A esquizofrenia é uma doença mental crónica, incurável, que limita o doente ao nível escolar, profissional e das relações afectivas e sociais. O diagnóstico surge, frequentemente, no final da juventude ou da adolescência. Nos homens inicia-se, maioritariamente, entre os 15 e os 25 anos e nas mulheres entre os 25 e os 30 anos. No geral, permanece durante toda a vida, alternando períodos de melhoria com recaídas.

As causas da esquizofrenia ainda não são totalmente conhecidas. Porém, sabe-se que intervém alguns factores biológicos:

– Genes: se um dos progenitores for esquizofrénico, há uma probabilidade, de 10 a 15% de os filhos também virem a sê-lo. Se os dois progenitores tiverem a doença, o risco aumenta para 40%. Sendo os filhos gémeos, a probabilidade é de 10% para os falsos e 50% para os verdadeiros;

– Estado de saúde da mãe durante a gravidez e parto: desnutrição, infeções virais e complicações durante o parto;

– Desenvolvimento neurológico com alterações: os doentes apresentam alterações anatómicas nalgumas zonas do sistema nervoso;

– Alterações nos neurotransmissores que actuam ao nível das emoções;

– Acontecimentos de vida causadores de stress;

– Vicio de álcool ou drogas.

Sinais de alerta

Os primeiros sinais de alerta são a irritabilidade, o medo, as dificuldades de raciocínio, os sentimentos de estranheza às experiências diferentes do habitual, perturbações ao nível do pensamento, as alucinações (auditivas, visuais, cinestésicas), os delírios, o discurso confuso, pobre e incoerente, comportamento invulgar e desordenado, reduzida expressão das emoções, de menores apetências sociais, da tendência para o isolamento. A doença pode manifestar-se bruscamente, em dias ou semanas, ou pode ser gradualmente evolutiva. Neste último caso é mais problemática, porque como começou por passar despercebida, o doente não recorreu logo de início ao tratamento.

A depressão é um problema frequente dos esquizofrénicos, mas não está definida como característica desta doença. Contudo, quando existe está associada a um pior prognóstico. Considera-se que a depressão surge como reação às consequências da esquizofrenia e leva cerca de 10% destes pacientes ao suicídio.

Patologias similares à esquizofrenia

Patologias similares à esquizofrenia são:

-a doença bipolar;

-a perturbação de personalidade borderline;

-o autismo;

-algumas lesões cerebrais e doenças neurológicas, metabólicas ou infecciosas.

Para além do consumo de drogas ilegais, alguns medicamentos e intoxicações por metais pesados podem também ter efeitos semelhantes aos da esquizofrenia. Então, o primeiro passo para identificar a doença será analisar a história clínica (doenças e medicação) do doente, antecedentes familiares e dados do período fetal, consumo abusivo de álcool e drogas, exame físico e avaliação neuropsicológica, funcionamento renal, fígado e tiroide.

Comparativamente a alguns casos de autismo, na esquizofrenia – que implica um limiar de organização mental superior – não se verifica uma evolução positiva. Muitos autistas têm dificuldade em chegar a um sentimento de consciência central; os esquizofrénicos perdem esse sentimento de consciência central.

Nas idades mais jovens há maior tendência a confundir a fantasia própria da idade, com o delírio, causando alguma dificuldade ao diagnóstico. Daí a importância de não “atacarmos” o delírio, mas entendermos as inspirações e o nível cultural de retaguarda, por exemplo. Independentemente, o doente pode apresentar nível intelectual superior.

Outro alerta aos pais prende-se com o facto de uma percentagem significativa dos pacientes esquizofrénicos serem abusados sexualmente.

Tratamento

A eficácia do tratamento da esquizofrenia depende do tempo decorrido entre o aparecimento das alucinações ou delírios e o início da medicação (é preciso ter em conta que os medicamentos podem demorar 4 a 9 semanas a produzir efeito). As terapias psicossociais podem ser úteis, como complemento dos medicamentos, sobretudo para doentes com sintomas psicóticos controlados. Aqui o objectivo é ajudar o doente a relacionar-se com os outros e a controlar o stress. Aliás, todas as medidas que contribuam para reduzir o stress como a prática de desporto, podem ajudar no controlo da doença. E o apoio dos professores na integração destas crianças também é extraordinário.

