A timidez nas crianças

Encontramos muitos pais que se questionam e preocupam com a timidez dos seus filhos. Dizem que os filhos não conseguem olhar nos olhos, que qualquer palavra só tirada a ferros. Que estão muito metidos consigo próprios. Que não conseguem falar com estranhos, nem mesmo num café para simplesmente pedirem a sua torrada… Um conjunto infindável de pequenas grandes coisas que vão condicionando a vida dessas crianças e preocupando os seus pais.

O que afinal a timidez?

A timidez pode ser definida como um desconforto ou inibição em situações de interação pessoal, que interferem na concretização de objetivos pessoais, profissionais ou sociais.

Pode comprometer de forma significativa a realização pessoal. Constitui-se num fator de empobrecimento da qualidade de vida, mas, por si mesma, não é considerada como uma perturbação.

Passa a ser problemática quando inviabiliza o normal funcionamento da pessoa, das suas atividades, compromete relações pessoais e diminui a qualidade de vida.

O que está na base da timidez é que pode ser problemático ou indiciar questões que precisam ser resolvidas, nomeadamente:

  • Medo de falar;
  • Medo do desconhecido;
  • Falta de autoestima;
  • Dificuldade em fazer e manter amizades;
  • Dificuldade nos relacionamentos sociais;
  • Ou qualquer situação traumática que pode não ser consciente….

Num grau moderado, todos os seres humanos são, em algum momento de suas vidas, afetados pela timidez. Esta funciona como uma espécie de regulador social, inibidor dos excessos. A timidez funciona também como um mecanismo de defesa que permite à pessoa avaliar situações novas através de uma atitude de cautela e buscar a resposta adequada para a situação.

Fisiologicamente parece estar ligada à amígdala (responsável pelas emoções ligadas ao medo e à ansiedade) e ao hipocampo que fazem com que as pessoas se sintam constantemente ameaçadas e de forma mais intensa do que outras pessoas com um nível de atividade regular destas zonas cerebrais.

É muito importante que os pais procurem ajuda no momento em que reconhecem que esta característica já está a comprometer a qualidade de vida dos filhos.

E mais importante ainda é que diariamente incentivem as crianças a vencer esse medo e a entrar em relação.

Seja com os senhores do supermercado, seja com os do café que a família frequenta, tudo são boas ocasiões para lhes pedir que paguem a conta, peçam a fruta, etc. Que desmistifiquem esse movimento de se dirigirem aos outros, para que seguidamente possam ir estando mais preparados para o fazer com os colegas da escola e com os professores.

Uma criança excessivamente tímida vai ficar bloqueada nas suas competências de relacionamento interpessoal. Isso vai ser prejudicial ao seu desenvolvimento.

Precisamos de os apoiar e ensinar como fizemos para eles começaram a andar ou a falar. Isto para que não fiquem isolados e sem vida social. Convidar amigos para programas de fim de tarde ou fim-de-semana, conhecer os pais dos seus amigos de escola, providenciar atividades “sociais” para as nossas crianças é tão importante como tudo o resto. É nessa interação “supervisionada” que muitas vezes encontramos as palavras certas. Os conselhos sábios e a intervenção imediata correta para ir ensinando os nossos pequenos como é este mundo das relações!

Nem sempre nascemos com essa competência inata…

image@kidoz.in

Para enfrentarmos alguma coisa, precisamos de saber o que ela é. De a conhecer e a encarar de frente.

O bullying tem várias características próprias, como a repetição do comportamento abusivo, um claro desequilíbrio entre o agressor e a vítima, e uma intenção do agressor em prejudicar a sua vítima. É algo dirigido, e não aleatório. É continuado no tempo e tem uma vítima sem a mesma capacidade de resposta que o agressor, que exerce o seu poder sobre ela.

O que podemos fazer para tirar poder ao bullying?

É muito importante cultivar um canal de comunicação com os nossos filhos deste cedo, para que eles sintam que nos podem contar as coisas mais pequenas e as maiores. Que somos um porto seguro, e um dos seus adultos de confiança a quem se podem dirigir sempre que precisarem. Para isso, nota como recebes alguma coisa que o teu filho te vai contar, especialmente quando fez uma asneira. Eu penso sempre na coragem que ele teve em ser verdadeiro comigo, por isso a primeira coisa que lhe digo sempre é  “Obrigada por me teres contado”.

Funciona como uma pausa interior minha de micro segundos, que me ajuda a alinhar tudo o que vou fazer e dizer à minha intenção como mãe. Ajuda-me a valorizar o facto de ele sentir que pode falar comigo, algo essencial para a nossa relação, e para os desafios que ele vai enfrentar no seu crescimento.

O Bullying não é simples.

