As palavras positivas e o aumento da auto-estima dos nossos miúdos

Há uns dias assisti a um programa onde a convidada era uma professora com formação na área da psicologia que desenvolvia um trabalho muito interessante junto das escolas.

Começou a fazê-lo quando se apercebeu que as crianças do primeiro ciclo, nomeadamente as de sete e oito anos, tinham dificuldade em utilizar palavras positivas para se descreverem.

Enquanto pais acredito que achemos isto estranho porque se pedirmos aos nossos filhos para falarem de si eles apontarão a cor do cabelo, dos olhos e por aí. Mas é das emoções que se trata e da forma como se vêem a eles próprios. Nenhuma das crianças dizia que era divertida, bem-disposta ou forte.

Tenho uma rotina com a minha filha depois de a ir buscar à escola que passa por a fazer enumerar as duas coisas que gostou mais no seu dia e as duas que gostou menos. Invariavelmente as negativas são as chamadas queixinhas. Comecei por não aceitar mas percebi que ao fazer-me as tais queixas havia emoções por trás das acções que as desencadeavam.

Assim, quando ela me diz “o que gostei menos foi quando o X me empurrou no recreio” ou “quando a Y disse que não queria ser minha amiga” tento, em vez do automático “pois, isso não se faz”, enveredar pelo “e como é que isso te fez sentir?”.

Porque é importante as crianças conseguirem identificar as suas emoções.

Só estando estas emoções devidamente identificadas podem ser descritas e só assim se pode explicar por que motivo são consequência dos comportamentos dos outros e, acima de tudo, o que gostaríamos que tivesse acontecido. E o que faríamos no lugar do outro.

Não raras vezes quando a minha filha está a brincar ao faz de conta ralha com os amigos. Aponta o que estão a fazer de errado. Outras vezes até diz “a não sei quantas não quer ser minha amiga, não sejam amigos dela”. Isto existe desde sempre, lembro-me quando era eu a estar no meio deste ritual. Tinha uma amiga mais nova com a qual nunca brincava no recreio da escola, apesar de sermos amigas fora da escola, porque havia uma amiga sua que não a deixava. A marca que isso me deixou foi a da irritação, mais do que a da mágoa. Porque tinha a sorte de ter outros amigos e de não sentir esta falta. Mas há crianças cujo núcleo duro de amizades próximas se reduz a mais um amigo. E nestes casos estas atitudes podem ter um impacto muito grande.

Ainda na semana passada, ao falar com uma das meninas novas da sala da minha filha que sempre que me vê me abraça, perguntei: “o teu dia foi bom?” E ela disse que não porque uma das amigas não quis brincar com ela.

Faz parte? Claro que sim.

Queremos que os nossos filhos cresçam para serem emocionalmente independentes dos outros, mas o crescimento, o verdadeiro crescimento, faz-se das relações que se estabelece com o meio e com os que nos rodeiam.

Por isso tento explicar à minha filha que se não gostou de se sentir excluída não deverá fazê-lo quando a situação for oposta. E isto serve para tudo na vida.

Outro exercício que tento fazer com a minha filha é “gostas da X porquê?” e só aceito as respostas quando têm alguma profundidade, quando chegam ao “ela tem paciência para brincar comigo” ou “quando estamos juntas cantamos e isso deixa-me feliz”.

Trabalho muito a questão da imagem própria valorizando o que se é e não o que se aparenta.

Valorizo as conquistas.

Elogio o esforço.

Evito que a minha filha me oiça falar de forma menos positiva das outras pessoas.

É expressamente proibido criticar os mais velhos. Quando ela me aponta um comportamento que supostamente vai contra aquilo que lhe foi ensinado eu texto explicar. E muitas vezes explico que há coisas que não têm explicação, as pessoas fazem coisas que não devem. Erram. Porque somos todos humanos, mesmo os mais crescidos.

E os mais crescidos também ainda estão a aprender.

Acredito que miúdos que têm as suas emoções reconhecidas têm menor tendência para as retrair. 

Muitas vezes podem não nos parecer legítimas ou justas (“nunca me compras nada, não me deixas fazer nada”) mas é importante que sejam valorizadas no contexto, nem que seja para a criação do diálogo.

Quantas vezes estamos a fazer uma coisa e nem nos apercebemos do quão errados estamos? Este feedback também nos ajuda a ser melhores pais. E a ganhar confiança nas opções que tomamos quando elas correm bem.

