirem, ainda mais do que antes da separação. Durante cerca de um ano, ouvia a minha mãe chorar, ouvia a minha mãe pronunciar frases do género: “o teu pai não quer saber de nós”; “o teu pai não paga nada, sou eu que pago tudo!”; “ele não quer saber de ti, só da namorada nova”; “o teu pai não gosta de ti e por isso destruiu a nossa família”. Frases como estas e outras bem piores repetiam-se vezes sem conta na minha cabeça.

À medida que o tempo foi passando fui construindo uma ideia totalmente errada e deturpada do meu pai. Não queria estar com o meu pai com medo de trair a minha mãe. Eu estava muito triste e confuso porque toda aquela informação negativa sobre o meu pai não correspondia à minha realidade. Nos primeiros tempos que estive sozinho com o meu pai aos fins-de-semana, eu adorei: passeámos muito, ele fazia-me rir e estava sempre bem disposto. Era uma sensação tão boa, que às vezes não queria voltar para casa, desejava ficar mais tempo com o meu pai. Este sentimento contrastava com toda a informação negativa da minha mãe. Eu simplesmente era criança e não percebia o que a minha mãe, por vezes também inconscientemente, me estava a fazer, a mim e a ela própria. Eu vivi aquela tristeza com a minha mãe, como se o meu pai se tivesse separado de mim também, como se o meu pai me tivesse trocado. Chorei com a minha mãe, dormi com a minha mãe muitas noites para a acalmar, por fim assumi o papel de pai e tomei conta dela.

Ao final de um ano, a angústia apoderou-se de mim. Com esta ambivalência de pensamentos e sentimentos comecei a baixar as notas. Não tinha irmãos com quem compartilhar a minha dor, tinha medo de cães por isso não havia companhia animal e tinha acabado de mudar para uma escola nova onde ainda não tinha amigos porque passava os intervalos sozinho a pensar em inúmeras coisas horríveis sobre mim e sobre a vida. Por fim, chegou o dia em que a minha mãe me levou a uma Psicóloga, que depois de avaliar o meu estado emocional resultante, segundo ela, de uma possível alienação parental, falou com a minha mãe.  A minha Psicóloga deu uma oportunidade à minha mãe para mudar a sua atitude e me colocar de novo em contacto com o meu pai. Foi um percurso longo, até tudo voltar a acalmar. Hoje tenho 18 anos e deixo vários conselhos a todos os pais que se estejam a pensar separar:

No momento de separação:

  • É importante que sejam os dois a falar;
  • Nós não queremos saber com pormenor o motivo da separação. Precisamos, isso sim, de informação reduzida e simplificada;
  • Queremos saber se fomos ou não os culpados;
  • Precisamos de ouvir que a separação é definitiva e vocês já não vão voltar mais a estar juntos;
  • Queremos ouvir que apesar de vocês se irem separar um do outro, não se vão separar de nós e vão continuar a gostar de nós;
  • Precisamos muito de saber como vai ser a nossa vida daí para frente: o que vai mudar?; quanto tempo vou passar com o pai?; como vão ser as férias e os aniversários?;
  • Por último: queremos que estejam disponíveis para esclarecer qualquer dúvida que ainda possamos ter.

Após a separação:

  • Guardem para vocês todas as coisas más que pensam um sobre o outro. Para sermos felizes precisamos de construir uma imagem positiva dos dois;
  • Quando falarem mal um do outro, com alguém ou ao telefone, tentem garantir que nós realmente não estamos ou não conseguimos ouvir;
  • Não queremos servir de “espiões” da vida de cada um de vocês e por isso dispensamos perguntas detalhadas sobre o que fizemos em casa de cada um;
  • Tudo o que está relacionado com o dinheiro, entendam-se! Quando somos pequenos, nós não precisamos saber se o pai ou mãe não pagam o que devem;
  • Nós compreendemos a vossa dor e até vos podemos ajudar nas tarefas de casa, mas vocês já são grandes para tomarem conta de vocês próprios emocionalmente, não precisamos de viver a vossa tristeza. Temos o direito de viver a nossa própria tristeza e também, precisamos de tempo para nos adaptarmos a esta nova situação;
  • Por fim, quando tiverem outra pessoa na vossa vida – namorada(o), antes de nos apresentarem, tenham a certeza de que há uma forte possibilidade de dar certo. Não precisamos de conhecer todos os vossos namorados(as) porque: não vamos querer dar confiança a uma pessoa que não sabemos se vai ou não desaparecer da nossa vida; deixamos de confiar em vocês; e sobretudo, porque deixamos de acreditar no amor!