Tem muitos fios enrolados, muita dor envolvida, muitas pessoas que acabam por ter um papel ativo sem terem noção disso. Ser espectador também fomenta o bullying. Ele existe alimentado pela audiência que tem. Não ser plateia, ajuda a diminuir o seu poder.

Trabalhar desde cedo a empatia nos nossos filhos é para mim uma das mais poderosas aliadas anti-bullying. Deve estar lá desde sempre. Tal como lhes ensinamos a ler e escrever, deviam aprender a ler emoções, a colocar-se no lugar do outro a perceber o impacto das suas ações, a trabalhar o seu lado humano.

Como é silencioso, temos de ter atenção às pistas.

No caso da vítima, os sinais de alerta são, por exemplo:

  • desaparecerem com frequência as suas coisas na escola;
  • aparecerem com marcas ou nódoas negras regularmente;
  • evitarem os recreios;
  • não serem convidados para as festas de aniversário;
  • apresentarem resistência constante em ir para a escola.

No caso dos agressores:

  • aparecem com objetos ou dinheiro extra regularmente;
  • são pouco empáticos perante a situação dos colegas;
  • desvalorizam a escola;
  • são desafiadores da autoridade;
  • respondem com uma atitude provocadora;
  • gozam com a situação das vítimas;
  • nunca aceitam as suas responsabilidades culpando os outros;
  • demonstram agressividade nos jogos e situações de desafio.

O bullying já não tem limites físicos. Com a evolução das redes sociais já salta os portões da escola. Acompanha a vítima de uma forma silenciosa mesmo quando está em casa. Persegue-a e aumenta em número e impacto a sua audiência.

Para prevenir o cyberbullying para além de trabalhar a empatia, essencial para perceberem o impacto das suas ações nos outros, devemos mostrar aos nossos filhos como utilizar de uma forma equilibrada as redes sociais. De uma forma humana e consciente. Nas redes sociais, como não vemos a cara, não vemos a reação do outro. Uma sequência de emojis e fotografias retocadas, de cenários fabricados, de vidas “perfeitas” onde a desumanização dá por vezes origem a situações de grave violência psicológica.

Mesmo que o bullying não aconteça ao teu filho, não é por isso que possa ser ignorado.

É como um vírus, espalha-se. Contamina quem o faz, quem dele sofre e quem assiste. Não pode ser trabalhado isoladamente, mas todos devemos intervir, participar, prevenir, denunciar, tomar um papel ativo nas escolas e na vida para que o bullying diminua.

O bullying afecta TODA a escola. Por isso, todos temos de ter um papel.

Tudo está a mudar muito depressa. Perdemos o pé, o foco, ficamos enrolados e não notamos o que se está a passar mesmo à nossa frente. Temos muito tempo para fazer, temos pouco tempo para ser.

Os nossos filhos precisam da nossa ajuda para navegarem neste intenso novo mundo. Nós também precisamos de ajuda…

O bullying precisa de ser resolvido por todos, em conjunto, em comunidade para que nenhuma criança se sinta sozinha. Nem nenhum pai.

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Como reagir se o seu filho disser: “Não quero ir à escola”

A recusa em ir à escola é entendida na maioria das vezes como um ato momentâneo de preguiça e na maioria dos casos não passa disso mesmo. Mas a frase “não quero ir à escola” pode esconder um pedido de ajuda para o qual os pais devem estar atentos.

Antes de pensar castigar, ou obrigar, tente perceber o que leva o seu filho a acordar sem vontade de ir às aulas.

É normal que uma vez ou outra uma criança mostre vontade de ficar em casa, muitas vezes, na expectativa de ficar mais tempo com os pais. Mas se a recusa se repete é preciso ler para lá dos sinais.

AS DESCULPAS

“Doí-me a cabeça”, “doí-me a barriga”, são desculpas a que os mais pequenos recorrem com frequência quando não querem ir à escola. Por vezes o mal estar físico tem sintomas que são visíveis pelos pais como febre ou vómitos, mas que não encontram uma justificação médica. São os chamados sintomas psicossomáticos.

Uma reação do corpo a problemas que podem ser de natureza psicológica ou emocional. É importante perceber que o seu filho pode não estar a mentir quando se queixa de uma dor de barriga para a qual o médico não encontra resposta.

A criança pode ter dificuldade em expor e até compreender o que sente.

A dor é a porta que o corpo encontra para pedir ajuda.

RAZÕES PARA NÃO QUERER IR À ESCOLA

São vários os motivos que podem levar uma criança a rejeitar a escola de um dia para o outro.

Tente conversar com o seu filho perguntar-lhe o que tem de melhor e de pior na escola.

Esteja atento aos sinais.