Queremos que os nossos filhos sejam adultos saudáveis e isso só é possível se esta saúde lhes for proporcionada por nós. Seja em forma de sopa e legumes, seja em forma de amor e inteligência emocional.

Este texto hoje é para ti.

Para ti que perdeste o bem maior e mais precioso que a vida te deu.
Para ti que enfrentas diariamente o maior medo e o pior pesadelo de todas as que, tal como tu, são mães.

Deixa-me começar por te dizer que tenho perfeita noção que não conheço a tua dor. E é com todo o respeito que tenho por ela e por ti que não arrisco nenhuma palavra acerca dela. Quero apenas escrever-te, hoje, aquilo que tantas vezes penso e nunca te disse.

Quero contar-te, hoje, que dou comigo, muitas vezes, a pensar em ti.

Penso em ti quando distribuo pelos meus os beijos de boa noite.

Penso em ti nas noites em que estou mais cansada e deixo a reclamação ocupar o lugar do amor que ambas carregamos no coração.

Penso em ti quando me assusto.

Penso em ti quando, mesmo com sono, o medo não me deixa adormecer.

Penso tantas vezes em ti.

Gostava de te abraçar com a mesma força com que tu carregas o teu mundo de saudade. Com um abraço que, mesmo só por um momento, aliviasse a tua dor. Ou quem sabe até com um abraço que te fizesse ir lá acima, onde tantas vezes te imaginas a chegar, para logo a seguir te fazer regressar.

Gostava de te pedir, e desculpa-me tanta ousadia, que aceites com amor os teus dias por cá. Mesmo aqueles que parecem não ter mais nada para agradecer.

Quero-te contar que as tuas pessoas estão sempre dispostas a ouvir-te.

Mesmo as que nunca te fizeram nenhuma pergunta. Peço-te que não tenhas nunca receio que as tuas doces memórias possam incomodar alguém. E não te inibas de sorrir quando decides partilha-las. Nem de chorar.

Gostava também que as tuas pessoas partilhassem mais contigo as suas alegrias. Não sei o que as impede de o fazer quando eu sei que tu continuas a sentir-te feliz pelos outros.

Sei que em dias de festa, nesta série de dias em que se transformou a tua vida, te falta sempre o actor principal.

Quero-te dizer que já chorei por ti.

E que vou continuar a chorar.

Este texto hoje é para ti.

Quis apenas escrever-te, hoje, aquilo que tantas vezes pensei e nunca te disse.

Síndrome do ninho vazio

O Síndrome do ninho vazio é uma condição que se caracteriza pelo aparecimento de quadros depressivos, sobretudo nas mães, com a saída dos filhos de casa. É um momento de adaptação e transição que afeta todas as famílias. Em algumas mulheres faz despoletar emoções de tristeza e vazio, pelo sentimento de perda da função de mãe na vida dos filhos.

Os filhos consomem ao logo dos anos tantas horas de trabalho e de reflexão que, sobretudo as mulheres, ficam vazias depois da sua saída e é preciso reinventar novas formas de se sentirem mães.

Na verdade precisam de construir um novo formato de maternidade que já não passa por todas as grandes e pequenas, boas e más situações do quotidiano! Sim porque ter os filhos em casa por vezes também é cansativo e exasperante…

Já não passa pelos gritos, o vai estudar ou o por favor arruma o teu quarto…

Para alguns parece que parte de nós se perde com a vossa saída e é preciso reconstruir a vida e a identidade. Como se a nossa identidade estivesse colada à maternidade!?

Mas é verdade que isso acontece muitas vezes e que nem sempre os casais mantêm uma base sólida que lhes permite usufruir com alegria dessa nova etapa da vida e fica um vazio difícil de explicar e sobretudo, ainda mais difícil de sentir!

A força das relações construídas perde-se com o tempo e a distância?

Será que conseguimos ao longo de todos os anos, construir relações suficientemente fortes, próximas e vinculadas que consigam resistir à inevitável distancia que a saída dos filhos exige?

Sim porque a saída dos filhos implica sempre alguma distância para que possam realmente construir as suas vidas e as suas famílias. É muito importante que tenham tempo e espaço para se construírem como adultos que vivem fora das “saias dos pais”. Mais importante ainda é que os pais respeitam esse afastamento, que não é um afastamento no Amor!