Carta de um pai divorciado

Não foi isto que eu sonhei. Sei que o cenário do vestido branco e da festa é uma representação maioritariamente feminina. Talvez seja uma imposição cultural. Como homem, também tive os meus sonhos. Sei que posso ser um pouco conservador (às vezes os meus amigos chamam-me “careta”) mas tenho legitimidade para sonhar. Não tenho?!

Sonhei com um casamento para a vida. Pronto, já disse. Sonhei que íamos ao jardim das estrelas do nosso entendimento. Sonhei com passeios à beira mar em tardes de cinema. Passeios sempre com a temperatura amena. Brisas afáveis e doces, partilha e entendimento.
Sonhei com a concórdia na educação dos nossos filhos. Idealizei uns sogros que ajudavam.
Mas as coisas não foram assim.

Quando recebi a primeira carta do tribunal, já tudo me parecia um pesadelo. Hoje, já não me custa como no primeiro dia. A dor mudou. A dor está diferente. A dor piorou. É quase insuportável.
O pai só não pode amamentar! De resto podemos fazer tudo.
Claro que há pais que não são assim. Conheço demasiados maus exemplos. Mas eu sou diferente!

Quando recebi a segunda carta do tribunal, já nem era eu. O solavanco, as mentiras, as acusações, a maré negra de sentimentos a matar os sonhos. Quero educar os meus filhos. Estou sozinho nesta luta. Até a minha mãe diz que “os filhos são das mães”. Das mães? Os filhos são do mundo! Estou errado? Hoje sou pai em dias alternados. Há a guarda partilhada dos afetos. Há esta expressão sem sentido.

Suponho que tenhas receio que não os saiba educar. Suponho que a advogada te aconselhou mal. Suponho…e custa-me tanto. Quero ser pai a tempo inteiro, quero voltar a sonhar. Posso?

Nem quero acreditar no que me dizem. Algumas das pessoas que me rodeiam falam na hipótese de manipulação da tua parte. É verdade? Eras capaz de manipular os nossos filhos?

Espero que consigas rodear-te de amigos verdadeiros. Amigos capazes de alertar, caso comeces a falhar.

Lembro-me que os psicólogos em Portugal, uma das primeiras intervenções que tiveram, foi exatamente nas questões do divórcio. Só que isto foi há 20 ou 30 anos! Agora, no século XXI ainda há quem instrumentalize as crianças? Ainda há quem ache que a razão está só de um lado? Agora faz algum sentido, eu dar comigo a pesquisar por “Richard Gardner”? Levo os nossos filhos para férias e sinto a condescendência das pessoas. “Ai tão lindo, o pai a tratar deles todos” “Que corajoso, um pai sozinho com tantas crianças.” “Quer ajuda? Onde está a sua mulher?” E as “partilhas de amigos” que fizemos? Muitos ficaram do teu lado.

 

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A relação terminara há muito. Nada voltaria a ser como antes e a cada dia que passava o mal-estar aumentava arrastando tudo à volta de ambos…Já não dormiam em sono profundo, já não sentiam vontade de estar um com o outro mas quando se separavam parecia que alguma coisa faltava…Os dias corriam e ninguém tomava a decisão que ambos sabiam que teriam que tomar.

A vida seguia e não era suposto viverem assim…

Ele deu o primeiro passo. Não quis conversar muito sobre o assunto, apesar de ela insistir em esclarecer aquilo que ambos conheciam de trás para a frente.

A diferença entre homens e mulheres estava muito visível neste momento. Ele poupava-os a mais conflitos, pensava… Ela ficava no vazio do silêncio.

