Como evitar birras às refeições?

“Parece de propósito! Logo hoje que preciso de chegar a horas a um sítio é que decides fazer uma birra dessas!”

Cá em casa também era assim. Cada manhã, um suplício. Mas há poucas semanas, tudo mudou. O momento de viragem foi o dia em que a minha filha mais nova, que está quase a fazer 3 anos, fez a birra das birras ao pequeno-almoço: ela gritava, esperneava, nada a acalmava. Parecia que o mundo ia acabar. Tudo por causa de um simples iogurte, que era-mas-afinal-não-era-bem aquilo que ela queria para começar o dia. E eu atrasado para uma reunião…

Mudar o foco

A minha vontade, naquele momento, foi a de muitos pais nesta situação: ralhar (“come isso imediatamente!”), chantagear (“se não comeres…”, premiar (“se comeres dou-te…), castigar (“ai não comes? Então…). O espetáculo foi tal que me passou pela cabeça dar-lhe uma nada consoladora palmada no rabo! Mas, em vez disso, comecei a aplicar o que tenho aprendido com a Disciplina Positiva: respirei fundo (muito fundo!), mantive a calma e… mudei-lhe o foco, inventando uma brincadeira em que o iogurte (o tal que ela não queria…) era tão apetecido que o melhor seria que ela o comesse todo (e rápido) antes que… a Princesa Sofia acordasse e o comesse por ela. Resultou em cheio e, em menos de 10 minutos estávamos na rua.

Dias antes já tinha aplicado a mesma estratégia, com resultados idênticos, quando ela acordou em histeria a meio da noite, a chorar e a espernear como uma louca. Nessa madrugada só se acalmou quando consegui que prestasse atenção à sua boneca favorita, que lhe disse que acordou “assustada com a berraria” dela. Depois inventei uma história (sem grande nexo, porque estava meio a dormir) que só me lembro que metia um castelo e uma princesa, que estava doente e não podia ouvir o barulho de alguém a chorar à noite, porque senão acordaria no dia seguinte cheia de espirros…

Antecipar comportamentos e dar opções limitadas

Depois das duas situações que descrevi, passei a apostar ainda mais na prevenção. “Se o pequeno almoço é um momento de potencial tensão, porque não envolvê-la na sua preparação?”. Criámos uma rotina juntos e agora abro o frigorífico e dou-lhe opções limitadas: “o iogurte de banana ou de morango?”. O pequeno almoço passou a ser um momento divertido, sem stresses e que reforça os laços familiares. E nunca mais cheguei atrasado a lado nenhum pela manhã.

Promover a cooperação tem sido outro dos trunfos, para evitar fitas à mesa ao pequeno almoço (e também resulta noutras refeições). Por exemplo, deixo que seja ela a deitar e a mexer os cereais na tigela onde deita o iogurte. No início entornava bastante, agora raramente deixa cair mais do que um ou dois pedaços. Depois, dou-lhe um bónus: escolher a colher que quer usar: “a do Mickey ou a do Pluto?”. E voilá!

Desenganem-se os pais que acham que, com esta “estratégia”, a deixei “ganhar”, “levar a melhor”. Nada disso. Limitei-me a dar-lhe poder de escolha, mas dentro de soluções limitadas, aceitáveis e respeitosas para ambos. O que a longo prazo terá efeitos positivos, já que está a aprender a decidir por si, em vez de o fazer contrariada, porque é obrigada a tal.
O que faz toda a diferença.

Há dias em que nem os sorrisos dos filhos nos salvam.

Tecnicamente estou acordada desde as duas da madrugada.

O mais novo, como quase sempre, acordou a chorar e, como quase sempre, acordou a irmã e, como quase sempre, foram os dois para a nossa cama. O circo estava montado.

Ele vira-se de cabeça para baixo, destapa-se, deita-se em cima do pai, puxa os cabelos à irmã, nós vamos acordando e adormecendo, sem coragem para ir vendo que horas são. Resmungamos, ralhamos, batemos com a cabeça na parede. Ela tosse, eu levanto-me e dou-lhe xarope, ela continua a tossir, o pai levanta-se e volta a dar-lhe xarope. Estamos a ficar malucos. A tosse acalmou. Passo a noite toda destapada, desisti de lutar por um pedaço do edredão.