Todavia, a importância da colaboração da família directa, pais ou outros cuidadores, é fundamental. Porque a criança ou jovem vive no seio de uma família, logo, teremos de intervir, também, a esse nível. Mesmo (ou sobretudo) quando antes idealizamos a infância das nossas crianças. Como defende Coimbra de Matos, não se pode fazer psicoterapia sem se fazer história. Efectivamente, há sempre uma força transgeracional, recente, familiar.

imagem@wykop

Em 2011, conheci o livro 13 reasons why, de Jay Asher, através de uma grande rede escolar – onde trabalhava na altura como professora. O professor com quem eu dividia a disciplina tinha escolhido esta obra e, imediatamente, me explicou as razões para desenvolvermos um trabalho com os alunos. Visto que o livro continha temas tabu, sensíveis e, claro, iria causar impacto nos alunos, esta decisão foi extremamente ponderada. O livro foi mantido e muitas propostas valiosas nasceram da experiência – e este é um dos motivos pelos quais escrevo esse texto.

Seis anos depois, e dez anos após o primeiro lançamento da obra escrita, a série 13 REASONS WHY, baseada no livro, foi lançada pela rede Netflix, uma das mais visitadas por adolescentes, o que significa que – longe dos muros das escolas – eles terão (ou já tiveram) acesso ao conteúdo, muitas vezes, de forma independente e, infelizmente, solitária.

Perante isto, pais, amigos e professores têm-me perguntado o que eu – como educadora e profissional da linguagem – considero sobre o acesso de jovens ao livro (cuja indicação etária é M/13 anos) e à série (estrategicamente, creio eu, sem indicação etária pelo distribuidor). Muitos perguntaram diretamente:

–  Permitias que os teus filhos adolescentes assistissem à série?

De forma franca, eu respondo: não só permitia, como também faria um acompanhamento de como foram interpretadas as questões assistidas. Na verdade, considero que os jovens precisam de entrar em contacto com temas importantes para eles e para a sociedade, dialogando com os seus pais, amigos, professores, terapeutas e com quem se sintam à vontade para tal.

Em pleno século XXI, proibir é tão ultrapassado como não assumir que precisamos de conversar sobre violência sexual, alcoolismo, exclusão, depressão e bullying. É preciso acompanhar, conversar, ensinar e, sobretudo, dar espaço para que falem sobre o que vêem nos seus meios sociais. Acreditem: se não encararmos tudo como um tabu, os nossos filhos contam-nos os seus medos porque têm certeza de que podem contar connosco.

Muitos vão afirmar, categoricamente, que já viram aquelas cenas nos corredores das próprias escolas – que negligenciam, por diversas razões o estado emocional de seus constituintes – uma das principais justificativas pelas quais os educadores também se deveriam interessar pelo conteúdo.

Deter essas informações e fazer com que adquiram uma visão transversal deste tipo de problemas é importante para todos nós, certo? Novamente, reitero que os pais também têm acompanhar o ritmo dos filhos. Isto não significa que tenham que estar colados aos filhos adolescentes tipo fiscal no sofá da sala. Cada um pode ver por si, no seu espaço, a seu tempo – com as suas emoções preservadas. Podem, depois, conversar sobre a série durante uma atividade em família (almoço, jantar, caminhada). Diálogos comuns estreitam laços. Os adolescentes precisam de ouvir e de se expressar: esta é a máxima de uma boa relação. Mais do que nunca, é disto que precisamos num mundo com excesso de estímulos e onde os problemas emocionais andam à flor da pele.

Eu ainda não tenho filhos, mas trabalho com 450 adolescentes por ano. Jovens com histórias diferentes – que erram-e-acertam, que se descobrem, que desvendam o outro e a sociedade de maneiras, às vezes, incríveis, outras vezes, tristes de mais. Quase todos se identificaram com algum personagem da série. Isto é suficiente para que façamos um acompanhamento lúcido sobre perdas e ganhos durante esta fase tão conturbada e lotada de conflitos que é a adolescência. Se é uma série para eles, certamente, é uma série para nós também.

“ (Você) devia aprimorar a forma como os adolescentes cuidam uns dos outros” – diz um dos personagens a um adulto num dos capítulos mais emblemáticos da temporada.

Esta é a grande lição/missão que fica para nós: os adultos da relação.

Assistam e tirem as vossas conclusões.

Por Talita Rosetti, ContiOutra

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No rescaldo do incêndio de Pedrógão Grande, é importante dosear a informação transmitida a crianças e adolescentes, explica o psiquiatra Pedro Pires

Ninguém está preparado para lidar com uma tragédia brutal, num contexto e com uma dimensão completamente inesperadas, como o grave incêndio que espalhou a morte em redor de Pedrógão Grande (norte do distrito de Leiria). E mais complicado parece explicá-lo a crianças e adolescente. A prioridade deve ser transmitir-lhes segurança, explica, ao DN, o psiquiatra da infância e adolescência Pedro Pires, colaborador do Programa Nacional para a Saúde Mental nessas áreas.

