Fez ontem uma semana que o meu pai, depois de uns dias internado, teve alta do hospital para nossa casa.

Percebi no momento em que o pai ligou a dizer que ia sair naquele dia, que onde mais lhe apetecia estar e o mais seguro seria ficar connosco. Em nossa casa. Exactamente como, não há tantos anos atrás, também a casa dele, ou melhor, a dos meus pais, foi o meu lugar seguro. Foi onde mais me apetecia estar e o único lugar onde me fazia sentido existir.

Quando lhe dei a mão para o ajudar a entrar no carro e percebi a sua fragilidade fiquei assustada.

Sobretudo até perceber se eu estaria à altura do desafio de o ajudar na sua recuperação. Mesmo que seja por pouco tempo. Dei comigo a divagar sobre o que ele terá sentido nesse momento e se se estaria a recordar de quando, há 41 anos atrás, me pôs a mim no carro, primeira filha, para me levar para casa. Expectativas diferentes mas um mesmo sentimento: o amor mais descomprometido e duradouro de todos, o de pai e filha.

O mundo não está ao contrário

Confrontada com a nova condição de cuidadora, com o cuidado de proteger e não o do conforto de ser protegida, foi como se virassem o meu mundo ao contrário. Ainda ontem era o meu pai que me dava a mão para amparar os meus primeiros passos e agora é a minha que lhe serve de bengala. Mas afinal, o mundo não está ao contrário. É apenas o mundo a ser mundo, a girar sobre si próprio. Umas vezes estamos firmes e de pé e outras em desequilíbrio e ao contrário. E é tão bom sentir que, mesmo quando de cabeça para baixo, tudo se mantém no seu lugar.

Nesta última semana os meus filhos têm superado todas as minhas expectativas. É nestas alturas que vejo alguma coisa devo andar a fazer bem. O João Maria, no auge dos seus 13 anos que marcam uma adolescência já há muito anunciada, está há 8 dias sem a privacidade do seu quarto e sem o conforto da sua cama. Disse-me à noite, enquanto eu aconchegava no sofá, “mãe, o avô fica o tempo que for preciso, eu estou muito bem aqui”. O Kiki comentou comigo antes de ontem: “Mãe, vê-se mesmo que o avô se sente muito melhor aqui”. O bebé Zé já ajuda com os medicamentos e leva para a mesa o que corresponde à hora do jantar. E ontem, em dia de greve, com o bebé Zé sem escola, fizeram companhia um ao outro toda a manhã.

O tempo que passamos juntos

Temos passado muito tempo juntos e isso já não acontecia há muito tempo. Aliás, os seis, assim juntos, nunca tinha acontecido. E isso é bom. Muito bom.

O nosso paciente está muito melhor. Também com enfermeiros destes não se esperava outra coisa, e ficará connosco o tempo que precisar para se recuperar.

Agradecemos o facto de confiar em nós, de estarmos perto e de podermos todos contar uns com os outros.

A importância dos Avós

Quão sortudas são as crianças que podem passar tempo com os seus avós! E o contrário também se aplica. É um privilégio!

Privilégio, na medida em que existe um vínculo especial entre avós e netos. É uma relação baseada no amor e na diversão. Enfim, é pura alegria.

Tornar-se avó/avô é um momento muito especial. Os avós estão livres da paternidade do dia-a-dia, sendo capazes de proporcionar tempo de qualidade aos seus netos, onde a brincadeira é constante. Por isso mesmo são avós!

Estar perto dos avós proporciona uma importante experiência de aprendizagem.

Ao estar com os avós, as crianças aprendem a valorizar os mais velhos. Aprendem a respeitar o que estes têm para oferecer. Através dos avós, têm a capacidade de compreender a importância do amor e da família e o legado da sua própria família.

Os avós geralmente são o elo de ligação mais forte com o seu património familiar.

A estreita relação entre avós e netos é muitas vezes marcada por fortes laços familiares. Estes laços florescem apesar de avós e netos terem pouco em comum em termos de idade, nível de maturidade e hiato geracional.

A chegada dos netos é como um sopro de ar fresco para os avós e as crianças divertem-se e aprendem muito com eles. A presença dos avós nos anos de
formação das crianças ajuda fortemente na construção do seu carácter.

