Fez ontem uma semana que o meu pai, depois de uns dias internado, teve alta do hospital para nossa casa.

Percebi no momento em que o pai ligou a dizer que ia sair naquele dia, que onde mais lhe apetecia estar e o mais seguro seria ficar connosco. Em nossa casa. Exactamente como, não há tantos anos atrás, também a casa dele, ou melhor, a dos meus pais, foi o meu lugar seguro. Foi onde mais me apetecia estar e o único lugar onde me fazia sentido existir.

Quando lhe dei a mão para o ajudar a entrar no carro e percebi a sua fragilidade fiquei assustada.

Sobretudo até perceber se eu estaria à altura do desafio de o ajudar na sua recuperação. Mesmo que seja por pouco tempo. Dei comigo a divagar sobre o que ele terá sentido nesse momento e se se estaria a recordar de quando, há 41 anos atrás, me pôs a mim no carro, primeira filha, para me levar para casa. Expectativas diferentes mas um mesmo sentimento: o amor mais descomprometido e duradouro de todos, o de pai e filha.

O mundo não está ao contrário

Confrontada com a nova condição de cuidadora, com o cuidado de proteger e não o do conforto de ser protegida, foi como se virassem o meu mundo ao contrário. Ainda ontem era o meu pai que me dava a mão para amparar os meus primeiros passos e agora é a minha que lhe serve de bengala. Mas afinal, o mundo não está ao contrário. É apenas o mundo a ser mundo, a girar sobre si próprio. Umas vezes estamos firmes e de pé e outras em desequilíbrio e ao contrário. E é tão bom sentir que, mesmo quando de cabeça para baixo, tudo se mantém no seu lugar.

Nesta última semana os meus filhos têm superado todas as minhas expectativas. É nestas alturas que vejo alguma coisa devo andar a fazer bem. O João Maria, no auge dos seus 13 anos que marcam uma adolescência já há muito anunciada, está há 8 dias sem a privacidade do seu quarto e sem o conforto da sua cama. Disse-me à noite, enquanto eu aconchegava no sofá, “mãe, o avô fica o tempo que for preciso, eu estou muito bem aqui”. O Kiki comentou comigo antes de ontem: “Mãe, vê-se mesmo que o avô se sente muito melhor aqui”. O bebé Zé já ajuda com os medicamentos e leva para a mesa o que corresponde à hora do jantar. E ontem, em dia de greve, com o bebé Zé sem escola, fizeram companhia um ao outro toda a manhã.

O tempo que passamos juntos

Temos passado muito tempo juntos e isso já não acontecia há muito tempo. Aliás, os seis, assim juntos, nunca tinha acontecido. E isso é bom. Muito bom.

O nosso paciente está muito melhor. Também com enfermeiros destes não se esperava outra coisa, e ficará connosco o tempo que precisar para se recuperar.

Agradecemos o facto de confiar em nós, de estarmos perto e de podermos todos contar uns com os outros.

10 coisas simples que podem mudar completamente o futuro dos teus filhos

O que vai fazer a maior diferença no futuro dos teus filhos?

Todos queremos ver os nossos filhos crescerem e tornarem-se adultos felizes e bem-sucedidos.

É divertido vê-los crescer, desenvolver traços de personalidades e interesses diferentes. Como pais, queremos dar aos nossos filhos o melhor futuro possível. Mas isso não significa que precisemos de lhes dar tudo o que querem ou passar férias de luxo.

Aqui estão 10 coisas simples que podem mudar completamente o futuro dos teus filhos:

1. Um livro

Os livros são queridos ao coração. A maioria de nós lembra-se de uma história favorita, uma leitura emocionante ou daquele personagem que estava ao nosso lado quando não estava mais ninguém. Um livro pode ajudar uma criança a decidir uma carreira ou estilo de vida.

Um estudo do National Endowment for the Arts, diz que o envolvimento de uma criança com livros afeta a vida futura de formas muito amplas. Habilidades de leitura fracas tendem a equiparar-se a salários mais baixos, falta de emprego ou maus empregos, e menos hipóteses de progresso. Pessoas com dificuldade na leitura têm menos probabilidade de serem ativas na vida cívica, voluntariam-se menos e votam menos do que bons leitores.