Bullying

Há crianças que recusam levar determinadas roupas ou objetos para a escola, outras que acabam por admitir que “os meninos são maus”. São por vezes sinais de que são vítimas de agressões físicas ou psicológicas, o chamado bullying. Se for esse o caso dê confiança ao seu filho. Mostre-lhe que não está sozinho e que juntos vão resolver o problema. Tente identificar quem são os agressores e marque uma reunião com o professor ou o diretor de turma. Sugira também uma conversa em conjunto com os pais dos meninos responsáveis pelo bullying e tentem em conjunto encontrar uma solução.

Dificuldades de aprendizagem e/ou atenção

Uma chamada para ir ao quadro ou para ler um texto em voz alta, para algumas crianças não passa de um desafio mas para outras pode ser um enorme fator de ansiedade.

O medo de cair no ridículo, de ser gozado pelos restantes, é habitual entre os mais pequenos, sobretudo quando existe uma dificuldade de aprendizagem de forma geral ou em determinadas matérias.

É importante estar atento, falar com o seu filho ao final de cada dia.

Se ele diz que “a escola é muito difícil, veja para lá do óbvio.

Talvez sinta vontade de dizer que tem de trabalhar mais porque a vida é dura e exige esforço. Mas o caminho deve ser outro. Pergunte-lhe que matérias acha mais interessantes na escola e em quais tem mais dificuldades. Elogie as capacidades que revela e mostre que o irá ajudar a superar os temas mais difíceis. Poderá também recorrer à sua experiência pessoal para lhe dar alguns exemplos de como superou determinados problemas.

Medos

“Não quero ir à escola”, pode querer dizer “quero ficar em casa”.

Na prática parece dar no mesmo, mas não é.

Por vezes o problema está no seio da família e não no ambiente escolar.

Há crianças que, por diversas razões, alimentam uma dependência pelo pai, ou a mãe e sentem receio sempre que se afastam. Acontece, por vezes, quando há uma perda ou um distanciamento. Em caso de morte, por exemplo, ou de divórcio. Se o seu filho perdeu a avó ou o avô, é natural que se questione que pode um dia perder os pais. Um receio que se pode traduzir em ansiedade e medo de sair de casa, de se afastar dos que mais gosta. Falamos de pessoas, mas pode acontecer também quando há a perda de um animal de estimação. Uma vez mais o diálogo é essencial para compreender e ajudar o seu filho.

Os motivos que podem levar uma criança a rejeitar a escola são muitos e podem ocorrer em simultâneo.

A boa notícia é que, na maioria das vezes, o problema é passageiro. Esteja atento. No final de cada dia, conversem, faça perguntas. O que aprendeu na escola? Que disciplinas gostou mais? Será que sentiu dificuldades nalguma matéria? E os amigos? Quem são? A que brincaram nos intervalos?

Não desespere e, acima de tudo, não castigue antes de saber a real razão do problema.

A criança precisa de sentir que é entendida.

Tente a via do diálogo. Reforce a importância dos estudos para a vida futura, mas realce também o lado mais lúdico da escola.

E já agora, avalie se o seu filho dorme horas suficientes. Será que não tem uma agenda demasiado preenchida com atividades escolares e extra-escolares.

Por vezes, algum cansaço pode ser a resposta que procura.

Lembre-se, poderá não acertar na melhor estratégia à primeira, tente uma vez mais, mas não hesite em procurar ajuda especializada, de um psicólogo, por exemplo, se entender que o problema persiste.

Não tenhas medo…

De olhar para a barriga a crescer e de sentir que ainda não te sentes preparada. Que talvez devesses ter esperado mais tempo e que ser mãe talvez tenha sido um passo precipitado.

Não tenhas medo desabafar que o parto te assusta, que tens receio da dor e/ou da recuperação.

Não tenhas medo de admitir que não foi amor à primeira vista. Que não sentiste o que supostamente toda a gente diz sentir durante as primeiras semanas de convívio com o bebé. Que precisaste de tempo para que a relação se fosse construindo e para que o amor fosse crescendo.

De dizer que estás cansada. Que tens saudades de dormir, que te doem as mamas e as costas.

Não tenhas medo de expressar como por vezes (ou muitas vezes) te sentes só.

De dar colo e de deixar o bebé dormir junto a ti.  De o transportar encostado ao teu corpo, de criar recordações e permitir que ele saiba que o amas.

De nem sempre acertar à primeira, de enfrentar palpites alheios e seguir o teu instinto.

Não tenhas medo de chorar e expressar o teu receio em estar a falhar. De por vezes dares por ti a sentir que não foste talhada para ser mãe, de te sentires enganada por nunca ninguém te ter falado do lado menos cor-de-rosa da maternidade. A dada altura todas sentimos o mesmo, no entanto a maior parte tem medo de falar sobre isso.

