“Todos começamos esta viagem, cheios de sonhos, de esperança e de amor. Muito antes do mundo nos ensinar o medo temos momentos puros. Momentos em que os ratos são mais espertos que grufalos, vacas conseguem saltar luas e os gatos vivem em chapéus.” – Eric Christian Olsen

Todos nós nascemos livres. Seres cristalinos. Seres de amor. Puros. Com uma marca própria, uma assinatura única a deixar no mundo.

Depois, o ambiente que nos acolhe, os lugares onde nos movimentamos, as respostas que vamos recebendo às nossas necessidades e as nossas próprias vivências, vão marcando profundamente as fundações da nossa existência e conduzindo a nossa jornada.

O início da nossa viagem como pais não é muito diferente.

Antes de sermos pais, temos uma visão incrivelmente deslumbrante dos pais que vamos ser. Calmos. Pacientes. Controlados. Sábios.

E de repente… BOOM. Somos esmagadoramente abalroados pelo despertador da realidade.

Quando somos pais, é fácil sentirmo-nos arrebatados. Triturados pelo medo. Ofuscados pela rotina. Confusos pela incerteza. Desgastados pelas noites sem dormir. Alérgicos com o chão por aspirar. De cabelos em pé com os brinquedos espalhados. Descompensados pelos Himalaias de roupa suja para lavar.

Porque que é que a roupa não se lava sozinha? Porque é que a minha filha não pára de chorar? Porque é que não come? Porque é que não dorme? Porque é que não se veste sozinha? Mas não estava tudo bem agora mesmo? O que é que se passa?????

Comecei a aperceber-me recentemente que sermos pais é assim como uma longa e surpreendente travessia de mota. E consoante a nossa condução, assim as duas rodas nos vão respondendo. Consoante o estado da mota que conduzimos e as condições do terreno e do tempo, assim a nossa viagem por entre os desertos e os vales, as planícies e as encostas vai exigindo uma adaptação na nossa condução. Pode estar chuva. Pode estar sol. E quando chove, podemos sempre decidir se queremos levar o fato de chuva, se queremos seguir caminho ou se paramos um pouco, à espera que a chuva passe. Ou se avançamos mesmo assim e aproveitamos a ventura.

Apesar da nossa visão antes de sermos pais possa contrastar ofuscantemente com a realidade, no segundo em que escutamos, no momento em que prestamos atenção, em que nos conseguimos sintonizar com o grande esquema das coisas, conseguimos recordar o início da viagem. Sintonizar com a nossa visão. Com o nosso sonho.

E aí estamos prontos para dar um novo passo e reconectarmo-nos com o nosso ponto de partida.

Por vezes, encontramo-nos a navegar uma estrada oleosa, esburacada, cheia de curvas e contracurvas. Em rota descendente com curvas bem apertadas. Umas a seguir às outras. De repente, a gravilha no caminho parece ameaçar a resistência da nossa condução. O óleo da estrada ameaça fazer-nos tombar na próxima volta. Literalmente.

E os sonhos, a esperança e o amor que orientaram a visão inicial da nossa viagem parecem ser colocados à prova. Momento sim, momento sim.

Maya Angelou dizia que quando sabes melhor fazes melhor. Com conhecimento adequado, podemos mesmo tornar-nos pais calmos. Mesmo quando estamos exaustos. Fora de nós. À beira de um ataque de nervos.

Por vezes damos por nós a ouvir a voz – uma ou mais vozes –  tão longe no tempo, mas tão perto agora a ressoar dentro dos nossos ouvidos.

Damos por nós, aniquilados pela pressão, pelo stress, pelos eventos da vida, a fazer exactamente as mesmas coisas que sempre criticámos, a dizer aquilo que sempre detestámos e que jurámos a pés juntos que nunca iríamos fazer.  Ficamos mal. Estamos a dar o nosso melhor com o que temos, mas cá dentro sabemos que podemos fazer melhor. Queremos fazer melhor.

A nossa intenção é a melhor. No entanto, parece que, por mais que queiramos, no momento, não conseguimos fazer de outra forma. E é na fragilidade, na vulnerabilidade, que o nosso piloto automático fica no comando. Apesar dele nos despertar aquilo que sabemos já não se coadunar com aquilo que queremos fazer, acontece. O piloto automático fica no comando. Recorremos ao que conhecemos. Ao nosso próprio padrão interno. Que na grande maioria das vezes é fundado no nosso estado de não- consciência.

Então, procuramos culpados, culpamo-nos a nós próprios. Sentimo-nos incapazes. Um falhanço. Ficamos zangados, frustrados.

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Ama os teus filhos todos os dias

Todos os pais amam os seus filhos à sua maneira. Todos eles se questionam se o estão a fazer da forma correta. Será que existe uma fórmula, uma dose correta de amor que devemos dar aos nossos filhos? Não existe nenhuma fórmula nem dose correta. Nunca criança alguma ficou doente ou morreu por excesso de amor.

Os pais apaixonam-se pelo filho no momento em que o idealizam, em que sonham com ele. Esse amor vai crescendo, conforme a gravidez avança. Após o nascimento, quando conhecem o rosto, quando pegam no seu filho parece que este amor, que já era tão grande, ainda fica maior. Com o choro do bebé chegam as primeiras angústias, pois os pais ainda não conhecem bem esta linguagem, não sabem o que fazer. Questionam o que estão a fazer bem e o que estão a fazer mal. Não fique preso ao que lhe dizem ser o correto, simplesmente, siga o seu coração e ame o seu filho. Não o deixe chorar para “ele aprender”, pois nos primeiros meses os pais são os que dão voz ao que ele precisa. O bebé por vezes chora só porque não quer estar sozinho, quem gosta de estar sozinho? Afinal ele passou 9 meses sempre acompanhado… E amar o seu filho não quer dizer que tem de fazer tudo perfeito. Esse desejo da perfeição poderá levar a estados de ansiedade, que poderá passar para ele e para a vossa relação. Como Winnicot refere, uma mãe tem de ser apenas suficientemente boa.

