Brindemos a nós, mulheres.

A nós, mulheres

Honremos a nossa condição de mulher dia após dia, todos os dias.

Quando vencemos preconceitos e assumimos a nossa verdade, sem considerar a opinião alheia.

Quando fazemos as pazes com a nossa gordura, a nossa magreza, a nossa altura ou o nosso tipo de cabelo. Quando realizamos os procedimentos estéticos que entendemos importantes para o nosso bem estar, ou quando preferimos manter-nos “ao natural”, por assim nos sentirmos melhor.

Quando nos impomos, de igual para igual, com qualquer homem, em qualquer situação, não permitindo discriminações ou abusos. Quando admitimos as nossas fraquezas e as nossas carências.

Quando procuramos ajuda para algo que já não damos conta sozinhas. Quando saímos de cara lavada e uns ténis e ficarmos à vontade assim, ou quando dedicamos tempo a arranjar-nos, enaltecendo a nossa beleza.

Quando nos damos um tempo, apenas para não fazer nada.

Quando aceitamos os ciclos do nosso corpo, e nos harmonizamos com as revoluções hormonais que eles ocasionam.

Quando resgatamos a nossa dignidade, e afastamos pessoas e situações que não nos fazem bem. Quando alimentamos a nossa auto-estima, dando-nos o devido valor independentemente do que os outros pensam.

Quando sentimos o nosso instinto maternal e damos vazão à maravilha da natureza que é gerar um ser. Ou quando reconhecemos e defendemos o nosso direito de não querer ter filhos, sem nos importarmos com o julgamento alheio.

Quando nos dedicamos ao auto-conhecimento e a identificar os nossos medos mais sinceros. Quando investimos em nós e nos tornamos prioridade na nossa lista de tarefas.

Quando mandamos o nosso cérebro tagarela “calar a boca” e paramos para ouvir o coração. Quando conversamos com a nossa criança interior, permitindo-nos voltar a ser inocentes e brincar perante a vida.

Quando nos autorizamos a dançar, a cantar, pular ou gritar, extravasando as nossas emoções.

Quando nos permitimos errar, cair e levantar, reconhecendo que somos humanas e, por isso, falíveis.

Quando perdoamos o nosso passado, libertando-nos (e aos outros) da responsabilidade de todas as coisas negativas que nos aconteceram. Quando nos reconhecemos como primeiras e principais responsáveis pela nossa felicidade. Quando arregaçamos as mangas e seguimos efetivamente atrás dos nossos sonhos.

Quando nos permitimos a ser delicadas e fortes, tolerantes e incisivas, solidárias e egoístas, cautelosas e corajosas, interessadas e indiferentes, consoante as circunstâncias da vida nos exigirem.

Quando vemos as outras mulheres como companheiras e não como rivais, enaltecendo de modo coletivo o sagrado feminino.

Brindemos mulheres, a todo o momento, o nosso corpo, as nossas emoções, o nosso eu, a nossa força, a nossa vida e a nossa conexão!

 

Artigo publicado em ContiOutra, adaptado por Up To Kids®

 

Este texto hoje é para ti.

Para ti que perdeste o bem maior e mais precioso que a vida te deu.
Para ti que enfrentas diariamente o maior medo e o pior pesadelo de todas as que, tal como tu, são mães.

Deixa-me começar por te dizer que tenho perfeita noção que não conheço a tua dor. E é com todo o respeito que tenho por ela e por ti que não arrisco nenhuma palavra acerca dela. Quero apenas escrever-te, hoje, aquilo que tantas vezes penso e nunca te disse.

Quero contar-te, hoje, que dou comigo, muitas vezes, a pensar em ti.

Penso em ti quando distribuo pelos meus os beijos de boa noite.

Penso em ti nas noites em que estou mais cansada e deixo a reclamação ocupar o lugar do amor que ambas carregamos no coração.

Penso em ti quando me assusto.

Penso em ti quando, mesmo com sono, o medo não me deixa adormecer.

Penso tantas vezes em ti.