“O importante é transmitir segurança. O principal medo da criança é pensar que isso lhe pode acontecer. É preciso tranquilizá-la, explicando que é uma experiência isolada e que a criança, no mundo onde vive, está em segurança”, aponta o psiquiatra.

Depois, o grau de profundidade da explicação de uma tragédia como o incêndio de Pedrógão Grande deve variar consoante a idade. “Numa criança pequena, em idades mais precoces, antes da adolescência, é evitável dar explicações detalhadas: até pode ser negativo dar detalhes e mostrar a crueza da realidade, porque a criança não tem – de modo geral – capacidade psíquica e cognitiva de compreensão da totalidade da situação. Já num adolescente é importante abordar este assunto. A conversa deve ser mais detalhada e é importante falar e esclarecer as dúvidas”, descreve Pedro Pires.

De resto, a exposição aos conteúdos mediáticos, como imagens televisivas e partilhas de redes sociais, também deve doseada e intermediada, para não afetar espetadores com idades mais sensíveis. “Não é demais repetir o controlo que deve existir nos media, principalmente quanto à imagem. É um conteúdo traumático sobre o qual criança não tem capacidade de elaborar [raciocínios]. Pela idade, não tem capacidade para aguentar a exposição ao sofrimento. E os pais devem procurar, no que for possível, que crianças pequenas não visualizem essas imagens”, conclui o colaborador para a infância e adolescência do Programa Nacional para a Saúde Mental.

Fonte DN, Sociedade, 18 Junho 2017

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Meu amor,

É mesmo como dizem, a viagem de finalistas é daquelas coisas que só vivemos uma vez na vida. Quer dizer, depende de quantas etapas irás terminar, mas em cada uma delas será único.

Tens dezassete anos e sabes tudo. Eu sei, também já tive a tua idade e acredita que sei o que é sentir isso e não perceber que as pessoas à minha voltam não o entendam…

Mesmo assim, e mesmo sabendo que tens a cabeça e o coração no lugar certo, não posso deixar de te escrever esta carta, nem que seja para que ela fique guardada no fundo da tua memória e te ajude a tomar as melhores decisões para ti, nos momentos mais cruciais.

Nunca, em tempo algum, saltar de uma varanda para outra será uma boa ideia. A sério, pode parecer super divertido, mas pode acabar mal e para quê estragar a festa?

Vais conhecer gente nova e, com sorte, interessante. Aproveita para te divertires, para dançares muito e dormires pouco (recuperas quando voltares), mas não vás atrás de tudo o que fazem. Eu sei, eu sei, não és dessas, mas às vezes quando estamos todos juntos pensamos “e por que não?”. E tantas vezes não há um motivo que pareça verdadeiramente válido para nos deter. Que o motivo seja a razão a falar mais alto, pode ser?

Às tantas vai achar que tão depressa não haverá tanto álcool à disposição como ali. Talvez seja verdade, mas aqui fica um segredo: ele não se esgota se bateres todos os records do mundo. Não precisas de provar nada a ninguém, nem de beber até cair, ou beber de manhã à noite, ao ponto de não saberes quem és e o que estás a fazer. Isto sem ter de bater na tecla de nem sequer teres idade legal para te servirem álcool, mas já nem vou por aí.

Mesmo que o teu príncipe encantado surja numa nuvem de fumo, com os músculos do peito a espreitarem debaixo da t-shirt molhada… bem, provavelmente não será o teu príncipe encantado, por isso não tomes nenhuma decisão precipitada. E, aconteça o que acontecer, lembra-te de todas as precauções que deves tomar. Sempre, sem excepção, porque o que acontece em Punta Umbria não fica necessariamente em Punta Umbria.

Depois, de vires alguém, seja teu amigo ou não, fazer alguma coisa que o ponha em risco a ele ou aos outros… eu sei que pode ser chato, mas pede ajuda.

Sei que vai correr tudo bem e que vais criar memórias que vão ficar para sempre.

Faz por isso.

Só depende de ti.

Diverte-te, meu amor.

Espero-te no regresso para trocarmos cromos e para te chatear com comentários que incluem frases como “no meu tempo também fazíamos isso!” 😀

Ah, e tem juízo.

imagem@weheartit

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O sol tinha acabado de se pôr e a luz na rua não era muita. À minha frente caminhavam dois rapazes, com cerca de vinte e cinco anos e, no meio deles, uma rapariga que não teria mais de vinte e dois.

