Nunca fui uma pessoa que ambicionasse muito ser mãe. Não me via no papel de cuidadora, talvez por ter sido a filha mais nova e estar habituada a que tratassem de mim. Nunca gostei de brincar com bebés nem tão pouco aos pais e às mães. Gostava de aventuras, brincadeiras e ação. Obviamente que não tinha noção do que era ser mãe.

Hoje sou mãe de quatro. A aventura que tanto prezava em criança está claramente presente no meu dia-a-dia e não trocava um minuto da minha vida com com os meus filhos por nada deste mundo.

Tornamo-nos mães quando engravidamos. Não há nada que nos prepare melhor para a maternidade do que aqueles 9 meses de estágio onde percebemos que não só ficamos com uma barriga (muito) maior, mas que com ela cresceu também o nosso coração. Porque o coração de mãe é tão grande que cabe nele amor infindo.

Conforme o bebé vai crescendo na nossa barriga, uma mãe vai crescendo dentro de nós. Começamos a pensar por dois e alterar os nossos hábitos diários pondo sempre as necessidades e bem-estar do nosso filho em primeiro lugar!

Quando vemos o nosso filho a primeira vez e o põem junto ao nosso peito, descobrimos que é possível chorar por amor. Damos-lhe um beijo e sussurramos entre lágrimas que o vamos fazer feliz.

Ser mãe não se aprende na escola, nos cursos de preparação ou nos livros. Ser mãe aprende-se com os filhos, que nos orientam através das suas necessidades. Mas ser mãe não é só mudar fraldas, dar papas, e ajudar com os TPC até que sejam autónomos e saiam de casa.

É sorrir quando nada corre como previsto. É sentir o vazio quando os deixamos na escola nos primeiros dias. Ser mãe é nunca mais estar sozinha, nem nos nossos pensamentos. É querer proteger os filhos e querer que os filhos se tornem autónomos e custar-nos tanto que sejam.

Ser mãe é ter de ouvir conselhos (e até palpites!) mesmo sem nunca os pedir. É ter jogo de cintura para lidar com a opinião alheia.

Ser mãe é saber sempre como resolver as questões dos filhos dos outros e não saber o que fazer quando é com os nossos.

Ensina-nos a gerir o tempo, uma casa, uma família. Ensina-nos a lidar com birras e choros. Aprendemos a esconder legumes na comida, a montar legos e a tirar nódoas da roupa. Tornamo-nos mais altruístas para estar com os nossos filhos. Tornamo-nos capazes de enfrentar obstáculos pelos nossos filhos.

Ser mãe é voltar a jogar ao elástico, a brincar à apanhada, a inventar músicas patetas e dançar com os miúdos quando ninguém está a ver. É ter uma casa cheia de sorrisos e de brinquedos e pedir ora que os nossos filhos cresçam, ora que fiquem para sempre bebés.

Porque sabemos que a fase em que estamos é exigente, mas poderá ser a melhor da nossa vida.

 

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Desculpa, desculpa, desculpa filho! Milhões de vezes desculpa.

Até diria que nem mereço que me perdoes, porque tu, és tão puro e inocente que nem sentes que precisas me perdoar. Tu és tão incondicional que és meu, com todos os meus defeitos… Ainda assim, quero pedir-te desculpa!

Desculpa por todas as vezes que me pediste colo e eu não to dei. Nada justifica não o dar. Tu não vais ser mimado, não vais ficar mal habituado, e eu nem estou assim tão cansada. A verdade é que um dia muito em breve, já não vais querer o meu colo, e eu vou estar ainda mais arrependida pelas vezes que não to dei.

Desculpa por todas as vezes que te falei mais alto. Pela paciência que me faltou, pelos afazeres que me exacerbaram e que me fizeram falar-te mais alto e de forma impaciente. O certo é que tu recorreste a mim, e eu não te correspondi.

Desculpa pelo cansaço… pela exaustão que às vezes toma conta de mim e que não me deixa acompanhar as tuas correrias, as tuas emoções ou a tua alegria! Nunca deixes de ser assim. Mesmo que a mãe te diga que está cansada, não desistas de mim.

Desculpa por ter que trabalhar. Por te deixar a maior parte do dia com pessoas que não sou eu. Por apenas estar contigo um par de horas por dia. Por não conseguir estar mais tempo contigo e acompanhar mais o menino em que te estás a tornar. Eu prometo que tento, e que estou contigo todos os minutos que consigo.

Desculpa por ter sono quando ao Domingo de manhã queres ir jogar à bola. Por ir muitas vezes ainda meio ensonada e a esfregar os olhos, e muitas vezes tentar dissuadir-te da ideia.

Desculpa por ter muitas coisas para fazer. Roupa, loiça, pó… E ainda que tente sempre fazer disso uma brincadeira, se eu pudesse as nossas brincadeiras seriam sempre outras.

Desculpa filho, se a vida é injusta! Se o mundo não está preparado para me deixar ser completamente tua mãe! Muito disto não é a minha culpa, mas ainda assim, tu és o mais importante da minha vida, e o que lhe dá sentido. E por isso mereces o meu pedido de desculpa, hoje e sempre, mesmo que não o queiras.

Finalmente chegou o dia da reunião de família. Fazemos sempre uma, quando temos um assunto importante a tratar ou simplesmente quando nos apetece falar em modo reunião de condomínio catita e votar em qualquer coisa.

