O grito das crianças ou será o grito dos pais?

Hoje trago-te uma partilha de uma conversa com uma mãe. Uma mãe que decidiu partilhar comigo a dor de uma criança que grita, que chora e que bate. Uma criança igual a tantas outras, com necessidades por preencher. Tal como nós, adultos.

Contava-me esta mãe que na escola da filha existia uma criança que demonstrava um comportamento totalmente descontrolado. Que fazia com que os pais das outras crianças ficassem sem saber o que fazer e demonstraram até a vontade de retirar os seus filhos daquela escola. Era uma criança com 10 anos que batia em todas as crianças e que gritava muito. Não conseguia ficar quieta e que usava frases como “Eu sou má”, repetindo vezes e vezes sem conta.

Esta escola está integrada num contexto que consegue dar às crianças todos os recursos necessários, excepto um.

O amor incondicional.

Eu consigo imaginar o sofrimento desta criança ao colocar na sua identidade esta palavra. Apesar de que eu com a idade dela era o oposto. A tímida, a caladinha, a sossegada. Palavras que ficam marcadas na nossa pele, rótulos carimbados nos nossos corações. Percebo também a insatisfação dos outros pais. Nenhum pai gosta que os filhos cheguem a casa a dizer outra criança lhes bateu. Enquanto, pais, criança, escola, educadores, pais das outras crianças se debatem em praça pública, quem mais sofre no meio disto tudo? A criança que até hoje pediu ajuda à sua forma e até agora não teve uma resposta que a pudesse ajudar. Em causa, não está o amor destes pais, também os pais precisam de ajuda.

Continuamos a conversa e dizia eu a esta mãe, que as crianças têm muitos dons e, por vezes, os filhos gritam pelos pais. Dão voz às dores internas, as frustrações, as insatisfações, aos sonhos não concretizados, à falta de auto-estima dos próprios pais. Se não queremos que os filhos gritem as nossas dores, é o momento exato de pedir ajuda.

Pais e filhos têm igual valor mas a responsabilidade por manter a relação saudável é dos pais.

São os pais que têm os recursos necessários para promover o bem-estar dos seus filhos. E está tudo na relação, os pais são a ponte para os filhos conhecerem o mundo, desde do primeiro dia. São a ponte para explorar e e a ponte para regressar quando precisam de amor, colo, cuidados e segurança.

A conversa continuou a desenvolver-se com esta mãe até que ela me questionou “Como podem outros adultos e outras crianças amar uma criança tal e qual como ela é, sabendo que tem este comportamento?”. E eu pergunto-vos, que respostas dariam? Se fosse na escola dos vossos filhos o que fariam?

A minha resposta foi, em primeiro lugar, a necessidade de toda a comunidade praticar compaixão por aquela criança e pelos pais. Perceberem que quando estão a colocá-la à margem de tudo e de todos pelo seu comportamento, não estão a ajudar a criança, pois ela própria já diz “Eu sou má”.

Se, em alguns momentos das nossas vidas, abrandássemos o ritmo, olhássemos sem julgamento e para além do comportamento, o que será que viríamos naquela criança que hoje não vemos?

Como podemos ajudar uma criança que já diz “Eu sou má”, a retirar da sua identidade palavras destrutivas?

Como podemos cuidar da auto-estima de uma criança e, até da auto-estima dos adultos?

Com palavras, amor incondicional e cuidados.

Se nos lembrarmos que a criança não é um comportamento, mas sim que a criança está a ter um comportamento, os rótulos deixam de existir e fica presente o amor incondicional. O amor incondicional é pela criança em si e não aparece e desaparece consoante o seu comportamento. Neste caso, esta criança não é sempre má, mas as palavras e o contexto fizeram-na acreditar que sim. Se não, porque repetiria tantas vezes para si própria “Eu sou má”? Nesta escola e noutras escolas, todas as pessoas conhecem os alunos “problemáticos”, só isso diz muito sobre o nosso sistema.

Que gritos internos darão estes pais? Como se sentem? Como se vêem? Que pedidos de ajuda já fizeram?

Pedir ajuda, hoje em dia, ainda é tabu, ainda nos leva a pensar o que vão pensar de nós. Enquanto que pedir ajuda devia ser visto como pedir uma mão, pedir um tempo, pedir uma pausa para escutar o que vai na alma dos pais. Por isso, é tão importante o sigilo e profissionalismo. Só assim, os pais sabem que podem contar connosco.

É necessário, cada vez mais, existir uma rede de apoio sólida e construtiva que veja para além do comportamento da criança, que veja toda a família. Quando ouvimos uma família e escutamos cada elemento, ajudamos cada um a encontrar-se no meio daquela família.

Aos olhos da Parentalidade Consciente, para além do que olhar para além dos gritos das crianças, devemos escutar com compaixão, sem julgamento, com total aceitação, o que está para além dos gritos dos pais. Pois somos nós, os adultos que mais precisamos de colo, de carinho, de afecto, de abraços, de palavras amigas e de respostas de ajuda. Isso é visível nas crianças. Não precisamos que nos digam como fazer e quando fazer. Não precisamos que nos digam que estamos a fazer mal e que há quem faça melhor. Precisamos que nos digam que estão connosco.

Quantas crianças gritam hoje em dia? Quantos pais gritam? Quantos de nós ajudamos quando nos é solicitado? E ajudar sem dizer “faz-assim-que-assim-funciona”?

Um abraço carinhoso.

Uma frase da Virginia Satir, terapeuta familiar muito reconhecida que nos pode ajudar a todos a colaborar em comunidade e em família:

“Eu quero amar-te sem te absorver,
Ver-te sem te julgar,
Juntar-me a ti sem te invadir,
Convidar-te mas sem exigir,
Deixar-te ir sem culpa,
Criticar-te sem te ferir e
ajudar-te sem te insultar.
Se eu puder ter o mesmo de ti, então podemos realmente encontrar-nos e beneficiarmo-nos mutuamente.”
– Virginia Satir

Com o que não deve, nunca, castigar!

Os castigos sempre fizeram parte da humanidade. Por mão divina, recriações mitológicas ou julgamentos humanos vem punir o erro, a atitude e o comportamento desviante. 

