“Construir a mais pequena democracia no coração da sociedade – a família (1) foi o mote que deu início a um pioneiro e audaz projeto, nascido na Alemanha – o coração do humanismo, para dotar a “célula primeira e vital da sociedade” de ferramentas capazes de ser o fermento e o motor da libertação da forma “autoritária, fechada, e repressiva” verificada até então, na grande maioria das famílias.

Corria o ano de 1994 e hoje, a esta distância – com os exemplos que temos em nossas casas, e nos compêndios que debitam teorias tantas sobre a matéria – estou convencida que mais do que construir uma pequena democracia no seio da família, o que temos efetivamente erguido, é uma grande ditadura no coração dos nossos infantes.

(1)Ano Internacional da Família – ONU

A família, ao contrário do que se pensa, não é um órgão democrático onde as decisões do dia-a-dia e do futuro se votam por maioria dos seus membros. Pelo contrário. Deve possuir de forma bem definida a hierarquia de cada elemento, com as várias e complexas ligações emocionais e materiais que se estabelecem entre si, impondo também hierarquicamente regras claras e leis-raiz que devem ser cumpridas e entendidas, desde sempre por toda a comunidade familiar, como o limite após o qual a família se torna disfuncional.

A fórmula austera que defendo aqui hoje, está muito longe do preceito ditador, de posse, de mando, de submissão [ou enaltecimento] dependente do sexo, que outrora os filhos deviam e significavam para os pais, no entanto uma educação mais severa, menos condescendente, menos infantilizada e mais arreigada, trará maiores proveitos para todos.

Obviamente há quem defenda que a criança deve tomar desde cedo o pulso às rédeas da sua vida, receber o máximo de mimo e inclusão, ser chamada a participar nas decisões, sentir-se responsabilizada e responsável, mas nem tanto ao mar nem tanto à terra, ou como diria a letra da canção: to too much love i will kill you.

Amar uma criança é também saber mostrar a autoridade sem condições, mostrar de forma firme que há galhos onde não deve pendurar-se, que há caminhos proibidos, que não há mas nem meio mas, que o não existe, é saudável e deve ser usado sem renitências. Sem uma figura de respeito, de autoridade, capaz de transmitir à criança, com verticalidade, justiça e, claro, ajustamento etário, as regras mais básicas do coração da sociedade [e que se espelha depois na própria sociedade], como sejam: cumprimentar, agradecer, não agredir, partilhar, dar, retribuir, sorrir, respeitar, pedir desculpa e desculpar, podem colocar em causa todo o processo educativo da criança.

A família é uma unidade de produção

A Família são tantas coisas que é difícil vê-la como uma unidade. Mas é assim que a entendo simplisticamente. A minha ideia de família não é um conceito abstrato, é algo que funciona, com peças e regras, limites e buracos negros, falhas na tesouraria, mal entendidos, lucros e despesas. É como uma grande unidade de produção, uma fábrica que produz diversos produtos, todos eles dependentes uns dos outros e utilizados uns pelos outros. Se a fábrica produzir uma discussão logo de manhã porque uma regra foi abatida a tiro, então a produção para esse dia fica contaminada e tudo o que se produzir depois disso fica irremediavelmente comprometido.

É que a família, como a fábrica, também armazena detritos, lixo, porcarias, e são esses exemplos maus que as esponjinhas – ou estagiários, gostam mais de absorver.

Se os pais são o fermento e o motor da família, gastando todas as suas energias para que nada falhe, nada resulte em paragens ou em perdas, se conseguem ter um emprego, arrumar, cozinhar, lavar e limpar, e ainda amar incondicionalmente os seus filhos, proporcionando-lhes com o resultado da produção muitos dos seus desejos e ambições, então os filhos, pequenos e grandes, devem aprender desde logo que este mecanismo necessita de ser oleado e de ser estimado, e que para isso não podem ser pedras na engrenagem já de si tão delicada. Mas quem lhes ensina a ser óleo e não pedra são os pais, porque nenhuma criança sabe, porque não tem de saber, como funcionam as grandes fábricas que produzem os grandes homens. Se as regras e as leis de funcionamento desta grande unidade não passarem de geração em geração, deixarão de haver famílias-escola, passando a haver apenas famílias-circo, onde só há palhaçada, desorganização, um monte de cocós de cavalo espalhados no meio da arena, um apresentador aos gritos, e eles, os equilibristas, tentando não cair na rede.

O que vemos hoje é o total desequilíbrio nessa unidade de produção. A tendência é cada vez mais para pais que assumem o papel de trabalhadores sem remuneração afetiva, que produzem unicamente em função dos filhos-patrões. E a verdade é que se antes havia uma produção de afetos misturados com a porção exata de regras e leis, o que existe agora é uma produção mecânica, artificial, que debita gadjets, champôs para caracóis perfeitos, vernizes, bonecas que falam, fumam e bebem, roupas de marca, passatempos, e pré-fabricados.

É uma fábrica de produção material, da qual os filhos-clientes exigem cada vez mais perfeição.

Os filhos saíram da linha de produção para se sentarem lá em cima, nos escritórios (como antes a religião), pesando-lhes nos ombros com as suas carências, imposições e manias sociais. Esta situação levará ao ultimato da família enquanto célula primeira e vital da sociedade, porque o conceito simplesmente deixará de existir, isto é, existirá apenas um ou vários seres humanos, que tendo a chave da mesma casa, se agridem continuamente, perdidos nos galhos uns dos outros, usurpando continuamente a felicidade comum, fechados em escritórios com janelas virtuais, onde o amor é feito de plástico.

A democracia instalada na família, de forma errada, como aliás o é na política, criou famílias onde todos decidem sobre todos. Um filho de 4 anos, sem ter ainda consciência racional disso, decide um fim-de-semana de uma família inteira. Parque infantil depois do almoço, cinema ao lanche, e festinha do pijama em casa do colega, pela noite. E porque a família sofre muito por considerar que as crianças são massacradas e sofrem muito por falta de estímulo, e que é praticamente impossível submete-las ao ócio e ao tédio, bombardeiam-nas de estímulos, de festas e de actividades que lhes preenchem o tempo, mas lhes roubam aquilo que nos trouxe a todos aqui com tanto sucesso.

A imaginação.

A ansiedade tomou conta dos meninos.

Nada lhes interessa que não tenha pixels e acenos afirmativos com a cabeça. A ideia utópica [e perigosa] de que todos dentro da unidade familiar podem votar com o mesmo peso, ou ter o mesmo peso numa decisão familiar, é o que podemos chamar de família desajustada.

O que é desajustado é evitar que a criança sinta a responsabilidade de ter mesmo de realizar uma tarefa imposta pelos pais, de ser mesmo castigada, de enfrentar uma tarde inteira sem estímulos, a hora certa para chegar a casa, o ‘não’ para as 27 festas anuais dos colegas da turma, o ‘não’ para ter um cão que ninguém vai conseguir passear, um ‘não’ para uns ténis que são 1/5 do orçamento familiar. O que é desajustado é criar filhinhos-totós, que não sabem limpar o rabo, que não colocam as peúgas no cesto, que não levantam um prato da mesa, que não sabem limpar o pó, o areão do gato, despejar o lixo, fazer a cama, dizer obrigado. Desajustado e ter pais totalmente condescendentes sobre estas e outras anormalidades dos filhos, quando sabem perfeitamente que com aquela idade, notem bem, alguns já trabalhavam, e no duro. Desajustado é não saber mandar e impor regras firmes, sem um pingo de hesitação, a um miúdo de 5 anos, de 6, de 7 ou de 11, e depois, aos 16 vir pedir ajuda aos profissionais para lhes educar os meninos.

O afastamento da criança do centro da família é na verdade o que se impõe.

A criança deve crescer sabendo que há prioridades, pessoas prioritárias e situações prioritárias.

Não há democracia possível quando se cria um filho, porque simplesmente a criança não sabe o que fazer com o seu voto, tornando-o nulo ou inválido para a sua idade.

Obviamente que a criança pode decidir das pequenas coisas da sua vida, brincar de democracia também é possível e desejável, mas na hora de votar a decisão, na hora das grandes (e pequenas) questões da educação, das regras, dos deveres e das leis da família, quem vota são os pais, quem decide se a roda gira para a esquerda, para a direita ou se fica parada é quem tem maturidade suficiente para perceber se é possível inverter, ou parar a produção, para fazer a vontade do cliente.

Também nos castigos a democracia não funciona.

