O pincel da coragem, o pincel da calma e o pincel da motivação

Eu sei que estão chateados comigo mas não percebo porquê

Estamos a começar a fase das provas de aferição do segundo ano dentro das expressões, tanto as físicas-motoras como as artísticas. As escolas estão a organizar-se para que as mesmas ocorram, sente-se alguma ansiedade no ar e é notório para quem costuma ir às escolas.

Eu sabia disto e estava preocupada.

Vera (nome fictício) era uma menina do segundo ano com grandes problemas de imagem corporal, auto estima, expectativas e com algumas dificuldades ao nível da realização motora, tanto fina, como global.

As provas não iriam ser fáceis para ela, isso eu conseguia prever.

A relação com o colégio não era óptima.

A Vera vinha de um jardim de infância pequeno. Passou para um colégio grande onde estava constantemente na sombra das irmãs, que também lá andavam. A relação que tem com a professora é sobretudo de medo, o que é aliás o seu padrão para com os adultos. Medo de que não esteja a fazer bem, medo de que vá desiludir, medo de fazer perguntas porque já devia saber as respostas.

Esta semana cheguei pela hora do habitual, dentro do período de almoço. Percorri os diversos espaços de recreio a procurar a Vera e nada. Acabei por me cruzar com o diretor que me informou que estava na sala, juntamente com outros colegas que não tinham acabado o trabalho da manhã. É uma prática habitual no colégio da Vera, o que a prejudica bastante, visto que necessita realmente daquele espaço de tempo para brincar e recarregar energias. Fui para a sala e bati à porta para pedir que a Vera me acompanhasse para a terapia.

As palavras são potentes armas

–  Ainda bem que veio! – disse a professora, bem alto, à frente dos 9 alunos que lá estavam, incluindo a Vera – A Vera está impossível! A semana passada foi a prova de expressão físico-motora e ontem a de expressão artística. A Vera não fez nada! Sabe o que é nada? Nada! E hoje está ali, olhe, ainda nem pegou no lápis, só olha para o caderno e para o teto. Nada! E olhe que eu sei que é fácil! É fácil e ela de certeza que sabe!

A Vera estava encolhida a tentar esconder as lágrimas.

– Se isto continua assim – continuou a professora – nem sei como é que vão ser as de português e de matemática!

Chamei a Vera e fomos para a sala. Pela má relação corporal que vive, a Vera tem realmente dificuldades em admitir que não consegue fazer e lida muito mal com a frustração. Detesta tentar coisas novas e diferentes. Mas por outro lado, é brilhante a matemática e escreve muito bem, numa letra muito bonita. No português também é boa, mas, pelas suas dificuldades em expressão, por vezes tem dificuldade em perceber o que não seja literal.

Comunicar eficazmente. O pincel da coragem, o pincel da calma e o pincel da motivação

– Vera, o que se passou ontem? – perguntei com calma – Não estou chateada, só quero que tu me contes o que se passou, porque não consegui perceber e quero entender se estás bem…

– Eu não fiz nada e portei-me muito mal – respondeu ela, olhando para as mãos que estavam sob o colo.

– Não fizeste nada, ou a professora disse-te que não fizeste nada? Percebeste o que era para fazer?

– Eu achava que sim… e fiz o que a professora me tinha mandado… o meu trabalho estava um pouco diferente dos outros, mas cada menino fez à sua maneira, não achava que estivesse mal… Mas depois a professora olhou, fez uma cara muito chateada e disse que eu não tinha feito nada… Eu sei que estão chateados comigo, mas não consigo entender o porquê…

– E não perguntaste, Vera?

– Não Ana, nem hoje… estamos a ler um poema muito difícil. Eu entendo as palavras que estão escritas, mas tudo junto não faz sentido… E nem vou perguntar à professora. Ela diz que é fácil e que eu tenho que saber, mas eu não consigo… E depois ela diz que as provas de aferição vão correr muito mal… Nem quero pensar…

– E como é que isso te faz sentir? – perguntei eu, tentando ser o porto de abrigo que precisava naquele momento.

– Mal Ana, muito mal… e já sei o que vais perguntar, onde é que me sinto mal, não é? Nas mãos, Ana, sinto-me muito mal nas mãos… Eu olho para elas mas elas não se conseguem mexer…

– Vera, acho que sei do que precisamos! Vamos buscar o pincel da coragem, o pincel da calma e o pincel da motivação! Aposto que se passarmos esses pincéis nas nossas mãos elas vão ficar cheias de força!

E ficaram.

Mensagens claras, crianças esclarecidas, crianças mais calmas

Os seus ombros voltaram para baixo, consegui ver o seu pescoço, as costas endireitaram-se e os pés pararam de bater repetidamente no chão. A minha Vera estava de volta. O mundo terá sempre desafios destes para a Vera e para as nossas outras crianças. É sempre importante dar-lhes estes pincéis da calma, coragem e motivação. Mas acima de tudo, temos de ser claros nas mensagens que passamos para as nossas crianças. Se lhes dissermos apenas que fizeram mal, sem indicar o que esperávamos delas, sem ouvirmos o seu feedback e sem elogiarmos o que fazem bem, não estamos a mostrar-lhes o caminho. Estamos apenas a ser ervas daninhas.

Aproximam-se semanas intensas, o ano letivo está no fim e o cansaço começa a aparecer em todos os elementos da escola. Mas que essa não seja a desculpa para sermos pedras no caminho, quando devíamos estar a regar as nossas flores.

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A crítica excessiva dos pais mutila o cérebro emocional dos filhos

A educação que recebemos em crianças e o tipo de relacionamento que estabelecemos com os nossos pais deixam-nos marcas profundas ao longo da vida.

A atenção ou a negligência, a crítica ou o elogio, determinam o estilo de apego que iremos desenvolver nas relações futuras. Terá um enorme impacto na imagem que formamos de nós mesmos, na nossa autoestima e na forma como encaramos a vida.