É preciso arranjar novas formas e estar na vossa vida, sem nunca vos impedir de voar. Por vezes é difícil estar e não estar ao mesmo tempo. Estar, participar, ser presente, mas não invadir ou intrometer. É uma linha difícil que exige muita maturidade e bom senso e que nem sempre é fácil de definir para os pais…

É importante que os filhos, com amor, também possam ir mostrando essa linha. Para que pouco a pouco todos se possam ir adaptando a essa nova realidade, com a alegria que ver-vos crescer deixa no coração de quaisquer pais.

Desejamos os períodos de férias onde estamos todos juntos, os jantares de família e todos os outros momentos em que os nossos filhos feitos homens e mulheres são um bocadinho nossos novamente… No final damos por nós discretamente a respirar fundo porque já não estamos habituados a tanta confusão…

Acima de tudo é preciso acreditar que o vínculo é forte e duradouro. Para que cada um de vocês, filhos adultos, possa voar sem medo e os pais possam ficar sem medo de vos perder….

Photo by Sam Wheeler on Unsplash

1 marido causa 10 vezes mais stress à mulher do que 3 filhos juntos

Cada casal é um mundo, tal como cada família.

Numa família ideal os adultos deveriam apoiar-se mutuamente e contribuir em partes iguais na criação e educação dos filhos. No entanto, sabemos que em muitos casos a realidade não é esta. Infelizmente, em muitas casas a mulher tem de assumir a responsabilidade da casa e da educação dos filhos.

E assim, um marido causa muito mais stress à mulher do que os próprios filhos.

Este foi o resultado de uma pesquisa publicada no Today Moms, realizada nos Estados Unidos com mais de 7.000  mães e que comprovou que os maridos geravam 10 vezes mais stress do que os filhos. 46% das mulheres inquiridas confirmaram que os maridos eram o seu maior gerados de stress, e não os filhos.

As expectativas não cumpridas das mães

Uma parte das mulheres da pesquisa, referiram que os maridos lhes davam “mais trabalho” do que os filhos. Que os filhos não lhes davam tantas dores de cabeça, mas as atitudes infantis dos seus parceiros é que incomodavam e desorientavam muito.

Algumas também se queixaram de que os maridos não ajudavam o mínimo com as tarefas de casa. Esta situação provoca um sobrecarregamento de um dos elementos do casal, podendo vir a desencadear a longo prazo, exaustão, depressão, esgotamento, entre outras. Tal como a privação de sono, a privação de tempo para si própria, é a chave para manter a mente saudável.

Certamente nem todas têm a sorte de ter um marido que participe ativamente nas  tarefas da casa e na educação dos filhos.

No entanto, é provável que estes estudos também incidissem sobre as expectativas das mulheres inquiridas. Por exemplo: é expectável que uma criança tenha um acesso de raiva, uma birra passageira, mas não é expectável que um adulto se comporte com uma criança.

Agir como outra criança que precisa de atenção é um dos fatores que dá pontos extras aos homens da casa. As participantes do estudo alegaram que depois de um dia inteiro de trabalho, a preocupação com as crianças e as tarefas de casa, acaba por não sobrar tempo nem disposição para se dedicarem ao marido. Isto resulta normalmente em falta de compreensão – de ambos os lados.  “É previsível que uma criança não entenda certas coisas, mas esperamos compreensão e paciência de nosso marido”.

Conclusão

Quando a pessoa fica aquém da expectativa do parceiro, não só provoca desilusão mas também frustração no outro. Estas energias negativas aumentam o stress do dia-a-dia e podem vir a ser a gota d’água de uma relação.

Pais acreditam que já fazem o suficiente e exigem mais reconhecimento

Curiosamente, noutra pesquisa realizada pelos mesmos investigadores com 1.500 pais, metade considerou que partilhava a educação e criação dos filhos com as respetivas mães das crianças.

O estranho foi constatar que das 2.700 mães inquiridas, 75% afirmaram que cuidavam sozinhas das crianças.

Muitos pais mostraram-se incomodados por serem considerados uma parte secundária da família. Dois terços dos pais disseram que gostariam que o seu esforço e trabalho fossem reconhecidos de vez em quando, nem que fosse com palavras de incentivo.

