Não, eu não educo os meus filhos para o feminismo.

Eu educo-os para serem corajosos, independentes, honestos e para que se respeitem e respeitem os outros.

“- Mãe, estás a fazer o jantar porquê? É o pai que costuma fazer o jantar.”

Quando alguém diz que os rapazes devem ser educados para o feminismo eu hesito entre bater com a cabeça na parede ou respirar fundo e perguntar como é que funcionam as coisas lá em casa.

Eu explico, sou mãe de um rapaz e de uma rapariga e ambos recebem a mesma educação e o mesmo exemplo. E o exemplo começa pela igualdade e o respeito entre o pai e a mãe. Em nossa casa o aspirador e o pano do pó não são propriedade da mãe, o pai lava a loiça, faz o jantar, vai às compras, leva os miúdos à escola e ao médico e trabalha, como a mãe. Não existem tarefas da mãe e tarefas do pai. Não existe a figura autoritária do pai e a figura permissiva da mãe. Não existem ameaças físicas nem psicológicas, não existe violência física nem verbal. Nunca é demais lembrar que filhos que crescem em ambientes abusivos têm grande probabilidade de se tornarem adultos agressores.

As crianças são esponjas e o respeito pelos outros e por si mesmas ensina-se pelo exemplo, por terem uma mãe que trabalha, que é independente, que se respeita e é respeitada e por terem um pai que se rege pelos mesmos princípios.

Recuso-me a educar o meu filho como futuro agressor e a minha filha como futura vítima.

Eu educo-os para serem corajosos, independentes, honestos e para que se respeitem e respeitem os outros. E estes não são princípios exclusivos do feminismo. São pilares básicos para uma sã convivência em sociedade, sem discriminações ou abusos de qualquer género.

Hoje são crianças de três e cinco anos, cujas questões nos aparecem na medida da idade que têm. Outras irão surgir com o tempo, como o valor do seu corpo, a não discriminação das mulheres no local de trabalho, a violência, o assédio, mas se as bases estiverem lá, tenho esperança de que se irão tornar em adultos responsáveis e respeitadores dos outros. E a esperança também entra nestas contas. Os pais fazem a sua parte. Esforçam-se para serem um bom exemplo, com ações e não apenas com palavras, e o resultado será uma mistura desse exemplo, da personalidade dos filhos e de uma boa dose de sorte.

Por isso, não! Não educo os meus filhos para o feminismo. Educo-os para o humanismo.

Ao Pai do meu filho

Querido Pai do meu filho, não leves a mal que te chame assim, mas este é o teu papel que mais me encanta!

És muito mais que pai do meu filho… És meu amigo, meu ouvinte, companheiro de uma vida… Ouves os meus risos e desabafos, dás-me um terno beijo ou um simples ombro amigo.

Nem sempre foi fácil o nosso percurso até aqui. Mas o bom, é que mesmo os momentos difíceis, foram feitos de mãos dadas! Conseguimos chatear-nos apoiando-nos um ao outro sempre. E isso é bom!

Já lá vão uns anitos, mas os últimos têm sido sem dúvida, os mais desafiantes e em simultâneo os mais bonitos das nossas vidas.

Quero-te dizer que sonhei com este momento.

Sonhei com os dias em que me sentaria numa pedra ao sol, simplesmente a ver-te jogar à bola com o nosso filho.

Sonhei com as gargalhadas que dariam juntos e que eu ia ouvir à distância, enquanto preparava o jantar.

Sonhei com os sons a imitar carros ou animais que ias ensinar-lhe, com o som das vossas mãos no ar quando dão mais 5 um ao outro.

Sonhei que a nossa vida juntos daria frutos, e como sonhei, fez-nos mais felizes, mais completos e com mais sentido.

Têm sido uma batalha, é certo, mas uma batalha daquelas que só juntos superaríamos.

Chamo-te Pai do meu filho porque tens desempenhado este papel na perfeição!

És Pai, amigo, cuidador, educador, e companheiro e foi com isso que sonhei.

E se o papel da minha vida é ser a mãe, tu encaixas, sem dúvida, no papel de Pai do meu filho.

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Crianças sem empatia

Desde que me tornei mãe há uma série de coisas que mexem muito comigo mas tudo o que diga respeito a crianças e maus tratos deixa-me de rastos.

Os maus tratos de que hoje falo não são de pai para filho, mas sim de filho para pai. Este tipo de comportamento existe e parece longe de estar erradicado.

Há, como em todo o tipo de relações, vários géneros de maus tratos, vários níveis, nenhum porém que não seja grave a meu ver.

Ontem estava no metro e entraram comigo uma senhora com os seus 40 anos e a filha adolescente, talvez de uns treze. Tinham muito bom aspecto (digo isto já porque há um preconceito, que muitas vezes também cruza a minha sensibilidade, em relação ao tipo de pessoas que está envolvida em algumas situações). Por defeito profissional estou atenta ao comportamento de quem me rodeia, gosto de “absorver” a forma como as pessoas lidam umas com as outras, o modo como o amor ou a rejeição se manifestam nas várias idades, entre pessoas diferentes, etc. Levantando os olhos do meu livro reparei que tanto a mãe como a filha estavam ambas focadas nos telemóveis. A mãe estava nas redes sociais, a filha a jogar. A primeira “chapada” que recebi aconteceu quando a filha, possivelmente ao falhar o objectivo do jogo, lançou um impropério cabeludo, daqueles palavrões que nunca a minha mãe disse ou me ouviria dizer nem que passasse uma eternidade. O meu olhar voltou-se para a mãe, que agiu como se nada se tivesse passado. Pensei que não tivesse ouvido. Fiquei a matutar e quando ambas se levantaram para sair na sua estação algo me escapou, algo que a rapariga disse à mãe e a que esta não respondeu. Recebeu como sentença:

“Para além de atrasada és surda”.