É importante que as crianças tenham um bom arranque para se engajarem com a palavra escrita. Isso fará a diferença para o resto da sua vidas.

2. Levar o lixo

O guru financeiro Dave Ramsey defende:

Deves encarar o acto de ensinar os teus filhos a trabalhar, da mesma forma como vês o acto de ensiná-los a tomar banho e a lavar os dentes – Uma habilidade necessária para a vida.

Atribuir tarefas às crianças prepara-as para serem capazes de assumir e cumprir obrigações no futuro para com seus empregadores. Ensina-lhes a relação entre trabalho e sucesso. Além disso, dá-lhes confiança e um senso de comunidade à medida que contribuem para o bem-estar da família.

3. Um professor

A criança terá muitos professores ao longo dos anos, mas às vezes cria uma ligação especial com um que irá mudar a sua vida. Seja por acender uma paixão por determinado assunto/tema ou ajudando-a num momento difícil da sua vida. Um(a) professor(a) pode ganhar um lugar especial na mente e no coração do seu aluno.

4. Um amigo

Um amigo pode ter o mesmo lugar para uma criança que a sua família. Os “amigos errados” podem empurrar o teu filho por um caminho descendente e os “amigos certos” podem apoiar e elevar o teu filho a um maior sucesso.

5. Tempo com o pai

Um estudo publicado em childwelfare.gov descobriu que “Desde o nascimento, as crianças que têm um pai envolvido nas suas vidas, são mais propensas a ser emocionalmente seguras, ser confiantes para explorar os arredores e, à medida que crescem, têm conexões sociais melhores com seus colegas. Estas crianças também são menos propensas a ter problemas em casa, na escola ou na vizinhança.” Ter um pai envolvido, é melhor indicador social de sucesso futuro, do que ter dinheiro ou status social. Isto diz o tudo.

6. Um instrumento

Tocar um instrumento musical tem inúmeros benefícios para as crianças. Desde melhorar a memória a desenvolver habilidades matemáticas, até à criatividade, autoexpressão e alívio do stress. Se o teu filho participar numa banda ou orquestra isso pode melhorar as suas habilidades sociais e ampliar o seu grupo de amigos. Alguns músicos iniciantes acabam mesmo por seguir carreiras musicais.

7. A cidade onde vivem

Ao longo das suas vidas os adultos vão-se identificar com a sua cidade natal, mesmo depois de viver longe por vários anos. Onde moras afeta as oportunidades educacionais e recreativas do teu filho. Cada lugar tem a sua própria cultura, que irá influenciar os pensamentos e ideias do teu filho. A maneira como falas e te sentes relativamente ao teu bairro também vai influenciar a forma como se integram.

8. Um animal de estimação

Ter um animal de estimação tem mostrado que ajuda a manter a pessoa saudável física e emocionalmente. Os animais de estimação podem ensinar responsabilidade e compaixão às crianças. Um estudo comparou crianças que tinham um cão com crianças que não tinham, e descobriu que as primeiras eram significativamente mais empáticas e pró-sociais. Os animais de estimação podem também proporcionar uma sensação de segurança e reduzir a ansiedade. Por isso, os animais são muitas vezes utilizados em terapias com crianças. O estudo também concluiu que crianças com níveis mais altos de apego aos animais de estimação tinham sentimentos mais positivos em relação à sua família e ao lar, do que as com baixo apego a seus animais.

9. Uma caminhada

O exercício físico regular traz inúmeros benefícios para a saúde do teu filho. Sair ao ar livre é particularmente importante. Ajuda a impulsionar o sistema imunológico, estimula a imaginação, promove habilidades para resolver problemas, ajuda na síntese da vitamina D (através da luz solar) e melhora o humor. Além disso, também há a conexão que podes criar/fortalecer com o teu filho enquanto caminham juntos. Este é um ótimo momento para conversar longe de distrações. Algumas das vossas conversas mais importantes e significativas podem acontecer durante uma caminhada.