Até há bem poucos anos eram essencialmente corporais. Os países do norte da Europa foram dos primeiros a considerar crime os castigos violentos a crianças e adolescentes.

Com a introdução dos estudos comportamentais começaram a ser postas em prática outras técnicas de regulação comportamental, como por exemplo, o time out (ou tempo para pensar) que até pode ser interessante na medida em que promove a capacidade reflexiva da criança. Mas quando se lhe diz “agora ficas aí de castigo a pensar no que fizeste” todo o objetivo é desvirtualizado. O pensar sobre as atitudes fica associado a uma punição, ou seja, algo a evitar.

Os castigos foram então “evoluindo” para uma forma mais aceite e mais intelectual – os castigos restritivos. Provavelmente já terá ouvido pais comentarem – eu não bato nos meus filhos, eu castigo-os!

As punições trazem consigo a manutenção do auto-conceito de bons pais, exigentes e que educam os filhos corretamente.

Conhece alguma criança que não teste os limites, fazendo tudo certinho, sem erros e correspondendo automaticamente ao que lhe pedem? Se a sua resposta é sim… algo estará mal com essa criança.

E se as dinâmicas familiares têm vindo a sofrer alterações, as respostas pelos castigos são, também, o resultado disso. Então, fará sentido ter castigos ou enfrentar consequências? Qual a diferença?

Castigos ou consequências?

Os castigos não têm uma lógica associada à ação praticada. De uma maneira simples, seria idêntico a você não parar num sinal vermelho e em vez de pagar a multa ser-lhe descontado um dia de férias!

Já as consequências têm diretamente a ver com a ação ou comportamento incorreto e por isso existe uma lógica interiorizável. E se a aprendizagem for positiva em vez punitiva o comportamento desejado é conseguido de forma mais saudável. Dito de outra forma, se em vez de castigos optar por consequências e objetivos a alcançar a criança aprende a regular-se não pelo medo de represálias, mas pelo desejo de conquista e porque se sente bem.

Se ainda assim, lhe faz sentido usar castigos para punir comportamentos, há situações a que NÃO deve jamais recorrer:

  • Usar as atividades de lazer ou desporto.

Se o desporto é algo bom e saudável, castigar com ausência destas atividades cria associações negativas e, com a recorrência, desmotivação para a prática. Lembre-se – desporto é saudável, não pode ser usado para punir

  • Hora de dormir

Dizer “agora vais para a cama de castigo” é meio caminho andado para arranjar vários problemas na hora de dormir, que se arrastam por vezes até à idade adulta. Há adultos que, curiosamente, dormem muito bem no sofá mas quando vão para a cama perdem o sono… porque será?

  • Ficar sozinho e/ou fechado.

Fechar a criança no seu quarto ou dizer-lhe “agora vais sozinho para o teu quarto” é dar corda às angústias de separação e alimentar a ideia de que estar sozinho é algo negativo e a evitar. Mais tarde tenderá a isolar-se para não ser criticado ou a criar distanciamento quando discorda ou quer mostrar desagrado.

  • Usar os trabalhos escolares.

Felizmente são cada vez menos os professores que passam TPC’s como castigo ou que mandam escrever repetidamente uma ou duas folhas com “não vou voltar a portar-me mal”. Há pais que ainda usam os TPC para castigar, algo do género “agora como castigo não vais ver mais desenhos animados e vais fazer os TPC’s”. Escrever não pode ser castigo, aprender não pode ser castigo, pelo contrário as aprendizagens escolares devem ser reforçadas positivamente. 

A minha filha Frederica de dois anos e meio adora a “mimi” dela.
E temos várias lá em casa: a maioria são cor-de-rosa [todas de borracha, as mais básicas da Chicco, que são as únicas aprovadas pela bebé lá de casa], mas a preferida da minha filha continua a ser a chupeta verde herdada do irmão.
Mas, na verdade, o que me traz aqui hoje não são as chupetas.  Mas sim a intromissão de pessoas estranhas ao uso ou não uso das mesmas.

Na chupeta da minha filha manda ela [e eu, na medida em que regulo a sua utilização].

Não é a primeira vez que ao final da tarde, porque está muito cansada, ou numa situação em que se magoa a Frederica me pede a chupeta durante o dia. Eu, quando vejo que o assunto é sério para ela, dou.
E também já não é a primeira vez que, as senhoras do supermercado ou a velhinha que passa pela rua diz coisas como:
que feia… uma menina tão bonita de chupeta” ou “dá-me a tua chupeta para eu entregar aos bebés“.

Ora aqui vai um recado: O uso da chupeta é um assunto privado e privativo de cada família.

Depois de vos contar a minha experiência pessoal, vale a pena irmos mais a fundo no que toca às recomendações. Lembrando sempre que, lá está, cada criança é uma criança e cada situação familiar ditará os timings. Tudo pronto?

1 – É recomendável abandonar o uso da chupeta entre os 18 meses e os 3 anos.

[com grandes benefícios sobretudo nos primeiros anos de vida- mas disso falamos noutra altura]

A recomendação reúne um largo consenso entre pediatras e terapeutas da fala. Isto porque o uso de chupeta pode comprometer, a longo prazo, a saúde oral [má oculsão e dificuldades de mastigação são os problemas mais comuns] e também o desenvolvimento adequado da linguagem, à custa de problemas de dicção.

2- Devemos começar por retirar [ou reduzir] o uso da chupeta de dia e só depois de noite.

Ou seja, a regra anterior deve ser aplicada de forma gradual. A chupeta é uma ferramenta de autocontrole da criança.  

Nesta medida, é importante que a criança vá aprendo a fazer essa autoregulação sem precisar da chupeta. Este movimento deve ser comunicado à criança, conversado e debatido. A chupeta é da criança e ela deve, portanto, ser tida e achada neste processo.

3- A chupeta não é uma moeda de troca.

E esta é uma opinião muito pessoal. O Vicente não deu a chupeta ao Pai Natal, não a entregou aos bebés e MUITO MENOS recebeu um brinquedo em troca. O abandonar a chupeta é um processo natural de crescimento, conversado [e às vezes demorado] entre pais e filhos e onde não cabem chantagens nem toma lá-dá-cá.

Isto não quer dizer que eu estou de acordo com o uso de chupeta aos 4, 5, 6 anos. Não estou, de todo. Quer apenas dizer que num processo de crescimento – seja ele qual for – não há contrapartidas nem verdades absolutas.

