Visualize a sua casa. Estável. Estruturada. Direita. Mas ao mesmo tempo flexível, resistente e segura.

Segura de si. Segura para si.

Visualize o telhado. Consegue vê-lo? As paredes exteriores, as janelas, as portas em todos os seus detalhes. Quer seja mais antiga ou mais recente, convive harmoniosamente com a restante paisagem à sua volta. Quer tenha varandas, terraço ou apenas uma janela pequena por onde a luz pode espreitar, a sua casa e sólida. Não cai. É robusta. Não desmorona. Mesmo que surjam fissuras, ela não cai.

As paredes foram erguidas tijolo após tijolo com o suor precioso de alguém que deu o seu tempo e a sua dedicação a cada momento, a cada detalhe. Alguém que deu o seu melhor para que um dia essa fosse a sua casa. O seu lar.

Visualize agora o interior. Percorra cada divisão e aprecie como em tempos houve mãos de homens e mulheres a trabalhar arduamente para que a sua casa se fizesse. Pessoas. Como cada um de nós. Pessoas com famílias. Homens e mulheres com sentimentos, emoções, fragilidades.

Agora suba até ao telhado. O telhado foi colocado telha após telha, com vagar, arte e perícia, seguindo a técnica com que cada material precisa de ser manuseado. A madeira não se trabalha da mesma forma que o ferroou que a telha. O cimento é assentado à mão e delicadamente alisado para que as paredes consigam ficar direitas. Cada material necessita de uma manuseamento próprio para conseguir ser trabalhado.

Vários materiais podem ser aplicados simultaneamente, mas raramente com atropelos.

O telhado foi aplicado apenas após as paredes exteriores – e interiores – estarem construídas. Nunca antes. Nunca ao mesmo tempo. E caso acontecesse, os construtores teriam de voltar atrás, redefinir estratégias, gerir equipas e voltar ao processo correcto para dar estabilidade à construção. Mas SEMPRE respeitando os materiais. O que os materiais precisam. Utilizando cada uma das ferramentas que o material precisa.

Agora, ousemos ir um pouco mais profundamente. Visitemos aquele lugar que os nossos olhos não alcançam Aquele lugar que está lá e que tão raramente nos lembramos que existe. No entanto ele esta lá. Ele foi o início.

A origem a partir da qual tudo se ergueu.

Está lá de uma forma tão presente que sem ela seria impossível a nossa casa, segura e estável, se aguentar por um milésimo de segundo.

A nossa casa só se ergue durante anos, décadas ou gerações quando as suas fundações são estáveis o suficiente para lhe dar estrutura, mas flexíveis o suficiente para – em caso de um abanão forte – ela permanecer erguida.

Foi graças ao respeito pelos materiais que os construtores conseguiram edificar as nossas casas, começando por uma dedicação atenta às fundações.

Aquilo que os nossos olhos nunca vêem mas que sem elas, nenhuma casa resistiria.

E nós somos como as casas que vivemos.

A nossa infância são as nossas fundações, o lugar onde aprendemos o que partilharemos com o mundo, o que partilhamos com os nossos filhos, onde aprendemos a amar ou a castigar, a tolerar ou a julgar, a agredir ou a integrar.

Se os construtores usarem nas fundações material deteriorado, se optarem por não respeitar os materiais e insistirem em trabalhar o aço da mesma forma que trabalham a madeira, se usarem instrumentos que não funcionam para que a casa se erga de forma flexível, mas estruturada, dificilmente a casa resistirá sem colapsar. Eventualmente.

Sem fundações emocionais assentes no respeito, no amor, na tolerância – especialmente por aquilo que não conhecemos ou não entendemos – dificilmente a casa que somos se erguerá de forma saudável, preparada, sustentada para receber quem podemos tornar-nos.

A infância é onde as emoções se formam. Como pais, é da nossa responsabilidade –  tal como é da responsabilidade dos construtores das nossas casas construir as fundações das nossas casas –  formar as emoções dos nossos filhos, educá-los com compreensão, respeito e amor – em vez de reprimendas, etiquetas, críticas, castigos ou imposição de poder – dando-lhes as ferramentas que precisam para que se sintam valorizados e apoiados em todos os momentos. Desde bebés.

