Cheguei à creche para ir buscar a minha filha e ela segurou-me a cara entre as mãos, feliz como nunca, e disse com os olhos cheios de amor: “olá mamã, olá mãe”.

Estava feliz por me ver, como eu me sinto feliz só por saber que ela dorme no quarto ao lado depois de um dia agitado, cheio de brincadeiras.

Não há como explicar este amor. Desconfio até que deveria ser criada uma nova palavra para o definir, porque “amor” já é tão cheio de tantas coisas, tantas coisas que nada têm a ver com o que vivemos e sentimos por um filho. É um mundo à parte. Um compartimento fechado que se estende aos demais, quantas vezes erradamente se lhes sobrepõe, mas que não se mistura.

A minha filha, agora um papagaio autêntico, decidiu que é mais divertido chamar-me pelo nome do que tratar-me por mãe. Acho graça, mas corrijo, porque Marta sou para toda a gente: quem me quer bem, quem não me conhece, quem só comigo falou uma vez.

Mãe sou só dela. Para ela.

É com ela que partilho as minhas gargalhadas mais genuínas, algumas esquecidas desde a infância.

É com ela que canto a toda a hora, desde que nasceu, mesmo quando lhe quero explicar algo.

É para ela que tento ser um ser humano melhor.

É nela que tento aplicar o que me ensinaram, que tento não repetir os erros que vejo à minha volta, que me esforço por melhorar os meus.

Partilhamos a inicial dos nossos nomes, a nossa casa, o amor pelo pai, momentos de ternura e algumas chamadas de atenção.

Foi por ela que, grávida como um pinguim, me levantava da cama ao sábado de manhã para fazer a ginástica pré parto – quando só queria dormir mais um bocadinho (já sabendo que era melhor fazê-lo na altura que guardar para depois).

É por ela que hoje madrugo ao sábado de manhã para entrar na piscina com ela, para a ver aprender a mergulhar, para a ver destacar-se pela sua audácia, pela sua curiosidade de engolir o mundo.

É ela que me faz comer bem, cozinhar melhor, ter atenção a todas as minhas escolhas.

É com ela que converso de igual para igual porque sei que alguma coisa ficará lá dentro.

Foi para ela que inventei as minhas melhores histórias.

Ela não sabe, mas é a tal.

E até pode gastar-me o nome, mas nunca gastará o que significa aquela pequena palavra de três letras apenas.

Por mais que me chame, nunca deixarei de vir.

imagem@weheartit

Há três anos atrás, o meu marido fez uma promessa unilateral aos meus filhos: cada vez que um de nós dissesse um palavrão poríamos 20cts no frasco das asneiras. Se algum dia o frasco estivesse cheio, o dinheiro ficaria para os miúdos. Quando me transmitiu esta decisão, eu só tive duas coisas a dizer, primeiro que tudo: WTF? E segundo: ´Tás a gozar?!

Meti logo 10€ no frasco e disse-lhes que era um adiantamento para o verão. Os miúdos ficaram baralhados, até porque ainda não têm a noção do valor do dinheiro, e acham que tudo o que são notas vale milhões de euros.

O meu marido, foi mais fiel ao prometido, e antes de chegar ao outono já quase tinha acabado com as nossas poupanças! Por isso, depois dos miúdos fazerem a primeira divisão do dinheiro, sim o frasco estava cheio, alteramos a política dos palavrões lá em casa. As asneiras voltaram livremente e podíamos dizer qualquer merda que nos apetecesse sem nos justificarmos. Aqui estão as cinco razões que nos levaram a pensar assim:

  1. Porque somos adultos
    Claro que isto não traz exactamente as vantagens que o meu “eu de 11 anos” imaginava que traria. (Eu via-me com um ar blasé de copo de vinho na mão a conversar com o meu ator preferido sobre a minha menstruação, enquanto conduzia um carro de golf numa praia deserta.)
    Mas um dos verdadeiros benefícios de ser adulto, é que somos totalmente livres para dizer o que nos der na real gana, sem sermos castigados! São os benefícios da idade!
  1. Porque eles são crianças
    Claro que eu sei que é importante sermos um bom exemplo para os nossos filhos. E é por isso que eu visto umas calças quando os vou deixar ao colégio, apesar de no inverno nem sequer ser necessário porque com o casaco comprido só Deus sabe o que tenho por baixo! Mas enquanto eu estiver no comando, e os estiver a orientar no seu crescimento eles têm de perceber que eles não são adultos e eu sou. Por isso, em relação a determinados assuntos usamos o chavão “faz o que eu digo e não faças o que eu faço”. Por isso eles não estão autorizados a dizer palavrões, a conduzir, a usar a torradeira, a atravessar a estrada sozinhos, nem a beber minis antes do jantar! Um dia poderão fazer tudo isto. Por agora não, mas eu gosto de mostrar-lhes algumas destas merdas para ficarem já com água na boca!
  2. Porque com crianças é só conversas de bebés, eufemismos e códigos cutxie cutxie indecifráveis. Fazer ó-ó, o papão, ter dó-dóis, dar tau-tau, ir papar… e por aí fora! O beneficio de praguejar estrategicamente é que se acaba com essa algarviada toda. O meu filho de 8 anos fez propositadamente a irmã chorar: eu sentei-o, olhei-o nos olhos e disse-lhe calmamente: “Pára de agir como um merdas para a tua irmã!” Pestanejou duas vezes e percebi que a mensagem tinha chegado a bom porto. E nem sequer andei aos alhos e bugalhos!
  3. Porque a parentalidade é todo um conjunto de momentos WTF!
    Eu sinto que preciso de dar voz aos meus sentimentos: quando enfio o lego do Batman, outra vez, pelo calcanhar acima, quando tenho de tirar palmilhas da retrete entupida (mas mãe, pensava que eram toalhetes), quando tenho ficar até às 1h da manhã a fazer 24 cupcakes para a festa da escola às 8h (mas mãe, pensava que tinha avisado), quando tento perceber a matemática do 3º ano (esquece!), quando tenho de atravessar três faixas em plena auto-estrada porque os miúdos estão a ter uma discussão/luta de morte sobre quem é que gosta mais de queijo, então eu preciso que que fiquem todos com o raio da boca calada, e que se deixem de merdas e sosseguem, enquanto a mãe resolve a situação!
  4. Porque eu já desisti de tantas merdas!
    No pico da maternidade, eu já sacrifiquei as noites de sono, a sanidade mental, mamas felizes, conhecimento musical, oportunidades de carreira, unhas impecáveis, todo o nosso dinheiro, andar na moda, actualização sobre o mundo, a energia para conseguir fazer uma maratona de séries de TV, calças slim, e por aí fora.
    Devia abdicar do meu estilo de comunicação e forma como me exprimo genuinamente? Foda-se, não vai acontecer!
    Por isso se vocês mães, conseguiram de alguma forma trazer os vossos queridos filhos a este mundo, sem uivar e gritar todos os palavrões que sabem, e têm conseguido manter o decoro durante a privação de sono, o desfralde, e a beleza da pré-adolescência, então, dou-lhes os meus sinceros parabéns!
    Mas nesse caso, se calhar o melhor é pôrem-lhes uns tampões nos ouvidos quando forem brincar a minha casa, porque aqui são capazes de ouvir algumas palavras de meninos crescidos!

Por Kate Levkoff, em Scary Mommy
Traduzido e adaptado por Up To Kids®

imagem@Wylder Levkoff, Age 8

Sinais de que uma mãe precisa de férias

Quando coloca a chave do correio na do elevador.

Se dá por ela a fazer o risco nos olhos com um lápis da Caran D’Ache.

Aplica-se a fazer a mochila da natação dos miúdos e, mesmo assim, se esquece dos chinelos, da touca e do fato de banho.

Troca o nome dos filhos constantemente.

Adormece a meio de uma frase.

Usa os óculos de sol como disfarce para adormecer de olhos abertos.

Quando coloca protector solar no boneco preferido da filha e segundos depois percebe que esta a olha com estranheza.

Já só se consegue lembrar de uma canção para entreter os miúdos.

Responde “ok, mas sentados no chão” quando é desafiada para uma partida de futebol.

Adora que os filhos queiram apenas andar de baloiço vezes sem conta, durante toda a estadia no parque, sem precisarem de ser empurrados.

Se a box ameaça apagar os mil e trezentos episódios de séries que tem para ver.

Quando acumula livros que começou a ler, estrategicamente empilhados na mesa-de-cabeceira.

Faz riscos na parede a contar os dias para as férias, qual condenada.

Cria mentalmente cerca de sete listas do que é preciso levar, comprar, deixar feito, pagar, não esquecer mesmo quando sair de casa para os merecidos dias de descanso.

Personaliza atempadamente a mensagem automática de resposta do email do trabalho.

Se acenou com a cabeça em mais de três frases então é crónico: precisa de férias!

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O fabuloso menino que nunca tinha sono nos olhos

Miúdo catita, 4 anos tem pilhas duracel depois das 20h30. É só mais uma banana, ou uma compota… não, não, na verdade o que ele tem é sede. Mais um xixi ou dois.. agora caía mesmo bem um copo de leite. Remata com uma demonstração de ginástica, um pequeno verso e tarefas infindáveis porque não tem sono nos olhos. “Ó mamã deita aqui que eu tenho frio nos pés.” Ufa. “Tenho fome na barriga assim não consigo dormir.” Ufa. “ Tenho só de ir fazer ali uma coisa.” Ufa. Ufa.

