TPC – Trabalhos de casa ou uma carga de trabalhos?
Há palavras que fazem mais sozinhas do que frases inteiras, todas juntas. É o caso. O adjetivo ‘solene’, por ter em si duas derivações opostas, é o que mais se assemelha à atualidade do nosso mundo escolar, isto é, duas formas de agir, e de reagir, dentro do mesmo conceito. Respeito e aparato. Dois sentidos diferentes, o mesmo significado.
Assim vai a nossa escola, baralhando tudo. Pais e professores, dois grupos inseparáveis na formação das crianças enquanto indivíduos, duas pedras basilares que contribuem em pé de igualdade para o seu desenvolvimento, são muitas vezes a causa, e o efeito, que transforma aquilo que deveria ser importante, calmo e majestoso, (solene) num aparato estridente e confuso que nos funde a todos, educadores e educandos, numa espécie de anel apertado de regras e deveres, que a todos desgasta e consome, causando um atrito que faz separar os grupos que mais se deviam unir.
Cresce a distância entre aquilo que é o papel da escola e aquilo que é o papel da família, sendo cada vez mais visível a mistura de papéis, e a confusão das crianças.
Quero com isto dizer que, da mesma forma que os professores foram confrontados com um aumento da permanência das crianças na escola, também eu sou diariamente confrontada, para não dizer obrigada, com/a desenvolver tarefas escolares que apesar de serem da minha filha e pertencerem ao espaço da escola, me são servidas por altura do jantar, como se fizessem parte do meu menu diário.
Na verdade sinto-me cada vez mais refém da vida escolar da minha filha, e posso mesmo afirmar que a nossa relação se vem deteriorando a cada dia por razões totalmente impostas pela escola. O meu caso não é único, e são grandes as diferenças entre professores.
Os trabalhos de casa, imensos, diários e repetitivos – que não acrescentam em nada à aprendizagem ou à evolução escolar da minha filha, isto se pensarmos que está 8 horas dentro de uma escola (e mais de dois terços dentro da sala de aula – vêm ocupar um tempo que é meu! Ora se a criança necessita dos dois grupos basilares (escola e família) para se fazer enquanto indivíduo, há aqui uma notória usurpação por um dos grupos na educação da minha filha, e como a balança pende totalmente para a escola, o desequilíbrio surge na família.
A escola e a família
A escola impõe-se à família através dos trabalhos de casa, e isto é desrespeito, quando deveria ser solene. Oiço dizer que as crianças são mal-educadas. Pois são. E serão. A razão radica tão-somente no papel da família, sem tempo e sem fulgor, tão reduzido e tão mínimo que é quase imperceptível na identidade da criança. É como se a criança fosse obrigada a trabalhar sempre através da escola, sem descanso, tornando-se prisioneira do seu próprio desenvolvimento, prisioneira do saber académico.
A minha filha de oito anos quando chega a casa deveria ter o tempo que lhe resta para absorver a educação filial, dos afetos, das brincadeiras, dos ensinamentos, das emoções, mas não, a minha filha chega a casa para continuar os ensinamentos da escola. Além de ser excessiva esta espécie de formatação académica, a escola está a cometer um grande e perigoso erro: rouba-me o tempo e enfada e satura a criança, que a curto prazo pode criar anticorpos contra a escola e vir sofrer de falta de criatividade, isto é, falta de liberdade para brincar, tempo para pensar, tempo para si enquanto indivíduo, impedida de estar sozinha, enfiada que está num meio coletivo, numa aprendizagem unilateral, pejada de números e letras, em cadernos enfadonhos e sem cor.
«O meu tempo de mãe é-me assim roubado por três composições, quatro tabuadas e contas ambíguas de somar.»
O meu tempo de mãe é-me assim roubado por três composições, quatro tabuadas e contas ambíguas de somar. E é aqui que entra o aparato. Porque eu disparato. E disparato com a miúda, que não sabe escrever como eu, que a cada palavra apaga, a cada conta erra, porque são dez e meia da noite e o texto ainda vai a meio. E eu tenho o saco cheio. E só me apetece é ralhar com a professora, coitadinha da senhora, que até é minha amiga. Como disse lá atrás, sinto que a escola está a educar a minha filha, mas não só.
A escola com a sua mania de mandar trabalhos para casa, especialmente esses travestidos de Natais, São Martinhos, dias de Mães e de Pais, e com a sua rocambolesca teoria de que só assim se consegue que os (irresponsáveis) pais façam algumas atividades em conjunto com os filhos, está no fundo a dar palpites e a impingir-me um tipo de relação que não quero ter com a minha filha. E vou mais longe, está a tentar ensinar-me como devo relacionar-me com ela.
A escola, ao tentar unir os pais aos alunos, com cópias e ditados ‘inocentes’, está sim a separar a família dos filhos e ainda mais os alunos da escola. Desde que a minha filha começou o seu longo percurso escolar, há três anos portanto, que tenho escola por todo o lado.
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