10. Os avós

Ou avô, tia, tio ou primo. Estudos têm demonstrado que crianças com fortes laços familiares tendem a sair-se melhor quando confrontadas com um problema.

“Quanto mais as crianças sabiam sobre a história da sua família, mais forte era o seu senso de controle sobre as suas vidas, maior a sua autoestima e mais elas acreditavam que suas famílias eram atuantes”, de acordo com um estudo da Universidade Emory.

Muitas vezes são elementos da família que dão apoio quando um dos pais não está disponível, ou intervêm em conflitos entre pais e filhos.

Quando se trata de criar os filhos, não são as viagens à Disneylandia, os gadgets topo de gama ou nem mesmo as melhores escolas que têm a maior influência sobre o futuro.

São muitas vezes as pequenas coisas que acabam por fazer toda a diferença.

 

Adaptado da tradução de Sarah Pierina do original 10 little things that can completely change your child’s future

 

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A importância dos Avós

Quão sortudas são as crianças que podem passar tempo com os seus avós! E o contrário também se aplica. É um privilégio!

Privilégio, na medida em que existe um vínculo especial entre avós e netos. É uma relação baseada no amor e na diversão. Enfim, é pura alegria.

Tornar-se avó/avô é um momento muito especial. Os avós estão livres da paternidade do dia-a-dia, sendo capazes de proporcionar tempo de qualidade aos seus netos, onde a brincadeira é constante. Por isso mesmo são avós!

Estar perto dos avós proporciona uma importante experiência de aprendizagem.

Ao estar com os avós, as crianças aprendem a valorizar os mais velhos. Aprendem a respeitar o que estes têm para oferecer. Através dos avós, têm a capacidade de compreender a importância do amor e da família e o legado da sua própria família.

Os avós geralmente são o elo de ligação mais forte com o seu património familiar.

A estreita relação entre avós e netos é muitas vezes marcada por fortes laços familiares. Estes laços florescem apesar de avós e netos terem pouco em comum em termos de idade, nível de maturidade e hiato geracional.

A chegada dos netos é como um sopro de ar fresco para os avós e as crianças divertem-se e aprendem muito com eles. A presença dos avós nos anos de
formação das crianças ajuda fortemente na construção do seu carácter.

Apesar das relações mudarem com o passar dos anos, tal como a relação entre pais e filhos, os avós estão sempre presentes para lembrar com carinho os bons momentos que viveram, vivem e viverão juntos.

Valorizemos os nossos Avós!

Por Telma Grazina, Psicóloga

Valham-nos as avós

Chegam as férias escolares e tudo o que isso implica!

Para muitos, estes são os meses mais esperados. Os meses do merecido descanso, das férias de verão, do tempo em família! Mas as palavras “férias de verão” têm um sabor amargo para muitos outros.

Falo dos que não têm “férias de verão” nos seus empregos, mas ainda assim têm que lidar com as “férias de verão ” nas escolas e infantários.

Nunca fiz férias em Agosto, não gosto!

E mesmo que fizesse, no meu trabalho, como em muitos, sou obrigada a coordenar férias com os meus colegas para uns substituam os outros. A empresa não fecha, e o trabalho não pára! Como tal, mesmo que quisesse fazer férias em Agosto, no máximo poderia gozar duas semanas e jamais o mês todo.

Ainda assim, os meus colegas, na sua maioria também pais de filhos, teriam à partida as mesmas condições que eu… É simples: não podemos ir de férias todos ao mesmo tempo.

O nosso país acha que o mês de Agosto pára tudo #sóquenão, e não querem que pare nada!