Gostava de te abraçar com a mesma força com que tu carregas o teu mundo de saudade. Com um abraço que, mesmo só por um momento, aliviasse a tua dor. Ou quem sabe até com um abraço que te fizesse ir lá acima, onde tantas vezes te imaginas a chegar, para logo a seguir te fazer regressar.

Gostava de te pedir, e desculpa-me tanta ousadia, que aceites com amor os teus dias por cá. Mesmo aqueles que parecem não ter mais nada para agradecer.

Quero-te contar que as tuas pessoas estão sempre dispostas a ouvir-te.

Mesmo as que nunca te fizeram nenhuma pergunta. Peço-te que não tenhas nunca receio que as tuas doces memórias possam incomodar alguém. E não te inibas de sorrir quando decides partilha-las. Nem de chorar.

Gostava também que as tuas pessoas partilhassem mais contigo as suas alegrias. Não sei o que as impede de o fazer quando eu sei que tu continuas a sentir-te feliz pelos outros.

Sei que em dias de festa, nesta série de dias em que se transformou a tua vida, te falta sempre o actor principal.

Quero-te dizer que já chorei por ti.

E que vou continuar a chorar.

Este texto hoje é para ti.

Quis apenas escrever-te, hoje, aquilo que tantas vezes pensei e nunca te disse.

O pai Natal é imortal

Nesta época de Natal tenho tido conversas incríveis com a minha filha sobre o universo do cristianismo e o universo pagão, que andam tantas vezes de mãos dadas.
No outro dia perguntava-me afinal o que é que Jesus fazia. E eu expliquei o melhor que consegui, que falava sobre as coisas, punhas as pessoas a pensar sobre os assuntos, dava exemplos e ensinava as pessoas sobre as coisas importantes na vida: a bondade, a partilha, etc.

E ela olhou para mim “e as pessoas ouviam?”.

E eu disse que sim porque ele falava de coisas que as pessoas não estavam habituadas a ouvir. E isso ajudava-as a tornarem-se melhores. E ela contou-me que tinha sido como Jesus, nesse dia na escola. Que tinha ensinado tal a um amigo, partilhado aquilo com outro e que o primo tinha aprendido Y e por isso continuavam a fazer como Jesus. E ali eu tive a verdadeira essência do cristianismo à minha frente. Deixei essa liberdade poética acontecer. Mais tarde teremos outras conversas, se ela as quiser ter.

Depois veio perguntar-me onde andava o São José. E eu expliquei que já não estava entre nós. Porquê, mãe? Porque já morreu. Morreu porquê? Porque já era velhinho. Já tinha vivido muito e tinha tido uma vida boa, por isso
aconteceu como acontece a toda a gente. Morreu e foi para o céu. A toda a gente não, mãe.
Olhei-a.

O Pai Natal não morre. O pai Natal é imortal.

E eu sorri e disse que não, sem grandes explicações. E o pai disse que era o pai Natal e o Duncan Mcleod dos Imortais, mas dei-lhe uma pisadela debaixo da mesa e ele mordeu os lábios a rir.

Noutra altura, no jardim de nossa casa onde há um presépio de luzes com formas em tamanho real, a minha filha perguntou por que é que São José tinha um cajado. Se era velhinho. E eu expliquei que não, que tinham feito uma caminhada muito grande, ele a pé e Nossa Senhora em cima de um burro e o cajado ajudava na caminhada. Ela ponderou e disse que podiam ter ido os dois
em cima do burro ou Maria podia ter trocado de vez em quando com ele. Disse que o burro não aguentava com duas pessoas e Maria precisava mais da boleia porque estava grávida e quase em fim de tempo. E que ela trocou algumas vezes com José para esticar as pernas e caminhar e ele descansar um pouco. Ela gostou da resposta.

Para ela as coisas são simples mesmo quando são complicadas. E desejo que o espírito do Natal se mantenha assim na vida dela.
Como o Pai Natal. Imortal.
Boas Festas para todos!

A Felicidade secundária ou pequenos prazeres da vida

As emoções positivas que procuramos nas nossas vidas, são, algumas vezes, consideradas como “felicidade de segunda”.

A maioria das vezes são os grandes marcos (casamento, nascimento dos filhos, ganhar um prémio monetário grande,…) que referimos como “os momentos” da vida.