Estremeci. Fiquei paralisada no meu lugar, incrédula, à espera da reacção da mãe e não minto quando digo que esperava uma resposta do mesmo calibre. Mas não foi isso que aconteceu. A mãe demorou pelo menos trinta segundos a responder, sendo que a filha voltou a repetir a mesma frase, já numa impaciência tal que parecia que queria que toda a gente à volta dela concordasse. Por fim a mãe lá disse, num tom suave e discreto, sem qualquer sinal de estar a controlar os nervos:

-“ Vê lá se controlas a má educação, está bem? Ainda são cinco da tarde”.

E saíram.

Caramba, aquela miúda tratou a mãe abaixo de cão e ainda lhe passaram a mão pelo pêlo. Duas coisas me ocuparam de imediato o pensamento: quando é que a vida daquelas duas pessoas tinha chegado ao ponto em que era ok a filha chamar nomes à mãe? E teria havido um comportamento semelhante em que a filha se espelhasse? Se tivesse de apostar diria que sim, que a postura da mãe é passiva, que eventualmente nem nunca lhe chamou nomes ou a maltratou mas aposto que houve outra alguém (o pai, quem sabe) que terá passado a vida toda daquela miúda a rebaixar a mãe e a dirigir-lhe ofensas sempre que não correspondia ao que esperavam dela. Ou talvez nem tivesse sido assim, quem sabe? Às vezes as relações de abuso começam por a vítima mostrar uma fragilidade e o abusador aproveitar para a controlar. Mas aqui falamos de uma miúda e mexeu comigo.

São estes os filhos que quando os pais, já idosos, vão parar aos hospitais os abandonam à sua mercê? São estes os filhos que roubam os pais? São estes os filhos que maltratam fisicamente os pais, como tantas vezes vemos nas notícias, seja por violência física, seja por os deixarem à fome?

Como é que uma pessoa que não respeita a mãe (ou o pai, ou ambos) pode respeitar seja quem for na sua vida adulta? E falo de relações em que os pais merecem respeito, que também existem pais que de pais só detém o título.

Custa-me muito pensar nas memórias que estão a ser criadas, na falta de empatia que existe, porque aquela miúda não hesitou em magoar a mãe nem se preocupou sequer com o facto de estarem diante de outras pessoas. Quem faz isto de que mais será capaz?

Há todo um tipo de vivências de que estou muito distante, felizmente. Cresci num lar em que o respeito é pedra basilar, em que há amor, compreensão e sempre houve limites. É esse o mundo que estou a tentar recriar para a minha filha mas sei que irá deparar-se com pessoas com um background completamente diferente.

Pergunto-me se miúdos que têm uma relação abusiva com os pais são passivos de serem salvos mais tarde ou mais cedo, seja por força do amor, da convivência, de boas influências.

Quero acreditar que sim.

Gosto de acreditar que o bem triunfa sempre. E que aquela mãe, um dia, será amada como merece.

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Homens com filhos vs Mulheres com filhos

Há uns tempos falava com uma amiga sobre uma pessoa que ambas conhecíamos e que era agora pai. A conclusão a que se chegou, sendo a pessoa em causa um pai carinhoso e extremoso é que era “muito sexy um homem que é bom pai”. E por sexy entenda-se apelativo, as mulheres gostam de ver, de ficar a observar, há algo dentro delas que se desmancha e que lhes transmite uma tranquilidade, algo que as faz pensar que é boa pessoa, sem qualquer sombra de dúvidas, porque afinal, é bom pai.

Pensava eu sobre este assunto e deparei-me com a diferença de julgamento que a sociedade faz em relação as homens e mulheres com filhos no geral e, em particular, quando esses homens e essas mulheres são solteiras (divorciadas, separadas, solteiras de “raiz”).

A verdade é que hoje em dia muito menos casamentos/relações se mantém por causa dos filhos, em comparação com o que acontecia na geração dos nossos pais. É certo que em alguns casos parece a quem está de fora que as pessoas mandam a toalha ao chão com demasiada facilidade, quando antigamente se “lutava”, mas acredito que cada caso é um caso. E as pessoas sentem menos dependência financeira e tomam mais decisões com vista ao seu bem-estar, ao bem-estar e felicidade dos seus filhos, procuram ser verdadeiros consigo e com os outros. E por isso há homens e mulheres relativamente novos que têm filhos.

Tenho uma amiga que tem três filhos, cada um de um pai diferente. Se eu contasse a quantidade de vezes que ouvi comentários depreciativos em relação a essa questão já tinha perdido o fôlego. Não sejamos cínicos, olha-se ainda de “dedo apontado” para estas pessoas, principalmente se forem mulheres. Se teve um filho com cada homem é porque não deve ser coisa boa, quem é que a atura, vai fazer filhos com o primeiro que mete dentro de casa. Se for um homem é porque não encontrou a companheira certa, a pessoa que o fará assentar. Que sabemos nós sobre a vida das pessoas? Quem somos nós para julgar?