A mãe suficientemente boa e que ama o seu filho, sabe que amar também é saber dizer não. Mas amar é acalmar as birras do seu filho, aceitar as asneiras e os seus erros. Não é dar tudo o que o ele quer, é não dizer sim a tudo o que ele diz ou pede. Amar é estar sempre ao seu lado e aceitá-lo, é abraça-lo e dizer-lhe todos os dias o quanto o ama. Os filhos aprendem mais com amor do que com castigos. Um abraço, uma conversa, um “amo-te meu filho” é muito do que precisa para crescer. A coisa mais importante, o “brinquedo” mais importante para as crianças é o tempo que os seus pais passam com elas a brincar. Não há brinquedo nenhum no mundo que uma criança pequena trocasse por brincadeira com os pais.

Amar é também aceitar que o seu filho é um ser que tem de crescer e voar, é deixa-lo crescer, por muito difícil que seja aceitar que ele já não precisa “tanto” de si. Porque lá no fundo os filhos precisam sempre dos pais, eles são sempre os seus portos de abrigos.

Ama os teus filhos todos os dias.

Por Joana Duarte, psicóloga

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Antes dos filhos

Muitos de nós, antes de termos filhos, criamos na nossa cabeça “um filme” sobre como irá ser. Com frequência o filme é maravilhoso, é uma sucessão de momentos felizes em que tudo corre bem. Imaginamo-nos a não fazer os erros que os nossos pais fizeram connosco, a evitar todo o tipo de sofrimento aos nossos filhos, a ser o seu porto seguro em todos os momentos de crise, às vezes até imaginamos que a relação com o nosso companheiro(a) vai ficar perfeita porque não é possível que uma mudança destas não provoque perfeição e uma vida de sonho.

Antes de sermos pais imaginamos a sensação de embevecimento quando o bebé nasce e de enamoramento que sentiremos, como reagiremos bem, tranquila e pacificamente a cada solicitação e acontecimento inesperado.

Quando não sentimos

Depois chega o dia e o bebé nasce e para alguns pais chega a surpresa de o que sentem por aquele ser por quem ansiaram 9 meses não ser o que esperaram, não se sentem enamorados, não sentem o amor gigante e universal que ouviram relatar e idealizaram. Ficam desconcertados, questionam o que se passa com eles. A maioria vive este momento sozinha por vergonha de partilhar que o que sente pelo seu filho não é o que uma mãe ou pai deve sentir, não sabendo que tantos outros pais antes deles e tantos outros depois deles sentem este desconforto, esta sensação desconcertante… Na realidade, está tudo bem. Soubessem eles que para alguns o enamoramento surge depois, que o amor incondicional surge depois e que ao aceitarmos o que está a acontecer com compaixão por nós mesmos estamos a abrir as portas que o nosso coração precisa de abrir para na sua plenitude ter acesso à emoção de ser pai ou mãe.

Idealização vs Realidade

A idealização que fazemos de todas as fases do crescimento dos nossos filhos levam-nos a uma sensação de desconforto quando somos confrontados com uma realidade para a qual não estamos preparados e para a qual não deviamos ter criado expectativas. As crianças são todas diferentes e muitos de nós não estão preparados para enfrentar com tranquilidade a realidade que surge diferente do imaginado e muitas vezes ansiado.

O primeiro passo para uma caminhada feliz na parentalidade é aceitar que a realidade surge como surge e que esse facto é uma característica intrínseca à existência humana, nada mais. Não existe um manual de instruções que podemos consultar para depois escolher de um catálogo determinada emoção ou comportamento, nem uma secção que tipifique os desafios e que sugira soluções. Muitos pais sentem-se perdidos por não terem previsto o filme das suas vidas com aquelas cores, naqueles cenários, sem intervalo para descanso e isto acontece porque gastam muita energia a idealizar filmes perfeitos em vez de se focarem no que está a acontecer.

Quando estamos a criar expectativas em relação à realidade, nomeadamente, ao comportamento dos nossos filhos é quase como se estivéssemos a criar “a” realidade certa que muito provavelmente não irá acontecer e a cimentar em nós a ideia de que o que acontece não está correcto pois é diferente do que concebemos como “certo”.

A feliz caminhada da parentalidade

Nesta caminhada de ser pai e mãe é muito importante que activemos o modo detective em vez do modo lamentação (os meus filhos não se sabem comportar ou não sou uma mãe ou pai perfeito). Quando activamos o modo detective ficamos curiosos sobre o que está a acontecer, procuramos a origem, a necessidade que está por detrás do comportamento e ao compreender a realidade podemos fazer escolhas que promovem a felicidade, nossa e da nossa família.

Todos os nossos comportamentos, todos os comportamentos dos nossos filhos são a expressão de uma necessidade e quando a compreendemos podemos escolher como lidar com ela de modo a que o que acontece seja o melhor possível para a nossa família.

Quantas vezes perante uma criança cheia de energia os pais desejavam ter um filho que correspondesse à expectativa que criaram, ao modelo que criaram e tentam por todas as vias que conhecem que eles tenham o comportamento desejado. O resultado é, na maioria das vezes, o oposto. Se o comportamento é uma expressão de uma necessidade, então é comunicação e se a resposta que damos não tem a ver com o que se está a passar não podemos ter sucesso na comunicação.