De pedir conselhos, delegar tarefas e aceitar apoio. Não és nem serás menos mãe por isso, serás sim uma mãe sensata que poupa recursos e os despende naquilo que realmente importa.

Não tenhas medo de contrariar os modelos parentais com que foste criada se pelo caminho descobrires outros que te façam mais sentido.

Não tenhas medo de constatar que não és perfeita, és apenas uma mãe real.

Não tenhas medo de dar o teu melhor. De admitir que apesar de tudo nunca foste tão feliz. De abraçar os teus filhos e de lhes dizer que os amas eternamente.

Não tenhas medo de reconhecer que és a melhor mãe que os teus filhos podiam ter, pois só tu (e o pai) os conheces e os amas como ninguém.

Acima de tudo, não tenhas medo de ser mãe e de sentir e expressar tudo o que faz parte da maior aventura da tua vida.

Recuperar depois do caos

Um episódio traumático, seja ele de que natureza for, pode ter um tal impacto numa criança que as impressões fortes daí resultantes podem cristalizar-se na sua constituição física e psíquica. Altera-se o bom desenvolvimento de um indivíduo, sendo que quanto mais nova for a criança, maior o impacto.

Um trauma significa, etimologicamente, uma ferida. Uma ferida psicológica. Os distúrbios consequentes podem ser do foro psíquico e/ou físico (sistemas metabólico, rítmico, respiratório, motor, nervoso), interferindo com o comportamento e aprendizagem.

Um trauma processa-se, por norma, em 4 fases:

Situação traumática » Fase aguda do choque (1-2 dias após a situação) » Reação de stress pós-trauma (até 8 semanas depois) » distúrbios provocados pelo trauma  » Alterações da personalidade.

Para um adulto, independentemente da ligação que tenha, é dilacerante encarar uma criança traumatizada, mas há ações que podem de facto ajudar. Aliás, por menor que seja o nosso esforço no sentido de proteger o desenvolvimento infantil, terá o seu efeito. Devemos, portanto, focar-nos em ajudar a criança, tentando ultrapassar o “ferimento” através dos meios que estiverem ao nosso alcance.

Segundo a Pedagogia de Emergência, defendida pelo alemão Bernd Ruf, existem alguns métodos que poderão ser aplicados nos dias e semanas procedentes do episódio traumático. O objetivo desta intervenção de emergência é ativar e agilizar tanto estratégias pedagógicas como o poder de auto-cura da própria criança para ultrapassar o trauma e evitar distúrbios consequentes desse trauma. Naturalmente, deverá ser levada em consideração a idade da criança e fazer-se os devidos ajustes.

Eis algumas estratégias de intervenção propostas pela Pedagogia de Emergência:

permitir que a criança sinta o que tiver a sentir e experiencie as suas emoções. Quanto maior a capacidade da criança de processar as emoções, melhor será a recuperação do trauma. É fundamental que o adulto a ouça, se interesse e a apoie.

verbalizar as experiências e as emoções. É muito importante que a criança consiga exprimir/expelir por palavras o que sente. Suprimir e negar são mecanismos de defesa que podem levar a fobias e compulsões, ou até distúrbios depressivos. Mas não deve ser pressionada. Quando a criança não se consegue exprimir verbalmente, devemos encontrar outras maneiras para a ajudar a fazê-lo, seja a escrever, desenhar, pintar, compor uma música, modelar…

proporcionar ritmo e rotina. Ritmo é vida. E se é algo básico em qualquer situação/ fase,  ainda mais o é para uma criança cuja vida ficou um caos após uma experiência traumática. Trazer ritmo, ordem e segurança é vital – seja no ritual de acordar e deitar, à refeição que inicia ou termina, ter a sesta, etc. Num plano mais abrangente, também tentar devolver o ritmo do dia, da semana, do mês. Para além dos pequenos rituais associados às ações quotidianas, podemos recorrer a cantigas, cantilenas, versos e jogos rítmicos (pois trazem ritmo e repetição);

criar movimento.  A criança que sofreu um trauma fica geralmente tensa, como que presa. Pode ter medo de se mover, de se movimentar. Mas o movimento desenvolve tanto a saúde mental como a física, como sabemos. Devemos, pois, encorajá-la a movimentar-se, a caminhar, a correr, saltar, nadar. É evidente: tendo em consideração o estado físico em que a criança possa estar após uma situação que tenha afetado o corpo físico.

assegurar uma nutrição tão rica quanto possível. A nutrição afeta a saúde, o sistema imunitário e também a condição física. Neste momento deverá dar-se especial atenção para que a alimentação seja o mais rica possível, especialmente em vitaminas.