No entanto, tudo parece indicar que as consequências da crítica na infância não se limitam ao nível psicológico, mas também alteram a configuração do cérebro da crianças. Neurocientistas da Universidade Binghamton descobriram que, quando os pais criticam excessivamente os filhos, as áreas do cérebro dedicadas a processar estados emocionais, ficam afetadas.

Crítica constante dos pais bloqueia o processamento emocional das crianças

As crianças podem criticar a maneira como o cérebro percebe e processa a informação emocional? Esta foi a questão que alguns neurocientistas levantaram e, para responder, recrutaram 87 crianças com idades entre 7 e 11 anos.

Primeiro, pediram aos pais que falassem sobre os filhos durante cinco minutos. Assim, conseguiram avaliar o nível de crítica destes pais. Depois analisaram a atividade cerebral das crianças enquanto viam uma série de imagens de rostos que mostravam diferentes emoções. Descobriram que os filhos de pais muito críticos prestavam menos atenção às expressões faciais emocionais, sem conseguir distinguir emoções positivas de negativas.

Na prática, as crianças sujeitas a críticas constantes evitam prestar atenção aos rostos que expressam qualquer tipo de emoção. Obviamente, a longo prazo, tal comportamento poderá afetar as suas relações com terceiros e poderá ser uma das razões pelas quais as crianças expostas a altos níveis de crítica correm maior risco de sofrer de depressão e de ansiedade.

Para evitar o desconforto causado pela crítica, o cérebro infantil é “desconectado”

Todos nós temos tendência a evitar coisas que nos fazem sentir desconfortáveis, ansiosos ou tristes. Mas  observou-se que as crianças cujos pais são muito críticos são mais propensas a usar estratégias para evitar pessoas ou situações que as deixem pouco confortáveis.

Na verdade, é um mecanismo básico de proteção: quando estamos perante uma situação da qual não gostamos mas não podemos escapar, o nosso cérebro tende a “desconectar-se”. É exatamente o que acontece connosco quando estamos numa reunião chata que não nos podemos livrar. No entanto, esta situação é perigosa quando repetida por um longo tempo durante toda a infância, pois o cérebro infantil não será capaz de estabelecer as conexões necessárias para processar adequadamente as informações emocionais.

As crianças que são vítimas de críticas constantes evitam focar e processar as expressões emocionais de raiva, nojo ou desconforto dos pais para não sentirem os sentimentos aversivos que estas geram. Como resultado dessa mutilação do sistema de processamento emocional, também se tornam incapazes de perceber as expressões positivas dos outros.

De facto, não é o primeiro estudo que analisa o impacto no nível cerebral de uma educação negativa.

Pesquisas anteriores realizadas na Harvard Medical School revelaram que os gritos danificam o cérebro infantil, especificamente o vermis cerebelar, uma área fundamental para manter um bom equilíbrio emocional.

Como criticar realmente construtiva para as crianças?

Existem dois tipos de críticas: críticas destrutivas, que não levam a lado nenhum e só geram desconforto; e críticas construtivas, que nos permitem crescer e melhorar algo. Infelizmente, estima-se que 9 em cada 10 críticas “construtivas” realmente não o sejam.

Como podem os pais garantir que as críticas que fazem aos filhos os ajudam realmente?

  • Concentrar-se no comportamento, e não na criança.

Isto significa não usar rótulos que generalizam tais com como “estás/és muito desorganizado”.

Os pais devem ser o mais precisos possível e dizer: “não arrumaste os brinquedos, vais ter de o fazer”.

  • Informe-se antes de criticar.

Muitas vezes criticamos supondo que as nossas conjecturas são verdadeiras.  Portanto, antes de dar vazão à raiva ou ao desapontamento, pergunte o que aconteceu. Ouça a versão da criança e tente entender sua perspectiva, embora não signifique que concorde. No entanto, uma crítica baseada na empatia é muito mais construtiva.

  • Foque-se na solução, em vez de enfatizar o erro.

Todos nós cometemos erros, mas se as críticas permanecerem a esse nível, isso não servirá para crescer. Portanto, é conveniente perguntar à criança o que pode fazer para resolver o problema ou propor diretamente algumas soluções.

  • Introduzir um elemento positivo.

Diz-se que para cada crítica cinco elogios são necessários. Uma no cravo outra na ferradura. Não devemos limitar-nos a destacar o negativo nos nossos filhos, mas também a reforçar as características positivas. Por exemplo, pode dizer: “Ontem apanhaste os brinquedo sem eu ter de chamar a atenção, muito bem. Eu gostava que fosse assim todos os dias. Era sinal de responsabilidade”.

 

Publicado em Rincon de La psicologia, traduzido e adaptado por Up To Kids

Ensinar os filhos a esperar

Atualmente, parece que tudo é difícil de aguentar, sob todas as perspetivas.

Os filhos passam por circunstâncias sobre as quais manifestam dificuldades em gerir. No outro ângulo, encontram-se os pais que ficam tão ou mais aflitos quando sentem as crias em apuros. E se o instinto natural impele a ajudar, é isso mesmo que deve ser feito. Já resolver tudo, de modo imediato, independentemente da idade, (e, por vezes até, oferecendo soluções antes de o problema ser manifestado), é ação merecedora de ocorrência no registo criminal da parentalidade.

Cultura do instantâneo

Nascemos todos sob o princípio do prazer, isto é, “tenho fome, alimenta-me já!”; “quero água, como é que ainda não está aqui?”; “a fralda está suja: a troca é para hoje ou amanhã?”. E, sem o domínio da comunicação verbal, o choro serve de alerta para todos os sinais que queremos dar.

Pressupõe-se que, com o desenvolvimento, entre outros aspetos, se desenvolva a capacidade de esperar. Ou seja, de conseguir aguentar os diversos desconfortos que vamos sentindo na vivência diária, sem almejar soluções instantâneas. No entanto, para alcançar esta capacidade de forma ajustada, requer-se que os cuidadores (pais, avós, tios, etc) possuam também esta capacidade. A de aguentar as manifestações de desconforto, por parte de quem cuidam, sem o impulso de querer solucionar, prontamente tudo.