As escolas e infantários na sua maioria fecham (os que não fecham são, maioritariamente, escolas privadas), deixando os pais sem alternativas.
Estes pais podem justificar no trabalho que precisam do mês de Agosto de férias porque não têm onde deixar os filhos…. Eles e os seus substitutos…

Ou seja, esperam que andemos com os filhos no bolso! Qualquer mãe sabe que é completamente impossível levar um filho de 2 anos para o trabalho e esperar que ele fique ali sossegado e sem barulho um dia inteiro…

Sinceramente não faço ideia do que vai na cabeça destes loucos que nos governam (neste caso na educação, e nas escolas que fecham)…

Valham-nos as avós! As casas com cheiro a canela, as frutas acabadas de apanhar…

Valham-nos as avós, que do alto da sua reforma, lá arranjam genica para ficar com os netos durante o mês de Julho, de Agosto ou às vezes em setembro!

E quando as avós ainda trabalham?!

Pois não sei….

Cá por casa encontramos uma escola que fecha apenas uma semana. Este ano a avó pode ficar com ele… no próximo ano, logo se vê!

Mas quando me falam em incentivos à natalidade, é nestas coisas que penso…Que tal em vez de falarem em incentivos começarem primeiro a criar condições para que os filhos existam?!

image@freeimages

…às avós das minhas filhas

Avós são mimos, beijinhos repenicados, festas do pijama, leitinho com chocolate e bolachas Maria.

Avós na verdade são tudo isso e mais liberdade.

Os avós amam porque não sabem não amar, porque os netos são mais que filhos e eles não têm nada para fazer. Roubam tempo ao tempo e de repente são crianças outra vez. Num instante são índios que se escondem, no outro princesas a beber chá. Os avós são saudade eterna.

Tenho a certeza que todas as crianças do mundo concordam comigo, os avós são “fixes”, porque simplesmente não se preocupam com o que está para vir. Já foram pais e agora querem o direito de ser crianças na pele de avós. E todos têm as suas qualidades ou o tal dom que quando somos pequenos nos fascina, e vai ser precisamente esse dom que nos vai fazer derramar uma lágrima enquanto esboçamos um sorriso.

A minha avó conseguia fazer de um bocado de tecido umas calças da moda ou uma camisola de alças para as minhas barbies, era a minha estilista preferida e tenho a certeza que, mesmo sem nunca mo ter dito, sabia que o que fazia me deixava com os olhos a brilhar de contentamento. Mas o que nunca me sairá da memória é o cheiro do cacau quente acabado de fazer ou o chilrear dos seus periquitos.

Agora os avós fazem tai-chi, vão à ginástica, têm aulas de arte, almoçam todos os dias no mesmo restaurante da esquina, fazem “likes” nos nossos “posts”, e entre tanta diversidade de avós há sempre algo em comum entre eles. Ser Avós é estatuto! Ganham o direito de ficar com os miúdos quando estão doentes sem reclamar, vencem febres com canjas e curam constipações com beijinhos, vão busca-los às 16:30h e acompanham as aulas de natação, de equitação, de ballet, de ginástica rítmica, de música, como se fosse sempre a primeira vez!

E em casa dos avós há sempre um elogio, uma goma, um rebuçado, um bolinho e um lugar para ficar e brincar.

Ainda bem que existem avós que fazem das nossas crianças mais felizes!

 

… à minha avó:

Hoje vi-te.
O caminho não mudou nem um centímetro, a mesma curva, a mesma roseira florida, juro que até os buracos do alcatrão me pareceram os mesmos.
A mesma pressa no ir, o mesmo medo no voltar.
E ao chegar vi-te sentada, na sombra do teu sol. Serena como sempre. Vi-te e senti-te, na ida e na volta.
Fui a medo, sem saber como. Regressei com a certeza que o tempo não apaga a memória. E hoje fui eu que te roubei ao tempo. E que bem me soube este assalto.

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Não ias ao cabeleireiro, porque os teus netos vinham almoçar e foi a eles que te dedicaste de corpo e alma, transmitindo-lhes os verdadeiros valores da partilha e do amor. Dedicação de mãe, ao dobro, que só tem olhos para o amor aos seus.

Ias ao supermercado e compravas o que toda a tua família mais gostava de almoçar, ao domingo, em tua casa. A casa que todos procuravam para desabafar as vicissitudes da vida e as encostas mais íngremes desta escalada que é viver. Aquela casa branca de barras amarelas, com um vaso de feto à porta e um rádio que tocava uma música portuguesa, da qual já não me lembro muito bem. Cantarolavas a músicas e davas alegria à rua toda. Acho até que as tuas malvas cantavam também.