Esta era uma reunião fabulosa-especial, era a reunião onde iriam ser definidas as regras para ser feliz.

Durante uma semana, cada membro da família tirando o gato, tinha de pensar em duas regras importantes para a felicidade e bem-estar da nossa família. Estas seriam depois apresentadas e votadas na reunião pelos restantes membros. Após a reunião, seriam afixadas com lugar de destaque no frigorífico as “Regras da Casa Catita”.

O pequeno catita, em grande euforia, apresentava as suas duas propostas a serem votadas.

Regra número 1

“Número 1: Não nos podemos magoar uns aos outros, no corpo nem no coração.” 

Fiquei um bocado atrapalhada-feliz com aquela primeira regra, ao pé das minhas a dele era muito mais madura e profunda. Tinha tantos níveis implícitos do que tentamos, apesar dos mais variados trambolhões, respeitar nele e em nós… Tinha empatia, cuidado com o outro, noção de que o coração se magoa tanto ou mais do que o corpo… Pensei que em vez de regra da casa, devia era ser regra do Mundo.

Sem qualquer tipo de dúvida, a regra número 1 foi aprovada por unanimidade!

Regra número 2

“Número 2” gritava entusiasmado “Respeitar o tempo e o trabalho de cada um.” Ora bem, quem és tu e onde está o meu filho?! Os miúdos têm esta característica fabulosa de nos surpreender. Desde sempre que lhe explico como é importante termos o nosso tempo, darmos tempo e respeitarmos os outros no que estão a fazer. Refiro a importância de passarmos tempo sozinhos, de estarmos na nossa própria companhia e de fazermos o que nos entusiasma para carregar a nossa pilha interior. Ele parecia não ouvir NADA do que lhe estava a dizer. E do nada, vem a regra número 2 cheia de respeito e consideração pelo outro. Foi neste momento, que pensei em dizer que o gato tinha comido o meu TPC das regras.

Regra número 3

Seguiu-se o pai catita com a regra número 3 “Todos os dias, passar 20 minutos em família.” Não temos todo o tempo do mundo, mas temos aqueles 20 minutos. Até podem ser passados no carro parados no trânsito a fazer coreografias idiotas com as músicas que estão a dar na rádio. Ou a dobrar os lençóis da cama, enquanto o pequeno catita mergulha animado por baixo deles. São 20 minutos em que estamos lá todos, juntos. Totalmente presentes.

Regra número 4

Regra número 4 “Não podemos ir dormir chateados uns com os outros”. Esta regra foi a única que definimos quando eu e o pai catita começámos a viver juntos. Nos dias em que ainda estávamos chateados na hora de dormir era MUITO incómoda, mas é tão importante para os sentimentos e pensamentos enrolados não crescerem dentro de nós como ervas daninhas que nos separam um do outro. É uma espécie de restart do computador, em vez de levar a noite toda com um murro no estômago e vontade de morder em alguém. Antes de dormir, tínhamos de falar e resolver a situação. Ou pelo menos dar o primeiro passo, ou o primeiro abraço.

Regra número 5

Já eram quatro as regras aprovadas em família. A regra 5, surge de uma antiga e acarinhada tradição cá de casa. “Fazer uma refeição na mesa e uma no sofá, sempre juntos.” Ora na mesa, ora acampados no sofá com tabuleiros. É a nossa versão de pic-nic na sala. O importante é estarmos todos JUNTOS e a conversar!

Regra número 6

Regra número 6 “Contar sempre as coisas como elas aconteceram” . O ano passado, percebi que o pequeno catita não me contava filme todo. Usava uma versão trailer dos acontecimentos com os ingredientes que achava pertinentes e úteis para a sua versão. Para o ajudar a ser mais claro na sua comunicação e versão dos factos, inventei o jogo Contar as coisas como elas aconteceram”, que vai trabalhando de uma forma divertida o primeiro passo da comunicação não-violenta, a observação sem julgamento. Olhar com olhos de polícia para os acontecimentos, e apenas referir o que foi visto e ouvido. Para além do ajudar a ser mais objectivo e verdadeiro, trabalha a naturalidade de nos contar o que se passa na vida dele, criando e fortalecendo o canal de comunicação. Esta regra estendia-se agora a toda a família, por isso os “tu nunca lavas a loiça” e “chegas sempre atrasado/a” iriam ser substituídos por observações neutras que promovem o diálogo e não o ping-pong de acusações.

A reunião acabou e todos se sentiam entusiasmados com as novas regras. Nos dias seguintes, perante alguma situação menos consciente, o pequeno catita referia que cá em casa cumprimos as regras, e apontava para o frigorífico.

Sabes, quando as crianças se sentem parte do processo a sua vontade de colaborar é gigantesca porque sentem-se vistos, reconhecidos e ouvidos. Sabem que contam, e que nós também contamos com eles e com os seus pequenos dedinhos para nos apontarem o caminho para as regras mais importantes, as regras que nos fazem felizes.

A maternidade é como a idade – bonito é fingir que não passamos por ela

Recordo-me perfeitamente de estar no final da gravidez da nossa filha – inchada, com asma resultante da gravidez, um refluxo que só me permitia dormir sentada, pés que pareciam batatas – e de repente aparecer na televisão a Kate Middleton, poucas horas depois de dar à luz pela segunda vez, em pé, na rua, com o recém-nascido ao colo, num maravilhoso vestido amarelo, com ar sereno de quem não tinha feito nada de especial nas últimas horas.