proporcionar relaxamento. As massagens são, por excelência, uma forma de relaxar. Um óleo (de amêndoas, ou até azeite) com 1 ou 2 gotinhas de óleo essencial de alfazema têm um efeito terapêutico e calmante sobre a pele. Também técnicas de respiração são bastante eficazes para que a criança apazigue as reações fisiológicas sofridas após o trauma.

treinar a concentração e a memória. Após uma experiência traumática, a criança facilmente perde o foco, esquece-se com frequência. Ouvir histórias, fazer trabalhos artísticos, trabalhos manuais, jogos de memória, puzzles, jogos de coordenação e jogos de paciência poderão ajudar bastante a recuperar a concentração e a memória.

brincadeira ativa, sob observação. Através do brincar, as crianças tendem a reproduzir as vivências que têm. Após um trauma, através da brincadeira a criança vai readquirindo aos poucos o sentimento de controlar algo. Pode representá-las com bonecos ou assumir uma «personagem», projetando neles o que sente ou vivenciou. É conveniente, por isso, que nos dediquemos a observar a brincadeira, porque se não tiver limites pode levar ao reviver doloroso do trauma, em vez de o curar. Os próprios brinquedos que lhe sejam disponibilizados deverão ser naturais, simples.

criar atividades que apelem a novas competências. A criança possivelmente apresenta agora uma certa apatia (para além de baixa auto-estima) pelo que é necessário aos poucos confiar-lhe pequenas tarefas exequíveis, tais como manualidades, tarefas de jardinagem… No fundo, tarefas com alguma responsabilidade em que os mais pequenos se sentem capazes de concretizar e, assim, mais importantes.

Para além das estratégias mencionadas, e pensando nas crianças mais pequenas, nomeadamente os bebés, tudo o que possa contribuir para um conforto físico (seja o da pele ou o do meio envolvente), será benéfico para ajudar a ultrapassar o trauma.

Por exemplo:

–  recorrer a um porta-bebés adequado, que os mantém próximos de nós e aconchegados;

– embrulhá-los numa manta leve que os mantenha quentes e seguros (uma swaddle)

–  através de um pequeno  boneco de conforto ou uma fraldinha de pano, que é como que uma referência, algo que o bebé «conhece» pelo cheiro e pelo toque.

– através da utilização de roupas macias, que lhe trazem a sensação de bem-estar.

Proporcionar segurança e proteção, criar laços emocionais confiáveis, desenvolver a auto-estima, reduzir o desgaste emocional e criar uma atmosfera de grupo positiva resulta na ativação das forças de autocura das crianças traumatizadas.

Não menos importante, finalmente, é celebrar as alegrias, mesmo que sejam apenas alguns «golden moments» – e há sempre algum. Valorizar e realçar cada um desses momentos de ouro do dia a dia, aliando-os a uma comunicação empática e a memórias positivas, é trabalhar para o fortalecimento do sistema imunitário da criança e cura a todos os níveis!

Sou mãe e as vezes tenho medo… Todas as mães têm medos dentro de si. Há quem os tenha adormecidos e há quem viva aos sobressaltos.
Ser mãe exige-nos esforços diários constantes que executamos com uma naturalidade tal que, por vezes, passam despercebidos à nossa volta. Temos um mundo ou vários mundos nas nossas mãos e cai em nós a responsabilidade de os segurar como fossem bolas de cristal.
Quando penso que posso adoecer e que a mão que segura a minha casa pode estremecer, tenho Medo!
Quantas vezes adoecemos e os filhos parecem perdidos pela casa. Não sabem da roupa, dos sapatos, dos livros e da alimentação… Parecem zombies que vagueiam pelo espaço, perdidos na luz. Exagerando nos meandros da escrita, mas confessem lá se não parecem!
Eu tenho um medo que me acompanha diariamente, luto contra ele constantemente, como os heróis lutam contra os terríveis.
Há dois anos adoeci e fiquei a morar no hospital apenas por nove dias, sendo os mais longos dias da minha vida. Imagino com frequência as outras mães que lutam diariamente contra doenças graves e que tem de proteger as suas casas com a força das leoas quando o seu corpo fraqueja e a alma sofre.
Penso nas mães que lutam para sobreviver e que têm a força de um vulcão equilibrando as emoções num corpo que sofre.
E quando o mundo parece que foge, aparece alguém que nos segura nas mãos e caminha ao nosso lado, ajudando a superar os medos que controlam os pensamentos e o corpo com uma habilidade assustadora.
Queridos filhos, espero não voltar a sentir este monstro perto de nós, no entanto, se ele ou outro aparecer por ai mantenham o lar unido e criem a tal corrente que o protege do mundo em constante correria.
A mãe tem muito medo e este medo visita-me frequentemente … não hoje!
Porque hoje tenho sede de viver e de estar aqui entregue ao amor que nos une incondicionalmente…

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Os medos que transmitimos ao nossos filhos

Mãe, o mundo é mesmo assim tão assustador?