Viver para os outros sem limites e com vontade que as reuniões de família durassem uma eternidade. Todos reunidos à volta da mesa era sinónimo de um sorriso rasgado no teu rosto. Rosto de mulher cansada, mas com uma garra e uma força de viver que transbordavam do balde da esfregona que tinhas à porta da cozinha. E bate-me uma saudade.

Sinto até o cheiro da roupa molhada no estendal, por cima do teu tanque de pedra. Era lá que te encostavas a falar com quem te visitava.

Eterna Mulher Saudade, que hoje vive assombrada por uma vida de passado, de lembranças boas, recordando uma casa cheia de sorrisos, gente feliz, papéis e laços de embrulho que desatavam os nossos sonhos de meninice.

Eterna Mulher Saudade, sempre foste a atriz principal, mas em papel secundário.
Eterna Mulher Saudade, trilhaste o teu caminho, marcando com pegadas de sal o caminho de quem o cruzou contigo. E o meu? Marcaste e marcas ainda, minha Eterna Mulher Saudade.
Eterna Mulher Saudade, que me enche de paz e tranquilidade, sempre que falamos neste mundo de correria e, só por cinco minutos, me dás o teu sorriso mais sincero.
Eterna. Assim serás para mim.

Eterna Mulher Saudade.

Por Dora Nunes, para A mente é Maravilhosa, adaptado por Up To Kids®

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Tive a sorte de poder ter os meus quatro avós comigo até já ser adulta.

Hoje só posso beijar e abraçar dois deles, mas os outros dois continuam muito presentes na minha vida (de tal forma que nunca apaguei os seus contactos do telemóvel, nem quando comprei um novo).

Ao longo dos anos fui acumulando conhecimento que eles me passavam sem mo imporem. Nunca nenhum deles exigiu de mim fosse o que fosse, quis que aprendesse algo antes do tempo, me pressionou a ser diferente, a acreditar em algo só porque eles acreditavam. Desde que fosse bem-educada, coisa que sempre fui, tudo estava em paz.

E sempre esteve.

Com a presença deles aprendi:

– Que o sabor de uma boa sopa caseira (e cacau quente) é impossível de copiar.

– Que um elogio na hora certa pode fazer-nos ganhar o dia.

– Que nunca somos crescidos demais para receber uma notinha na Páscoa “para as amêndoas”.

– Que as melhores piadas são as que contamos em silêncio e, mesmo assim conseguimos arrancar uma gargalhada ao outro.

– Que os filhos são o nosso bem mais precioso.

– Que o trabalho é importante e, sem ele, dificilmente daremos valor ao descanso.

– Que faz falta saber ouvir (mesmo quando já nos contaram três vezes a mesma coisa, uma ao telefone, outra no dia anterior).

– Que há cheiros que ficam para sempre (como o do aftershave do meu avô ou da laca que a minha avó usava).

– Que queremos ser para os nossos filhos melhores pais (se possível) que o que eles foram para os seus.

– Que há erros que se cometem por amor, não por maldade.

– Que as saudades não passam com o tempo (apesar do que nos teimam em fazer crer).

– Que esse tempo ajuda a esquecer coisas que não tinham valor, mas também levam pessoas importantes… que não é fácil ir vendo os amigos desaparecer, os dias a passar, o corpo a ceder.

– Que a solidão dói, que a presença importa.

– Que o nosso mundo se torna cada vez mais pequeno.

– Que os netos e bisnetos ajudam a esquecer a idade.

– Que é sempre tempo de nos surpreendermos, de mudar um bocadinho.

– Que nunca é tarde para dizer o quanto gostamos – e que é importante não deixar de o dizer.

– Que a saúde vale ouro e só nos damos conta disso quando ela começa a ir embora.

– Que há histórias que merecem ser contadas.

– Que há chamadas que não podem ficar para amanhã.