Senti de imediato a pressão para ter um pós-parto igual, até me senti uma drama queen por estar estatelada no sofá a respirar com dificuldade, quando aquela mulher depois de um parto estava ali firme e hirta, penteada e maquilhada.

Quando a nossa filha nasceu voltei a sentir que era menos capaz do que a Kate – no dia seguinte ainda precisava de uns bons 10 minutos para me levantar, arrastava-me pelo quarto, usava uma mola que mal prendia o cabelo, estava pálida e olheirenta e o único vestido que me apetecia usar era o vestido de noite largo e manchado de leite da noite anterior. Estava exausta, não queria tirar fotos nem esboçar sorrisos forçados, apenas permanecer encostada à nossa filha, a apreciá-la, com direito a dormitar pelo meio.

Estive rodeada de pessoas fabulosas, mas com o regresso a casa começaram os zumbidos de “agora tens de recuperar a tua forma“, “em breve a tua vida vai voltar à normalidade“, “tens de voltar a cuidar de ti como antes”.

Por que é que temos de fingir que não mudámos, que não nos tornámos mães? Por que é que temos de “voltar à normalidade” como se nada tivesse acontecido? A que se deve tanta pressa?

A maternidade e o pós-parto tornaram-se uma espécie de capítulo curto na vida das mulheres que deve ser rapidamente lido e encerrado, sem tempo nem espaço para o viver. É como se existisse uma competição subtilmente incutida de “ganha quem recuperar mais rápido a forma, retomar a sua rotina e transparecer não ter sido mãe!”.

Ser mãe não é um capítulo, é a própria história, um aspecto que estará presente em nós pela vida fora, diria até uma característica. Não é uma fase passageira, é um modo de vida, uma escolha que fizemos e que merece ser plenamente experienciada. Ser mãe é uma eclosão! Como qualquer mudança de vida significativa, exige tempo para lidarmos com todas as transformações inerentes, emoções mais e menos positivas, certezas e dúvidas, derrotas e vitórias. Por que nos levam a pensar que devemos passar por cima disto todas apressadas? Desde quando uma mudança tão importante deve ser vivida com ligeireza?

Sou mãe, jamais serei a mesma, não me peçam para fingir que nada mudou! O meu corpo ganhou um novo formato, aquele que permite à nossa filha encaixar-se perfeitamente nele, a minha vida ganhou outras prioridades, o meu coração cresceu desmedidamente, o meu pensamento foca-se em fazer a nossa filha feliz pois essa é para mim uma fonte de satisfação.

Claro que aos poucos me vou recuperando enquanto mulher, ganhei vagar e motivação para cuidar mais de mim, para esporadicamente sair a dois. Ainda assim, nada será igual, não é suposto ser! A nossa filha existe e faz parte de nós SEMPRE, mesmo quando não está presente.

Sou uma menina-mulher que se tornou mãe e que dois anos depois continua a aprender a desempenhar este papel. Estou em constante reconstrução, ganhei responsabilidades e a bênção de criar uma família.

Onde quer que me vejam, irão ver uma mulher que nunca mais descansou o mesmo, que se questiona sobre as suas práticas parentais, que cuida menos de si, mas que transporta nos seus olhos o brilho próprio de quem reconhece o valor da honra de ser mãe – não nos tentem tirar isto!

Como falar sobre o cancro às crianças

A doença chega muitas vezes sem avisar e a oncológica não escapa à regra. Instala-se matreira, à socapa e muitas vezes é detetada já num estágio avançado.

E se para um adulto o diagnóstico chega acompanhado dum enorme pesar, rodeado de porquês e emoções difíceis de compreender, explicar à criança esta doença é uma missão extremamente difícil para qualquer pai ou mãe, por várias e compreensivas razões.

Numa fase inicial após o diagnóstico é comum surgirem as grandes preocupações: “será que tem cura?” “como vai ser com os meus filhos ?” serão talvez as questões que mais passam pela cabeça de quem recebe o diagnóstico, associadas sentimentos de medo e de profunda tristeza.

De forma protetora a pessoa pode então fazer alguma dissociação da situação, distanciando-se do problema. É como se estivesse a ver um filme, algo que não é real e em que não é o(a) protagonista. Este evitamento da doença pode perdurar mais ou menos tempo, mas a confrontação com a necessidade de tratamento ou de intervenção cirúrgica vem deitar por terra este provisório faz de conta.

E se até então por vezes se esconde das crianças a doença, é aqui que se revela inevitável comunica-la e falar com os filhos. Vêm as noites em branco ou mal dormidas a ensaiar mentalmente o que se vai dizer.

O primeiro cuidado que qualquer pai ou mãe deve ter antes de falar com os seus filhos sobre a doença é informar-se previamente, recolhendo dados de forma realística e científica, mas tendo presente que o que é verdade em ciência hoje pode não ser amanhã. Quer isto dizer que, um diagnóstico reservado pode vir a não ter o desfecho inicialmente previsto e nos moldes teoricamente esperados. Fale claramente com o seu médico, informe-se sobre o delineamento do tratamento, o que é suposto acontecer e esclareça o mais possível todas as suas dúvidas.

