Desde o incêndio de Pedrogão Grande que os fogos têm sido um tema recorrente cá em casa. Aliás, no ano passado, os meus filhos acompanharam as notícias do incêndio da Madeira por termos lá família, mas ainda assim, ficaram com aquela sensação de que este tipo de desgraças só acontece aos outros, e nunca mais pensaram nisso. Não lhes tirou horas de sono.

Desta vez foi diferente. Aperceberam-se de tudo o que aconteceu e sentiram-no bem de perto. O António, um menino de 6 anos que perdeu a vida juntamente com a sua família no incêndio, jogava Rugby no clube deles. Não eram os melhores amigos, nem tão pouco assim tão próximos, mas foi alguém que eles conheciam. E que tinha a idade deles. O meu filho António, também de 6 anos, dizia-me “Eu não sabia que era possível morrer aos 6 anos. Ele ainda vai ao treino despedir-se antes de ir para o céu?” De partir o coração. Eles participaram na homenagem que a equipa fez, e por tudo isto, seria impossível não surgirem 1001 perguntas em torno do “porque é que isto tinha de acontecer?” Esta catástrofe, sim, veio tirar-lhes horas de sono.

Desde então têm uma atenção especial ao fogo. Passaram a ficar atentos a sinais como fumo no céu ou cheiro a queimado. Durante uma viagem que fizemos recentemente passamos por uma queimada ativa. Eu senti o terror nos olhos e nas vozes deles, apesar de estarem com os pais e lhes explicarmos que era um fogo pequeno e controlado.

Estivemos na apresentação do Livro “Bombeiro dos pés à cabeça”, no Palácio da Galveias, em Lisboa. Durante a leitura da história, o meu filho mais velho sentou-se mesmo à frente do contador de histórias.  Apesar de ter entendido que era um livro infantil (e ele já se considera juvenil a nível de leitura) gostou e considerou muito útil para que as crianças aprendessem não só quais os sinais de um incêndio, como prevenir, e acima de tudo que devemos não só respeitar a floresta como dar-lhe resposta às suas necessidades de limpeza e protecção. Quis ele participar neste meu post com um texto seu, que transcrevo aqui:

Este livro é um bom exemplo para as crianças porque proteger a floresta é muito importante. Basta aparecer só uma faísca na floresta para começar um incêndio. O livro chama-se Bombeiro dos pés à cabeça porque, de facto, a Rita tinha imensas qualidades para ser bombeiro. Diz que as mãos, os pés, os joelhos, os braços, o pescoço, as orelhas, o coração etc, são partes fundamentais numa pessoa para ajudar a prevenir os incêndios e a respeitar a natureza. Todos nós temos um bocadinho da Rita no nosso coração, e devemos estar atentos e explorar as nossas capacidades de bombeiro.- José Maria, 10 anos

Bombeiro dos pés à cabeça

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O livro “Bombeiro dos pés à cabeça” está inserido num projeto existente desde 2014, criado pelo Grupo Os Mosqueteiros e pela Liga dos Bombeiros Portugueses. Este é o segundo livro lançado com o objetivo de sensibilizar e envolver os mais novos na causa dos bombeiros, e na necessidade de proteger e preservar as florestas, sendo que as vendas revertem na íntegra para a aquisição de novos equipamentos para os bombeiros portugueses.

Manuel Luís Goucha e Isabel Silva são os embaixadores desta campanha e falaram, sem poupar palavras, da importância de sensibilização ambiental.

“Para a prevenção falta vontade política. Há muitos interesses, nós sabemos, não sejamos hipócritas nem sejamos politicamente corretos. Eu estou farto porque acho que o país está refém do politicamente correto.”- Manuel Luis Goucha

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A frase ecoa na minha cabeça há já alguns dias: “ O meu pai diz que faço tudo mal ”. Ouvi-a no metro, da boca de um menino que não devia ter mais de 7 anos. Falava com uma menina da mesma idade e disse-o com uma expressão triste, cabisbaixo. Apeteceu-me confortá-lo, dar-lhe um abraço e uma palavra de estímulo.

Como dizia Rudolf Dreikurs,  famoso psiquiatra educador que inspirou o modelo educativo da Disciplina Positiva, “Um joelho magoado pode curar-se, mas a autoestima ferida pode durar para a toda a vida”. Pois é.

Enquanto formador de Disciplina Positiva tenho contactado, tanto nos workshops como nas sessões de coaching parental, com pais e mães cujos filhos apresentam uma baixa auto-estima. Crianças que acham que não são capazes, por isso convencem quem os rodeia a não esperarem nada deles. Sentem-se muitas vezes inúteis, que não vale a pena tentar pois não farão nada bem.