Este estudo revela que existe um problema de comunicação e de expectativas mal ajustadas em muitas (quase todas) as casas.

Alguns pais acreditam que fazem o suficiente e que não são reconhecidos, enquanto as mães acham que eles não fazem o mínimo.

De quem é a culpa?

Excluindo os casos em que um dos pais realmente não se envolve nada na criação dos filhos, o certo é que a paternidade é stressante e muitas vezes é mais fácil atribuir responsabilidade do nosso mau humor ou a nossa incapacidade para administrar a agenda quotidiana da família, a outro adulto.

Manter um relacionamento de casal também requer uma boa dose de trabalho. Frequentemente, as mulheres exigem muito de si próprias, acumulando as tarefas de ser mãe, mulher, filha e amiga perfeitas. Esta tensão em satisfazer a todos acaba por ser demais.

Mas é muito importante procurar a causa desta insatisfação, porque, obviamente vai acabar por afetar o relacionamento do casal.  Na verdade, os estudos concluíram que um casamento stressante é tão mau para a saúde como o fumo. Que aumenta as probabilidades de sofrer uma doença cardiovascular, tanto nos homens como nas mulheres.

Um estudo recente em 300 mulheres suecas concluiu que o risco de sofrer um enfarto multiplica-se por três quando estas vivem casamentos conflituosos.

Qual é a solução?

Nove em cada dez casais reconhecem que a sua relação piora com o nascimento do primeiro filho. Em qualquer caso, para evitar que um seja sobrecarregado de tarefas e desenvolva níveis de stress muito elevados, é importante que a comunicação flua em todos os momentos e em ambas as direções.

Portanto, pais e mães ficam as dicas:

  • Peça diretamente ao seu marido/mulher o que precisa, quando precisa e explique por que precisa. Não fique à espera lhe leiam os pensamentos. Não vai acontecer.
  • Não tente assumir/não assuma todas as tarefas. Não tem de provar nada a ninguém. Demonstre amor aos seus filhos todos os dias, isso já basta.
  • Fale com seu parceiro sobre os seus medos, inseguranças e insatisfações. Isso os tornará mais seguros e confiantes. Deixe claro o que espera dele/dela, sem recriminações.
  • Muita calma nos momentos de stress. Cabeça no lugar, inspira, expira, conta até 5 antes de responder.
  • Pensar sempre, mas sempre em primeiro lugar nos miúdos!

 

Publicado originalmente em The Huffington Post – Tradução e adaptação: Portal Raízes, adaptado por Up To Kids®

“Vou educá-la a ter esperança e força, mas a permitir-se ser frágil.
Vou tentar educá-la para que nunca se ponha numa situação de perigo.”

É cultural, foi assim que fomos ensinados e muitas vezes ainda é assim que agimos. O ditado reza “entre marido e mulher ninguém mete a colher”.

Mas os tempos são outros e se temos evoluído em tantas outras áreas porque continuamos a virar a cara em situações de abuso?

Do outro lado do oceano chegaram notícias e imagens chocantes de uma advogada, que foi filmada a ser agredida pelo marido dentro do elevador do prédio e no parque de estacionamento do condomínio enquanto gritava por ajuda. Esta mulher acabou por morrer, vítima de uma queda do quarto andar, do seu apartamento. Correcção, esta mulher acabou por ser assassinada pelo marido quando todos os vizinhos ouviram os seus apelos por ajuda. Ninguém, repito, ninguém, chamou a polícia. Entendo o medo, somos humanos e sentimos na pele o nosso medo, o medo pelos nossos, o nosso desejo de sobrevivência. Muitas pessoas tiveram receio que o marido estivesse armado e não foram até lá. Estiveram para chamar a polícia mas depois os gritos pararam. Pararam porque já era tarde demais.

Estou a relatar esta história a título de exemplo, como poderia contar outras. Todos nós conhecemos algum caso, infelizmente. E os que têm a sorte de não conhecer, leem notícias.

Como mãe de uma rapariga há muitas coisas que me apoquentam em relação ao seu futuro, mais do que se fosse um rapaz – e nisto tenho de ser sincera e crua, porque ainda é muito diferente ser rapaz e rapariga neste mundo.

Vou tentar educá-la para que nunca se ponha numa situação de perigo.