Eu também julgo, sou humana, mas acontece-me mais sentir uma certa admiração por estas pessoas. Uma pessoa que quis ir em frente, que acreditou que tinha encontrado a pessoa certa ao ponto de ter um filho com ele, uma pessoa cujo valor é independente das escolhas que faz porque quantas e quantas vezes a vida nos acontece mesmo quando fazemos tudo certo, quando só queremos o nosso bem, o bem dos nossos filhos, um futuro estável?

Se se fala a uma amiga solteira de outro amigo mas avisamos que tem filhos, que passa tempo com eles, que é um pai dedicado, então a amiga pensa: “deve ser maduro”. Pensa “é altruísta”. “Mesmo tendo filhos quero conhecê-lo, pode ser complicado, mas dá-se um jeito, logo se vê”.

Se falamos de uma amiga que tem filhos a um amigo franze logo o cenho. “ As mães são muito complicadas, trazem muita bagagem. De certeza que põe os filhos em primeiro lugar (spoiler alert: se uma mulher que é mãe não puser os filhos à frente de um desconhecido que a quer levar a jantar fora então é caso para ficar de pé atrás, digo eu), não vai ter tempo para mim”.

Ainda que muito do que foi filtrado em ambas as conversas possa ser verdade, no caso dos homens os filhos são um atrativo, no caso das mulheres um obstáculo.

Talvez seja por ser mãe, mas defendo sempre uma mulher que, apesar de ter filhos, quer continuar a ser uma mulher. E se já é absolutamente fantástico uma mulher conseguir ser amiga, inteligente, interessante, culta, boa no seu trabalho, boa mãe, então se essa pessoa decide encontrar espaço para a sua felicidade e a procura então passa de fantástica a épica.

Felizmente ainda há homens que as vêem assim, que decidem arriscar, que apesar do medo que sentem, das inseguranças que todo um passado traz para uma relação, dão um passo em frente.

E há mulheres também que se apaixonam e se dedicam a fazer as coisas funcionar com homens que apesar de serem bons pais têm histórias complicadas com a família e, mesmo assim, não fogem.

Porque se um pai ou uma mãe deixar entrar uma pessoa nova no seu círculo, a deixar chegar perto dos filhos, então é porque também ele/ela fez uma escolha e para o bem de todos espera-se que tenha sido das boas.

Hoje em dia é tramado encontrar alguém bom.

E ser pai ou ser mãe é uma característica, não um defeito.

Oh, se está longe de ser um defeito…

Mas que sei eu? Sou simplesmente uma mãe.

No dia 16, eu e o pai catita fizemos 10 anos de namoro. Para comemorar a data decidimos criar um painel da história da nossa família.

O pequeno catita, como qualquer outra criança, tem uma grande necessidade em saber de onde veio, o que o ajuda a definir para onde vai.

Ele delira com as histórias do “quando eu tinha a tua idade…”, com as espatifadelas do mini-pai catita mais-arranhão-menos-arranhão na sua bicicleta, com as aventuras da mini-mãe nas aulas de ciências. Com todos os medos e desafios que cada um enfrentou, tão semelhantes aos que agora ele está a viver.

“No meu tempo não havia televisão. Tu tens é muita sorte!” não conta como história construtiva e inspiradora. Apenas os pormenores, as personagens tão conhecidas, os problemas, aprendizagens e as emoções experienciadas constroem a riqueza e profundidade da mensagem. 

Contar histórias de família tem inúmeros benefícios. Ajudam as crianças a fazerem relatos mais ricos e pormenorizados do seu dia a dia, a compreenderem e identificarem os pensamentos e as emoções do outro lado, favorecem o crescimento de uma autoestima saudável, e de uma noção mais forte do seu “eu”. As suas identidades ficam mais definidas, resultando numa maior resiliência e capacidade de lidar com os desafios da vida.

Estas histórias criam fios invisíveis que ligam a criança a todos aqueles que são importantes na sua vida, criando uma rede robusta onde a criança se sente amparada e protegida.

Contar a nossa história conta muito!

O painel chegou a semana passada, e o pequeno catita não conseguia tirar os olhos dele. De certa forma lembrou-me o poder hipnotizante das pinturas rupestres, ou dos hieróglifos do Egito. Desde sempre que os seres humanos se juntam para passar histórias de geração em geração. A nossa estava impressa em PVC, e era mais na onda da banda desenhada, mas o poder da história era claramente visível nos seus pequenos olhos fascinados.

“Ó Mãe e aqui? Foi onde conheceste o pai?” Apontava entusiasmado com o seu dedinho para o desenho do primeiro encontro.

Contámos várias vezes cada episódio. VÁRIAS, várias vezes…

No pedido em casamento no Japão, ele descobriu que a mãe tem dificuldade em responder rapidamente a perguntas difíceis, daquelas que podem mudar a vida de uma pessoa. Desde aí, responde “vou pensar um bocadinho” antes de responder a perguntas que ele acha que merecem o seu tempo.

Descobriu que a mesma música que ainda hoje cantamos para ele, era a música que o embalava ainda estava ele na minha barriga, o genérico do “Conan, o rapaz do futuro” (o pai catita tem uma “ligeiríssima” adoração pelo Japão).