Se formarmos as emoções dos nossos filhos da mesma forma que os alimentamos ou vestimos, tendo como base a beleza, os sonhos, o amor, a compreensão, a integração – trabalhando ao mesmo tempo as nossas próprias emoções, as nossas próprias crenças e valores – serão casas felizes, emocionalmente bem estruturadas, acolhedoras e tolerantes.

E ao olharmos para eles daqui a uns anos, do interior da nossa própria casa – ou do nosso telhado – para a casa que eles também serão, ao vê-los serem eles também pais de pequenas fundações que se erguerão noutras casas e noutras e noutras, teremos a certeza de que cumprimos o nosso propósito. A nossa missão. E que lhes deixamos um legado de amor e de bondade.

Aquele legado que sonhámos deixar a primeira vez que imaginámos sermos pais.  E do qual o mundo precisa. E o mundo começa em nós

Eu detestava erros. Sentia-me mal quando os cometia, desde a nódoa na camisola quando estava quase a sair de casa, à resposta lá se foi o queijinho no Trivial Pursuit. Quando eles aconteciam e, os erros acontecem todos os dias, parte de mim sentia que falhava e que não correspondia às expectativas que alguém, inclusive eu, tinham de mim. Foi por isso que decidi investigar melhor porque me sentia assim e, deliberadamente decidi inscrever-me em certas coisas em que certamente iria ser a pior da turma. Dança do ventre, lá vou eu! Tudo para a esquerda e eu a abanar-me para a direita. Gira, gira, gira… onde é que foram todos?? Quanto mais me enganava, mais me ria. Quanto mais me ria, mais me libertava. Quanto mais errava, mais perdia o medo de errar. Quando perdia o medo, mais arriscava e mais aprendia sobre mim e sobre a tarefa em questão.

O Eduardo Briceño escreveu um artigo muito interessante sobre os erros. Um dos meus erros favoritos são os erros que nos esticam. Estes erros surgem quando estamos a tentar expandir as nossas atuais habilidades sem ajuda e esticamos para atingir outro patamar, como o nível seguinte de um jogo de computador. Os erros acontecem naturalmente porque estamos em terreno novo em que nos desafiamos e aprendemos novas habilidades e capacidades.

96% das vezes em que o pequeno catita comia a sopa fazia uma obra do Jackson Pollock no babete. Um dia disse “Mamã, já não preciso do babete.”TCHAM TCHAM senhoras e senhores vem lá um erro que estica! Tirei-lhe o babete, ele comeu a sopa e quando acabou fomos ver ao espelho: apenas uma pequena pinta na camisola. Reparei que durante o processo estava com muito mais atenção à colher, ia avaliando até onde a podia encher para a sopa não cair e, em geral muito mais focado no seu desafio. De dia para dia foi melhorando a técnica e diminuindo as nódoas. Acho até que ele cresceu uns 5 cm só a comer sopa!

Estes erros são mesmo muito positivos e devem ser estimulados nos nossos pequenos catitas. São eles que devem definir a sua zona de desenvolvimento proximal, ou seja, a zona ligeiramente além do que já conseguem fazer sem ajuda e que representa o nível ideal do desafio de aprendizagem.

Outros erros igualmente importantes no processo de aprendizagem são os erros AHA- acabei de descobrir porque isto correu mal. Surgem quando perante determinada situação cometemos um erro por falta de conhecimento ou informação e, no momento em que acontecem percebemos imediatamente o que está de errado ali. Por exemplo, atirar-me para cima de um skate e perceber AHA não sei travar. Uma boa forma de aprender com eles é fazer a pergunta “O que posso fazer de diferente na próxima vez?”

Depois temos os erros trapalhões. Estes surgem quando estamos a fazer algo que já dominamos mas estamos completamente distraídos. Acontecem porque somos humanos mas se forem muito repetitivos pode ser uma pista para aumentarmos a nossa capacidade de foco e atenção.

Aprender com os erros e desafios estica-nos e faz-nos aprender muito sobre nós. Esta aprendizagem não é automática, só aprendemos com os erros se refletirmos sobre eles e não os encararmos como inimigos ou focos de vergonha. Ensinar o teu filho a errar é maravilhoso para ele e para ti. Vai ajudá-lo a ir mais longe na sua viagem, a encarar a vida com curiosidade em vez de medo e, a ser mais tolerante consigo e com os outros. Vai desenvolver a criatividade, a resiliência e a autoestima. Vai ensinar-lhe que ele pode crescer todos os dias mais uns bons cms enquanto erra, tropeça e ri.