E pela negativa, é semelhante. Dizemos que os piores momentos são os funerais, os divórcios…

Há algo perigoso nesta consideração.

Os chamados “pequenos prazeres” têm uma grande importância!

Claro que não estou a falar dos (maus) atalhos…drogas duras, sexo à balda ou comida em exagero. No entanto, aquela refeição de sushi que nos custou a conseguir (porque trabalhámos para ter verba para a pagar), o escorrega com os sobrinhos ou filhos…o treino onde superámos a nossa marca pessoal, baseado no trabalho dos treinos passados…o encontro com o amigo ou com a amiga…as conversas louquinhas à “Gato Malhado e Sinhá” em que cada um se aplica. E se dá. Com alma.

O importante é que estes prazeres depois não tragam “mal ao mundo”, como se costuma dizer.

Sabemos distinguir.

Não estamos a fazer apologia ao hedonismo, pelo hedonismo. Estamos a elogiar o prazer que vem quando, com esforço, com empenho, fazemos algumas tarefas simples. Até podem ser sem planificação. Sem premeditação. Mas há esforço. Um esforço positivo, claro. Não é estar apenas de corpo presente. É levar a alma que referi acima.

Estas emoções positivas têm lugar na vida. Óh se têm. Olhemos para elas como uma força motriz.

Como algo que nos diferencia. Como algo que melhora o mundo.

Caminhemos então no parque (em ocasiões especiais, às vezes temos mesmo pressa) olhando para a verdade das cores.

Vivamos o afeto de um abraço (que deverá ser sempre especial) como uma experiência capaz de dizer: vale a pena viver!

Passeemos no jardim, testemunhando a nossa própria presença. Como se fôssemos o nosso próprio sol.

Usufruamos de um amigo, de um sol, de uma lua, de um segredo, de uma pequena paixão,… As pequenas experiências, serão somadas na conta da nossa felicidade. E são elas que vão levar o nosso legado a bom porto.

Oremos. A sério. Como uma roda que nos eleva. Sem frases feitas ou lugares comuns. Com fé.

Só podemos trabalhar felicidade a longo prazo, a tal realização, a passagem de testemunho, a obra e a capacidade de ajudar, se olharmos para a delicada importância das emoções positivas do dia-a-dia.

Agora, começa a chuva. Há quem use guarda-chuva. Capa.

Há investigação científica que mostra que as emoções positivas também têm efeito protetor. Com consciência, joguemos-nos então neste mar misterioso de bons e saudáveis pequenos prazeres.

Isso faz de nós (mais e melhores) humanos.

 

Photo by averie woodard on Unsplash

Síndrome do ninho vazio

O Síndrome do ninho vazio é uma condição que se caracteriza pelo aparecimento de quadros depressivos, sobretudo nas mães, com a saída dos filhos de casa. É um momento de adaptação e transição que afeta todas as famílias. Em algumas mulheres faz despoletar emoções de tristeza e vazio, pelo sentimento de perda da função de mãe na vida dos filhos.

Os filhos consomem ao logo dos anos tantas horas de trabalho e de reflexão que, sobretudo as mulheres, ficam vazias depois da sua saída e é preciso reinventar novas formas de se sentirem mães.

Na verdade precisam de construir um novo formato de maternidade que já não passa por todas as grandes e pequenas, boas e más situações do quotidiano! Sim porque ter os filhos em casa por vezes também é cansativo e exasperante…

Já não passa pelos gritos, o vai estudar ou o por favor arruma o teu quarto…

Para alguns parece que parte de nós se perde com a vossa saída e é preciso reconstruir a vida e a identidade. Como se a nossa identidade estivesse colada à maternidade!?

Mas é verdade que isso acontece muitas vezes e que nem sempre os casais mantêm uma base sólida que lhes permite usufruir com alegria dessa nova etapa da vida e fica um vazio difícil de explicar e sobretudo, ainda mais difícil de sentir!

A força das relações construídas perde-se com o tempo e a distância?

Será que conseguimos ao longo de todos os anos, construir relações suficientemente fortes, próximas e vinculadas que consigam resistir à inevitável distancia que a saída dos filhos exige?