Ajudar estas crianças (e os pais) a dar a volta ao problema não é um trabalho fácil. Exige tempo, paciência, coerência e muito reforço positivo. Mas os resultados têm sido animadores.

O sentimento de pertença

Todas as crianças precisam de se sentir importantes. E que pertencem (à sua família, escola, grupo desportivo, etc.). Para atingirem esse objetivo, optam muitas vezes pelo “mau” comportamento, que tem sempre por detrás uma mensagem que estão a querer passar.

De acordo com a Tabela das Metas Erradas, uma das principais “ferramentas” de Disciplina Positiva, a mensagem tácita que uma criança com baixa autoestima nos quer passar, com o seu “mau” comportamento, é esta: Não te dês por vencido comigo. Não desistas. Mostra-me um pequeno passo que eu possa seguir.

A chave para descodificar essa mensagem é a forma como nós, pais e educadores, nos sentimos perante esse comportamento. Depois há um caminho a percorrer, que desagua na aplicação de respostas produtivas e estimulantes. E quais são essas respostas?

Aqui ficam algumas, de acordo a Tabela das Metas Equivocadas da Disciplina Positiva:

1 – Ofereça pequenos passos

2 – Evite todo o tipo de crítica

3 – Anime em qualquer tentativa positiva

4  – Confie nas habilidades da criança

5 – Foque-se no que ela faz bem

6 – Não tenha pena

7 – Não se renda

8 – Crie ocasiões para que ela tenha êxito

9 – Ensine-lhe habilidades/como fazê-lo mas não o faça por ela

10 – Disfrute da companhia dela

11 – Anime, anime, anime

12 – Faça reuniões familiares/turma

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A brincar na creche a criança cresce

“O brincar escapa aos adultos que frequentemente o vêem como algo separado do aprender,  o que  é não só absurdo como abusivo e cruel.” – João dos Santos in “A Caminho de uma Utopia…Um Instituto da Criança”

Se, por um lado, o brincar é uma actividade humana e social que parece fazer parte da nossa existência, por outro, nem sempre as brincadeiras têm sido as mesmas, nem a infância vista da mesma forma.

Hoje o brincar é visto como uma actividade essencial ao desenvolvimento global infantil, estando associada a várias competências físicas e psicológicas, para além da promoção relacional com o outro, seja ele par ou adulto.

Vários autores afirmam que a brincadeira inicia-se pelo simples facto de proporcionar prazer à criança, mas esta é também uma actividade que permite a criança interagir com os outros e explorar o ambiente ao seu redor.

Muitas vezes as crianças têm dificuldade em expressar os seus sentimentos e não conseguem verbaliza-los. Através do faz de conta, ela organiza o seu pensamento, elaborando o seu mundo real através das vivências simbólicas e elaborando os conflitos internos e emoções, por vezes angustiantes. Os brinquedos e os materiais expressivos como a plasticina, barro, etc. servem assim, de mediadores emocionais. É através da projecção nas brincadeiras que as crianças conseguem estruturar o seu pensamento, expressar as suas emoções e, progressivamente, modificar os seus comportamentos.

O brinquedo é efectivamente um instrumento de extrema importância. Muitas vezes, coisas simples e a que não damos grande valor, podem ser úteis para a crianças utilizarem no seu faz de conta. Através da brincadeira ou do jogo, a criança assimila o mundo à sua maneira e aprende a socializar.

A brincar na creche a criança cresce

Na creche a criança expande a sua imaginação e as suas competências a brincar. É através do brinquedo e das brincadeiras que vai desenvolvendo a sua capacidade de comunicar e interagir no mundo e com os outros. Brincar, é por isso, fundamental para que a criança tenha um desenvolvimento cognitivo, social, afetivo e motor, mais saudável.

A creche assume assim um papel fundamental em todo o processo de crescimento e aprendizagem, em particular nas primeiras etapas do desenvolvimento infantil, pois a brincar na creche, a criança cresce!

Cada vez se ouvem mais notícias de crianças e adolescentes que se perderam por causa da net.

Não sejamos tendenciosos que não é só desde o aparecimento da web que temos perdido filhos. Antes disso também acontecia.

