A cena é habitual nos percursos escola-casa e casa-escola: a minha filha e eu vamos sentadas lado a lado e depois de alguns segundos em silêncio ela pega-me na mão e dá-lhe um beijinho, sem que eu faça ou diga alguma coisa. E depois acrescenta: “gosto de ti”. É uma ternura que me derrete o coração e de quem assiste.

Desta vez estava sentada à nossa frente uma senhora de cerca de 70 anos, que levou a mão ao peito. “A minha filha nunca, nem em adulta, me disse que gostava de mim…”, disse enternecida e algo triste.

Fiquei a pensar no assunto. Será esta geração, a minha, mais expansiva no que toca aos sentimentos? Falaremos mais de amor?

A conclusão a que cheguei é que depende muito das famílias, é certo, mas acredito que sim. Não é preciso recuar muito para perceber que não era habitual esta troca afectiva de palavras em público, havia muito o “não dito”, para o bom e para o mau.

Eu próprio não cresci a dizer aos meus avós que gostava deles, por exemplo. E isso não significava que não gostasse, simplesmente não era suposto dizer-se, falar-se desse sentimento… Ainda há um ano sussurrei ao ouvido do meu avô paterno o quanto gostava dele. Foi a primeira vez e infelizmente não consigo ter a certeza se ele me conseguiu ouvir. Disse-o, eventualmente, tarde demais.

Mas também cresci a acreditar que o amor é muito mais que uma palavra, que é nos gestos e atitudes que ele vive e permanece. Quantas vezes vi um “amo-te” na boca de alguém que o dizia sem o sentir? Nunca o quis para mim e para mim é sagrado: se o sinto, digo-o, mas essa aprendizagem veio com o nascimento da minha filha.

Foi ela que me ensinou a viver o amor desta forma de gritar aos quatro ventos como somos sortudos. E ensino-lhe, através do exemplo, a dizer que gosta de mim dizendo-lhe que gosto dela. Vai sempre dormir depois de ouvir que a amo. Nunca a faço dizer, nunca lhe digo que diga a alguém só para deixar essa pessoa feliz. Ela já percebeu que há um momento para o dizer e pessoas a quem o dirigir. Portanto, se somos bafejados com essa sorte, aproveitemos. Se não somos, nada de ficar tristes, todos amamos as pessoas de formas diferentes e expressamos os nossos sentimentos de formas diferentes.

Deixei de esperar pela altura certa para dizer aos que me são importantes, que o são. Acho que a bolha de amor que se cria ao saber que somos gostados ajuda à nossa auto-estima, por exemplo. Ajuda um dia cinzento a receber alguns raios de sol. Ensina que devemos priorizar o positivo em vez do negativo.

Os dias nem sempre são fáceis, mas se alguém, onde quer que esteja, nos fizer chegar a mensagem de que somos importantes para eles, então há coisas que valem a pena. Mesmo num dia mau.

Por isso, sempre que a minha filha me disse “gosto de ti”, eu responderei de volta “eu é que gosto de ti” e estaremos nesta espiral do eu gosto mais até que nos cansemos e haja beijos nas bochechas e um abraço a selar o acordo: gostamos ambas, como haveríamos de não gostar?

Porque o amor é mesmo o melhor do mundo (então na boca dos nossos filhos, torna-se o paraíso…).

Amem muito. E não deixem para amanhã se o puderem dizer hoje.

imagem@weheartit

Os miúdos são uns bichos estranhos não são?

Sinto-me muitas vezes como naquele filme, o Divertidamente, presa dentro da cabeça dos meus filhos a tentar perceber o que se passa lá dentro.

Os miúdos crescem, de repente deixam de ser aqueles bebés bolachudos que comem, dormem e brincam o dia todo e passam a ser pessoas em miniatura que, mais que frio ou fome, sentem emoções. Alegria, ciúmes, tristeza, medo, euforia, raiva e em nós, pais em construção, cresce a preocupação de tentar perceber o que é que eles estão a sentir e o que isso diz sobre a personalidade que estão a desenvolver.

O meu filho não apanha os brinquedos do chão porquê, se ainda agora estava a arrumar as peças do puzzle? Esta birra que a minha filha está a fazer é de sono ou será que está triste com alguma coisa que se passou na escola?
Porque é que o meu filho tem tanto medo do cão da vizinha e ao mesmo tempo adora correr atrás dos pombos?
A minha filha está outra vez com ciúmes do irmão, porquê?
Será que estamos a dar-lhe menos atenção?
Porque é que o meu filho nos desafia e não sai de frente da televisão e depois chora assustado quando deixa cair sem querer um copo de água no chão?
A minha filha que ainda agora estava a dançar no meio da sala, está a chorar compulsivamente porque ainda faltam muitos dias para o aniversário dela, porquê?
Porque é que a minha filha tem tanta consciência dela própria e isso a impede de se divertir?