Sim porque a saída dos filhos implica sempre alguma distância para que possam realmente construir as suas vidas e as suas famílias. É muito importante que tenham tempo e espaço para se construírem como adultos que vivem fora das “saias dos pais”. Mais importante ainda é que os pais respeitam esse afastamento, que não é um afastamento no Amor!

É preciso arranjar novas formas e estar na vossa vida, sem nunca vos impedir de voar. Por vezes é difícil estar e não estar ao mesmo tempo. Estar, participar, ser presente, mas não invadir ou intrometer. É uma linha difícil que exige muita maturidade e bom senso e que nem sempre é fácil de definir para os pais…

É importante que os filhos, com amor, também possam ir mostrando essa linha. Para que pouco a pouco todos se possam ir adaptando a essa nova realidade, com a alegria que ver-vos crescer deixa no coração de quaisquer pais.

Desejamos os períodos de férias onde estamos todos juntos, os jantares de família e todos os outros momentos em que os nossos filhos feitos homens e mulheres são um bocadinho nossos novamente… No final damos por nós discretamente a respirar fundo porque já não estamos habituados a tanta confusão…

Acima de tudo é preciso acreditar que o vínculo é forte e duradouro. Para que cada um de vocês, filhos adultos, possa voar sem medo e os pais possam ficar sem medo de vos perder….

Photo by Sam Wheeler on Unsplash

Um dia acordas e o tempo passou assim…

Um dia esse monte de roupa por passar irá desaparecer. Muitas dessas peças já não farão parte da tua vida, estragar-se-ão ou serão doadas, deixarão de ser importantes para ti.

Um dia não terás pilhas de roupa para lavar. Terás a louça ordenadamente arrumada nos armários ou deixará de ser usada quando forem menos aí por casa.

Um dia, os brinquedos que hoje tens espalhados pela sala, estarão todos guardados em caixas devidamente identificadas, num canto escondido da tua casa e da tua memória.

Um dia a casa deixará de ter vestígios das migalhas que teimam em espalhar-se pela casa, esse ser pequenino que por aí circula.

Um dia o teu filho deixará de fazer birras.  Irás apenas recordá-las quando sentada num banco de jardim vires outra mãe a passar pelo mesmo.

Um dia não terás problemas de logística para sair de casa. Serás só tu e a tua bolsa. Chegarás rapidamente onde desejas, sem interrupções, e nessa altura perceberás como uma vida livre de imprevistos pode ser tão monotona.

Um dia o teu filho dir-te-á que é demasiado crescido para colo e que um abraço rápido é suficiente. Nessa altura tudo o que te irá restar será a nostalgia do tempo aproveitado ou o arrependimento por não teres aproveitado melhor esse tempo.

Um dia poderás dormir a noite a fio e acordar sem despertador. Por vezes ficarás sem pregar olho, irás pensar em como trocarias essas horas de sono por mais uma noite acordada/o com o teu filho junto ao peito.

Um dia o teu filho deixará de chamar por ti a toda a hora. Terás de te concentrar para conseguir recordar aquela voz que tão carinhosamente te procurava. O som daqueles pezinhos que te seguiam por toda a casa. A época em que eras tu o centro do seu mundo.

O tempo de contacto próximo com um filho passa assim – acordamos um dia, e já foi.

Enquanto os temos junto a nós podemos decidir viver este amor de duas formas – focados no que há para fazer ou focados no que jamais poderá ser feito, o essencial.

A minha mãe fez anos.

E nesse dia eu vi-lhe as marcas na pele, a curvatura nas costas, os cabelos cada vez mais brancos. No dia em que fez anos ouvia-a dizer que tem dores, vi as articulações dos dedos que começam a deformar e percebi que aquela mulher, que antes passava a vida a correr, agora caminha devagar.

A minha mãe fez anos.

E nesse dia eu tive saudades do rosto sem óculos, das mãos sem rugas e dos cabelos muito pretos. No dia em que fez anos lembrei-me de como me fazia sempre um ditado no final dos trabalhos de casa, porque essa era, segundo ela, a melhor forma de aprender a escrever sem erros. No dia em que fez anos recordei a mulher que sempre me pareceu forte e disponível, que cuidou dos meus avós até ao último dia e parecia nunca estar doente.