Entrou no consultório e a primeira coisa que disse foi que não sabia viver assim… Conheciam-se de miúdos, namoraram muitos anos e o casamento era o que mais queriam naquela fase distante. Diz que com a chegada dos filhos e as responsabilidades profissionais tudo se complicou e desencontraram-se até hoje…

Acha que ainda o ama, mas não tem a certeza de saber o que isso quer dizer. Se por um lado não imagina a vida longe dele, por outro não sabe o que seria de ambos se continuassem juntos. Há anos que deixaram de fazer as coisas que os uniam, porque cresceram e os interesses mudaram ou porque simplesmente deixaram de pensar no que lhes dava prazer fazer.

Já não sabe do que gosta realmente, e acha ridículas as escolhas dele no que toca aos tempos livres. Diz que ele parece que não quer crescer…será?

Isto não é um casamento, pois não? – pergunta angustiada, sabendo de antemão a resposta.

Quando se acalma confessa que sabe que sente falta, não desta relação, mas daquela que ambos projetaram.

Para existir a possibilidade de uma reconciliação tem que haver uma vontade de ambos em reconstruir o que se perdeu aos poucos.

Com o tempo conclui que talvez tenha que investir em si própria, em recuperar o seu “eu” perdido e confessa que ainda quer ser feliz.

Ele tem feito de tudo para manter uma relação cordial com ela. Também ele está a tentar reencontrar-se. Não consegue exteriorizar o que sente da mesma forma mas vai fazendo o seu caminho. Sabe que vão ter que comunicar a bem dos filhos.

Saiu de casa e está a organizar-se para ter um espaço onde possa pela primeira vez cuidar e estar com as crianças sem o apoio dela. O primeiro fim-de-semana com os miúdos correu melhor do que esperava. Tantas vezes lhe disseram que ia ser complicado que acabara por acreditar, mas afinal percebia que não tinha que ser assim.

Sentem ainda um vazio, mas no fundo sabem que é reflexo apenas da mudança de rotinas.

As crianças estão bem. Desde que pararam as discussões parecem estar mais leves e tranquilas. Há dias em que falam abertamente sobre a separação e parecem mais adultas do que os adultos…

Ambos, ele e ela, oscilam entre dias em que acordam convictos de terem tomado a decisão certa e outros em que apetece pegar no telefone e dizer: ” Vamos fazer de conta que nada disto se passou? ”

Com o tempo encontram cada um o seu rumo. Percebem que dentro das suas cabeças existem “duas pessoas”. Uma que luta para ser feliz, andar para a frente e encontrar um equilíbrio. Outra, que insiste no ideal de um passado projetado, mas ilusório.

Quando um dia tomam consciência plena e se sentem mais fortes, escolhem ficar com a primeira, escolhem ser a primeira, escolhem viver!

imagem@themes

As situações de divórcio, como vivências de ruptura difíceis de ultrapassar requerem alguns ingredientes que ajudem a facilitar o processo a bem de todos os membros da família em questão.

Costumamos pensar que a fase em que um sai de casa e acontece a separação é a mais difícil…mas nem sempre é assim.

Depois disso várias decisões terão que ser tomadas, num rodopio de emoções nem sempre é fácil optar por caminhos certos e muitas vezes sentimo-nos rodeados de “experts” que tudo parecem saber mas que em nada nos ajudam de facto.

Muitas vezes o momento de separação é sentido como um alivio para uns, senão para todos. É a fase em que havendo “espaço” se corta com as rotinas de desgaste constante a que muitos se sujeitam, às vezes durante anos. É natural haver uma fase de quase “ressaca”, quando o período pré-separação se viveu de forma turbulenta.

As crianças também podem reagir pouco, ou de forma até aparentemente positiva nesta  fase, já que também elas passaram por momentos difíceis, dentro da dinâmica de conflito entre os pais.

Importa dizer que cada família é uma família, singular e única. Não havendo assim formulas mágicas, nem procedimentos estanques que se possam recomendar a todos.

Cada família tem a sua história, o seu percurso e cada membro da família tem por sua vez a sua experiência, e uma forma única de viver momentos de transformação.

As palavras ruptura, divórcio, separação têm necessariamente uma conotação negativa, e de facto reportam sempre a um momento difícil, de aceitação de que algo falhou.