Aposto que ninguém pensou em dar a escolher aos filhos que castigo lhes apetece cumprir. Queres ficar três dias sem ver televisão ou três semanas sem ir visitar a avó ao lar? Obviamente que aqui a ‘ditadura parental’ deve trilhar o seu caminho e instituir um castigo sem escolha.

Ter mão firme na criançada não é bater, torturar, deixar de abraçar, de mimar, de dar, dar muito; tudo isso deverá ser feito ao máximo, mas de acordo com o comportamento da criança. Confundir o carácter da criança com o comportamento da criança é o grande erro dos pais. O comportamento das crianças em crianças não lhes define o carácter em adulto, o comportamento dos pais é que provoca alterações no carácter dos filhos. Um miúdo mal comportado, irrequieto, mas devidamente educado, balizado naquilo que devem ser as regras do bom comportamento, não é um mau-caracter. A personalidade de cada um constrói-se em cima das reacções que os nossos comportamentos geram nos outros. Se a minha atitude perante o mau comportamento da minha filha for de submissão e banalização, a personalidade dela irá desenvolver-se sobre a premissa de que o seu comportamento (mau ou bom) gera submissão, e quando isso não acontecer numa qualquer altura da sua vida, o seu caracter revolta-se e forma situações que podem custar-lhe até a liberdade.

Com a ânsia de proteger os nossos infantes, não os deixamos crescer ou deixamo-los crescer depressa demais, pelo menos no que respeita às decisões que nós adultos lhes permitimos em nome da democracia familiar. A família atual aceita trabalhar para aquele ser que ali está prostrado com a única finalidade de receber, e decidir o que quer receber, e é este o exemplo que retira da vida, da sociedade, equivocando-se totalmente no seu papel, tomando-o por outra coisa completamente diferente: o recebimento sem dádiva, o merecimento sem mérito. Eu também mando, eu decido, eu respiro, logo mereço.

E é isto mesmo que se procura num pequeno ditador.

Mas não era de democracia que falávamos?

imagem@kino.de

A vida é uma constante.

Constantemente repleta, vazia, sorumbática, alegre, duvidosa, extremamente improvável, e vezes demais, um tormento.
O sonho colectivo é fácil de adivinhar. Uma vida melhor.
É muito por culpa deste sonho que somos permanentemente acordados, sobressaltam-nos as possibilidades e as oportunidades que através dele julgámos possíveis de acontecer, e por vezes, o impensável acontece: os sonhos trespassam o sono, ganham vida, cor e luz, e põem-nos à prova.
E tudo o que sonhámos acontece deveras.
Foi o que aconteceu a Sofia.

Há vidas óptimas agarradas a pessoas descontentes, e pessoas descontentes com uma vida óptima.
No caso de Sofia, que nasceu com ambas as bipolares variantes, um problema agudo e crónico, dir-se-ia, um sonho recalcado que nunca teve o ímpeto de sair da cama, saltou-lhe uma manhã do peito. Muito acelerado para quem dormiu durante tantos anos, muito desperto para quem permaneceu fechado numa caixa bolorenta onde fechamos todos os sonhos de uma vida melhor, que por uma razão ou outra, nunca chegamos a ter.
Por razões diversas – a principal diretamente relacionada com proximidade da família chegada -, levou Sofia a uma decisão inabalável de permanecer no mesmo local onde crescera, mesmo depois do casamento. A decisão de ficar no bairro, tornando-se parte da curta franja de pessoas que não chegaram a partir, sobretudo para Lisboa ou para a zonas rurais de moradias a preços baixos, não a perturbou. Mudou-se para a sua própria casa depois do casamento, e depois de algumas obras de remodelação e restauro, a nova casa cumpriu o sonho colectivo dos noivos e descansou a família. Casa boa, grandes assoalhadas, um tanto fria no inverno, é certo, mas com uma renda pagável, tendo em conta as condições bancárias da altura, e as suas próprias condições económicas.

Quando a Inesinha nasceu, a opção de ter permanecido no bairro revelou-se a mais certeira. Viver perto dos pais é uma vantagem enorme que todos deveriam ter, sobretudo na altura dos filhos pequenos. A Inesinha teve a sorte de crescer num bairro que se tornara pacato, sempre acompanhada pelos avós, incansáveis e amigos, que foram durante 9 anos o verdadeiro pilar do casal e da menina.
A vida é também uma constante de mudanças, e cedo vieram as alterações laborais, as alterações materiais e sobretudo uma vagal mas incisiva alteração de humor. Por força desse sonho de vida melhor, o que antes era uma rotina das 9h às 17h num emprego ao pé da porta, depressa se tornou em chegadas tardias, horas extraordinárias, pedidos diários de ajuda nos banhos e no jantar, nos castrantes e intermináveis TPC, a vida social do casal a descolar-se das fraldas e das sestas às horas certas, as noites fora com os amigos, o desporto ao fim de semana, os momentos a dois, e tudo isto, de forma saudável e racional, foi sempre acompanhada e apoiada pelos avós da Inês. Mas o sonho comanda a vida.

Dez anos passam a correr.
Dez anos depois e a casa revelou-se fria demais, as horas perdidas no trânsito tornaram-se um tormento diário e mais não faziam do que roubar tempo e tempo ao já pouco tempo disponível. a súbita realidade do bairro, agora tão diferente (ou tão igual) espelhada na Inês, envolvida com a Inês, parecia demasiado pesada e limitativa.
Uma casa não pode ser um obstáculo à felicidade, uma casa deve ser o ninho dessa felicidade, o local de planeamento, o local de onde se parte de manhã para todas as conquistas, e onde se regressa à noite para todas as partilhas.
Não vale a pena prender os sonhos dentro de grandes assoalhadas se eles ali não medram.
E a vida é uma constante que constantemente nos coloca à prova, também perante os sonhos.
A ideia de mudar de casa, com a Inês a meio do ano lectivo, pareceu a todos uma loucura. Primeiro que tudo a estabilidade da criança, que fala alto e dispara em todas as direções, que deve ser ponderada.
Que reacção poderá ter a Inês se de repente, ao fim destes anos todos de rotina familiar e escolar, se vir numa casa diferente, numa rua diferente, numa escola diferente, sem os avós?
Será mais fácil esperar que as oportunidades que vemos nos outros nos cheguem na altura certa? E se as oportunidades chegarem mesmo em cima do Natal? E se for mesmo ali pegada aos exames do 1º período, e se o agora ou nunca falar ainda mais alto?
A família é mutável, abalável, desdobrável e adaptável. A família deve juntar-se num abraço, combinar cabeça com cabeça a nova estratégia, e largar a correr, com força, com velocidade, fazendo cumprir aquilo a que se propôs desde o primeiro dia: ser feliz, numa vida melhor.
Sofia, embalada pela possibilidade de ganhar tempo, pela certeza de que é inútil lutar contra a natureza dos sonhos, contra a mutabilidade da vida, dos sítios, da cabeça, decidiu mudar-se.

A decisão de se mudar chegou muito antes da possibilidade de se mudar verdadeiramente.
O Universo é inteligente e conspira a nosso favor. As ideias e os sonhos – é um mistério ainda por desvendar – materializam-se e põe-nos à prova. Tem cuidado com o que sonhas torna-se numa realidade palpável e as coisas acontecem.
Apareceu uma casa para alugar em Lisboa, mesmo a poucos dias do Natal.
As condições eram únicas, e se deixassem fugir a oportunidade tão cedo não encontrariam outra. A zona permitia-lhes uma poupança de tempo útil de mais de 3 horas diárias. O automóvel diariamente utilizado nas deslocações de ambos para o trabalho e da Inês para a escola deixaria de fazer parte da equação, e a utilização da bicicleta nos percursos da cidade, um sonho antigo do casal, era uma possibilidade bastante viável.
O melhor de tudo era a nova escola da Inês. Um belíssimo liceu mesmo à porta de casa, um belíssimo liceu que poderia acolhê-la e prepará-la para o futuro, um belíssimo liceu onde poderia, também ela, começar tudo de novo
Foi de resto o ponto de partida.
Uma escola em bom, muito diferente da escola do bairro, onde apesar do enorme esforço dos professores e funcionários, se agudizam os problemas sociais da comunidade envolvente, da precaridade da vida, do envelhecimento dos sonhos, e de onde chegam constantes relatos de agressões e assaltos, fez com que Sofia entendesse a desnecessidade de repetir o ciclo. Não havia necessidade de submeter a filha às mesmas condições da sua infância e juventude.
A formação escolar é tudo na vida de uma criança. A escola é a sua principal fonte de energia e aculturação depois da família. É preciso pensar e repensar se a criança está a ser ‘bem preparada’ numa escola de grande diversidade cultural mas de grande inconstância do corpo docente, como são tantas das nossas escolas, ou se está só a ser instigada a preparar-se para se defender. Será mesmo bom pô-la à prova, envolve-la nas coisas menos boas, ou salvá-la? A Sofia pensou friamente: deve a Inês passar tanto tempo numa escola complicada e ainda ser privada da família nuclear por questões laborais dos pais, ou deve ter uma escola melhor, à mesma com as suas heterogeneidades, mas com tempo disponível com a família, menos correria, menos stress?
O laço com o bairro ficará para sempre. A permanência da família no bairro é que estava totalmente condenada.
A resposta não se fez tardar, e a decisão foi tomada.
Como por mares nunca dantes navegados, também a família da Sofia tem de enfrentar os obstáculos.
Quanto custará à família esta mudança tão radical?
A escola nova terá horário completo? Sem avós para apoiar quem ficará com a Inês no caso de sair antes das 18h? E se de repente os inquilinos da casa bairro resolverem deixar de pagar a renda; e se não se conseguir de todo alugar a casa; e se alguém perde o emprego; e se a Inês não se adapta?