Não sei.

Fico perdida com tantos estados de alma diferentes num curto período de tempo. A mesma ação gera em momentos diferentes reações diferentes, não há um guião, nem um botão como no filme, para impedir que a vida não lhes sorria sempre. Deixa-me um sabor agridoce vê-los a gerir as emoções e as relações com os outros, porque se, por um lado, precisam de liberdade para desenvolver a sua personalidade, por outro, obriga-me a deixá-los lidar sozinhos com situações que como mãe-leoa gostaria de poder resolver a gritar com alguém.

A partir do dia em que tomei consciência que os meus filhos fazem parte do mundo e que se vão relacionar com os outros, o meu coração ficou mais exposto. O mundo às vezes é um lugar feio. E nasceram em mim novas perguntas. Será que alguém os magoa? Será que têm as ferramentas necessárias para lidar com os outros? Que emoções são aquelas que aparecem a cada birra? O que se passa naquelas cabeças?

 

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Conhecer as emoções no comportamento das crianças

A infância é o período do desenvolvimento no qual ocorrem mudanças rápidas e importantes. Com o crescimento emerge a necessidade da criança em descobrir o mundo à sua volta. Este é um movimento de exploração que quando apoiado pelos adultos cria confiança e é responsável pelo comportamento nas relações sociais.

É comum que a criança apresente comportamentos de oposição, faça birras e diga “não vou”, “não faço”, “não quero”. Esta é uma fase em que está a explorar o mundo e a descobrir os limites. O papel dos pais passa por mostrar que se preocupam com ela e ajudá-la a saber até onde pode ir, porque as regras e os limites são laços de afeto e proteção. A consistência das respostas e a disponibilidade para ensinar a criança a gerir as contrariedades vão facilitar a aprendizagem da expressão das emoções nas situações de frustração e a resolvê-las da melhor forma.

O conhecimento emocional é fundamental para o ajustamento da criança, favorecendo a construção das relações sociais positivas, sucesso escolar, controlo dos impulsos e autoconfiança. As crianças emocionalmente competentes são capazes de regular adequadamente as emoções, possuem mais recursos e estão mais aptas a resolver problemas e a lidar com os acontecimentos da vida mais stressantes.

Cada emoção tem uma função diferente no desenvolvimento favorecendo a adaptação da criança aos diversos contextos: o medo ajuda a regular ações impulsivas; a vergonha facilita o ajustamento social; o prazer promove o estabelecimento e manutenção das relações interpessoais adequadas; a culpa promove o sentido de responsabilidade e expressão do comportamento empático; a raiva permite mobilizar estratégias de confronto.

As emoções têm um papel importantíssimo no ajustamento psicológico e social, e contribuem tanto para a sua adequação como para o seu desajustamento.

No caso de inadaptação (ex. perturbação do comportamento) poderá haver um comprometimento do desenvolvimento normal da criança, nomeadamente ao nível social e das relações com os pares pela dificuldade que têm em desempenhar o comportamento previsto pelas normas sociais. Podem revelar enviesamentos no processamento e na avaliação dos estímulos que desencadeiam as emoções, uma menor compreensão e conhecimento sobre as mesmas, ou mesmo problemas na avaliação de consequências de uma determinada forma de expressão emocional. É por isso, comum, que estas crianças recorram a estratégias agressivas de resolução de problemas e que as considerem adequadas.

O prejuízo destes comportamentos pode ser elevado, incluindo envolvimentos em atos de violência, dificuldade na manutenção de vínculos afetivos e sociais, e dependência de drogas.

Como ajudar:

  • Ajudar a compreender o que sente, o que deseja e como conseguir. Quando sente algo negativo, explicar que é natural e procurar uma solução construtiva;
  • Ajudar a acalmar-se em situações de tensão (respirar fundo, pensar em coisas positivas). Elogiar sempre que demonstre capacidade de autorregulação;
  • Utilizar a linguagem dos sentimentos “Estou orgulhoso de ti”, “Estás triste porque não podes jogar Tablet”;
  • Centrar-se nos sentimentos positivos embora falar igualmente sobre os negativos.
  • Falar com a criança sobre as emoções – favorece a aprendizagem na expressão dos sentimentos e na regulação das emoções;
  • Evitar dizer “Não fiques triste” – A criança tem o direito a ficar triste, deve sentir e aprender a regular esta emoção para que se possa adaptar.
  • Nomear as emoções, encorajando a criança falar – Sem a julgar ou criticar, deve ouvir a sua experiência. Pode relacioná-la com situações passadas vivenciadas pelo adulto, descrevendo os seus sentimentos e como procedeu.
  • É importante ensinar as crianças a controlarem os seus comportamentos e pensamentos e a falarem sobre os sentimentos. A capacidade de falar sobre o que sente ajuda a criança na regulação das emoções e dos comportamentos negativos, favorecendo a expressão de sentimentos e a troca de afetos.
  • Após uma situação de conflito, a criança apresenta uma desregulação emocional elevada. Por isso é importante que os pais apenas nomeiem a emoção e deem espaço à criança para se acalmar. “O que sentes agora é raiva. Falamos mais tarde”.

