A crítica excessiva dos pais mutila o cérebro emocional dos filhos

A educação que recebemos em crianças e o tipo de relacionamento que estabelecemos com os nossos pais deixam-nos marcas profundas ao longo da vida.

A atenção ou a negligência, a crítica ou o elogio, determinam o estilo de apego que iremos desenvolver nas relações futuras. Terá um enorme impacto na imagem que formamos de nós mesmos, na nossa autoestima e na forma como encaramos a vida.

No entanto, tudo parece indicar que as consequências da crítica na infância não se limitam ao nível psicológico, mas também alteram a configuração do cérebro da crianças. Neurocientistas da Universidade Binghamton descobriram que, quando os pais criticam excessivamente os filhos, as áreas do cérebro dedicadas a processar estados emocionais, ficam afetadas.

Crítica constante dos pais bloqueia o processamento emocional das crianças

As crianças podem criticar a maneira como o cérebro percebe e processa a informação emocional? Esta foi a questão que alguns neurocientistas levantaram e, para responder, recrutaram 87 crianças com idades entre 7 e 11 anos.

Primeiro, pediram aos pais que falassem sobre os filhos durante cinco minutos. Assim, conseguiram avaliar o nível de crítica destes pais. Depois analisaram a atividade cerebral das crianças enquanto viam uma série de imagens de rostos que mostravam diferentes emoções. Descobriram que os filhos de pais muito críticos prestavam menos atenção às expressões faciais emocionais, sem conseguir distinguir emoções positivas de negativas.

Na prática, as crianças sujeitas a críticas constantes evitam prestar atenção aos rostos que expressam qualquer tipo de emoção. Obviamente, a longo prazo, tal comportamento poderá afetar as suas relações com terceiros e poderá ser uma das razões pelas quais as crianças expostas a altos níveis de crítica correm maior risco de sofrer de depressão e de ansiedade.

Para evitar o desconforto causado pela crítica, o cérebro infantil é “desconectado”

Todos nós temos tendência a evitar coisas que nos fazem sentir desconfortáveis, ansiosos ou tristes. Mas  observou-se que as crianças cujos pais são muito críticos são mais propensas a usar estratégias para evitar pessoas ou situações que as deixem pouco confortáveis.

Na verdade, é um mecanismo básico de proteção: quando estamos perante uma situação da qual não gostamos mas não podemos escapar, o nosso cérebro tende a “desconectar-se”. É exatamente o que acontece connosco quando estamos numa reunião chata que não nos podemos livrar. No entanto, esta situação é perigosa quando repetida por um longo tempo durante toda a infância, pois o cérebro infantil não será capaz de estabelecer as conexões necessárias para processar adequadamente as informações emocionais.

As crianças que são vítimas de críticas constantes evitam focar e processar as expressões emocionais de raiva, nojo ou desconforto dos pais para não sentirem os sentimentos aversivos que estas geram. Como resultado dessa mutilação do sistema de processamento emocional, também se tornam incapazes de perceber as expressões positivas dos outros.

De facto, não é o primeiro estudo que analisa o impacto no nível cerebral de uma educação negativa.

Pesquisas anteriores realizadas na Harvard Medical School revelaram que os gritos danificam o cérebro infantil, especificamente o vermis cerebelar, uma área fundamental para manter um bom equilíbrio emocional.

Como criticar realmente construtiva para as crianças?

Existem dois tipos de críticas: críticas destrutivas, que não levam a lado nenhum e só geram desconforto; e críticas construtivas, que nos permitem crescer e melhorar algo. Infelizmente, estima-se que 9 em cada 10 críticas “construtivas” realmente não o sejam.

Como podem os pais garantir que as críticas que fazem aos filhos os ajudam realmente?

  • Concentrar-se no comportamento, e não na criança.

Isto significa não usar rótulos que generalizam tais com como “estás/és muito desorganizado”.

Os pais devem ser o mais precisos possível e dizer: “não arrumaste os brinquedos, vais ter de o fazer”.

  • Informe-se antes de criticar.

Muitas vezes criticamos supondo que as nossas conjecturas são verdadeiras.  Portanto, antes de dar vazão à raiva ou ao desapontamento, pergunte o que aconteceu. Ouça a versão da criança e tente entender sua perspectiva, embora não signifique que concorde. No entanto, uma crítica baseada na empatia é muito mais construtiva.

  • Foque-se na solução, em vez de enfatizar o erro.

Todos nós cometemos erros, mas se as críticas permanecerem a esse nível, isso não servirá para crescer. Portanto, é conveniente perguntar à criança o que pode fazer para resolver o problema ou propor diretamente algumas soluções.

  • Introduzir um elemento positivo.

Diz-se que para cada crítica cinco elogios são necessários. Uma no cravo outra na ferradura. Não devemos limitar-nos a destacar o negativo nos nossos filhos, mas também a reforçar as características positivas. Por exemplo, pode dizer: “Ontem apanhaste os brinquedo sem eu ter de chamar a atenção, muito bem. Eu gostava que fosse assim todos os dias. Era sinal de responsabilidade”.

 

Publicado em Rincon de La psicologia, traduzido e adaptado por Up To Kids

A depressão dos que nos rodeiam.

Não tenho nem ligo a redes sociais, fruto de sentir que o impacto muitas vezes era negativo e algo que trazia poucas coisas significativas à minha vida.

Ainda assim e por questões profissionais giro uma conta ligada ao livro que editei no ano passado. Por este motivo “sigo” e sou “seguida” por pessoas um pouco por todo o mundo e tenho acesso a alguma realidades que me são muito importantes para o domínio da escrita e para a forma como falo sobre a realidade e as emoções.

Ultimamente tenho vindo a aperceber-me que existem várias pessoas (a faixa etária encontra-se entre os 19 e os 30 anos) que lutam diariamente com doenças como a depressão.  São pessoas que usam estas redes sociais. Muitas vezes sob o anonimato de contas com uma vertente profissional, para veicular o que sentem e o que lhes passa pela cabeça. E tenho vindo a entrar em contacto com a maior parte delas.