Um dos rapazes agarrava-a na cintura e ela tentava afastar a mão, o outro rapaz fazia o mesmo, mas mais acanhado. Demorei alguns segundos a observar a cena, para perceber se se tratava de uma brincadeira entre amigos mas percebi que não. Que os rapazes não conheciam a rapariga, mas estavam a tocar-lhe. A impor a sua presença. A meter-se com ela de uma forma íntima. Olhei em volta, com o coração acelerado, à procura de alguém que me pudesse ajudar. Não foi preciso, a rapariga soltou-se e deixou-os para trás. Isto aconteceu numa rua movimentada de Lisboa, ao final do dia. Havia pessoas à volta e mesmo assim os rapazes não se coibiram de agarrar a rapariga.

Este é certamente uma das muitas coisas que nunca irei compreender: como é que alguém se sente no direito de invadir o espaço de outro, de o tocar de forma íntima sem a menor autorização e – mais! – sem o mínimo consentimento.

Depois de seguir o meu caminho, pensando em quantas vezes estas situações não acabam assim, tão “facilmente”, recordei-me de um episódio que aconteceu quando estava a estudar no 12º ano. Uma das alunas da minha escola, que se vestia normalmente com saia um pouco curta e decotes algo pronunciados, foi seguida durante dias a fio por um homem. Este homem aprendeu a sua rotina, entrava e saía com ela no autocarro. Num desses dias, decidiu pegar-lhe no braço e fazê-la acompanhá-lo até um jardim ali próximo. Ela debateu-se, naturalmente. Estava cheia de medo e tentou fugir. Ele disse que queria que ela fosse dele. Ela negou. Ele atacou-a violentamente com uma arma branca, deixando-lhe uma cicatriz do pescoço até ao umbigo.   “Se não és minha não vais ser de mais ninguém”, disse. Isto aconteceu a uma rapariga de dezasseis anos, em Lisboa, em 2004. Na escola, toda a gente falava nisso. A opinião mais popular era a de que ela “estava a pedi-las, a vestir-se daquela maneira. Para a próxima já pensa duas vezes antes de sair de casa assim”. É claro que ela vai pensar, porque a feriram de uma forma inacreditável. E maior que a ferida física e emocional que ela terá de enfrentar para a sempre, o que sempre me custou foi o que as pessoas à volta pensavam. Como é que é possível? Como é que a vítima é sempre culpabilizada?

Quando é que se reconhece às mulheres (e aos homens, a todos os seres humanos) o direito de decidir sobre a sua vida? Sobre como se querem vestir? Como se querem pentear, maquilhar, que música ouvir? Até quando terá uma mulher de pensar duas vezes se arrisca usar aquela peça de roupa sabendo que vai fazer uma viagem de metro?

Quando compreenderão os homens, e tantas vezes outras mulheres, que o facto de a pele estar à vista não é uma provocação por si só? Não é falta de respeito e amor próprio? Que não é um convite a que se vá tocar, mexer?

Concordo que temos de ter cuidado, que nem todas as pessoas são equilibradas, educadas e por aí fora, mas custa-me que uma mulher seja olhada como um pedaço de carne. Que seja julgada e logo etiquetada, pela sua forma de vestir.

Que, mesmo não se vestindo de uma forma que muitos consideram como provocatória, seja vista como um ser que existe para deleite dos homens, para que eles possam olhar e dizer de sua justiça.

Quantas de nós não foram já alvos de comentários inapropriados?

Quantas de nós não aceleraram o passo quando tinham um grupo de rapazes atrás de si?

Quantas de nós não pensaram “se eu fosse um homem nada disto tinha acontecido”?

Quantas de nós não tiveram situações desagradáveis no local de trabalho? Com um namorado? No grupo de amigos?

Como mãe de uma menina, como irmã mais velha de uma adolescente que sai à noite, preocupo-me.

E, sejamos sinceros, ainda me preocupo comigo.

Porque nenhuma de nós está imune. Infelizmente.

É urgente educar para o respeito, é urgente educar para a igualdade, é urgente denunciar e punir quem não age correctamente.

É urgente sermos melhores e abrirmos caminho para que as novas gerações se respeitem.

Independentemente do género.

 

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Querido filho adolescente,

Quero que saibas que nem sempre uso as palavras corretas para te dizer aquilo que penso e sinto, e que isso te pode fazer sentir triste, zangado ou inseguro…

A minha intenção é sempre fazer-te perceber o que é melhor para ti, mas também sei que quando te digo “tens de fazer isto porque eu mando”, tu ficas sem vontade de cumprir, sentes que não tenho em conta as tuas necessidades e a comunicação entre nós fica bem mais difícil. Talvez sintas muita pressão quando te digo “Devias ter sido tu a fazer isto” e a tua forma de te protegeres é argumentares dizendo que não percebes porque é que tens de ser tu.”