Crianças irritadas que não recebem orientação emocional tornam-se adultos agressivos e com raiva. Os pais devem reconhecer e lidar com a raiva dos seus filhos, ser empáticos, mas não tolerantes. A um ritmo adequado para a criança, devem começar a colocar o que a criança sente em palavras e orientá-la de forma construtiva, dando-lhe oportunidade de se acalmar.~

Sugestões:

  • Imagens retiradas de livros/revistas com expressões faciais (tristeza, alegria…) – Nomear cada emoção, “O que ele/ela está a sentir?”, “Como é que tu sabes que está triste/feliz…?”, “Como é que as pessoas mostram que estão tristes/felizes…?
  • Leitura de um livro infantil, explorar com as crianças as emoções das personagens de acordo com as imagens. Explorar emoções alternativas – “Que outra emoção poderia ter sentido nesta situação?” – Ajudar a desenvolver a compreensão das causas das emoções dos personagens.
  • Refletir 5min. Sobre o que pode fazer para ajudar o seu filho quando sente/expressa tristeza, raiva, medo.

Ana Filipa Ricardo, psicóloga

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A música e as emoções

Se por um lado a interação com os outros e com o que nos rodeia envolve emoções, por outro lado, as nossas emoções são o reflexo dessa interação. Todas as experiências nos provocam uma determinada emoção, que vai condicionar essa mesma experiência.

O nosso estado emocional determina a nossa qualidade de vida. Influencia a forma como agimos e as decisões que tomamos. Podemos então dizer que o comportamento é impulsionado pela emoção.

As emoções fazem parte da nossa vida, sendo fundamental perceber o que estamos a sentir e porque o estamos a sentir.

Não devemos evitá-las, mas sim entende-las e aprender a viver com elas. Sendo todas necessárias, algumas têm um papel muito importante na nossa proteção. Por exemplo, sentir medo protege-nos de ameaças e prepara o nosso corpo para reagir e se não sentíssemos medo, provavelmente, atravessaríamos a estrada sem olhar, porque não temíamos ser atropelados. Todas as emoções são essenciais e estão associadas à nossa vivência.

O nosso corpo é o palco de atuação das nossas emoções e, por isso, as reações fisiológicas são uma das formas de percebermos como nos sentimos, é o nosso “termómetro de sentimentos”.

Não há emoções positivas ou negativas, devemos qualifica-las como agradáveis ou desagradáveis, como algo que faz de nós a pessoa que somos…

A música e as emoções

Se pedissem para me definir emocionalmente em apenas duas palavras, diria que sou uma Pauta Musical, onde as notas se podem organizar e fazer fluir o som e o ritmo, como expressão das minhas emoções.

Determinadas por um espaço e por um tempo, as emoções surgem como notas que se unem para dar corpo a uma música, pronta a ser tocada por um qualquer instrumento.

Se estou triste, sou pauta pronta para que uma guitarra me toque e faça gemer nas suas cordas um fado nostálgico e por vezes angustiado.

Quando me surpreendem, o compasso é perfeito para que os pistões do saxofone façam soltar num sopro, um jazz maravilhoso.

Se a irritação me assola, aí sou metálica, música pesada e pronta para os break`s de um qualquer baterista audacioso.

Mas se o stress me invade, o ritmo acelera, como se semicolcheias se organizassem freneticamente sob a forma de Jive.

Em momentos de paz, as notas desfilam suavemente e das teclas de um piano pode surgir uma rumba.

Se me apetece estar só, a observar o mar… podem ouvir-se violinos a tocar “We are free now” (Enya)

Mas por vezes o ritmo aquece, a sedução abraça-me e a paixão pode ser refletida num tango.

Também são muitos os momentos de festa e alegria, nesses instantes eu sou samba!