Só esta semana e recorrendo aos stories, por terem uma duração inferior a vinte e quatro horas – o que faz com que o que é partilhado desapareça depois desse tempo – vi pedidos de ajuda camuflados, jovens a falar sobre o desespero que sentem em estarem vivos, o julgamento e pressão que sofrem quando se abrem sobre a doença que têm, a falarem sobre a possibilidade de se suicidarem.

Como mãe (e como ser humano) sou incapaz de seguir a minha vida sem estender a minha mão (virtual, é certo). Porque as redes sociais servem também para isto.

Para que as pessoas sintam que não estão sozinhas, por mais abandonadas e isoladas que se sintam.

Esta geração é muitas vezes julgada por se considerar que não há motivos para tamanha tristeza, porque é uma geração privilegiada, que tem muito mais do que a que os seus pais alguma vez sonhou ter. O pensamento é basicamente “tens uma vida tão boa, por que é que hás-de estar tão triste?”. Li algures que para alguém que está a sofrer de depressão este tipo de comentário é como perguntar a um asmático “se há oxigénio por todo o lado por que raio não consegues respirar em condições?”.

Fala-se também de a depressão ser uma doença de “gente rica”. Que os pobres não têm tempo para ficar a deprimir e isso é algo injusto para os dois lados do expectro. Simplesmente há quem tenha maior possibilidade de pedir ajuda e quem tenha de encontrar formas de funcionar mesmo quando está apenas em piloto automático.

As pessoas que falaram em suicídio mostraram reservas pelos que ficam como sendo um dos maiores motivos para não seguirem em frente. O que em si é de um peso enorme também.

Às vezes vou no metro e dou por mim a pensar que não sabemos realmente nada uns sobre os outros. Só sabemos o que as pessoas partilham, o que escolhem partilhar.

Porque por trás de uma pessoa sorridente, constantemente bem disposta pode estar alguém a passar por uma batalha interna imensa.

E por isso considero que devemos ser sempre gentis, em todas as circunstâncias.

Há famílias que perderam entes queridos e que vivem com a culpa de não ter conseguido antecipar, evitar o que aconteceu. Muitas vezes não há pistas.

Mas muitas vezes elas estão lá.

Temos, algumas vezes sem maldade, a tendência de desvalorizar os sentimentos dos outros. Inclusivamente por querermos que ultrapassem o que estão a sentir.

Acredito que temos de abrir os braços. Fazer chegar às pessoas que nos rodeiam a ideia que são importantes mesmo que não se sintam assim. Que têm um lugar neste mundo, mesmo que o caminho pareça turvo e haja pouca expectativa ou ausência de sonhos. Temos de deixar as pessoas chorar (é tempo de deixar de lado o constrangimento e dizer que faz parte). Temos de aceitar que não vemos todos o mundo da mesma forma, não sentimos a dor da mesma maneira, não temos todos as mesmas ferramentas para lidar com os problemas.

E temos de perceber que muitas vezes não existe “a” razão. Simplesmente a pessoa sente o que sente e ponto final. E isso não deve ser desvalorizado nem relegado para segundo plano porque “devias ver o que é ter problemas a sério”.

Como humanos temos a sorte de ter vindo a desenvolver uma série de competências sociais que nos permitem viver em comunidade. O que nos falta aprender é olhar em volta e perceber como somos todos tão diferentes. Todos capazes de sentir coisas tão profundas que nos fazem pôr em causa a nossa existência.

Como mãe espero que a minha filha seja sempre feliz.

Que encontre sempre formas de ver o copo meio cheio e não meio vazio. Que saiba que pode estar triste, sentar-se ao meu lado e simplesmente estar em silêncio se não quiser falar. Que estou ali para a ouvir se me escolher como receptora das suas verdades. Que mesmo que um dia se sinta desesperada saiba que estou aqui. E que farei o meu melhor para a compreender, mesmo que ela própria possa não conseguir fazê-lo.

A todos os que estão a passar um mau bocado: vai passar, às vezes só é preciso continuar a remar.

A todos os outros que remam sem se aperceberem do esforço que isso requer. Olhemos em volta, ajudemos a remar quem precisa.

 

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Depressão na adolescência: é preciso falar sobre isto.

“Os sintomas de depressão não desaparecem por si. Não são “só uma fase” e exigem que olhemos para eles de frente e com a seriedade que merecem. “

Há, numa mãe ou num pai que perde um filho, uma permanente ferida aberta, que não tolera curativos, nem admite suturas.

Há, na ideia de perder um filho, qualquer coisa que corrói, que envenena, que mata por dentro. Por isso, quando um filho nos diz “quem me dera morrer” há algo em nós que se assusta irremediavelmente. Que se lembra de todas as mães e de todos os pais que ficaram sem mundo, sem chão, sem bem maior. E que sofre com eles, apenas e só, pelo fantasma de uma ideia assim.

A depressão na adolescência faz-se acompanhar por sintomas como a incapacidade de sentir prazer, a desesperança, a culpabilização, a diminuição da concentração e a baixa auto estima.

São também frequentes as alterações no sono e no apetite que, a par da sintomatologia atrás descrita, causam impacto significativo no rendimento escolar. Outro dos sintomas que pode surgir associado à depressão, é a ideação suicida, definida pela presença de pensamentos relacionados com autoagressão ou morte auto infligida, podendo estar ou não ligados a intenção suicida. Mas há algo que temos de saber: Os comportamentos suicidários estão entre as primeiras causas de morte na adolescência.

Por tudo isto, por mais que doa e por mais que assuste, é preciso pensar e falar sobre o assunto, de forma a que possamos compreender e ajudar.

Podemos ajudar sempre que estivermos próximos e quisermos saber mais. 

Não sob a forma de um interrogatório, mas procurando, com tranquilidade, o momento mais oportuno para conversar. Pode ser importante conhecer o que se esconde por detrás da tristeza. Por deytás da desmotivação, do sentimento de inutilidade ou de vazio. Afirmações como: “Sei que às vezes a vida pode ser difícil e gostava de poder ajudar-te”, contribuem para reforçar o amor que lhes temos, fazendo sentir que é para nós importante saber como apoiar. Perguntas como: “Quando é que te sentes mais preocupado?”, “ O que é que gostavas que pudesse ser diferente?”, “Com o que é que está a ser mais difícil lidar?”… favorecem uma compreensão mais profunda do problema, o que por sua vez abre caminho a que possamos, efetivamente, ser um dos suportes que precisam.