Exemplos disto, relativos a uma fase mais inicial da vida, são a chucha que aparece rapidamente ao primeiro choro, e os avós que surgem como recurso imediato quando os pequenotes demonstram resistência em ir à escola.

Dar tempo para aprender a esperar

A questão fulcral reside no facto da reação-resposta não dar tempo para aprender a esperar. Não dar tempo para reconhecer o sentir, confrontando-o e suportando-o até passar ou ser resolvido. Ter a capacidade de parar para pensar o sentimento é imprescindível a um desenvolvimento mais harmonioso e equilibrado, mas não “nasce” sem treino.

Não pensar no que se sente, privilegia a fuga.

O evitamento; a incapacidade de olhar para dentro, pelo receio daquilo que possa encontrar-se. E, não conseguir olhar para dentro, é como estar na selva, em frente ao Cuquedo, a anunciar-lhe que ele – Cuquedo – é muito assustador, muito embora, na verdade, ele seja o oposto do susto (sendo que só assusta porque existe essa expectativa sobre ele). Isto é, pode avolumar-se como um perigo.

A verdade é que, não obstante as boas intenções dos cuidadores, um tempo de latência na resposta aos pedidos dos pequenotes (e mesmo dos “crescidotes”), só traz benefícios. Se, por um lado, os ensina a saber esperar; por outro, transmite-lhes a mensagem que quem os cuida está tranquilo. Que não se deixa abalar com o mal estar dos filhos, sendo, por isso, sentidos como uma fonte de apoio muito mais securizante. (É natural que os cuidadores se preocupem. Devem, no entanto, de forma verbal e não verbal, passar a mensagem contrária, para que possam ser vivenciados como porto de abrigo).

Na certeza que a vida não acontece ao sabor do tempo e vontade de cada um. É importante preparar para o desenvolvimento de recursos internos que permitam aguentar mais os “mal-estar” do quotidiano. Na tentativa de evitar que, mais tarde, perante as adversidades da vida, se manifeste a sensação de perda de controlo e, (por norma) consequentes, crises de ansiedade.

Como reagir se o seu filho disser: “Não quero ir à escola”

A recusa em ir à escola é entendida na maioria das vezes como um ato momentâneo de preguiça e na maioria dos casos não passa disso mesmo. Mas a frase “não quero ir à escola” pode esconder um pedido de ajuda para o qual os pais devem estar atentos.

Antes de pensar castigar, ou obrigar, tente perceber o que leva o seu filho a acordar sem vontade de ir às aulas.

É normal que uma vez ou outra uma criança mostre vontade de ficar em casa, muitas vezes, na expectativa de ficar mais tempo com os pais. Mas se a recusa se repete é preciso ler para lá dos sinais.

AS DESCULPAS

“Doí-me a cabeça”, “doí-me a barriga”, são desculpas a que os mais pequenos recorrem com frequência quando não querem ir à escola. Por vezes o mal estar físico tem sintomas que são visíveis pelos pais como febre ou vómitos, mas que não encontram uma justificação médica. São os chamados sintomas psicossomáticos.

Uma reação do corpo a problemas que podem ser de natureza psicológica ou emocional. É importante perceber que o seu filho pode não estar a mentir quando se queixa de uma dor de barriga para a qual o médico não encontra resposta.

A criança pode ter dificuldade em expor e até compreender o que sente.

A dor é a porta que o corpo encontra para pedir ajuda.

RAZÕES PARA NÃO QUERER IR À ESCOLA

São vários os motivos que podem levar uma criança a rejeitar a escola de um dia para o outro.

Tente conversar com o seu filho perguntar-lhe o que tem de melhor e de pior na escola.

Esteja atento aos sinais.

Bullying

Há crianças que recusam levar determinadas roupas ou objetos para a escola, outras que acabam por admitir que “os meninos são maus”. São por vezes sinais de que são vítimas de agressões físicas ou psicológicas, o chamado bullying. Se for esse o caso dê confiança ao seu filho. Mostre-lhe que não está sozinho e que juntos vão resolver o problema. Tente identificar quem são os agressores e marque uma reunião com o professor ou o diretor de turma. Sugira também uma conversa em conjunto com os pais dos meninos responsáveis pelo bullying e tentem em conjunto encontrar uma solução.

Dificuldades de aprendizagem e/ou atenção

Uma chamada para ir ao quadro ou para ler um texto em voz alta, para algumas crianças não passa de um desafio mas para outras pode ser um enorme fator de ansiedade.

O medo de cair no ridículo, de ser gozado pelos restantes, é habitual entre os mais pequenos, sobretudo quando existe uma dificuldade de aprendizagem de forma geral ou em determinadas matérias.

É importante estar atento, falar com o seu filho ao final de cada dia.

Se ele diz que “a escola é muito difícil, veja para lá do óbvio.

Talvez sinta vontade de dizer que tem de trabalhar mais porque a vida é dura e exige esforço. Mas o caminho deve ser outro. Pergunte-lhe que matérias acha mais interessantes na escola e em quais tem mais dificuldades. Elogie as capacidades que revela e mostre que o irá ajudar a superar os temas mais difíceis. Poderá também recorrer à sua experiência pessoal para lhe dar alguns exemplos de como superou determinados problemas.

Medos

“Não quero ir à escola”, pode querer dizer “quero ficar em casa”.

Na prática parece dar no mesmo, mas não é.

Por vezes o problema está no seio da família e não no ambiente escolar.

Há crianças que, por diversas razões, alimentam uma dependência pelo pai, ou a mãe e sentem receio sempre que se afastam. Acontece, por vezes, quando há uma perda ou um distanciamento. Em caso de morte, por exemplo, ou de divórcio. Se o seu filho perdeu a avó ou o avô, é natural que se questione que pode um dia perder os pais. Um receio que se pode traduzir em ansiedade e medo de sair de casa, de se afastar dos que mais gosta. Falamos de pessoas, mas pode acontecer também quando há a perda de um animal de estimação. Uma vez mais o diálogo é essencial para compreender e ajudar o seu filho.