Como podemos fazer?

Bem, a forma mais simples é aprender ferramentas que nos permitam compreender a realidade, que nos permitam ser bons detectives de nós e dos nossos filhos e, que ao nos possibilitarem compreender qual a necessidade por detrás do comportamento, nos permitam criar alternativas de resposta.

Podemos aprender novas formas de comunicar connosco e com os outros. Podemos aprender a fazer menos “filmes” sobre o que vai acontecer na nossa vida, criando espaço para viver de forma mais descontraída e feliz o que na realidade acontece em cada momento, seja a birra de uma criança ou o comportamento de isolamento de um adolescente.

Maria José Pita, coach e facilitadora de Parentalidade Consciente

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Não senti.

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Se há coisa com que (quase) todas as mães concordam é que a chegada de um filho muda muita coisa. Eu diria que muda tudo, porque começa por nos mudar, a nossa forma de estar pensar e de viver a vida.

E com isto não são poucas as coisas que mudaram lá em casa.

Porque sou daquelas mães que não troca a brincadeira por nenhum afazer… Nenhuma tarefa me rouba tempo que a ele lhe pertence.

Por toda a casa há um constante rasto de migalhas. Migalhas de variadíssimos ingredientes, mas as migalhas fazem parte do chão. Os cantos, estão todos por aspirar e não me lembro quando foi a última vez que desviei meia dúzia de móveis para aspirar. Calculo que seja por detrás desses móveis que repousem as peças e bonecos desaparecidos em combate.

A roupa, já não está organizada nem tão pouco consigo que haja um único dia em que esteja toda lavada e passada. Isso para mim é um mito.

Os brinquedos, não têm sítio certo. Quer dizer, até têm mas esses sítios são um pouco por toda a casa, e ainda assim acabam sempre espalhados e longe dos seus locais de arrumo.

Objectos de decoração são mera recordação porque os que existiam e sobreviveram às quedas foram simplesmente removidos e guardados para outros tempos, quando me rendi e passei a decorar a sala com carrinhos e comboios, pistas e jogos.

No sofá apenas repousam mantas. Mantas e mantinhas, azuis e fofinhas, desde a manta onde ele brinca no chão àquela que o aconchega antes de dormir. Pessoas raramente passam por ali, visto que é o chão onde brincamos todos juntos ao serão.

Os armários da casa de banho estão trancados e nem eu os consigo abrir. Tenho direito a 2 ou 3 artigos, pousados numa prateleira alta e raro é o dia em que o rolo do papel não é desembrulhado pelo chão a fora ao som de gargalhadas doces e sinceras.

As camas nem sempre se fazem. Nas camas pula-se, enroscamo-nos, damos mimos e fazemos brincadeiras parvas ao fim de semana de manhã.

Na cozinha há sempre loiça por lavar, mas nunca sopa por fazer. O frigorífico e os armários enchem-se de frutas e legumes, iogurtes e uma outra guloseima para um dia que apeteca. As tampas das panelas dançam pelo chão com as cebolas e batatas.

O silêncio nunca mais por lá passou. Lá em casa há sempre barulho… Há coisas a cair e a bater, há gritinhos estridentes e gargalhadas irresistíveis. Há movimento, há vida, há calor e aconchego. Há felicidade no ar…

Tudo isto não era assim até há pouco tempo atrás. Tudo isto mudou e instalou-se na minha vida para ficar. E se vos parece uma enorme barafunda… garanto-vos, não há barafunda que valha mais a pena!

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A casa é a primeira escola e os pais são os primeiros professores

Esta máxima é o mote do movimento Slow Parenting, que já falamos anteriormente.

O processo de aprendizagem de uma criança durante a primeira infância, é inacreditavelmente rápido, e muitas vezes subvalorizado. A criança até aos 3 anos apresenta capacidade para pensar sobre o mundo e sobre si mesma através da interação que vai estabelecendo com as pessoas e objetos. A observação, repetição, imitação e a experimentação permitem à criança situar-se perante si própria e perante os outros.

Cada momento de cada dia é uma experiência de aprendizagem.

A “casa” representa um lugar de reunião, estável, confortável e onde há amor tornando-se num local seguro. A composição da família, o número de brinquedos, a localização ou número de quartos, não define uma casa.
Tal como um jardim, uma casa deve ser assistida, apreciada, nutrida e respeitada para prosperar. É o cenário para do crescimento físico, mental, emocional e espiritual de um indivíduo, e se houver respeito e amor incondicional, esta casa será uma âncora para os filhos. A casa é a essência daquilo que queremos ser e do que queremos que os nossos filhos sejam.

A casa é a primeira sala de aula – não só no sentido académico – mas como um trampolim para o mundo.

Como nos tratamos uns aos outros, talvez seja a lição de vida mais importante que aprendemos em casa.
Somos educados uns com os outros? Respeitamo-nos? Demonstramos emoções? Honramos a privacidade?  Revezamo-nos? Assumimos as tarefas domésticas?

Resumidamente: podemos contar a nossa história honestamente e sem receio de julgamentos?

Em casa, os nossos filhos aprenderão a resolver problemas, desenvolverão a leitura e até as habilidades matemáticas apenas através da experiência vivida com a família. A aprendizagem com base no amor será adquirida num ambiente calmo e estável, onde se conversa, se brinca, se lêem histórias (muitas) e se fazem vozes de personagens em família.