Apesar das relações mudarem com o passar dos anos, tal como a relação entre pais e filhos, os avós estão sempre presentes para lembrar com carinho os bons momentos que viveram, vivem e viverão juntos.

Valorizemos os nossos Avós!

Por Telma Grazina, Psicóloga

Valham-nos as avós

Chegam as férias escolares e tudo o que isso implica!

Para muitos, estes são os meses mais esperados. Os meses do merecido descanso, das férias de verão, do tempo em família! Mas as palavras “férias de verão” têm um sabor amargo para muitos outros.

Falo dos que não têm “férias de verão” nos seus empregos, mas ainda assim têm que lidar com as “férias de verão ” nas escolas e infantários.

Nunca fiz férias em Agosto, não gosto!

E mesmo que fizesse, no meu trabalho, como em muitos, sou obrigada a coordenar férias com os meus colegas para uns substituam os outros. A empresa não fecha, e o trabalho não pára! Como tal, mesmo que quisesse fazer férias em Agosto, no máximo poderia gozar duas semanas e jamais o mês todo.

Ainda assim, os meus colegas, na sua maioria também pais de filhos, teriam à partida as mesmas condições que eu… É simples: não podemos ir de férias todos ao mesmo tempo.

O nosso país acha que o mês de Agosto pára tudo #sóquenão, e não querem que pare nada!

As escolas e infantários na sua maioria fecham (os que não fecham são, maioritariamente, escolas privadas), deixando os pais sem alternativas.
Estes pais podem justificar no trabalho que precisam do mês de Agosto de férias porque não têm onde deixar os filhos…. Eles e os seus substitutos…

Ou seja, esperam que andemos com os filhos no bolso! Qualquer mãe sabe que é completamente impossível levar um filho de 2 anos para o trabalho e esperar que ele fique ali sossegado e sem barulho um dia inteiro…

Sinceramente não faço ideia do que vai na cabeça destes loucos que nos governam (neste caso na educação, e nas escolas que fecham)…

Valham-nos as avós! As casas com cheiro a canela, as frutas acabadas de apanhar…

Valham-nos as avós, que do alto da sua reforma, lá arranjam genica para ficar com os netos durante o mês de Julho, de Agosto ou às vezes em setembro!

E quando as avós ainda trabalham?!

Pois não sei….

Cá por casa encontramos uma escola que fecha apenas uma semana. Este ano a avó pode ficar com ele… no próximo ano, logo se vê!

Mas quando me falam em incentivos à natalidade, é nestas coisas que penso…Que tal em vez de falarem em incentivos começarem primeiro a criar condições para que os filhos existam?!

image@freeimages

Alegria sem responsabilidade – era o que os avós deviam sentir antigamente.

Entretanto, surgiu um novo paradigma de avós: pessoas de meia-idade que se tornam avós (por volta dos 45 anos) e que estão cada vez mais envolvidos em criar os filhos dos filhos, seja porque o casal se divorciou e não tem a quem deixar o filho quando vai trabalhar, seja para economizar na creche porque os avós estão disponíveis, entre outros motivos.

Hoje em dia, muitos avós que cuidam dos netos dedicam cerca de 14 horas semanais a essa tarefa (imagine-se a quanto é que isso equivale em mão-de-obra!). Têm uma responsabilidade enorme quando assumem o desafio de cuidar dos netos, que requer várias condições:

  • ter tempo
  • ter condições físicas
  • haver condições financeiras
  • haver condições psicológicas/emocionais.

E a envolvência dos avós, convenhamos, é muito positiva para as três gerações:

  • já não impõem as exigências que os pais tipicamente impõem aos filhos (logo há menos tensão)
  • como já têm mais experiência, têm mais habilidade para lidar com as crianças do que em jovens
  • apresentam mais tranquilidade, sabedoria e competência, que vêm com a idade
  • criam a noção de histórico familiar na criança através das histórias da família
  • transmitem valores que nas últimas décadas se têm vindo a dissipar
  • transmitem tarefas domésticas como cuidar das plantas/da terra, costurar, cozinhar, etc
  • trazem um legado cultural: canções, contos, anedotas, ditados
  • em situações de crise familiar, os avós são um grande apoio emocional
  • mimam os netos – eventualmente além da conta.