A alínea anterior não deita por terra a ideia, proposta por alguns autores, de encontrar outra ferramenta de auto controle como seja um peluche, uma fralda de pano ou outro objeto com que a criança estabeleça ligação afetiva.

4- Se a chupeta é importante para os nossos filhos e…

Se até nós, pais, achamos que o uso/não uso da mesma é importante, nada de misturar este processo com outras mudanças na vida da criança. E aqui cabe tudo o que possa interferir com a estabilidade emocional dos nosso filhos. Mudança de casa, a vinda de um irmão, uma nova escola, o desfralde, etc. Combinado?

5- Ninguém é feio por usar chupeta.

[Quanta dureza!].

Não são os nossos filhos, nem são os primos, nem o amigo da escola que com 5 anos usa chupeta. Se dentro do nosso seio familiar, gostamos que respeitem as nossas opções e os nossos timings, não deveríamos fazer o mesmo com os outros? Não devíamos ensinar isso aos nossos filhos?

Nestas pequenas coisas mostramos aos nossos filhos valores maiores como o Respeito, a Diferença e a Compreensão.

 

image@gettyimage

Quando a educação dói: mães tóxicas

Neste artigo vamos falar sobre mães tóxicas. No entanto, convém frisar que também há pais e avós tóxicos. São mestres em educar as crianças sem estimular o crescimento pessoal e a segurança. Com isto, no futuro poderão ter a sua independência física e emocional bastante prejudicadas.

O papel da mãe é quase sempre mais forte na educação dos filhos. É esta que define o vínculo de carinho e afeto com a criança que, com passar do tempo, sairá dos seus braços e saberá que tem uma mãe que a ama. A criança terá sempre a referência do amor incondicional da mãe, mas de forma saudável, pois amadureceu de forma inteligente.

As mães tóxicas oferecem um amor imaturo aos seus filhos. Projetam sobre eles as suas inseguranças para se reafirmar e, assim, obter um maior controle sobre a sua vidas e a dos seus filhos.

O que está por trás da personalidade das mães tóxicas?

Por mais estranho que pareça, por trás do comportamento de uma mãe tóxica está o amor. Agora, todos sabemos que quando se fala de amor, há dois lados da mesma moeda: uma dimensão capaz de promover o crescimento pessoal do indivíduo, seja a nível de parceria ou a nível familiar, e outro lado, mais tóxico, onde um amor egoísta e interessado é exercido, por vezes de forma sufocante, que pode ser completamente destrutivo.

O factor preocupante é que as famílias que exibem estas artimanhas de toxicidade fazem-no em crianças, indivíduos que estão em processo de amadurecimento pessoal, tentando estabelecer a sua personalidade e desenvolver a sua autoestimaTudo isto vai deixar grandes lacunas e  inseguranças nos filhos que, por vezes, se tornam intransponíveis.

Vejamos as dimensões psicológicas delineadas das mães tóxicas:

Personalidade insegura

Às vezes, possuem uma nítida falta de autoestima e autossuficiência que as obriga a ver nos filhos uma “salvação”, algo que devem modelar e controlar para ter ao seu lado, para cobrir as suas deficiências.

Quando notam que os filhos se estão a tornar independentes e capazes de construir as suas próprias vidas, estas mães sentem uma grande ansiedade, pois temem, acima de tudo, a solidão. Portanto, são capazes de implantar “truques hábeis” para as continuar a manter por perto, projetando desde o início, a sua própria falta de autoestima, as suas inseguranças.

Obsessão pelo controle

Estas mães têm o hábito de controlar todos os aspectos da sua vidas, não dão ponto sem nó. Passam então, a fazer o mesmo na vida dos filhos. Não conseguem respeitar os limites. Para as mães toxicas, controle é sinónimo de segurança, algo que faz com que se sintam muito bem.

O problema, é que estas mães convencem-se que as suas atitudes são reflexo do seu amor.

“Eu vou-te facilitar a vida e controlar as tuas coisas para te fazer feliz”

“Eu só quero o que é melhor para ti e com a minha ajuda não precisas de aprender pelos teus erros ou experiencia”

O controle é o pior acto de superproteção. Evita que as crianças sejam independentes, capazes e corajosas. E impede que aprendam com seus próprios erros.

A projeção dos desejos não realizados

“Quero que tenhas/faças tudo o que eu não tive/fiz

“Não quero que cometas os mesmos erros que eu”, “

As mães tóxicas projetam nos filhos os seus desejos não realizados sem pensarem duas vezes se é isso o que ele querem, sem lhes dar a opção de escolha. Refugiam as suas opções no amor incondicional, quando, na realidade, o que demonstram é um falso amor. Um interesse amoroso.

Como lidar com uma mãe “tóxica”?

É necessário estar consciente de que tem de se quebrar o ciclo de toxicidade. Tens vivido muito tempo neste ciclo, sabes as feridas que te causou. Mas agora precisas de abrir as asas e voar. Para seres feliz. Será difícil, mas deves começar por dizer “não” para pores as tuas necessidades em voz alta e aumentar as tuas próprias barreiras, aquelas que ninguém poderá ultrapassar.

Trata-se da tua mãe, e quebrar este ciclo de toxicidade pode causar danos. Às vezes, dizer a verdade pode parecer prejudicial, mas é uma necessidade vital. Isso significa deixar claro o que permites e o que não permites. Não queres causar nenhum dano, mas também não queres sofrer mais com esta relação; isto deve estar bem claro na tua cabeça. Lembra-te que uma mãe tóxica, transforma-se numa avó tóxica.

Reconhece a manipulação.

A manipulação por vezes é tão é tão subtil que não nos apercebemos, pois pode estar em qualquer palavra, em qualquer comportamento. E, acima de tudo, não caias na “vitimização”, um recurso muito utilizado pelas mães e pessoas tóxicas. Mostram-se como as mais sofredoras, as mais feridas quando, na realidade, o mais ferido és tu. Lembra-te sempre disto.

image@Anna Radchenko

Por A mente é maravilhosa, adaptado por Up To Kids®

Como evitar birras às refeições?

“Parece de propósito! Logo hoje que preciso de chegar a horas a um sítio é que decides fazer uma birra dessas!”