 “É impossível ter-se livros a mais”

Com a tendência crescente para o consumismo tecnológico, receio que muitas crianças cresçam sem a compreensão e respeito de experimentar palavras escritas.
A alegria de manter um livro, virar as páginas com antecipação, procurar um marcador perfeito, e ler em voz alta é um dos maiores presentes que podes dar aos teus filhos.

É imprescindível que arranjemos tempo para ler com os nossos filhos diariamente. Que os incentivemos a ler por conta própria. Há que parar e arranjar tempo. Quando deixam de dormir a sesta, esse tempo é perfeito para ficarmos no quarto com uma pilha de livros, e que os ensinemos relaxar enquanto expandem o seu vocabulário e estimulam a imaginação.

Esta prática também os ensina a apreciar o silêncio e a sentirem-se feliz consigo próprios – outra componente tão importante.

Histórias de encantar, aventuras, poesias tontas e lengalengas irão evoluir para coleções por capítulos que ocuparão a estante conforme os nossos filhos crescem.

É mais fácil dar à criança um entretenimento visual para passar o tempo, mas queremos mesmo que o caminho seja “passar tempo”? Tentemos que os livros se tornem na melhor ferramenta para os ajudar a “passar tempo”!

Se a casa é a primeira escola, então, os pais são obviamente os primeiros professores.

As tuas amizades e a forma como comunicas influenciarão directamente a forma como o teu filho irá relacionar-se na vida. A educação, respeito, a ética, o amor-próprio, o viver em comunidade são lições de vida que aprenderá contigo. Não fiques à espera que o mundo exterior faça esse trabalho por ti. Se assumires que a escola se irá encarregar disso, então já esperaste muito tempo. Essa é a tua responsabilidade desde o primeiro dia de vida do teu filho.

Parentalidade Consciente e Slow Parenting

A parentalidade não é sobre como criar o filho perfeito e idílico. Nem deve procurar resultados, mas sim experienciar o caminho. Por mais que queiramos acreditar que com determinação e trabalho duro conseguimos controlar tudo, a vida é muito mais complexa que isso, e certamente os nossos filhos terão de lidar com imprevistos. Se tens a capacidade de te adaptar positivamente a situações adversas, também o teu filho herdará essa característica. A isso se chama resiliência.

A parentalidade consciente pressupõe que se faça pausas, que se estude a envolvente e se façam escolhas com base no que consideramos ser o melhor para os filhos, mantendo-nos íntegros e fieis aos nossos valores.

Não será fácil, nem será óbvio, mas se estiveres confiante dos teus valores, um dia que tenhas de fazer essas escolhas, instintivamente saberás qual é o melhor caminho.

Aprender a confiar nos teus instintos e libertares-te das dúvidas é o primeiro passo para a parentalidade consciente.

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Os nossos filhos não são depósitos dos nossos sonhos

Muitos vezes, consciente ou inconscientemente, ansiamos que os nossos filhos se tornem na pessoa que desejávamos ser. Contamos que sigam aquele curso que gostaríamos de ter feito e acabamos por transferir-lhes a responsabilidade de viver tudo aquilo não fizemos.

Os filhos são o nosso legado, a perpetuação de quem fomos. Através deles permanecerá a continuidade de nossa existência e do nosso amor que recordarão para sempre. São os nossos bens mais preciosos, a razão de nosso viver, o combustível que nos dá forças diariamente, o amor incondicional e verdadeiro.

É natural querermos sempre o melhor para eles e termos orgulho do que são, das suas conquistas, da pessoa em que aos poucos se vão tornando.

No entanto, tendemos, muitas vezes, a concentrar-nos excessivamente nas suas vidas parando de prestar atenção a nós próprios, no que somos para além deles. Assim, acabamos por projetar nos filhos tudo o que é nosso: os nossos sonhos, projetos, e as nossas vontades.

Criamos expectativas em relação a eles que, no fundo, são expectativas em relação a nós. Esperamos que os filhos se tornem alguém que nós queríamos ter sido; desejamos que tirem o curso que gostaríamos de ter tirado. Transferimos aos filhos a responsabilidade de viver o que nós não vivemos.

Não é fácil confrontarmo-nos com as nossas desistências quer tenha sido por falta de coragem ou força de vontade, por falta de dinheiro, ou porque os nossos pais na altura não nos deixaram seguir um sonho. Enfrentar o que não se disse, que não se viveu ou não se realizou.

Como não queremos que nossos filhos sintam o gosto amargo dos arrependimentos que nos assombram, sem querer, acabamos por extrapolar os limites de uma orientação sadia, impondo-lhes escolhas que lhes cabem apenas a eles.

Para muitos de nós, é quase impossível resignarmo-nos com o fato de que a vida é dos filhos, os sonhos são deles, os erros – incontestavelmente imprescindíveis – serão também deles.

Os nossos filhos são pessoas que pensam, agem e vivem de forma autónoma. Que têm os seus próprios desejos e sonhos. Carregam as verdades que construíram de acordo com o que sentem, com a forma como lidam com o mundo à sua volta e não seguirão, obrigatoriamente, caminhos iguais aos nossos

Lançar-se-ão ao mundo, desfrutarão as alegrias, enfrentarão os dissabores, entregar-se-ão às paixões, munidos de toda bagagem emocional acumulada à maneira deles e, por mais que não se perceba, haverá sempre muito do pai e da mãe dentro deles.

É natural preocuparmo-nos com as escolhas dos nossos filhos. A experiência permite-nos antever as consequências futuras dessas decisões, e por isso, muitas vezes encaramos as suas escolhas de forma negativa. Não é fácil, por exemplo, vermos os filhos a optarem por profissões sem saída profissional, a apaixonarem-se por quem não nos agrada, ou até a vestirem-se de formas tão alternativas que chocam.