Errar, afinal, não é assim tão errado.

Filho és, pai serás, assim como fizeres, assim receberás.

Nascemos filhos. E esperamos ser filhos para sempre. Ser mimados, educados, amados. Esperamos que os nossos pais invistam doses cavalares de amor ao longo da nossa vida. Que, quando a vida doer, haja um colo materno. Que quando a vida angustiar, encontremos neles um conselho sábio.

Em adultos esperamos reconhecer a nossa infância nos olhos dos nossos pais. Desejamos, intimamente, atenções miúdas como o nosso prato preferido servido no nosso aniversário.

Não estamos prontos para trocar de lugar nesta relação.
Não estamos preparados para sermos pais dos nossos pais.

É difícil aceitar que os nossos pais envelheçam. Entender que as pequenas limitações que começam a apresentar não são derivadas da preguiça nem representam desdém. Que não é por se esquecerem de dar um recado que não se preocupam com a nossa urgência. Que quando pedem para repetirmos a mesma frase nem sempre significa que já não ouvem tão bem – às vezes, não estão surdos mas a audição está mais distraída que o cérebro. É difícil aceitar a mudança – continuam a ser os nossos “super-heróis”? Já não podemos partilhar a nossa angústia e os nossos problemas todos porque, para eles, tudo tem proporções ainda maiores e é aí tudo se desregula: o ritmo cardíaco, a tensão arterial, o equilíbrio emocional.

Tornamo-nos  cerimoniosos por amor. Tentando poupa-los tudo aquilo que é evitável. Então, sem querer, começamos a inverter os papéis de proteção. Passamos a tentar resguardar os nossos pais dos abalos do mundo.

Dizemos que estamos bem apesar da crise. Amenizamos o diagnóstico do pediatra para que a infecção do neto pareça mais branda. Escondemos as incompreensões do casamento para parecer que construímos uma família eterna. Filtramos a angústia que pode ser passageira em vez de partilharmos todo e qualquer problema. Não precisam de se  preocupar: estaremos bem no final do dia e no final das nossas vidas. Mas, enquanto mudamos estes pequenos detalhes na nossa relação, ficamos um pouco órfãos. Mantemos os olhos abertos nas noites em claro sem podermos correr para o colo dos nossos pais. Escondemos-lhes o medo de perder o emprego, o marido/mulher ou a casa para que não sofram sem necessidade e sentimo-nos sozinhos; não há colo, nem mimos, nem cafuné para nos consolar.

Quanto mais perdem memória, vigor, audição, mais sozinhos nos sentimos. Porque temos dificuldade em aceitar que o inevitável aconteceu. Podemo-nos sentir revoltados. Até esperar que reagissem ao envelhecimento do corpo, que lutassem mais a favor de si. Mas provavelmente eles não têm a mesma consciência que nós, ou aceitaram que não têm como impedir a passagem do tempo ou simplesmente sabem que têm o direito de estar cansados.

Chega um dia em que os nossos pais se transformem no nossos filhos. Que teremos de os chamar para comer, dar os medicamentos, tratar da correspondência. Um dia será preciso conduzi-los nas ruas e dar-lhes as mãos para que não caiam nas escadas. Um dia será preciso vesti-los e pô-los na cama. Talvez até alimentá-los, levando-lhes os talheres à  boca.

E eles serão filhos difíceis porque sabem que são os teus pais. Reagirão às tuas primeiras investidas porque sabem que, no fundo, lhes deves obediência mesmo quando se impõem dar-lhes ordens. Enfraquecerão os teus primeiros argumentos e tentarão provar que ainda podem ser independentes, mesmo quando esse momento tiver passado, porque é difícil imaginarem-se sem o controle total das próprias rotinas. Mas cederão paulatinamente, quando a força física ou mental começar a falhar e puderem encontrar no teu amor por eles o equilíbrio para todas as mudanças que os assustam (e a ti também).