Mas antes perdíamos os filhos nos rios, nas estradas, nos mares, e hoje perdemo-los dentro do quarto!
Quando brincavam nos quintais ouvíamos as vozes deles ao longe, as conversas e, mesmo à distância, sabíamos o que se passava naquelas cabeças. Quando entravam em casa não havia uma televisão em cada quarto, nem gadgets nas suas mãos. Quero deixar bem claro que não sou contra tudo, nem excluo da vida dos meus filhos, apenas modero. Mas meus queridos, sejamos sinceros: temos vindo a perder o equilíbrio.

Hoje não ouvimos as vozes deles, nem ouvimos os seus pensamentos e fantasias. As crianças estão ali, dentro dos seus quartos e por isso acreditamos que estejam em segurança. Que imaturidade a nossa.

Fechados nos quartos de phones nos ouvidos, trancados nos seus mundos, a construir saberes sem que saibamos quais são… nem tão pouco orientados por nós.
Alguns têm perdido literalmente a vida, mas há tantos outros que ainda aí andam vivos fisicamente, mas mortos nos seus relacionamentos com os pais, fechados num mundo global de informação e estímulos, de ídolos do youtube, de modas passageiras que em nada contribuem para a formação de crianças seguras e fortes, e se tornam crianças sem qualquer capacidade para tomar decisões moralmente corretas e de acordo com os seus valores familiares.

Dentro dos próprios quartos perdemos os nossos filhos que já não sabem quem são nem qual a sua identidade familiar… Tornam-se numa mescla da informação adquirida em vídeos, personagens e ideias que os influenciam lentamente, até ao dia em que nós, os pais, nos apercebemos que já não reconhecemos os nossos filhos.

Agora podes ler este texto, gostar e taggar amigos. Podes reconhecer aqui verdades e refletir sobre elas. Podes rever-vos nestas palavras. Isso já será excelente.

Desafio Filhos do Quarto

Mas como Psicopedagoga tenho visto tantas famílias com filhos “mortos” dentro do próprio quarto, que vou deixar aqui um convite, e espero que aceites: convido-te a tirares o teu filho do quarto, do tablet, dos phones; convido-te a comprar jogos de mesa, tabuleiros e a ter os teus filhos na sala, ao teu lado no mínimo duas noites fixas todas as semanas  (para além do sábado e domingo). E joga, diverte-te com eles, ouve as suas vozes e falas, os pensamentos e aproveita a grande oportunidade que é  tê-los vivos física e espiritualmente, a dar o trabalho que os filhos dão a educar. Os teus filhos vão aprender a viver em família e vão desenvolver o sentimento de pertença pela família e lar, e não precisarão de se aventurar em “Baleias Azuis” e afins para se sentirem aceites ou para sentirem um pouco da adrenalina que antigamente tínhamos com as brincadeiras na rua!

Adaptação de texto original de Cassiana Tardivo, por Up To Kids®

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Este texto é destinado aos papás e mamãs que vão ou foram de férias em família com os seus filhos pequenos. Passamos um ano inteiro a trabalhar e a “ansiar” pelas tão desejadas férias, a imaginar-nos na praia ou na piscina a brincar com o nosso filho e a conseguir relaxar e dar algum descanso ao corpo e à mente… Mas será que com crianças pequenas estas expectativas correspondem à realidadeSão mesmo férias que dão para descansar e “limpar” a cabeça?

A resposta é “Sim e Não“, ao mesmo tempo! Se são férias, na realidade são… se vai poder limpar a cabeça sim vai, até porque as crianças parece que têm pilhas intermináveis e não vai parar um segundo. Portanto não terá tempo de se lembrar do trabalho!

Já deu para perceber o que vai acontecer ao descanso? Entre o colocar o protetor, tirar as fraldas, vestir o fato de banho, ir à piscina, tirar da piscina após 2 minutos porque já está com frio, limpar, secar e comer ou mamar. Chegar à praia montar o guarda sol e o corta vento, molhar os pés e ficar com frio (pois o tempo não estava como cá). Ou obrigar-me a ir 339 vezes à agua encher o balde, ou enfiar a mão cheia de areia no olho e não parar de chorar durante 10 minutos, ou até mesmo voltar a “provar” a areia 1 ano depois! Mas este ano já não gostou muito do sabor da areia, a do ano passado devia ser mais saborosa. Isto já para não falar de todas as outras “tarefas normais” do dia a dia… Por vezes os dias são tão atarefados e cansativos, que “até fazem ter saudades” dum dia de trabalho! (Isto se calhar também já é exagero!).