Quando sentir que está preparado, explique então às crianças “traduzindo” os conceitos e ajustando a linguagem e a terminologia usada à idade e à capacidade de entendimento. E se não existe uma receita padronizada sobre a melhor forma de explicar a doença oncológica para cada faixa etária, é fundamental que o que dizemos e como o dizemos seja compreendido pela criança. Dito de outra forma, não será necessário inundar a criança com informação excessiva e que ela não consegue processar, mas há que garantir que não ficaram dúvidas, fazendo-o com a maior tranquilidade possível. Não há melhor alimento do medo que a incerteza.

É igualmente importante evitar o contágio emocional. Se o progenitor estiver assustado ou demasiado ativado emocionalmente isso irá ser passado à criança. É certo qua a situação não é fácil, mas é importante manter a esperança e a fé possível num desfecho menos complicado.

Em função do estágio de desenvolvimento da criança assim o diálogo deve ser ajustado. Até cerca dos 3 ou 4 anos a criança não consegue conceptualizar esquemas complicados sobre o que é uma doença. Explicar que tem um “doi-doi” ou que a mãe ou o pai tem um “doi-doi” e que é preciso tomar remédio para ajudar a ir embora será a abordagem mais adequada. Mais do que grandes explicações e por muito aterradora que a doença se imponha, é importante que a criança se sinta segura e muito amada, como, aliás, em qualquer idade.

Para crianças um pouco mais velhas a explicação pode ser um pouco mais detalhada, ainda que com recurso a conceitos simples. Podem ser descritos alguns problemas e sintomas associados à doença, como por exemplo, a necessidade de ir com uma determinada frequência ao hospital para tratar a doença, a necessidade de repouso, as indisposições, o desconforto. Um dos pontos que mais impacto pode ter, pelas consequências no visual da pessoa, é a perda de cabelo. Permita-se encarar com a leveza possível este acontecimento e use a sua criatividade para “dar a volta” á situação. As explicações podem ser complementadas com vídeos ou com literatura infantil. Atualmente já existe algum material de qualidade e que é facilitador neste processo.

A partir dos 7 anos a criança já começa a conseguir entender os conceitos mais concretos associados à doença. Por outro lado começa a desenvolver características emocionais e relacionais mais sólidas. Pode, então, ser mais explicativo mas prepare-se, também, para mais perguntas e para o soltar das emoções. Esta fase é talvez a mais difícil para as crianças, em termos de compreensão, quer se trate da sua própria doença ou de um familiar.

Em tempos, numa festa do dia da família de uma escola, reparei numa criança que chorava. Alguns colegas estavam junto a ela, dando-lhe carinho e ajudando da forma que sabiam e conseguiam. Dirigi-me até ela e na medida em que me permitiu aproximar abracei-a e procurei perceber a razão de estar a chorar. No meio dos soluços, lá explicou que estava triste porque as mães dos outros meninos estavam lá e a mãe dela não porque estava doente. Falámos um pouco sobre a doença e expliquei-lhe que se ela quisesse mãe poderia estar sempre com ela, pois o amor da mãe estava no seu coração. Sim, a presença não é só física e aquela criança percebeu que apesar de a mãe não estar ali, ela poderia sentir a sua presença e o seu amor quando pensava nela com carinho.

Na adolescência o problema pode ser explicado com mais detalhes técnicos e de forma menos fantasiosa. Nesta fase da vida o entendimento da doença oncológica já é relativamente próxima da compreensão e da lógica do adulto. Pode até resultar numa maior aproximação e união entre os vários elementos da família. É comum os jovens passarem a estar mais presentes e a valorizar mais os momentos passados em conjunto.

Tenha presente que, atualmente, a informação está acessível á distância de um clique, mas que nem sempre é a mais adequada ou com a qualidade desejável. Por isso não omita o essencial e o fundamental dentro das possibilidades de compreensão da criança. Tenha atenção às conversas paralelas ou com outros adultos na presença das crianças. As crianças, mesmo a brincar, têm as “atenas sincronizadas” na conversa dos adultos. Evite que sinta que se passa algo que lhe estão a ocultar.

E permita-lhe que questione e que expresse as emoções. Fazer de conta que não se passa nada de grave é, no mínimo, ambíguo e confuso. Dê “colo” e receba o “colo” que, também, precisa. E se possível, permita-se sorrir e fazer sorrir. Uma atitude facilitadora pode fazer a diferença na aceitação consciente da doença por toda a família.

imagem@stopcancerportugal

Pais que “mimam” os filhos estão a criar um geração de adultos deslocados e incapazes de lidar com frustração

À mesa do restaurante, o João faz uma fita a exigir o telemóvel da mãe para se distrair durante o almoço. A Maria atira-se para o chão da loja de brinquedos porque quer que o pai lhe compre aquela boneca, agora. E, sentado no sofá de casa, o Pedro irrita-se com os pais porque quer uma resposta urgente sobre poder ou não ir à festa dos amigos no sábado à noite. Todos eles, independentemente da idade, têm algo em comum: vão tornar-se adultos “mimados”, incapazes de lidar com as frustrações do mundo.

A culpa do destino destes três, João, Maria e Pedro, é do imediatismo que rege as relações atualmente. Temos, enquanto pais, dito muitos “sim” aos filhos quando na verdade, o ideal seria dizer mais “não sei” ou “vou pensar”. Como explica a psicóloga e educadora Rosely Sayão, essa atitude traz como maior prejuízo uma alienação em relação à realidade.