Apercebeu-se que gostar de uma pessoa é crescer com ela, e isso leva tempo, como todas as coisas que valem mesmo a pena.

E descobriu que a vida dele é uma enorme tela, onde vão nascer muitas memórias maravilhosas que um dia ele também vai contar a alguém, muitas e MUITAS vezes.

Vamos falar sobre os trabalhos de casa?

Vamos, mas não em frente aos miúdos, por favor.

Este é um tema recorrente e pouco consensual e, por esse motivo, é bastante falado nas reuniões escolares e fora delas, entre os pais.

No outro dia estava na companhia de duas mães de rapazes que frequentam o terceiro ano e que se cruzaram, com os respectivos filhos, à entrada do colégio.

– Então, hoje há trabalhos de casa?

– Há e não são poucos. Uma seca, aquilo nunca mais acaba, estou com os exercícios pelos cabelos.

Este diálogo aconteceu entre as duas mães. Com os filhos ao lado. Filhos esses que mais tarde iriam pegar nos ditos exercícios, sentarem-se à secretária e fazê-los.

Entendo a frustração das ditas mães e sei que nem sequer pensaram no que lhes estava a sair da boca naquele momento, mas como se podem motivas as crianças a fazer uma tarefa que muitas vezes não é divertida, quando ouvem os seus pais queixarem-se dela? Aquele tipo de comentários legitima que os próprios alunos sintam que os trabalhos de casa não só não servem para nada como é uma chatice terem de os fazer. E mesmo que essa seja a verdade absoluta para os pais, considero uma irresponsabilidade estarem a passar este tipo de mensagem aos filhos.

Não que as crianças não devam ser ouvidas quanto a este assunto. Eles são o objecto em discussão, não nos enganemos, mas existe uma diferença entre ouvir e condicionar a opinião. Numa conversa sobre o que sentem sobre os trabalhos de casa, a sua utilidade, os resultados que deles retiram, as palavras como “chatice” e “seca” não deviam ser proferidas.

Como antiga aluna e mãe tenho a minha opinião sobre os trabalhos de casa: nem todos os alunos precisam deles e a acontecer não devem ser em quantidade que faça com que as crianças passem o dia inteiro a estudar, mesmo quando chegam a casa depois de saírem da escola, onde deveriam passar o seu tempo com os pais a serem crianças e a estreitarem as suas relações. E esta minha opinião nunca me fará olhar para o caderno da minha filha com expressão de aborrecimento e nem ela ouvirá da minha boca “mas tu não precisas destes exercícios todos…” ou “o que é que a professora estava a pensar em mandar estes trabalhos todos para as férias”. O que irei fazer (digo eu, que quando a batata quente nos cai no colo é que sabemos como agiremos, mas quero acreditar que seguirei as linhas orientadoras das minhas atitudes até agora) será motivas a minha filha. Ajudá-la a tirar as dúvidas e tentar que os momentos em que tem de se sentar em casa a fazer os trabalhos de casa não sejam um suplício mas sim algo que tem de ser feito e tem a sua utilidade e por isso mais vale fazer tudo e o mais depressa possível para ter o seu tempo livre.

Se não concordar com o método escolhido pelos professores, há um lugar para discutir o assunto: a escola. E com os professores. Fazendo-lhes chegar a minha opinião e dando as minhas sugestões e aceitando ou não a sua forma de trabalhar.

É por este motivo que é muito importante que os pais e a escola estejam em sintonia, o que muitas vezes não acontece. Mas o trabalho que ambas as instituições desenvolvem são os mais determinantes nos primeiros anos dos nossos filhos. Deve ser um trabalho conjunto, não deve haver um “nós” e um “eles” e tudo deve ser feito para pensar no bem-estar e evolução dos nossos filhos.

Eles nem sempre vão dominar a matéria. Nem sempre serão os melhores alunos, os mais rápidos, os mais audazes.

Mas a forma como “pintarmos” as suas ferramentas na obtenção de conhecimento será essencial na sua formação enquanto adultos.

Muitas vezes, nas empresas em que vão trabalhar, terão de desenvolver tarefas que não acrescentam muito. Elas fazem parte. E eles, os nossos filhos, são parte de um todo. São parte importante de um todo importante.

Todos importam e devem ser ouvidos, mas não legitimemos os nossos filhos a virarem a cara às suas obrigações porque desabafámos em frente a eles.

É uma chatice ter os miúdos sentados a uma secretária no fim de semana quando poderiam estar a passear com os pais? Claro que sim, mas para muitos deles será nos trabalhos de casa que conseguem desenvolver algumas dificuldades com que se depararam durante a semana. Para muitos pais será esse o momento em que ficam a par do que estão afinal os filhos a estudar. Para outros será efectivamente uma seca, porque fazem os trabalhos com uma perna às costas.

Mas é importante que os nossos filhos entendam as suas obrigações, concordem ou não com elas.

É importante que aprendam e é muito importante que haja espaço para que continuem a ser crianças.

Vamos falar de trabalhos de casa?

Vamos, mas em frente aos miúdos não, por favor.

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Bullying na escola, o que fazer?

Se o seu filho é repetidamente alvo de gozo, insultos ou comportamentos agressivos por outras crianças, então é provável que esteja a sofrer de bullying na escola.