O despertador toca às seis horas e quinze minutos, desligo-o e deixo-me ficar até sentir os pés do meu marido a expulsar-me da cama. Tenho frio. Levanto-me, meto o café a fazer, enfio-me no banho, visto-me, o meu marido faz o pequeno-almoço, tomamos o pequeno-almoço sentados no sofá, enquanto vemos as notícias. Os pequenos demónios ainda dormem. E eu com uma dor de cabeça a querer rebentar. Já passa das sete horas, caraças, está na hora de irmos acorda-los.

Damos o leite, vestimos, lavamos a cara e os dentes, o pai penteia, eu faço o totó, tudo a passo de caracol. “Mãe, o que é que eu levo para comer na escola?”, vestimos os casacos, metemos os gorros na cabeça, “Está de noite, mãe?”, “Não está de noite, é o nevoeiro.” Dói-me cada vez mais a cabeça. Quando nos sentamos no carro e respiramos fundo já são oito e dez.

Adeus mãe, bom trabalho!”, “Boa escola, meus amores.” Beijos e sorrisos, até parece que dormiram a noite toda.

Chego ao terminal dos barcos e apetece-me cortar os pulsos. Centenas de pessoas do lado de fora dos torniquetes, é o nevoeiro, são os barcos suprimidos, é a porra de um gajo bipolar que manda naquela porcaria toda. Junto-me à multidão. Tomo um comprimido para a dor de cabeça. Há um homem que fuma no meio das pessoas, filho da mãe. Tomo mais um comprimido para a dor de cabeça, que o dia ainda não começou. Os torniquetes abrem, as pessoas empurram-se, pisam-se, ninguém quer ficar de fora. Os carneiros, como dizia alguém um dia destes: “Somos todos uns carneiros”. Que se lixe. Junto-me à carneirada, não me posso atrasar mais.

O barco atraca em Lisboa e vou a correr para o metro. Faltam nove minutos para o próximo metro, em hora de ponta nove minutos são uma eternidade, outro bipolar a mandar nesta porcaria. Mudo da linha azul para a linha verde. É a pior linha de todas, juro, as pessoas cheiram a areia de gato com uma semana misturado com óleo de fritar chamuças. Consigo sentar-me e tenho à minha frente dois homens saídos do “Feios, Porcos e Maus”, não sei a que cheiram, mas envolve vinho e apetece-me vomitar, levanto-me e vou em pé, com o lenço a tapar-me o nariz. Respiro o menos possível.

Chego ao destino, lembro-me para onde vou e apetece-me fazer todo o caminho de volta para casa. Arrasto-me, pico o ponto, sento-me ao computador e finjo que vou fazer alguma coisa que gosto.

Há dias em que nem os sorrisos dos filhos nos salvam.

 

Dos filhos que fomos, aos pais que somos!

Quando os pais começam a desempenhar o seu papel, para além de um bebé, há todo um conjunto de novas personagens que nascem! Em volta de um bebé, há toda uma família que se alinha e re-alinha, há uns pais que se tornam avós, há um irmã que se torna tia, há um amigo que sente saudades, há um casal que inicia uma viagem… Quando os pais se tornam pais, tudo se mistura e se conjuga, o amor não se aprende, um filho não se desliga, mas a paternidade pode ser mágica se conseguirmos multiplicar tudo o que de bom há em nós.

Cada criança tal como cada um dos pais é singular, mas todas as crianças à sua maneira refletem os lados de heróis e de vilões dos pais. Afinal, como é que um Pai se pode tornar melhor?

Um Pai tem de olhar para o Mundo colocando-se no papel da criança.

Mas, acima de tudo, tem de olhar para um filho, livre daquilo a que ao longo da vida o foi condicionando aos poucos… A forma como cada um dos pais exerce o seu papel, é condicionada pela sua história, pelas suas expectativas, pela forma como foi filho, como foi irmão, como desejou ser Pai, como foi, ou não, sendo amado ao longo da sua vida e do seu crescimento, enquanto criança e enquanto adulto.

Muitas vezes, porque fomos filhos assustados, presos a um sistema parental rígido e autoritário, procuramos exatamente o oposto para os nossos filhos e tornamo-nos pais absolutamente liberais, não introduzindo segurança, regras e limites. Ou o oposto, porque fomos filhos em auto-gestão, exercemos um controlo absolutamente fora do vulgar com os nossos filhos, não lhes dando espaço e liberdade para serem crianças à sua maneira.