Mas se a felicidade me absorve, deixo de ser uma simples pauta e passo a ser partitura. Onde as notas se estruturam para que vários instrumentos de uma orquestra toquem em sintonia numa harmonia absoluta. E é nessa altura que percebemos que o todo é muito mais que a soma das partes.

Afinal, sou uma pauta onde as notas se organizam. Onde os ritmos e os compassos se alteram em conformidade com as emoções que sinto e faço sentir. Porque eu não sou apenas eu, sou também o reflexo do que o que me rodeia me faz sentir.

 

De mãe a Momster – Consequências de reprimir as nossas emoções

Amar o nosso monstrinho

Às vezes fico tão zangada. Zangada com uma pitadinha de danada e, uma redução de irritação fumada a sair pelas orelhas. A zanga é por vezes tão intensa que juro que me crescem garras afiadas, nos pés e nas mãos. Não são garras discretas. Nada disso. São de um vermelho vivo, quase florescente, e têm pintinhas verdes nas pontas. Assim, de certeza que ninguém se aproxima! Aumento muito de tamanho… Andar a andar, vou crescendo, crescendo até me transformar num gigantesco prédio peludo com olhos amarelos lançadores de raios fulminantes. Nesse momento, surge a pergunta “Estás bem?” e a resposta fumegante do costume: “Estou óptima!”

Desde pequeninos que aprendemos que demonstrar os nossos sentimentos mais desafiantes “é feio”. Assim, cada vez que eles aparecem escondemo-los dos Outros. Ficam arrumadinhos, bem fundo, nas caixas do “NÃO MEXER”. Os anos passam e, as caixas aumentam. Já que as temos, aproveitamos e começamos a colocar lá outras coisas, que sentimos que os Outros não vão gostar e, que fazem de nós “pessoas más”. Aquela raiva, quando o Joãozinho me passou à frente na corrida na escola. Aquela tristeza, quando as férias de Verão acabaram. Aquela revolta, quando o Pedrinho me chamou nomes e chamaram-me a atenção a MIM. O ciúme do meu irmão, o medo de cair da bicicleta, a repulsa aos brócolos da avó…Todas essas coisas ficaram nas caixinhas, sem voz, reprimidas, sem oportunidade ou espaço para virem cá para fora.

Aprendemos a esconder.

Escondemos tão bem que nos tornamos especialistas no assunto. Às vezes, ainda a emoção não tomou forma e ZUMM, já está a entrar na caixa. Mas a caixa está lá. Mesmo que eu não olhe para ela, ela está lá. Paradinha, à espera, cheiiinha até cima.

Existe, no entanto, um comando cheio de botões coloridos que permite abrir cada uma dessas caixas. E sabem onde ele está? Ah pois é! Bem na mão dos nossos filhos. Sabem como eles gostam de carregar em botões, não sabem? “Uuuuuuu e este o que é que faz? E se carregar em dois ao mesmo tempo o que acontece?” Acontece uma mãe monstrinha sem filtros.

Consequências de reprimir as nossas emoções

Reprimir as nossas emoções, principalmente na infância, além de nos tornar umas bombas relógio peludas, torna-nos incapazes perceber as verdadeiras necessidades dos nossos filhos e de aceitar verdadeiramente as suas emoções. Ou projetamos inconscientemente as nossas necessidades, aumentadas por anos de frustração, ou negamos as suas necessidades para evitar mexer na caixa nº 354.

As nossas caixas estão lá dentro e, os nossos filhos estão dispostos a ajudar-nos, para finalmente, conseguirmos abri-las. Olhar para elas e receber de braços abertos tudo o que não foi recebido, na altura, com presença e amor.

Todas as emoções são importantes, as “boas” e as “más”. Todas fazem parte de nós, mas não são “nós”. São como nuvens que passam no céu, ficam um bocadinho e flutuam para outro sítio. Porquê guardar nuvens em caixas?

Ama o teu monstrinho.

Recebe com a mesma presença as emoções pequenas e grandes do teu filho. Respira fundo e deixa-as ir quando for a altura. Mostra-lhe que o amas por inteiro, desde as assustadoras garras afiadas vermelho vivo, até ao sorriso mais doce. Mostra-lhe que ele tem um espaço seguro para ser quem ele é, onde é sempre recebido de braços abertos por um coração monstruosamente grande.

“Ensinar não é transferir conhecimentos, mas criar possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.” – Paulo Freire

Uma criança não pode ser um depósito de conhecimentos, de matemática, língua portuguesa, estudo do meio etc.

As emoções são fundamentais na vida de uma criança. Trabalhar desde cedo com elas é uma mais valia para estas perceberem o que sentem, o que pensam de si e sobre o mundo que as rodeia. 