Este ano, na tentativa de descomplicarmos um pouco, resolvemos não colocar fralda uma grande parte do tempo, sobretudo quando estava de fato de banho (na praia) e quando prevíamos que não iria fazer cocós. Apesar de lhe perguntarmos diversas vezes se tinha xixi e lhe dizermos que pedisse o xixi, ainda não chegou a altura dele para a retirada das fraldas (em casa temos uma penico à disposição dele para se ir familiarizando, mas nada de pressas). Mas era “engraçado” olhar para ele e ver o xixi a escorrer pelas pernas abaixo, por vezes não ligava nenhuma, outras vezes ficava incomodado e sacudia a perna ?

Mas voltando às férias… Vale a pena? Se por um lado estas são as partes “mais chatas” é uma fase do processo de crescimento deles e nosso! O L. está com 18 meses, não parou 1 segundo nas férias, é uma criança super curiosa, que desafia o perigo (acho que esta parte é comum a todas) e que ama a Natureza(dêem-lhe pedras, areia, animais, plantas, comida e água de praia ou piscina (quentinha de preferência)).

Para muitos pais, tal como para nós, as férias são a altura do ano em que podemos passar 1 ou 2 semanas, completas com os nossos filhos. Em que podemos brincar com eles sempre que eles quiserem, em que vimos e acompanhamos o seu crescimento dia-a-dia (na fala, na deslocação, na socialização), em que podemos matar saudades de todos os dias em que só os vimos de manhã e ao final do dia!

Achamos é que deveriam ser férias todos os dias… Assim podíamos estar sempre com eles onde quiséssemos!

Dificuldades de Aprendizagem: Avaliar e Intervir

Muitas crianças, adolescentes e jovens passam por situações de dificuldades de aprendizagem. Estas podem ser ligeiras, moderadas ou graves, temporárias ou contínuas ao longo do tempo, gerais ou específicas de alguma(s) disciplina(s) ou matéria(s). Em alguns casos, essas dificuldades estão associadas a um diagnóstico ou perturbação – por exemplo, dislexia, discalculia, hiperatividade, défice de atenção, perturbações do espetro do autismo, perturbações de desenvolvimento, défices cognitivos, paralisia cerebral, síndrome Down, etc – a outras questões sócio-emocionais do aluno ou mesmo a variáveis contextuais, que remetem para a integração, bem estar e envolvência do aluno na turma e na escola.

Assim, e existindo uma tão grande diversidade de situações, o primeiro passo para uma intervenção de qualidade no âmbito das dificuldades de aprendizagem passa por uma boa avaliação de cada caso. Por avaliação entende-se não só a aplicação de testes e provas que permitem a caraterização das funções cognitivas do aluno e aceder ao seu perfil de aprendizagem, como a observação atenta da situação e a capacidade de ler a criança ou jovem em questão, procurando compreendê-lo enquanto pessoa e não só enquanto aluno. Através da avaliação, procura-se também perceber as causas do insucesso do aluno, reunindo-se um conjunto de informação muito importante para preparar a intervenção.

De referir que uma boa intervenção deve passar por uma abordagem flexível, assente na criança/adolescente e nas suas necessidades e incluir a escola e a família. Em alguns casos, a intervenção com a escola pode ser preponderante uma vez que podem existir fatores de sala de aula ou relacionais (aluno-aluno; aluno-professor) a contribuir para o problema. Em outros casos, a intervenção com os pais, e a orientação e acompanhamento destes são especialmente importantes, na medida em que através da melhoria/alteração de algumas práticas educacionais se podem conseguir progressos importantes. De qualquer modo, e em qualquer situação, o trabalho individual com o aluno é fundamental.

Intervenção centrada no aluno

A relação que se estabelece entre o técnico e a criança/jovem é determinante para o sucesso da intervenção. O técnico deve investir no conhecimento e compreensão do sujeito com quem vai trabalhar, investigar as suas áreas de interesse, gostos e preferências, interessar-se pela sua vida para além da escola e das dificuldades de aprendizagem, em suma, participar do seu mundo, criar elos. É muito importante que a criança/jovem se sinta confortável e motivada ao longo da intervenção e que se implique nesta com tanta intensidade quanto lhe for possível. Para o efeito, as sessões devem ser organizadas de modo a ser apelativas e motivantes, para além de trabalharem as áreas que interessa promover. Neste sentido, o ideal são tarefas variadas e desafiantes, se possível com alguma componente lúdica ou de jogo e, quando viável, enquadradas em algo motivante para a criança/jovem e que lhe desperte entusiasmo.

