Os 10 Mandamentos de uma Mãe imperfeita | Editora: Ego Editora | De Carmen Garcia, prefácio de Guilherme Duarte

SINOPSE

Era uma vez uma mãe que tinha inveja das fêmeas rato, fez cocó durante o parto, quase enlouqueceu no puerpério e escolheu dar papas industriais ao filho. Um dia essa mãe, com um cabelo sem corte e uma
camisola a cheirar a leite azedo, decidiu assumir publicamente a sua imperfeição, criou uma página de Facebook e, potenciada pela privação de sono, foi escrevendo sobre o outro lado da maternidade. E escreveu sem medos que nesse outro lado, no lado de que poucos falam, existem cansaço, saudades da vida “de antes” e a vontade de que os filhos, às vezes, tivessem um botão de pausa. Mas também
escreveu sobre as alegrias infinitas e a certeza de viver um amor maior que o mundo. Tão grande que chega a dar medo.

Este livro é uma continuação da cruzada a favor da imperfeição que a autora tem vindo a desenvolver nas suas páginas nas redes sociais. Não pretendendo ensinar nada a ninguém, até porque é a primeira a assumir que não percebe nada disto, o objectivo da “mãe imperfeita” é unicamente mostrar às mães que nunca estão sozinhas e que é a imperfeição que torna a maternidade a viagem mais maravilhosa das suas vidas.

Mesmo que as mães perfeitas insistam em dizer o contrário.

PONTOS FORTES DO LIVRO

Escrito num tom bem humorado, o livro pretende desmistificar os dogmas da maternidade, mostrando a realidade das dificuldades inerentes à educação de um filho. A autora é uma estrela em ascensão nas redes sociais. Com apenas um ano de actividade, a sua página no Facebook “A Mãe Imperfeita” conta já com mais de 35 mil amigos que seguem as suas publicações diárias.

FICHA TÉCNICA

Chancela – Ego Editora
ISBN – 978-1727814231
Preço – 13,90€
Formato – 15,5×23 cm Páginas – 134

a mãe imperfeita

A mãe fica meu amor

Há catorze meses que este bebé está comigo. Nove meses na minha barriga, cinco no meu colo. Nunca me separei dele por períodos maiores que meia-dúzia de horas. Todas as manhãs o vi acordar. A maior parte dos meus dias é passada com ele no colo e, em dias mais difíceis, ando com ele na mochila para conseguir despachar as tarefas domésticas enquanto lhe vou cantando que “a barata diz que tem…”.

Conheço todas as expressões deste bebé.

Sei onde lhe tocar para o fazer rir. Sei o que lhe dizer para o acalmar. O cheiro dele é o mais perfeito dos cheiros mesmo quando se bolça e aquele travo azedo se cola na roupa. Os olhos dele são grandes, a pele absurdamente branca e o sorriso pura magia.

Sei que no momento do parto o corte do cordão umbilical separa o bebé da mãe e, em termos puramente físicos, essa é uma verdade indiscutível. Mas, para mim, o verdadeiro corte, aquele em que experimentamos pela primeira vez a angústia da separação, acontece no dia do nosso regresso ao trabalho.

É verdade que viver quase exclusivamente para um bebé é desgastante.

Mas isso não impede que o regresso à vida laboral seja de uma violência atroz. O coração de mãe aperta-se na hora do voltar à antiga rotina e a ansiedade transforma-se numa companhia permanente. Dói quase fisicamente termos que nos separar do nosso bebé, do nosso pequenino, daquele ser que é quase uma extensão natural de nós próprias.

O meu regresso ao trabalho está a chegar.

E a mãe que sou tem medo de não estar preparada. Tem vontade de bater o pé e dizer que não volta. Tem vontade de encher este filho de beijos. De o apertar nos braços e de lhe dizer ao ouvido “a mãe fica meu amor”. 

Quem me dera poder ficar.

Tempo para estar doente

O Pedro trouxe para casa um daqueles bicharocos de creche que são apenas um bocadinho incómodos nas crianças mas que metem os adultos a pensar na conversa que estão prestes a ter com S. Pedro. Esse bicharoco, que dava náuseas, dores de estômago e diarreia, atacou-me de forma certeira e eu, que nem me acho uma pessoa particularmente piegas, vi o caso mal parado e pensei que, afinal, ainda tinha que voltar ao hospital onde trabalho antes de terminar a licença de maternidade.

Hoje, passada uma semana sobre esses dias negros, já estou completamente recuperada mas decidi pegar neste tema para vos confessar que senti saudades de ter tempo para estar doente. E se isto assim à primeira vista pode até parecer esquisito, tenho a certeza que, quem é mãe, vai perceber onde quero chegar. É que outra das coisas que ninguém nos diz quando engravidamos é que o conceito de doença muda (muito!) depois da maternidade.