Perguntando desta forma vais dizer-me que não; que não tem nada de assustador; de que é que eu tenho medo (?); que não devo preocupar-me, etc, etc… De seguida, vais a correr para a avó / meu pai / tua melhor amiga, fazer da minha simples pergunta, a tua maior preocupação e angústia.

Não te preocupes, mãe, que eu nunca ouvi essas conversas que tens com eles… pelo menos, não sempre… nem inteiras! Mas percebo quando não estás bem e sinto quando estás preocupada.

Sabes? Na verdade, a minha pergunta é só um reflexo das tuas atitudes. Imagina que tens a minha idade, e que delegas na tua mãe (naturalmente) a tua vida e, portanto, a tua segurança.

Agora, imagina, também, que a tua mãe passa grande parte do tempo a avisar-te de coisas como:

Não saltes daí, senão cais;

– Cuidado com os degraus, caso contrário tropeças;

– Veste o casaco ou vais constipar-te;

– Bebe mais água porque o corpo precisa;

– Sai do Sol, que faz mal à cabeça;

– Baixa o som. Cuidado com os ouvidos;

– Não corras, porque escorregas…

– …

E a lista podia continuar. Ah! E aquele “eu não te avisei?! Pronto! Não chores!!!” Não te parece difícil?

Querida mãe,  para mim, cair, tropeçar, escorregar, sentir o Sol, os ouvidos invadidos pelo som e, até mesmo, constipar-me, são experiências de vida. E chorar é o culminar dessa experiência – assim à laia daquele “visto” que se coloca no fim de uma tarefa concluída, sabes? Gostava de não te sentir tão aflita com tudo!

Eu percebo que queiras proteger-me mas, se a protecção fica tão revestida de preocupação, ao ponto de quereres antecipar (para evitar) tudo o que pode acontecer, passas-me a mensagem subliminar de que o mundo – que eu quero e devo explorar e descobrir –  pode ser menos interessante, e mais perturbador.

Os teus cuidados são úteis e necessários e eu preciso deles para crescer forte e saudável. Mas, preciso também, da tua tranquilidade e descontração – para que o meu crescimento forte e saudável seja, não só em termos físicos, mas também emocionalmente. Para eu sentir a força interior (auto-confiança) de explorar o mundo sem retracções, e poder enfrentar cada mudança / cada nova etapa sem ficar assustado.

Os alertas frequentes revelam a tua insegurança no mundo exterior – ou, pelo menos, assim eu interpreto – e causam-me desconforto e desconfiança face à novidade.

Combinamos uma coisa: fazemos isto juntos! Vamos acreditar que:

– quedas, tropeções e escorregadelas são marcas de felicidade na pele;

– o choro de dor, é só para ter o teu colo e sentir o teu apoio e amparo que alivia tudo (mas não vale dizeres “não chores!” Senão, volto a sentir a tua angústia! Se me dói, por que é que não posso chorar?)

– o Sol no parque, quando estou a divertir-me tanto, significa só um acréscimo de vitamina D, boa?

– e as constipações, além de não serem um mal maior, pode ser que melhorem o meu sistema imunitário (acreditemos!)

Assim, se não estiveres sempre a tentar evitar tudo, mostras-me a tua serenidade em cada novo passo meu, e eu sinto o desejo de explorar, com a auto-confiança que tu me transmites!

Do teu filho agradecido

P.S.: Tu consegues!!!

 

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Trata os teus filhos como gostarias de ser tratado

10 coisas que devemos dizer aos nossos filhos sem medo

O Respeito assenta no Amor. A Obediência assenta no medo.

 

Mas, quando eu morrer, como é que vos encontro, como?
Há milhares de estrelinhas, milhares e milhares…. o céu é infinito, não vos vou conseguir encontrar!

Falar sobre a morte às crianças é difícil. Muitas vezes os pais são apanhados de surpresa e, quando confrontados com estas questões que, também, são desconfortáveis para os próprios, na tentativa de fugir ou adiar o assunto, vêm as histórias de “passou a ser uma estrelinha”, “partiu para muito longe”, está a “descansar”. Este tipo de soluções podem ser confusas para a criança, em particular para as mais pequenas que ainda não têm capacidade de se abstrair do real significado das palavras. Pode ainda aumentar a angústia de separação no seu dia-a-dia, dificultando a hora de ficar na escola, de dormir (não querem “descansar”) ou quando se separam de quem amam.