A minha mãe fez anos.

E nesse dia eu vi o rosto dela quando soubemos que a minha avó tinha partido. Lembrei-me do choro baixinho e contido e do abraço que me deu enquanto o corpo dela tremia. Antes de sermos mães somos filhas. E no dia dos anos da minha mãe eu senti um medo terrível. Senti medo do dia em que for eu a filha que perde a mãe.

O tempo é demasiado veloz.

A minha mãe que ontem carregava o mundo nos ombros tem quase setenta anos. E eu tenho medo de não lhe dizer vezes suficientes que a amo, tenho
medo que ela não saiba que me reconheço em cada bocadinho dela e que, mesmo quando a despacho ao telefone para poder cuidar dos meus filhos, o meu amor por ela é infinito. E recuso-me a imaginar que um dia possa ter que me despedir.

Sou mãe. Primeiro fui filha.

Fez ontem uma semana que o meu pai, depois de uns dias internado, teve alta do hospital para nossa casa.

Percebi no momento em que o pai ligou a dizer que ia sair naquele dia, que onde mais lhe apetecia estar e o mais seguro seria ficar connosco. Em nossa casa. Exactamente como, não há tantos anos atrás, também a casa dele, ou melhor, a dos meus pais, foi o meu lugar seguro. Foi onde mais me apetecia estar e o único lugar onde me fazia sentido existir.

Quando lhe dei a mão para o ajudar a entrar no carro e percebi a sua fragilidade fiquei assustada.

Sobretudo até perceber se eu estaria à altura do desafio de o ajudar na sua recuperação. Mesmo que seja por pouco tempo. Dei comigo a divagar sobre o que ele terá sentido nesse momento e se se estaria a recordar de quando, há 41 anos atrás, me pôs a mim no carro, primeira filha, para me levar para casa. Expectativas diferentes mas um mesmo sentimento: o amor mais descomprometido e duradouro de todos, o de pai e filha.

O mundo não está ao contrário

Confrontada com a nova condição de cuidadora, com o cuidado de proteger e não o do conforto de ser protegida, foi como se virassem o meu mundo ao contrário. Ainda ontem era o meu pai que me dava a mão para amparar os meus primeiros passos e agora é a minha que lhe serve de bengala. Mas afinal, o mundo não está ao contrário. É apenas o mundo a ser mundo, a girar sobre si próprio. Umas vezes estamos firmes e de pé e outras em desequilíbrio e ao contrário. E é tão bom sentir que, mesmo quando de cabeça para baixo, tudo se mantém no seu lugar.

Nesta última semana os meus filhos têm superado todas as minhas expectativas. É nestas alturas que vejo alguma coisa devo andar a fazer bem. O João Maria, no auge dos seus 13 anos que marcam uma adolescência já há muito anunciada, está há 8 dias sem a privacidade do seu quarto e sem o conforto da sua cama. Disse-me à noite, enquanto eu aconchegava no sofá, “mãe, o avô fica o tempo que for preciso, eu estou muito bem aqui”. O Kiki comentou comigo antes de ontem: “Mãe, vê-se mesmo que o avô se sente muito melhor aqui”. O bebé Zé já ajuda com os medicamentos e leva para a mesa o que corresponde à hora do jantar. E ontem, em dia de greve, com o bebé Zé sem escola, fizeram companhia um ao outro toda a manhã.

O tempo que passamos juntos

Temos passado muito tempo juntos e isso já não acontecia há muito tempo. Aliás, os seis, assim juntos, nunca tinha acontecido. E isso é bom. Muito bom.

O nosso paciente está muito melhor. Também com enfermeiros destes não se esperava outra coisa, e ficará connosco o tempo que precisar para se recuperar.

Agradecemos o facto de confiar em nós, de estarmos perto e de podermos todos contar uns com os outros.

A depressão dos que nos rodeiam.

Não tenho nem ligo a redes sociais, fruto de sentir que o impacto muitas vezes era negativo e algo que trazia poucas coisas significativas à minha vida.