Podemos ajudar sempre que formos capazes de aceitar o que estão a sentir. 

Eu sei que enquanto pais, lidar com a dor dos nossos filhos é extremamente difícil. Sei que, naturalmente, a nossa tendência será distraí-los dessa dor. No entanto, quando o sofrimento é psicológico é fundamental ouvir, sem julgar, sem recriminar. Ouvir sem desvalorizar, sem enunciar uma lista de coisas pelas quais deviam sentir-se felizes. Não se sentem, e é importante aceitar esta ideia e receber, sem filtro, as emoções e as experiências dolorosas que vivenciam.

Podemos ajudar sempre que tratarmos com honestidade aquilo que partilham. 

Se falam em suicídio, é importante não evitar o tema. Perguntar: “Quando falas em querer morrer, estás a pensar em matar-te?” ou “Toda a dor que sentes já te fez pensar em magoares-te?”, permite explorar se existem planos mais definidos a este nível, não contribuindo para alimentar a ideia (que é muitas vezes um dos nossos medos), mas mostrando disponibilidade e abertura.

E finalmente podemos ajudar, sempre que confiamos no nosso instinto e procuramos ajuda. 

Os sintomas de depressão na adolescência não desaparecem por si. Não são “só uma fase” e exigem que olhemos para eles de frente e com a seriedade que merecem. A identificação conjunta de alguns recursos como o do acompanhamento psicológico, é fundamental para que se sintam mais apoiados e possam aprender a olhar de uma forma positiva para dentro de si e a desenvolver estratégias mais adaptativas para lidar com os desafios do mundo externo.

Falar sobre a morte com aqueles a quem demos vida, pode ser extraordinariamente assustador, mas pode também significar-lhes o alívio, o alento e a aceitação de que precisam no momento. Para depois agarrar a vontade de outros amanhãs…

A esquizofrenia é uma doença mental crónica, incurável, que limita o doente ao nível escolar, profissional e das relações afectivas e sociais. O diagnóstico surge, frequentemente, no final da juventude ou da adolescência. Nos homens inicia-se, maioritariamente, entre os 15 e os 25 anos e nas mulheres entre os 25 e os 30 anos. No geral, permanece durante toda a vida, alternando períodos de melhoria com recaídas.

As causas da esquizofrenia ainda não são totalmente conhecidas. Porém, sabe-se que intervém alguns factores biológicos:

– Genes: se um dos progenitores for esquizofrénico, há uma probabilidade, de 10 a 15% de os filhos também virem a sê-lo. Se os dois progenitores tiverem a doença, o risco aumenta para 40%. Sendo os filhos gémeos, a probabilidade é de 10% para os falsos e 50% para os verdadeiros;

– Estado de saúde da mãe durante a gravidez e parto: desnutrição, infeções virais e complicações durante o parto;

– Desenvolvimento neurológico com alterações: os doentes apresentam alterações anatómicas nalgumas zonas do sistema nervoso;

– Alterações nos neurotransmissores que actuam ao nível das emoções;

– Acontecimentos de vida causadores de stress;

– Vicio de álcool ou drogas.

Sinais de alerta

Os primeiros sinais de alerta são a irritabilidade, o medo, as dificuldades de raciocínio, os sentimentos de estranheza às experiências diferentes do habitual, perturbações ao nível do pensamento, as alucinações (auditivas, visuais, cinestésicas), os delírios, o discurso confuso, pobre e incoerente, comportamento invulgar e desordenado, reduzida expressão das emoções, de menores apetências sociais, da tendência para o isolamento. A doença pode manifestar-se bruscamente, em dias ou semanas, ou pode ser gradualmente evolutiva. Neste último caso é mais problemática, porque como começou por passar despercebida, o doente não recorreu logo de início ao tratamento.

A depressão é um problema frequente dos esquizofrénicos, mas não está definida como característica desta doença. Contudo, quando existe está associada a um pior prognóstico. Considera-se que a depressão surge como reação às consequências da esquizofrenia e leva cerca de 10% destes pacientes ao suicídio.

Patologias similares à esquizofrenia

Patologias similares à esquizofrenia são:

-a doença bipolar;

-a perturbação de personalidade borderline;

-o autismo;

-algumas lesões cerebrais e doenças neurológicas, metabólicas ou infecciosas.

Para além do consumo de drogas ilegais, alguns medicamentos e intoxicações por metais pesados podem também ter efeitos semelhantes aos da esquizofrenia. Então, o primeiro passo para identificar a doença será analisar a história clínica (doenças e medicação) do doente, antecedentes familiares e dados do período fetal, consumo abusivo de álcool e drogas, exame físico e avaliação neuropsicológica, funcionamento renal, fígado e tiroide.

Comparativamente a alguns casos de autismo, na esquizofrenia – que implica um limiar de organização mental superior – não se verifica uma evolução positiva. Muitos autistas têm dificuldade em chegar a um sentimento de consciência central; os esquizofrénicos perdem esse sentimento de consciência central.

Nas idades mais jovens há maior tendência a confundir a fantasia própria da idade, com o delírio, causando alguma dificuldade ao diagnóstico. Daí a importância de não “atacarmos” o delírio, mas entendermos as inspirações e o nível cultural de retaguarda, por exemplo. Independentemente, o doente pode apresentar nível intelectual superior.

Outro alerta aos pais prende-se com o facto de uma percentagem significativa dos pacientes esquizofrénicos serem abusados sexualmente.

Tratamento

A eficácia do tratamento da esquizofrenia depende do tempo decorrido entre o aparecimento das alucinações ou delírios e o início da medicação (é preciso ter em conta que os medicamentos podem demorar 4 a 9 semanas a produzir efeito). As terapias psicossociais podem ser úteis, como complemento dos medicamentos, sobretudo para doentes com sintomas psicóticos controlados. Aqui o objectivo é ajudar o doente a relacionar-se com os outros e a controlar o stress. Aliás, todas as medidas que contribuam para reduzir o stress como a prática de desporto, podem ajudar no controlo da doença. E o apoio dos professores na integração destas crianças também é extraordinário.