O difícil na montanha russa da parentalidade é que é preciso conjugar num só, os pais que tivemos, os filhos que fomos e os pais que somos, e, às vezes, é como se cada um andasse para o seu lado, como se estivessem zangados, como se dentro de cada um dos pais vivessem muitas personagens em vez de darem vida a um Pai. Naturalmente, essas personagens fraturam-no, tornando-se incompatível o filho que se foi, com o pai que se quer ser e com os pais que tivemos.

Por isso é que às vezes, é preciso parar, olhar para dentro de nós, separar e unir mundos, para fazer as pazes com a criança e com o filho que se foi, com os pais que se teve e assim, tornarmo-nos melhores pais e ficarmos cada vez mais perto dos pais que queremos ser.

Um pai, ou uma mãe, são sempre feitos de histórias, de amores e desamores, de conquistas e derrotas. Mas, não se pode desejar que seja um filho a ligar todos os nossos mundos e fazer-nos sonhar, muito menos, podemos querer que seja um filho a concretizar todos os nossos sonhos, a sarar as nossas feridas e dar as mãos às nossas infâncias.

image@dreamstime

Por Cátia Lopo e Sara Almeida Psicólogas Clínicas

 

Um dia vamos voltar a ser dois

O talvez não, porque nunca seremos apenas dois. Não regressamos ao que éramos antes de passarmos a três, quatro e cinco. Quando voltarmos a ser, quase sempre os dois, vamos sempre continuar a ser cinco.

Eu sei que ainda falta muito tempo, ou talvez apenas algum, e já dou comigo a pensar nisso quando nos observo ao longe, penso, afastando o medo, que um dia (e talvez já não falte assim tanto tempo) vamos voltar a ser, quase sempre, apenas os dois.

Vamos ter silêncio de mais e lembrar-nos das vezes em que nos queixámos do barulho.

Vamos voltar a ter a cama só para os dois e saudades de ouvir os pezinhos pequenos, frios e descalços, que sabem de cor o caminho para o meio de nós. Vamos ter mais tempo para ler os tão adiados livros, mas ninguém a pedir-nos para contar uma história na cama. Vamos ter menos migalhas no chão da cozinha, menos iogurtes no frigorífico e menos pratos na mesa. Mais tempo para conversar e outro tanto para namorar. Quem sabe até mais dinheiro e ainda mais vontade de viajar.

Mas enquanto somos cinco e estamos os cinco, eu só peço mais cinco beijinhos de boa noite, mais cinco abraços no pescoço (que é onde as crianças abraçam), mais cinco minutos a contempla-los quando adormecem (haverá melhor sensação que olhar para uma criança a dormir?). Mais cinco dias de férias, mais cinco viagens os cinco, mais cinco pedidos de desejos por realizar, os cinco e a cinco.

Não esquecendo no meio dos cinco, de cuidarmos os dois, e de sabermos viver os cinco sem adiar os planos dos dois, para agora e depois.

E que um dia, quando quase sempre formos dois, que seja nos cinco que encontremos a paz e a vontade de um regresso, nem que seja para um fim-de-semana ou um almoço de domingo, no rebuliço de todas as boas recordações e de todos os alhos e trabalhos que agora reclamamos.

 

imagem@Tom Merton | Getty Images

Família não tem definição

Família é mais que pai e mãe, mas é sobretudo pai e mãe.

Família é a raiz, troncos e folhas de uma árvore que não pára de crescer.

Família sou eu e és tu todos dias ao alvorecer.

Família não é só sangue, família é quem cuida, quem cria, quem ama.

Família é a irmã que à noite que te aconchega na cama,

Família é um pai e sua filha pela mão,

E é também o menino que brinca no parque, com o seu irmão.

Família não tem definição,

Família é colo, é mimo, é aquele olhar…

É a palavra amiga que te permite sonhar!

É um sorriso, um beijo, um brilho,

A primeira vez que sentes o teu filho.

Família é mais que um momento.

É para sempre, não há argumento.

Família é coração,

E a forma mais simples de oração.

Família como o Amor é a mais pura indefinição.

imagem@pictures.11

LER TAMBÉM…

Uma mãe é;

A mãe que eu não quero ser

Valorizo as amizades mas escolho passar mais tempo com a família

“Para uma família ser feliz, é necessário haver sedução. Os filhos têm de ser charmosos para encantar os pais, os pais têm de se esforçar para educarem convincentemente os filhos. E marido e mulher, caso queiram permanecer juntos, têm de passar a vida inteira a engatar-se. O mal da família é a facilidade. É pensar que aquele amor já é assunto arrumado.” – Miguel Esteves Cardoso

 

Os filhos são a melhor coisa do mundo.