Por vezes podem surgir tensões familiares – geralmente, entre a mãe e a mãe do pai, entre mãe e filha… – ora porque mais parece que a sogra pensa que sabe mais que o casal, ora porque a mãe da mãe não dá espaço para a mãe ser mãe (!) e cada sugestão bem intencionada é recebida como crítica devastadora, ora porque os avós ficaram sentidos porque sentem que o seu valor de avós não é reconhecido… Enfim, relações humanas!

Isto para não falar daquelas surpresas que a própria criança nos dá, como por exemplo começar a gatinhar precisamente naquele dia em que foi passar umas horas a casa da avó, e cai por terra o tão aguardado momento de vermos o nosso bebé a gatinhar. E mais tarde, já adolescentes, quando confiam mais nos avós do que em nós.

No final, o melhor é cada um fazer a sua parte, concentrando-se nas necessidades da criança, e não nos próprios sentimentos. A empatia abona sempre a favor deste vínculo forte, e através dela pode evitar-se entrar em conflitos desnecessários.

Por tudo isto, é importante reconhecer a elevada importância da presença dos avós no seio familiar, que cada vez mais se dedicam aos netos muito antes da reforma. E, se pensarmos na criança, é evidente a vitalidade que traz aos avós. Os avós desdobram-se para mimar os netinhos, que certamente são os mais lindos das redondezas, cozinhando «aquele» arroz de tomate que a menina gosta, ou com aquele casaquinho tricotados com todo o amor, ora com brinquedos, doces caseiros, presentes, e por vezes chegam mesmo a «desviar as regras», com o maior carinho… tudo para que não lhes falte nada <3

A minha mais nova e a minha mais velha

Conheço a minha filha de dois anos como ninguém e consigo descodificá-la em 99% das vezes. Entendo o que quer dizer quando não se consegue exprimir, antecipo o que vai fazer antes de ela se lembrar, conheço os seus hábitos e manias.

Ainda assim aquele 1% intriga-me… Como quando decide que quer estar no colo da minha avó e assim fica, quieta, durante uma hora, uma hora e meia, duas. E não está a dormir, está apenas ali, sentada ao colo dela, com as mãozinhas à volta do seu pescoço, a olhar a minha avó, a ler as palavras que se formam nos seus lábios, a descansar o corpo, e a mente. Fico a vê-la e a fazer-lhe perguntas, mas ela não quer sair dali, não quer fazer mais nada, não quer que mais ninguém sequer lhe toque. A minha filha, convém explicar, é muito carinhosa mas normalmente não gosta que a agarrem, que a beijoquem infinitamente, que lhe imponham carinho. Gosta de dar os seus abracinhos, beijos e festas, mas é coisa rápida, depois segue caminho para outra coisa mais divertida. E nunca fica assim com ninguém, nem comigo nem com o pai. Nunca está quieta durante muito tempo, a não ser que esteja a cair de sono e se enrosque em nós, mas mesmo assim é coisa para estar a ouvir uma história ou algo parecido.

Gostava de lhe perguntar por que o faz. Não que me incomode, até porque me enternece, mas intriga-me. Porque não é sempre, mas já aconteceu várias vezes. Ao ponto de ser a minha avó, que tem alguma dificuldade em mover-se, a ter de a levar para a casa de banho para tomar banho, senão ela não vai.

Será que quando olha para a minha avó ela vê que foi com ela que tive muitas conversas importantes?

Que foi ela que me preparou as gemadas mais deliciosas do mundo?

Que foi para ela que a minha prima e eu cantámos vezes sem conta, com os sapatos de salto alto nos pés pequeninos e batom nos lábios, a fazer macacadas?

Que foi na casa dela e do meu avô no Baleal que passámos momentos inesquecíveis da nossa infância?

Que foi ela que me ensinou a gostar de açorda (e ainda hoje praticamente só gosto da que ela faz…)?

Que fui tantas vezes com ela ao supermercado que hoje, em adulta, ainda é um sítio onde gosto muito de ir?

Será que vê no seu rosto agora com rugas, a rapariga confiante que conquistou o meu avô, onze anos mais velho – que não ficava muito contente com o facto de ela se maquilhar?

Será que consegue perceber que tem diante de si uma mulher que casou com um padre que nunca abandonou o hábito e sempre integrou a sua família… e o acompanhou de uma igreja para outra com os seus três filhos?