Por fim, é muito importante que ao longo da intervenção o técnico tenha bem presente os objetivos para cada criança/jovem – competências a desenvolver, áreas da cognição a promover – e que esteja familiarizado com as estratégias e modelos teóricos de atuação mais indicados e favoráveis para cada situação. Conciliar uma boa intervenção do ponto de vista técnico com a capacidade de motivar e envolver a criança/jovem e de lhe devolver a confiança e a segurança são os grandes desafios que estes casos lançam.

Por Sandra Farropas

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Conhecer as emoções no comportamento das crianças

 

Na semana passada o medo invadiu a nossa casa. O pequeno catita tinha medo de fazer cocó e eu tinha medo que ele não fizesse. Depois de uma semana doente, o intestino não estava a funcionar como de costume. Após uma ida à casa de banho mais difícil, o medo instalou-se para ficar.

Desde aí, por muitas explicações conscientes que desse, por mil e uma dicas médicas e outras tantas mézinhas variadas, nada funcionava. Ele não queria ir à casa de banho. Ponto.

A cada dia que passava o medo crescia dentro dele. A cada dia que passava, o medo crescia dentro de nós. Eu conseguia sentir como ele estava sempre assustado, como se sentia sempre encurralado, e isso, estava a dar cabo de mim.

Para nos ajudar neste processo, tentei descobrir mais sobre o medo. Uma das coisas que já sabia, é que deve ser ouvido e respeitado. Mesmo que nos pareça um medo idiota e sem sentido, tal como qualquer emoção, deve ter espaço para existir. É fundamental aceitar o que está a ser vivido do outro lado, ouvir sem tentar mudar nada. Dar tempo para o medo, ao seu ritmo, dar lugar à ação.

Várias vezes engoli o meu medo. Lembro-me que não tinha espaço para ele. Ficava presa nos olhos cheios de expectativas dos outros e enfrentava o que lá vinha. Mas a força motora não vinha de mim, vinha do outro. Eu não estava a utilizar os meus próprios recursos para lidar com a situação, e esta dependência externa apenas aumenta o nosso medo e o nosso sentimento de incapacidade.

O medo é uma antecipação negativa de alguma coisa, só o próprio a pode transformar numa antecipação positiva. Só o próprio pode dar o primeiro passo, de dentro para fora.

Tinha de ser o pequeno catita a decidir que estava preparado e munido dos recursos necessários para enfrentar o que o assustava.

Muitas pessoas encaram o medo como algo muito negativo, mas ter medo é saudável e natural. Coloca o nosso corpo em alerta para quando temos de dar uma resposta rápida a nível físico e mental. Também existem os outros medos que nos limitam, congelam e aterrorizam. Estes devem ser igualmente respeitados, e devem ser olhados como mensagens ou pedidos de ajuda dos nossos filhos.

Segundo a Isabelle Filliozat, é importante dar as informações necessárias à criança sobre o que se está a passar. No meu caso, expliquei ao pequeno catita o processo digestivo de uma forma simples e divertida. Mostrei-lhe como funcionavam todos estes “canos” dentro de nós. Também lhe perguntei o que poderíamos fazer para ele se sentir mais seguro na ida à casa de banho.  Do que é que ele precisava? Surgiu uma lista de coisas: os vários octonautas na beira da banheira a olhar para ele, a música do Despacito a tocar em loope um banquinho colorido para ele colocar os pés enquanto estava sentado na sanita. Segundo ele, este era um “plano perfeito”.

Por vezes, quando confrontado com a iminência de ter de ir à casa de banho a raiva subia-lhe à ponta do nariz. Eu ficava lá, com ele. Presente. O medo e a raiva andam muitas vezes de mão dada. O medo engolido gera raiva. Para transformar o medo, a raiva tem de conseguir vir cá para fora e tem de ter espaço para o fazer.

Filliozat refere algumas das fases fundamentais nesta viagem através do medo onde devemos respeitar sempre o ritmo dos nossos filhos (e o nosso); Primeiro, é essencial aceitar o medo. O que é, como é, sem tentar mudá-lo. Apenas compreender e receber o medo que o nosso filho tem.

Depois, ajudar a criança a aceder aos seus recursos internos. Para isso, contei-lhe de outras vezes em que ele tinha ido à casa de banho, uma delas até tinha sido num avião em pleno voo! Juntos tivemos a tentar adivinhar quantas vezes fez cocó desde que nasceu e descobrimos que, na verdade, ele era um grande especialista no assunto. Relembrámos também outras situações em que ele também teve medo, as ferramentas que usou na altura, e como se sentiu orgulhoso no final com a sua conquista.