Os filhos dão um trabalho que só quem os tem entende.

Às vezes só querem (e precisam de) atenção.

Os pais fazem o melhor que podem, na maior parte dos dias. Nos outros sabem que têm direito a uma excepção de vez em quando.

Os pais fingem que não vêem um disparate ocasional porque os filhos já estão a fazer outra coisa em segundos e dar importância ao que aconteceu não mudaria nada.

Os pais escolhem que guerras comprar, para bem da sua sanidade mental.

Noutras alturas o mínimo deslize espoleta uma guerra civil.

Os filhos, muitas vezes culpa dos pais, acham que estes nasceram para os servir.

Os pais, ainda mais vezes, acham que nasceram para servir todas as necessidades dos filhos. Mesmo que as necessidades sejam um bolo cheio de creme na pastelaria depois de terem lanchado na escola – porque “coitadinho, é só um bolo e se posso por que não hei de lho dar?”.

Há pais para quem os filhos são uma verdadeira bênção.

Há pais que de pais têm apenas o título.

Há pais que deveriam receber prémios pelos esforços continuados que fazem.

Há pais cujos esforços são tão bem disfarçados que os filhos nunca os vêem.

Há filhos que gostavam de ter outro tipo de pais.

Há filhos para quem os pais são simplesmente o melhor do mundo.

Há filhos que são pais dos seus pais.

Os dias são todos diferentes, mesmo quando parecem sempre iguais.

Uma brincadeira conforta os mais pequenos e ajuda os mais velhos a ultrapassarem um dia pior.

Às vezes basta um sorriso.

Basta um abraço.

Basta saber que os filhos estão em casa à espera.

A convivência é uma estrada de dois sentidos. Dar e receber. Muitas vezes esta troca é escassa. Tantas outras vezes é repleta de bons momentos. A aprendizagem de se ser pai não vem em nenhum dos livros, nem mesmo nos mais afamados – porque é uma experiência única.

Não há pais perfeitos, como não há também filhos ideais.

 

imagem@weheartit

Há irmãos que fazem os pais pensar: onde é que estávamos com a cabeça? Os que deixam os pais sempre a pensar: temos mais um?

Irmãos.

Há os “olha que eu vou dizer à mãe!” e os “é um segredo só nosso!”.

Há os que são tão próximos que parecem siameses e os independentes que preferem outros companheiros de brincadeira.

Há os protectores e os que acham que os irmãos se devem fazer à vida.

Há os que levam os irmãos nas saídas à noite por imposição dos pais e os que fazem parte do grupo desde sempre.

Há os irmãos fascinados com os mais novos e os admiradores máximos dos mais velhos.

Há irmãos que são tão parecidos que parecem feitos por encomenda.

Há os que só sabemos que são irmãos porque chamam pai e mãe às mesmas pessoas.

Há os que só têm um pai ou uma mãe em comum.

Há os que ligam dia sim dia não e os que ligam só no aniversário.

Há os irmãos que compram presentes em conjunto e os que dividem a conta sem saber muito bem o que vão oferecer.

Há os irmãos que morrem de saudades uns dos outros e os que preferiam ter mais oportunidades para sentir saudades.

Há os que se davam bem em pequenos e em grandes mal sabem da vida uns dos outros. Os que cresceram e mal se lembram de se ter dado mal.

Há irmãos que foram pedidos como presentes de Natal e outros que entraram na vida sem aviso.

Há irmãos que falam uma língua própria, para quem a mãe é a mulher mais bonita do mundo e o pai o companheiro mais fixe de sempre.

Há irmãos que dão “calduços” aos amigos quando estes começam a reparar na irmã mais nova.

Há irmãos que não têm oportunidade de crescer juntos.

Há os que vivem juntos e nem se apercebem da bênção que isso significa.

Há irmãos que ajudam e irmãos que culpam os outros por terem partido a jarra favorita da avó.

Há irmãos que fazem os pais pensar: onde é que estávamos com a cabeça? Os que deixam os pais sempre a pensar: temos mais um?