Nesses momentos, cabe aos pais perceberem se eles estão confortáveis e felizes com a sua escolha e se não estão a prejudicar ninguém. Se não estão a cometer nenhum crime ou ilegalidade, a comprometer a ética e os bons costumes, se não vão por caminhos autodestrutivos, então temos de deixá-los viver com as escolhas que fizeram – por mais que isso doa.

Quanto mais vivermos a vida dos nossos filhos, menos estaremos preparados para vê-los crescer e tornarem-se independentes. É natural e saudável orgulharmo-nos das conquistas e da pessoa que os filhos se tornaram, no entanto, pais que dependem disso para a satisfação pessoal estarão irremediavelmente fadados a sucessivas quebras de expectativas.

Pautar a própria vida pelas medalhas, diplomas, desempenho escolar e troféus dos filhos é despedir-se aos poucos de si mesmo, é fugir ao autoconhecimento, que deve ser diário e que depende de olhar para si próprio como alguém que pensa, age e possui vontades e anseios só seus, intransferíveis. Depositar os nossos sonhos na vida dos nossos filhos, para exibi-los como prémios é injusto, pois retira-lhes o direito de serem o que são, de respirarem o próprio viver.

Na verdade não existem regras, manuais ou instruções sobre como criar os filhos, até principalmente porque todas as pessoas são únicas. De outra forma, irmãos criados pelos mesmos pais seguiriam o mesmo caminho, fariam as mesmas escolhas, o que não acontece nem sequer com irmãos gémeos.

Saber ponderar e distinguir orientação de imposição ao lidar com os nossos filhos é uma tarefa árdua, mas imprescindível para que consigamos vê-los crescer, procurando a felicidade e lutando com segurança contra os reveses da vida.

Tudo o que fizemos pelos nossos filhos estará sempre com eles, guardado para ser usado na altura certa, com a sabedoria de que permitimos que se desenvolvessem através dos nossos exemplos de vida.

Inegavelmente, sentiremos sempre orgulho deles, porque iremos rever-nos nos seus olhos e teremos a certeza de que jamais morreremos nas suas memórias.

Por Marcel Camargo, publicado em A soma de todos os afetos, adaptado por Up To Kids®

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Tips For Parents 4 | Autonomia

A cidade de Lisboa está em obras. Para onde quer que olhemos há máquinas a trabalhar, ruas fechadas ao trânsito, carros obrigados a estacionar em cima do passeio.

Há o projecto de fazer circular menos carros pela cidade, dando mais espaço às pessoas. Os passeios estão mais largos (tão largos que a maior parte das ruas quase perdeu uma faixa de circulação) e a estrada mais estreita. Pretende-se que haja mais espaço para as pessoas disfrutarem dos seus dias, em lazer, seja com os miúdos a andarem de skate, patins ou bicicleta, seja na criação de novas esplanadas e locais de convívio.

Poderia perder-me na discussão se faz sentido começar por aí ou criar condições para as pessoas deixarem os carros nas garagens, tendo nós os nossos transportes públicos como sabemos, mas não é sobre isso que aqui escrevo hoje.

Escrevo sobre dar-se prioridade a criar uma cidade para as pessoas, tendo nós um país onde as pessoas têm pouco tempo livre na sua semana. Já para não falar no tempo disponível para estar com os filhos. Estamos na cauda da europa no que diz respeito à produtividade, mesmo sendo dos que mais horas trabalhamos (porque, como é e deveria ser óbvio para todos mais horas não significa mais trabalho realizado).

Não precisamos de passeios largos, precisamos de mais tempo com as nossas crianças!

A maior parte dos pais consegue chegar perto dos filhos por volta das 19h00. Depois é chegar a casa, tratar dos trabalhos de casa (se ainda não tiverem sido feitos), tomar banho, jantar e deitar. Sempre me deu um aperto no coração esta lufa lufa da agitação dos “crescidos” em oposição às crianças. Temos crianças para pagarmos aos outros para que tomem conta delas e essa é a realidade de tantas famílias que juro que me custa mesmo muito. Há uma grande percentagem de avós que faz o papel de pais: vai buscar à escola, dá lanche, acompanha, brinca, dá banho e jantar e às vezes até deita os miúdos. Sei que para muitos pais não há uma alternativa, mas sou apologista da redução da carga horária de trabalho para que as famílias se possam ver crescer.

Porque adultos realizados pessoalmente terão um reflexo dessa felicidade, harmonia e equilíbrio no seu desempenho profissional. Não serão todos, mas os números sofreriam uma grande melhoria se assim fosse. Sou eu que o digo, não é nenhum estudo encomendado.

Claro que para todas as regras haverá excepções, tal como há pais que nas suas férias optam por deixar os filhos na escola, aqueles que saem a horas mais interessantes e escolhem não ir directamente ter com os filhos, aquelas mães que usufruem do horário reduzido por estarem a amamentar mas só vêem os filhos duas horas depois. Não critico ninguém, cada um saberá o que é melhor para si, o que funciona melhor, mas todos deveriam poder sair ainda de dia dos seus trabalhos.

Ir buscar os filhos à escola sem ter de pagar uma taxa adicional por causa do prolongamento. E isso ajudaria também as pessoas que tomam conta dos nossos filhos, e que tantas vezes deixam os seus postos de trabalho depois das 19h30, a chegarem elas mesmas mais cedo a casa. Para perto dos seus filhos. De que outros tomam conta.