Trabalhar e entender as emoções desde cedo vai fazer com que a criança esteja mais activa e vai proporcionar empatia, compaixão bem como a capacidade de se meter no lugar dos outros. 

É importante perceber que este trabalho pode ser feito em casa e continuado na escola, a fim de obter mais êxito. 

“As emoções são todo um conjunto de reacções, variáveis na duração e na intensidade, que ocorrem no corpo e na mente. Pode ser uma reacção física ou moral.”

Chorar, por exemplo é uma das primeiras emoções que o ser humano sente. Muitas crianças, choram quando estão tristes, quando tem fome, quando querem alguma coisa, quando fazem um birra. Esta emoção é, portanto, a mais disponível aos olhos da criança. Por isso é extremamente importante dar a conhecer outros tipos de emoção e trabalhar com elas, de forma a formar crianças e adolescentes sociáveis, com empatia, livres para poder sentir e sobretudo saber sentir. 

Hoje em dia existem muitas crianças reprimidas pelos sentimentos. Os pais escondem as emoções, os professores/educadores tendem a ser menos emotivos, e é importante perceber que não há mal algum em se ser emotivo, porque somos seres humanos e ter emoções faz parte de nós. 

A educação emocional tem que ser desenvolvida desde tenra idade de forma a que a criança desenvolva competências sociais e emocionais. De outra forma, estaremos a formar crianças e adolescentes incapazes de sentir, impávidos, insensíveis e imunes de sentir empatia pelo outro.

Como desenvolver e trabalhar as emoções dos nossos filhos?

Os pais podem ajudar e orientar a criança de forma a que reconheça a emoção que está a sentir.  Explicar. Exemplificar com exercícios. Fazendo uso a brincadeiras, até com um pouco de teatro, de imaginação. É importante não esquecer que as crianças apreendem o mundo conforme o vêem, conforme o recebem, portanto estejam sempre atentos à imagem que querem passar. 

A melhor lição que podemos dar às nossas crianças, será o exemplo. 

Muitas vezes os pais chegam a casa sem paciência, cansados, irritados, por várias razões, mas as crianças não conseguem perceber o mau humor, a irritação, o clima de tensão no ar.

Simples será explicar com calma: “Hoje a mãe/pai está cansada/o tive um dia de trabalho longo.” Esta mensagem que vai ser passada à criança vai fazer com que ela entenda que o adulto está cansado e irritado.  Explicar o dia a dia, inteirar a criança das suas emoções é fundamental. Falar baixinho, ao mesmo nível da criança também é uma forma calma de fazer com que a criança fique mais atenta e entenda o pedido ou a mensagem que lhe foi transmitida. 

Outra forma de falar sobre emoções, é na hora do conto, o que as personagens sentiram, as emoções, a imitação do sentimento, é uma forma leve de abordar a educação emocional e de proporcionar conhecimento sobre as emoções. 

Elaborar um dicionário de emoções é também uma forma de explicar as crianças as emoções, seja através de desenhos, ou palavras.

Por exemplo, o educador/professor pode pedir à criança para desenhar o significado de alegria, e construir assim um dicionário de emoções.

A comunicação, é também uma ferramenta indispensável para chegar às emoções das crianças: pergunte-lhe como se sente, e deixe-o libertar-se para se expressar quer seja na sala de aula ou em casa.

Crianças que sentem, são crianças felizes. 

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As pessoas que choram são mais fortes

Todas as emoções são diferentes e têm graus diferentes de aceitação na nossa sociedade. A emoção mais prezada é a felicidade, pois é um sinal de segurança, confiança e êxito. Por isso, muitas vezes, por cedermos as pressões sociais vemo-nos obrigados a fingir que estamos felizes.  Quando nos perguntam “Está tudo bem“, assumimos como um cumprimento,  e respondemos que estamos bem e esboçamos um sorriso em piloto automático, mesmo que por dentro estejamos destroçados.

Isto é prova de que, muitas vezes, vivemos de uma imagem e não deixamos que ninguém conheça o que se encontra por detrás da nossa mascara: se a felicidade nos assegura um êxito social e transmite uma imagem de êxito, sejamos felizes!

A tristeza, no entanto, é catalogada como uma emoção negativa, uma emoção que se deve esconder e da qual nos envergonhamos. As expressões corporais e faciais de tristeza como os ombros caídos, o olhar triste e o choro, são considerados sinais de debilidade e insegurança.

Uma sociedade que exige que estejamos felizes e alegres e sempre dispostos a conquistar o mundo é tremendamente injusta para o ser humano. Porque nós não funcionamos assim. Estigmatizar a tristeza só serve para nos fazer sentir pior, para que pensemos que não somos suficientemente fortes para aguentar os problemas ou imprevistos.