Os motivos que podem levar uma criança a rejeitar a escola são muitos e podem ocorrer em simultâneo.

A boa notícia é que, na maioria das vezes, o problema é passageiro. Esteja atento. No final de cada dia, conversem, faça perguntas. O que aprendeu na escola? Que disciplinas gostou mais? Será que sentiu dificuldades nalguma matéria? E os amigos? Quem são? A que brincaram nos intervalos?

Não desespere e, acima de tudo, não castigue antes de saber a real razão do problema.

A criança precisa de sentir que é entendida.

Tente a via do diálogo. Reforce a importância dos estudos para a vida futura, mas realce também o lado mais lúdico da escola.

E já agora, avalie se o seu filho dorme horas suficientes. Será que não tem uma agenda demasiado preenchida com atividades escolares e extra-escolares.

Por vezes, algum cansaço pode ser a resposta que procura.

Lembre-se, poderá não acertar na melhor estratégia à primeira, tente uma vez mais, mas não hesite em procurar ajuda especializada, de um psicólogo, por exemplo, se entender que o problema persiste.

A ansiedade é mais comum nas pessoas do que se possa imaginar. Estas são algumas das coisas que fazes por causa da ansiedade, mas que ninguém se apercebe.

1. Negas alguns convites mesmo quando gostavas mesmo de ir

Algumas vezes a ansiedade pode ser tão debilitante, que não consegues ter energia suficiente para sair. Não importa se estavas animada para um evento, quando chega o dia, a  ansiedade entra em pleno vigor e já não vais. Como não queres ser um fardo para ninguém a melhor opção, no teu ponto de vista, é não ir.

 2. Ficas obcecada por coisas que as pessoas normalmente não pensariam duas vezes

Ficas obcecada com tudo na tua cabeça. Muito provavelmente, as coisas com as quais te preocupas nunca iriam habitar a mente de alguém que não tem ansiedade. Talvez fiques a “ruminar” uma conversa que tiveste na semana passada, ou a forma como o teu chefe te encarou no outro dia. Talvez “rumines” o facto de que teu namorado não te mandou uma mensagem num dia em que tu disseste algo que o pudesse ter chateado. Seja o que for, é difícil para as pessoas sem ansiedade entender por que tu estás tão obcecada por coisas que nem sequer são importantes para eles.

3. Acordas sempre muito cedo (mesmo quando estás cansada)

O sono é sempre um problema para ti. É difícil conseguires iniciar o sono porque tens tantas coisas para digerir e refletir sobre o dia que acabaste de ter… A tua mente nunca parece desligar e, por isso mesmo, quando acordas já tens as preocupações a pipocar. Costumas acordar mesmo cedo, as vezes, a ver se consegues fazer tudo o que tens que fazer em tempo hábil. Continuar a dormir é também, definitivamente, um desafio para ti já que não podes desligar a tua ansiedade uma vez que já estás acordada.

4. Esperas pelo pior desfecho em todas as situações

Antes daquele primeiro encontro, estás convencida de que tudo correrá terrivelmente mal. Antes de voar, imaginas tudo a cair aos pedaços. Antes de fazer uma viagem de carro, tens medo de acidentes. Quando ficas doente, tens medo de que haja algo realmente errado contigo. A lista continua e continua, e parece ridículo para os outros. Mas e para ti? São medos reais! São reais… para ti.

5. Fazes replay das conversas na tua cabeça

Tentas evitar discussões a todo custo, porque sabes que isso aumenta a tua ansiedade. Ainda assim, quando tens alguma discussão, ou até mesmo uma conversa que possa parecer agradável para a outra pessoa, continuas a pensar sobre isso depois de tudo ter sido dito e feito. Não consegues tirar isso da cabeça e sempre achas que disseste algo errado. Isso pode corroer-te por dentro e forças-te a lembrar que é só a tua ansiedade a falar, e que todo o resto é provável que esteja bem.

6. Preocupas-te contigo própria quando os outros estão preocupados contigo

Se as pessoas perguntam se estás bem enquanto estás a ter um ataque de ansiedade, ou se as pessoas falam para ti quando estás imersa em pensamentos negativos, faz com que a tua ansiedade piore. Claro que eles falam com boas intenções, mas se os outros se preocupam contigo, isso faz com que penses – “Se eles estão preocupados, então eu deveria preocupar-me ainda mais comigo mesma!”

7. Pensas que a culpa é tua quando alguém não te responde imediatamente

Não importa se é o teu namorado, tua melhor amiga ou a tua irmã, ficas sempre abalada quando não te respondem. As pessoas sem ansiedade, geralmente, não prestariam atenção à demora na resposta, mas para ti isso é realmente um sinal de alerta. Normalmente, quando as pessoas não respondem uma mensagem tua, sentes-te culpada porque achas que fizeste algo de errado, quando muito provavelmente, eles são apenas terrível em se comunicarem.

8. As vezes sentes que estás a ter um colapso nervoso quando falam sobre o futuro

O futuro é um grande gatilho para a tua ansiedade, por isso costumas detestar quando te perguntam quais são os teus planos para os próximos cinco anos. Terminar a secundária e a faculdade para a maioria das pessoas é incrível, mas para ti pode ser extremamente difícil e assustador. Não gostas que os outros falem sobre os seus próprios planos para o futuro porque isso faz com que sintas que não és boa o suficiente.

9. Comparas constantemente o teu sucesso com o de outras pessoas que tem a mesma idade que tu

Tu vês constantemente no teu Facebook que as pessoas da tua idade estão a conseguir empregos de sonho e isso faz a tua cabeça querer explodir. Não tens intenção de te comparar aos outros, mas, por vezes, a tua ansiedade ganha e tu não consegues evitar. Preocupas-te se algum dia chegarás à altura deles e se os teus objetivos algum dia se tornarão realidade.