Mas existem formas de seguir um caminho de escolhas ponderadas e tranquilas. Onde seja viável optar por tomar decisões certas e positivas. Onde seja possível vivenciar um processo de transformação favorável e evitar deixar perdurar as sequelas de um momento menos bom das nossas vidas.

Aqui aprendemos a viver (bem) um divórcio!

imagem@camillatargher

Divorciados mas não separados

De facto deixámos de viver na mesma casa. Não partilhamos a nossa vida pessoal um com o outro desde que tomámos a decisão de nos divorciarmos.

Nunca poderemos dizer que da nossa relação restou pouco já que ela durou uma grande parte das nossas vidas, do nosso crescimento, das nossas experiências.

Para além disso, o mais importante – dos dias melhores da nossa vida nasceram os nossos filhos.

Além da existência real destes, ainda pequenos seres, ficará para sempre a memória conjunta do dia em que soubemos que iam nascer. Dos momentos em que festejámos e partilhámos com os mais próximos o grande mistério das suas vidas.

Eles não nos permitem uma separação efectiva, nem forçada nem imaginada, menos ainda desejada.

Contrariar ou negar um tempo passado com esta qualidade é o mesmo que fugir de si próprio. Fugir da sua própria vida, passado, presente e obviamente futuro…

Quando tomámos a decisão de nos divorciarmos, toda a dor sentida nos fez, eventualmente, rever os momentos maravilhosos que vivemos.  E também pôr em questão tudo o que aparentemente desaprendemos ao longo do tempo. Em vez de um rumo naturalmente esperado de evolução como um todo, sentimos que deixámos de controlar o que juntos planeámos.

Por muita dor, mágoa e arrependimento que possam ficar, ainda nos resta a possibilidade de seguirmos o rumo da parentalidade que ambos sonhámos viver. É verdade que com algumas diferenças substanciais do modelo que tínhamos interiorizado, mas a possibilidade existe!

O caminho não será tão linear, não será tão amparado; mas com amor, equilíbrio, respeito e altruísmo é um caminho possível e com tendência a evidenciar-se como positivo.

O que é ser pai hoje? Qual é o papel da mãe nos dias que correm?

E ser filho? O que é ser filho neste mundo louco em que corremos atrás da felicidade e da perfeição!?

Conseguir olhar para um filho como aquele ser que nos é colocado no trajeto de vida para encaminharmos, protegermos e prepararmos para um caminho que será só seu.

Olharmos para um filho com a responsabilidade de o vermos como um ser independente de nós. Um ser que sente por si, que vive uma experiência de vida que não deve ser a nossa, mas sim a dele.

Percebermos a importância de partilhar decisões com a pessoa com quem decidimos gerar esta vida. Trabalharmos diariamente as competências pessoais que nos permitam não nos separarmos de quem connosco partilha um papel, um lugar, uma missão que o coloca no mesmo lugar do pódio.

Partilhar para sempre o 1º prémio, sem lugar a disputas, a bem daqueles de quem nunca nos divorciaremos – os filhos!

imagem@franzoni.adv

“A alienação parental, também designada por implantação de falsas memórias, consiste na prática de atos ou omissões, depois da separação ou divórcio, por parte do pai ou da mãe para com a criança ou adolescente, manifestadas de forma clara ou subtil, que constituem intencionalmente manipulação psicológica do menor, gerando neste repúdio, ódio e outros sentimentos negativos em relação ao outro progenitor.
Trata-se de abuso moral e agressão emocional para com o menor e de manipulação da imagem do ex-conjuge, o progenitor alienado, com o propósito de causar danos na manutenção dos laços afetivos dos filhos com aquele, mas que acabam por causar distúrbios psicológicos no próprio menor, afetando-o para o resto da vida.

É o designado Síndrome de Alienação Parental (SAP).

Segundo a Drª Teresa Paula Marques, Psicóloga Clínica, especialista em Psicologia Infantil e do Adolescente, da Clinica da Criança

Existem três níveis de intensidades diferentes do processo de alienação:

 Tipo ligeiro

Os filhos apresentam fortes vínculos emocionais, com ambos os progenitores e estes reconhecem que os conflitos afectam os seus filhos e, embora haja alguma difamação, esta tem pouca intensidade.