– Que nunca mais teremos ninguém com um amor igual por nós. Nem seremos capazes de amar mais ninguém como os amámos (e amamos) a eles.

Queridos avós, sorte de quem ainda os tem (e os teve um dia).

Honrar a sua existência, a sua memória e o que somos graças a eles pode não mudar nada lá fora, mas aqui dentro fica tudo cheio de luz, de um quentinho que só o amor provoca.

É importante relembrar.

É essencial dizer-lhes o que nos são.

Sempre.

Alegria sem responsabilidade – era o que os avós deviam sentir antigamente.

Entretanto, surgiu um novo paradigma de avós: pessoas de meia-idade que se tornam avós (por volta dos 45 anos) e que estão cada vez mais envolvidos em criar os filhos dos filhos, seja porque o casal se divorciou e não tem a quem deixar o filho quando vai trabalhar, seja para economizar na creche porque os avós estão disponíveis, entre outros motivos.

Hoje em dia, muitos avós que cuidam dos netos dedicam cerca de 14 horas semanais a essa tarefa (imagine-se a quanto é que isso equivale em mão-de-obra!). Têm uma responsabilidade enorme quando assumem o desafio de cuidar dos netos, que requer várias condições:

  • ter tempo
  • ter condições físicas
  • haver condições financeiras
  • haver condições psicológicas/emocionais.

E a envolvência dos avós, convenhamos, é muito positiva para as três gerações:

  • já não impõem as exigências que os pais tipicamente impõem aos filhos (logo há menos tensão)
  • como já têm mais experiência, têm mais habilidade para lidar com as crianças do que em jovens
  • apresentam mais tranquilidade, sabedoria e competência, que vêm com a idade
  • criam a noção de histórico familiar na criança através das histórias da família
  • transmitem valores que nas últimas décadas se têm vindo a dissipar
  • transmitem tarefas domésticas como cuidar das plantas/da terra, costurar, cozinhar, etc
  • trazem um legado cultural: canções, contos, anedotas, ditados
  • em situações de crise familiar, os avós são um grande apoio emocional
  • mimam os netos – eventualmente além da conta.

Por vezes podem surgir tensões familiares – geralmente, entre a mãe e a mãe do pai, entre mãe e filha… – ora porque mais parece que a sogra pensa que sabe mais que o casal, ora porque a mãe da mãe não dá espaço para a mãe ser mãe (!) e cada sugestão bem intencionada é recebida como crítica devastadora, ora porque os avós ficaram sentidos porque sentem que o seu valor de avós não é reconhecido… Enfim, relações humanas!

Isto para não falar daquelas surpresas que a própria criança nos dá, como por exemplo começar a gatinhar precisamente naquele dia em que foi passar umas horas a casa da avó, e cai por terra o tão aguardado momento de vermos o nosso bebé a gatinhar. E mais tarde, já adolescentes, quando confiam mais nos avós do que em nós.

No final, o melhor é cada um fazer a sua parte, concentrando-se nas necessidades da criança, e não nos próprios sentimentos. A empatia abona sempre a favor deste vínculo forte, e através dela pode evitar-se entrar em conflitos desnecessários.

Por tudo isto, é importante reconhecer a elevada importância da presença dos avós no seio familiar, que cada vez mais se dedicam aos netos muito antes da reforma. E, se pensarmos na criança, é evidente a vitalidade que traz aos avós. Os avós desdobram-se para mimar os netinhos, que certamente são os mais lindos das redondezas, cozinhando «aquele» arroz de tomate que a menina gosta, ou com aquele casaquinho tricotados com todo o amor, ora com brinquedos, doces caseiros, presentes, e por vezes chegam mesmo a «desviar as regras», com o maior carinho… tudo para que não lhes falte nada <3

A minha mais nova e a minha mais velha

Conheço a minha filha de dois anos como ninguém e consigo descodificá-la em 99% das vezes. Entendo o que quer dizer quando não se consegue exprimir, antecipo o que vai fazer antes de ela se lembrar, conheço os seus hábitos e manias.