Todavia, a importância da colaboração da família directa, pais ou outros cuidadores, é fundamental. Porque a criança ou jovem vive no seio de uma família, logo, teremos de intervir, também, a esse nível. Mesmo (ou sobretudo) quando antes idealizamos a infância das nossas crianças. Como defende Coimbra de Matos, não se pode fazer psicoterapia sem se fazer história. Efectivamente, há sempre uma força transgeracional, recente, familiar.

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A ansiedade é mais comum nas pessoas do que se possa imaginar. Estas são algumas das coisas que fazes por causa da ansiedade, mas que ninguém se apercebe.

1. Negas alguns convites mesmo quando gostavas mesmo de ir

Algumas vezes a ansiedade pode ser tão debilitante, que não consegues ter energia suficiente para sair. Não importa se estavas animada para um evento, quando chega o dia, a  ansiedade entra em pleno vigor e já não vais. Como não queres ser um fardo para ninguém a melhor opção, no teu ponto de vista, é não ir.

 2. Ficas obcecada por coisas que as pessoas normalmente não pensariam duas vezes

Ficas obcecada com tudo na tua cabeça. Muito provavelmente, as coisas com as quais te preocupas nunca iriam habitar a mente de alguém que não tem ansiedade. Talvez fiques a “ruminar” uma conversa que tiveste na semana passada, ou a forma como o teu chefe te encarou no outro dia. Talvez “rumines” o facto de que teu namorado não te mandou uma mensagem num dia em que tu disseste algo que o pudesse ter chateado. Seja o que for, é difícil para as pessoas sem ansiedade entender por que tu estás tão obcecada por coisas que nem sequer são importantes para eles.

3. Acordas sempre muito cedo (mesmo quando estás cansada)

O sono é sempre um problema para ti. É difícil conseguires iniciar o sono porque tens tantas coisas para digerir e refletir sobre o dia que acabaste de ter… A tua mente nunca parece desligar e, por isso mesmo, quando acordas já tens as preocupações a pipocar. Costumas acordar mesmo cedo, as vezes, a ver se consegues fazer tudo o que tens que fazer em tempo hábil. Continuar a dormir é também, definitivamente, um desafio para ti já que não podes desligar a tua ansiedade uma vez que já estás acordada.

4. Esperas pelo pior desfecho em todas as situações

Antes daquele primeiro encontro, estás convencida de que tudo correrá terrivelmente mal. Antes de voar, imaginas tudo a cair aos pedaços. Antes de fazer uma viagem de carro, tens medo de acidentes. Quando ficas doente, tens medo de que haja algo realmente errado contigo. A lista continua e continua, e parece ridículo para os outros. Mas e para ti? São medos reais! São reais… para ti.

5. Fazes replay das conversas na tua cabeça

Tentas evitar discussões a todo custo, porque sabes que isso aumenta a tua ansiedade. Ainda assim, quando tens alguma discussão, ou até mesmo uma conversa que possa parecer agradável para a outra pessoa, continuas a pensar sobre isso depois de tudo ter sido dito e feito. Não consegues tirar isso da cabeça e sempre achas que disseste algo errado. Isso pode corroer-te por dentro e forças-te a lembrar que é só a tua ansiedade a falar, e que todo o resto é provável que esteja bem.

6. Preocupas-te contigo própria quando os outros estão preocupados contigo

Se as pessoas perguntam se estás bem enquanto estás a ter um ataque de ansiedade, ou se as pessoas falam para ti quando estás imersa em pensamentos negativos, faz com que a tua ansiedade piore. Claro que eles falam com boas intenções, mas se os outros se preocupam contigo, isso faz com que penses – “Se eles estão preocupados, então eu deveria preocupar-me ainda mais comigo mesma!”

7. Pensas que a culpa é tua quando alguém não te responde imediatamente

Não importa se é o teu namorado, tua melhor amiga ou a tua irmã, ficas sempre abalada quando não te respondem. As pessoas sem ansiedade, geralmente, não prestariam atenção à demora na resposta, mas para ti isso é realmente um sinal de alerta. Normalmente, quando as pessoas não respondem uma mensagem tua, sentes-te culpada porque achas que fizeste algo de errado, quando muito provavelmente, eles são apenas terrível em se comunicarem.

8. As vezes sentes que estás a ter um colapso nervoso quando falam sobre o futuro

O futuro é um grande gatilho para a tua ansiedade, por isso costumas detestar quando te perguntam quais são os teus planos para os próximos cinco anos. Terminar a secundária e a faculdade para a maioria das pessoas é incrível, mas para ti pode ser extremamente difícil e assustador. Não gostas que os outros falem sobre os seus próprios planos para o futuro porque isso faz com que sintas que não és boa o suficiente.

9. Comparas constantemente o teu sucesso com o de outras pessoas que tem a mesma idade que tu

Tu vês constantemente no teu Facebook que as pessoas da tua idade estão a conseguir empregos de sonho e isso faz a tua cabeça querer explodir. Não tens intenção de te comparar aos outros, mas, por vezes, a tua ansiedade ganha e tu não consegues evitar. Preocupas-te se algum dia chegarás à altura deles e se os teus objetivos algum dia se tornarão realidade.

10. Fazes replay sobre cada erro que cometes e sentes culpa por isso

Especialmente se cometeres um erro no trabalho, isso consome os teus pensamentos e pode arruinar o teu dia, ou mesmo algumas das tuas semanas. Constantemente fazes um esforço para dar o melhor de ti, mas quando acidentalmente envias algo que não era suposto, ou quando fazes algo que não deverias fazer, ficas extremamente desapontada contigo própria. A ansiedade pode realmente ser a tua pior inimiga.