Não será fácil. Não é a lógica da vida. Mesmo que sejas pai, ninguém te preparou para seres pai dos teus pais. E terás de aprender a desempenhar esse papel para protegeres aqueles que mais amas.

Mas, se puderes, sorri diante dos comentários senis ou canta enquanto estiverem em silêncio a comer juntos. Ouve a mesma história como se fosse a primeira e faz perguntas como se tudo fosse inédito. E beija-os na testa com toda a ternura possível, como quando se coloca uma criança na cama, prometendo-lhes que, ao abrir os olhos na manhã seguinte, o mundo ainda estará lá, como antes, intocável.

Porque se chegaste até aqui ao lado dos teus pais com a porta aberta para interferirem nas vidas uns dos outros, foi porque tiveram um longo percurso de companheirismo. E propores-te a viver esse momento com toda a intensidade só demonstrará o quão é grande a tua capacidade de amar e de retribuir o amor que a vida te ofereceu.

 

 

Por Ana Lúcia Gosling, Publicado em Obviouse, adaptado por Up To Kids®

 

A nossa tarefa principal enquanto pais é conseguir que as nossas crianças se tornem adultos capazes de se desenvencilhar no vasto mundo que existe para além das nossas paredes. Tudo o que lhes fazemos – alimentar, vestir, proteger, mimar, educar,… -, é com esse propósito.

Queremos que elas consigam um trabalho que as sustente, que as façam felizes, que consigam ter a sua própria família (se o quiserem, claro), que se rodeiem de pessoas que lhes queiram bem e que consigam realizar tudo o que se desejam. E começamos esse trabalho, consciente ou inconscientemente, desde que elas são pequenas.

Não é uma tarefa fácil. Requerer, tantas vezes, uma paciência que achamos que não temos. É certamente mais fácil dar a comida à boca da nossa criança do que deixá-la tentar acertar sem entornar tudo.

Mas o mais espantoso é que ela rapidamente será um ás na arte de comer sozinha! E será com um grande orgulho que ela o quererá mostrar a todas as pessoas. Claro que também será com muito orgulho que ela irá querer mostrar o domínio da arte de pintura com marcadores – e aí geralmente a tela escolhida será a parede da sala…

À medida que a criança cresce, mais complexas serão as tarefas a si atribuídas, desde vestir-se, tomar banho sozinha, pôr a mesa, escolher a sua roupa, alimentar os animais de estimação, limpar o pó, pôr a loiça na máquina até ir fazer umas pequenas compras na mercearia da esquina. E deixá-la fazer tudo isso, e errar tantas vezes quantas as necessárias, é prepará-la para ser um adulto saudável. Claro que devemos sempre ter em conta sua idade e maturação e evitar dar-lhe tarefas que a frustrem demasiado ou que a possam pôr em perigo: ninguém espera que uma criança de 6 anos consiga fritar um ovo sem ajuda, da mesma forma que ninguém espera que uma de 16 anos não o consiga fazer.

Continuará a ser mais cómodo, rápido e simples fazer as coisas por elas, especialmente quando estamos atrasados, cansados, irritados, com pressa.

Mas vê-los a crescer de forma responsável e saudável, valerá, certamente, mais esse sacrifício.

O teu filho ama-te.

Quando te vê no teu pior a perder a paciência com ele, o teu filho ama-te.

Se lhe dizes que faça algo e ele decide simplesmente ignorar-te.

Quando exige de ti o que achas impossível dar.

Se chega a casa e murmura um “olá” e se vai fechar no quarto, ele ama-te.

Quando repete vezes sem conta que não entendes, que nunca compreenderias.

Se percebes que não te conta toda a verdade.

Mesmo quando vês que procura outros portos de abrigo, ele ama-te.

Se se esquece de enviar a mensagem quando chega ao pé dos amigos à noite.

Se não agradece teres-lhe arranjado as calças preferidas que achava estarem arruinadas para sempre.

Se cada vez sabes mais dele através das redes sociais do que conversando à mesa ao jantar.

Mesmo que faça o contrário do que sempre te prometeu que faria.

Quando te conhece todos os defeitos e, ainda assim, te ama.