Vou educá-la para identificar uma situação de perigo caso já esteja envolvida nela. Vou educá-la a fazer ouvir a sua voz, apesar do medo – mesmo que para isso tenha de saber contornar situações de confronto e saiba pedir a ajuda a quem de direito na altura certa. Vou educá-la para não virar a cara quando for testemunha da dor de outra pessoa. A falar, mesmo que tenha medo, nem que seja para chamar a polícia. E se quando a polícia chegar ela sentir que “não serviu para nada”, que saiba que serve sempre. Nem que seja para que as pessoas envolvidas saibam que os outros sabem, reparam e vão andar de olho na situação.

Vou educá-la a ter esperança e força, mas a permitir-se ser frágil. Porque todos nós cometemos erros, porque todos nós, numa altura ou outra precisamos de ajuda, porque todos nós já recusámos ajuda quando soubemos que teria sido melhor se tivéssemos aceitado.

A violência transtorna-me e é-me difícil de compreender, mas a passividade do mundo perante a violência é algo que nunca aceitarei.

Não é esse o futuro e o mundo onde quero que os meus filhos cresçam.

Quero que seja um mundo onde se diz “lembras-te de antigamente quando as mulheres morriam às mãos dos companheiros/ex-companheiros/aspirantes a companheiros?”. Quero que sejam coisas de tempos que eles não recordam.

Educar uma criança é a missão dos pais. Estar lá, acompanhar, proteger. Mostrar a realidade e as soluções. E isto serve para os pais das vítimas e dos agressores. Quando há sinais de que algo possa não estar bem devemos ser os primeiros a agir.Para o bem dos nossos filhos e dos que com eles se relacionam.

Devemos ser o exemplo e ajudar quem precisa de ajuda. Se os nossos filhos nos virem a estender a mão, será para eles natural fazer o mesmo na nossa ausência.

Resta-nos ser bons exemplos.

Pedir ajuda.

Dar ajuda.

Ter medo e ir em frente mesmo assim.

Porque na vida tudo tem um tempo e eu quero viver cada segundo deste nosso tempo.

Qualquer dia não irei mais queixar-me do barulho que fazes e da desarrumação que lanças por onde passas. Nem do tempo passado à mesa quando não queres comer.

Qualquer dia não irei queixar-me das noites mal dormidas. Nem das tuas constantes reclamações por teres de ir tomar banho ou das vezes que tenho de repetir a mesma história.

Qualquer dia não terei de me levantar para fazer outro biberão porque afinal querias mais um bocadinho. Não terei de demorar uma eternidade a chegar a qualquer lugar porque paraste vezes sem conta para admirar o que te rodeia.

Qualquer dia não irás chamar por mim repetidamente, vezes sem conta..

Qualquer dia vou estar em silêncio, com a casa arrumada, a fazer as refeições rapidamente e sem dramas. Vou deitar-me sem horários nem rotinas, vou ser capaz de me despachar num ápice.

Porque na vida tudo tem um tempo e eu quero viver cada segundo deste nosso tempo.Qualquer dia não irei mais queixar-me do barulho que fazes...

Nesse dia irei perceber que deixei de reparar nos detalhes que aprendi a apreciar nas milésimas vezes em que me fazias parar. Irei perceber que ter a casa arrumada afinal não é tão gratificante e que o silêncio, que tanto desejava, pode ser ensurdecedor.

Nesse dia, irei perceber que não chamares por mim constantemente chega a doer no peito .

Antes que esse dia chegue vou encher-te de beijos. Vou dar-te todo o colo de que precisas, vou olhar-te nos olhos e dizer-te como te amo. Antes que esse dia chegue vou saborear o som da tua gargalhada, vou brincar contigo sem olhar para o relógio e valorizar a doce bagunça que lanças pela casa.

E vou repetir tudo quantas vezes precisares. Vou educar-te com todo o amor que tenho.

Porque na vida tudo tem um tempo e eu quero viver cada segundo deste nosso tempo.

 

Como sobreviver às férias com irmãos ou, na perspectiva dos pais, como sobreviver às férias quando temos vários filhos

Entramos em férias com vontade de descansar, de aproveitar o tempo em família e de criar memórias felizes com muita diversão. É a altura do ano em que passamos mais tempo juntos e isso pode (e deve) ser tão especial! Então, e para que nenhuma briga ou conflito entre irmãos possa pôr em causa essa harmonia, aqui ficam 10 dicas para sobreviver às férias com irmãos, e  fazerem destas férias uma festa!