Concluiu-se que as pessoas que se atrevem a expressar a sua tristeza e choram quando sentem vontade, têm um maior equilíbrio emocional do que aquelas que reprimem as lágrimas e escondem os seus sentimentos.
As lágrimas derramadas são amargas, mas mais amargas são as que não se derramam”. – Proverbio Irlandês

Então afinal porque é que as pessoas que choram são mais fortes, ou seja, mais equilibradas emocionalmente?

1. Não reprimem suas emoções

Se te sentes eufórico escondes o teu sorriso? Se ouves um som alto em casa à noite, não te assustas? Então, porque é que reagimos de forma controlada ao choro?. As pessoas seguras de si mesmas e com uma Inteligência Emocional elevada, são capazes de reconhecer as suas emoções e expressá-las independentemente de serem ou não consideradas “negativas” pela sociedade. É necessário muita coragem para nadar contra a corrente e expressar quem és realmente ou como te sentes num determinado momento.

Não há maior motivo para chorar que não poder chorar“.– Séneca

Manter a mente fria e reprimir as emoções tem um grande custo não só para nossa saúde psicológica como também física. Alguns estudos tem vinculado a repressão emocional com um maior risco de desenvolver enfermidades como asma, hipertensão e patologias cardíacas. Curiosamente, um estudo realizado na Universidade de Standord descobriu que as pessoas que costumam reprimir as suas emoções reagem à pressão e ao stress de maneira exagerada, com um maior aumento da tensão arterial do que as pessoas catalogadas como ansiosas. Isto indica-nos que essa “calma aparente” na realidade não é boa para o nosso equilíbrio emocional.

2. Aproveitam as lágrimas para mudar a perspectiva

Sabias que as lágrimas aliviam o stresse, a ansiedade, a dor e a frustação?
Na verdade, 70% das pessoas afirmam que chorar é reconfortante. E que o choro nos permite ver a situação através de uma perspectiva mais positiva. Quando paramos de chorar, o nosso pensamento e raciocínio torna-se mais claro e em poucos minutos tornamo-nos capazes de analisar a situação a partir de outro prisma. Isto deve-se ao facto de que as nossas emoções encontram um equilíbrio e a nossa mente racional está preparada para entrar em ação.

3. O choro é terapêutico

Sabias que o choro estimula a libertação de endorfinas no nosso cérebro que nos ajudam a aliviar a dor e também fomentam um estado de relaxamento e paz? É por isto que depois de chorar, nos sentimos muito melhor. Na verdade, confirmou-se que não é positivo cortar o choro mas deixar que flua porque embora a primeira fase do choro só tenha um efeito ativador,  a segunda fase tem um efeito calmante que reduz a frequência cardíaca e respiratória, propiciando um estado de relaxamento. Às vezes, o choro é mais benéfico que o riso.
Um estudo realizado na Universidade da Florida descobriu que o choro é profundamente terapêutico, sobretudo quando se une com um “remédio relacional”, ou seja, quando nos aproxima a outras pessoas que nos dão consolo. Também perceberam que o choro triste, aquele que está destinado a criar novos vínculos depois de uma perda, tem um poder catártico.

4. Não se submetem as expectativas sociais

As pessoas que não tem medo de chorar sentem-se mais livres e são capazes de expressar-se soltando-se dos convencionalismos sociais. Estas pessoas não têm medo de decepcionar nem de se expor perante as que as rodeiam, porque sabem que, na realidade, chorar não diminui ninguém.
As pessoas que choram são mais verdadeiras e não se querem ver maquilhadas pelas expectativas sociais. Esta consciência leva-as a viver pelas suas próprias regras e rédeas.

5. Conectam-se emocionalmente através das lágrimas

O choro é uma das expressões mais íntimas do ser humano. Quando choramos à frente de alguém é como se estivéssemos a despir a nossa alma. Por isso, as lágrimas ajudam a criar um conexão muito especial através do nosso “eu” mais profundo.
Quando outra pessoa “aceita” essa tristeza, sem tentar fugir dela ou nos brindar de falsas palavras de alento, cria-se uma conexão única. Uma das funções das lágrimas é precisamente a de pedir ajuda, mesmo que seja de maneira indireta, mostrando nossa impotência, para que os demais se acerquem e nos confortem.