O teu filho ama-te pelo simples facto de saber que, haja o que houver, estarás sempre lá. Mesmo que falhe, que não esteja sempre no seu melhor, mesmo que não estejas tu sempre no teu melhor. Têm a relação mais sagrada do mundo e essa relação tem fases. Fases de proximidade, fases em que mal conseguem comunicar, fases em que comunicam como ninguém mesmo em silêncio. O vosso amor pede calma, pede paciência, tem de existir sem pressas. Mesmo quando não acontece como deveria, acabará por voltar aos eixos. Mas não durmas à sombra da bananeira – esta relação sagrada só resistirá se deres, se a regares, se a acarinhares e se a respeitares pelas suas características.

Vai valer a pena.

Por isso, nos momentos em que sentires que podia ser diferente, lembra-te do mais importante: ele ama-te. Incondicionalmente. (E foste tu quem primeiro o ensinou a amar, podes ficar descansada).

Nunca te disse tanta coisa.

Nunca te disse que gosto de ti ou que te amo, também nunca te disse que eras o meu pai preferido ou o meu  super herói dos quadradinhos.

Nunca te disse que tenho poucas memórias da minha infância mas que das poucas que preservo há momentos que me lembro muito bem, como o dia em que quiseste andar na minha bicicleta mas ficaste sem fôlego, ou aquele dia em que fomos á praia e tu davas socos às ondas.

Há coisas que ainda bem que não te disse, como a raiva toda que sentia quando me proibias de sair à noite, quando eras casmurro, tão casmurro como uma porta, ou o que pensei  quando descobri que tu e a mãe não tinham a relação perfeita.

Há coisas que devia ter-te dito. Devias saber que houve alturas em que preferia que me tivesses batido, em que desejei que me tivesses  dado uma palmada porque as tuas palavras ardiam-me no peito.

Há tanta coisa que devia ter-te dito.

Como aquela primeira vez que te vi desaparecer na névoa, tive medo, muito medo. Que valeu a pena a espera mais longa da minha vida só porque te vi acordar novamente. Que passaria por tudo isso alegremente, sem hesitar um segundo e que trocaria as minhas horas por mais dias contigo.

Queria ter-te dito que nunca perdi a esperança. Que nunca me custou ver-te fraco, porque nunca te senti tão forte. Nunca te disse que foste o melhor exemplo de coragem, de força e determinação que eu já vi até hoje. Nunca te disse que espero ser metade mulher daquilo que foste homem.

Nunca te poderei dizer que tenho saudades tuas, que há dias que custam a passar, que há cheiros e sítios que ainda me lembro como teus.

Nunca te poderei dizer tudo o que não te disse, tudo o que devia ter dito, tudo o que calei dentro de mim, mas posso dizer às minhas filhas que a coragem vem de dentro de nós, que as batalhas são  para vencer com humildade, para travar sem medo de perder, e no final  aceitar a derrota como aceitaríamos a vitória, com a certeza que demos tudo de nós para vencer.

Isso eu posso dizer que foste tu que me ensinaste.

image@tumblr

O Manual de instruções do teu filho

Sabes, também eu tenho dúvidas. Também eu me sinto sem forças, sem energia e sem paciência. Sabes, tudo isso é óptimo. São esses desafios, esses tropeções que me fazem ler mais, ouvir mais e abrir-me mais para o que o meu filho tem para me ensinar.

A Parentalidade não é uma ciência exata. É um caminho que fazemos com os nossos filhos e, um caminho que fazemos para dentro de nós. Enquanto os ajudamos a crescer com o seu potencial único, descobrimos o nosso. Enquanto eles sofrem dores de crescimento, também nós temos as nossas. Caminhamos lado a lado e muitas vezes são eles que têm as respostas para as nossas perguntas mais profundas.

Sabes, tu tens o manual de instruções já contigo. É o teu filho que está mesmo aí. Ele vai dizer-te tudo o que precisas de saber sobre ele. Ele vai mostrar-te através do seu comportamento o que ele não consegue comunicar de outra forma. Ele vai ensinar-te muito. Sobre ti e sobre ele. Sobre a tua força e a tua doçura. Sobre a tua resistência e sobre a tua flexibilidade. Sobre o coração dele e sobre o tamanho imenso do teu.