1. ½ dose de planeamento e ½ dose de improviso!

As férias envolvem geralmente alguma preparação. De forma a promover a cooperação entre todos, conversem e envolvam as crianças nessa organização. Onde vão, o que vão fazer, com quem vão estar, o que é que cada um quer levar. Meio caminho para se sentirem todos envolvidos e evitar “amuos”! E se alguma coisa não correr conforme planeado, é hora de gerir expectativas e frustrações, e toca a improvisar com sentido de humor! Isso é aventura!

2. Apostar em jogar!

É a altura para abusar dos jogos de tabuleiro, dos jogos ao ar livre, dos jogos nas viagens de carro, dos jogos nas toalhas de papel dos restaurantes. Levem os preferidos de casa, descubram novos e porque não criarem os vossos? E até que os irmãos tenham maturidade para saberem jogar um contra o outro, e aceitarem que para um ganhar outro tem de perder, promovam que eles façam equipa contra os pais. Dá-lhe um gozo enorme!

3. Digam não à competição!

“Vamos lá ver quem faz o castelo maior!” “Quem comer a sopa primeiro pode comer um gelado depois” Hum… não vai funcionar! Evitem promover a competição que já é tão normal que exista entre os irmãos e que origina tantos conflitos!

4. E a comparação? Também não!

“Ai o teu irmão com esta idade já sabia andar de bicicleta” “O teu irmão já fez os trabalhos das férias, e tu és sempre o mesmo a deixar tudo para a última!” Podemos pensar que os estamos a motivar, mas na realidade não estamos é a respeitar a individualidade de cada um, os seus ritmos, os seus gostos, e sim a promover a competição!

5. Cada um é um só!

Tentem ter um tempinho para cada um, uma ida aos gelados, um mergulho com conversa pelo meio, um passeio ao fim da tarde, acompanhem numa atividade que queiram fazer sozinhos… numa altura que é de intensa partilha, sabe bem uns momentos de filho único com cada um deles!

6. Antecipem situações de conflito!!

Nós já conhecemos bem os miúdos, e sabemos quais são os “gatilhos” que podem despoletar uma briga! É o sono, é a fome, o cansaço, o tablet ou o telefone, ou o simples botão do elevador. Então toca a fintar essas situações e estabeleçam regras e limites claros!

7. Diplomatas e negociadores

Aproveitem as férias para promover a gentileza (“podes pedir-lhe por favor?” “a tua irmã está com o balde de água muito pesado, podes ajudar?”) e ensinem-lhes técnicas de negociação e a serem criativos na resolução dos seus problemas! (que a técnica “um parte e outro escolhe” salve muitas partilhas de bolas de Berlim, sumos ao almoço e algodão doce à noite) e saberem que têm escolhas antes de brigar ou bater (perante uma discussão, podem chamar um adulto, pedir para parar, pedir ajuda, etc)

8. Stop! Parem, escutem, observem e avaliem se é mesmo necessário intervir.

Se nos metermos constantemente nas brigas dos nossos filhos estamos certamente a tomar partidos, a tomar decisões por eles e a não incentivar que resolvam os problemas entre si. Mas, por outro lado, não ignorem situações em que um deles possa estar a cometer uma injustiça contra o outro, ou exista agressão física e/ou verbal.

9. Mediação é a solução! 

Perante um desentendimento que seja necessário intervir, não tomem partidos. Dêem-lhes ferramentas para que consigam comunicar de uma forma positiva, respeitando-se e alcançando um acordo que seja bom para todos (escrevam mesmo os acordos e aquilo em que se comprometem – eles adoram).

10. Criem muitas memórias felizes e registem esses momentos!

Não há nada como depois conseguirmos reviver cada momento e partilhar histórias.

Boas Férias!

 

Por Joana Sardinha Zino, Pais e Mães Mediadores de Serviço

A importância dos Avós

Quão sortudas são as crianças que podem passar tempo com os seus avós! E o contrário também se aplica. É um privilégio!

Privilégio, na medida em que existe um vínculo especial entre avós e netos. É uma relação baseada no amor e na diversão. Enfim, é pura alegria.