Mais tarde, falei de mim. Das coisas que me assustaram e principalmente das vitórias e aprendizagens a que estas deram origem. A nossa experiência com o medo acolhe a deles. Inspira-os e ajuda-os a não se sentirem sozinhos ou tontos com as suas inseguranças. Somos todos iguais. Temos TODOS medo de alguma coisa.

A regra mais importante? Não devemos insistir. A não ser que seja uma situação de vida ou de morte. E não era. Ele tinha de decidir fazê-lo por ele, e não para me fazer a vontade. Ele tinha de se sentir livre para fazer essa escolha. Aí está o poder. Aí reside a nossa força. Aí o medo que inibe transforma-se no medo que estimula à ação.

Um dia, estava na sala e comecei a ouvi-lo cantarolar o Despacito. A música vinha da casa de banho. Alguns minutos mais tarde chamou-me. Quando cheguei estava sentado, olhou-me determinado e disse “Mãe quero tentar. Vou confiar em mim e em ti e vou fazer força.” Estava pronto. Era agora.

Alguns segundos depois, puxávamos o autoclismo em tom de celebração. Se eu tivesse “confetti” tinha feito um pequeno carnaval naquele instante. É muito importante que a criança sinta orgulho na sua vitória de forma a fortalecer e consolidar a sua confiança na vida, e em si mesmo.

E foi assim… tal como apareceu, o medo do meu pequeno catita desapareceu pelo cano.

 

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A arte de perder não é difícil de dominar; há tantas coisas que parecem preenchidas com a intenção de se perderem que a sua perda não é nenhum desastre. Perde algo todos os dias. (…) Depois pratica o perder mais e perder mais rápido: lugares e nomes, até de sítios que desejavas conhecer. Nada disso será um desastre”

O poema de Elizabeth Bishop, One art, deveria ser leitura obrigatória e diária para aqueles pais que se recusam a perder os filhos para o mundo. Em vez de acompanhá-los nessa viagem que, à partida, não será desastrosa, querem ampliar o tamanho do mundo que controlam. O mundo em forma de família. O mundo em forma de prisão.

Na arte de imbecilizar crianças, os currículos tiranos, as seleções baseadas em exercícios de mnemónicas e as rotinas escolares pouco significativas concorrem fortemente com o receituário pouco inteligente dos pais. Neste sentido, a primeira tática para imbecilizar crianças consiste em protegê-las exaustivamente de problemas. Evitar contacto com as verdades dolorosas. A bruxa e a madrasta malvada devem ser banidas juntamente com o lobo mau. Em cima do piano já não há um copo com veneno, mas um sumo azedo. A morte é apenas uma viagem. A forma afirmativa, pessoal e direta “Atirei o pau ao gato” deve ser vertida para o mais sóbrio e correto “Não atires o pau ao gato porque isso não se faz”. Corta-se assim o suporte imaginário necessário para que a criança elabore o seu sadismo, bem como o masoquismo social que a cerca. De facto, a palavra “imbecil” provém do latim baculum, bastão de pastor.  Alguém sem bastão é alguém que deve ser pastoreado pelos outros; alguém que não fará uso algum do seu bastão para se defender será, pois, um fraco e frágil… Sem pau para atirar.

A segunda tática para não perder os filhos para o mundo consiste na sua cretinização. Os cretinos eram crianças que habitavam os vales da Suíça, onde o sal continha pouco iodo. Sem iodo desenvolviam uma deficiência cognitiva associada à disfunção da tireóide. Como já não podiam ser educadas pelos pais, eram transferidas para as comunidades religiosas, daí o termo chrétien (cristão). E assim, fazem os pais que entregam seus filhos à escola como se esta tivesse não apenas de os ensinar, mas educar, controlar, disciplinar, cuidar e por aí adiante. E assim concorre com os que terceirizam a educação dos filhos.

A terceira técnica na arte de não perder as crianças para o mundo consiste em mantê-las isoladas, em situação de indivíduo privado ou, como os gregos chamavam, estado de idiotez.  A escola é um obstáculo para o novo espírito do neoliberalismo, que advoga que cada um de nós é uma espécie de livre empresa que deve escolher livremente os seus fornecedores e aplicar os seus investimentos segundo os princípios de otimização de resultados. Esses pais empreendedores sentem-se, segundo a prerrogativa de pagantes e clientes, no direito de elevar os princípios individuais e privados à dignidade da coisa pública. Educação é um empreendimento público, não é uma associação privada de interesses ampliados da família. Contudo é assim que agem os que querem proteger a criança das normas, das leis e das regras, cuja razão de ser é pública.