— O adulto que tem o culto do imediatismo, em vez de ser uma pessoa controlada, tem dificuldade em aceitar as situações e inserir-se no mundo.

Pressionados a responder às demandas dos filhos imediatamente, os pais acabam por soltar as respostas impensadas, e a consequência, na visão da coach de vida e carreira Ana Raia, é a criação de jovens pouco preparados para lidar com a vida.

Os pais atualmente não aguentam não ceder ao imediatismo. No passados os pais permitiam-se em deixar os filhos insatisfeitos por muito tempo. Hoje em dia, com o stress, acabam por ceder à pressão rapidamente, criando assim um dos maiores desafios na educação das crianças e jovens: o imediatismo.

Ana Raia acredita que a tecnologia contribui para o imediatismo, uma vez que, ao toque de um dedo no ecrã, a resposta para qualquer pergunta ou busca de informação podem ser obtidas em pouquíssimos segundos. Temos o mundo dentro de nossa casa, dentro da nossa carteira, dos nossos bolsos.

Não conseguimos sustentar uma dúvida por muito tempo, um incómodo, uma pulga atrás da orelha. Não sabemos lidar com um mal-estar num mundo onde a felicidade é imperativa.

E a dúvida, explica Rosely Sayão, é preciosa, assim como a espera e o pensamento porque ajudam a criança a crescer e a amadurecer. Crianças que não têm momentos de “mente vazia”, por exemplo, poderão sofrer graves consequências na vida adulta.

Alguém que está sempre entretido terá para sempre a necessidade de entretenimento constante, alerta o médico Daniel Becker, criador do projeto Pediatria Integral. Defende que, para ser criativo, o cérebro humano precisa da criatividade.

— São necessários momentos de engajamento externo e momentos  de ócio em estado de contemplação. Quando uma criança tem o seu tempo completamente controlado com atividades como escola, inglês, natação, Facebook, Instagram, WhatsApp, etc, acaba por ficar incapacitada de desenvolver processos interiores profundos e importantes.

Becker acrescenta que crianças que não interagem com os seus pares ou mesmo com adultos porque passam o dia com gadgets na mão, desenvolverão menos a inteligência emocional, a empatia e a capacidade de comunicação quando crescerem.

Se este não fosse já um bom argumento, ainda haveria a opinião de outros especialistas, que encaram o hábito dos pais entregarem telemóveis e tablets às crianças, como algo benéfico apenas para os adultos.

Na opinião de Rosely Sayão, dar um gadget à criança em momentos onde seria suposto sociabilizar com a família e os amigos, não é um carinho, mas sim, um comodismo.

— O telemóvel e o tablet nestas situações têm a função do “fica sossegado”, e nada mais.

Mas, então, o que devemos fazer quando estamos a almoçar com amigos ou em família, e os miúdos não param de chatear para irmos embora?

O pediatra Daniel Becker diz que:

“As pessoas esquecem-se que as crianças sabem conversar e que podem fazer pequenas conversas. Mesmo as mais pequenas têm esta capacidade de compreensão. Basta dizer ao filho que, nos momentos em que estiverem a conversar em família, ele não terá o tablet, mas que, quando os pais estiverem a falar só com os seus amigos, ele poderá jogar por 15 minutos. Assim, alcança-se um equilíbrio.

Soluções como esta são recursos para que os pais lidem não só com o imediatismo das crianças, mas também o deles que, de forma não intencional pode servir de exemplo negativo aos filhos, que acabam por copiar as atitudes da família.

Para o pediatra presidente do Congresso Brasileiro de Urgências e Emergências Pediátricas, Hany Simon, a ansiedade e a angústia na adolescência e na vida adulta podem ser resultados do imediatismo paterno presenciado na infância. E, como reforça Rosely Sayão, viver de forma “urgente” só traz impactos emocionais negativos nas crianças.

— Somos escravos do imediato desde que nascemos. Choramos para mostrar rapidamente que estamos vivos, somos atendidos e temos as nossas necessidades básicas saciadas. Com isto, vem também uma sensação de prazer, que vamos desejar para sempre. No entanto, não é o princípio do prazer que vai reger a nossa vida mas sim o princípio da realidade. O papel dos pais é mostrar aos filhos a realidade do mundo.

imagem@umcomo.com

Publicado em R7, adapatado por Up To Kids®

Sou pai. O teu pai.
Saboreio com receio que me escape por entre os dedos o teu crescimento.
Num piscar de olhos, fazes três anos. Já devia ter aprendido com os outros dois, que o tempo é cavalo bravo à solta no campo da nossa existência!
Sou pai. Sou o teu pai. E tu cresceste tão rápido. Os teus irmãos ajudam-nos muito a educar-te. Eles são a prova da passagem do tempo. Ainda ontem eram como tu.
Já não me lembro se foste planeada. Não me lembro do dia do teu primeiro sorriso. Não me lembro…
E tenho medo de não me lembrar do teu sorriso dos três anos. Quero olhar para ti e fotografar-te com os olhos. Para que cresças, claro, leve, livre, solta para o mundo, mas que ao mesmo tempo sejas essa menina muito tempo.
Sou pai. Sou pai e não sou dono das noites que não dormimos. Não sou dono das palavras novas que aprendes todos os dias.
Só sou pai. As tuas Educadoras ajudam-te tanto. Eu, sou só pai. E tento não pensar que falhei. Tento esquecer os atrasos. Os dias corridos sem te poder levar à escola.
Sou pai, só o teu moço pai, sou pai na mercearia, na igreja, no parque, no baloiço, na mensagem que gravei para ouvires no telefone da mãe. Sou pai e ouço o brummm desta locomotiva. Rápida. Esta passagem do tempo.
Num piscar de olhos, estarás mais e mais crescida. Hoje disseste que o pai estava velhinho. Sua marota.
Velhinho como o avô Jaime. Tens cada uma Maria .
Só sei ser o teu pai. Não posso parar as estrelas. Não sei desligar tempestades. Mal sei trocar uma lâmpada. Mas serei só pai. Contarei histórias de dormir. Contarei histórias de acordar. Ficarei feliz por cresceres. Mas não dá para o tempo parar?
Parabéns Maria! Três anos. E eu, só estou a tentar aprender a ser teu pai. E é tão bom