Às vezes dou-te sugestões sobre como deves resolver os teus problemas e digo coisas como “se eu estivesse no teu lugar eu fazia desta forma” ou “mas porque é que não fazes antes como te estou a dizer”, e digo-te sempre isto com boa intenção, mas pensando bem posso estar a transmitir-te a ideia de que tu não és capaz de resolver os teus problemas e tornares-te demasiado dependente de mim para os resolveres no futuro.

Por isso, vou tentar dizer-te mais vezes que gostei de determinada atitude que tiveste, que adoro o teu esforço para alcançares os teus objetivos. Vou também tentar perguntar-te mais vezes se precisas da minha ajuda e oferecer-me para, em conjunto, encontrarmos uma solução, em vez de te dar a solução que me parece melhor, pois penso que assim te vais tornar mais autónomo e vais sentir que estou por perto sem me estar a impor.

Também quero que sintas que presto atenção ao que sentes e que experimentes o cuidado que tenho para contigo, e por isso vou dizer-te mais vezes coisas como “compreendo como te deves estar a sentir” ou “deve ser muito difícil passar por essa situação, se precisares de ajuda diz”.

Tudo o que faço é porque te amo, e isso para mim é tão óbvio, que penso que também o é para ti, e por isso, muitas vezes, esqueço-me de te dizer diretamente o quanto gosto de ti, mas sei como é importante ouvires estas palavras, e por isso vou dizer-te mais vezes “gosto muito de ti” e “é muito bom estar contigo”.

Não sou perfeito (há alguma pai/mãe que seja?!), mas vou tentar ser, a cada dia, um bocadinho melhor e ajudar-te a crescer mais feliz, confiante e tranquilo, começando pelas palavras que usarei contigo.

Por Cátia Teixeira, Psicóloga Clínica

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As nossas vidas foram irrevogavelmente alteradas com o aparecimento da Internet, mas para os adolescentes da atualidade (que já nasceram online) a realidade é praticamente digital. Não é estranho usar o telefone ou ipad para acalmar um bebé que chora, não é estranho ver crianças de 2 ou 3 anos agarradas a smartphones, não é estranho oferecer o primeiro telefone a uma criança de 10 anos… não é estranho ver um adolescente mergulhado em aplicações e redes sociais.

Para os adolescentes do século XXI “a vida” acontece nas redes sociais! E por isso ou conhecem bem as suas regras e normas de funcionamento… ou ficam de fora! Façamos então uma visita de estudo pelas redes sociais mais populares entre os jovens.

O Instagram permite a partilha de fotos e aplicação de filtros digitais, bem como compartilhá-los com outras redes sociais, como o Facebook, Twitter ou Tumblr, por exemplo. Quando se publica uma fotografia no Instagram, o objetivo é provocar reações na plateia: gostos, comentários, emojis… Um adolescente que acompanhei em consulta contou-me que ele e os seus amigos competiam entre si pelo maior número de seguidores e reações nas suas postagens. Talvez por isso, a grande maioria dos adolescentes com 16 anos tem mais de 1000 seguidores na sua conta e muitos deles nem sequer conhece (isto acontece mesmo em contas privadas). Muitos destes ‘posts’ chegam a concentrar 300 gostos, o que significa a aprovação de uma grande fatia dos seus seguidores. Outras fotos são publicadas em segundas contas (com nomes diferentes), para que não fiquem associados a si comportamentos como o consumo de álcool, drogas… ou presença em determinados sítios. Online é possível construir o perfil que se deseja.

Depois, sempre que um amigo publica uma fotografia de si, existe uma ‘obrigação social’ de gostar e essa obrigação é tanto maior, quanto a proximidade desse mesmo amigo. Uma opção segura, sobretudo para a selfie de um amigo é o emoji com corações ou elogios diretos como “que lind@”! Não é necessário muito mais do que isso para carregar as baterias de auto-estima de quem a postou. Sim, baterias que ‘carregam’ quando vêem os outros confirmar que são bonitos, admirados, seguidos, foco de atenção e, por isso, aprovados pelos outro; ou baterias que ‘descarregam’ quando este cenário não acontece.

Mais do que uma moda, a exibição contínua de auto-retratos (ou outras fotografias pessoais) pode denunciar tanto excesso… como falta de amor próprio! A linha que separa uma realidade da outra está (de uma forma simples) nas sensações e/ou expectativas que o usuário tem aquando da publicação: uns são vistos como exibicionistas, outros como carentes de afirmação e aprovação pelo grupo… ambos podem ser tanto criticados pelos pares, como admirados ao jeito de celebridades! É por isto que a adolescência é uma fase tão exigente!