Antes de explicar a morte ao seu filho, explique-a a si próprio/a em função das suas convicções. Para ser verdadeiro para a criança deverá de ser, em primeiro lugar, verdadeiro consigo mesmo. Se não se sentir confortável em pensar introspetivamente neste tema, provavelmente terá sofrido perdas que nunca foram verdadeiramente ultrapassadas, podendo precisar de ajuda para elaborar esse luto.

Por outro lado, não fuja do tema usando a brincadeira ou a ironia. Se o seu filho faz perguntas sobre a morte estará curioso ou talvez preocupado com algo que não consegue compreender. Levar a pergunta de “ânimo leve” é ambíguo para a criança e não suprime a sua preocupação.

Preparar o seu filho para a morte é tão necessário como prepará-lo para a vida, por isso explique-lhe isso mesmo – o ciclo da vida. Todos os seres vivos, nascem, crescem e morrem biologicamente. Uma boa estratégia será usando (cultivando) uma planta: a semente é colocada na terra, germina, amadurece e morre. Explique-lhe que com as pessoas e os outros animais também é assim. Ao mesmo tempo está a mostrar a importância de cuidar, acarinhar e respeitar a vida (tal como rega, trata e cuida da planta). Seja concreto, explicando ou mostrando que todos os seres vivos um dia irão morrer e que morrer significa não fazer mais o que se faz quando se está vivo (exemplo: comer, brincar com, estar fisicamente com).

Ler também Morreu e agora? Como vou dizer ao meu filho?

Perante a morte de um dos pais ou de familiar próximo, não esconda a sua dor da criança e encoraje-a a falar, a desenhar ou a representar de alguma forma o que está a sentir, mostrando-se compreensivo e solidário ao seu sofrimento. Acima de tudo, transmita-lhe segurança e a certeza que haverá sempre alguém para cuidar dela. Não evite que a criança se sinta triste; a tristeza faz parte do processo de sentir para ultrapassar a perda.

Por outro lado, explique-lhe que deixar de estar triste não significa que esquecemos a pessoa que amamos. Tal como o adulto, a criança precisa de interiorizar que as memórias afetivas nunca se esquecem. Esse conceito deve ser progressivamente introduzido, ao ritmo que lhe for confortável.

Mas, cada criança tem as suas particularidades e uma forma muito própria de reagir às situações dolorosas. Nas crianças com uma organização mais ansiosa ou mais depressiva, o que foi explicado anteriormente pode não ser suficiente para ultrapassar a angústia da perda. Nestes casos as alterações comportamentais, que são normais e adaptativos, prolongam-se por mais tempo e de forma acentuada. Os principais sintomas (podem aparecer isoladamente ou de forma conjunta) são: choro compulsivo ou fácil em situações que anteriormente não acontecia, acentuada agressividade, explosões de raiva intensas e recorrentes, enurese, entre outros.

Nestes casos recomenda-se que a família, e em particular a criança, receba suporte e ajuda dum técnico de psicologia para que consiga lidar com a morte que o ocorreu na realidade externa, permitindo que ocorra, também, na sua vida psíquica. Na prática é aprender a viver com a perda, deixando de vivenciar sofrimento.

Como mãe estou preparada, ou assim o espero, para ver a minha filha ganhar asas e voar livremente, sozinha, enquanto descobre o seu caminho por si.

Pretendo dar-lhe as ferramentas necessárias para que faça as suas escolhas, mas tenho alguns receios que acredito que são transversais à maior parte dos pais:

Não poder acompanhar o crescimento de um filho
Quero estar por perto para presenciar as conquistas, das mais pequenas às mais significativas, os erros em que todos caímos, as certezas que se irão solidificar, a pessoa em quem se vai tornar. A simples possibilidade de (uma de nós) estar ausente deixa-me um aperto no coração.

Que um filho fique verdadeiramente doente
Sempre admirei os pais que acompanham filhos doentes – seja qual for a doença – a sua devoção, fé, coragem, mesmo quando as perspectivas são más. Ninguém está preparado para não conseguir proteger um filho de algo grave, que foge ao seu controlo, ninguém ensina como se deve agir. A minha consideração é gigante e desejo do fundo do coração não ter de passar por isso e que um dia esta realidade seja uma raridade.

Ver um filho fazer (más) escolhas que lhe condicionem a vida
Os nossos filhos, por mais que sejam parte de nós e tenham o nosso sangue a correr nas veias, são (ou serão um dia) seres pensantes independentes, com as próprias dúvidas, convicções e vontades. Todos nós, mais tarde ou mais cedo, tomamos más decisões. Torço para que sejam sempre lições – para os filhos e para os pais – e que no fim haja sempre uma luz para iluminar o caminho.