Cá em casa também era assim. Cada manhã, um suplício. Mas há poucas semanas, tudo mudou. O momento de viragem foi o dia em que a minha filha mais nova, que está quase a fazer 3 anos, fez a birra das birras ao pequeno-almoço: ela gritava, esperneava, nada a acalmava. Parecia que o mundo ia acabar. Tudo por causa de um simples iogurte, que era-mas-afinal-não-era-bem aquilo que ela queria para começar o dia. E eu atrasado para uma reunião…

Mudar o foco

A minha vontade, naquele momento, foi a de muitos pais nesta situação: ralhar (“come isso imediatamente!”), chantagear (“se não comeres…”, premiar (“se comeres dou-te…), castigar (“ai não comes? Então…). O espetáculo foi tal que me passou pela cabeça dar-lhe uma nada consoladora palmada no rabo! Mas, em vez disso, comecei a aplicar o que tenho aprendido com a Disciplina Positiva: respirei fundo (muito fundo!), mantive a calma e… mudei-lhe o foco, inventando uma brincadeira em que o iogurte (o tal que ela não queria…) era tão apetecido que o melhor seria que ela o comesse todo (e rápido) antes que… a Princesa Sofia acordasse e o comesse por ela. Resultou em cheio e, em menos de 10 minutos estávamos na rua.

Dias antes já tinha aplicado a mesma estratégia, com resultados idênticos, quando ela acordou em histeria a meio da noite, a chorar e a espernear como uma louca. Nessa madrugada só se acalmou quando consegui que prestasse atenção à sua boneca favorita, que lhe disse que acordou “assustada com a berraria” dela. Depois inventei uma história (sem grande nexo, porque estava meio a dormir) que só me lembro que metia um castelo e uma princesa, que estava doente e não podia ouvir o barulho de alguém a chorar à noite, porque senão acordaria no dia seguinte cheia de espirros…

Antecipar comportamentos e dar opções limitadas

Depois das duas situações que descrevi, passei a apostar ainda mais na prevenção. “Se o pequeno almoço é um momento de potencial tensão, porque não envolvê-la na sua preparação?”. Criámos uma rotina juntos e agora abro o frigorífico e dou-lhe opções limitadas: “o iogurte de banana ou de morango?”. O pequeno almoço passou a ser um momento divertido, sem stresses e que reforça os laços familiares. E nunca mais cheguei atrasado a lado nenhum pela manhã.

Promover a cooperação tem sido outro dos trunfos, para evitar fitas à mesa ao pequeno almoço (e também resulta noutras refeições). Por exemplo, deixo que seja ela a deitar e a mexer os cereais na tigela onde deita o iogurte. No início entornava bastante, agora raramente deixa cair mais do que um ou dois pedaços. Depois, dou-lhe um bónus: escolher a colher que quer usar: “a do Mickey ou a do Pluto?”. E voilá!

Desenganem-se os pais que acham que, com esta “estratégia”, a deixei “ganhar”, “levar a melhor”. Nada disso. Limitei-me a dar-lhe poder de escolha, mas dentro de soluções limitadas, aceitáveis e respeitosas para ambos. O que a longo prazo terá efeitos positivos, já que está a aprender a decidir por si, em vez de o fazer contrariada, porque é obrigada a tal.
O que faz toda a diferença.

Não desisto de ti!

Avisaram que os três anos seriam mais complicados do que os dois.

Com o meu pensamento positivo recebi os três anos de braços abertos, fosses tu a excepção ou a regra, meu amor.

E, meu amor, confirma-se que os teus três anos não estão a ser “fáceis”, que há um desafio constante, uma procura do teu lugar no mundo, uma falta de controlo das emoções, uma frustração muito presentes nos teus dias.

Todos os dias têm sido uma lição. Há momentos em que saio da sala e vou chorar baixinho para a cozinha para me acalmar, momentos em que não sei qual a resposta certa para tantas dúvidas. Sigo o meu instinto, sigo o meu coração, eles raramente me deixam ficar mal.

Acima de tudo, continuo do teu lado como se as tuas palavras e as tuas atitudes não me ferissem por dentro e, muitas vezes ferem.

Tens APENAS três anos. É o mantra que repito para mim mesma, quando levantas a mão ou dizes algo que não deves. É com esse mantra no fundo do pensamento que tento ensinar-te a diferença entre o bem e o mal, como devemos tratar os outros, principalmente, os que nos são mais queridos.

Sei que até ao cinco anos está provado que há uma incapacidade de gerir alguns sentimentos, alguma frustração e tento acompanhar-te nisso sem fazer cara feia, mas por vezes não consigo. Por vezes preciso que entendas que todas as tuas atitudes têm uma consequência e que essa consequência muitas vezes se manifesta na relação que os outros terão contigo. Explico, tento não levantar a voz, tento que te encontres no meio do caos. Tento e por vezes falho. E sei que faço o melhor que consigo.

Há quem diga que sou demasiado branda, que deveria pespegar-te duas palmadonas à primeira coisa errada, mas eu sou tua mãe. E isso significa que te conheço como ninguém. E que sei diferenciar falta de educação de desafio, personalidade de birra. Se fosse seguir a corrente da palmada no rabo estarias negra e na mesma. Na mesma sei que não pois o teu porto de abrigo, aquele que deveria indicar-te o caminho seria para ti a figura que ao primeiro erro te castiga em vez de te ensinar.

Tenho o meu jeito de fazer as coisas e não acho que seja melhor ou pior do que os dos outros pais. Acho que é o que faz com que consigamos seguir em frente tendo uma relação que se baseia no amor e não no medo (da palmada, do castigo, do grito). Depois dos momentos mais complicados passarem conseguimos conversar sobre eles, entender as lições. E irei fazê-lo mesmo que o coração se aperte cá dentro porque estás a fazer algo que eu nunca fiz e que desejo que nunca tivesses feito, como levantar a mão a um avô. Não olho para o lado, não finjo que não acontece, deixo que os envolvidos resolvam o conflito e no fim acrescento o que acredito que falta, se faltar alguma coisa.