11. Há dias que estás demasiado exausta física e mentalmente – até para sair da cama

Há dias que a tua ansiedade pode ser tão forte, que tu realmente sentes-te incapaz de fazer qualquer coisa, a não ser ficar deitada na cama. Às vezes, o mundo pode parecer demasiado complexo para tua mente, e precisas de alguns dias de folga para descansar. A ansiedade pode ter um enorme efeito sobre a nossa saúde, e não pode ser “varrida para debaixo do tapete”. Ela pode ser verdadeiramente prejudicial, e muitas pessoas não compreendem os efeitos que ela pode ter sobre um indivíduo.

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7 Indícios preocupantes de que estás psicologicamente esgotada

Já te sentiste esgotada ao ponto de perderes o ânimo para enfrentar o dia-a-dia? De não conseguires sentir-te feliz e tudo e todos te irritam?

Pois eu já…

É muito comum confundir-se esgotamento psicológico com depressão pois os sintomas são idênticos. O esgotamento está geralmente associado ao stress do trabalho e ao desgaste mental. A Depressão pode ou não estar relacionada com a vertente profissional.

Uma pessoa com um esgotamento psicológico apresenta uma dificuldade de concentração acentuada reflectindo-se num número de lapsos cognitivos consecutivos tais como dizer coisas sem nexo, esquecer-se de palavras ou avançar sem se aperceber que o sinal estava vermelho.

Segundo estudos realizados, verificou-se que os homens apresentam mais dificuldade em assumir que estão esgotados. Muitos ainda acreditam que isso seria um sinal de fraqueza. Outros estão tão absorvidos em prover as necessidades materiais da família que não admitem que possam já ter ultrapassado o próprio limite. As consequências disso podem ser desastrosas.

Apesar das mulheres estarem mais atentas aos sinais, quando são mães tendem a atribuir os sintomas às “maravilhas” da maternidade, relevando a importância dos mesmos e acabando por não procurar ajuda especializada.

Por isso se és homem – atento aos sintomas; se és mulher – reflete; se és mãe – cai na real, se te identificaste com mais de metade destes comportamentos, procura ajuda!

  1. Quando te descontrolas por tudo e por nada – Tempestade num copo de água
    O mais novo entornou cereais pela casa fora. Numa situação normal poderia ser um motivo de riso, seguido de uma explicação de que tem de ter mais cuidado e no fim, limpariam juntos o chão.
    Em caso de esgotamento salta-te a tampa assim que te apercebes do que aconteceu. O miúdo vai levar com 3 gritos e 4 palmadas no rabo que lhe aceleram o passo até à cama.
    As tuas capacidades mentais estão reduzidas ao ponto de não conseguires distinguir com clareza um problema simples de algo realmente importante, e perdeste o controlo.
  2. Cansaço crónico
    Acordas exausta. E sabes que não é porque o bebé não dormiu nessa noite (até porque o bebé não dorme há 6 meses) ou  porque trabalhaste até tarde na véspera. Não se trata de um cansaço pontual sim um sentimento constante de cansaço. Sentes-te sempre cansada, sobrecarregada, exausta, farta.
  3. Imunidade deficiente
    A adrenalina que o corpo produz nas situações de stress e que te ajuda a estar alerta produz grandes estragos no sistema imunológico. Tens tendência a ficar doente com frequência. Ou são constipações, ou crises de alergia, ou enxaquecas, dores de estômago ou até palpitações no coração. Está na altura de abrandares.
  4. Sentimento de ineficácia
    Sentes que não consegues atingir os teus objectivos a curto prazo. O cansaço leva-te à desorganização e não sabes por onde começar. Tens várias tarefas por concluir porque não te concentras verdadeiramente em nenhuma. Sentes-te menos capaz perante desafios pontuais a nível profissional e a tua autoestima começa a ressentir-se
  5. Apatia generalizada
    O entusiasmo pela vida profissional começa a desvanecer-se e só te apetece arranjar uma desculpa para não ir trabalhar todos os dias. Tudo e todos são motivos de descontentamento e dás por ti a odiar mais de metade das pessoas com quem sempre trabalhaste. Perdes a motivação, e vais para o emprego fazer os mínimos porque pura e simplesmente estás-te a borrifar.
  6. Sempre a 1000Km/h
    Andas sempre a 1000Km/h e não tens tempo para abrandar. A tua vida não te permite e esse já é o teu ritmo normal.
    É urgente que encontres espaço e tempo para recuperar, nem que seja em pequenos intervalos. Tens de dormir à noite, tens de ter hobbies, tens de ter vida social.
  7. Muito trabalho e poucos recursos de trabalho
    Sendo que o trabalho é tudo aquilo que precisa de ser feito  e, consequentemente, consome esforço e energia. Os recursos de trabalho, neste caso, são a motivação que nos ajuda a atingir os objetivos.
    Ter muito trabalho não significa que seja necessariamente uma coisa prejudicial. Mas como consome energia tem de ser, obrigatoriamente, equilibrado com os recursos.
    O dinheiro é um recurso de trabalho muito importante – a expectativa da remuneração motiva a concluir, a ser eficaz. Mas esse não deve ser o único recurso de trabalho. A alegria e a satisfação decorrentes da atividade exercida são muito importantes (talvez até mais que o dinheiro!).
    Por exemplo, nem todos têm a oportunidade de fazer profissionalmente o que realmente gostam. Mas todos têm a oportunidade de usar seus dons e talentos no serviço de voluntariado. O voluntariado não tem retorno financeiro, mas traz importantes recursos de trabalho como a alegria, o amor ao próximo e a gratidão. Recursos esses que dão energia para fazer todas as outras coisas. E por isso é que o voluntariado é tão gratificante.

O esgotamento tem sido descrito como o maior risco profissional do século XXI.
Pesquisas recentes demonstram que as pessoas mais perfeccionistas têm um risco muito maior de esgotamento. O padrão de perfeição criado consome muita energia, o que leva a um desgaste ainda maior. Neste caso é urgente avaliar de forma real se a perfeição é essencial para cada projeto específico. A resposta geralmente é “não”.

Conheceres os sintomas de um esgotamento e saber como diminuir os seus efeitos é o primeiro passo importante rumo a uma vida plena e feliz.