Tu sabes muito mais do que pensas. Mas essa informação não está na tua cabeça, está mais abaixo… no teu coração. Mas como chego lá? Larga esses pensamentos e essas dúvidas de que não fazes o suficiente. De que ele não come a sopa toda ou que não se deita às 20h37. Larga o que diz o amigo, a vizinha do lado ou a educadora da escola. Larga as comparações com outras crianças que já sabem 3 línguas e fazem o pino enquanto tocam piano. Larga tudo isso e olha para ele.

Mas olha mesmo, fundo nos seus olhos e descobre lá tudo o que precisas de saber.

Adaptação na escola

Querida mãe (e ou pai) cujo filho está a fazer a adaptação na escola:

Prepara (e prepara-te) esta nova etapa sem medos (o que não é o mesmo que dizer que não tenhas receios).

Tenta perceber todas as mudanças para que quando o teu filho for confrontado com elas possas saber do que se trata e explicar-lhe o porquê de as coisas serem como são.

É natural que percas algumas horas de sono por causa das novas actividades, dos novos cuidadores, da nova carga de trabalhos que o teu filho vai ter, da alimentação e por aí fora. Permite-te ter as tuas dúvidas mas tenta resolvê-las a todas com tranquilidade.

A adaptação dos nossos filhos a uma nova realidade é também uma adaptação dos pais a essa mesma situação. Se fizeres a tua parte, isso irá facilitar a parte que cabe aos teus filhos.

Dito isto, há uma lista de coisas que deves tentar não esquecer:

– O teu filho é fantástico (e tem nele a capacidade de “enfrentar” o mundo, ou não foste tu quem lhe deu todas essas ferramentas?).

– O teu filho vai ter de se habituar às novas rotinas.

– Vai ter de conhecer as pessoas para ter a possibilidade de criar empatia com elas. Não esperes que goste de toda a gente (quando nem tu, que és adulto, o fazes).

– Dá-lhe tempo.

– Ouve-o.

– Tranquiliza-o.

– Aprende o que ele está a aprender para se sentir acompanhado.

– Desdramatiza. Não adianta chorarem juntos, isso vai acrescentar uma carga dramática emotiva negativa a uma mudança: que ao longo da vida acontecerá múltiplas vezes e que deve desde já ser vista como a oportunidade de algo novo e melhor.

– Participa.

– Não desvalorizes os sentimentos do teu filho: se está a partilhar o que sente aprecia esse momento.

– Está atenta aos sinais, sejam eles positivos ou negativos.

Acima de tudo, respira fundo. Daqui a uns meses vai parecer que as peças estiveram sempre tão bem encaixadas que vais sentir que este início aconteceu numa outra vida: ou pelo menos é este o meu desejo e o meu voto de que tudo corra bem.

Afinal, mudar é evoluir e ser mãe (pai) é crescermos com os nossos filhos.

Este é só mais um degrau e cabe-nos a nós subi-lo da forma mais natural possível.

 

 

imagem@Tu Chique, Coleção Outono/Inverno 2016®

Não há crianças desafiadoras

Tem filhos que o contrapõem?

Que estão sempre a discordar consigo? Crianças que contrapõem o que lhe diz? Crianças persistentes, determinadas, que gostam de levar a sua sempre avante? Crianças que parecem ficar coladas ao chão quando lhe mandam fazer uma coisa? Que não fazem o que lhes diz nos momentos em que lhes diz?

Então parabéns. Tem consigo pessoas saudáveis, extremamente inteligentes, com grandes capacidades de liderança, com opiniões fortes, determinadas, fortes de caracter, persistentes, que – se bem direccionados – terão muito para dar ao mundo.

No entanto, estas ainda são características que fazem pais, educadores e outros especialistas catalogarem as crianças de desafiadoras. Elas respondem, manifestam-se através de expressões faciais, corporais e vocais o seu descontentamento sobre opiniões nossas ou sobre a forma como nos exprimimos. Elas revoltam-se, dizem não, perguntam porquê a toda a hora  e debatem tudo aquilo que lhes dizemos.

Estas são crianças que precisam de perceber a logica de TODAS as coisas, que – se os encorajarmos e lhes dermos asas – compreenderemos que pensam pela sua própria cabeça desde muito cedo, e, se lhes dermos abertura, demonstrarão os seus talentos a conhecer e explorá-los-ão.  Podem ser pessoas pequenas, no entanto, se as observarmos atentamente, elas ensinam-nos TUDO sobre como se devemos agir e interagir com os outros, especialmente com aqueles que pensam e agem de forma diferente da nossa.