Lembro-me agora de uma viagem de metro que fizemos no mês passado. Estava alguma gente e estavas a portar-te lindamente, o que é a regra. Um senhor que estava junto a nós meteu-se contigo e, apesar do teu comportamento exemplar, disse: “vais ser má e eu vou estar cá para ver”. Se me dissessem que isto  ia acontecer teria sido a primeira a dar certezas de como reagiria. Reagi dizendo “ela vai ser o que for e EU vou estar cá para ver”, sempre com um sorriso no rosto. Mais tarde interroguei-me sobre o que teria visto o senhor para fazer uma afirmação tão séria. E por que motivo não me tinha abalado o uso do adjectivo “má”. Acredito que é por saber, bem cá no fundo, que não é algo que eu controle. Serás, efectivamente, o que fores e há uma hipótese de o senhor vir a ter razão. E se fores uma miúda má, uma adulta má, serei a primeira pisar os teus calcanhares durante todo o teu caminho para te mostrar que não tem de ser assim. Que te conheço o suficiente para saber que há mais bondade dentro do teu coração do que muitas pessoas têm a oportunidade de sentir na ponta dos dedos. És intrinsecamente boa e amo-te por isso. Como te amaria se não o fosses, porque sou tua mãe. E como tua mãe não desisto de ti.

Continuarei a mostrar-te o caminho, mesmo que te desvies dele.

Chamar-te-ei à atenção, mesmo que teimes em não me ouvir.

Amar-te-ei sempre, para que haja nem que seja uma dúvida dentro de ti: para quê ser má quando o mundo é tão melhor quando somos bons?

Não te preocupes, traga o amanhã o que trouxer, eu estou aqui.

imagem@weheartit

Esta é má e fria, não gosta de ninguém” – foi assim que uma mãe descreveu a filha a uma amiga que acabara de encontrar. A menina, com pouco mais de 1 ano, estava sentada no carrinho e ignorava a amiga da mãe, desejando apenas continuar a brincar com um coelho de peluche que trazia na mão. A amiga da mãe tentava desvalorizar, referindo que as crianças são assim, mas a mãe continuava: “esta miúda é parva, nunca cumprimenta ninguém! Olha, Joana, és feia, não gosto de ti!“. Confesso-vos que fiquei incomodada ao ponto de sair disparada da loja e as palavras me terem ecoado na cabeça durante a tarde toda.

As crianças não são feias, más, nem tão-pouco parvas

Em primeiro lugar, ninguém é, as pessoas estão a ser! Existe uma grande diferença entre “é” e “está a ser” – o “é” envolve rigidez, passa a mensagem de que será sempre assim e por isso não há possibilidade de mudança, criando um rótulo definitivo de “és isto” (esta expressão promove a rigidez cognitiva em que as pessoas analisam as situações em termos de tudo-ou-nada, não existe meio-termo); o “está a ser” transmite a ideia de que o comportamento depende das circunstâncias e que por isso pode alterar-se – numa situação, em determinado contexto, és assim, noutra já poderás não o ser – o que facilita a flexibilidade cognitiva (de pensamento), característica fundamental no bem-estar psicológico. Mais, o “é” cria uma determinada expectativa de comportamento tanto na criança como nos outros – a criança sabe que esperam que seja, por exemplo, agressiva e por isso tenderá a reproduzir esse género de comportamentos; os outros esperam ver agressividade na criança e por isso a sua atenção estará direccionada para isso (a chamada atenção selectiva em que o nosso cérebro, para poupar recursos, procura informação que se encaixe naquilo que procuramos; tal como quando entramos numa loja em busca de um vestido vermelho, se nos perguntarem se existiam muitos vestidos azuis não iremos conseguir responder, a nossa atenção foi canalizada apenas para a primeira cor).

Enquanto cuidadores existem comportamentos que consideramos mais e menos aceitáveis de acordo com as nossas crenças e aquilo que a sociedade defende. Reparem que comportamentos está a negrito pois é isso que está em causa, não a criança em si. Quando digo “já não gosto de ti” a uma criança que faz algo que considero menos adequado não estou a focar o seu comportamento, coloco-a integralmente em causa, o que abrange até as suas qualidades – parece-vos justo?

E se os nossos companheiros dissessem que já não gostam de nós porque não lavámos a loiça do jantar? E se a nossa mãe deixasse de nos amar devido à discussão que tivemos a semana passada? Repito: o que está em causa é o comportamento e podemos expressar o nosso desagrado relativamente a isso – “a mãe não gosta que te ponhas em cima da cadeira” – não em relação à criança em si.

Comunicar positivamente

Existem palavras cuja única função é magoar, nada se constrói com base nelas. “Feia, má, parva, burra” são apenas alguns exemplos de palavras que destroem a auto-estima de qualquer um, sobretudo quando proferidas por pessoas significativas cuja opinião é importante para nós. Além disso, são altamente subjectivas, difíceis de decifrar, e por isso em nada promovem a aprendizagem – O que torna uma criança feia? Que comportamentos levam a esse título? Será que a mensagem que queremos transmitir é que tem de se tornar bonita?

Sejamos objectivos no que queremos para que a criança se possa regular – “não quero que estejas em cima da cadeira pois podes magoar-te, fico preocupada contigo“. Depois disto é fundamental apresentar uma alternativa para onde a criança possa canalizar a sua energia – “vamos descer da cadeira, podemos ir brincar a saltar do chão para o tapete”.

Os elogios podem e devem ser aplicados sempre que se justifique. Noto que muitas vezes os pais passam grande parte do tempo a apontar os defeitos dos filhos em público, eu própria já me senti tentada a fazê-lo apenas por estar habituada a que seja esse o registo. Novamente, remetendo para nós próprios, gostaríamos que o nosso companheiro encontrasse um amigo na rua e começasse a apontar os nossos defeitos? Por que o fazemos com aqueles que mais amamos?

Que estes momentos sirvam para desabafar, e aqui podem expressar-se algumas preocupações, mas sejam sobretudo uma oportunidade de reconhecimento público do valor que os nossos filhos têm, daquilo que mais gostamos neles. Como referi, estamos a criar expectativas e isso irá moldar o comportamento da criança, além de promover o seu auto-conceito (como se caracteriza) e a sua auto-estima (como valoriza as suas características).