 

  • Aydemir, O., & Icelli, I. (2013).  Burnout: risk factors. In Burnout for Experts, 119-143 (Sabine Bahrer-Kohler, Ed.) London, England: Springer.
  • Leiter, M.P., & Maslach, C. (2005). Banishing Burnout.  San Francisco, CA: Jossey-Bass.

A depressão pós-parto não é banal

Muitas vezes vemos posts, cartoons, textos e desabafos acerca de uma mãe extremamente cansada e esgotada, quando percorremos as redes sociais.

Efetivamente, a maternidade exige uma grande mudança, implicando uma alteração ao estilo de vida, diminuindo a disponibilidade para outras tarefas e mudando a identidade da mulher. No entanto, não podemos confundir estas alterações normais e saudáveis com uma depressão pós-parto. É negligente desvalorizar sentimentos tão fortes e intensos que constituem uma patologia bem descrita e conhecida.

Banalizar o sofrimento não acaba com ele e pode levar a que uma mulher deprimida não peça ajuda, podendo pensar que é normal que se sinta assim tão em baixo. Na realidade, não é normal estar deprimido em nenhuma fase da vida, incluindo no puerpério e, mais à frente, no decorrer da infância da criança.

A depressão é uma doença e pode ser tratada com a ajuda certa. A psicoterapia torna-se uma ferramenta fundamental para ultrapassar esta patologia e para evitar futuras recaídas, a par com a avaliação do médico para eventual intervenção psicofarmacológica. Uma depressão pós-parto que não é tratada, pode perdurar anos e não é raro receber pacientes em consulta com queixas depressivas que, ao procurarmos o início dos sintomas, vamos encontrar o nascimento de um filho que pode até já ser adolescente.

Diferente do blues pós-parto, em que existe uma perturbação breve e moderada do humor, num número muito elevado de mulheres, e também diferente da psicose puerperal, que atinge um número reduzido de mulheres e que se trata de uma perturbação psicopatológica grave, a depressão pós-parto surge por volta do 2.º ou 3.º mês após o nascimento do bebé. Os sintomas podem ser menosprezados porque estão associados ao cansaço e ao desgaste provocados pela acumulação dos cuidados a prestar ao bebé. No entanto, importa perceber se estes sintomas são intensos e permanecem no tempo: tristeza, perda de interesse, alterações no apetite, perturbações do sono, perda de energia, pessimismo ou culpabilidade, ideação suicida. Paralelamente, na depressão pós-parto os sintomas físicos costumam estar mais exacerbados: cefaleias, cansaço extremo, choro fácil, etc.. De acordo com a literatura, existem poucas evidências de que a depressão pós-parto esteja associada apenas a mecanismos biológicos (alterações hormonais e metabólicas). Neste sentido, muitos autores têm evidenciado a importância dos fatores biológicos, obstétricos, sociais e psicológicos como causas conjuntas para a depressão pós-parto.

O suporte social é fundamental na prevenção da depressão pós-parto, com o cônjuge e a família como prestadores principais da mulher.

Uma gravidez não desejada, as dificuldades na amamentação ou um parto difícil, podem ser o rastilho para o declínio do bem estar psicológico da mãe.

Importa aqui salientar que uma mãe deprimida está em sofrimento e precisa de ajuda. A culpabilidade característica da doença, juntamente com a conivência do exterior, pode levar esta mãe a não pedir ajuda, afetando a evolução dos sintomas, a relação conjugal e a relação mãe-bebé. A mãe deprimida pode sentir-se menos competente, menos ligada emocionalmente ao bebé, mais dependente de terceiros e mais isolada socialmente. E assim chegamos de um extremo a outro: num lado temos a “super-mãe”, fiel aos seus instintos, capaz de tudo, cuidadora incansável e ultra-resistente à frustração; do outro lado temos uma mãe que luta contra todas as dificuldades, internas, físicas e do exterior e que acaba o dia desesperada, mas que recebe uma certa confirmação do senso comum de que é normal sentir-se assim.

Nenhuma mãe é perfeita, mas é suposto que possa viver a maternidade de uma forma positiva e satisfatória.

Não isenta de frustrações, a maternidade dá à mulher uma resposta emocional sobre que filha fomos e que mãe somos agora… em que mulher nos tornámos. E é suposto que sejamos capazes de usufruir do lado positivo da maternidade, sem lentes depressivas que ofusquem essa maravilhosa experiência.

A depressão pós-parto não é banal e deve ser tratada.

Por Marta Russo, Psicóloga Clínica /Psicoterapeuta, Healthy Mommy

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Eu não queria estar aqui mas a minha mãe obrigou-me!

E porque é que achas que a tua mãe quis que viesses falar comigo?

Porque eu já tentei suicidar-me e quero voltar a fazê-lo, aliás já tenho tudo planeado e sei exatamente como e quando isso vai acontecer.

Enquanto falava, um arrepio percorreu-me a espinha e um frio gelado, daqueles que vem mesmo do Pólo Norte apoderou-se de mim e por segundos, que pareceram intermináveis, dei por mim sem saber o que dizer perante aquela informação, acho que sobretudo pela forma fria e distante como falava sobre por fim à sua própria vida. Ao mesmo tempo, uma onda de compaixão apoderava-se de mim e só tinha vontade de o pegar ao colo e lhe dizer que tudo iria ficar bem. Não podia fazer nada disso… Respirei fundo para voltar a centrar-me.

A consulta acabou por correr bem e embora aparentemente tivesse ido obrigado pela mãe, quis voltar na semana seguinte. Nas primeiras sessões funcionei como “alguidar” para conter tudo aquilo que precisava de vomitar sobre o pai, a mãe, os irmãos, a anterior terapeuta e as miúdas….. Não confia em ninguém e foi sempre testando a minha capacidade de ficar com ele, independentemente da frieza com que falava sobre determinados conteúdos ou pessoas e a minha capacidade de manter a confidencialidade dos seus assuntos.

Frequentemente testava a minha fidelidade e a minha ética profissional. Já conhecia a manipulação que existia por parte da família e queria perceber se eu iria conseguir manter-me distante. Às vezes derrapamos e acabamos enredados nas teias familiares, mas neste caso mantive-me firme. Sabia que qualquer palavra ou passo em falso poderia inviabilizar a sua terapia, tal como já tinha acontecido anteriormente.