Há os que sentem que os outros é que são os preferidos. Há os que se aproveitam, por achar que são eles os preferidos.

Há irmãos que são tratados como se fossem de cristal enquanto aos mais velhos é dito que têm de ser mais pacientes, mais compreensivos, mais calmos.

Há irmãos que se tratam por manos.

irmãos que vivem em total harmonia.

Há irmãos que são mais que irmãos: são amigos.

Há irmãos que fazem inveja aos filhos únicos. Há os que fazem os filhos únicos sentir que ainda bem que estão sozinhos.

Há irmãos de todos os géneros, como todas as famílias, todas as dinâmicas, todas as vivências.

Eu tenho dois irmãos. Fui irmã mais nova durante treze anos e já me sentia crescida quando passei a ser irmã do meio. Acredito que sem eles seria uma pessoa completamente diferente.

Não sei se a minha filha vai ter irmãos, mas se isso acontecer tudo farei para que se sintam igualmente amados, desejados e capazes. Muitas vezes os pais falham (por não conseguirem fazer melhor, por falta de tempo, de sensibilidade, etc), cedem perante as responsabilidades, tomam más decisões, influenciam o futuro dos filhos.

Ser pai é o “trabalho” mais duro do mundo.

Mas não nos esqueçamos que é também o mais compensador.

imagemcapa@weheartit

Todos catalogamos pessoas ou situações na nossa vida, desde pessoas que conhecemos e nos damos no dia-a-dia, como verdadeiros amigos e família. Há os amigos e depois os conhecidos; há gente porreira e gente chata; aqueles a quem sorrimos, mas rezamos a todos os santos não os reencontrar na próxima ida ao supermercado ou quando vamos buscar os nossos filhos à escola. Catalogamos relações amorosas desde aquelas que gostaríamos que se repetissem uma vez terminadas, às ‘love is in the air’, para nojo dos solteiros à sua volta. Depois, há as relações – ‘onde é que eu tinha a cabeça’ – e a ‘credo Nossa Senhora de Fátima’ –  acho que sabem do que estou a falar.

Depois temos, e é onde quero chegar, o catalogar a família. Hoje em dia existe diferentes tipos de família, e é importante para cada uma delas, estar catalogada. porquê? Porque não estando parece um tipo de família incompreendido, não aceite e até marginalizado. Seria como não pertencer a grupo nenhum!
Quando era miúda havia a família nuclear. Pergunto eu, ora quem teve a brilhante ideia de lhe dar este nome? (eu sei que tem a ver com núcleo e tal….). Mas eu associo mais a bomba! Bomba: tens que ter um pai, depois uma mãe, depois um ou dois irmãos, e com sorte e tal como nos desenhos dos livros da escola primária da altura, havia ainda também dois pares de avós com ar fim do século dezanove. Porque o avô era sempre careca e a avó tinha sempre um novelo de lã com agulhas espetadas no cabelo (não me perguntem!).

Conforme fomos crescendo, habituamo-nos a ver cada vez mais separações e divórcios. Mas, e quanto às famílias compostas por mães ou pais solteiros e a sua prole? Bem, essas não existiam oficialmente. Para mim, que cresci com  avós divorciados e uma avó super independente, isto era uma realidade. Mas só quando eu própria me tornei mãe é que comecei a olhar para esta realidade de outra forma.

Agora temos um nome, somos famílias monoparentais! Mas isto irrita-me imenso, porque quando ouço as famílias do mesmo sexo serem chamadas de famílias Arco-Iris ou Rainbow Families fico com uma inveja difícil de controlar… existe nome mais bonito? Senão vejamos: temos a família ‘nuclear’ que já não ‘bomba’ tanto como antigamente; depois temos as famílias do coração (outra que me dá dores de cotovelo); depois temos as famílias numerosas, que são, bem…numerosas! E nós? As famílias de pais solteiros? Mães e pais solteiros com filhos a seu cargo? Sim, porque as mães solteiras que não têm os filhos consigo, são…mães desnaturadas? E os pais solteiros que têm os filhos a cargo da mãe são o quê? Pais, só pais. Não querendo entrar muito pela discussão sobre género, a verdade é que as famílias monoparentais são olhadas hoje com alguma compaixão ‘força, deve ser duro!’ seguido daquela expressão de lábios virados para baixo e olhos de peixe mal morto.