São crianças que precisam de muita conexão, compreensão, respeito e aceitação.

Nem sempre conseguem manifestar da forma mais harmoniosa a sua opinião e precisam que lhes ensinemos calmamente e com muita calma. Não são crianças que precisam de ser quebradas. São crianças que, tal como todos nós, precisam de ter – e de sentir –  liberdade para se manifestar. São crianças com convicções, ideias e visões fortes que precisam de ser amparadas de forma gentil, tendo o respeito e a compreensão como linhas mestras ao longo de todo o seu percurso.

Muitas destas crianças, são crianças altamente criativas, enérgicas, com ideais, convicções e gostos muito definidos. Se parar para observar, com certeza vai questionar-se se serão desafiadores ou se estarão a tentar ser ouvidos, escutados, valorizados.

Podemos escolher acolher os nossos filhos tal como são, e deixá-los guiar o caminho, ajustando à sua forma de ser  ou podemos escolher quebrar o seu espírito, travá-los, reduzindo-os a etiquetas ou a categorias redutoras.

Não há crianças desafiadoras.

Tal como tantos outros, esse é um mito criado por uma sociedade de adultos que não compreende o universo infantil na sua essência, uma sociedade feita de adultos para adultos, em que a sede do poder e de ter razão se sobrepõe à partilha do amor, da paz.

Uma sociedade que educa para o TER e não para o SER, que precisa de catalogar para hierarquizar, que avalia a qualidade de um ser humano pelos seus erros em vez de glorificar os seus talentos e o seu valor inato, reduzindo as mais belas características do ser, em vez de elevá-las glorificar e valorizar aquilo que cada um tem de melhor.

Podemos tentar que os nossos filhos sejam aquilo que não são. Ou que sejam aquilo que queremos que sejam. Mas isso é uma ilusão. Os nossos filhos serão aquilo que tiverem de ser. Deixarão a marca no mundo que nasceram para deixar. E é desde a infância que muito deste propósito de cada um de nós se manifesta.

Podemos fazer diferente ou podemos escolher fazer o que os outros fazem, mesmo quando o nosso coração não concorda.

Podemos conduzir os nossos filhos numa direcção oposta àquela que trazem para dar a si próprios e de si próprios, a nós, ao mundo. A escolha é nossa. Podemos catalogá-los ou tentar entendê-los. Escutá-los. Ensiná-los formas gentis de discordar connosco. Porque têm esse direito. Como pais não somos seres omnipotentes. Por mais que muitas vezes achemos que somos. Porque fomos educados assim. Porque os outros nos dizem que é assim.

Não há crianças desafiadoras. Este é um dos grandes mitos acerca das crianças que tem vindo a prejudicar seriamente a forma como ainda educamos os nossos filhos.

Não há crianças desafiadoras.

Se discordarmos vivamente com a opinião de alguém, seremos desafiadores nós próprios? Ou estaremos apenas a querer manifestar a nossa opinião discordante? Imaginemos que alguém nos diz alguma coisa com a qual não concordamos de maneira nenhuma. Uma coisa que nos choca, magoa ou mexe com as nossas convicções. Seremos desafiadores se respondermos? Sabemos sempre responder da forma mais correcta?

Como pais, na maioria das vezes em auto piloto, não conseguimos olhar para o Grande Cenário das coisas. Da vida. Se olharmos para os nossos filhos com outros olhos, é muito interessante –é uma bênção! – viver com crianças com convicções fortes. Por vezes é um desafio. Mas isso não faz delas crianças desafiadoras. Talvez nos revejamos também um pouco nelas quando assim se manifestam e seja para nós difícil gerir as nossas próprias emoções. Será mais isso? Ou será porque aprendemos que os adultos têm voz superior à das crianças?

Por que razão achamos que uma criança com estas características é desafiadora?

Será porque realmente o sentimos ou porque há estímulos exteriores a dizer que é assim? Seremos desafiadores por gostarmos das coisas de uma certa maneira e não de outra? O que nos leva a achar que alguém é desafiador porque questiona ou discorda?