10. Fazes replay sobre cada erro que cometes e sentes culpa por isso

Especialmente se cometeres um erro no trabalho, isso consome os teus pensamentos e pode arruinar o teu dia, ou mesmo algumas das tuas semanas. Constantemente fazes um esforço para dar o melhor de ti, mas quando acidentalmente envias algo que não era suposto, ou quando fazes algo que não deverias fazer, ficas extremamente desapontada contigo própria. A ansiedade pode realmente ser a tua pior inimiga.

11. Há dias que estás demasiado exausta física e mentalmente – até para sair da cama

Há dias que a tua ansiedade pode ser tão forte, que tu realmente sentes-te incapaz de fazer qualquer coisa, a não ser ficar deitada na cama. Às vezes, o mundo pode parecer demasiado complexo para tua mente, e precisas de alguns dias de folga para descansar. A ansiedade pode ter um enorme efeito sobre a nossa saúde, e não pode ser “varrida para debaixo do tapete”. Ela pode ser verdadeiramente prejudicial, e muitas pessoas não compreendem os efeitos que ela pode ter sobre um indivíduo.

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Dona Ansiedade

A ansiedade, termo utilizado actualmente para designar um conjunto de manifestações físicas e mentais causadas pela percepção, real ou imaginária, de um perigo ou situação difícil, pode incluir sintomas tão variados como irritabilidade, insónia, suores frios, sensação de desmaio, dificuldades de atenção/concentração, alterações intestinais ou urinárias, bloqueios e confusão mental, entre outros.

Dados da Direcção Geral da Saúde (2013) referem que 16,5% da população portuguesa revelava sinais de Perturbações da Ansiedade, sendo a perturbação psicológica de maior incidência no país. Tornou-se quase banal a sensação de cansaço, o nervosismo, a tensão, as intermináveis listas de afazeres, a resposta imediata a milhares de solicitações diárias da família, do trabalho, dos amigos e das redes sociais, o telefone que não pára de tocar, as noites mal-dormidas, os cinco-cafés-por-dia-para-aguentar… e o consumo de medicação ansiolítica, que tem crescido de forma exponencial nos últimos anos.

Como evitar a ansiedade?

Na verdade, não existe forma de eliminar por completo a ansiedade, já que constitui um mecanismo psicológico absolutamente fundamental para o nosso bem-estar psicológico, funcionando como uma espécie de “sinal de alarme” para situações potencialmente desagradáveis ou perigosas.

No entanto, existem diversas estratégias simples que nos permitem gerir saudavelmente os efeitos negativos da ansiedade, e minimizar o seu impacto. Em primeiro lugar, é fundamental estimular hábitos de auto-reflexão, já que quando nos tornamos mais conscientes relativamente ao tipo de situações que nos causa maior ansidade (prazos de trabalho, por exemplo), também nos tornamos atentos às situações potencialmente desagradáveis que conseguimos evitar (começando a preparar o trabalho mais cedo, de forma a evitar atrasos). Evitar a procrastinação (não deixar tudo “para amanhã”), estabelecer objectivos curtos, celebrar os pequenos ganhos, aceitar as próprias falhas e erros, cuidar do corpo respeitando os seus ritmos e necessidades, dormir 8 horas, praticar exercício físico moderado, diversificar ao máximo as suas rotinas e fontes de prazer, diminuir o consumo de estimulantes e desligar ocasionalmente as redes sociais são outros pequenos truques que permitem evitar o “bloqueio” causado pelo acumular de situações causadoras de ansiedade.

E se a ansiedade for demasiado grave?

Acontece por vezes que, independentemente de todos os nossos esforços, a ansiedade continua a tomar conta de nós de uma forma cada vez mais incapacitante, bloqueando-nos, deprimindo-nos, impedindo-nos de tomar qualquer atitude ou de tomar qualquer decisão. Quando a intensidade e duração dos sintomas ansiosos se tornam excessivas, ou quando o seu impacto no dia-a-dia se torna descontrolado, está na altura de procurar a ajuda de um psicólogo clínico. Este técnico poderá, no seio de uma relação confidencial e de confiança, fornecer-lhe ferramentas de gestão das emoções construídas à medida das suas capacidades e características, agindo directamente na causa dos distúrbios emocionais e recuperando um funcionamento mais harmonioso, activo e feliz.

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O bichinho da ansiedade

O bichinho da ansiedade é um bichinho muito comum. Na realidade, bem mais comum do que aquilo que se acredita. Grande parte das vezes o bichinho da ansiedade aparece só esporadicamente e logo, logo se vai embora. No entanto, algumas das nossas crianças convivem diariamente com o bichinho da ansiedade, o que se torna muito complicado. É quase como ter para animal doméstico um animal selvagem.

Então, antes de mais, temos de esclarecer que a ansiedade é um mecanismo natural, essencial e de extrema importância. Este mecanismo é ativado de forma involuntária e automática sempre que o nosso cérebro deteta que estamos em perigo ou considera que devemos estar em alerta. Após ser ativado, o nosso corpo vai passar por uma data de reações naturais: o ritmo cardíaco acelera, aumentam os suores, a frequência respiratória aumenta, podemos sentir tremores. Ou seja, a ansiedade, muito mais do que um estado mental, ou do que um fenómeno psicológico, é um processo corporal, que vai trazer alterações em todo o corpo. Estas alterações são o que permitem uma resposta de luta-fuga. Ou seja, quando o nosso corpo começa a passar por todas aquelas alterações, na realidade está a preparar-se para fugir ou para lutar. Esta decisão geralmente é tomada numa questão de segundos e, após passar o perigo, o corpo regressa gradualmente ao normal. E claro, estas alterações são tão maiores quanto o estímulo inicial. Quer dizer, existe um espectro entre o ansioso até positivo, ao ligeiro desconforto, e até mesmo ao pânico, na outra ponta do espectro.

A questão prende-se então ao quando é que o bichinho da ansiedade começa a ser demasiado inoportuno. Normalmente isto acontece quando o bichinho está sempre presente, ou seja, estamos permanentemente em estado de alerta, ou então quando nos leva a ter reações desadaptadas, o que nesse caso poderá se refletir numa perturbação da ansiedade. Claro que quando nos referimos a este quadro, ou à ansiedade no geral, estamos a falar de algo involuntário que muitas vezes é difícil de explicar mesmo para adultos.