Tornar-se avó/avô é um momento muito especial. Os avós estão livres da paternidade do dia-a-dia, sendo capazes de proporcionar tempo de qualidade aos seus netos, onde a brincadeira é constante. Por isso mesmo são avós!

Estar perto dos avós proporciona uma importante experiência de aprendizagem.

Ao estar com os avós, as crianças aprendem a valorizar os mais velhos. Aprendem a respeitar o que estes têm para oferecer. Através dos avós, têm a capacidade de compreender a importância do amor e da família e o legado da sua própria família.

Os avós geralmente são o elo de ligação mais forte com o seu património familiar.

A estreita relação entre avós e netos é muitas vezes marcada por fortes laços familiares. Estes laços florescem apesar de avós e netos terem pouco em comum em termos de idade, nível de maturidade e hiato geracional.

A chegada dos netos é como um sopro de ar fresco para os avós e as crianças divertem-se e aprendem muito com eles. A presença dos avós nos anos de
formação das crianças ajuda fortemente na construção do seu carácter.

Apesar das relações mudarem com o passar dos anos, tal como a relação entre pais e filhos, os avós estão sempre presentes para lembrar com carinho os bons momentos que viveram, vivem e viverão juntos.

Valorizemos os nossos Avós!

Por Telma Grazina, Psicóloga

E se não houver sol? Uma mão cheia de coisas…

Já todos sabemos como acabou o Gato…o Gato Malhado…lembras-te?

Mesmo assim, gostamos de reler. Talvez haja uma esperança de chegarmos ao fim e ele – o final – ser diferente, não é?

Como se reler um livro, rever um filme ou reencontrar uma pessoa, fosse capaz de trazer finais diferentes. Não. Não é capaz.

Sei que deves estar a pensar: “Então mas as pessoas não mudam?!“. Mudam. Mas pouco.

Nestas férias, temos um final à nossa espera. Voltaremos para a barriga da cascavel? Provavelmente.

A mim ninguém me tira da ideia…a cascavel tem um chocalho! Eu, se fosse o gato, teria ouvido o chocalho! E teria fugido.

O problema não é esse, bem sei. O problema era a vontade do gato! Eu não quero acabar na barriga da cascavel.

Não quero férias como uma tarde de verão.

Não desejo terra à vista, como quem grita “fim à vista”. Vou beijar demorado, vou acordar cedo, vou tentar o equilíbrio entre a rotina e a falta de regras. Vou beijar roubado, vou acordar tarde…

E vou fazer mais uma mão cheia de coisas. E se não houver sol?

Quero reencontrar-te diferente no fim destas férias porque fizeste o mesmo. Quero ler em ti outro final, porque reescreveste as tuas histórias.

Vou fazer isso também, numa mão cheia de coisas:

  1. Vou contar aos meus filhos a história de uma nuvem feia, má, triste, suja,…E vou explicar a força do vento. O vento capaz de empurrar as nuvens feias para longe. Essa força está dentro deles. Falarei de persistência, de resiliência, claro está. Mas falarei da nuvem e do vento.
  2. Vou contar ao amor da minha vida a história de uma brisa fresca, traiçoeira, aborrecida…e vou explicar a força da prevenção. Esta brisa, chamada “a idade a chegar” pode ser terrível! Mas, como me preparo, hei-de ter sempre um casaquinho. Não se pode confiar neste clima. A partir de certa idade, um casaquinho vai sempre bem. Falarei de regar o amor, claro. E de brisas que afinal, com preparação, não são alterações climáticas. São naturais.
  3. Vou contar sobre o meu sonho matinal. Sonho onde reúno os amigos (aqueles três…quatro…) com frequência. É a história de um cardume navegante, conquistador, capaz de cortar as águas porque está em grupo.
  4. Vou contar sobre o avô Jaime e sobre a forma como morreu. A forma como deixou um legado de boa disposição, de humor, de sorriso e de vinho tinto (daquele incapaz de deixar mancha). De vinho tinto capaz de deixar marca. Uma marca boa.
  5. Vou contar a história do sorriso doce mais inexplicável. A luz surpreendente, surgindo como uma música de ANAVITÓRIA, ou melhor, Rubel em “Quando bate aquela saudade”. Vou contar sobre o sonho. Sonho.

Sonho com o gato a fugir da cascavel.  Não, não chega a casar com a andorinha, mas está escrito com outro fim, com outra cor e luz. Sonho com o chocalho a avisar. Sonho com uma noite de verão que, no fim de contas, pode ser a vida toda. E se não houver sol?