Os períodos de separação entre o progenitor e os filhos são curtos e ocorrem sem grandes conflitos. Embora neste primeiro estádio o filho apoie pontualmente o progenitor alienador, demonstra ter um pensamento independente e um grande desejo que os problemas se resolvam.

– Tipo moderado

Assiste-se a uma deterioração dos vínculos afectivos com o progenitor alienado (que não possui a guarda), ao mesmo tempo que há um fortalecimento da relação com o progenitor alienador (com quem vive).

As visitas ao progenitor que não é detentor da custódia, assim como as visitas aos avós e restantes membros da família alargada, começam a ser conflituosas. A criança não revela capacidade para pensar de uma maneira autónoma e repete aquilo que lhe é dito.

– Tipo grave

O progenitor alienado é visto como um indivíduo perigoso, chegando a ser encarado como um inimigo. Surgem sentimentos de ódio e recusa para com o progenitor alienado, enquanto que o outro progenitor é amado e defendido de forma irracional.

As visitas ao progenitor tornam-se escassas ou mesmo inexistentes tal como as visitas aos avós e família alargada que se ocorrer convertem-se em reacções adversas. Ainda que a campanha de difamação seja mais contínua e intensa, a criança já revela alguma independência de pensamento pois não justifica as suas acções com recurso a ideias transmitidas por outros. Justifica as suas próprias ideias e atitudes.

Apesar das abundantes abordagens na literatura é praticamente ignorado pelo poder judicial e, ainda que sendo um problema de enorme gravidade e sobejamente conhecido, existe sobre ele pouquíssima jurisprudência produzida pelos tribunais portugueses. Ora, perante a inércia da justiça, são mais do que frequentes os abusos do progenitor alienador, abusos esses com que a recente alteração do Código Civil veio pactuar ainda mais, por razões óbvias. “
São inúmeros os casos em que se perdem definitivamente os laços entre os filhos e o pai ou mãe, e em que os primeiros se recusam a aceitar qualquer contacto com um dos segundos, violando reiterada, e indisciplinadamente, até, o dever de obediência, também previsto no CC.
Chegados à transição da adolescência para a vida adulta, os filhos tomam decisões sustentadas por uma pseudo-realidade formatadora da sua mente durante anos do seu crescimento, com efeitos irreversíveis no resto da vida.
O progenitor alienador nem sequer tem de agir, bastando-lhe, por vezes, manter uma aparente imparcialidade ou abster-se de opinar, concedendo, assim, ao menor, total liberdade para decidir se pretende ou não ter a companhia do pai ou mãe em determinado momento.

São pequenos atos de omissão, supostamente inofensivos, mas que contribuem decisivamente para o processo de alienação, iniciado com esporádicas e ingénuas decisões de recusa do filho a uma proposta de passeio com o pai ou mãe e que vão evoluindo até à desobediência, repúdio e sentimentos de ódio do filho, já adolescente ou adulto, para com o progenitor alienado.

Trata-se de sentimentos criados por manipulação da mente do indivíduo, na sua tenra idade e falta de experiência de vida, por parte de uma pessoa, o progenitor alienador, que gera danos emocionais e psicológicos noutra pessoa, o menor, que subsistirão para o resto da vida e afetam inúmeras vezes a sua conduta e postura na sociedade e chegam a ser determinantes, no futuro, nas decisões sobre a construção de uma nova família ou na educação dos seus próprios filhos. A literatura aponta as diversas e graves consequências.

Perante a inércia do legislador e, consequentemente, da justiça, e considerando a vasta abundância de casos, geradores de imensuráveis repercussões, sendo certo que se revestem de enorme gravidade, na medida em que afetam a vida para sempre, quer a do agora menor, quer a do cônjuge alienado, é imprescindível consagrar no ordenamento jurídico medidas sancionatórias dissuasoras da prática de atos ou omissões que conduzam ao Síndrome de Alienação Parental.
Considerando a gravidade dos danos causados pelo SAP nos indivíduos, a sanção deverá ter natureza penal, pelo que se exige a sua qualificação como crime e integração no Código Penal. Perante os ouvidos de mercador do legislador, importa levar o assunto à praça pública e unificar as vozes. Assim, pretende-se levar os responsáveis da governação do Estado a agir em conformidade com a gravidade dos comportamentos do cônjuge alienador ou de outros familiares que adotem a mesma conduta.