Porque será que de cada vez que uma criança responde ao adulto, expressando uma opinião forte discordante da nossa, aprontamo-nos a afirmar e a cataloga-la como desafiante? Crianças impacientes, que debatem ou se recusam a obedecer são pessoas que precisam de autonomia e espaço de manobra para se manifestarem.

Precisam de amor, compreensão e que os guiemos de forma gentil. Se assim o fizermos, tornar-se-ão adolescentes e adultos saudáveis, responsáveis e com um sentido de justiça fortíssimo.

Crianças com estas características estão nas nossas vidas para nos ensinar a agir de outra forma, a pensar de outra forma. São crianças que vêm instaurar um novo paradigma de educação, se estivermos dispostos a dar-lhes oportunidade de se exteriorizarem.

Estas crianças vêm ensinar-nos que as crianças sabem mais do que aquilo pelo qual lhes damos crédito. Vêm romper padrões, mitos, conceitos pré-estabelecidos.

Na sociedade moderna, a crianças ainda são vistas como seres menores. Elas têm de ser perfeitas. Fazerem o que lhes dizem, não têm quereres, têm de gostar daquilo que lhes dizemos que têm de gostar. Têm de ter boas notas, fazerem tudo o que esperamos delas. Têm de estar prontas no segundo em que as mandamos estar. Não podem falar alto com os pais, ou então são mal-educadas, nem podem responder, senão são desafiadoras. As crianças têm de gostar do que lhes damos para comer, tem de estar caladas porque nós queremos falar.

Mas serão máquinas operadas por comando? Carregamos no botão e elas fazem? Ou são pessoas? Terem os seus próprios gostos? Poderem exprimir-se quando querem e precisam?

Esquecemos que as crianças precisam de falar alto, precisam de revelar os seus gostos, as suas vontades e expor a sua opinião. São pessoas, por que razões não hão-de poder faze-lo? Admitamos que talvez seja porque não nos convém. De que forma vão aprender a pensar por si próprias, saber fazer escolhas, caso não possam exprimir aquilo que é tão natural ao ser humano? As crianças têm direito a cometer erros. Todos os dias. Tal como cada um de nós.

Todos erramos todos os dias, várias vezes por dia. Por que razão exigimos dos nossos filhos que eles sejam perfeitos?

Porque é que exigimos dos nossos filhos aquilo que nos próprios não conseguimos dar, fazer?

Todos somos seres vulneráveis, sensíveis. Todos com direito a ser quem somos. E as crianças também. Cada um a sua maneira, da melhor forma que sabe e pode.

Não há crianças desafiadoras. Há seres, com ideias inovadoras, sonhos próprios e agendas exclusivas que apenas querem expressar a sua voz no mundo.

 

imagem@Thinkstock

Sinais de que uma mãe precisa de férias

Quando coloca a chave do correio na do elevador.

Se dá por ela a fazer o risco nos olhos com um lápis da Caran D’Ache.

Aplica-se a fazer a mochila da natação dos miúdos e, mesmo assim, se esquece dos chinelos, da touca e do fato de banho.

Troca o nome dos filhos constantemente.

Adormece a meio de uma frase.

Usa os óculos de sol como disfarce para adormecer de olhos abertos.

Quando coloca protector solar no boneco preferido da filha e segundos depois percebe que esta a olha com estranheza.

Já só se consegue lembrar de uma canção para entreter os miúdos.

Responde “ok, mas sentados no chão” quando é desafiada para uma partida de futebol.

Adora que os filhos queiram apenas andar de baloiço vezes sem conta, durante toda a estadia no parque, sem precisarem de ser empurrados.

Se a box ameaça apagar os mil e trezentos episódios de séries que tem para ver.

Quando acumula livros que começou a ler, estrategicamente empilhados na mesa-de-cabeceira.

Faz riscos na parede a contar os dias para as férias, qual condenada.

Cria mentalmente cerca de sete listas do que é preciso levar, comprar, deixar feito, pagar, não esquecer mesmo quando sair de casa para os merecidos dias de descanso.

Personaliza atempadamente a mensagem automática de resposta do email do trabalho.

Se acenou com a cabeça em mais de três frases então é crónico: precisa de férias!

imagem@weheartit