Ainda assim e por questões profissionais giro uma conta ligada ao livro que editei no ano passado. Por este motivo “sigo” e sou “seguida” por pessoas um pouco por todo o mundo e tenho acesso a alguma realidades que me são muito importantes para o domínio da escrita e para a forma como falo sobre a realidade e as emoções.

Ultimamente tenho vindo a aperceber-me que existem várias pessoas (a faixa etária encontra-se entre os 19 e os 30 anos) que lutam diariamente com doenças como a depressão.  São pessoas que usam estas redes sociais. Muitas vezes sob o anonimato de contas com uma vertente profissional, para veicular o que sentem e o que lhes passa pela cabeça. E tenho vindo a entrar em contacto com a maior parte delas.

Só esta semana e recorrendo aos stories, por terem uma duração inferior a vinte e quatro horas – o que faz com que o que é partilhado desapareça depois desse tempo – vi pedidos de ajuda camuflados, jovens a falar sobre o desespero que sentem em estarem vivos, o julgamento e pressão que sofrem quando se abrem sobre a doença que têm, a falarem sobre a possibilidade de se suicidarem.

Como mãe (e como ser humano) sou incapaz de seguir a minha vida sem estender a minha mão (virtual, é certo). Porque as redes sociais servem também para isto.

Para que as pessoas sintam que não estão sozinhas, por mais abandonadas e isoladas que se sintam.

Esta geração é muitas vezes julgada por se considerar que não há motivos para tamanha tristeza, porque é uma geração privilegiada, que tem muito mais do que a que os seus pais alguma vez sonhou ter. O pensamento é basicamente “tens uma vida tão boa, por que é que hás-de estar tão triste?”. Li algures que para alguém que está a sofrer de depressão este tipo de comentário é como perguntar a um asmático “se há oxigénio por todo o lado por que raio não consegues respirar em condições?”.

Fala-se também de a depressão ser uma doença de “gente rica”. Que os pobres não têm tempo para ficar a deprimir e isso é algo injusto para os dois lados do expectro. Simplesmente há quem tenha maior possibilidade de pedir ajuda e quem tenha de encontrar formas de funcionar mesmo quando está apenas em piloto automático.

As pessoas que falaram em suicídio mostraram reservas pelos que ficam como sendo um dos maiores motivos para não seguirem em frente. O que em si é de um peso enorme também.

Às vezes vou no metro e dou por mim a pensar que não sabemos realmente nada uns sobre os outros. Só sabemos o que as pessoas partilham, o que escolhem partilhar.

Porque por trás de uma pessoa sorridente, constantemente bem disposta pode estar alguém a passar por uma batalha interna imensa.

E por isso considero que devemos ser sempre gentis, em todas as circunstâncias.

Há famílias que perderam entes queridos e que vivem com a culpa de não ter conseguido antecipar, evitar o que aconteceu. Muitas vezes não há pistas.

Mas muitas vezes elas estão lá.

Temos, algumas vezes sem maldade, a tendência de desvalorizar os sentimentos dos outros. Inclusivamente por querermos que ultrapassem o que estão a sentir.

Acredito que temos de abrir os braços. Fazer chegar às pessoas que nos rodeiam a ideia que são importantes mesmo que não se sintam assim. Que têm um lugar neste mundo, mesmo que o caminho pareça turvo e haja pouca expectativa ou ausência de sonhos. Temos de deixar as pessoas chorar (é tempo de deixar de lado o constrangimento e dizer que faz parte). Temos de aceitar que não vemos todos o mundo da mesma forma, não sentimos a dor da mesma maneira, não temos todos as mesmas ferramentas para lidar com os problemas.

E temos de perceber que muitas vezes não existe “a” razão. Simplesmente a pessoa sente o que sente e ponto final. E isso não deve ser desvalorizado nem relegado para segundo plano porque “devias ver o que é ter problemas a sério”.

Como humanos temos a sorte de ter vindo a desenvolver uma série de competências sociais que nos permitem viver em comunidade. O que nos falta aprender é olhar em volta e perceber como somos todos tão diferentes. Todos capazes de sentir coisas tão profundas que nos fazem pôr em causa a nossa existência.