Assine esta petição aqui

imagem@Justificando

Quando somos pequenas, ouvimos histórias de amor. Histórias de encantar em que um príncipe e uma princesa se encontram e são felizes para sempre. Crescemos a acreditar nesta verdade. À espera de encontrar o tal príncipe mais-que-perfeito. Mas depois… Surgem as desilusões, que, a bem dizer, são mais que muitas no decorrer da existência. Mas focando-nos nas histórias de príncipes encantados, podemos falar em quatro desilusões básicas:

1ª Desilusão: Raramente ou nunca nos apaixonamos pela pessoa que idealizámos ser o modelo do príncipe

2ª Desilusão: Quando achamos que estamos apaixonadas pelo dito príncipe….. e….puf…. Percebemos que, afinal, não é perfeito.

3ª Desilusão: Após múltiplas desilusões com o príncipe, ele vira sapo e percebemos , finalmente, que ele não é um príncipe!

4ª Desilusão: Quando percebemos que os príncipes NÃO EXISTEM.

 

Quando percebemos que os príncipes e princesas e as relações perfeitas não existem, damos um salto quântico na evolução da consciência. Percebemos que tudo o que existe é ilusório e os constructos e paradigmas de felicidade desenhados e enraizados na nossa mente desmoronam por completo. É uma morte súbita. É um choque profundo.

Inicialmente, tentamos agarrar-nos a eles enlouquecidamente. Custa-nos matá-los verdadeiramente porque sustentam a nossa Vida. E Agora? Afinal, como se é feliz? Sem príncipe? Sem família perfeita? E sozinha? Acreditamos não ser possível.

Ficamos em luto. No luto de nós próprias. No luto de tudo aquilo em que acreditámos até aqui. No luto de uma família fragmentada. No luto de uma relação sonhada que caiu. No luto da nossa própria existência como foi vivida até aqui. Esta dor que nos acompanha destrói-nos profundamente. A cada momento vemos cair véus. Véus de idealizações e suposições do que seria uma realidade feliz. A cada momento nos questionamos para quê. A cada momento pensamos que seria mais fácil permanecer numa relação já inexistente. A cada momento tendemos a crer que a dor deste luto não vai desvanecer e que mas valia voltar atrás. E nesse momento, em que vacilamos, em que a mente nos engana descortinando apenas os bons momentos vividos na relação, fazendo-nos ponderar um regresso ao conhecido e estável, temos que fazer uma escolha. A escolha entre uma existência amorfa, apática e automática e uma existência vibrante, viva e autónoma. A escolha entre uma paz podre, uma aparente paz alicerçada em dependência e comodismo e uma paz genuína profunda e real. Em que somos nós as suas autoras.

A dor de todo este processo pode fazer-nos crescer. Tanto. Ao dissolvermos todas as ilusões que viviam em nós e nos faziam acreditar e depositar numa relação (por pior que esta pudesse ser) toda, ou quase toda, a nossa felicidade, dissolvemos a parte de nós que não encarava a realidade na sua mais verdadeira forma. Dissolvemos a parte de nós que criava expectativas e passamos a aceitar as vivências como são, passamos a aceitar as pessoas como são, os relacionamentos como são, as dinâmicas como são. E aceitando a realidade genuinamente como ela é, decidimos ficar ou não ficar com essa mesma realidade na nossa vida. Deixamos de tentar mudar o que não é interno e mudamos o que queremos mudar internamente. Adaptamo-nos responsavelmente, despidas de resignação. Passamos a escolher mais e a ter consciência de que todas as escolhas têm perdas. E ganhos. Mas escolhemos. E escolhemos aquilo que queremos verdadeiramente que permaneça na nossa vida.
E assim, sim: podemos ser felizes.
Para sempre.

 

Por Joana Nunes, para Up To Kids®
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