E se a casa nova for fria, pequena, e estranha?

Muitas serão as novidades e os desafios que Sofia e a família terão de enfrentar, mas o sonho colectivo é fácil de adivinhar. A vida melhor é apenas aquela que somos capazes de imaginar como se fosse a única verdadeira.

imagem@thewoodgraincottage

 

Os pequenos grandes atletas

Há muitos anos atrás, não teria mais de 5 anos, encontrei-me subitamente na presença de um espírito.
Fui imediatamente tomada por ele. Como se a partir daquele momento todos os meus movimentos, todos os meus sentidos, tudo o que fazia de mim uma banal menina de cabelos loiros tivesse subitamente desaparecido e aquele espírito selvagem, que ninguém sabia de onde vinha, se fundisse em mim, para sempre.
Dir-se-ia que para afastar novamente aquele vendaval do meu corpo, seriam necessárias muitas horas de delicadas intervenções cirúrgicas, para me separar daquilo que eu até hoje chamo de a minha irmã siamesa.
Ninguém entendia o que aquilo era. Eu compreendo agora que talvez fosse [naquela época] muito mais fácil identificar outros espíritos, talvez por serem mais comuns, mais audíveis, mais extraordinários.

Lembro-me por exemplo do espírito que tomou a minha amiga Alexandra. Um espírito artístico, de traço muito fino, que a tomou em ombros fazendo-a desenhar quase na perfeição as caras das bonecas que lhe ofereciam pelo Natal, e depois, numa admirável arquiteta. Ou o espírito do pianista que aterrou em cheio na cabeça da Marisa, um prodígio das teclas, um encanto de menina.

O meu espírito tomou-me e virou-me do avesso.

Não era nenhum espírito especial, aliás, era antes um espírito que trazia sempre água no bico, recados da professora e chinelada no rabo.
Espírito indomável que me possuía inteira, roubando-me a pacatez de menina e o amor da vizinhança.
Tornei-me elástica, nasceram-me asas, cresceram-me fios de cola na ponta dos dedos que me colavam às paredes, às ombreiras das portas, às árvores, aos telhados, a tudo.
A minha mãe, debulhada em lágrimas, ria-se às escondidas para evitar que a tomassem por maluca, e foi talvez a única pessoa que acolheu, parcimoniosa, o meu novo espírito, e que agarrou nele e em mim, e nos foi entregar aos préstimos do professor Lelo, o mais famoso professor de ginástica do subúrbio.

A menina precisava de quem a domasse.

Não era viável que andasse às rodas, aos flics e às espargatas no meio da estrada íngreme do bairro. Tornou-se até perigoso deixá-la andar em cima dos patins, sem o medo que caracteriza os adultos, rua abaixo, travando apenas na parede da loja da Leonor, uma senhora que sofria do coração e que não parava de dizer: esta menina tem o diabo no corpo!
Ela não sabia o nome do espírito que me acompanhava. Talvez fosse um diabo de espírito. Talvez. Mas se fosse hoje era certo que tinha proposto à minha mãe a Ritalina para me acalmar os nervos. Talvez o boxe se o houvesse assim como há agora. Ou o judo, o desporto para rapazes e meninas ‘estranhas.’

A minha avó entendeu que para domar o meu espírito o baptismo e as aulas de catequese seriam prudentes.

Infelizmente (para ela) redundaram num completo falhanço. Faltei a todas as aulas para ir apanhar pássaros.

Dou graças por não haver na minha altura a fobia dos psicólogos infantis e de tudo o que actualmente se faz para agrilhoar um espírito mais mexido.
Fico feliz quando vejo os pais levarem os meninos para o futebol, para a natação, para o judo, para o balett, para a ginástica, para o hip hop. Para as actividades físicas imprescindíveis ao correto desenvolvimento da criança.
Mas também fico desesperada por ver pais que levam a mesma criança para todas estas actividades sem preceito e contrariadas. A mesma criança não precisa de fazer trezentas coisas com o corpo e é prudente que os pais saibam reconhecer nos filhos o espírito que se manifesta com mais fulgor.

Poderemos até, no decurso do crescimento dos nossos filhos, verificar que o antigo espírito pianista deu lugar ao espírito ciclista ou até mesmo ao cientista, ou perceber que o miúdo fica mais atento aos colegas que jogam ténis no campo ao lado do que ao jogo de futebol em que participa.
A partir de certa altura as mudanças de interesse acontecem. Devemos ser prudentes e experimentar estes novos espíritos, conscientes de que são exactamente os espíritos que temos lá em casa, e que não estamos a empurrar as nossas filhas para o ballet quando o que elas gostam é de surf.
Os pequenos grandes atletas são espíritos compreendidos, são espíritos apoiados, não são os espíritos cujo desejo é fabricado por modas. Os meninos, ou quase todos os meninos gostam de jogar à bola, mas apenas 2 é que serão futebolistas.

Fui uma pequena grande atleta porque alguém percebeu o que eu gostava de fazer.

Se depois aquilo deu em nada, se depois desisti, se depois não fiz da ginástica o meu futuro, foi porque na realidade não tinha de ser, ou porque as circunstâncias da minha vida assim o entenderam, mas posso jurar que as horas do dia em que me sentia mais feliz e mais livre, foram aqueles em que pude ser uma pequena grande atleta, em comunhão com o meu espírito hiperactivo, a minha irmã siamesa.
À parte disto, nasceram-me amigos que nunca chegaram a chutar uma bola ou a fazer uma espargata, mas também eles foram pequenos grandes atletas, espíritos compreendidos, os melhores de todos, nos puzzles, no xadrez, nas letras, na música, e em tudo o que o espírito deles ditou.

Há muitos anos atrás, não teria mais de 5 anos, encontrei-me subitamente na presença de um espírito.
Hoje, com 39 anos, encontrei-o outra vez nas rodas de uma bicicleta de BTT.
Oxalá não me abandone nunca este vendaval.

 

Gostava de explicar isto bem.
Tentarei ser clara na minha pretensão.

A depressão é o excesso de passado.
A ansiedade é o excesso de futuro.
Na medida em que todos temos um passado e imaginamos um futuro, a diferença entre ser depressivo e ansioso reside no tempo que despendemos a pensar num ou noutro extremo.
Se pensamos muito no passado somos depressivos, se pensamos muito no futuro, somos ansiosos.
As pessoas tendem a acomodar-se num ou noutro extremo da vida.
Foi sempre assim.

Desengane-se aquele que pensa que o desequilibro é coisa moderna, que só agora é que as pessoas pendem, ora para um lado, ora para o outro – dependendo do estilo de vida e da fase da vida -, enquanto antigamente todos caminhavam a par, muito centrados e muito equilibrados, sem ansiedades ou depressões, sem stress, e sem analista.
Não é um problema das novas sociedades, não chega sequer a ser um problema sociológico. É uma fraqueza individual, antiquíssima.
A humanidade é naturalmente depressiva ou ansiosa, desde sempre.
Eu não sou depressiva porque me sobra tempo para depressões. Eu não sou depressiva porque não tenho nada para fazer. Eu sou depressiva por que já fiz.

E também não sou ansiosa porque sou insegura ou demasiado perfecionista, assoberbada, hiperativa. Eu sou ansiosa porque ainda vou fazer e não sei como fazê-lo.