Portanto, o choro e a tristeza não devem ser entendidos como um sinal de debilidade, mas sim como um sinal de força interior e atenção plena.
Não choramos por sermos débeis ou incapazes, mas sim porque estamos vivos e não nos envergonhamos de expressar o que sentimos.
Chorar a lágrima viva, chorar a choros…..Chorá-lo todo, mas chorá-lo bem.(…) Chorar de amor, de cansaço e de alegria”. – Poeta argentino Oliverio Girondo
Por Jenifer Delgado, em Capricho de mulher

A morte contada às crianças

Hoje estava mesmo a precisar de ir à minha psicóloga. Ando muito triste, nervosa e precisava de desabafar. Ela olhou logo para mim e pediu-me para sentar no tapete com ela e depois ficou calada. Só me apetecia chorar e assim foi… depois comecei a contar-lhe que há seis meses a minha avó morreu e eu não percebi porquê. Fiquei muito triste e os meus pais também.

Naquele dia deixaram-me em casa da vizinha enquanto diziam que se iam “despedir” da minha avó.

Bem sei que só tenho cinco anos, mas fiquei muito magoada com eles, primeiro porque não me explicaram o que era isso da morte e depois, porque não me deixaram ver a avó. No final da noite, quando chegaram a casa, o pai foi ter comigo ao quarto e disse-me que a avó tinha ido viajar e que já não voltava mais. Agarrou-se a mim a chorar e assim ficámos os dois até adormecer.

No outro dia de manhã, acordei muito baralhada e fui ter com a minha mãe que estava na sala sozinha. Disse-lhe que não tinha percebido o que tinha acontecido à avó e ela respondeu-me que a avó tinha ido para o céu. Que estava nas estrelas e que todas as noites eu procurasse a estrela mais brilhante do céu.

Quando ouvi isto fiquei ainda mais baralhada!

Todos os dias à noite olho pela janela, observo as estrelas e procuro aquela que brilha mais. Devo confessar que é um pouco difícil, pois todas as estrelas são muito brilhantes, mas eu lá me esforço para encontrar. Fico a olhar para a estrela, que eu acho ser a mais brilhante e a pensar como é que, naquela coisa tão pequenina, cabe a minha avó que até era bem gordinha.

Penso ainda, como é que ela foi lá parar, e rapidamente descubro que, aquilo que o meu pai disse afinal faz sentido. A minha avó chegou às estrelas de avião, só pode! Mas como é que o avião aterrou na estrela? Continuo sem perceber! Agora o que mais me preocupa é que os meus pais disseram que daqui uma semana vamos à Disneyland.

No início fiquei muito entusiasmada, sempre sonhei ir à Disney! Mas ontem à noite disseram-me que íamos de avião, e eu comecei a chorar. Não quero andar de avião!

E se também fico presa nas estrelas como a avó?

Foi então que a minha Psicóloga me agarrou e me deu um abraço. Disse: “Sabes, os pais gostam tanto, mas tanto dos filhos que não os querem ver tristes, nem a sofrer. Por isso, às vezes dizem coisas que não são exatamente como acontece na realidade.

Depois foi buscar um livro. Contou-me uma história sobre animais, onde dizia que quando os nossos animais favoritos morrem, já não os voltamos a ver. O seu corpo vai para uma caixinha e são enterrados debaixo de terra, num local que se chama cemitério, tal como acontece com as pessoas. No final, a minha psicóloga disse que o que importa é guardar na nossa memória e no nosso coração, todos os momentos bons que passámos com a avó e relembrar o quanto ela adorava viver e brincar comigo. Saí de lá bem mais aliviada e feliz por já poder ir à Disneyland!

Nuvens na cabeça | Editora Cercica | Coleção Todos a ler | Recomendado por Oficina de Psicologia

Nuvens na cabeça, é um livro cuja história e ilustrações são tão simples, como a própria maneira de ensinar as crianças a ver o lado positivo da vida. Saber apreciar e dar valor às pequenas coisas tal como as amizades, os abraços e o arco-íris.

Um livro que ajuda as crianças a lidar com as suas emoções, e que permite aos pais que, através da história e das atividades propostas, consigam entender e conversar com os filhos sobre aquilo que os assusta ou preocupa.

 

nuvensnacabeça
SINOPSE
Esta é a história de uma menina, a Eva, que descobriu como afastar as nuvens cinzentas e pesadas que teimavam em acompanhá-la para todo o lado. Com pistas e atividades no final, este livro pode ser uma ferramenta útil para, em conjunto com as crianças, trabalhar sentimentos do dia-a-dia.

FICHA TÉCNICA
Nuvens na Cabeça de Susana Amorim
Edição/reimpressão:2014
Páginas: 50
Editor: Editora Cercica
ISBN: 9789898681034

Susana Amorim nasceu em 1976 no distrito de Aveiro.
É formada em Psicologia desde 2001 e atualmente além do seu trabalho como psicoterapeuta, desenvolve atividades de educação emocional, privilegiando sempre a prevenção.Trabalha com crianças e jovens há 14 anos e acredita que a simplicidade, os afetos e o espanto na descoberta do mundo, daqueles a quem se dedica, a inspiram profissional e pessoalmente.