Pergunto-me se sente que não vai ter a bisavó para sempre com ela e aproveita cada segundo do seu colo.

Mesmo que o seu corpo comece a ser grande para ser segurado por aquelas duas mãos trémulas…

A verdade é que nem as mãos que a seguram se cansam, nem ela fica desconfortável pela posição, impossível de manter durante muito tempo.

Acho que os melhores colos da nossa vida são assim mesmo: vistos de fora podem parecer desajustados, mas no fundo do nosso coração não os trocaríamos por nada.

 

“O adeus dos avós: a primeira experiência com a perda.”

O Avô não volta

O ciclo da vida determina que um dia tudo acabará. Morrer deveria ser tão natural como nascer. No entanto, não é.

Para nós adultos, falar de morte é algo difícil. Não sabemos como abordar o tema e muitas das vezes mudamos de assunto para evitar explicações mais demoradas. É como falar de sexualidade,… ou talvez não! Este já não é um assunto tabu.

Na semana passada partiu o avô paterno dos meus filhos e pela primeira vez em muitos anos tive de enfrentar o medo. Talvez eu sentisse mais medo que eles… Os mais velhos já antecipavam o que estava para acontecer e embora a experiência de vida os tenha poupado destes momentos, já possuem bagagem para enfrentar a situação. O mesmo não acontece com a mais nova. A doença do avô era algo curável aos seus olhos e a morte não era algo viável no seu pensamento. Estava tão longe.

Durante algumas horas pensei em varias formas de lhe contar, de abordar o assunto, sabia que a notícia não seria de fácil gestão.

Não havia volta a dar. Por mais horas que demorasse a dizer, teria de fazê-lo… A voz tremeu e o som saiu… A primeira reação foi a negação e em tom de riso afirmou que eu estaria a brincar. O silêncio reinou e por momentos a brincadeira parecia negar os acontecimentos…

À noite tudo parou e ai surgiram as dúvidas… Não volto a ver o Avô?  Não posso falar com ele e abraçá-lo? Ele já não sente e já não ouve? Tantas perguntas surgiram e eu não estava preparada para responder… Sabia que a frieza das minhas respostas não correspondia ao que ela queria ouvir… Teria de fazê-la sofrer… A única solução era minimizar o seu sentir com a ilusão da estrela brilhante no céu. Da alma que parte e que apenas deixa guardado na terra um corpo imóvel. Por entre soluços adormeceu e passados alguns dias diz que ainda está triste e que a dor não passa… Como mãe tive lhe de dizer que demora uns dias a sentir-se melhor, às vezes mais… Que as memorias perduram no tempo…

Como criança que sonha ela incorporou a missão de diminuir a dor da perda dos que ama e a experiência fez-la crescer. E nós adultos, temos muito a  aprender, todos os dias, com as crianças. Pois o impossível para elas, é apenas uma questão de minutos…

imagem@livrosefatos

A morte contada às crianças

Hoje estava mesmo a precisar de ir à minha psicóloga. Ando muito triste, nervosa e precisava de desabafar. Ela olhou logo para mim e pediu-me para sentar no tapete com ela e depois ficou calada. Só me apetecia chorar e assim foi… depois comecei a contar-lhe que há seis meses a minha avó morreu e eu não percebi porquê. Fiquei muito triste e os meus pais também.

Naquele dia deixaram-me em casa da vizinha enquanto diziam que se iam “despedir” da minha avó.

Bem sei que só tenho cinco anos, mas fiquei muito magoada com eles, primeiro porque não me explicaram o que era isso da morte e depois, porque não me deixaram ver a avó. No final da noite, quando chegaram a casa, o pai foi ter comigo ao quarto e disse-me que a avó tinha ido viajar e que já não voltava mais. Agarrou-se a mim a chorar e assim ficámos os dois até adormecer.

No outro dia de manhã, acordei muito baralhada e fui ter com a minha mãe que estava na sala sozinha. Disse-lhe que não tinha percebido o que tinha acontecido à avó e ela respondeu-me que a avó tinha ido para o céu. Que estava nas estrelas e que todas as noites eu procurasse a estrela mais brilhante do céu.

Quando ouvi isto fiquei ainda mais baralhada!