Há almas mais propensas em acumular o lixo do passado, em revolver os restos nauseabundos deixados pelos outros, e por si próprios, e que teimam em retificar e curar mentalmente algo que já não podem alcançar.
Um bom exemplo para esta tendência, para esta dependência do passado, é bem visível nas pessoas que insistem em fotografar os momentos todos da vida. Mais tarde, inevitavelmente vão perceber que as fotografias que tiraram impediram-nas de certa forma de viver o momento, de saborear aquele prato, de sentir aquele beijo. Elas não querem beijar, elas querem é fotografar maravilhosamente o beijo. E vão lançar-se e colar-se ao passado fotográfico, substituindo memórias efetivas e reais por momentos-em-clic, e vão ficar terrivelmente deprimidas de os terem apenas na superficial retina e não na meninge. E ficarão ainda mais deprimidas porque terão sempre a pulsão de ir ver as fotografias que tiraram, imensas, no passado. E andam sistematicamente naquilo, depressivas, a perpetuar o que já aconteceu e que na realidade não aconteceu nada.
Entendam que há acontecimentos que devem ser esquecidos (para bem do presente) e há outros que não foram sequer acontecimentos.
Se fosse saudável ao ser humano registar e guardar para sempre todos os momentos da vida passada, a memória fotográfica não seria considerada um distúrbio mental, e todos a teríamos mais ou menos desenvolvida.
O mesmo para o passado. É saudável reviver passagens do passado. É depressivo passar a vida nesse passado.

Outros há que preferem descerrar o futuro, saber mais sobre o que aí vem. Não percebo claramente se é para se prepararem melhor, se para se acomodarem melhor.
E vão aos magotes consultar videntes, e bruxas, e fazem simpatias, e cosem a boca ao sapo, e desejam mal aos outros para bem deles próprios, e fazem promessas e pagam promessas, para no futuro, quem sabe – não acredito em bruxas mas… -, viverem então muito bem com isso, com a falsa consciência que andam aí a fazer pela vida.
Ah, afinal sempre vou comprar a casa nova. Está escrito nas cartas. Deixa-me enfim descansar que o que é meu às minhas mãos chegará.
Há de ser tarde que a casa chega.
Mas cedo virão as depressões, porque para se ser remediadamente feliz no presente (não pedimos mais que isso) é necessário lembrar como é que fomos felizes no passado, e a única coisa que vamos encontrar é uma ideia do que seria o futuro, ideia sem ação, vidência, expetativa, castelos no ar.
Nada se faz se não for efetivamente feito.
É um cliché, mas a verdade é que a felicidade não é uma nuvem no ar que apanhamos aos saltinhos. A felicidade é uma coisa que construímos desde o chão, de joelhos e dores nas costas.

Então quer dizer que os únicos culpados pelas nossas tristezas (ansiosas ou depressivas) são precisamente aquelas que não conseguiremos, jamais, controlar?
Do que nos serve ficar dias e dias a remoer no passado, ou dias e dias a conjeturar o futuro?
Não será então a cura para tantos estados de tristeza o enaltecimento do presente? Da simples avaliação do agora? O que tenho agora? O que faço agora? Quem sou eu neste momento? Como reconstruir-me para que as minhas memórias do passado [as que construo agora] não sejam de tal forma penosas que me levem, outra vez, para um estado de depressão?
Tudo o que fazemos agora fará parte do nosso passado. Convém fazer o melhor que podemos e sabemos para evitar arrependimentos e falsos positivos para doença mental.
É preciso construir muito bem o presente, que no futuro não será mais do que o passado, e é ao passado que vamos buscar todas as nossas motivações.

Lamento muito que a classe médica insista em embriagar o paciente depressivo e ansioso com drogas fortíssimas e entorpecentes.
A droga vai adormecê-lo e vai apagar-lhe o presente, que em última instância é a única coisa que tem de melhor para consegui desligar-se do que já passou (e que é mau e deprime) e do que ainda está para vir (que é possivelmente mau, o que me deixa ansioso), e ainda o que lhe dá a motivação para o futuro.

Que futuro então, para quem não tem senão uma ténue recordação do presente?
Que futuro para todos nós, eternamente e geneticamente depressivos e ansiosos?
Não estaremos todos a fraquejar? Não estaremos nós todos inundados de drogas que supostamente nos salvam do nosso passado e nos protegem do nosso futuro, imaginariamente?
É que eu já não consigo suportar mais o espetáculo da nossa fraqueza.

Porque que eu consigo entender D. Quixote sem conhecer a história de Espanha, no caso o seu imenso passado, mas não conseguirei entendê-lo nunca se não lhe (re)conhecer as ideias e as motivações que o fazem agir perante mim, agora, e assim esgrimir com o futuro a lógica da Humanidade.
E a lógica é só uma.
Avançar.
Sem medo dos mortos e sem medo dos que ainda estão por nascer.
Carpe Diem.

Por Uva Passa, para Up To Kids®
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Certa vez perguntaram a uma mãe qual era seu filho preferido, aquele que ela mais amava.
E ela, deixando entrever um sorriso, respondeu: “Nada é mais volúvel que um coração de mãe. E como mãe, lhe respondo: o filho dileto, aquele a quem me dedico de corpo e alma…
É o meu filho doente, até que sare.
O que partiu, até que volte.
O que está cansado, até que descanse.
O que está com fome, até que se alimente.
O que está com sede, até que beba.
O que está estudando, até que aprenda.
O que está nu, até que se vista.
O que não trabalha, até que se empregue.
O que namora, até que se case.
O que casa, até que conviva.
O que é pai, até que os crie.
O que prometeu, até que se cumpra.
O que deve, até que pague.
O que chora, até que cale.
E já com o semblante bem distante daquele sorriso, completou:
O que já me deixou…
até que o reencontre.

FILHO PREDILETO
– Erma Bombeck –

Os filhos diletos, os tais que se estimam de maneira preferencial, os preferidos, os que abraçamos primeiro, ou aqueles que ocupam uma área maior no coração, existem, e as mães sabem-no.
Talvez o tema que hoje trago seja o último tabu da maternidade, talvez seja mesmo o único tabu da maternidade, mas em mim, que me quedo sozinha numa relação maternal, que nunca disputei a barriga da minha mãe, o amor da minha mãe, a atenção da minha mãe, por não ter obviamente com quem a disputar, encontro diferenças substanciais quando observo as mães nas suas ambíguas escolhas, que nunca são por falta de amor, quando têm dois ou mais filhos.
Não é possível ter ou sentir duas vezes a mesma coisa, da mesma maneira. Gostar igual não é possível, nem é medível, tão pouco afirmado, e no entanto há tanta gente a dizê-lo que quase se tornou verdadeiro.
Mas é falso.

Nasci no seio de uma família matriarcal, de muitos irmãos.
Tive por isso muitas oportunidades de verificar, com bastante certeza, as preferências da matriarca, e seria capaz, sem falhar um nome, de elencar por ordem de preferência, os filhos diletos da minha avó.
Nem ela, que foi tantas vezes confrontada, foi capaz de desmentir aos filhos, que sabiam de coração ser os menos preferidos da mãe, as preferências que saltavam à vista.
Houve um, por curiosidade o meu pai, que ocupou sempre o lugar cimeiro da extensa lista.
No início, quando comecei a pensar no assunto, achava que por ele ser o mais branquinho numa família de morenos, o do ‘olhinho azul’, o tal que a minha avó ia lavar no Ribeiro da Levada, ‘coitadinho, sempre tão sujinho’ quando ainda não tinha 6 anos e já estava justo numa quinta que criava perus.
Mas todos os filhos daquela mãe trabalharam em pequenos, e muitos deles em piores condições que o meu pai, e andavam igualmente sujinhos, logo, aquela razão não poderia ser a mais certa.
Depois pensei que por serem vizinhos, já em Lisboa, que a proximidade das casas os tivesse aproximado; mas enganei-me. O meu pai foi de todos os filhos, à exceção dos que estavam longe ou emigrados, o mais ausente. Não o via todos os dias como acontecia por exemplo com outros filhos e filhas, nem o meu pai vencia os irmãos nas atenções e carinhos à mãe, e no entanto, sempre que o meu pai chegava, os olhos pequeninos e muito alvos da minha avó abriam-se todos num abraço. O meu pai foi o filho dileto e nunca se encontrou o motivo.
A minha avó gostou sempre mais daquele filho, que não foi o primeiro e nem o último, que não era o mais inteligente e nem o menos inteligente, que não era o mais frágil e nem o mais forte, mas que era somente aquele que ela gostava mais, aquele por quem sentia mais afeto, o que melhor lhe calhava.
Mais tarde na vida, morreu uma filha à minha avó, e anos depois um filho. Ninguém poderá dizer o que sente uma mãe que perde um filho, e muito menos dois, mas ainda assim pude verificar que até no horror de perder os filhos as dores foram diferentes. Custou-lhe muito mais a morte do filho. O mais velho, o primeiro, um menino, e que predilecção tinha a minha avó por meninos. Demorou muito mais tempo a recuperar. Falava muito nele. A filha, mais arisca, mais ‘rebitesa’, não lhe enchia lá as medidas, discutiam, aborreciam-se, e talvez seja nesta química de entendimentos, nesta fórmula desconhecida que nos faz amar alguém em detrimento de outro alguém que resida o segredo do filho dileto.
O texto que nos escreveu Erma Bombeck é mais romântico que verdadeiro, é mais imaginário do que real, porque coloca-nos vários problemas.
Admite afinal que há um filho dileto, embora faça depender a predilecção em diferentes circunstâncias e tempos. Calha-se àquela mãe ter os dois filhos ao mesmo tempo numa situação complicada, em apuros, com fome, com sede, enfim, em qualquer necessidade que derretesse o seu coração de mãe, e tínhamos uma contradição, porque já não poderíamos estar a falar de filhos diletos, porque o dileto só pode ser um, e não todos dependendo da situação.
Julgo que a dificuldade de aceitação da existência do filho dileto reside na escolha.
A mãe tem efectivamente um filho dileto, a mãe sabe exactamente de qual filho gosta mais, mas para a maioria das mães, é na escolha que reside o grande problema.
A mãe, por uma questão de natureza biológica e psicológica, inerente ao ser humano, é muitas vezes incapaz de escolher um filho quando se coloca a questão do salvar, no caso de ser obrigada a escolher. E é precisamente nesta questão que pensa quando lhe colocam a questão de qual filho gosta mais.
Qual dos filhos salvarias primeiro se apenas um pudesse sobreviver? O mais frágil, o mais doente, o menos inteligente, como diz o texto, ou o mais forte, o mais ágil, o mais arguto, o mais capaz?
Serias capaz de escolher por características colocadas no momento, ou a escolha há muito que tinha sido feita?
Diz-me, mesmo sabendo que não seria a melhor escolha, não escolherias o teu predilecto?