É perverso tudo isto e talvez eu seja uma idealista, mas acredito que caminhamos para um futuro mais justo e igualitário, em que as pessoas não são obrigadas a permanecer nos seus postos de trabalho depois de terminarem as suas tarefas apenas para picarem o ponto.

As nossas crianças merecem o melhor de nós.

E o melhor de nós acontece quando sentimos que somos valorizados e respeitados, e para isso também tem influência o que fazemos.

Se chegarmos menos cansados a casa seremos mais pacientes, mais disponíveis. Seremos, quem sabe, melhores pais.

Este é o meu verdadeiro desejo para o próximo semestre de 2017: que os pais possam passar mais tempo de qualidade com os seus filhos sem sofrerem consequências a nível profissional.

Tempo de amor.

De brincadeiras.

De estar perto, só porque podemos.

De os observarmos ao longe e descobrirmos neles coisas que nos foram escapando.

De os ouvirmos sem ser a realizar outras tarefas pelo meio.

Tempo de sermos família.

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Tips For Parents 6 | Tempo de Qualidade

Dar Qualidade à Quantidade de tempo

O tempo que não temos; e o tempo que temos

Comecei a seguir um grupo sobre Parentalidade Minimalista, onde esperava encontrar tópicos tais como ensinar gratidão ao filhos, contornar o consumismo desde antes de eles nascerem, ou até sobre manter a casa mais “clean”! E havia de facto muitas sugestões sobre brinquedos rotativos dentro e fora do parque, comprar roupas e equipamentos da moda, ou até pedir aos familiares que contribuam para as suas contas bancárias nos aniversários em vez de oferecer mais brinquedos de plástico.

Mas depois comecei a aperceber-me que, tal como em todas as discussões que envolvem a maternidade, havia uma estranha presunção e critica nas respostas quando alguém perguntou:

“Quais os itens de bebé que realmente não são necessários para um bebé?”

“Um contentor de fraldas.” – Verdade, as recargas são caras e um caixote normal com sacos individuais resolve perfeitamente a questão.

“Fraldário” – Claro que podemos mudar as fraldas no chão, em cima da cama, numa cómoda, ou até no carro se for preciso.

“Roupas novas”. – Definitivamente. Os bebés crescem tão rápido e babam-se tanto obrigando a ter várias mudas, que faz todo o sentido que se poupe o máximo na compra das roupas.

Um berço. Nós somos apologistas do co-sleeping porque amamos o nosso filho.” Hummm, pois, eu também amo os meu filho, mas o co-sleeping não funciona connosco. Passamos a dormir todos melhor quando o mudamos para o seu quarto.

“Não precisas de um carrinho de bebé para nada. Nós usamos panos para a levar para todo o lado.” Pois, com o problema de costas que tenho, isso não é opção. E o nosso filho independente nunca gostou de ser embrulhado.

Um parque. Um baloiço. Uma cadeira Bumbo. Estas coisas não são mesmo necessárias para o teu filho.  Isso é o que a industria de artigos de puericultura quer que tu acredites. Tu deves ter sempre o teu filho contigo para que crie um vínculo afetivo e de segurança contigo” – Então quando é que eu devo/posso tomar banho? Ou comer? Ou ensiná-los que “a mãe já volta?

“Comida embalada para bebés. Faz um horta. Cultiva os teus próprios alimentos e faz as papas todas do teu bebé.” Eu tentei fazer a comida do meu bebé e ele sempre recusou. Preferiu embalada. Não fiz disso um campo de batalha.

“Mamas, tudo o que eles precisam é de mamar!” – Ok. Isso não é verdade de todo.

“Fraldas. Mesmo as fraldas de pano gastam muitos recursos a ser lavadas. Usa folhas de milho e começa o desfralde a partir do 1º dia”

(Ok. Este último é basicamente um exagero.)

Vindo de um grupo de pais criado para apoiar as famílias nas suas escolhas fugindo dos julgamentos alheios de outros mais fundamentalistas, senti que aqui não se podia perguntar nada sem que os restantes elementos impusessem as suas crenças como único caminho. Suponho que este tipo de insularidade e auto-congratulação aconteça em qualquer grupo de pessoas que se reúnam em torno de um interesse comum ou conjunto de crenças, por isso não vou estar aqui a atirar pedras aos telhados alheios.

Mas pergunto: quando é que o minimalismo e o anti-consumismo se tornaram um estatuto? E não estamos aqui a perder o fulcro da questão?

Calma.

Se sentes que precisas de pôr o teu bebé num baloiço para que adormeça, ou para poderes tomar um banho, ou até para não dares em louca, está tudo bem.

Se não quiseres amamentar de todo, ou se estás doente até à morte de tirar leite com a bomba no emprego, ou com dores horrorosas para conseguires tirar mais uma dose e escolheres dar suplemento, ele vai ficar bem.

Se precisas de ensinar o teu bebé a adormecer sozinho para que pares de te levantar várias vezes à noite e te sentires um ser humano funcional novamente, mesmo que ele chora um bocadinho (ou muito), ele vai ficar bem.

Se precisares de comprar uma bugiganga qualquer no supermercado para que esteja entretido as duas horas que lá estás enfiada, está tudo bem.

Se precisas de roupa do tamanho acima para o teu filho e tens um cartão presente de uma loja não-orgânica, não-bio, não-sustentável, não-zen e decides encomendar on-line, queimar algum combustível fóssil para que te entreguem em casa em vez de arrastares o teu circo para a loja de segunda mão, está tudo bem.