Ter uma má relação com um filho
É daquelas ideias que parecem impossíveis, mas se olharmos em volta vemos todos os tipos de relações, das mais cúmplices às mais esvaziadas de sentimentos. Nenhum pai sonhou um dia não ter uma relação próxima com um filho, não ser procurado numa situação de aperto, não ser um bom ouvinte, um bom companheiro. A vida às vezes encontra maneira de dar a volta ao que tínhamos como certo e torço para que se consiga sempre dar a volta à vida e alimentar da forma mais saudável e verdadeira a relação mais importante das nossas vidas.

Ter um filho cobarde
A cobardia tem muitas faces: está na violência doméstica, está no bullying, na cumplicidade e silêncio de quem assiste a uma injustiça e nada faz, está no seguir os outros porque não temos coragem para mostrarmos quem realmente somos, etc. Espero que os princípios mais importantes fiquem sempre gravados na cabeça e no coração dos meus filhos, para que por mais que errem, nunca sejam os cobardes que infligem sofrimento propositado a quem os rodeia – e em si mesmos.

Não conseguir ajudar um filho
Seja em que situação for, por falta de dinheiro, de tempo, de sabedoria, de “ferramentas”… Que nunca falhe a um filho meu.
Não controlamos nada. Somos pais mas continuamos a ser filhos e temos uma rede de relações que se deve basear no amor. Acredito profundamente que quando há amor se encontra a força necessária para ultrapassar tudo. Os dias menos bons. Uma notícia inesperada. As saudades. Aquele telefonema que andamos para fazer há uma série de tempo. A falta de paciência nos dias longos, o cansaço nos dias mais intensos.

Tenho muitos mais medos do que os que aqui admiti, mas não deixo que estes condicionem a forma como vivo a minha vida. Quanto muito permito que me ajudem a valorizar o que tenho e a investir no que não quero perder.

Porque nenhum medo deve ter o poder de nos impedir de sermos melhores: pais, amigos, namorados, filhos, colegas, seres humanos.

Porque nenhum medo deve ser maior que a esperança.

Nenhum medo deve ser maior que o amor.

Por Marta Coelho, para Up To Kids®
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…lá de cima do telhado. Cantava-me a minha bisavó para me embalar.

A música ficou cá dentro e quando me tornei mãe da J., era uma das poucas que sabia e que cantava para a adormecer.

Acontece que o Papão agora já não está em cima do telhado. Revelou-se ao Mundo no 11 de Setembro de 2001, pela primeira vez e, pela última vez, há dias em França e na Nigéria.

Dei por mim a ter de explicar à J. o que é que se passou em Paris:

– Foram os bandidos que mataram uns senhores.

– E porquê, mãe?

– Porque são bandidos. Há pessoas boas e más no planeta e estes são maus.

Consegui que a conversa não fosse muito mais adiante. A curiosidade dela é grande, e a minha insegurança em passar-lhe a informação certa, também.

O que é que se diz a uma criança de seis anos, que se apercebe de que algo terrível aconteceu, porque a televisão da sala está ligada nas notícias?

Dias depois, o assunto veio novamente à baila:

– Mãe, porque é que aquelas pessoas estão todas juntas a caminhar pela rua?

– Porque estão a mostrar aos bandidos que não têm medo delas.

– Mas por que é que os bandidos mataram aquelas pessoas?

Voltei a raciocinar a mil à hora, com medo de falhar na resposta.

A responsabilidade de uma resposta destas é enorme.

Não queremos que tenham a noção real de que o Papão, da canção de embalar, são terroristas perigosos; não as queremos enganar porque é uma questão de tempo até perceberem que lhes mentimos e aí a explicação fica ainda mais difícil de dar.

A solução foi tentar aproximar a triste realidade do século XXI a uma miúda de 6 anos:

– Isto é como na história das Princesas. Por exemplo, a Branca de Neve, filha. Os bandidos são a bruxa que quer fazer mal à Branca de Neve e todas as pessoas boas, são os anões, a Branca de Neve e o Príncipe, que juntos conseguem vencer o mal.

Confesso que houve umas pausas brevíssimas entre palavras à medida que me saía a explicação.

Correu bem e a J. percebeu que na vida real há bons e maus como nas histórias de princesas que ela tanto adora. Ficou esclarecida e sem medo do Mundo real.

Eu, enquanto mãe, fiquei de coração apertado. O Mundo ao qual a trouxe está cada vez mais negro, mais perigoso, mais cheio de Papões. Os que para mim, na idade dela, só existiam nas canções da minha bisavó.

Por Irina Gomes,
para Up To Lisbon Kids®

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