Todos os dias à noite olho pela janela, observo as estrelas e procuro aquela que brilha mais. Devo confessar que é um pouco difícil, pois todas as estrelas são muito brilhantes, mas eu lá me esforço para encontrar. Fico a olhar para a estrela, que eu acho ser a mais brilhante e a pensar como é que, naquela coisa tão pequenina, cabe a minha avó que até era bem gordinha.

Penso ainda, como é que ela foi lá parar, e rapidamente descubro que, aquilo que o meu pai disse afinal faz sentido. A minha avó chegou às estrelas de avião, só pode! Mas como é que o avião aterrou na estrela? Continuo sem perceber! Agora o que mais me preocupa é que os meus pais disseram que daqui uma semana vamos à Disneyland.

No início fiquei muito entusiasmada, sempre sonhei ir à Disney! Mas ontem à noite disseram-me que íamos de avião, e eu comecei a chorar. Não quero andar de avião!

E se também fico presa nas estrelas como a avó?

Foi então que a minha Psicóloga me agarrou e me deu um abraço. Disse: “Sabes, os pais gostam tanto, mas tanto dos filhos que não os querem ver tristes, nem a sofrer. Por isso, às vezes dizem coisas que não são exatamente como acontece na realidade.

Depois foi buscar um livro. Contou-me uma história sobre animais, onde dizia que quando os nossos animais favoritos morrem, já não os voltamos a ver. O seu corpo vai para uma caixinha e são enterrados debaixo de terra, num local que se chama cemitério, tal como acontece com as pessoas. No final, a minha psicóloga disse que o que importa é guardar na nossa memória e no nosso coração, todos os momentos bons que passámos com a avó e relembrar o quanto ela adorava viver e brincar comigo. Saí de lá bem mais aliviada e feliz por já poder ir à Disneyland!

Nesta geração em que os avós são tanto ou mais cuidadores do que os pais – fazem o percurso de e para a escola, dão banho, vestem, fazem o jantar, ajudam nos TPC e que, muitas das vezes, cuidam também aos fins de semana – assumem um papel no desenvolvimento e educação da criança.

O amor é desmedido, o tempo é largamente superior ao que tinham quando foram pais, e a tolerância tende a ser proporcional a esse tempo. E falando em proporcionalidade, a exigência; as regras; a disciplina, no fundo, também entra num registo de proporção – mas desta vez inversa à quantidade de tempo e de tolerância. Que é como quem diz: amor acrescido, tolerância aumentada, regras diminuídas. Esta é, geralmente a medida dos avós!

A grande verdade é que os pequenos também precisam de algum espaço de tolerância zero, em que as regras de trânsito da disciplina, funcionam assim como se o polícia sinaleiro estivesse de serviço mas em modo adormecido, aqui e ali… O que depois define entre pequena transgressão e crime maior é, em primeiro lugar: a dose deste espaço (espaço “tolerância zero”, entenda-se).

Se a casa dos avós é como um hotel de 5 estrelas, super luxo – aqueles em que só vamos esporadicamente – a guarda estar em fraca vigilância é bem vinda. Se, pelo contrário, a estadia é de caracter quase permanente, então impõe-se um código de conduta mais claro, daqueles que dão o conforto às crianças de saberem com o que podem contar; para poderem ajustar as expectativas de como serão as reações dos adultos às suas investidas em delitos.

Details

Minha doce Mariana,

Como já percebes tão bem, tens a sorte de ter sete avós. Pois é, eu sei, parece um número pouco redondo e talvez exagerado para a importância desse parentesco mas foi uma das bênçãos com que nasceste. Cedo te aperceberás que nem toda a gente tem tantos avós assim e farei o meu melhor para te explicar o conceito de família moderna em que a nossa se insere e para que seja o menos complicado possível para ti. Porque o amor, este amor de que te falo é dos mais simples que existe. Ainda antes de nasceres já ele crescia de uma forma um pouco incompreensível nos teus avós, testemunhas de uma barriga que demorou um pouco a crescer e com a qual tinham alguma dificuldade em conversar. Mas o amor, esse, brotou no momento em que cada um dos teus avós soube que deixaria de ser apenas pai ou mãe de alguém para passar a ter mais essa responsabilidade neste seu caminho. Incrível o milagre de sentimentos que um ser que mal tem forma provoca em alguém, não é? Todos fomos esse milagre um dia, minha querida, e um dia poderás experenciar por ti própria este amor.