A industria fomenta o consumismo de artigos completamente desnecessários para os bebés? Provavelmente. Eu tento comprar em segunda mãe, e comprar o menos possível, obviamente. E acredito que todos nós poderíamos consumir (muito) menos e sermos mais conscientes do custo dos artigos de conveniência. Pratico o que prego todos os dias? Oh…!

Mas podemos de parar de agir como se a parentalidade tivesse de ser obrigatoriamente difícil para ser “real” ou “verdadeira”?

Usar um carrinho de bebé não me torna numa capitalista, vendida e sem consciência. O suplemento criado especificamente para bebés não é um veneno. A amamentação até pode ser melhor, mas dar suplemento não faz de mim uma zombie deprimida e capitalista.

Antes de me ter tornado mãe, há um ano atrás, eu disse a mim mesma que nenhuma decisão ou princípio relacionado com a maternidade me ia pôr louca (ou à minha família). E sai-me bem nesta decisão – não brilhante, mas tem corrido bem. Eu estava muito determinada em amamentar exclusivamente, mas sabes que mais? Foi uma experiencia traumatizante e negativa para mim. Fraldas de pano? Neste momento durmo descansada porque lhe posso por uma fralda descartável a noite toda e ele não acorda todo molhado e irritado desnecessariamente.

Fraldas descartáveis e muitas outras coisas que usamos para os nossos filhos, até podem ser um luxo, e sermos gratos ou negarmos o custo ambiental e humano da sua produção não os torna menos luxosos.

Mas sabes de que é que o teu bebé não precisa mesmo? Que te partas toda (mais ainda) para o criares. Por isso vá lá, arranja um aquecedor de biberões se o teu filho só bebe leite quente. Ou habitua-o a beber frio. De qualquer das formas ele vai ficar bem, e tu também.

Por Jennifer Fultz, publicado em Scary Mommy

imagem@istock

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5 coisas que os filhos nunca esquecerão sobre os pais

Todos os pais querem ter filhos maravilhosos. Querem que sejam afáveis enquanto crianças e quando crescerem, que se comportem como pessoas responsáveis e úteis para a sociedade. No entanto, os pais tendem a esforçar-se muito mais a pensar no futuro do que a semear bases no dia a dia. Há pais que acreditam que, enquanto crianças,  os filhos só devem obedecer e que a educação se baseia nisso.

O resultado é que temos cada vez mais crianças inconformadas e adultos infelizes. Quando não há critério para uma parentalidade consistente, lógica e estável, a probabilidade de que os filhos mostrem comportamentos rebeldes e/ou herméticos aumenta. Talvez caprichosos, talvez autoritários e, em todos os casos, instáveis. Acabam por não conseguir estabelecer um vínculo afetivo e próximo com os pais, pelo contrário, vivem em uma guerra indireta ou aberta com eles.

“O problema com a aprendizagem de ser pais é que os filhos são os professores.” -Robert Braul

Uma das partes mais importantes da nossa vida é exactamente a infância. É onde se constroem os alicerces de uma mente saudável e de um coração limpo. Desta forma, algumas atitudes dos pais deixam marcas para sempre. Por vezes positivas, por vezes negativas, mas na maioria das vezes profundas.

Aqui estão cinco destas condutas que os filhos dificilmente irão esquecer.

1. Maus-tratos

Nenhuma relação é perfeita e muito menos uma tão intensa como a entre pais e filhos. Haverá sempre momentos de contradição ou de conflito, o que é perfeitamente normal. O que muda é a maneira de superar essas dificuldades e, lamentavelmente, muitos pais assumem erroneamente que os maus-tratos são uma ferramenta da educação.

Pode ser que, com os maus-tratos, o pai ou a mãe consigam intimidar o filho para que ele faça exatamente o que ele/a quer. Mas esses maus-tratos também se irão transformar no gérmen da falta de autoestima e numa fonte de rancor. Colocam os filhos numa situação muito complexa. Os filhos aprendem a vivênciar o amor e ódio em simultâneo e também aprendem a temer. O coração de um filho é muito sensível e se for ferido de forma consecutiva, com o tempo a criança terá tendência a transformar-se numa pessoa insensível.

2. A forma como os pais se tratam um ao outro

A relação entre o pai e a mãe é o padrão que a criança terá para formar uma atitude perante os relacionamentos amorosos. É muito provável que, quando for adulto, repita com sua parceira de forma consciente ou inconsciente o que viu em casa dos pais. Antes disso, a criança provavelmente irá repetir com as pessoas que ama.

Pense que os conflitos entre os pais geram angústia no filho. Uma das possíveis consequências será envolver-se em problemas simplesmente para atrair a atenção de um dos pais, que não lhe ligam porque estão demasiado concentrados no conflito em que estão envolvidos. Além disso, a criança irá apreciar ou não os relacionamentos amorosos com base nestes padrões adquiridos.

3. Os momentos em que se sentiram protegidos

Os medos das crianças são maiores e mais insidiosos do que os dos adultos. Os pequenos não conseguem distinguir bem a fronteira entre a realidade e a imaginação. Os pais são as pessoas em quem eles mais confiam para obter a sensação de segurança de que precisam para aprender e explorar o desconhecido. Assim, se são os pais os que causam este medo, a criança irá sentir-se totalmente desprotegida.

Os pais devem escutar com atenção esses medos, sem criticá-los nem minimizá-los. Devem fazer com que os filhos entendam que não estão em perigo. Isto irá aumentar o sentimento de segurança dos filhos e irá fortalecer o vínculo de amor e de respeito com os pais.