No caso das crianças torna-se ainda mais complicado, uma vez que estas normalmente não conseguem identificar a ansiedade. Quando o conseguem, ou conseguem identificar o mau-estar e desconforto, é recorrente que não consigam explicar o porquê.

Dado às diferenças da expressão da ansiedade entre adultos e crianças, não é de todo raro que os sintomas da ansiedade sejam descurados, passem despercebidos ou que sejam confundidos com outros quadros. Por este motivo, é de extrema importância tanto para pais, como para professores e terapeutas estar atentos, para perceber se este bichinho está a importunar as nossas crianças.

-Preocupação excessiva – apesar das crianças poderem já estar a frequentar a escola e terem de gerir os trabalhos de casa, as atividades extracurriculares e ainda os testes (o que por si só já significa mais pressão do que aquela que as crianças deveriam suportar), a realidade é que a infância é uma altura de calma e passividade. Uma criança que esteja constantemente a preocupar-se de forma excessiva com o decorrer dos dias, das semanas e dos meses, poderá ser uma criança que esteja a dar sinais de ansiedade.

Dificuldades em gerir o sono – este sintoma é bastante parecido com aquele sentido pelos adultos. Crianças que estejam demasiado ansiosas são crianças que terão dificuldades em adormecer ou que vão evitar a hora de ir para a cama. No entanto, este sintoma poderá facilmente passar despercebido aos pais em crianças que vão para a cama mas que depois demorem em adormecer. Neste caso, será mais visível no dia seguinte quando a criança andar mais sonolenta durante o dia, e que comece a acordar gradualmente com o aproximar da hora de ir dormir.

Dificuldades de concentração – como é claro se a criança está preocupada e ansiosa, terá mais dificuldades em concentrar-se nas suas diversas atividades, nomeadamente académicas, até porque as crianças apresentam uma maior dificuldade de auto-regulação e do foco da atenção para determinadas tarefas. Desta forma, se a criança apresenta constantemente sinais de distração ou do famoso “cabeça na lua”, poderá significar que naquele momento a criança está de tal forma preocupada com outro assunto que não tem a capacidade de mobilizar a sua atenção para o que está a ser pedido.

Irritabilidade ou agressividade – estes dois tópicos são de extrema importância, até pela facilidade com que são confundidos com outras patologias. A irritabilidade e a agressividade no caso da ansiedade podem ter vários fundos. Em primeiro lugar poderão estar ligados com outros factores, tais como as dificuldades no sono que podem gerar maior frustração e agressividade. Por outro lado, o sentir ansiedade para a criança pode ser muito difícil de gerir, motivo pelo qual a criança poderá perder o controlo com maior facilidade. Contudo, importa referir que a ansiedade pode ter co-morbilidade com outras perturbações do desenvolvimento, tal como a PHDA.

Resistência à mudança – ou então dificuldade em processar a contrariedade e necessidade de controlo. Isto deve-se à necessidade de controlo que a criança tem para conseguir sentir-se segura e desta forma atenuar a ansiedade. No entanto, se for impeditivo para a criança, deve ser visto como um sinal de alerta.

Dificuldades na linguagem e gaguez – apesar das dificuldades no discurso representarem um campo vasto sobre o qual se deve ter muita atenção, a realidade é que a ansiedade pode moldar o discurso, provocando algumas dificuldades e, em muitos casos a gaguez.

Rigidez e agitação psicomotora – como já foi dito o primeiro veículo de comunicação que a criança controla é o corpo. Aliás, como explicado, a ansiedade vai ter respostas corporais de luta-fuga, nomeadamente o ritmo cardíaco e a respiração, o que por si só, pode levar a uma maior rigidez tónica e a uma maior sensação de agitação. Por outro lado, se a criança não processa a ansiedade e o motivo de estar ansiosa, a expressão será seguramente pelo corpo. Estas são também crianças que frequentemente gesticulam de forma excessiva ou que apresentam tiques motores.

Somatização – esta palavra é realmente complicada, mas significa apenas que o corpo começa a espelhar a ansiedade a um nível muito elevado. Este é o caso de crianças que apresentem muitas dores de cabeça, de barriga, vómitos ou diarreias sem motivo médico aparente. Na realidade, não é que as crianças não sintam as dores, mas é mais do que fisiológico, é o psicológico a refletir-se no corpo e a dar o sinal de alerta.

Estes são apenas alguns dos sinais a que devemos estar atentos. Contudo, caso estes sejam identificados, o adulto não deve transmitir ainda mais insegurança e preocupação, uma vez que isso só trará mais ansiedade. Pelo contrário, os pais e educadores devem ser uma figura de referência e segurança, tranquilizando a criança, de forma a baixar os níveis de ansiedade. Existem diversas formas de relaxar que podem ser incutidas no quotidiano e que podem ajudar as crianças. Em todo o caso, caso os educadores ou os pais pensem que é necessário, podem e devem sempre consultar um profissional de saúde para mais esclarecimentos.

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Hoje escrevo sobre ti

Hoje quis mesmo escrever sobre ti, sobre o orgulho que tenho pela caminhada que fizeste, pela enorme admiração que mesmo nos momentos mais difíceis sempre tive por ti, pela forma como me encanta ouvir-te falar e acima de tudo pela pessoa que és!!!

Faz dois anos que entrou no meu consultório, uma jovem de 16 anos, que utilizava a franja para que eu não pudesse focar os seus olhos desconfiados, mas com muita necessidade de falar. Apesar da queixa base apresentada pela mãe, muito preocupada com os sintomas de isolamento, agressividade, baixa autoestima e ainda alguns episódios de automutilação, para ela a sua principal preocupação centrava-se na sua ansiedade, que considerava ser um dos principais fatores que interferia na sua qualidade de vida, nos seus relacionamentos interpessoais e no cumprimento das suas tarefas, nomeadamente as escolares.