Se isto se confirmar, é fundamental conhecer as medidas a tomar em caso de bullying:

  1. Em primeiro lugar, reúna os factos: fale com o seu filho acerca do que se está a passar, quem está envolvido, onde e quando ocorreu. Quanto mais perguntas fizer, mais informação conseguirá obter;
  2. Anote os dados: tente recriar uma linha do tempo com todos os acontecimentos;
  3. Antes de ir à escola, conte a história a alguém próximo de si ou da sua família, assegurando-se de que está a restringir-se aos factos e o mais objectivamente possível;
  4. Informe-se se a escola contempla alguma tipo de regra ou medidas específicas para denunciar uma situação de bullying;
  5. Fale primeiro com o professor titular, não vá logo para a direção. O professor é o seu maior aliado. Pergunte-lhe se ele tem algum conhecimento desta situação, conte-lhe a história de bullying do seu filho e reúna-se com ele novamente no espaço de uma semana, para tentar avaliar se a situação persiste ou se, pelo contrário, já se encontra resolvida;
  6. Se o bullying continuar, então sim deverá, juntamente com o professor, falar com a direção da escola. Tente averiguar de que forma a direção vai lidar com o assunto.

Mais importante ainda do que conhecer os passos a tomar perante uma situação de bullying, é fundamental capacitar o seu filho a defender-se e saber como reagir quando confrontado com uma eventual situação de bullying.

Os pais são, muitas vezes, os últimos a saber destas ocorrências, e a verdade é que não pode estar sempre presente quando o seu filho precisa de proteção, sobretudo em situações que ocorram maioritariamente dentro do recinto escolar.

Abaixo damos-lhe uma série de estratégias que poderão ajudar o seu filho a responder de forma eficaz sempre que os colegas ajam agressivamente contra ele ou contra outros:

1.Definir bullying

Use a palavra bullying em casa, encoraje o seu filho a usá-la para descrever o que o bullying verdadeiramente é. O bullying é uma coisa muito séria, um comportamento intencional que faz sofrer e que acontece repetidamente. E acima de tudo, esclareça-o de que o bullying é algo que não é aceitável.

2. Ensinar a respeitar e a ser respeitado

Relembre o seu filho de que, tal como não é aceitável que os outros gozem com ele, também não é aceitável que o seu filho goze com os outros, mesmo sob o argumento de que “toda a gente o faz” ou de que isso o faça parecer “fixe” aos olhos dos amigos.

3. Denunciar

Relembre o seu filho de que, perante uma situação de bullying, seja presencial ou on-line, ele tem sempre a possibilidade de escolher entre ser um observador passivo ou alguém que toma uma atitude. O seu filho tem a responsabilidade de denunciar os “bullies” aos adultos que podem ajudar. Diga-lhe que isto não significa ser “queixinhas”, mas sim uma atitude de compaixão e preocupação por outra criança. Isto gerará uma onda de solidariedade: quanto mais ele cuidar de outros alunos, maior a probabilidade de eles o ajudarem a defender-se contra “bullys” também.

4. Proteger e orientar

Garanta ao seu filho que ele não vai arranjar problemas ao contar a sua experiência de bullying a um adulto de confiança. Isto é válido tanto para incidentes que ocorram com ele, como para outra criança. Ajude o seu filho a perceber com quem deve falar nas diferentes circunstâncias.

5. Prevenir

Faça role-play de formas a responder ao bullying: ajude o seu filho a pensar em formas de reagir quando é gozado em diferentes circunstâncias. A quem contaria se alguém o andasse a empurrar no autocarro? O que é que ele diria a alguém que o insultou? Como é que deveria reagir se outros a alunos o excluíssem de um jogo?

Diga-lhe como agir:

  1. Ignorar o “bully”, sempre que possível;
  2. Afastar-se ou ir-se embora, se conseguir;
  3. Dizer ao “bully” para parar, em voz alta. Mesmo que se sinta nervoso, deve tentar falar e agir com confiança.
  4. Pedir ajuda a amigos e colegas;
  5. Tentar não se emocionar;
  6. Evitar responder também com bullying. Retaliação pode ser perigosa;
  7. Contar sempre a um adulto (professor, pais, auxiliar, etc) depois do sucedido.

Nem sempre o nosso filho é vitima de bullying. E se for o agressor, o que fazer neste caso?

O seu filho goza com outras crianças?

Tem tendência para ficar de castigo e ser advertido por problemas no recreio?

Talvez esteja a “cometer” bullying.

Estas crianças normalmente precisam de se sentir em controlo, têm dificuldade em gerir as suas emoções e em fazer amigos, por vezes podem mesmo sentir-se frustrados devido a dificuldades de aprendizagem ou atencionais. Mesmo que este tipo de comportamento possa ser explicado, é importante que o seu filho saiba que, quando goza com outras crianças, está a ser “bully”. Ensiná-lo a gerir as suas emoções e ações é a melhor forma de acabar com este tipo de comportamento:

1. Deixe claro que não aceita este tipo de comportamento

Explique ao seu filho que não acha piada, engraçado ou aceitável magoar e gozar com os outros. Isto é válido tanto para os colegas como para os irmãos;

2. Reveja os incidentes calmamente

O que fizeste? Porque é que foi uma má escolha? A quem é que as tuas ações magoaram? O que é que estavas a tentar conseguir? Da próxima vez, como podes atingir esse objetivo sem magoar outras pessoas?