4. A falta de atenção

Para um filho, o amor que os pais lhes dão está intimamente relacionado à atenção que recebem deles. Para os filhos não existem expressões de afeto como trabalhar horas extras para poder lhe pagar um colégio caro. Os filhos não irão entender o amor dos pais se não passarem tempo juntos, se não estiverem presentes no seu mundo.

Os filhos nunca se esquecem da camisa verde que receberam de presente quando tinham dito até enjoar que queriam uma roxa. Ou quando prometeram algo que não cumpriram. Simplesmente, encaram isto como uma forma de abandono, como uma mensagem que diz: “não és importante o suficiente para me lembrar”. Por isso ficará uma marca de dor nos seus corações.

5. A valorização da família

Os filhos vão lembrar-se que o pai ou a mãe foram capazes de colocar a família como prioridade em diversas circunstâncias. As crianças precisam e gostam das celebrações, não interessa se é com mais ou menos presentes. Também é muito importante para eles que o pai e a mãe levem o Natal a sério.

Quando os pais colocam a família acima de tudo, os filhos irão aprender o valor da lealdade e do afeto. Quando forem adultos, também serão capazes de deixar de lado outros compromissos para ir ver seus pais quando precisarem dele. Vão sentir-se compensados e terão uma maior capacidade para dar e receber afeto.

Todas estas marcas deixadas durante a nossa infância acompanham-nos ao longo de toda a vida. Muitas vezes representam a diferença entre ter uma vida mentalmente saudável e uma vida cheia de conflitos. Uma criação repleta de amor e de carinho é o melhor presente que um ser humano pode dar a outro.

Publicado em A mente é maravilhosa, adaptado por Up To Kids®

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O pequeno catita estava esparramado no chão. Rodeado de tudo e mais alguma coisa, estava a inventar mais uma das suas fabulosas máquinas.

Ele imagina máquinas para tudo. Já inventou uma máquina-come-tudo, para levar a comida à boca de forma a não cansar os braços. Uma maquineta-diz-diz que fala por nós quando não estamos para aí virados. E uma, que tem um lugar especial no meu coração, a maquineta-toma-lá-mais-um-fim-de-semana, que produz fins-de-semana à vontade do freguês.

Ele estava tão inventivamente concentrado na sua nova construção que ao receber um “Hora de dormir!” retribuiu em tom metálico e zangado “Nem penses. Não é nada hora de dormir.” Não era bem isso que eu queria ouvir. Era mais um imediato “Claro que sim, mamã!”  Pois, mas é claro que isso não ia acontecer. Ainda mais com a rapidez que eu gostaria.

Voltei a referir que estava na hora de ir dormir e expliquei o quanto era importante para o nosso corpo descansar e dormir várias horas seguidas. Outra tacada do outro lado: “Não faz mal. Amanhã chego à escola várias horas depois.” Já referi que o pequeno catita prima pela capacidade de argumentação?

Após alguns segundos de silêncio, seguiu-se uma explosão de raiva acompanhada por peças voadoras. Como estava tudo dentro das normas de segurança europeias, assisti pacientemente. “Nunca mais vou construir nenhuma máquina. NUNCA MAIS!” gritou. À medida que as peças começavam a cair no chão, as lágrimas começavam a cair também. Baixei-me. Respirei fundo e abracei-o. “Chora. Chorar faz bem. Chora tudo o que precisares” sussurrei ao seu pequeno ouvido.

Alguns minutos mais tarde, sem mais nem menos, levantou-se e foi lavar os dentes.

“Hora da história!!!” gritou feliz da cama. Totalmente admirada com tal mudança repentina, fiquei momentaneamente colada ao chão da sala.

Espera aí. Mas ele não estava danado e preferia arrancar um dente a ir para a cama? Senti-me como se tivesse a fazer zapping. Carreguei no botão e imediatamente mudei de história.

Afinal o que aconteceu? O que mudou o chip dele?

Não foi certamente nenhuma maquineta-maravilha-vai-já-para-a-cama. Na verdade, percebi depois, foi algo bem mais simples. T-E-M-P-O. Eu esperei e dei tempo ao pequeno catita para digerir a frustração que surgiu por ter de largar a sua maquineta. Dei tempo para percorrer os caminhos, puxar as alavancas, rodar as roldanas, até estar pronto para passar do modo inventar para o modo descansar.

O processo é igual para nós. Sempre que algo nos surpreende, aparece em forma de obstáculo, frustração, má notícia, revés ou simplesmente não acontece como gostaríamos, precisamos de nos dar tempo. Precisamos de passar pelo “Não, isto não está a acontecer”, pelo “Porque é que isto me aconteceu a MIM?”. Pela fase de tentar arranjar uma solução de meio termo “E se eu..” até estarmos preparados para receber a tristeza, que estava desde o início à espera para entrar.

Ai. Quando ela chega… Quando nos bate em cheio no peito e a aceitamos. Só aí, aceitamos o que aconteceu. É daqui que tudo cresce. Deste pequeno grande passo. Mas só cresce se o caminho da frustração à aceitação for percorrido, passo a passo, emoção a emoção.

Foi esse caminho que o pequeno catita teve tempo para percorrer. Tempo para a negação (“não são horas de dormir”) e para a raiva. Tempo para a negociação (“amanhã chego mais tarde à escola”) e para a tristeza. Todas essenciais no caminho da aceitação, no corpo e no coração.

A ordem porque passam por nós não interessa. Interessa deixá-las passar. Interessa dar-lhes tempo e, acima de tudo dar-nos tempo, para a seu tempo, estarmos preparados para dar o passo que precisamos.

 

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