Na verdade a sua vida estava totalmente virada do avesso e ela estava a ser “engolida” pela sua ansiedade, pelo medo que a vida lhe tinha literalmente cristalizado em todas as células do seu corpo….

Precisava de aprender a confiar, a relaxar, a amar e a deixar-se ser amada, para poder pouco a pouco ir-se libertando das amarras do medo e mudando as lentes com que via a vida. Vivia em permanente estado de sobressalto, de tensão e evidenciava todos, ou quase todos, os sintomas físicos decorrentes da ansiedade.

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“O leite só ferve quando você sai de perto”, foi a melhor metáfora que encontrei para definir a ansiedade do acontecimento. Quando queremos muito que algo aconteça, parece que o tempo pára. Queremos um emprego novo, queremos encontrar o príncipe encantado, queremos engravidar, queremos, queremos, queremos, mas parece que nunca nada vai acontecer. De repente, deixamos de enviar CV porque estamos numa fase com imenso trabalho,  e liga-nos alguém que conhecemos sabe Deus onde, e que se lembrou de nós sabe Deus como, e que nos recomendou para o cargo supra sumo da banana da empresa XPTO. Exatamente para onde já tinhamos enviado diversos e-mails e nunca obtivemos resposta. A entrevista está marcada. O nosso bom desempenho no emprego atual foi reconhecido e isso pode catapultar-nos para o outro nível.

Durante muito tempo andei à procura do príncipe encantado, do marido ideal, o futuro pai dos meus filhos. Avaliava cada colega de trabalho, cada homem que conhecia, às vezes até os empregados do restaurante ou do banco: “Este é bem giro! E simpático. Tem emprego e parece responsável.” – E não, não estava desesperada, nem me sentia sozinha. O meu melhor amigo, que estava sempre rodeado de raparigas (saía-se bem demais até) dizia que não eram para mim, que merecia melhor. Enquanto procurava pelo homem ideal não estava concentrada em mim, naquilo que realmente me fazia feliz. E ao fim de algum tempo tudo aconteceu com naturalidade, quando menos esperava. Hoje em dia, o meu melhor amigo é também o meu marido e o pai das minhas filhas. E claro, deixou de andar rodeado de miúdas. Ou melhor, continua mas três delas têm menos de 6 anos.

A pensar na nossa história e na expressão ideal para falar sobre as expectativas que criamos e a ansiedade de viver o futuro hoje, dei com a crónica “O leite só ferve quando você sai de perto”. Porque tudo acontece quando menos esperamos…

“Em meados dos anos 80, lá em Minas, o costume era comprar leite na porta de casa, trazido pela carroça do leiteiro, que vinha gritando “Ó o lêeeeeite!!!”.

Minha mãe corria porta afora e o leite _ fresquinho, gorduroso e integral_ era despejado na leiteira para nosso consumo. Porém, era um leite impuro, não pasteurizado, e necessitava ser fervido antes de consumir.

No início, minha mãe tinha um ritual no mínimo interessante para esse evento: Colocava o leite na fervura e saía de perto. Literalmente esquecia. Simplesmente I.g.n.o.r.a.v.a.

É claro que o leite fervia, subia canecão acima e despencava fogão abaixo. Eu era criança, e quando via a conclusão do projeto, gritava: “Mãe!!! O leite ferveu!!! Tá secaaaannndo…” e ela vinha correndo, apavorada, soltando frases do tipo “Seja tudo pelo amor de Deus…” e desandava a limpar o fogão, o canecão, e ver o que sobrou do leite_ pra tudo se repetir no dia seguinte, tradicionalmente.

Até hoje não entendo o porquê desta técnica. Parecia combinado, tamanha precisão com que ocorria. Mais tarde, ela mudou de estratégia. Eu já era maiorzinha e podia ficar perto do fogo. Assim, ficava ao lado do fogão, de olho no leite esquentando_ pra desligar assim que a espuma subisse, impedindo que transbordasse. Foi assim que aprendi uma grande lição:

O leite só ferve quando você sai de perto.

Não adianta ficar sentada ao lado do fogão, fingir que não está ligando; até pegar um livro pra se distrair. É batata: ele não ferve. Parece existir um radar sinalizador capaz de dotar o leite de perspicácia e estratégia. Porque também não basta se afastar fingindo que não está nem aí. O leite percebe que é só uma estratégia. E só vai ferver ( e transbordar) se você esquecer DE FATO.

A vida gosta de surpresas e obedece à “lei do leite que transborda”: Aquilo que você espera acontecer não vai acontecer enquanto você continuar esperando.

Antigamente o sofrimento era ficar em casa aguardando o telefone tocar. Não tocava. Então, pra disfarçar, a gente saía, fingia que não estava nem aí (no fundo estava), até deixava alguém de plantão. Também não tocava. Porém, quando realmente nos desligávamos, a coisa fluía, o leite fervia, a vida caminhava.

Hoje, ninguém fica em casa por um telefonema, mas piorou. Tem email, msn, facebook, whatsApp, e por aí vai. O celular sempre à mão, a neurose andando com você pra todo canto. E o leite não ferve…

Acontece também de você se esmerar na aparência com esperança de esbarrar no grande amor, na fulana que te desprezou, no canalha que te quer como amiga. Então ajeita o cabelo, dá um jeito pra maquiagem parecer linda e casual, capricha no perfume… e com isso faz as chances de encontrá-lo(a) na esquina despencarem. Esqueça baby. O grande amor, a fulaninha ou o canalha estão predestinados a cruzarem seu caminho nos dias de cabelo ruim, roupa esquisita e vegetal no cantinho do sorriso.

Do mesmo modo, se quiser engravidar, pare de desejar. Não contabilize seu período fértil e desista de armar estratégias pro destino. Continue praticando esportes radicais, indo à balada, correndo maratonas. Na hora que ignorar de verdade, dará positivo.