A arte de imbecilizar crianças, como se vê, é o contrário do que nos recomendava a poeta americana. Esta arte consiste em reter para nós o que devia ser do mundo, em temer desastres quando o pior desastre já está a acontecer. É uma vida sem bastão, sem sal ou sem via pública. Quando percebemos o quanto dominamos esta arte, geralmente já é tarde demais e os nossos filhos já se foram e da pior maneira possível. De modo mais lento para um mundo que os condenou a uma minoria penal perpétua.

Artigo originalmente publicado na edição de Agosto de Mente e Cérebro, , adaptado por Up To Kids®

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Estou a falar com a minha filha, é favor não interromper!

As crianças são cativantes. Há crianças impossíveis de “resistir”, com as quais temos vontade de interagir de imediato, seja na sala de espera do pediatra, seja no jardim ao fim do dia.

Mas as crianças são pessoas, não nos esqueçamos. Têm direito ao seu espaço, à sua privacidade. E por que é que falo disto? Porque há sempre alguém que se sente no direito de mexer no cabelo dos nosso filhos, de fazer festinhas infindáveis sem perguntar se o pode fazer, de apertar as bochechas – e tudo isto quando ainda são bebés de colo.

Tenho uma amiga que quando estava grávida passava muito mal com o toque que as pessoas faziam questão de lhe impor. Ora, se uma pessoa está grávida, a barriga é para ser acariciada por todos, certo? Errado! Há mulheres que não gostam e têm direito a ser respeitadas. Eu aprendi a ir perguntando se posso fazer uma festinha, mas só o faço quando existe alguma proximidade entre a grávida e eu – mesmo sabendo que dificilmente a pessoa do outro lado diria “não, desculpa lá mas não vais fazer festinhas nenhumas nesta minha enorme barriga”. Seja como for, pergunto. E a pessoa sente-se consultada, como se importasse. E importa, porque o corpo é dela.

Curiosamente, esta mesma amiga teve um bebé lindo, ruivo de olhos azuis. Um verdadeiro chamariz. Na rua poucas pessoas não paravam para espreitar, falar, mexer. Ora, desculpem-me, mas isto do mexer na criança é igual a mexer-se na barriga. Se não é próximo, não toca. Se é próximo, tenha a sensibilidade de perceber se faz sentido, se é oportuno.

Porque daqui a dezasseis anos nenhuma destas pessoas vai ter a lata de chegar ao pé do miúdo no meio da rua e despentear-lhe o cabelo, dizendo que vai quebrar corações e que tem cá um olho mais lindo…

Se não o fazemos a adultos, porque o fazemos com as crianças?

Hoje, ia no metro com a minha filha e tinha o telemóvel na mão. Estava a guardá-lo na mala e ela viu-o. Pediu para segurar. Não deixei. Para mim telemóvel não é brinquedo e ela habitualmente não mexe nele. Ultimamente tenho cedido a deixá-la ver fotografias porque revive momentos que a marcaram, mas sempre comigo a supervisionar. Não tenho jogos, nem nunca tive. Sim, sou esse tipo de mãe, que nunca deu o tablet à filha nem o telemóvel para ela jogar. Mas adiante, ela ficou contrariada e começou a choramingar. Foi caminhando na plataforma, de mão dada comigo, a dizer que queria o pai. Cem vezes seguidas, sabem como é. “Quero o pai, quero o meu pai, o pai, quero o meu pai”. E a minha tolerância é grande mas sei que as pessoas à volta não têm de ser danos colaterais destas “birras”. Cheguei-me a um canto e baixei-me para estar ao nível dos olhos dela enquanto ela continuava com aquela choraminguice e estava a começar a falar com ela para a acalmar quando vejo uma sombra laranja que se aproximou e começou “Ah, que grande birra! Isso é tudo sono, queridinha? Dormiste pouco, foi?”. Interrompeu-me e não gostei. Nem olhei para a senhora, limitei-me a pegar na minha filha ao colo e avancei uns passos para poder, finalmente, falar com ela. Eis que vejo novamente a mancha laranja aproximar-se e desta vez a tocar no braço da minha filha para a ouvir com mais atenção. Mal começou a dizer “sabes uma coisa? Vem aí o homem mau e…”. Não a deixei acabar. Fiz algo que provavelmente deixaria os meus pais um pouco desiludidos, mas simplesmente afastei-me virando costas, sem olhar uma segunda vez para a senhora (nem olhei a primeira, não saberia sequer dizer que idade tinha, apenas que pela voz teria mais de cinquenta anos e, por isso, deveria saber o que estava a fazer). Fui, em marcha, a falar com a minha filha, que se acalmou e me explicou porque estava a chorar, consegui explicar-lhe por que motivo chorar quando é contrariada não ajuda, apesar de perceber que ela não consegue ainda expressar-se muito bem. Fiz ali o meu trabalho de mãe, mas muito a custo.