É verdade, não estou a exagerar. Mesmo tendo havido evolução, e não querendo dizer menorizar as dificuldades, para alguns de nós o papel dos dois pais está somente num par de ombros. Mas esta compaixão ou mesmo pena, que ainda hoje se vê pela mãe solteira ou pelo pai solteiro, embora de formas diferentes, não ajuda em nada à independência e afirmação destes pais.

Um pai solteiro é um coitado, porque a ‘gaja’ não quis ter nada a ver com a criança e é uma mãe desnaturada e ele coitado ‘teve’ que ficar com as crianças. O que não está aqui latente neste tipo de atitudes e afirmações é que hoje apesar dos papéis terem-se alterado de forma drástica, a verdade é que a sociedade em geral ainda não assimilou o que isso implica.

A mulher ganhou maior importância no mercado de trabalho, embora ainda esteja a lutar por equidade de salário. Por outro lado, o homem desenvolveu ao longo do tempo, sendo ainda uma minoria em países como Portugal, um lado mais ‘maternal’ no sentido ‘antropológico’, mais virado para a família e para o lar em geral, e ainda bem. Contudo, estas mudanças não alteram, em nada, a forma como, ainda, são vistas as mães solteiras, muitas vezes rotuladas de “as coitadas” ou “sacrificadas”.

Assim que engravidei assumi de imediato esse papel ‘na boa’.  Talvez porque dentro de mim havia e há pouco espaço para preconceito em relação ao próximo, e as mães solteiras, para mim, são simplesmente mães independentes. O facto de estar solteira ou não, pode mudificar de um dia para o outro, apenas depende da fase da vida da pessoa. No entanto, tinha na verdade também uma imagem romântica deste meu novo papel chamando-o de uma forma quase hipster de ‘reprodução independente’ quando era mesmo somente mais uma Mãe Solteira, simples. Mas logo logo percebi que não era assim que a maior parte das pessoas me olhariam, mesmo as mais viajadas, mesmo as com mais nível de educação, mesmo as outras mães solteiras!

Um dos primeiros impactos veio de uma secretária de um Embaixador Árabe em Lisboa de quem sou amiga, que depois de me dar os parabéns me disse ’também tenho uma irmã mãe solteira…o miúdo anda num psicólogo!’ a conversa depois daí continuou deprimência abaixo, mas eu segui em frente. Isto depois do próprio Embaixador me ter perguntado ‘que boas notícias minha querida Sónia! E quem plantou nesse lindo Jardim?’ …a sério, foi assim mesmo que me perguntou. Como é Árabe e para quem conhece poesia Árabe, sabe que este sentido não é o mesmo que poderia ser se fosse numa qualquer canção popular Portuguesa. Não levei a mal, mas daria um excelente verso de música pimba, não acham? Melhor do que a tal Sopeira que tem um filho de quem ninguém sabe quem é o pai, pois é essa canção mesmo que representa bem como a sociedade nos vê em Portugal, Sopeiras! – Seja lá o que isto significa!

Numa outra situação, num almoço em que junto com os meus pais anunciei a gravidez a uma parte da família, uma tia afirmou depois de um longo silêncio ‘Os filhos de mães solteiros são criados de qualquer maneira!’ Disse isto, alguém com um casamento para lá de Bagdade? Não querendo entrar em detalhes, mas as piores afirmações vieram sempre de pessoas com casamentos ou relacionamentos desfeitos, alcoolismo, filhos com problemas graves de falta de atenção e por vezes de  amor devido à atenção em demasia dos pais em ‘segurar’ algo que nunca funcionou, estando os filhos no meio de uma guerra que não é a deles.

Mas também há a ignorância pura, como notei em duas situações com colegas de trabalho, pessoas viajadas e formadas mas que pelos vistos com ‘bagagem’ não processada. Uma colega e eu fomos almoçar a uma restaurante chique de Lisboa, depois de uma viagem de trabalho que ambas fizemos à Etiópia, estávamos a falar de trabalho, relacionamentos família etc.,e eu disse ‘como sou mãe solteira’… (tentava explicar o desafio que é para mim aceitar algumas missões em certos países e negar outras com mais risco) quando me interrompeu rapidamente ‘fala mais baixo, porque podem ouvir e depois o que vão pensar?!’ ao que eu respondi ‘vão pensar que sou…mãe solteira! Em Portugal não sou apedrejada descansa!’ e não, não estava a falar com amigas Afegãs ou Iemenitas. Era mesmo uma amiga Portuguesa!