Por último, as crianças (felizmente) não são mini-adultos! Não esperem que uma criança prefira estar a interagir com uma desconhecida (no caso da amiga da mãe) do que com um brinquedo, não esperem que as crianças expressem afecto por encomenda (podem pedir, eu peço sempre que ela cumprimente as pessoas, mas sei que é natural que tal não aconteça), não ambicionem uma criança robótica que faz tudo que desejamos (se o faz hoje também o fará no futuro e aí já não terá tanta piada).

Percebam e respeitem a essência das vossas crianças, tal como elas aceitam diariamente a nossa.

imagem@tokkoro

São já muitos os pais que ouviram falar nos “Terrible Twos”. Uma fase, que diz-se, pode acontecer entre os 18 meses e os 3 anos de idade. Diz a literatura, que corresponde a um período em que a criança começa a desenvolver comportamentos de oposição, desafiando deliberadamente as solicitações dos pais. Diz-se também, que é normal e que praticamente todas as crianças passam por isso, ainda que de forma mais, ou menos suave. Alguns pais esperançosos, lançam o desafio ao universo dizendo “eu não acredito que as birras existam!” e atribuem as mesmas a erros de interpretação por parte dos pais, outros a falta de “pulso” e “limites”.

Afinal o que são os “terrible twos?” e serão assim tão temíveis?

Imagine o que é acordar de manhã e ter uma pessoa à sua volta a vesti-la, a escolher o seu pequeno almoço, a dizer-lhe para estar sossegado(a), para se despachar para não haver atrasos, a lavar-lhe os dentes, a pentear-lhe os caracóis (sim, sem dúvida um grande desafio!), a pô-lo(a) a fazer xixi (a horas certas), ou a trocar-lhe a fralda, enquanto tem expectativas de que tudo isso corra de forma tranquila e sem grande percalços. Aceitaria passivamente que lhe escolhessem a roupa? O que comer? O que fazer e como fazer? Acredite que se para o bebé, até esta altura, tudo isto fazia parte da rotina, agora, para o bebé criança, tudo mudou. Esta é uma fase de grande transformação para os nossos filhos, é um período muito desafiante tanto para eles como para nós. Por um lado, queremos vê-los crescer bem e saudavelmente, por outro, não queremos “perder” o nosso bebé. Da mesma forma, os nossos filhos sentem que estão a crescer e que têm cada vez mais poder sobre a sua própria vida, e são cada vez mais capazes de fazer coisas, e mais ainda, de dizer coisas (aceitar, recusar, escolher…). No entanto, percebem que isso não é fácil, nem sempre é promovido ou apoiado pelos pais e, também não deixam de querer continuar a ser o nosso bebé.

A confiança é o segredo

O segredo? O segredo passa por confiar e compreender. Primeiro confiar que ajudar o nosso filho a crescer não implica perder o nosso bebé, mas antes pelo contrário, corresponde a vê-lo a ganhar e conquistar cada vez mais coisas para si. Por outro lado, compreender que este processo não só não é fácil para ele, como vai desencadear uma série de conflitos internos, difíceis de gerir, e que isso, por vezes, vai desencadear momentos de grandes e intensas “birras”.

Se eu confio e compreendo as necessidades do meu filho naquele momento, então o que é que eu faço? Dou-lhe aquilo que está a precisar. Maior autonomia. Então a estratégia passa por descobrir tudo aquilo que os nossos filhos já são capazes de fazer, tudo aquilo que não são capazes mas acreditam ser, e começar a atribuir tarefas e ensinar o que for possível. Comer sozinhos, escolher a roupa (ou parte), ajudar no supermercado, ajudar com pequenas tarefas, são apenas alguns exemplos que fazem toda a diferença. Com acompanhamento, ensinando e dando cada vez mais margem de manobra, as crianças sentem que as suas necessidades de autonomia (tão importantes nesta fase) estão a ser correspondidas e em certa medida “saciadas”. Sentem também que o seu crescimento está a ser validado e que continuam a ser acompanhados. Crescer é afinal prazeroso e não implica perder a proximidade dos pais, e isso, é profundamente reconfortante.

No entanto, as receitas não são milagrosas, e por vezes, as emoções são muitas e a capacidade de as gerir ainda é pouca. É fundamental que se deixe sair a confusão, a zanga, a frustração, a tristeza, através de alguns momentos de intenso choro, que podem ocorrer a propósito das mais despropositadas coisas (pelos menos aos nossos olhos). O nosso papel, é estar lá, acompanhar, esperar, manter a mais doce das firmezas, e aguardar que o nosso filho permita, no final, aquele abraço reparador. Um abraço importante, mas que não aceita o comportamento a todo o custo e sem limites (mesmo que com o “descontrolo” da birra, não permito nunca que a minha filha me magoe), mas que compreende as emoções que o desencadearam. Depois da minha filha se acalmar, gosto de lhe dizer, “então, já te sentes melhor? Já te posso dar um abraço?“.

Os “terríveis dois anos” são apenas mais um desafio no meio de tantos. Com serenidade e muito amor, podemos abrir espaço para descobrir o quanto esta fase pode ser tão saborosa. As conquistas dos nossos filhos, em grande medida, são também nossas. E nada mais delicioso do que ver os nossos bebés a crescer felizes, e mais ainda, a serem capazes de nos dizer isso mesmo, através das suas próprias palavras e acções.

 

Artigo da parceira  Ana Guilhas Psicóloga

 

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Do Normal ao Patológico: como olhar para o comportamento do seu filho

O desenvolvimento infantil não é linear nem contínuo, apresenta movimentos regressivos, surtos evolutivos e pausas. Neste processo nem sempre os ritmos de desenvolvimento e o tipo de comportamento de cada criança é o esperado pelos seus pais, cuidadores e educadores.

A capacidade de uma criança dar uma resposta comportamental adequada é geralmente posta à prova na ausência da satisfação imediata dos seus desejos ou quando é necessária uma regulação emocional face a situações de frustração, cansaço, sono, fome ou mesmo de desafio, traduzidas muitas vezes em comportamentos desadequados e até descontrolados que testam a paciência, dedicação e cansaço de todos.

A adequação na resposta comportamental de cada criança vai depender do seu nível de maturidade emocional, traduzido muitas vezes na capacidade de comunicar as suas emoções através de palavras mais do que em gestos, da maturação do sistema nervoso manifesta na capacidade de responder adequadamente ao controlo dos impulsos e das características da sua personalidade.