Sabem aqueles dias que passávamos no sofá, enroladas numa manta, numa letargia induzida pela febre?

E aqueles em que tínhamos dores de garganta e tínhamos tempo para beber um chá bem quente de limão com mel enquanto víamos um episódio da Anatomia de Grey? Pois, vão deixar de saber. Porque quando temos filhos pequenos esses dias são luxos de que não dispomos.

Porque a mãe não tem tempo para estar doente.

Quando as mães estão doentes os pais continuam a trabalhar e as crianças continuam a precisar de jantar, de tomar banho, de ir à terapia da fala e de levar lanche para o colégio.

Quando as mães estão doentes as crianças continuam a fazer chichi na fralda, a mamar de três em três horas e a querer ouvir as músicas do Panda enquanto treinam coreografias que metem taças, chaleiras, jipes e muito “style”.

E as mães agarram-se aos comprimidos, melhores amigos de ocasião, e lá se vão arrastando de pijama pela casa, arrumando aqui e ali, brincando como podem enquanto a sopa para o jantar cozinha na panela e a Xana Toc Toc canta não sei quê sobre um papagaio trapalhão. À noite, quando todos em casa dormirem, as mães hão-de beber um chá, de pé, encostadas à bancada da cozinha, e a cada gole quente lembrarão, cheias de nostalgia, os tempos em que tinham tempo para estar doentes.

 

Photo by BRUNO CERVERA on Unsplash

A minha mãe fez anos.

E nesse dia eu vi-lhe as marcas na pele, a curvatura nas costas, os cabelos cada vez mais brancos. No dia em que fez anos ouvia-a dizer que tem dores, vi as articulações dos dedos que começam a deformar e percebi que aquela mulher, que antes passava a vida a correr, agora caminha devagar.

A minha mãe fez anos.

E nesse dia eu tive saudades do rosto sem óculos, das mãos sem rugas e dos cabelos muito pretos. No dia em que fez anos lembrei-me de como me fazia sempre um ditado no final dos trabalhos de casa, porque essa era, segundo ela, a melhor forma de aprender a escrever sem erros. No dia em que fez anos recordei a mulher que sempre me pareceu forte e disponível, que cuidou dos meus avós até ao último dia e parecia nunca estar doente.

A minha mãe fez anos.

E nesse dia eu vi o rosto dela quando soubemos que a minha avó tinha partido. Lembrei-me do choro baixinho e contido e do abraço que me deu enquanto o corpo dela tremia. Antes de sermos mães somos filhas. E no dia dos anos da minha mãe eu senti um medo terrível. Senti medo do dia em que for eu a filha que perde a mãe.

O tempo é demasiado veloz.

A minha mãe que ontem carregava o mundo nos ombros tem quase setenta anos. E eu tenho medo de não lhe dizer vezes suficientes que a amo, tenho
medo que ela não saiba que me reconheço em cada bocadinho dela e que, mesmo quando a despacho ao telefone para poder cuidar dos meus filhos, o meu amor por ela é infinito. E recuso-me a imaginar que um dia possa ter que me despedir.

Sou mãe. Primeiro fui filha.

Saudades do tempo presente

Andava há alguns dias a adiar a tarefa de guardar a roupa de Verão dos miúdos, mas as notícias da vaga de frio polar que se aproxima fizeram-me parar de procrastinar e avançar para as gavetas. E caramba, que difícil foi…

Tantas e tantas memórias que passaram por mim naquela hora em que carinhosamente guardei fofos, calções, e babygrows de Verão… Se a roupa do Pedro foi menos difícil de guardar porque sei que ainda verá a luz do dia no corpo do João, já a roupa do mais pequeno foi embalada com lágrimas, sorrisos e com um coração apertado.

Sei que não voltarei a ter bebés cá por casa. Estas duas gravidezes, tão difíceis e tão próximas deixaram marcas, e não pretendo voltar a colocar-me numa posição tão frágil novamente. Pelos meus filhos e por mim. E é por isso que embalar a roupinha do João é uma espécie de despedida. A partir de agora não haverá mais recém-nascidos, mais mãozinhas minúsculas e fraldinhas de pano. A partir de agora o tempo começa a sua contagem impiedosa e os meus bebés passarão a meninos e, depois disso, a homens.

Eu sei que agora ainda estão aqui comigo, que precisam muito de mim, mas já temo pelo dia em que o meu colo ficar vazio.

Quem me dera que houvesse um comando para controlar o tempo. Era hoje, agora, neste momento, que carregaria no botão de pausa e aqui permaneceria. Sem medo que tudo fosse demasiado rápido.

Sem medo que as gargalhadas felizes que ouço agora se perdessem. Sem medo que este cheirinho a bebé não fosse mais do que uma lembrança de dias felizes.