A verdade é que a narrativa à volta das mães solteiras é sempre a mesma, de alguma admiração, porque sós ‘carregamos uma grande fardo’ e por isso merecemos a compaixão alheia. Fardo? Peço desculpa mas um filho não é fardo nenhum. Sim, nem sempre é fácil, principalmente no caso das ‘puristas’ como eu e que desde logo assumimos este projecto maravilhoso sozinhas onde não há dois salários, duas opiniões, duas soluções para problemas que vão surgindo entre outros desafios. Mas também não há dilemas, não querendo advogar este tipo de vida,  até porque acredito na diversidade. Mas a verdade é que, se há sinónimo do resultado do tipo de educação da minha filha, são os relatórios que dizem uns atrás dos outros: ’É uma criança muito equilibrada, responsável, respeitadora do outro e da diferença’ tudo porque aqui não há guerras entre pais ou dilemas semelhantes.

Neste cenário, as piores inimigas destas mães, são de facto as próprias mães solteiras que se colocam quase sempre como a vítima. Se pensam que o meu caminho tem sido fácil, estão muito enganados, e não falo do alto de um castelo perfeito. Longe disso, mas acredito mesmo que quando nos colocamos na posição de vítima dependente da benevolência ou bom senso do outro pai  ou mãe, vamos criar crianças que vão acreditar que por terem sido criados por pais solteiros, lhes faltou sempre algo, que são vítimas também. Não, não são. Só o são se o permitirem. Colocar a criança em primeiro lugar, não significa comprar-lhe as melhores sapatilhas do mercado enquanto a mãe poupa naquilo que compra para si, significa sim criar os nossos filhos com amor, claro, mas principalmente fortalecendo a sua personalidade com resiliência e carácter na diversidade e na vida respeitando o outro e sabendo que não existe nem a perfeição nem o ideal.

Até porque hoje em dia a sociedade é uma sociedade arco-íris!

 

Por Sónia Pereira de Figueiredo, originalmente escrito para o Blog Amniotico
sugerido para  Up To Kids®

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Escrevo …!

Escrevo, muitas vezes sem saber o quê!!!

Escrevo para dar voz aos rios que correm, ao amanhecer, ao sol, ao desabrochar das plantas, a Amizade, à partilha …

Mas hoje …hoje, eu quero escrever sobre algo que me atormenta e me mutila …!!!

Nos dias que correm tenho os olhos estão lassos de ver/ler a tragédia que se abate sobre todas as pessoas, que são obrigadas a abandonar a sua casa, o seu país, numa fuga desordenada, sem destino, correndo …correndo, tentando passar entre os “pingos” das balas, carregando com elas apenas uma parafernália de sentimentos onde o mais poderoso é …o medo!

Pergunto (me) …até quando? Até quando os seres humanos se vão dividir por raças, religiões, ideologia, crença, etc … sendo que o resultado dessas divisões recai sempre naqueles seres pequeninos que nada sabem, mas tudo entendem. São elas, as crianças, as principais vítimas de uma desordem gigantesca, que embrulha o ser humano. São elas, que em simultâneo com as lágrimas que derramam gritam “Quando morrer vou contar tudo a Deus”. E dizem-no em consciência de que o Todo-poderoso castigará os “maus”, os que mataram toda a família deixando-a no mais profundo desamparo, num incompreensível vazio …esse vazio, que jamais será ocupado, pois de lá foi roubado o seu direito a SER CRIANÇA.

Sozinhas no Mundo, deambulam …à mercê de todos os perigos, de um futuro incerto, de um projeto de vida, de … um colo!

Então e como deveremos nós, pais agir com os nossos filhos, frente a esta problemática? Penso que os deveremos informar, com um vocabulário adaptado à sua faixa etária. Não temos o direito de os colocar numa redoma de vidro, para que tudo que é triste, mau, negro, não os atinja. Bem pelo contrário. É nossa obrigação mostrar-lhes, que o mundo também é composto por pessoas menos boas, por cores onde o cinzento e o preto existem. Que os dias não são só de sol e que todos nós, incluindo elas próprias têm o direito de se sentirem tristes, mesmo que não saibam o porquê. Sensibilizar os nossos filhos para as problemáticas mundiais, para a fome, para a guerra, para os desalojados, para o desemprego, para a criminalidade, enfim … para tudo que se insere na parte negra do mundo, pois também ela faz parte desse mundo onde vivemos e não a podemos esquecer.