Acordamos a correr, tomamos o pequeno-almoço sentados no sofá a tentar ver as noticias, despachamos os miúdos, penteio-me à pressa, devia meter base nesta cara de morta viva, não tenho tempo, voamos pelas escadas abaixo, a mãe não pode perder o barco, chegamos aos barcos, um beijo, até logo, vou ver se ainda apanho este, eu sigo para Lisboa e o meu marido vai levar os miúdos à escola, antecipo a mensagem quando vou a meio do rio, os miúdos ficaram bem, sem choros, eu sorrio, trocamos e-mail’s durante o dia, tantas vezes sobre os miúdos, as compras, o que vamos jantar, o raio das despesas, é preciso pagar a visita ao circo, pagar, pagar, pagar, uma ausência, para o ano vou não sei onde, eu suspiro, a cabeça regressa ao trabalho, estou farta disto, se eu pudesse mandar tudo mais alto que as estrelas, chega a hora de sair, ligo a avisar, o meu marido vai buscar os miúdos, os nervos do metro sempre com perturbações, as conversas dos outros, detesto pessoas, meto a música cada vez mais alta, envio mensagem a dizer qual o barco em que vou, chego ao outro lado do rio e já estão à minha espera, tentamos conversar no carro entre as birras dela e as cantorias dele, as perguntas sobre o dia com respostas tortas, afinal quero voltar para o trabalho, chegamos a casa, voamos pelas escadas acima, eu dou banho aos miúdos, o meu marido faz o jantar, birras para lavar a cabeça, vamos para a mesa, birras para jantar, não gosto disto, tu gostas disso, camadas de sono, mal conseguimos conversar, vão lavar os dentes e já para a cama, eu adormeço o mais novo, o meu marido a mais velha, levantamos a mesa, a loiça fica para lavar amanhã, arranjo a roupa para o dia seguinte, quem se despacha primeiro é o primeiro a adormecer no sofá, acordamos todos tortos depois da meia noite e arrastamo-nos para a cama, adormecemos até um deles acordar e vir para a nossa cama.

Na pressa dos dias, no carrossel das rotinas, envoltos em sono e cansaço, umas das coisas mais difíceis é não nos esquecermos de existir enquanto casal. Somos uma equipa do caraças que leva o barco para a frente haja o que houver. A casa, os filhos, o trabalho, as responsabilidades, mas também somos o que nos trouxe aqui, um homem e uma mulher que se amam e que se desejam.

As rotinas colam os nossos dias, não tenho medo delas, quero-as todas, o casamento não é feito só de fogo-de-artifício, mas o fogo-de-artifício faz parte e também o quero todo. Sem ele, sem o tempo para os dois, para o desejo, para o picante da vida, é fácil o afastamento. O casamento não é feito só de sexo, mas o sexo, para além de ser bom, é o reflexo da nossa intimidade enquanto casal. Sentirmo-nos desejados, homem e mulher, apesar de sermos pai e mãe é fundamental. É fácil ceder ao cansaço e adormecer no sofá, mas manter a chama acesa não é assim tão difícil. Um jantar a dois ou uma ida ao cinema que acaba num motel da beira da estrada, deixar os miúdos na avó uma tarde e regressar a casa sem medo de sermos apanhados pelos filhos e sermos obrigados a gastar as poupanças em terapia, uma escapadela de fim-de-semana no sitio mais improvável só para passarmos uma noite noutra cama, beber vinte cafés no sábado à noite para conseguirmos ficar acordados depois de adormecermos os miúdos ou mensagens provocadoras durante o dia. Vale tudo o que resultar.

Os filhos são a nossa prioridade, vinte e quatro horas por dia, todos os dias da semana, todos os meses do ano, eles esgotam a nossa energia e enchem o nosso coração de alegria e de vez em quando procurarmos lembrar-nos que somos mais que o pai e a mãe e arranjamos tempo para o fogo-de-artifício.

imagem@weheartit

Desde muito nova sonhaste em ter filhos. Filhos, no plural, porque imaginavas o teu colo cheio, o teu coração a transbordar de amor.

Quis a vida que assim fosse e tiveste três. Amaste-os a todos de igual forma, tiveste para os três os mesmos sonhos.

Hoje falamos do mais novo, aquele que tem os primeiros passos e as primeiras conquistas mais presentes na tua memória, por uma questão de proximidade temporal.