O nosso sistema límbico, ou seja, o “centro das emoções” – tão bem ilustrado no filme DIVERTIDA–MENTE, permite-nos fazer a distinção entre o que é agradável ou nos causa desprazer e desenvolver ações em conformidade como que sentimos. É a zona do nosso cérebro que comanda muitos dos comportamentos necessários à nossa sobrevivência.
O modo como reagimos é alavancado por emoções, como medo, ódio, alegria, tristeza (entre tantas outras). São processos intrapsíquicos, que se expressam pelo sentir, pela linguagem verbal e corporal e estão estreitamente relacionados com as funções cognitivas (memória, atenção, pensamento e linguagem). O “centro das emoções” vai influenciar a maneira de ser e a capacidade de raciocinar, ou seja, tem impacto em alguns aspetos da identidade e da personalidade de cada pessoa.

Apesar de parecer paradoxal, algumas emoções tidas como negativas podem ser positivas. E aqui identifica-se um importante “mediador” – o córtex pré-frontal. Esta zona do cérebro processa várias funções, incluindo o controlo funcional das emoções. Dito de outra forma, é responsável pelo desenvolvimento do juízo crítico e do autocontrolo. Não tem a ver com o saber se é o correto (a criança até pode saber que não é a melhor atitude), mas com a capacidade de fazer o correto. O córtex pré-frontal permanece em desenvolvimento por mais de 20 anos e muitos adultos não chegam a conseguir uma maturidade saudável. Estando em desenvolvimento a regulação do pré-frontal, outras zonas, entre elas a amígdala cerebral (muito associada a situações de explosão de raiva), tornam-se dominantes o que, dentro de certos parâmetros, é perfeitamente normal e esperável em crianças e adolescentes.

Mas a raiva tem o seu lado positivo. Funcionando como antídoto do medo, permite avaliar as situações, distinguindo o que é benéfico do que é prejudicial para nós ou para os outros. A título de exemplo, imagine que vai de viagem e o seu carro e não tem indicador de fim de gasolina. A qualquer momento pode ficar sem combustível e sem poder continuar a viagem. A raiva funciona, de certo modo, como esse indicador da reserva. Sinaliza que alguma coisa não está a correr bem e que algo necessita de ser feito. Regra geral, crianças que têm crises frequentes de raiva são crianças em que a angústia e a tristeza predominam e pode significar um pedido, latente, de ajuda.

Tristeza e alegria andam lado a lado e uma não existe sem outra. Por estranho que possa parecer, muitos momentos bons, em que a criança se sente amada, acarinhada e suportada, ficam “gravados na memória” como resultado de alguma situação menos positiva (uma queda, por exemplo). No entanto, sociedade atual está cada vez mais orientada para o prazer e para a recompensa imediata. Somos diariamente bombardeados com a necessidade de ser, permanentemente, felizes, a qualquer custo e em qualquer circunstância. As crianças estão a crescer num contexto em que apenas a alegria importa e não aprendem a sentir a perda e a frustração. Os pais compram um jogo e após algumas jogadas o filho perde o interesse, ao que os pais compram um jogo novo para reforçar e dar continuidade ao prazer da criança. A criança faz birra ou fica irada porque quer um gelado, apesar de saber que a regra é comer gelados apenas ao fim de semana. Os pais, também eles orientados para a ideia de que sentir alegria é o que mais importa e não estando preparados para lidar com a raiva dos filhos, não são capazes de os frustrar, mantendo o que está acordado.

Mas é, precisamente, o afeto balizado pelas regras, o facilitador, “a ponte” nas ligações entre o córtex pré-frontal e amígdala cerebral. No fundo, é o amor e o desejo manifesto dos pais pelos seus filhos, associado aos limites que consideram ser os adequados, que permitem o estabelecimento das ligações neurais que promovem o tal juízo de valor e o autocontrolo emocional.
Este afeto balanceado, a que podemos chamar de cuidado, é o “alimento” do nosso sistema límbico e leva à concretização ou à inibição de condutas adequadas e ao desenvolvimento de comportamentos, mais ou menos, saudáveis.

Se puder, não deixe de ver o filme e aproveite para discuti-lo com o seu filho, explorando as várias componentes: a afetiva (o que foi sentido), a expressão verbal e facial dos vários estados emocionais e as respostas ou comportamentos que se verificaram.

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