Tive o privilégio de ter os meus quatro avós perto de mim até bastante tarde. Mas em apenas três anos vi dois deles partirem e deixarem a minha vida mais incompleta. Parte-me o coração saber que a avó J. e o avô S. nunca te pegarão ao colo, como fizeram comigo tantas vezes. Como não terás a oportunidade de os conheceres, deixa-me falar-te um pouco deles.

O bisavô S. tinha o dom da palavra, muito por causa da sua profissão (vocação) e um coração de criança que nunca cresceu. Era ele quem nos torcia as orelhas com um sorriso maroto nos lábios, nos fazia rasteiras, foi ele que nos fez provar a todos – a mim, ao tio e aos primos – vinho tinto muito antes de ser altura para isso. Digamos que 15 anos antes, para teres a noção do brincalhão que ele era. Era também o homem mais vaidoso que alguma vez conheci – e bonito também. Se fechar os olhos consigo vê-lo entrar em casa à hora de almoço e sentir o cheiro de Old Spice que anunciava a sua chegada. Não imaginas as saudades que sinto dele. Conduzia terrivelmente e metia um medo horrível à bisavó, que lhe gritava para travar a dez metros do carro da frente. E ele obedecia. Não sabia viver sem ela. Era ela que lhe preparava tudo, desde a agenda que usava no dia-a-dia, ao prato de sopa que só tinha de aquecer no microondas se chegava mais tarde. Ele era tão desajeitado com as tecnologias que a bisavó lhe colou um post-it na parte de trás do telemóvel com o pin, o puk, a referência multibanco e o próprio número de telemóvel. Consegues imaginar o absurdo? Adorava praia e passámos muitos Verões na casa que ele e a bisavó têm no Baleal. Com ele rezava-se sempre antes da refeição e se estivéssemos num restaurante rezar poderia perecer um incómodo e por isso ele preferia que… cantássemos! Não existia! E nós, miúdos de 15 anos, passávamos a que pensávamos ser a maior vergonha da nossa vida e hoje quando nos juntamos gostamos de cantar essa mesma música e a vergonha não está lá. Só o amor da recordação. E as saudades. O bisavô S. ficou doente depois de se reformar, ou melhor, o facto de ter deixado de trabalhar deixou-o doente e isso deu-nos a oportunidade de nos irmos despedindo dele. Como se isso fosse possível…

A bisavó J. apesar do seu metro e sessenta, tinha um coração do tamanho do mundo. O pouco que tinha era para os outros e fazia questão de dar pequeninas lembranças aqui e ali, com tanto cuidado e dedicação que era incrível. Chegava a fazer marcadores de lugares para colocar na mesa dos restaurantes quando o bisavô fazia anos e jantávamos fora. Se, já em adulta, ia almoçar com ela e o bisavô, fazia um banquete com entrada, marisco, prato principal e sobremesa, só com os meus pratos preferidos. Gosto de acreditar que herdei dela esse gosto de fazer algo pelos outros mas estou a anos-luz de ser tão atenciosa como ela. Orgulhava-se dos nossos bons modos. Enchia o peito quando, em miúdos, estávamos com alguma das suas amigas e dizíamos “não tem de quê”. Foi ela que me ensinou a rezar antes de dormir, coisa que nunca mais deixei de fazer. Era na casa dela que havia o pote dos rebuçados a que eu e o tio corríamos assim que lá chegávamos. Era ela que fazia os melhores caracóis do mundo. Era ela que nos preparava pão-de-leite com fiambre e néctar de pêssego para o lanche quando o tio e eu íamos passar uns dias de férias com ela e o bisavô ao escritório. Nunca gostou de praia, mas enquanto os filhos foram crianças não falhou um Verão. Por eles. Nem quando adoeceu e ficou no hospital deixou de se preocupar com os outros. Se lhe ligava a avisar que ia passar por lá para lhe dar um beijinho, pedia para passar na pastelaria e comprar uma sandes e um sumo para o bisavô. Porque se fosse ela a dizer para ele comer, ele dizia sempre que não tinha fome. E estava certa. Eu chegava com o lanche, o bisavô aceitava e comia e bisavó piscava-me o olho, agradecida. Não cheguei a despedir-me dela porque acreditava piamente que ia ficar boa, mas na última vez em que nos vimos abracei-a com força. Já tinha aprendido com o bisavô S. que não podemos deixar para depois.