Mas outra parte da realidade escondida nas fotografias que se publicam, são os comentários que se fazem. Que tipo de relações sociais estamos a construir na rede? Verdade que muito do que aqui lemos é transversal a adultos, mas quando pensamos em adolescentes a grande diferença consiste no facto de estarem em pleno processo de formação. Sabemos, por exemplo, que algo tão simples como a utilização de abreviaturas nas mensagens tem consequências no processamento cerebral e na linguagem.

Quando vemos adolescentes comunicarem grande parte do tempo em chat, jogarem online, namorarem através de aplicações, conviverem em grupos virtuais… quando vemos adolescentes constantemente atrás de um ecrã será pertinente questionar quais as consequências ao nível das competências emocionais e sociais? Dificuldade na expressão e leitura das emoções nos outros, falta de empatia, maior agressividade… Já em 2012, um estudo publicado pela Universidade de Coimbra alertava para uma percentagem significativa de cyberbullying nas camadas jovens através de SMS e redes sociais, mas sobretudo para a elevadíssima percentagem de jovens que admitiam ter presenciado casos de agressividade e humilhação pública na rede.

Instagram, Snapchat, Pokémon Go-Pro, chat’s de jogos online… há um mundo de interação adolescente que gera trilhões a nível mundial e muito contribui para esta falência socioemocional das futuras gerações. A comunicação mudou: antigamente, os adolescentes precisavam de conversar ‘na rua’ ou por telefone com os seus amigos. Hoje em dia, os adolescentes comunicam de forma vaga para uma legião de seguidores e desconhecidos e por esta razão é fundamental cuidar da imagem na net. Alguns adolescentes chegam mesmo a apagar posts que não atingem um número mínimo de gostos. O tempo de espera para chegar a 40 gostos, por exemplo, é de cerca de 2h… a partir daqui o post é apagado ou guardado para ser novamente publicado em melhor hora (normalmente, após o horário escolar). As selfies são ótimas oportunidades para mostrar uma roupa gira, um acessório novo, uma comida de fazer água na boca, um local diferente ou uma atividade interessante. Depois espera-se a reação dos seguidores, que é bem diferente se vem de um usuário masculino ou feminino, através de um sistema de comunicação emoji bastante desenvolvido! São mesmo muitos os adolescentes escravizados pela imagem perfeita, como principal impactante no bem-estar emocional e qualidade de vida.

O Snapchat é outra plataforma de publicação de fotos e vídeos, mas com a particularidade das postagens desaparecerem 24h depois. Isso diminui significativamente a pressão sobre todos (os que publicam e os que são alvo de publicação), mas também justifica as muitas horas que os adolescentes dispensam diariamente ao seu telefone, a produzir material novo para a web (excepto facebook que, para os adolescentes, é um currículo público, logo um aborrecimento atualizar) e a tentar gerar conversas em chat, muitas vezes sem a intenção de obter uma conexão real posteriormente. O que não é surpreendente, porque em chat, uma conversa que não gere interesse rápido pode terminar sem qualquer explicação, o que em conversas ao vivo será mais difícil de acontecer. Estamos mergulhados na cultura do rápido… do “fast relationship”.

Os adolescentes estão em constante mudança e a melhor forma de os conhecer ainda é interagindo com eles, observá-los com atenção, questioná-los sobre gostos, interesses, sentidos… Para os adolescentes watsapps, snaps e chamadas de vídeo são a vida real… Contudo, a capacidade de usar a tecnologia de forma segura, aproveitando todos os seus benefícios depende em grande parte da relação que tem com os seus filhos!

Nunca tivemos uma geração tão “social” e, simultaneamente, tão carente de pessoas.

Um adeus ao meu filho

Passei pelo quarto do meu filho e vi-o a dormir. Entrei para desligar a luz, e quando alcancei o interruptor, olhei para a pessoa que estava deitada na cama e percebi: ele já é um jovem. Já não é um miúdo, é um jovem com tamanho de adulto.

Calma. Pára, respira. Precisei de um segundo para me recompor. Precisei de um momento para me despedir. Para dizer adeus.

Eu sei que não posso parar o tempo e, que aquele miúdo que ainda vivia preso entre o mundo infantil e a adolescência, ia crescer. Tem sido sempre assim. De um bebé pequenino que cabia de corpo inteiro na palma de uma mão, a uma criança sorridente que para onde ia queria levar o Comboio Thomas ou o Faísca McQueen, até ao estudante robusto que andava sempre em corridas, e que me provocou ataques cardíacos consecutivos – eu amei cada fase da maternidade, cada estágio da sua infância, e chorei muitas vezes a perda do que deixamos para trás.