Não estou bem, mas também não estou mal, ou pelo menos já estou habituado a estar assim, já conheço e prefiro continuar a pisar em terreno conhecido”…. “Neutro” tudo é mais fácil.

Consigo compreendê-lo quando me diz que não se sente mal, que já está habituado a viver assim e que não sabe como será sentir de outra maneira! Na verdade o que ele me está a dizer é que tem medo! Medo de não saber viver com outros sentimentos, medo das oscilações de humor, medo de ter esperança e do tombo que pode sentir depois de experimentar a alegria ou o prazer….

Algumas pessoas descrevem a depressão como “viver num buraco negro” ou ter um sentimento de tristeza constante. Na verdade não é bem assim! Algumas pessoas deprimidas não se sentem constantemente tristes e nem a tristeza comum é sinal de depressão. Sentem sim falta de sentido e significado na sua existência, como se a vida fosse vazia e apática… Evidenciam comportamentos e atitudes de indiferença, letargia, falta de prazer, perda de interesse, agressividade, isolamento, falta de motivação, falta de esperança, abatimento, cansaço e incapacidade de tomar decisões…

Segundo Coimbra de Matos, pode haver depressão sem tristeza, mas seguramente não pode existir depressão sem abatimento.

Seja qual for o sintoma, a depressão é diferente da tristeza comum ou da simples desmotivação. A depressão interfere no dia-a-dia e altera a nossa capacidade de trabalhar, estudar, comer, dormir e ter prazer. Ficam parados e vazios, sem energia para concretizar e muito menos para sentir…. Limitam o contacto consigo próprios e com a vida! Os sentimentos de desamparo, desesperança e inutilidade são intensos e implacáveis.

Esse estado “neutro” sobre o qual tantos adolescentes falam, protege-os do sofrimento mas também lhes inibem a alegria, o prazer e isola-os.

A internet e os jogos de computador têm sido o verdadeiro refúgio desta geração, que se por um lado lhes permite manter algum contacto com o mundo e com as pessoas, ainda que virtual, por outro distorce a noção de relacionamento interpessoal e aumenta o medo e a ansiedade das relações “cara a cara”, chegando por vezes mesmo a desenvolver um estado de fobia social.

Precisamos estar atentos a esta que é uma das maiores doenças da atualidade. A depressão é uma perturbação que envolve o corpo, o humor, os comportamentos e os pensamentos…

Passados alguns meses continua a querer ir à terapia, passou de ano mas continua a ter muitas resistências em tratar-se verdadeiramente…

É o medo da vida que ainda o comanda!

Existem inúmeros momentos no desenvolvimento psíquico de uma criança que deslumbram os adultos e dão conta da complexidade da mente infantil. Argumentavelmente, um dos momentos mais interessantes é quando a criança adquire a capacidade de mentir e omitir.

Na mentira a criança encontra um escape da realidade por via da expressão do desejo: ‘o meu pai construiu esta ponte’. Outras vezes evita o desprazer de ser castigado: ‘não, não fui eu que fiz‘.

Ainda outras vezes vemos as crianças completamente silenciosas (que o adulto sabe que bom sinal não será). Em princípio a omissão será uma forma específica de mentira, ao serviço do evitamento do desprazer.

Digo que estes fenómenos são, argumentavelmente, importantes não só porque assim podemos observar o desenvolvimento da moralidade na criança, mas sobretudo porque trata-se um marco importante da distinção entre o ‘eu’ e o ‘não-eu’.

Se esta diferenciação não existisse não haveria propósito na mentira, nem tampouco na omissão, uma vez que o outro, magicamente, fusionalmente, simbioticamente saberia no que estou a pensar.

Relembro o título de uma importante obra do filósofo francês Paul Ricoeur: o si-mesmo como um outro. Neste trabalho o autor mostra, à boa maneira estruturalista, como o ‘eu’ pode ser compreendido com um ‘outro’.

Obtemos assim a possibilidade de mentir de nós-para-nós. Certos pensamentos e sentimentos que acabam por ser negados, escotomizados, recalcados, reprimidos (esquecidos) ou projectados. Isto é muito evidente na clínica do adulto, mas torna-se particularmente transparente na clínica infantil.

Quais as consequências desta mentira/negação? Como se comporta então uma criança deprimida? Se está à espera de manifestações depressivas como as encontramos no adulto desengane-se. Em termos bioquímicos trata-se do mesmo padrão, o substrato orgânico mantém-se, mas o padrão comportamental não, porquê?

Antes de avançarmos para as possibilidades clínicas da depressão infantil, gostaria que o leitor reflectisse sobre as funções da depressividade.

Porque deprimimos/entristecermos? A visão pós-moderna e materialista da depressão entende-a como um erro, um desiquilibrio (neuroquímico), um estorvo. Mas se a capacidade de entristecer é comum à espécie humana (a psicologia comparativa e etologia acrescentariam ao mundo animal) não estaremos a falar de algo que faz parte da própria natureza (pelo menos) humana? Em termos darwinianos, porque raio é que está característica terá sido seleccionada naturalmente?

Talvez o génio e o estilo peculiar do psiquiatra e psicanalistas António Coimbra de Matos nos ajude a clarificar pelo menos uma das funções da depressão, a saber: tratar dos lixos tóxicos. Restituiu-se assim o verdadeiro estatuto funcional da ‘depressão’.

A depressão, bem como as suas características (no adulto) – como são a lentificação, a inércia, a introspecção e a introversão – têm, neste sentido, um significado quase digestivo, aplicado à mente. O indivíduo rumina, mastiga, digere, elabora sobre episódios difíceis. No adulto, e de forma simplista/linear, assumimos que algum episódio despertou ou precipitou no sujeito um estado depressivo (reactivo) que tem por função ‘tratar o lixo tóxico’.