3. Arranje consequências consistentes para este tipo de comportamento

Ex: O seu filho terá que pedir desculpa a quem magoou ou gozou e emendar o mal que fez. Seguidamente, terá que haver uma consequência negativa do seu comportamento: ficar sem acesso ao computador, televisão ou telemóvel, ou então não fazer as atividades que tinha planeadas durante um período de tempo. Estas consequências podem ser mudadas/ajustadas, mas certifique-se de que o seu filho toma conhecimento dessa mudança;

4. Esteja SEMPRE informado acerca do comportamento do seu filho

Com quem é que o seu filho se dá? Tente perceber o comportamento do seu filho em diferentes áreas da sua vida. Mal assista a um comportamento menos apropriado, seja assertivo e aja imediatamente Isto ajuda a criança a compreender que esse comportamento é inaceitável.

5. Transmita aos seu filho a “normalidade” de ser-se bom para os outros

Faça com que o seu filho repare no universo em seu redor, em que o “normal” é as pessoas serem simpáticas, atenciosas e generosas umas com as outras. Quando passam tempo juntos, chame a atenção quando vir alguém a agir de forma atenciosa e correta. Participem juntos em ações de voluntariado, de modo a estimular o seu filho a ajudar os outros. Valorize o seu filho, sempre que ele for atencioso ou sempre que ele consiga gerir as suas emoções de forma adequada.

Quer o seu filho esteja a ser vítima de bullying, que seja o próprio agressor ou um mero espectador, ensine-o a agir da maneira mais adequada em qualquer uma destas situações

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Mães e Pais têm licença poética para serem ridículos

Quando nasce um filho, nasce também uma mãe e um pai. O “nascer” mãe/pai não se dá como a data e horário do parto dos bebés, por exemplo: nasceu dia 04 de fevereiro de 2013, às 15:47 horas. A Mãe e pai vão nascendo aos poucos, adaptando-se às necessidades do rebento e transformando-se para acompanhar as fases de seus filhos. Haja amor para tantos partos de um mesmo filho, primeiro bebés e crianças, depois pré-adolescentes, adolescentes e, finalmente, adultos.

Lembro-me quando as minhas amigas me mostravam incansavelmente as fotos de seus filhos no telemóvel. Eram milhares, todas iguais. Que chatice! Eu não era mãe! Além do mais para mim recém-nascidos sempre foram parecidos com joelhos: eram bonitinhos, mas inchados e sem forma.

Desmarcar compromissos de trabalho porque não tinham com quem deixar o bebé ou porque este adoeceu, sempre achei pouco ético e irresponsável. Emocionar-se quando o filho deu o primeiro passo ou disse a primeira palavra era desnecessário, afinal, é isso que se espera de uma criança, que ela se desenvolva. Mãe/pai a chorar porque chegou o dia de a criança ir para a escola, qual o sentido? Afinal, todas as crianças precisam de sociabilizar e aprender a ler e a escrever.

Até que, também eu fui mãe e, aos poucos, tudo isto foi fazendo sentido. Mostrar fotos a toda a gente, incluindo aqueles que não querem ver (não são mães/pais), era quase uma obsessão. Os recém-nascidos já não têm cara de joelho, consigo identificar as características que são da mãe e as que são do pai, mesmo numa cara tão pequenina.

Quando o meu filho adoece, desmarco os compromissos pessoais, profissionais e, se no dia tiver um encontro com o papa, infelizmente também terá de ser desmarcado. Entendi perfeitamente o drama de mães/pais que deixam um filho no primeiro dia de escola, pois hoje eu sei que é a primeira “grande” separação.

Nascer mãe/pai faz com que nos preocupemos com uma possível terceira guerra mundial, com a fome, a Batalha de Aleppo, tsunamis, terremotos, falta de acesso à educação, saúde e segurança; surtos de doenças, acidentes de trânsito, política e economia, enfim, preocupamo-nos com tudo e com todos.

As Mães/pais têm um olhar refinado para identificar a dor dos outros, maior disponibilidade interna para perceber as crianças ou famílias que precisam de apoio e ajudá-los. Não digo que quem não tem filhos não seja capaz de se preocupar e se mobilizar para fazer um mundo melhor, mas sim que o “olhar” de mãe/pai faz uma leitura diferente de tudo à sua volta.

Nascer mãe/pai traz muitas alegrias: damos outro significado à vida e importância às pequenas coisas, mas viver dói mais. Tornar-se mãe/pai é preocupar-se com tudo o que acontece à volta e principalmente com o filho. É consultar a previsão do tempo antes de sair de casa, especializar-se em comidas saudáveis, pesquisar se existe um sequestrador de plantão nos arredores, tornar-se PHD em vacinas, estudar como se deve criar um filho no Google (porque tem horas em que não confiamos no nosso instinto).

Ser mãe/pai também é tornar-se mais sensível: choramos pelos filhos dos outros, pelas crianças inocentes que morrem, sofremos com as mães/pais que perdem seu filho. As Mães/pais são pessoas fáceis de se reconhecerem, choram até num anúncio de margarina, mas são sábios o suficiente para dar importância ao que realmente vale a pena. É apreciar um domingo de sol para passear no parque, é identificar o sorriso das pessoas na rua, é admirar a professora do filho, é conciliar o trabalho com a parentalidade, é manter as amizades nessa trajetória da vida.