Saber crescer, saber envelhecer

Há pouco tempo, eu pedi a Deus que me desse mais um verão com ele enquanto criança. Eu precisava só mais uns meses do meu filho pequenino. E aconteceu. Ainda tive um verão perfeito com o meu filho criança mas pouco depois, inevitavelmente, ele cresceu. E eu cresci com ele. Não temos escolha. Ou crescia, ou ficava para trás.

E mesmo agora, eu vejo como tudo tem sido maravilhoso. Eu vejo o adolescente incrível em que ele se está a tornar. Há tantas mudanças diárias na vida dele. Parece que cresceu 20 cm numa semana, e de repente tem uma voz profunda e um riso diferente. Até a maneira de pensar mudou. Discutimos politica, por-amor-de-Deus, e ele sabe o que diz.

Ele está a crescer, a seguir em frente, a deixar a infância para trás e a alcançar o todo o seu potencial. Tal como é suposto. E eu estou a fazer alguma coisa bem, porque o meu filho é uma pessoa incrível. Vai ser um homem magnífico.

Eles crescem e a saudade fica

Eu acho que vou sempre ter saudades daquele miúdo de 6 anos com um sorriso apaixonante, com ideias mágicas, e coração de ouro. Ao dizer adeus a cada fase sua, eu despeço-me do que vou deixar para trás mas preparo-me para o que vem a seguir. O meu filho está a crescer e é maravilhoso, é mágico. Ainda temos tantas aventuras pela frente.

Tenho sorte porque ele ainda me acha divertida na maior parte do tempo. Ou, pelo menos finge. E ainda quer sair comigo. Ainda é o meu companheiro de aventuras, mas agora, é ele que sugere os programas. Ele sai com os amigos, mas dar-me sempre um beijo de despedida antes de sair de casa e responde-me  “eu também” sempre que lhe digo que o adoro, independentemente de quem estiver por perto.
Ele ainda me pede opinião, e depois forma a sua própria.

Às vezes ainda me dá a mão ao atravessar a estrada. Só não sei se é para se sentir seguro, ou para me proteger. Seja qual for a razão, eu dou sempre de volta.

 

Wendy Del Monte, para ScaryMommy,
autorizado para, traduzido e adaptado por Up To Kids®

 

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Medo e Ansiedade: Crianças e Adolescentes na hora de ir para a cama

Cinco de outubro de 2015, já era de madrugada, quando ouvi um barulho vindo da cozinha (copos a partirem-se), levantei-me e fui a correr ver o que se passava.  Parei junto à porta quando me deparei com a minha mãe caída no chão, com um ar pálido e sem qualquer sinal de respiração. Comecei a gritar bem alto e o meu pai veio a correr, chamou uma ambulância e pediu-me para ir chamar os vizinhos. A ambulância chegou, o meu pai disse que ia com a minha mãe para o hospital e que eu tinha de dormir em casa dos vizinhos. Passei a noite toda acordado. Finalmente, às 9h da manhã, os meus pais chegaram a casa. Segundo o meu pai, estava tudo bem, tinha sido só um desmaio decorrente de uma quebra de tensão. O dia foi passado em família e foi muito divertido.

Chegou a noite, eram 22h30 quando os meus pais disseram que eu tinha de ir para cama. Fui para o meu quarto, deitei-me e passados cerca de dez minutos, comecei a tremer, com falta de ar e fui a correr para o quarto dos meus pais. Depois de tudo o que aconteceu e pensando que seria uma situação excecional, os meus pais deixaram-me dormir com eles.

O que eles não estavam à espera foi o que sucedeu nos dias, semanas e meses seguintes. Nos primeiros dias, eu ainda chegava a ir para o meu quarto deitar-me, mas passado cinco minutos já estava no quarto dos meus pais a chorar e a pedir para dormir com eles.

Os meus pais diziam que eu já tinha onze anos, que não podia dormir no quarto deles e então um deles tentava levar-me de volta para o meu quarto, mas eu não queria… chorava, gritava a dizer que queria os dois. Chorava tão compulsivamente que eles ficavam assustados e acabavam por me deixar dormir no quarto deles. Nos dias seguintes, já ia direto para o quarto dos meus pais. Desesperados, os meus pais, recorriam a todos os argumentos para me tentarem convencer a voltar para a minha cama, mas eu sabia que se chorasse mais um bocadinho, eles iam ceder. E assim foi…dias tornaram-se em semanas, que se tornaram em meses.

Um dia, eles ainda experimentaram colocar a minha cama no quarto deles, mas de nada adiantou, eu queria dormir com os dois! Assim que eu conseguia adormecer, o meu pai ia dormir para o sofá da sala ou para minha cama. Durante meses, eu dormia apenas três horas por noite e nem os comprimidos para dormir que o médico receitou, faziam efeito. Após seis meses nesta situação e já desesperados, os meus pais resolveram levar-me a uma consulta de psicologia.