Os bisavós que ficaram e que tiveram a sorte de te conhecer não têm as caras metades com eles. Vejo a felicidade que sentem quando percebem que já sabes dar beijinhos e lhos dás a eles e o jeito com que dizes “bú” para chamar a bisavó se ela por acaso está a olhar para a televisão em vez de te ver dançar. Espero que possas conhecê-los, que estejam cá muitos anos para te ver crescer mas deixa-me contar-te também dois segredos sobre eles: a bisavó F., independente e muito à frente para o seu tempo, aprendeu a conduzir sozinha e durante 13 anos conduziu sem carta de condução! O bisavô A. quando namorava com a bisavó J. tinha de escolher entre ir ao cinema ou levá-la a lanchar porque o dinheiro não dava para as duas coisas. Pediu ao chefe para lhe dar dois dias de folga quando se casou, ele prometeu que falariam em breve e… até hoje nunca os gozou.

Desculpa se te macei com tanta informação, mas não posso deixar de te dizer de onde vens. É esta a tua herança… Pede ao pai que te conte sobre os avós dele, também tem histórias bonitas para partilhar contigo.

Cresci com os meus avós por perto e isso moldou a minha forma de ser. E é por isso que o pai e eu fazemos tanta ginástica para estares com os teus.

Porque com eles por perto serás uma pessoa melhor, mais rica.

Daqui a uns anos serás tu própria a dizer-me se tenho ou não razão…

Ah, e filha? Aproveita-os bem, abraça-os tantas vezes quanto puderes, liga-lhes para saber deles, deixa-os saberem de ti.

Confia na mãe, vai valer a pena.

imagem@akkarbakkar

Há duas épocas da vida,
infância e velhice,
em que a felicidade
está numa caixa de bombons.”
– Carlos Drummond de Andrade

 

Os melhores avós do mundo nem sempre moram perto dos seus netos, mas diariamente, ao fim da tarde ou à noitinha,  encurtam a distância através de um telefonema (na esperança de ouvirem uma ou outra traquinice à qual nunca teriam achado graça nos filhos no tempo em que eles eram crianças).

Os melhores avós do mundo nem sempre podem comprar todos os brinquedos que aparecem nos anúncios de televisão – à medida que ouvem expressões de entusiasmo como “Compra! Compra! Compra!” – mas não há noite em que não sonhem com a quantidade de surpresas que fariam aos netos se lhes saísse o euro milhões.

Os melhores avós do mundo nem sempre se preocupam com a alimentação saudável dos netos. Às vezes a avó prepara uma sopa ou uma salada deliciosa (frequentemente a pedido da mãe), mas há alturas em que enche os netos de doces e mais doces porque “tu quando eras criança também gostavas” e porque dá gosto ver o sorriso lambuzado da criança (mesmo que com cáries nos dentes).

Os melhores avós do mundo nem sempre têm vontade de sorrir. Às vezes, como a toda a gente, apetece-lhes correr as cortinas e enfiar a cabeça na almofada para ali se demorarem, mas o amor que sentem pelos netos e a ideia da falta que lhes fazem quando se entregam à tristeza, dão-lhes força para se levantarem e darem as boas vindas a mais um dia.

Os melhores avós do mundo nem sempre aparecem com surpresas e brindes nos bolsos para fazerem a alegria dos netos, mas às vezes trazem um saco cheio de camisolas polares, pijamas ou pares de meias coloridas para manter as crianças bem agasalhadas quando chegar o tempo frio.

Os melhores avós do mundo nem sempre podem dedicar aos netos o tempo que gostariam, mas quando a sua presença é imprescindível, largam tudo, ligam as sirenes e acorrem a toda a velocidade aos netos, com mimo, cuidado e proteção (que só os avós têm um jeito especial de dar).

Os melhores avós do mundo nem sempre concordam com os seus filhos na educação dos netos e sentem-se livres para aconselhar, para indicar um outro caminho… Os melhores avós do mundo às vezes educam, às vezes deseducam, mas mais importante que tudo, aceitam o seu papel numa teia de laços apertados a que se chama família, dedicando sempre aos seus netos o que têm mais de precioso: todo o seu amor.

imagem@flipboard