Como mãe espero que a minha filha seja sempre feliz.

Que encontre sempre formas de ver o copo meio cheio e não meio vazio. Que saiba que pode estar triste, sentar-se ao meu lado e simplesmente estar em silêncio se não quiser falar. Que estou ali para a ouvir se me escolher como receptora das suas verdades. Que mesmo que um dia se sinta desesperada saiba que estou aqui. E que farei o meu melhor para a compreender, mesmo que ela própria possa não conseguir fazê-lo.

A todos os que estão a passar um mau bocado: vai passar, às vezes só é preciso continuar a remar.

A todos os outros que remam sem se aperceberem do esforço que isso requer. Olhemos em volta, ajudemos a remar quem precisa.

 

image@weheartit

Carta a um jovem universitário

Estás a começar uma etapa importante da tua vida.

Já ouviste dizer que é determinante, que vai mudar tudo e por isso sentes algum peso sobre os ombros.

O peso dos teus sonhos, o peso da responsabilidade, o peso de não teres a certeza na maior parte das vezes… Eu sei e quero que saibas que não estás sozinho.

Que o curso que escolheste pode definir o teu percurso, mas não é uma marca a ferro na tua pele que possa determinar de forma definitiva o que vais fazer com esse futuro.

Acredita que, se te permitires, vais fazer uns quantos bons amigos. A ilusão talvez seja de que vão ser dezenas, mas no fim, como em tudo na vida, só ficam os que importam.

Acima de tudo vais conhecer-te melhor. Vais ser confrontado com situações que são inéditas para ti e aprender com as respostas que vais dar a cada um dos desafios.

Vais sentir-te no topo do mundo e, em alguns momentos, sentir-te muito só.

Vais questionar as tuas escolhas. Afinal para que servem aquelas cadeiras teóricas cuja bibliografia em três línguas não te dizem absolutamente coisa nenhuma.

Vais pensar desistir. Vais pensar em levar até ao fim só porque é isso que esperam de ti.

Lembra-te que, acima de tudo, o que se espera de ti é que cresças. E isso significa pores os teus problemas em perspectiva. Pores as tuas relações na balança, os teus sonhos sob escrutínio (teu!!!), as tuas decisões na almofada à espera de uma resposta quando o sol nascer.

Deixaste para trás anos de ensino pensados para todos de igual forma e é-te dada a oportunidade, ainda que de forma algo generalista, de te encontrares nas páginas dos livros que lês, dos trabalhos que te são atribuídos, no convívio nas apresentações de grupo, nas aulas práticas e nas horas de estágio. Na partilha de apontamentos e truques, experiências sobre os professores e aquelas cadeiras que parece que nunca vais conseguir fazer.

E claro, fora dos anfiteatros, nas jantaradas, saídas, directas. Nas novas amizades, nas novas paixões, nas desilusões.

Espera-se de ti que cresças no meio desse turbilhão e, acredita, é possível.

Também é possível que te percas pelo caminho, que cometas um ou outro erro, que faças asneiras, que digas coisas que não devias ter dito, que bebas mais do que seria desejável. Seres confrontado com avanços indesejados, com substâncias que não te interessam, com pessoas que não te dizem coisa alguma. O importante é o que vais fazer depois de tudo isto acontecer. Saber pedir desculpas, tomar um banho de água gelada, nunca pegar no carro depois de beber nem com quem tenha bebido. Saber dizer não e fazer a tua voz ser ouvida.

Os anos que agora estás a começar são importantes. Irás olhar para trás, por cima do ombro, e lembrar-te deles. Faz os possíveis para que as memórias desses tempos sejam positivas, que te deixem um sorriso.

E lembra-te, esses anos não são iguais para ninguém. Não te sintas pressionado a viver o mesmo que os outros, mesmo que os outros sejam as pessoas mais importantes para ti.

Tenta descobrir quem és sem nunca desrespeitares os outros.

Sem nunca te desrespeitares a ti.

Estuda. Por mais difícil que seja.

Dedica-te, por menos perspectivas de futuro que existam.

Esses anos vão passar a voar. Aprende a deixa-te levar e a não remar contra a maré.

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