Nunca fui de viver agarrada ao passado; sei que a vida ainda tem muito para nos dar mas quem me dera que o tempo andasse mais devagar, quem me dera ter todo o tempo do mundo para eternizar estes instantes.

Será assim tão estranho já sentir saudades do momento presente?

 

O meu filho está doente

Já passa da meia-noite. Deitado ao meu lado o Pedro vai descansando num sono leve e constantemente interrompido por gemidos. As bochechas absurdamente rosadas não enganam: a febre disparou outra vez.

Estamos há mais de vinte e quatro horas nesta dança onde volto a vestir a farda com que trabalho todos os dias. A questão é que no hospital sou “só” enfermeira e aqui, no nosso quarto, a sentir o calor exagerado que emana do corpo do meu pequenino, sou uma mãe que, por acaso, também é enfermeira lá fora.

Aqui, com o meu filho, o meu discernimento perde-se um bocadinho e esqueço-me que a febre significa que o sistema imunitário dele está a funcionar e que até às 72h não são necessárias preocupações. Aqui não quero saber de fisiologia, normas hospitalares ou protocolos de actuação. Aqui tenho o coração mais pequeno que uma noz. Aqui só quero que a doença vá embora e deixe o meu menino em paz.

Há meia-dúzia de meses, à porta da Unidade de Cuidados Intensivos onde trabalho, uma mãe desesperada dizia-me entre lágrimas engolidas que dava tudo para poder trocar de lugar com o filho. Nessa tarde eu dei-lhe a mão e disse-lhe que a compreendia. E a verdade é que a cada dia que passa a compreendo um bocadinho mais.

Somos mães.

Somos mães, não estamos preparadas para ver os nossos filhos sofrer. Se for preciso lutar contra moinhos de vento para os termos felizes nós lutamos, se for preciso ir à lua nós vamos, se for preciso dar a nossa vida nós damos. De boa vontade. Sem pensar duas vezes.

Hoje a minha casa permaneceu arrumada, houve pouco barulho e o sofá chegou ao fim do dia sem migalhas. E eu tive saudades da gritaria, dos constantes pedidos de pão e das peças de Lego espalhadas.

Os olhos do meu filho que costumam ser brilhantes de felicidade hoje estiveram brilhantes por culpa da febre.

Quem me dera ser eu no lugar dele.

Hoje o meu filho está doente. E o meu coração também.

image@gettyimages

 

Minudências dirão alguns, necessidades básicas digo eu.

Estou há mais de cinco minutos focada numa nódoa do tamanho de uma moeda de vinte cêntimos que descobri na manga da camisola branca que tenho vestida. Num dia normal já estaria a pensar qual o produto mais adequado para fazer o pré-tratamento. Mas hoje, não sei porquê, acho que esta nódoa não caiu aqui por acaso. Hoje acho que esta nódoa é a prova inequívoca da falta de glamour da minha vida pós-maternidade.

Confesso que às vezes invejo aquelas mães das redes sociais sempre muito bem-vestidas, de unhas arranjadas e com imensa vida para lá dos filhos. Como é que elas conseguem é que eu não sei. É que desgraçadamente pertenço de corpo e alma à classe de pessoas que limpa a própria sanita. Desde que os putos nasceram que o expoente máximo da minha vida social sem eles é ir à casa-de-banho e sentar-me na sanita a olhar para o Facebook.

O meu estado é grave ao ponto de ver fotografias de copos de vinho nas mãos dos pais que se sentam no sofá juntos, depois de adormecerem as crianças, e a primeira pergunta que me vem à cabeça ser como é que já têm a cozinha arrumada àquela hora. E depois penso que se calhar têm empregadas. E que eu sou a única mãe no mundo que gasta mais de metade do tempo a dobrar meias. A fazer máquinas de roupa, passar a esfregona no chão ou limpar a fritadeira.

Caraças! Sempre que ouço dizer que é preciso existir para além dos filhos tenho vontade de me deitar em posição fetal e chorar. É que o tempo que vou conseguindo sem eles gasto com tarefas muito pouco glamourosas, contudo, necessárias ao bom funcionamento cá de casa. E já sei que vão dizer que devia esquecer as tarefas domésticas e dedicar-me ao que realmente importa. Mas é capaz de ser chato não ter umas cuecas lavadas para vestir ou uma sopa para o jantar do puto. Minudências dirão alguns, necessidades básicas digo eu.

A verdade é que padeço de falta de tempo, pronto. E de falta de glamour. Em dias como hoje, despenteada e de nódoa na manga, sinto-me uma espécie de mãe de armazém chinês do Porto Alto num mundo de mães de lojas da Avenida da Liberdade.

E agora vou só ali tirar a loiça da máquina. Vou passar a ferro a roupa dos putos e fazer as camas com lençóis lavados. Tempo para lá dos filhos e da casa? Devo conseguir arranjar daqui a uns dez anos.

 

image@picturexe