No adulto este esquema torna-se possível porque tem acesso a um sistema simbólico evoluído (digestivo) – a linguagem – e pode fazer tentativas de atribuição de significado aos acontecimentos depressivos. A criança não tem a mesma sorte…

Mesmo nos casos onde observamos uma boa capacidade de articulação e de raciocínio verbal (na criança) a capacidade de atribuição de significado está comprometida, até porque, não raras vezes, o que o deprime é o que faz parte do seu contexto mais próximo – a família – e a criança, diferentemente do adulto, não lhe pode fugir nem fazer frente. Pode então mentir de si-para-si e de si-para-o-outro… negando, recalcando, reprimindo, projectando…

Neste sentido as manifestações mais típicas de depressão na infância não passam pela visão clássica – deitar-se na cama com estores fechados a chorar sem querer ver ninguém.

A visão mais clássica da depressão da infância, na realidade é contrária e extremamente diversificada: agitação muito intensa, dificuldade em manter a atenção (combinação explosiva que a psiquiatria e psicologia moderna gostam de rotular de hiperactividade com défice de atenção), comportamentos de oposição, irritabilidade, delinquência, debilidade cognitiva, confabulações, somatizações, insónias, terrores nocturnos, enurese Enfim, poder-se-à afirmar que as manifestações da depressividade na criança apanham todo o espectro conhecido da psicopatologia. Dito de outro modo, é como se as manifestações clínicas fossem construções em cima da depressão.

Dada a sua diversidade não é de espantar que, ao olhar do adulto, a depressão infantil passe despercebida, muda, amordaçada pelos sintomas satélite que orbitam à sua volta. E assim se fecha o ciclo depressivo retornando à solidão não-vista e não-sentida.

Dr. Fábio Veríssimo Mateus

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Síndroma do Ninho Vazio

O tempo parece passar por nós mais rápido do que o desejado. Parece que é insuficiente para usufruímos de todos os momentos em que os nossos filhos são pequenos e indefesos e num ápice eles já leem, já privilegiam mais o tempo com o grupo de amigos do que com os pais, já entraram para a universidade, para o mundo do trabalho, aventuram-se num país estrangeiro, namoram, partem para uma relação conjugal… Enfim, quando damos conta eles cresceram e tornaram-se autónomos.

Diz-se que “é a vida”, que os filhos “não são nossos, são do mundo”… é, na perspectiva integrativa, a função biológica de mãos dadas com a função social.

Contudo, apesar de se concordar que faz parte da vida, a aceitação nem sempre se verifica e aquando da independência dos filhos, muitos pais sentem-se menos importantes na vida dos descendentes, abandonados e tristes. Não raramente, o silêncio e a solidão passam a predominar na casa paterna.

Quando os filhos saem de casa

A Síndroma do Ninho Vazio surge dessa auto-centralização, desse sentimento de dependência e de perda do papel da função de pais, dessa tristeza que os pais começam por experienciar e que pode transformar-se em depressão.

Estatisticamente, estes sintomas afectam mais a mãe do que o pai. Geralmente coincidindo com a fase de menopausa e com o turbilhão de emoções associado, a mulher sente a sua função reprodutora esvanecer, sente-se envelhecida, com o seu papel tradicional enquanto cuidadora da família a perder importância, com auto imagem e auto estima reduzidas.

O investimento numa vida mais dedicada aos outros do que a si própria gera também uma conjuntura propícia à patologia e, consequentemente, afecta as relações familiares.

No entanto, tal não significa que os homens também não vivenciem os mesmos sentimentos e demonstrem vulnerabilidade durante este período de adaptação. Podem é reagir de forma diferente da mulher, acomodando-se à nova situação mais facilmente (o que, por outro lado, também pode agudizar os conflitos conjugais).

Características da personalidade medeiam também o modo como pai e mãe lidam com a separação dos filhos.

No geral, verifica-se que indivíduos mais auto vitimizados, histriónicos, sugestionáveis, dramáticos são os que sofrem mais com a situação. Por outro lado, factores externos como o motivo da saída do filho podem igualmente minimizar ou maximizar a intensidade do sofrimento e a adaptação. Se os pais sentirem que a separação traz mais-valias a mesma é melhor elaborada e portanto, torna-se menos dolorosa e mais tranquila.

Esta passagem por um processo mais ansiogénico e de dualidade de sentimentos faz parte do ciclo de vida. A transição para um estado de (re)estruturação familiar consegue-se através da aceitação dos períodos de crescimento, de maturidade e de declínio, inerentes a qualquer ciclo vital e que em si incluem perdas e ganhos biológicos e sociais. Enfrentando um estado que sabemos ser natural, porque no passado também fomos actores da mesma mudança e as gerações anteriores a nós igualmente, que tal assumirmos a nossa (boa) parte, enquanto pais, na educação para a independência dos filhos e também gozarmos esses louros?

A Síndroma do Ninho Vazio é pontual, logo, mais facilmente pode ser superada.

Se o nosso papel enquanto pais muda e se torna mais distante (mas não desaparece), então, há que proceder a ajustamentos da nossa parte, como por exemplo:

– Partilhando o que sente, para mais facilmente identificar soluções;

– Permitindo-se sentir as próprias emoções (tristeza, alegria, receio, optimismo …);

– Ouvindo e apoiando o/a parceiro/a;

– Promovendo momentos e acções que contribuem para o nosso bem-estar;

– Realizando projectos que vinham sendo adiados, sozinho, com o/a companheiro/a e encontrando novos prazeres;

– Listando actividades pessoais prazerosas que há muito gostaria de fazer e foi adiando;

– Retomando o papel de mulher para além do papel de mãe;

– Cultivando as relações sociais;

– Usufruindo do contacto com o ar livre e a natureza;

– Apostando na melhoria contínua da relação com o filho, na qualidade da comunicação, nos afectos, no apoio, sem ser invasivo.

Excepto quando os objectivos são difíceis de definir, quando o filho se “esquece” dos pais e a tristeza destes se prolonga podendo adquirir contornos de depressão, a dor sentida termina quando a ordem familiar é refeita e os aspectos sociais da vida são restabelecidos. A Síndrome do Ninho Vazio resume-se a um problema temporário psíquico com cunho emocional-social, sem necessidade de medicação para o que não chega a ser fisiológico.

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