Lembras-te daquele dia em que o tinhas no colo e a casa estava estranhamente silenciosa e ele te sorriu? Disseste-lhe que a rapariga que ficasse com aquele sorriso seria a mais sortuda deste mundo.

Incentivaste-o e deste-lhe sempre a mão. Quando caiu ajudaste-o a levantar-se e prometeste que ia passar depressa. Secaste-lhe as lágrimas e fizeste-lhe cócegas para o fazer rir.

Ensinaste-lhe o que os teus pais te ensinaram a ti, leste-lhe os livros que mais mexeram contigo, levaste-o aos passeios que sentias que lhe dariam um pouco mais de cultura.

Falaste-lhe de história, de religião, da importância da família.

Nas noites de pesadelos garantiste que estavas ali, para sempre. Abraçaste-o e lembraste-o como gostavas dele, como irias gostar até ao fim dos vossos dias.

O menino cresceu.

Começaste a imaginar as namoradas e a ficar nervosa porque, afinal, há coisas que não controlas.

Percebeste, ao fim de um tempo, que as namoradas não iam lá a casa nem se falava muito nelas. Paraste para observar e havia algo que não batia certo, que te deixava um pouco desconcertada, mas não conseguias descortinar o que era – ou talvez fosse o teu mecanismo de defesa a falar mais alto.

Como o teu filho já há muito não te procurava para falar, decidiste ir atrás dele. Sim, pegaste na carteira, no telemóvel, colocaste os óculos de sol e saíste seguindo pelas ruas a rezar baixinho para que não fosse nada, para que nada mudasse.

Viste-o chegar perto de uma pessoa, dar-lhe a mão e um abraço e depois, algo discreto, tão discreto que passaria ao lado de qualquer pessoa menos tu, viste um beijo. O teu filho tinha beijado uma pessoa e era a primeira vez que o vias. E essa pessoa era um rapaz como ele. Tremeste dos pés à cabeça e deste meia volta, não quiseste ver mais. Conto-te agora que não havia mais para ver do que o sorriso de felicidade do teu filho, sentado ao lado da pessoa que o fazia sorrir assim, de orelha a orelha, como só tu anos antes conseguias. Não havia mais nada para ver porque ele era e sempre foi discreto e porque sentia medo. Muito medo, quase tanto medo que se podia comparar com a felicidade que aquele outro rapaz lhe provocava.

Quando chegaste a casa choraste. A maquilhagem que era impecável desceu pelo rosto e manchou a saia branca, uma mancha que nunca mais vai sair, numa saia que nunca mais usarás. Sentaste-te à luz do candeeiro de mesa da sala e pensaste. Pensaste com todo o teu coração e decidiste como poderias enfrentar a situação.

Quando o teu filho chegou a casa chamaste-o e disseste que o tinhas visto – incapaz de nomear o que tinhas visto, é certo, mas ele percebeu de imediato. E o medo que antes lhe vivia debaixo da pele passou para a superfície e olhou-te com os seus olhos grandes à espera do que aí vinha.

Disseste-lhe a frase que jamais esquecerá, mesmo que viva cem anos: ”Tens duas semanas para voltares a ser normal ou podes sair desta casa!”.

Tu, que sempre lhe estendeste a mão, que prometeste que o amarias de igual forma, que nunca lhe virarias as costas, TU falhaste em todas essas promessas quando precisavas de as provar.

O teu filho sabia que não valia a pena tentar explicar-te que nunca se tinha sentido tão normal como quando encontrou alguém que gostava dele daquela forma. Que nunca tinha sido tão feliz, apesar do medo.

Teve a certeza que estava certo quando não te procurou para falar das suas dúvidas e depois da sua certeza. Sentiu um vazio no coração e uma dor tão grande que acreditou que nunca mais ia conseguir voltar a sentir-se alguém.

Aos dezassete anos fez o que querias que fizesse. Dali a duas semanas procurou-te e disse-te que era normal outra vez, que não te preocupasses.

Respiraste de alívio, o teu filho estava de volta.

E assim seguiram e seguem até hoje.

Quero dizer-te que é fácil julgar, mas que todas as palavras que aqui escrevo são da minha perspectiva como mãe e como filha que sou.

Acredito que seja uma grande dor sonhar que os nossos filhos tenham um caminho sem grandes percalços e perceber que a pessoa que são (e que não se muda com ultimatos) lhes reserva alguma amargura. Dor. Julgamento. Constrangimento. Eventualmente alguma violência.

E enquanto escrevo isto percebo que todos os pais querem o mesmo e o mais certo é terem os filhos, seja qual for a sua orientação sexual, a terem no seu percurso essa violência, esse julgamento, essa dor, mas por outros motivos.

Sonhaste em ser avó, mas nunca ninguém te garantiu que o teu filho poderia, quereria ou iria ter filhos – amasse quem ele amasse.

Sonhaste vê-lo entrar na igreja para casar, mas mais uma vez quem sabe se é esse o seu sonho, a sua visão para selar um amor para a vida toda?

O teu filho, lamento dizê-lo, continua a amar pessoas do mesmo sexo.

O teu filho, quando tiver possibilidades de sair da tua casa, provavelmente nunca mais lá entrará por mais de meia hora nem lhe chamará um lar. Porque foi lá que a mãe, o seu porto seguro, mostrou que era exactamente o que ele temia do mundo lá fora. Não o aceitou, nem sequer lhe deu a oportunidade de falar.