Não pude deixar de pensar, que a semelhança do rapaz ruivo, se fossem dois amigos de trinta anos a conversar, um deles mais abatido que o outro, a senhora JAMAIS se aproximaria e interferiria na conversa. E ainda bem.

Não tenho nada contra a interacção que naturalmente surge com as crianças, não me interpretem mal, mas se não têm nada de positivo para acrescentar, então dispenso, obrigada.

Houve muitas situações em que pessoas com boa energia se aproximaram e tentaram distrair a minha filha em algum momento, porque gostariam mais de a ver a sorrir do que a chorar. E essas serão sempre bem vindas.

Tenho sempre isto no fundo da minha cabeça quando interajo com os filhos dos outros. Saber diferenciar em que momento é apropriado ficar à distância e quando faz sentido fazer parte.

Acredito que todos juntos somos melhores. E não podemos ser melhores quando estamos rodeados de julgamentos, críticas e intervenções despropositadas.

E é esse o exemplo que devemos passar aos nossos filhos.

Para que o futuro seja bom, para que o mundo esteja cada vez mais povoado por pessoas que só multiplicam o bem.

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Chegou tímido, receoso e a tentar disfarçar a tristeza que estava estampada no olhar. Olhava para baixo e tinha dificuldade com as palavras!

As palavras são difíceis e procura mais contacto e menos conversa. Para falar precisava de entrar dentro de si e expressar um pouco do que sentia. Era mais fácil viver “fingindo” e disfarçando a tristeza, a ansiedade e a insegurança.

No início não me apercebi logo das suas necessidades e fui conduzindo as nossas consultas com dificuldade. Não queria conversar, desenhar, pintar ou qualquer outra atividade…

Com o tempo descobrimos o monopólio e tudo ficou mais fácil. Enquanto jogávamos foi possível falar um pouco sobre as suas dificuldades, a sua ansiedade, os seus medos, mas também sobre a sua valentia e persistência, que o fazem não desistir de tentar ser feliz.

Fomos inventando formas de estar em relação…

Foi no vínculo que finalmente pode expressar as suas necessidades e no corpo que encontramos um caminho para as satisfazer.

Foi no toque, no contato, no abraço que pode refazer etapas importantes do seu desenvolvimento…

A nossa identidade, segurança e sustentação provêm do toque, dessa experiência de contato que nos nutre física e emocionalmente. Por vezes esse contato é pouco nutritivo, ou as nossas necessidades são reprimidas antes da nossa oralidade estar satisfeita, e ficamos parados ou congelados nessa etapa. Ficamos com zonas cinzentas que precisam ser revividas de forma positiva para devagarinho se irem tornando menos cinzentas, como se reconquistássemos direitos associados a cada uma das etapas do desenvolvimento.

Esses bloqueios no nosso desenvolvimento condicionam a nossa energia interna, a nossa constituição física e o nosso caráter.

As duas primeiras fases do desenvolvimento dizem respeito à dependência relativamente aos pais e as outras duas, ao movimento em direção à independência relativamente a eles.

O contacto físico é fundamental nessas primeiras duas etapas, nas quais as crianças atingem o seu estado de ser e de bem-estar através do contacto e do toque dos seus cuidadores. A criança precisa de vinculação e sustentação para se sentir nutrida em termos físicos e emocionais.

Como providenciar e ir ao encontro destas necessidades em contexto terapêutico?

Parece difícil, improprio ou simplesmente estranho “dar colo”, tocar, abraçar, mas a verdade é que tudo se encaminhou de forma natural, espontânea e nutritiva.

Começamos a sessão sempre com massagens e pouco a pouco vai-se esgueirando para o meu colo, aninha-se e fala à bebé. Ficamos maioritariamente em silêncio e quem trabalha é o meu corpo, o meu calor e o meu acolhimento.

Apesar dos seus 12 anos é um bebé que está ao meu colo e que precisa do meu corpo para satisfazer a sua oralidade, para se poder sentir seguro e amado e poder caminhar em direção à independência que será seguramente uma etapa de grandes conquistas para si.

Para já precisamos cuidar do bebé que ainda precisa de colo, para que nesse calor construa a sua segurança e possa finalmente deixar de fugir dos outros, das situações, da vida…

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