Nada na natureza se repete, nem em intensidade, nem na forma, nem no conteúdo.
Gostas muito de todos mas dás-te melhor com o Miguel, que é mais parecido contigo no feitio.
Não. Porque não dizes antes que gostas mais do Miguel porque te dás melhor com ele, e também gostas muito dos outros, mas é diferente?
Porque como mãe não podes criar neles essa insegurança, esse absoluto terror, essa luta entre irmãos pela disputa do amor de mãe, colocando em causa uma relação já de si tão frágil, e frágil por isso mesmo.
Por isso mentes sobre o que sentes.
E não faz mal. E não tem mal.

A velhinha imagem que nos remete para a água que passa por baixo da ponte, utilizada para demonstrar que nada é nunca igual, e que nunca nada se repete, é a mesma que utilizo para demonstrar que uma mãe, mesmo que sempre imensa, sempre abundante, como a água da nascente, não consegue ter em todo o percurso a mesma força. Da mesma maneira que o leito do rio tem obstáculos que o impedem de ser sempre igual, assim os filhos, que com a sua personalidade impedem a mãe de os amar de forma igual.

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O aluno de 13 anos entrou na escola Joan Fuster, na cidade de Barcelona, em Espanha, munido de uma besta, uma faca, uma pistola de chumbos e material para preparar um cocktail molotov, tendo atingido mortalmente um professor e ferido outras quatro pessoas, dois alunos e dois docentes, antes de ser imobilizado por um professor de Educação Física. O jovem foi descrito como uma pessoa normal e sem problemas de socialização aparentes. Os seus vizinhos viam-no como um rapaz “educado e discreto”, tal como a sua família. Na escola, contudo, é-lhe feita uma descrição diferente. Mas, apesar de admitirem o seu gosto por “coisas do exército” e os seus comentários sobre armas e mortes, os colegas e amigos não o consideravam um rapaz marginalizado, muito menos “com problemas”.
In: Jornal Público, 20 de abril de 2015

Nem todas as crianças são frágeis e inocentes.
A ideia central que rege actualmente o modelo da infância, segundo o qual as crianças são diferentes dos adultos e devem, por isso, ser tratadas de forma diferente é uma construção relativamente recente.
Ainda assim, há países que entendem de forma bastante diferente a questão da impunidade criminal que protege as crianças de serem tratadas como adultos, mesmo que os crimes cometidos sejam crimes de índole híper agressiva, como é o caso do assassínio, e aplicam a premissa de que se a criança teve idade suficiente para pegar numa besta e matar alguém também tem idade para ser punido pelo crime que cometeu.
O caso Inglês surge aqui como corolário da mudança fixando a idade penal nos 10 anos.
Uma criança de 10 anos é capaz de cometer um crime mais ‘adulto’ do que o próprio adulto. Já vimos isso, vemos cada mais, e percebemos todos os dias, pelas notícias que vão nos chegando em catadupa, que os centros de correção juvenil que antes se encontravam cheios de miúdos com mais de 17 anos, se encontram agora repletos de crianças de 13.
Mas então como proceder?
Para a sociedade em geral, que protege sobremaneira as suas crianças e as coloca numa espécie de pedestal sacrossanto, dificilmente conseguirá aceitar que uma criança com 13 anos possa ser condenada a prisão perpétua.
A tendência é para uma maior tolerância (e às vezes perdão) dos crimes cometidos por menores baseada em argumentos que se alicerçam na responsabilidade social do menor. Assim, não estando totalmente construída a personalidade do menor no seu todo, também a pena não deve ser assumida no seu todo. A moldura penal é assim balizada por uma questão de percurso de vida, isto é, uma criança mesmo que criminosa, não deverá assumir toda a responsabilidade da sua pena, pois que ainda não se assumiu totalmente na sociedade.
São-lhe vedados deveres na exata medida em que lhe são vedados direitos.
Por outro lado a delinquência é um comportamento, e os comportamentos são gerados na sociedade, ou se quisermos, são gerados pela sociedade, logo a sociedade deve absorver uma parte dessa culpa.
Mas será mesmo assim?
Vejamos novamente o caso Inglês. Recentemente um rapaz de 13 anos foi condenado a prisão perpétua por matar uma mulher de 47 anos à porta de um bar.
A lei inglesa não foi branda com o rapaz. Fechou completamente as portas, e para sempre, a uma possível recuperação ou arrependimento.
Por outro lado a família da mulher, referiu que não importava quantos anos o jovem iria ficar na prisão, porque continuaria a receber as visitas dos familiares e a sua família poderia voltar a ver o seu filho; coisa que a eles lhes estava impedido para sempre, pois que não voltariam a ver a sua filha.
Olho por olho, dente por dente?
Na questão da reabilitação importa notar que a tendência geral é para haver um decréscimo da delinquência após o início da maioridade e aproximação da idade adulta. Neste caso a institucionalização de menores até à idade adulta, ou até a uma idade aproximada da maioridade seria acrescentar responsabilidade ao menor, afastando-o da criminalidade ou aproximando-o da consciência e arrependimento do seu crime.
Se ao invés da reabilitação se avançar para a responsabilidade total da culpa, do pagamento efectivo do crime, a sociedade livrar-se-ia de forma mais permanente do jovem criminoso, e expurgava a raiva de alimentar pequenos terroristas em centros de reabilitação totalmente permeáveis à continuidade dos comportamentos, tanto pela facilidade de fuga, como pelos modelos de semi-internato, em que o jovem pernoita no centro mas é livre durante o dia.
Mas o problema é que as prisões são autênticas escolas do crime, e no caso português, em não se verificando a pena perpétua, o jovem criminoso acaba por ser liberto pior do que lá entrou. Talvez até mais afinado, mais escolarizado, mais revoltado.
A aprendizagem dos comportamentos socialmente desviantes na prisão far-se-á através da exposição às acções dos outros, maioritariamente adultos, e não se prevê que Portugal consiga no curto prazo responder às necessidades de um novo modelo de prisão juvenil.
Resta-nos esperar pela experiência dos países mais desenvolvidos, que separam o trigo do joio de acordo com o tipo de crime.
Uma criança de 10 anos que mata sadicamente um ser humano, é justamente inimputável?
O aumento da criminalidade muito jovem em Portugal ainda não assumiu os contornos de outros países, como é o caso da Inglaterra, França ou Alemanha.
Por enquanto resta-nos aumentar a prevenção nas famílias e nas escolas, porque o bairro, o terceiro fator de risco para a delinquência juvenil, já está totalmente fora de controlo.
Se a diminuição da influência da família é compensada pela procura de relações alternativas (à medida que os menores se aproximam da idade adulta), e se as alternativas existentes no bairro forem alternativas de crime, desonestidade e comportamentos desviantes, então estaremos cada vez mais perto da redução da idade penal em Portugal, e consequentemente, dos inimputáveis.