Sonho que, afinal, em vez de gato, sou um sol.

Boas férias.

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A pressão para ter filhos existe e temos de falar sobre isso

Durante o nosso crescimento existem vários marcos, etapas que é esperado que alcancemos, ainda que sejamos todos tão diferentes uns dos outros.

Crescemos a ouvir a pergunta da praxe “como é que vai a escola”, sejamos bons ou maus alunos. Perguntam-nos o que queremos ser quando formos grandes só por curiosidade, tantas vezes sem haver um interesse grande no assunto, porque raras vezes essa pergunta é seguida de um “e porquê?”. Depois vem “que área vais seguir” e mais tarde o “qual o curso que vais tirar”, como se não houvesse vida para quem não quer tirar um curso ou simplesmente não faça a mais pálida ideia do que vai fazer dali a uns meses, ainda que seja das decisões mais marcantes da sua vida.

“Já tens namorados” ou “Quando arranjas um namorado?”. Se formos rapazes há tendência para se ouvir um “és muito novo para namorar tão a sério”, se formos raparigas infelizmente começam a vislumbrar-se perguntas sobre /vestidos de noiva. E depois sobre filhos. O primeiro. Se já tivermos feito check nessa caixinha, sobre o segundo e por aí fora, porque as pessoas nunca se dão por satisfeitas.

E as pessoas que nos fazem estas perguntas tão íntimas sobre a nossa vida são de um espectro vastíssimo que vai desde a nossa avó à senhora que sobe connosco no elevador uma vez por ano.

Entendo que exista curiosidade, carinho, preocupação, expectativas. Entendo mas acho que na maior parte dos casos devemos parar para pensar antes de perguntar porque não fazemos a menor ideia do que se passa do outro lado – mesmo quando são pessoas de família às vezes estão às escuras porque há coisas difíceis de partilhar, de tão íntimas e sofridas que são.

Falo-vos de um casal amigo que estava junto desde a escola secundária, casados há três anos. À volta estava toda a gente a começar a ter o primeiro filho. Lembro-me como se fosse ontem, estava eu grávida da Mariana, num jantar de aniversário de um amigo em comum e foram três pessoas que lhes perguntaram sobre quando iam eles ter filhos. A resposta foi a educada, “estamos a trabalhar nisso”. Meses mais tardes separaram-se e viemos a saber que estavam a tentar há três anos sem sucesso. Que essa luta diária trouxe para dentro de casa um stress, desilusão e culpa tão grande que o amor acabou por não ser suficiente. No caso deles havia uma razão médica para a gravidez não acontecer.

Noutro casal amigo, em vias de separação, era constante a pergunta de quando viria o segundo filho. Ninguém sonhava que estavam a atravessar uma crise e que por isso o segundo filho estava longe do horizonte.

Noutro ainda o facto de o pai querer mais um filho e a mãe não sentir que era esse o caminho também não transparecia, mas a pressão externa pouco ajudou.

E depois há simplesmente as pessoas que não querem ter filhos.

As que não querem pensar nisso para já.

As que querem mas não podem. Porque financeiramente não seria viável ou porque as suas vidas não lhes permitem ter a família que gostariam.

É por isso que nunca faço esta pergunta aos meus amigos, mesmo aos mais próximos. Porque eu posso conhecê-los bem mas não sei tudo, nem é suposto saber. Como amigos devo criar um ambiente de confiança e tocar no assunto, eventualmente falando da minha própria experiência, e deixar espaço para que se a outra pessoa quiser falar o possa fazer. Sem pressões.

Fazemo-lo com boas intenções mas há momentos em que uma simples pergunta pode provocar uma tempestade. Dentro da pessoa, dentro da sua casa.

E que temos nós a ver com o desejo de uma pessoa ter filhos, se casa ou não casa, se descasa, se compra carro ou vai a pé? Se for apenas companheirismo e preocupação, então que a façamos chegar em forma de amor e não de interrogatório.

Empatia. Pormo-nos no lugar do outro. Lembrar-nos de quando nos fizeram perguntas que preferíamos não ter tido de responder.

Ser amigos, filhos, pais, sogros, padrinhos, sem pressões.

Só amor.

Pode parecer difícil mas é mais fácil do que parece.