No campo da Psicologia podemos olhar as questões comportamentais no campo da “normalidade” como:

– Normal enquanto saúde e não doença, considerando que o comportamento não compromete física e psicologicamente a saúde da criança (pôr-se em risco ou colocar outros em risco, consumo e dependência de substâncias, entre muitos outros). Neste campo incluímos ainda os sintomas psicossomáticos consequentes de uma regulação emocional desadequada que a criança faz das pressões, exigências, desafios e mudanças no seu dia-a-dia. Uma criança que internalize muita ansiedade poderá apresentar várias queixas como dores de barriga, cabeça ou mesmo dificuldades ao nível do sono. O “silêncio” dos órgãos é muitas vezes um bom preditor de “normalidade” nas crianças.

– Normal enquanto estatística, tendo em conta o que é comum acontecer em cada fase do desenvolvimento. Muitas questões comportamentais relatadas por pais estão intimamente interligadas com fases de transição como acontece na infância, pelos 2-3 anos ou na adolescência, períodos de teste das suas capacidades, regulação de emoções e frustrações, teste de limites e exercícios de independência e autonomia. Dentro deste espectro podemos incluir as famosas birras e comportamentos desafiadores e irreverentes ou mesmo sentimentos mais exagerados e pensamentos mais radicais.

– Normal enquanto funcional, mantendo um comportamento adequado ao funcionamento na sociedade em que se insere e no que é esperado de si de acordo com os parâmetros estabelecidos pela mesma: cumprir um currículo escolar e desempenhar funções específicas na sua comunidade, mantendo comportamentos adequados no relacionamento interpessoal e nas atividades sociais. Uma criança com perturbações específicas do desenvolvimento e/ou alguma deficiência (perturbação do espectro do autismo, síndrome de Down, dificuldades específicas de aprendizagem, deficiência física, auditiva, visual ou mesmo motora, entre muitas outras) poderá ver assim comprometida a sua aceitação ou integração pelo comportamento que apresenta. Por muito que a inclusão seja já uma recente realidade para alguns temos ainda um longo caminho a percorrer neste campo.

– Normal enquanto social, referindo-se aos comportamentos socialmente aceites e tolerados pelos outros. A norma social define e tolera alguns comportamentos consoante a sua frequência, nível e a idade em que a criança/jovem o pratica. Brincadeiras de lutas, destruição de materiais, roubar pequenos objetos ou alimentos, entre outros, são comuns quando se restringem a um período de desenvolvimento da infância ou ao ajustamento de limites da adolescência. Apresentam-se como preocupantes comportamentos com um padrão repetitivo e persistente no desprezo pelos direitos dos outros e pelas regras de convivência social. Nestes incluímos comportamentos recorrentes de agressão a pessoas e animais, destruição de propriedade, roubo ou abuso de confiança ou violação grave de regras.

A fronteira entre normal e patológico é muito ténue porque num momento ou outro, todas as crianças mentem, tiram coisas que pertencem aos outros, agridem, gritam ou desobedecem. A diferença entre estes comportamentos e o que os psicólogos consideram como um problema de comportamento está na gravidade dos comportamentos, na duração, na frequência, no aparecimento dos mesmos em mais do que um contexto e na sua persistência através do tempo.

Há elementos a ter em conta nas crianças com perturbações nos seus comportamentos uma vez que estas apresentam de forma mais intensa, desmedida, generalizada e duradora comportamentos como: birras frequentes, amuos sucessivos, discussões constantes sem regulação dos afetos, constante questionamento das regras e recusa no seu cumprimento (“porquê?”, “não quero por sim”), tentativas deliberadas de provocação, culpabilização do outro, raiva e ressentimentos frequentes, linguagem deliberadamente má e agressiva e atitudes maldosas e vingativas. A indiferenciação do alvo e a ausência de constrangimento, vergonha, culpabilidade e falta de empatia são também sinais de alerta.

Nestes últimos casos, a avaliação psicológica e o acompanhamento psicoterapêutico assumem um papel fundamental para tranquilizar e ou dar esperança de um futuro mais feliz e psicologicamente ajustado para estas crianças e jovens.

 

Por Catarina Amador, Psicóloga Educacional da Horas de Sonho, apoio à criança e à família, crl

Não há crianças desafiadoras

Tem filhos que o contrapõem?

Que estão sempre a discordar consigo? Crianças que contrapõem o que lhe diz? Crianças persistentes, determinadas, que gostam de levar a sua sempre avante? Crianças que parecem ficar coladas ao chão quando lhe mandam fazer uma coisa? Que não fazem o que lhes diz nos momentos em que lhes diz?

Então parabéns. Tem consigo pessoas saudáveis, extremamente inteligentes, com grandes capacidades de liderança, com opiniões fortes, determinadas, fortes de caracter, persistentes, que – se bem direccionados – terão muito para dar ao mundo.

No entanto, estas ainda são características que fazem pais, educadores e outros especialistas catalogarem as crianças de desafiadoras. Elas respondem, manifestam-se através de expressões faciais, corporais e vocais o seu descontentamento sobre opiniões nossas ou sobre a forma como nos exprimimos. Elas revoltam-se, dizem não, perguntam porquê a toda a hora  e debatem tudo aquilo que lhes dizemos.

Estas são crianças que precisam de perceber a logica de TODAS as coisas, que – se os encorajarmos e lhes dermos asas – compreenderemos que pensam pela sua própria cabeça desde muito cedo, e, se lhes dermos abertura, demonstrarão os seus talentos a conhecer e explorá-los-ão.  Podem ser pessoas pequenas, no entanto, se as observarmos atentamente, elas ensinam-nos TUDO sobre como se devemos agir e interagir com os outros, especialmente com aqueles que pensam e agem de forma diferente da nossa.

São crianças que precisam de muita conexão, compreensão, respeito e aceitação.

Nem sempre conseguem manifestar da forma mais harmoniosa a sua opinião e precisam que lhes ensinemos calmamente e com muita calma. Não são crianças que precisam de ser quebradas. São crianças que, tal como todos nós, precisam de ter – e de sentir –  liberdade para se manifestar. São crianças com convicções, ideias e visões fortes que precisam de ser amparadas de forma gentil, tendo o respeito e a compreensão como linhas mestras ao longo de todo o seu percurso.