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Isto de falar sobre violência doméstica, assunto que nos toca fundo, deve ser escrito com as ideias assentes, sem dúvidas, de um modo circunscrito, balizado, incisivo, sem dar largas à especulação infantil que toca na parede mestra das liberdades e direitos, e a derruba. A leviandade com que se fala de violência é tão ou mais perigosa do que a violência em si, porque na minha opinião toca em dois pontos que não se encontram totalmente claros na cabeça de muita gente.
É muito fácil atribuir a culpa da agressão ao agredido, e neste campo são as mulheres a ganhar caminho contra outras mulheres, profícuas em proteger os homens, os filhos, os maridos, os irmãos, deitando por terra o longo e sinuoso caminho que entende a violência doméstica como consequência e não como causa.
Escrever sobre violência doméstica é perigoso. Ou o autor resvala para a autocomiseração e para a vitimização da mulher, fraca e oprimida, à mercê do macho viril qual inseto debaixo da sola, ou resvala para a culpa da mulher, que em todo o caso ‘mereceu’ a agressão, ‘estava a pedi-las’, ou calibra a violência de acordo com a situação, isto é, deixa a culpa onde o senso comum e o seu nível de preconceito se encontra melhor adaptado.
Quero com isto dizer que ou ficamos definitivamente do lado da mulher, mesmo que ela seja uma perdida, uma tonta, uma qualquer, ou lhe metemos as culpas, culpando-a por ser frágil, por perdoar, por se deixar bater, e por não reagir denunciando.
Nos caminhos que tracei como únicos (não podemos ser nim e nem Charlie) estou radicalmente do lado da mulher, mesmo que me aflorem raivinhas-de-dentes quando algumas ‘se põe a jeito’ dando uma segunda oportunidade ao agressor, mas isso sou eu a destilar o meu veneno anti-submissão, e esta derivação canina não me deixa lugar à violência, seja ela qual for, em qualquer dos casos.

Escrever sobre violência doméstica é perigoso.
Escrever sobre violência juvenil é um pântano.

As dúvidas sobre o que leva um miúdo a agredir a namorada eleva o problema a um outro patamar. Não é suposto que um miúdo com 18 anos seja alcoólatra, que esteja no desemprego, que sinta ganas de matar por ciúme, que tenha um historial frustracional capaz de partir para a violência gratuita, derivado de recalcamentos antigos, que sempre atribuímos à violência adulta.
A profundidade do pântano é desconhecida, não sabemos se a água podre se fica por ali, ou se vai desaguar em violência crescida, violência assumida, ao chegar a idade adulta.  É que vede, para mim a juventude é uma parede branca. Um inicio. Um maravilhoso inicio para tudo o que pode vir a ser, e a esperança que traz uma parede branca, imaculada, onde nos podemos perder em pinturas, quadros, estantes, ou apenas abrir nela um buraco e fazer uma janela, deve ser de todas a mais protegida. Manter a parede mestra de pé, urge. Sem parede ninguém pinta, sem parede vão-se os sonhos.
E as janelas.
A parede mestra [na violência juvenil] é aquela que divide o mais forte do mais fraco, o mais cool do mais totó, o mais abonado do mais endinheirado, o mais esperto do mais inteligente. É a que trava impulsos infantis do género tau-tau, do género filial, sem consequência ou consequência banal.  ‘Levas agora um estalo como me dava a minha mãe, que isso depois passa’. E nós a ver que não, que a raiva juvenil é como um animal acossado, e do estalo ao murro… enfim, já sabemos onde vamos bater com a cabeça.
A parede mestra que urge proteger é que evita a domesticação da violência.
O título do post: ‘bates forte cá dentro’ surgiu-me de forma espontânea quando tentava fazer a ligação entre o exemplo que retiramos diariamente dos reality shows (e das redes sociais que comentam este tipo de programas) e o aumento da violência entre namorados, por um lado, e esclarecer o leitor quanto a este meu conceito de ‘domesticação da violência’.
O que é isso de bater numa miúda em frente dos amigos? E na televisão?
O que leva um fedelho de 20 anos, que mal segura as calças nos ilíacos, a dar uma tareia na namorada, com instintos de macho alfa, entesuado por exemplos domésticos, quiçá inocentes, permitidos socialmente através das televisões e comentários na internet?
Que fraca parede foi esta, que inútil muro é este, que ao despontar da maturidade imberbe, como desponta a barba mal semeada, não foi capaz de evitar o caminho funesto da violência fortuita, experimentativa, curiosa, como o é a adolescência, e que ocupa todo o espaço da relação, caindo desamparado e deixando entulho suficiente para enterrar uma família inteira?
Poderia esculpir aqui uma teoria baseada no aumento da miséria humana, da pobreza, nas raízes secas desta gente, sem eira e nem beira, sem chão. Delinquentes, perdidos nesses bairros sociais, repletos de problemas irresolúveis, engolfados pelo sistema vigente, pobres também no espírito acomodado.
Mas cai-me por terra a parede que tento erguer entre a plebe cicatrizada e a classe menos vadia, entre o bairro social e a classe mediana do subúrbio nascido rente ao Centro Comercial, entre os mal formados e os pouco formados, entre os que se criam na rua sem muros e sem janelas, e os que se criam em casa, atrás de ‘janelas’, que partem muros e partem tudo.
Nas redes sociais não se distinguem. Escrevem todos pessimamente mal, cabeças de galinha e grandes unhas de gel apoiam com ternura um estalo bem dado a uma que já ‘andava a pedi-las’, e aplaudem a atitude correta e inevitável do namorado que deu um puxão de cabelos para dar a lição maternal, e para a ensinar ‘a ter juízo’.
Meninas, mas que é isso?
Quereis ser filhas ou mulheres?
E confundem-me, porque os que escrevem muito bem, os cultos, os interessantes, os participativos, também gostam de pancadaria, que eu bem os vejo… por aí.
Bates forte cá dentro! Pois parece que já nem o pudor e o cuidado de bater ‘como deve ser’ se fica entre quatro paredes.
E agora bates forte também cá fora!, bates forte nos comentários!, bates forte atrás do anonimato!, bates forte escondendo a cara!.
E bates forte na discoteca com um telemóvel a gravar o gajo a apertar-lhe o pescoço.

Foi-se a parede mestra.
Domesticou-se a violência.
E assim vai a juventude.
Como eu, que vim agora do Facebook, precisamente de uma caixa de comentários que comenta alarvemente a agressão ‘nada de especial’ de um rapazola à sua namorada da Casa dos Segredos, mãezinha do céu! o que para ali vai de apoio feminino ao rapaz que agrediu a miúda à chapada e de rapazolas cheios de tudo, nos peitos vazios.
Batem-me forte cá dentro, estes que no fundo andam é a bater muito mal!

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Campanha contra a violência no namoro – Quem te ama, não te agride!
[youtube https://www.youtube.com/watch?v=yUzMM_2ZV5A]

Afinal as mães não envelhecem

Escrevemos muito sobre os filhos, sobre os sentimentos que temos por eles e o que significa para nós ter aqueles dois olhinhos pequeninos ali, primeiro ao nível das nossas pernas, depois da cintura, depois do peito, e sempre a subir… olhos tão curiosos e brilhantes, bonitos, risonhos, e desdobramos-nos em mil temas sobre a responsabilidade de os ensinar a viver, de os fazer crescer até que se tornem adultos, completos, felizes, enfim, futuros cidadãos que criamos com enlevo e com a esperança de que queiram bem aos outros, e que nos queiram sempre bem, a nós.
E escrevemos muito sobre nós, e o que é ser mãe, a gravidez e o parto, a complexa metamorfose do corpo, o peito que descaiu, o casamento que esfriou, o trabalho que se empina na secretária, a vida de todos os dias envolta em mil tarefas domésticas chatas e rotineiras, e o que isto nos custa a cumprir.
E como custa!

Mas hoje faço diferente.
Hoje decido afastar-me de mim, da minha filha, da minha maternidade e dos meus pequenos tormentos diários, e encosto o meu corpo ao corpo da minha mãe, para lhe sentir o calor, a vida pulsada que me envolveu e me criou, e que me ajuda todos os dias, na difícil tarefa de me manter à tona como mulher e como mãe, mas sobretudo que nunca me abandona como filha.