Talvez sejam coisas singelas, mas, possivelmente, sejam essas coisas que dão sentido à vida: sorrisos, beijos, abraços, momentos e a paz. Ser mãe/pai traz muitos desassossegos, mas refinar  o nosso olhar para observar a beleza nas pequenas coisas e acreditar no que vale a pena é ter fé na vida.

E o que seria do mundo se não fossem as mães/pais que fazem outra leitura dele? Que sentem, compreendem a vida com mais ternura? Que transbordam um amor diferente?

Assim, digo que as mães têm o direito de mostrar as fotos dos seus filhos a todas as pessoas, de chorar quando os deixam na porta da escola, de se emocionar com o primeiro passo e a primeira palavra, de não dormir na véspera das vacinas dolorosas, de se deprimirem diante das atrocidades que são cometidas com milhares de crianças no mundo, porque tudo isso faz sentido quando se nasce mãe.

As Mães estão sempre com lágrimas nos olhos que podem ser de amor ou dor. Estão sempre em estado de alerta para protegerem o filho ou outra criança. Somos bons a ensinar a afetividade e a ternura, mas somos melhores ainda quando se trata de defender as nossas crias.

Eu duvido que as mães não tenham exercido a sua “ridiculez” defendendo com “unhas e dentes” o seu ideal de criar o próprio filho, quando duvidou do pediatra, quando o filho apanhou de um colega, quando algum familiar questionou a educação dada à criança, quando houve criticas à comida oferecida ao bebé, enfim, a lista é infindável.

Por isso eu digo: nós, mães, temos licença poética para sermos “ridículos”!

E vamos continuar a ser “ridículos”, pois ainda há muitas coisas a serem feitas para melhorar o mundo para as  nossas crianças.

Por Elisangela Siqueira, para ContiOUTRA

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Ser filha, ser mãe

Ser mãe é aprender a viver com medo

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“O Henrique tem 4 anos acabados de fazer e, como tal, uma persistência gigante para alcançar o que quer. Hoje, no jardim-de-infância, o dia não lhe correu muito bem … Numa ida com a sua turma a uma feira temática, o Henrique encantou-se por um carrossel e quis, de imediato, andar nele. A senhora do carrossel disse-lhe que era só para meninos a partir dos 5 anos e o Henrique retorquiu, de “cara feia”: “Mas eu já sou crescido! E tenho quase 5 anos!”. A Educadora explicou-lhe, então, que sim, ele era crescido, mas que havia meninos ainda mais crescidos e que aquele carrossel era perigoso, poderia magoar-se. Além disso, havia um outro carrossel para meninos igualmente crescidos como ele, no qual os meninos mais velhos não podiam andar – era especial só para os meninos de 4 anos. O Henrique lá aceitou. No final do dia, quando a mãe do Henrique o foi buscar, ele prontamente lhe contou o sucedido, choramingando que a Educadora não o havia deixado andar no carrossel que queria. A mãe, abraçando-o e olhando para a Educadora, respondeu: “Pois é, meu fofinho, já és crescido! Sabe, nessas situações, eu costumo dizer que ele já tem quase 5 anos, porque assim pode ser que eles deixem… Depois, voltamos lá noutro dia e vemos se a senhora te deixa andar, está bem meu fofinho?”.

As crianças são muito espertas, mas isso já nós sabemos.

Sabemos também que têm um dom particular de nos levarem a fazer o que querem, a lutar com “unhas e dentes” (por vezes, literalmente) para marcar a sua posição. Conseguem levar-nos ao extremo do nosso limite de paciência, deixando-nos “à beira de um ataque de nervos”, com os cabelos em pé. Conseguem também fazer pairar na nossa cabeça um “eu queria dizer que não, mas não consigo” (cantarolado ao jeito da canção conhecida que passa nas rádios) a cada “olhar de Gato-das-Botas do Shrek” que nos lançam. É relativamente fácil sentirmos culpa cada vez que temos de as contrariar.

As palavras “Sim” e “Não”

Queremos, fundamentalmente, que as “nossas” crianças cresçam felizes, sejamos pais, cuidadores ou educadores. As palavras “sim” e “não” pertencem a essa esfera. Porém, parece-nos muito mais fácil utilizar o “sim”. Então, porque é que a palavra “não” custa tanto a aplicar? Numa perspetiva lógica e racional, a palavra “não” tem tantas letras quanto a palavra “sim” e ocupa exatamente o mesmo tempo de discurso. Já o impacto emocional e comportamental de cada uma delas é diferente.

A Bússola do “Não”

O “não” funciona como uma excelente bússola. As suas coordenadas ajudam as crianças, e também os adultos, a situarem-se a nível emocional e comportamental. Enquanto adultos, temos o dever de encaminhar as crianças no caminho certo para o seu “norte”, para os seus objetivos, para que o seu desenvolvimento ocorra da forma mais equilibrada e saudável possível. Aliás, as crianças pedem-nos essas coordenadas de crescimento a cada birra, a cada comportamento de oposição, a cada finca-pé.

Aprender a ouvir e a lidar com o “não” é tão essencial como a água para o nosso corpo. Aprendemos a relacionar-nos de forma mais adequada com o mundo que nos rodeia, melhorando a nossa tolerância à frustração (um dos segredos para seres humanos mais felizes).