Se mãe, ser pai, é amar os nossos filhos incondicionalmente.

Da minha parte tento não criar demasiadas expectativas e ir acompanhando de perto a minha filha.

Porque independentemente de mim ela irá amar. E quem ela amar será algo que só a ela diz respeito.

Ainda há algumas emanas começou a falar do tema “namorados”. Diz que somos namoradas e eu corrijo dizendo que não podemos sê-lo porque somos mãe e filha. Depois fala na tia e eu explico que a situação é a mesma. Fala da educadora e eu tento que perceba que é uma pessoa mais velha, que cuida dela na escola e como tal não podem namorar. Em nenhum momento lhe disse que não podíamos namorar porque somos duas meninas. Porque não é verdade.

Cresci noutro tempo, num tempo não tão distante assim, em que numa mesma conversa a resposta teria sido: os meninos casam com as meninas, as meninas namoram com os meninos. Não cresci habituada a ver duas mulheres de mãos dadas, em demonstrações públicas de carinho, nunca vi enquanto crianças dois rapazes aos beijos na rua. Mas sejamos sinceros, os tempos eram efectivamente outros e as pessoas eram mais comedidas. E passaram-se vinte anos desde que eu fui uma criança.

No outro dia no metro ia ao lado de dois rapazes com vinte e poucos anos, que conversavam. Chegando à paragem de um deles, ele deu um beijo na boca do outro e combinou falarem mais tarde. Acho que foi a primeira vez que não vi pessoas a dizerem que não com a cabeça. Foi algo tão natural, tão simples, que me apanhou de surpresa. Sorri e voltei à minha leitura. Mas a pensar na coragem que é preciso ter para se ser quem é.

E é isso, mãe, que gostava que soubesses sobre o teu filho.

Ele escondeu-se de ti, escondeu-se dos amigos, mas não pôde esconder-se de si mesmo.

Sei que achas que se cassasse e tivesse filhos com uma boa rapariga seria eventualmente feliz e esqueceria aquele deslize que teve quando era novo e estava confuso. Mas as coisas não funcionam assim.

Ele nunca vai casar com uma boa rapariga e sabes bem porquê. Sabes que o teu estômago se vai revirar quando as tuas amigas te perguntarem o porquê, logo ele que é uma jóia de moço. E no fundo tens já a resposta.

Não digo que é fácil, que vai ser fácil.

Aliás, a vossa relação nunca mais voltará a ser boa.

Dificilmente ouvirás da sua boca como gosta de ti. E se fores tu a dizer-lhe ele não vai acreditar.

Lamento que seja assim, porque no fundo, se olhares bem, ele é ainda aquele menino de colo que te sorriu pela primeira vez.

E estavas certa, a pessoa que for capaz de lhe provocar tal sorriso está cheia de sorte.

Porque ele é o teu menino.

Não te esqueças que continuas a ser mãe.

imagem@weheartit

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Quando o Tiago nasceu, a Mariana tinha dois anos e dois meses.

Tem sido uma loucura ser mãe de dois filhos pequenos e com uma diferença de idades tão pequena. Há dias em que só o piloto automático me salva e em que basta só mais uma birra para começar a bater com a cabeça na parede, mas apesar do cansaço, do sono, da vontade constante de me atirar para o chão e por trás de uma mãe que às vezes é uma besta, existe um coração que ainda por cima é mole e no outro dia dei por mim de lágrimas nos olhos a ver os meus filhos a brincar um com o outro.

Ela do alto dos seus quatro anos dizia ao irmão ao que iam brincar e ele nos seus bem-dispostos dois anos respondia que sim. Ele era o médico, sentado na secretária pequenina, com o portátil do Ruca que nunca funcionou e ela era uma mãe que levava o seu bebé ao hospital. Ela dizia-lhe os sintomas, enquanto ele fingia que escrevia no portátil, depois examinou a bebé e no fim da consulta rabiscou um papel com a receita.

– Mano, agora sou eu a médica!

Estou a vê-los a brincar e de repente apercebo-me que já não são bebés.Como é que isto aconteceu? Os meus filhos cresceram e eu receio não ter reparado.  Este ano foi particularmente difícil, viroses a dobrar, fucking four em força, mudança de escola, birras e crises existenciais, noites sem dormir, eu a pedir socorro a toda a hora, mas o tempo não teve piedade de mim e os meus filhos cresceram.

E este sabor doce de os ver crescer, mistura-se com o sabor amargo de os ver crescer. De saber que um dia vou ter saudades do que hoje me enche de cansaço. Que a minha filha um dia já não vai fazer birras porque quer que seja sempre eu a adormecê-la ou que o meu filho já não vai acordar a meio da noite para vir para a nossa cama. Mistura-se o alívio de os ver crescer, com a tristeza de os ver sair devagarinho debaixo da minha asa até ao dia em que vão sair do ninho e voar.

Eu sei que estou a ser dramática, o meu filho ainda usa fraldas e a minha filha ainda precisa de ajuda para limpar o rabo, eles não vão já para a faculdade, nem me estão a pedir as chaves do carro para irem sair à noite, mas o tempo não tem piedade das mães e os filhos crescem sem darmos por isso.

Os meus filhos estão a crescer, juntos, ao ritmo das brincadeiras que me fazem chorar. Cresçam devagarinho meus amores.