A vida _como o leite_ não está nem aí pra sua pressa, pro seu momento, pra sua decisão. Por isso você tem que aprender a confiar. A relaxar. A tolerar as demoras. A não criar expectativas. A fazer como minha mãe: I.g.n.o.r.a.r…

E lembre-se: Tem gente que prefere ser lagarta a borboleta. Sem paciência com os ciclos, destrói seu casulo antes do tempo e não aprende a voar…” – Fabíola Simões – instagram@asomadetodososafetos

imagem@tumbrl

 

 

Todos os dias de manhã, acordo com dores de barriga e vómitos e o médico disse que não tenho nenhuma doença. Nas férias fico bem.

Estou sempre a pensar que a minha mãe não me vai buscar à escola porque pode ter um acidente de carro. Parece que estou sempre preocupada.

Sempre que tenho que ler em voz alta na turma, fico a tremer, com a cara vermelha e o coração a bater depressa. Não sei o que se passa.

À noite, dou voltas e mais voltas na cama, sem conseguir parar de pensar no que se vai passar nos próximos dias. Não consigo dormir. Fico com a sensação que tudo pode correr mal.

Estas são algumas partilhas de crianças e jovens que acompanho nas minhas consultas. Os pedidos de ajuda são variados e surgem por diferentes motivos mas, frequentemente, têm algo em comum: a “D. Ansiedade” a tentar fazer estragos.

Pois é, ansiedade e crianças são duas palavras que parecem não encaixar. A verdade, contudo, é que a ansiedade existe em todos os seres humanos, podendo manifestar-se desde tenra idade.

Vamos lá, então, conhecer a D. Ansiedade!

A ansiedade é frequente.  Existem alturas em que todos nós nos sentimos preocupados, ansiosos, chateados ou stressados.

A ansiedade é uma emoção como qualquer outra. Tem uma função. Ajuda-nos a lidar com a dificuldade, bem como com situações desafiantes ou perigosas.

Mas, a ansiedade às vezes pode transformar-se num problema, sendo muito chata para as crianças. Quando interfere no quotidiano, não permitindo que a criança experiencie a sua vida como habitual, por afectar as suas relações na escola e na família, as suas amizades e a sua vida social.

E quando a D. Ansiedade decide começar a fazer estragos, fazendo com que a criança se sinta contantemente insegura, sem saber o que fazer, é fundamental intervir e ajudar a criança a ultrapassar as suas dificuldades.

O que nos faz sentir, no corpo, a D. Ansiedade?

Quando nos sentimos ansiosos, o nosso corpo prepara-se para reagir. Ele tem de tomar uma decisão para depois se poder sentir melhor. Enquanto o corpo se prepara podemos reparar em diferentes mudanças físicas, tais como:

  • dificuldade em respirar,
  • aperto na barriga,
  • tonturas,
  • coração a bater depressa,
  • dores musculares, principalmente na cabeça e pescoço,
  • tremores,
  • suores,
  • boca seca,
  • enjoos…

Lembraste de mais algum?

Nas crianças, a D. Ansiedade resolve aparecer em situações como:

  • um teste de avaliação,
  • falar com alguém de quem não se gosta muito,
  • ter de ir a um local novo,
  • falar para uma plateia,
  • ter de fazer algo que parece assustador…

Certamente recordarás mais situações. Verdade?

Quando o acontecimento desagradável termina, ou quando percebemos que foi um “falso alarme” e nada havia a temer, o nosso corpo acalma, voltando ao seu estado habitual, o que nos faz sentir gradualmente melhor.

Então e a D. Ansiedade fala?

Sim. Fazendo-nos pensar certas coisas. Por vezes, pode não existir uma razão óbvia para nos sentirmos ansiosos. Noutros momentos, a causa da ansiedade associa-se ao modo como pensamos sobre as coisas.

Podemos pensar que…

  • algo vai correr mal,
  • vamos fracassar,
  • todas as pessoas estão a reparar em nós,
  • não conseguiremos lidar com determinada situação.

E a D. Ansiedade pode “obrigar-nos” a fazer coisas?

A ansiedade é desagradável e por esse motivo  procuramos encontrar formas para nos sentirmos melhor. Nesse sentido, podemos acabar por evitar as situações temidas. Podemos acabar por parar de fazer coisas que nos causam desconforto e preocupação. Quanto mais evitamos as situações temidas, menos fazemos e mais dificil se torna enfrentar os medos e ultrapassar as preocupações. Por esse motivo, ficares fechado numa carapaça como a tartaruga em nada te ajudará…

Um Psicólogo pode ajudar?

Aquilo que sentimos e aquilo que fazemos relaciona-se com o que pensamos.

Sabe-se que muitos problemas de ansiedade estão relacionados com a forma como pensamos. Como podemos alterar a forma de pensar, podemos aprender a lidar com a ansiedade.

  • Pensar mais positivamente pode ajudar a sentirmo-nos melhor.
  • Pensar mais negativamente pode-nos fazer sentir com medo, tristes, tensos, zangados ou desconfortáveis.

Compreender os nossos pensamentos é importante. Quando uma criança está ansiosa tende a:

  • pensar de forma negativa e crítica,
  • sobrestimar a probabilidade de ocorrência de acontecimentos negativos,
  • focar-se no que corre mal,
  • subestimar a sua capacidade para lidar com as situações,
  • esperar fracassar.

Em terapia, os psicólogos, ajudam as crianças a:

  • identificar formas negativas e inimigas de pensar,
  • descobrir a relação entre aquilo que pensam, como se sentem e aquilo que fazem,
  • procurar provas que sustentem, ou não, os seus pensamentos,
  • desenvolver novas competências para lidar com a ansiedade.

Como podem os adultos ajudar?

Bem, há algumas dicas…

  • Pede que modelem formas de tentar lidar com as situações ansiogénicas para tentares usar as mesmas estratégias.
  • Lembra-os que não estás a agir dessa forma por malandrice. Precisas de ajuda, porque te sentes assustado
  • Pede-lhes que sejam pacientes contigo e que te encorajem.
  • Pede-lhes que conversem contigo sobre as tuas preocupações porque isso te dá mais confiança e segurança.

Adeus D. Ansiedade…

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