Os benefícios do “Não”

São vários os benefícios que daí advêm:

  • maior resiliência
  • maior capacidade de adaptação aos inúmeros desafios da vida, em diversos contextos
  • maior autoestima
  • maior conhecimento dos limites na relação Eu-Outro
  • maior respeito pelo mundo envolvente
  • maior inteligência e equilíbrio emocional

No geral, a nossa tendência natural é querermos colocar as nossas crianças num redoma de vidro, numa espécie de “bolha de proteção mágica” para protegê-las de todo o mal do mundo. Muitas vezes de forma inocente, sem nos apercebermos das consequências futuras. Sabemos o quão desafiante pode ser a tarefa de ajudar uma criança a crescer, no meio de uma vida atarefada, agitada e igualmente exigente para nós, adultos.

Quantas vezes nos sentimos cansados depois de um longo dia de trabalho, que a nossa vontade é dizer que “sim” a tudo, talvez para compensar a nossa ausência física e afetiva e também para não termos de nos “chatear”, porque a paciência se esgota? Quantas vezes cedemos, mesmo depois de uma decisão tomada, porque nos “dói a alma” ver a criança chorar? E quantas vezes já nos apercebemos das “manhas” a que a nossa pequenada recorre para “levar a água ao seu moinho”?

As consequências do “sim”

As consequências da nossa dificuldade em dizer “não” far-se-ão sentir a cada etapa de desenvolvimento até à idade adulta, passando por adolescentes rebeldes, adultos infantilizados e desconhecedores dos limites do Outro, para quem tudo é negociável e tem de corresponder às suas exigências e expectativas, e ainda adultos acomodados às pressões exteriores, que cedem facilmente.

Colocar em prática

Como colocar, então, em prática a bússola do “não” de forma consistente e equilibrada?

Eis algumas sugestões (ter em atenção a idade da criança):

  • ser consistente, coerente e firme: não ceder constantemente à insistência da criança. A incoerência do adulto leva ao desenvolvimento de magníficas artimanhas de manipulação emocional.
  • desdramatizar ou o chamado “keep it simple: quando algo não corre como o desejado, evitar atribuir um peso emocional muito forte, conversando tranquilamente sobre o que não correu bem e pensando em estratégias para que, futuramente, corra melhor.
  • ensinar a esperar: ensinar que tudo tem o seu tempo e que, nem sempre, podemos ter o que queremos e quando queremos.
  • lembre-se: enquanto Adulto é o exemplo para a criança – é o seu modelo, funciona como espelho. A tendência natural das crianças é imitar, seguir o exemplo de quem é importante para si. É essencial adoptar um comportamente congruente, ensinando que os “nãos” e a frustração fazem parte da vida e, como tal, não são “o fim do mundo”.

É importante termos em mente que não há soluções mágicas e universais e que cada criança é uma criança e que todas merecem crescer com respeito e afecto. Merecem (e precisam!), igualmente, de balizas emocionais que as ajudem a ser mais equilibradas … porque serão, certamente, mais bem sucedidas ao longo da sua vida!

 

Por Alexandra Pinto, Psicóloga Clínica da Horas de Sonho, apoio à criança e à família, crl

 

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A mãe já não está sempre triste, e o pai parece outro, agora ri e conversa mais também.

Hoje vou ficar com o pai porque a mãe cai jantar fora com o seu namorado novo.

Dizem que é o dia dos namorados.

O pai diz que eu sou muito nova para tecr namorados, mas quando for crescida vou ter um que me faça rir como o pai fazia a mãe, e como agora o seu namorado novo faz.

Vou ter filhos com o meu namorado e vou ser sempre namorada dele. E havemos sempre de ir jantar fora no dia dos namorados.

Na escola dizem que os meus pais são divorciados mas eu não me importo porque eles estão felizes e deixaram de discutir. Eu acho até que agora são mais amigos!

O pai pergunta sempre à mãe se precisa de alguma coisa e se pode ajudar. Antes nem queria saber. Agora, já conhece o namorado da mãe e sabe como ela está feliz.

Eu sei que os dois gostam muito de mim.

Eu sabia que alguma coisa não estava a correr bem porque eu via a mãe sempre cansada e o pai sem paciência, já não lhe fazia festinhas na cabeça nem se sentava no sofá pertinho dela.

Evitavam discutir à minha frente mas às vezes quando já estava na cama eu ouvia-os falar muito alto.

Eu acho que eles tomaram a decisão certa. Eu não queria que eles estivessem sempre tristes.

E agora quando me perguntam se eu estou triste porque os meus pais estão separados, eu nem sei o que responder porque eu estou com eles muitas vezes, eles são amigos e nunca mais os ouvi a gritar um com o outro.

Eu já sou crescida e com os meus pais aprendi que ser namorado é mais que estar, mais que viver junto, mais que dar presentes no dia 14 Fevereiro.

Ser namorado é respeitar e amar sempre, as alegrias e as lágrimas, os defeitos e o que já deixou de ser defeito.

Acima de tudo os meus pais ensinaram-me que, antes de termos respeito pelos outros, temos de nos respeitar a nós próprios, ter percepção do que nos faz feliz e a coragem para assumir que já não queremos aquela relação. E que a amizade pode manter-se quando uma relação acaba. Que ser fiel não é só não trair mas também saber libertar.

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