Ainda assim aquele 1% intriga-me… Como quando decide que quer estar no colo da minha avó e assim fica, quieta, durante uma hora, uma hora e meia, duas. E não está a dormir, está apenas ali, sentada ao colo dela, com as mãozinhas à volta do seu pescoço, a olhar a minha avó, a ler as palavras que se formam nos seus lábios, a descansar o corpo, e a mente. Fico a vê-la e a fazer-lhe perguntas, mas ela não quer sair dali, não quer fazer mais nada, não quer que mais ninguém sequer lhe toque. A minha filha, convém explicar, é muito carinhosa mas normalmente não gosta que a agarrem, que a beijoquem infinitamente, que lhe imponham carinho. Gosta de dar os seus abracinhos, beijos e festas, mas é coisa rápida, depois segue caminho para outra coisa mais divertida. E nunca fica assim com ninguém, nem comigo nem com o pai. Nunca está quieta durante muito tempo, a não ser que esteja a cair de sono e se enrosque em nós, mas mesmo assim é coisa para estar a ouvir uma história ou algo parecido.

Gostava de lhe perguntar por que o faz. Não que me incomode, até porque me enternece, mas intriga-me. Porque não é sempre, mas já aconteceu várias vezes. Ao ponto de ser a minha avó, que tem alguma dificuldade em mover-se, a ter de a levar para a casa de banho para tomar banho, senão ela não vai.

Será que quando olha para a minha avó ela vê que foi com ela que tive muitas conversas importantes?

Que foi ela que me preparou as gemadas mais deliciosas do mundo?

Que foi para ela que a minha prima e eu cantámos vezes sem conta, com os sapatos de salto alto nos pés pequeninos e batom nos lábios, a fazer macacadas?

Que foi na casa dela e do meu avô no Baleal que passámos momentos inesquecíveis da nossa infância?

Que foi ela que me ensinou a gostar de açorda (e ainda hoje praticamente só gosto da que ela faz…)?

Que fui tantas vezes com ela ao supermercado que hoje, em adulta, ainda é um sítio onde gosto muito de ir?

Será que vê no seu rosto agora com rugas, a rapariga confiante que conquistou o meu avô, onze anos mais velho – que não ficava muito contente com o facto de ela se maquilhar?

Será que consegue perceber que tem diante de si uma mulher que casou com um padre que nunca abandonou o hábito e sempre integrou a sua família… e o acompanhou de uma igreja para outra com os seus três filhos?

Pergunto-me se sente que não vai ter a bisavó para sempre com ela e aproveita cada segundo do seu colo.

Mesmo que o seu corpo comece a ser grande para ser segurado por aquelas duas mãos trémulas…

A verdade é que nem as mãos que a seguram se cansam, nem ela fica desconfortável pela posição, impossível de manter durante muito tempo.

Acho que os melhores colos da nossa vida são assim mesmo: vistos de fora podem parecer desajustados, mas no fundo do nosso coração não os trocaríamos por nada.

 

“O adeus dos avós: a primeira experiência com a perda.”

Os avós nunca morrem, tornam-se invisíveis e dormem para sempre nas profundezas do nosso coração. Ainda hoje sentimos a falta deles e daríamos qualquer coisa para voltar a ouvir as suas histórias, sentir os seus mimos e aqueles olhares carregados de ternura infinita.

Sabemos que é a lei da vida, enquanto os avós têm o privilégio de nos ver nascer e crescer, nós temos que testemunhar o envelhecimento e o adeus deles ao mundo. A perda deles é quase sempre a nossa primeira despedida, e normalmente durante a nossa infância. 

Os avós que participam na infância dos netos deixam vestígios da sua alma, legados que irão acompanhá-los durante a vida como sementes de amor eterno para os dias em que eles se tornam invisíveis.

Hoje em dia é muito comum ver os avós envolvidos nas tarefas de criança com os seus netos. Eles são uma rede de apoio inestimável nas famílias atuais. Não obstante, o seu papel não é o mesmo que o de um pai ou de uma mãe, e isso é algo que as crianças percebem desde bem cedo.