Uma das coisas que fizemos foi desenhar um círculo, que representava um ciclo com o pensamento, a emoção e o comportamento. Depois da minha psicóloga me explicar como funcionava o ciclo, tentámos em conjunto analisar a minha situação segundo essas três variáveis:

  • Pensamento: No momento que antecedia a minha ida para a cama, eram muitos os pensamentos que me ocorriam, alguns através de imagens:
    “Os meus pais vão morrer enquanto eu estou a dormir.”;
    “Um ladrão vai assaltar a nossa casa e matar-nos.”;
    “Eu posso morrer enquanto estou a dormir.”
    Estes pensamentos e muitos outros que escrevi numa folha, fizeram-me perceber que o meu medo não era o de dormir sozinho, era outro muito maior e muito mais assustador. Segundo a minha psicóloga, estas “crenças” ativavam todo um conjunto de emoções e sensações corporais.
  • Emoção: Este medo desproporcionado e fora do controlo gerava em mim uma resposta emocional – ansiedade e às vezes pânico – que eram traduzidas em sensações corporais:  palpitações, dificuldades em respirar, insónias e choro compulsivo. Tudo isto por sua vez, gerava uma resposta comportamental.
  • Comportamento: Correr para a cama dos meus pais e agarrar-me a eles, evitar dormir no meu quarto.

Tudo isto foi muito difícil para mim, porque eu estava tão perturbado e descontrolado que não conseguia prestar atenção ao que me passava pela cabeça. Em conjunto com a minha psicóloga chegámos à conclusão, que a reação dos meus pais à situação, apenas reforçava as minhas crenças de que: “Eu precisava dos meus pais ao meu lado para conseguir dormir. ”; “Sem eles ao meu lado, algo de mau podia acontecer”. Sem querer, todas as noites que os meus pais cediam e me deixavam dormir no quarto deles, iam alimentando em mim a confiança de que bastava eu chorar um pouco, para me deixarem dormir com eles e assim o meu medo ia crescendo. Eu era um rapaz de onze anos de volta à cama dos pais, sem qualquer hipótese de voltar para o meu quarto porque isso era demasiado devastador para mim e eu não ia aguentar perder os meus pais, pelo menos era assim que eu pensava.

Todo o trabalho com a psicóloga passava por conseguir analisar, perceber e mudar essas crenças disfuncionais, aprender técnicas de relaxamento e gradualmente estabelecer objetivos de mudança de comportamento.

A minha psicóloga transmitiu-me a confiança de que eu, com a sua ajuda, iria conseguir superar tudo isto. E a sua certeza, tornou-se a minha força! Eu não queria mais continuar a viver em função de um medo que condicionava o meu sono, a minha energia, a minha vida e a dos meus pais, e sobretudo a minha felicidade.

 

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O teu filho ama-te.

Quando te vê no teu pior a perder a paciência com ele, o teu filho ama-te.

Se lhe dizes que faça algo e ele decide simplesmente ignorar-te.

Quando exige de ti o que achas impossível dar.

Se chega a casa e murmura um “olá” e se vai fechar no quarto, ele ama-te.

Quando repete vezes sem conta que não entendes, que nunca compreenderias.

Se percebes que não te conta toda a verdade.

Mesmo quando vês que procura outros portos de abrigo, ele ama-te.

Se se esquece de enviar a mensagem quando chega ao pé dos amigos à noite.

Se não agradece teres-lhe arranjado as calças preferidas que achava estarem arruinadas para sempre.

Se cada vez sabes mais dele através das redes sociais do que conversando à mesa ao jantar.

Mesmo que faça o contrário do que sempre te prometeu que faria.

Quando te conhece todos os defeitos e, ainda assim, te ama.

O teu filho ama-te pelo simples facto de saber que, haja o que houver, estarás sempre lá. Mesmo que falhe, que não esteja sempre no seu melhor, mesmo que não estejas tu sempre no teu melhor. Têm a relação mais sagrada do mundo e essa relação tem fases. Fases de proximidade, fases em que mal conseguem comunicar, fases em que comunicam como ninguém mesmo em silêncio. O vosso amor pede calma, pede paciência, tem de existir sem pressas. Mesmo quando não acontece como deveria, acabará por voltar aos eixos. Mas não durmas à sombra da bananeira – esta relação sagrada só resistirá se deres, se a regares, se a acarinhares e se a respeitares pelas suas características.

Vai valer a pena.

Por isso, nos momentos em que sentires que podia ser diferente, lembra-te do mais importante: ele ama-te. Incondicionalmente. (E foste tu quem primeiro o ensinou a amar, podes ficar descansada).