A minha mãe fez 61 anos.
É praticamente impossível acreditar que a nossa mãe faça anos, quanto mais 61.

Quando eu era só filha, ouvia muito dizer que para as mães os filhos nunca crescem.
É uma tremenda injustiça pensar nisto unilateralmente, já que eu, como filha, também creio que a minha mãe nunca envelhece.
Parece-me que para ambos, mães e filhos, houve um momento lá atrás que ficou cristalizado no tempo. Houve ali um segundo em que o tempo das mães e dos filhos parou, exatamente no mesmo momento.
E para ali ficaram os dois, para sempre.
Para mim, a minha mãe está lá atrás, naquele tempo, e quando a procuro, vou ainda ao encontro duma mãe muito alegre, que me abria tomates com sal, e segurava sedutora o seu cigarro pequenino com mãos sapudas, mesmo que por estes dias a encontre pachorrenta, com uma mão segurando uma cara redonda e com a outra fazendo festas num gato, tão lânguido como ela.
Continuo no entanto sorvendo dela os ensinamentos de outros tempos, agora com mais atenção, com mais cuidado, mas gosto de pensar que tenho a mãe que sempre tive, e que tenho a mesma mãe de sempre.
A minha mãe não envelhece e não está velha. Coleciona os anos, as vivências, as durezas da vida, mas é ela, aquela mãe.
Outros há, que ilusionados pela torpeza da maternidade vêm dizer que só quando uma mulher se torna mãe é que descobre e entende, finalmente, a importância da sua própria mãe.
Discordo.
Esta descoberta, que muitos atribuem erradamente à maternidade, é feita ao longo de toda a vida com o apurar e o afinar dos ensinamentos filiais, que desde criança fomos sorvendo.
Creio que a maior descoberta de uma mulher não é a maternidade, mas sim a descoberta do amor filial que consegue sentir pelos outros, que consegue dar aos outros, filhos ou não, e que sem se aperceber aprendeu com a sua mãe.
É no fundo a mãe que nos ensina como amar.
E ninguém ensina como ela.

Percebo porque escrevemos tanto sobre os filhos, e sobre nós.
Uma vida inteira não chegaria para (des)escrever as palavras minha-mãe, o que me fez a mim, o que fez por mim.
De todas as vezes que me senti na escuridão (da imaturidade), na loucura (da idade), no desespero (do amor), no desconhecido (da maternidade), e na incerteza (da vida), foi ela que me deu as ferramentas para que eu conseguisse abrir as minhas janelas, e muitas das vezes abriu-as ela por mim.
Crescemos juntas, as duas, a minha mãe e eu.
Somos as duas da mesma idade, porque somos só uma.
Lá atrás naquele tempo.

Quem é ela?

Sou eu.

 

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Apesar de me sobrar pouco tempo para me dedicar a uma boa conversa com amigos, dessas sem horários e sem pressas, ainda que seja ao telefone, arrisquei a meia hora que me sobrou do almoço, subtraindo o tempo que dedico com grande prazer ao meu diário e viciante périplo pela internet.
Agarrei no meu apêndice electrónico, um smartphone de última geração ligado pela veia safena ao meu escritório, limpei-o cuidadosamente à camisola, e cliquei na tecla de marcação rápida: amiga de infância.
A chamada arriscada é uma de entre as mil que faço diariamente por motivos profissionais, e é bem capaz de ser interrompida, mas cuido que a amiga de infância compreenda os motivos (todos de força muito maior, claro) e se a conversa ficar a meio, conto resolver a coisa de forma natural com um ‘mando-te uma mensagem pelo facebook e combinamos um café’.
– Então miúda, estás boazinha?
– Não te sei dizer, mas qualquer dia levanto-me da secretária onde tenho o computador, e trago a cadeira agarrada ao rabo!
– LOL!

Este LOL não foi escrito em parte alguma, pois que falávamos ao telefone, este LOL dito pela minha amiga como se fosse a coisa mais natural desta vida, é a prova, se é que alguém precisa de provas, de que a dependência crescente e alarmante que todos temos das novas tecnologias, contaminou definitiva e irremediavelmente a forma como nos relacionamos.
A minha amiga de infância sonegou à sua personalidade a sonora e agradável gargalhada, imagem de marca desde que nos conhecemos há mais de 20 anos, para a substituir por um termo informático grosseiro.
Sem a risota do costume, a conversa tornou-se rapidamente monocórdica e sem interesse.
Ela já sabia da nossa viagem ao Porto, viu ‘as fotografias no Facebook, e a miúda está enorme!’, já sabia a minha opinião sobre os acontecimentos de Paris, o que penso sobre a mortandade dos rinocerontes em África, tudo por um punhado de queratina que vale 75 mil euros o quilo, e até sabia que na terça-feira não me senti muito bem por razões de um desarranjo intestinal qualquer, desses que nos trazem uns vírus aborrecidos, mas menos perigosos que os informáticos.
Hoje em dia dar uma novidade a alguém é uma verdadeira aventura, senão uma impossibilidade.
Com cada vez mais gente ligada mais tempo, com acesso a tudo o que é notícias, novidades, acontecimentos e descobertas, o mundo tornou-se num ovo e as boas-novas dão-se no mural, no post de segunda-feira, e até o parto do primogénito, coisa intima e de recato, é escarrapachado num vídeo onde os amigos e conhecidos se deleitam com gostos virtuais e comentários de grande profundidade, tais como: ‘credo, isso ficou feio’ ou ‘a minha costura foi mais atrás, mas agora quase não se nota’.
A dependência da Internet é generalizada e as camadas mais jovens são as que estão mais expostas ao problema.

Falamos informaticamente todos os dias, ou pelo menos vamos sabendo uns dos outros pelas redes sociais, e isso parece bastar-nos para preencher a lacuna social sonegada pela falta de tempo e pela primazia da vida profissional sobre a vida pessoal, ou antes, serve-nos para apagar uma certa culpa que é nossa, de paulatinamente preferirmos estar em casa, agarrados ao computador, em vez de sair para encontrar as pessoas que outrora fizeram parte da nossa vida real.
Enquanto eu, menina e miúda, corria para a rua, para a discoteca ou para o café, os nossos filhos correm para casa, para os seus quartos, para se ligarem ao skype, e lá permanecem horas e horas, muitas vezes madrugadas adentro.
Muitos deles baseiam a relação com os colegas e com os amigos apenas na condição virtual que conseguem desenvolver em casa, muito por culpa (não se sabe bem de quem), de que os meninos na rua, correm um grave perigo de vida.
´Putos que crescem sem se ver, basta pô-los em frente à televisão’… é assim, agora mais do que nunca.

Quantos casos de adolescentes conhecemos que deixaram para trás um percurso académico de bom nível para se fecharem no quarto a jogar computador dia e noite?
Vários estudos elaborados por terras lusas dão conta da existência de quase três quartos (73,3%) de jovens viciados na Internet, sendo que destes, há 13% que exibem níveis severos de dependência. Níveis severos de dependência, miúdos de 13 anos internados em clínicas de recuperação, com depressões profundas provocadas pela abstinência. E aumenta a cada dia…
É um número assustador se pensarmos que todos estes miúdos vão ter um grau absolutamente pavoroso de inadaptação ao meio profissional onde se trabalhe por exemplo em equipa, ou sem recurso a novas tecnologias (trabalhos indiferenciados) e onde vão sofrer na pele a total inadequação ao meio social, que não adquiriram por força do isolamento.
Na fase das entrevistas de emprego o desastre é total. A perda de lugares profissionais [emprego jovem] é também um sinal de que muitos jovens são totalmente inaptos para transmitir ao seu empregador/entrevistador  as suas capacidades (muitas das vezes sublimes), gorando muito por culpa do acanhamento e do parco vocabulário verbal, as expectativas de uma vida.
E já nem falo dos problemas que isso traz a todos nós enquanto sociedade.
O meu exemplo é flagrante. Sou cada vez mais dependente, muito embora consiga escamotear a dependência porque sou um adulto consciente, e do passado trago ainda as melhores recordações da minha vida com os outros, que perpétuo o mais que posso e sempre que posso, tendo ainda enraizada uma infância e juventude muito longa, sem internet e sem prisões domiciliárias, onde adquiri as ferramentas que hoje me ajudam na relação com os outros-de-carne-e-osso.
Não direi pois, que me encontre já catatónica, em estado avançado de demência tecnológica, mas a verdade é que não consigo distanciar-me muito da internet e das minhas redes sociais, e do telemóvel nunca me separo.
Exacerba esta dependência o meu trabalho (8 a 12 horas diárias), todo ele feito com apoio tecnológico, e até a minha escrita, aquela que passa na frente dos olhos de tanta gente, toda ela baseada em pesquisas e leituras que faço na internet e que partilho na internet.
Não tenho forma de me afastar do vício.
Sou dependente, mas tenho consciência de como aqui cheguei.
Tenho um computador desde os 15 anos. Telemóvel desde os 19.
Se o meu caso é grave, imagino os que começam na 1ª infância a ter contacto com as novas tecnologias numa base diária e sem restrições.