Sensibilizemos os nossos filhos, para os valores, ajudemo-los a educar o coração, a amar o Outro.

Eu sei, que muitos de nós, pais, tudo faremos para “isolarmos” os nossos filhos do mal mundial, porque são os nossos filhos e queremos que vivam felizes na sua redoma onde nada nem ninguém os possa entristecer. Mas ….CRESCER faz doer!

A nossa obrigação é … prepará-los para a vida e a dor faz parte desse processo!

“A DOR É O SAL DA SABEDORIA” – (Eduardo Sá)

Por Inês Clímaco, para Up To Kids®
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A How To… tem como preocupação fundamental o bem estar da criança/jovem, pois é-nos impossível apresentar resultados escolares satisfatórios quando não existe estabilidade. Neste sentido dispomos de parceiros qualificados para intervir nas mais diversas áreas nomeadamente a Terapia Familiar.

A Terapia Familiar e o sucesso escolar

O (in)sucesso escolar pode ser multifatorial. Em algumas situações está associado a dificuldades de aprendizagem, as quais podem ser do âmbito cognitivo ou apenas emocional. Neste último caso, podem estar relacionadas com instabilidade e problemáticas vividas na família, aos quais as crianças e jovens não são alheios.

Ausências prolongadas dos pais, discussões frequentes e por vezes fervorosas entre os vários elementos da família, sentimentos de incompreensão ou rejeição por parte dos filhos e/ou mau estar generalizado no seio familiar, proporcionam sentimentos de insegurança e outras fragilidades, que se podem manifestar através de desmotivação e consequentemente em maus resultados escolares.

A Terapia Familiar surge como um espaço de partilha destinado à comunicação entre os diversos elementos da família, onde se pretende fortalecer o sentimento de união, para que a criança ou o jovem mantenha o seu investimento orientado para o sucesso escolar sustentado pelo equilíbrio familiar.

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Conceito de Família

Um dicionário de Língua Portuguesa define o conceito de família como um conjunto de pessoas com relações de parentesco. No entanto, existem muitas outras definições em redor do conceito de família e não há dúvida que se trata de uma rede complexa de relações e emoções, onde passam sentimentos, sendo também um bem precioso que merece suprema atenção e reflexão e que é muito maior do que se possa imaginar, pois representa o passado, o presente e também o futuro.

 O que é a Terapia Familiar e qual o “papel” do Terapeuta Familiar?

A Terapia familiar é um diálogo que se constrói e se desenvolve no tempo, envolvendo um terapeuta disponível e uma família, normalmente em “sofrimento”.

O papel do Terapeuta Familiar consiste entre outras coisas, em avaliar e intervir nos conflitos familiares, conjugais e em situações relacionais que apresentem dificuldades. Pode ainda facilitar a comunicação, evidenciando as competências da própria família e ativando a sua participação na resolução dos seus próprios problemas.

O processo de mudança proposto em Terapia Familiar passa por progressivamente devolver às famílias a sua competência e capacidade em ultrapassar as suas crises e por vezes apoiá-las na resolução dos seus problemas, tanto no âmbito da saúde mental, como nos contextos psicossociais, educativos e judiciais;

Metodologia das consultas de Terapia Familiar

Nas consultas de terapia familiar, reúne-se toda a família nuclear, ou apenas alguns dos elementos que vivem em conjunto, com o objectivo de retratar e situar toda a dinâmica daquela família. Outros familiares poderão ser chamados a participar nas consultas.

Em que momentos a família procura ajuda? 

  • De uma forma geral, é um dos elementos da família que procura ajuda quando, em algum momento específico do ciclo de vida da família acontece uma situação preocupante, ou quando alguns dos elementos apresentam problemas de relação.
  • Quando existem problemas conjugais/casal;
  • Na presença de comportamento antissocial de crianças ou jovens adolescentes, tais como isolamento, insucesso ou absentismo escolar, abuso de drogas, comportamentos pré-delinquentes e/ou comportamento violento;
  • Após insucesso de outro tratamento, por exemplo quando as sessões de terapia individual foram utilizadas para discutir assuntos da família

Nuno Eduardo Pereira – Psicólogo (I.S.P.A.) / Terapeuta Familiar (Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar)
Colaborador – How To…

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