Muitas destas crianças, são crianças altamente criativas, enérgicas, com ideais, convicções e gostos muito definidos. Se parar para observar, com certeza vai questionar-se se serão desafiadores ou se estarão a tentar ser ouvidos, escutados, valorizados.

Podemos escolher acolher os nossos filhos tal como são, e deixá-los guiar o caminho, ajustando à sua forma de ser  ou podemos escolher quebrar o seu espírito, travá-los, reduzindo-os a etiquetas ou a categorias redutoras.

Não há crianças desafiadoras.

Tal como tantos outros, esse é um mito criado por uma sociedade de adultos que não compreende o universo infantil na sua essência, uma sociedade feita de adultos para adultos, em que a sede do poder e de ter razão se sobrepõe à partilha do amor, da paz.

Uma sociedade que educa para o TER e não para o SER, que precisa de catalogar para hierarquizar, que avalia a qualidade de um ser humano pelos seus erros em vez de glorificar os seus talentos e o seu valor inato, reduzindo as mais belas características do ser, em vez de elevá-las glorificar e valorizar aquilo que cada um tem de melhor.

Podemos tentar que os nossos filhos sejam aquilo que não são. Ou que sejam aquilo que queremos que sejam. Mas isso é uma ilusão. Os nossos filhos serão aquilo que tiverem de ser. Deixarão a marca no mundo que nasceram para deixar. E é desde a infância que muito deste propósito de cada um de nós se manifesta.

Podemos fazer diferente ou podemos escolher fazer o que os outros fazem, mesmo quando o nosso coração não concorda.

Podemos conduzir os nossos filhos numa direcção oposta àquela que trazem para dar a si próprios e de si próprios, a nós, ao mundo. A escolha é nossa. Podemos catalogá-los ou tentar entendê-los. Escutá-los. Ensiná-los formas gentis de discordar connosco. Porque têm esse direito. Como pais não somos seres omnipotentes. Por mais que muitas vezes achemos que somos. Porque fomos educados assim. Porque os outros nos dizem que é assim.

Não há crianças desafiadoras. Este é um dos grandes mitos acerca das crianças que tem vindo a prejudicar seriamente a forma como ainda educamos os nossos filhos.

Não há crianças desafiadoras.

Se discordarmos vivamente com a opinião de alguém, seremos desafiadores nós próprios? Ou estaremos apenas a querer manifestar a nossa opinião discordante? Imaginemos que alguém nos diz alguma coisa com a qual não concordamos de maneira nenhuma. Uma coisa que nos choca, magoa ou mexe com as nossas convicções. Seremos desafiadores se respondermos? Sabemos sempre responder da forma mais correcta?

Como pais, na maioria das vezes em auto piloto, não conseguimos olhar para o Grande Cenário das coisas. Da vida. Se olharmos para os nossos filhos com outros olhos, é muito interessante –é uma bênção! – viver com crianças com convicções fortes. Por vezes é um desafio. Mas isso não faz delas crianças desafiadoras. Talvez nos revejamos também um pouco nelas quando assim se manifestam e seja para nós difícil gerir as nossas próprias emoções. Será mais isso? Ou será porque aprendemos que os adultos têm voz superior à das crianças?

Por que razão achamos que uma criança com estas características é desafiadora?

Será porque realmente o sentimos ou porque há estímulos exteriores a dizer que é assim? Seremos desafiadores por gostarmos das coisas de uma certa maneira e não de outra? O que nos leva a achar que alguém é desafiador porque questiona ou discorda?

Porque será que de cada vez que uma criança responde ao adulto, expressando uma opinião forte discordante da nossa, aprontamo-nos a afirmar e a cataloga-la como desafiante? Crianças impacientes, que debatem ou se recusam a obedecer são pessoas que precisam de autonomia e espaço de manobra para se manifestarem.

Precisam de amor, compreensão e que os guiemos de forma gentil. Se assim o fizermos, tornar-se-ão adolescentes e adultos saudáveis, responsáveis e com um sentido de justiça fortíssimo.

Crianças com estas características estão nas nossas vidas para nos ensinar a agir de outra forma, a pensar de outra forma. São crianças que vêm instaurar um novo paradigma de educação, se estivermos dispostos a dar-lhes oportunidade de se exteriorizarem.

Estas crianças vêm ensinar-nos que as crianças sabem mais do que aquilo pelo qual lhes damos crédito. Vêm romper padrões, mitos, conceitos pré-estabelecidos.

Na sociedade moderna, a crianças ainda são vistas como seres menores. Elas têm de ser perfeitas. Fazerem o que lhes dizem, não têm quereres, têm de gostar daquilo que lhes dizemos que têm de gostar. Têm de ter boas notas, fazerem tudo o que esperamos delas. Têm de estar prontas no segundo em que as mandamos estar. Não podem falar alto com os pais, ou então são mal-educadas, nem podem responder, senão são desafiadoras. As crianças têm de gostar do que lhes damos para comer, tem de estar caladas porque nós queremos falar.

Mas serão máquinas operadas por comando? Carregamos no botão e elas fazem? Ou são pessoas? Terem os seus próprios gostos? Poderem exprimir-se quando querem e precisam?

Esquecemos que as crianças precisam de falar alto, precisam de revelar os seus gostos, as suas vontades e expor a sua opinião. São pessoas, por que razões não hão-de poder faze-lo? Admitamos que talvez seja porque não nos convém. De que forma vão aprender a pensar por si próprias, saber fazer escolhas, caso não possam exprimir aquilo que é tão natural ao ser humano? As crianças têm direito a cometer erros. Todos os dias. Tal como cada um de nós.

Todos erramos todos os dias, várias vezes por dia. Por que razão exigimos dos nossos filhos que eles sejam perfeitos?

Porque é que exigimos dos nossos filhos aquilo que nos próprios não conseguimos dar, fazer?

Todos somos seres vulneráveis, sensíveis. Todos com direito a ser quem somos. E as crianças também. Cada um a sua maneira, da melhor forma que sabe e pode.

Não há crianças desafiadoras. Há seres, com ideias inovadoras, sonhos próprios e agendas exclusivas que apenas querem expressar a sua voz no mundo.

 

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