A minha filha usa a tecnologia, muito por minha culpa, desde os 5/6 anos (e a luta foi renhida), altura em que começou a perceber que a interação que obtinha com o computador da mãe era muito mais interessante do que a televisão ou do que os brinquedos cor-de-rosa que abundam no quartinho.
Entornámos o caldo demasiado cedo.
A minha luta é tentar ao máximo que a minha filha de 8 anos não se isole ou não crie comportamentos antissociais que lhe vão ser imensamente prejudiciais na vida adulta, mas a verdade é que eu estou aqui a escrever isto, é domingo, e ela está agarrada ao tablet (que eu comprei) interessadíssima num boneco [Pou] que faz cocós roxos, e às vezes verdes.

Eu, enquanto escrevo este texto, medito sobre o que vou lendo sobre o tema: ‘noutros países, estão a ser dados passos na farmacologia, no sentido de desenvolver novas drogas que atuem sobre estes casos específicos’, ‘em Portugal, o Plano Nacional dos Comportamentos Aditivos e das Dependências 2013-2020, aprovado na semana passada pelo Conselho de Ministros, prevê o alargamento da área de intervenção do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) às dependências sem substância como a Internet’, ‘por cá ainda não há nenhuma iniciativa do género, para a prevenção dos comportamentos aditivos relacionados com a internet’.

Resulta-me claro que a única forma de evitar a dependência não é retirando radicalmente a internet aos miúdos, isso seria privá-los de uma evolução que está aí e da qual (já) não podemos prescindir, mas antes atrasar ao máximo a entrada das novas tecnologias em casa, de forma sistemática.
Uma criança de 3,4, 5 anos, não precisa de um telemóvel ou de um tablet para brincar.
Uma criança de 3,4, 5 anos não precisa de um quarto cheio de brinquedos electrónicos que brincam sozinhos e que não preenchem a sua natureza primordial que é a de desenvolver a imaginação.
Os livros, muitos livros, as histórias no fim do dia, jogos simples, objetos simples, a música, as pinturas, a plasticina, tudo isto dá alegria e profundidade mental às crianças.
A iniciação mais tardia de uma criança na lides da internet não vai fazer com que ela perca o comboio da tecnologia ou que seja menos feliz (e mais inadaptada) na sua idade adulta.
O cérebro de uma criança é uma esponja voraz. Não tem qualquer necessidade de ser programador informático aos 14 anos e nem de ser o feliz vencedor dos 234 jogos que joga on-line com amigos virtuais.

Em suma, e como tudo na vida, a regra é moderar a utilização da tecnologia nos mais velhos, e atrasar o mais possível a utilização sistemática da internet aos mais novos.
Isto só é possível através de atividades atrativas, se possível em grupo.
Podem não acreditar, mas aqueles pais que exibem orgulhosos os filhos de 2 anos a tactear um ecrã com mais destreza que um adulto, é um sinal não de inteligência da criança (isso mede-se sobretudo pela sua capacidade de interagir com os outros) mas um sinal bastante claro de que o caldo já começa a entornar-se, e que muito possivelmente haverá uma tendência natural dessa criança em dar primazia a um mundo virtual, que é absolutamente apaixonante, deixando para trás a enorme alegria que é participar na diversidade da vida e da natureza e no prazer que é o convívio com os outros, presencialmente.

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TPC – Trabalhos de casa ou uma carga de trabalhos?

Há palavras que fazem mais sozinhas do que frases inteiras, todas juntas. É o caso. O adjetivo ‘solene’, por ter em si duas derivações opostas, é o que mais se assemelha à atualidade do nosso mundo escolar, isto é, duas formas de agir, e de reagir, dentro do mesmo conceito. Respeito e aparato. Dois sentidos diferentes, o mesmo significado.

Assim vai a nossa escola, baralhando tudo.   Pais e professores, dois grupos inseparáveis na formação das crianças enquanto indivíduos, duas pedras basilares que contribuem em pé de igualdade para o seu desenvolvimento, são muitas vezes a causa, e o efeito, que transforma aquilo que deveria ser importante, calmo e majestoso, (solene) num aparato estridente e confuso que nos funde a todos, educadores e educandos, numa espécie de anel apertado de regras e deveres, que a todos desgasta e consome, causando um atrito que faz separar os grupos que mais se deviam unir.

Cresce a distância entre aquilo que é o papel da escola e aquilo que é o papel da família, sendo cada vez mais visível a mistura de papéis, e a confusão das crianças.

Quero com isto dizer que, da mesma forma que os professores foram confrontados com um aumento da permanência das crianças na escola, também eu sou diariamente confrontada, para não dizer obrigada, com/a desenvolver tarefas escolares que apesar de serem da minha filha e pertencerem ao espaço da escola, me são servidas por altura do jantar, como se fizessem parte do meu menu diário.

Na verdade sinto-me cada vez mais refém da vida escolar da minha filha, e posso mesmo afirmar que a nossa relação se vem deteriorando a cada dia por razões totalmente impostas pela escola. O meu caso não é único, e são grandes as diferenças entre professores.

Os trabalhos de casa, imensos, diários e repetitivos – que não acrescentam em nada à aprendizagem ou à evolução escolar da minha filha, isto se pensarmos que está 8 horas dentro de uma escola (e mais de dois terços dentro da sala de aula – vêm ocupar um tempo que é meu! Ora se a criança necessita dos dois grupos basilares (escola e família) para se fazer enquanto indivíduo, há aqui uma notória usurpação por um dos grupos na educação da minha filha, e como a balança pende totalmente para a escola, o desequilíbrio surge na família.

A escola e a família

A escola impõe-se à família através dos trabalhos de casa, e isto é desrespeito, quando deveria ser solene. Oiço dizer que as crianças são mal-educadas. Pois são. E serão. A razão radica tão-somente no papel da família, sem tempo e sem fulgor, tão reduzido e tão mínimo que é quase imperceptível na identidade da criança. É como se a criança fosse obrigada a trabalhar sempre através da escola, sem descanso, tornando-se prisioneira do seu próprio desenvolvimento, prisioneira do saber académico.

A minha filha de oito anos quando chega a casa deveria ter o tempo que lhe resta para absorver a educação filial, dos afetos, das brincadeiras, dos ensinamentos, das emoções, mas não, a minha filha chega a casa para continuar os ensinamentos da escola. Além de ser excessiva esta espécie de formatação académica, a escola está a cometer um grande e perigoso erro: rouba-me o tempo e enfada e satura a criança, que a curto prazo pode criar anticorpos contra a escola e vir sofrer de falta de criatividade, isto é, falta de liberdade para brincar, tempo para pensar, tempo para si enquanto indivíduo, impedida de estar sozinha, enfiada que está num meio coletivo, numa aprendizagem unilateral, pejada de números e letras, em cadernos enfadonhos e sem cor.

«O meu tempo de mãe é-me assim roubado por três composições, quatro tabuadas e contas ambíguas de somar.»

O meu tempo de mãe é-me assim roubado por três composições, quatro tabuadas e contas ambíguas de somar. E é aqui que entra o aparato. Porque eu disparato.   E disparato com a miúda, que não sabe escrever como eu, que a cada palavra apaga, a cada conta erra, porque são dez e meia da noite e o texto ainda vai a meio. E eu tenho o saco cheio. E só me apetece é ralhar com a professora, coitadinha da senhora, que até é minha amiga. Como disse lá atrás, sinto que a escola está a educar a minha filha, mas não só.

A escola com a sua mania de mandar trabalhos para casa, especialmente esses travestidos de Natais, São Martinhos, dias de Mães e de Pais, e com a sua rocambolesca teoria de que só assim se consegue que os (irresponsáveis) pais façam algumas atividades em conjunto com os filhos, está no fundo a dar palpites e a impingir-me um tipo de relação que não quero ter com a minha filha. E vou mais longe, está a tentar ensinar-me como devo relacionar-me com ela.

A escola, ao tentar unir os pais aos alunos, com cópias e ditados ‘inocentes’, está sim a separar a família dos filhos e ainda mais os alunos da escola. Desde que a minha filha começou o seu longo percurso escolar, há três anos portanto, que tenho escola por todo o lado.

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