O vínculo dos avós com os netos é criado a partir de uma cumplicidade muito mais íntima e profunda, por isso, a sua perda pode ser algo muito delicado na mente de uma criança ou adolescente.

O adeus dos avós: a primeira experiência com a perda

Muitas pessoas têm o privilégio de ter ao seu lado algum dos seus avós até à idade adulta. Outros, pelo contrário, tiveram que enfrentar a sua morte ainda na primeira infância, naquela idade em que ainda não se entende a perda de uma forma verdadeiramente real, e onde os adultos, em certas situações, a explicam mal na tentativa de suavizar a morte ou fazer de conta que é algo que não faz sofrer.

A maioria dos psicopedagogos diz de forma bem clara: devemos dizer sempre a verdade a uma criança. É preciso adaptar a mensagem à sua idade, sobre isso não há dúvidas, mas um erro que muitos pais cometem é evitar, por exemplo, uma última despedida entre a criança e o avô enquanto este está no hospital ou quando fazem uso de metáforas como “o avô está numa estrela ou a avó está no céu“.

  • É preciso explicar a morte às crianças de forma simples e sem metáforas para que elas não criem ideias erradas. Se lhes dissermos que o avô se foi embora, o mais provável é a criança perguntar ou ficar à espera de quando é que ele vai voltar.
  • Se explicarmos a morte às criança a partir de uma visão religiosa, é necessário incidir no fato de que a pessoa “não vai regressar”. Uma criança pequena consegue absorver apenas quantidades limitadas de informação, dessa forma, as explicações devem ser breves e simples.

É também importante ter em conta que a morte não é um tabu e que as lágrimas dos adultos não têm que ficar ocultas perante o olhar das crianças. Todos sofremos com a perda de um ente querido e é necessário falar sobre isso e desabafar. As crianças vão fazer isso no seu tempo e no momento certo, por isso, temos que facilitar este processo.

As crianças irão fazer-nos muitas perguntas que precisam das melhores e mais pacientes respostas. A perda dos avós na infância ou na adolescência é sempre algo complexo, por isso é necessário atravessar essa luta em família sendo bastante intuitivos perante qualquer necessidade dos nossos filhos.

Embora já não estejam entre nós, eles continuam muito presentes

Os avós, embora já não estejam entre nós, continuam muito presentes nas nossas vidas, nesses cenários comuns que partilhamos com a nossa família e também nesse legado verbal que oferecemos às novas gerações e aos novos netos e bisnetos que não tiveram a oportunidade de conhecer o avô ou a avó.

Os avós seguraram-nos nas mãos durante um tempo, enquanto isso ensinaram-nos a andar, mas depois, o que seguraram para sempre foram os nossos corações, onde eles descansam eternamente oferecendo-nos a sua luz, a sua memória.

A presença deles ainda mora nessas fotografias amareladas que são guardadas nos albuns e não na memória de um telemóvel. O avô está naquela árvore que plantou com as suas próprias mãos, e a avó no vestido que nos costurou e que ainda hoje temos.

Estão no cheiro daqueles doces que vivem na nossa memória emocional. A sua lembrança está também em cada um dos conselhos que nos deram, nas histórias que nos contaram, na forma como apertamos os sapatos e até na covinha do nosso queixo que herdamos deles.

Os avós não morrem porque ficam gravados nas nossas emoções de um modo mais delicado e profundo do que a simples genética. Eles ensinaram-nos a ir um pouco mais devagar e ao ritmo deles, a saborear uma tarde no campo, a descobrir que os bons livros têm um cheiro especial e que existe uma linguagem que vai muito para além das palavras.

É a linguagem de um abraço, de uma carícia, de um sorriso cúmplice e de um passeio no meio da tarde partilhando silêncios enquanto vemos o pôr do sol. Tudo isso perdurará para sempre, e é aí onde acontece a verdadeira eternidade das pessoas.

No legado afetivo de quem nos ama de verdade e que nos honra ao recordar-nos a cada dia.

Texto de Valéria Amado

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