Muitas vezes adormecemos ao lado dele, depois de longas, muito longas conversas. Tentamos tudo e mais alguma coisa, até que fica demasiado tarde e de manhã o menino tem sono nos olhos e nós também.

Num momento de respiração profunda, os meus pulmões estavam preparados para fazer mergulho em apneia, comecei por tentar perceber quais as são minhas necessidades que não estão a ser preenchidas e que pensamentos/crenças surgem na minha cabeça enquanto o pequeno catita não adormece. Ora bem, vamos lá. Pensamentos é o que eu mais tenho por volta da meia noite.

”Tenho tanta coisa para fazer ainda, vou deitar-me tardíssimo. Estou tão cansada.” “Ele já devia estar a dormir, já é tão tarde. Isto faz-lhe mal.” ”Ele está a gozar connosco.” “Quantos anos é que ele tem mesmo??”

Respira Catita.

Primeiro, decidi perceber o que é mais importante a cada momento; Comecei por definir as tarefas que são prioritárias e as que ficam para amanhã, assim fico bastante mais calma e presente e com menos pensamentos na cabeça. Quando fiquei mais tranquila, percebi pouco a pouco que adoro estar com ele um bocadinho antes de ele dormir. É quando conversamos mais e quando descubro sempre alguma coisa nova acerca dele. É um momento “fixe” de grande conexão em que partilhamos o quanto gostamos um do outro. Vá, é um grande momento em que eu fico toda derretida enquanto ele diz repetidamente “mãe és tão fofinha.” Eu sei, é graxa. Mas sabe mesmo bem.

Liguei novamente o detective-mamã e percebi como é importante para ele aquele momento de conexão (por isso é que ele não quer que o momento acabe) (necessidades da criança verde segundo método LASEr). Reparei também como gosta de ser ele a definir algumas das rotinas antes de dormir, ter a possibilidade de escolher que pijama veste ou por que ordem as tarefas são realizadas (necessidades da criança vermelha). Precisa de dizer a última palavra, ou neste caso pedir a última banana para comer.

21h23 depois de ter jantado como um adolescente de 18 anos… 
“- Mãeeeeee, a minha barriga tem fome preciso de comer 3 coisas. Senão não consigo dormir.

– Já percebi que ainda tens fome. Mas só tenho uma banana aqui. Mais nada. Queres agora? Ou comes amanhã de manhã?
– Tá bemmmmmmm”  Depois deste lanchinho final, adormeceu. Sentiu que tinha escolhido a forma como iria adormecer, com a barriga cheiinha e as necessidades preenchidas.

Aos poucos fui percebendo como é importante criar um ritual definido pelos dois, cheio de conexão e reconhecimento para o miúdo catita adormecer feliz e preenchido. É igualmente importante que eu lhe comunique as minhas necessidades e os meus limites através da linguagem pessoal e sem julgamentos. Ou seja, o que eu preciso e sinto.

“- Gostas muito quando me deito aqui contigo um bocadinho, não é? Eu também. Fazemos sempre muitas aventuras e aproveito para te dar muitos miminhos.

– Sim beijinhos e octonautas também.

– Sabes aquele saquinho que temos e enchemos com beijinhos todos os dias? Quando não estou ao pé de ti, podes sempre ir buscar um beijinho se precisares. 
– Sim mas temos de encher muiiito muito o saquinho.
– Pois é, vamos dar beijinhos até ficar cheio, quando estiver cheio avisas a mamã, boa?
– Sim!”

CHUAC CHUAC CHUAC CHUAC CHUAC CHUAC!

Todos os dias após uma demonstração de exercícios variados e já de barriga cheia, eu ou o pai ficamos deitados com ele na cama durante 10 minutos (há dias que precisam de mais minutos do que outros e há dias em que nada funciona, normalmente quando ele está demasiado cansado e com o sono em atraso).

Nesse tempo a dois, brincamos aos Octonautas, conversamos ou apenas enchemos o saquinho dos beijinhos. Depois disso, vou tratar de mim e das minhas coisas mas se ele precisar de mim, pode sempre chamar-me. Estou mesmo ali.

É curioso, quando pensamos melhor, reparamos que mesmo nós pais não nos deitamos todos os dias da mesma maneira. Uns dias precisamos de televisão, outros de um bom livro, outros só queremos cair na cama. E quando vamos para a cama sabe mesmo bem adormecer com alguém que gostamos muito, não é?

O meu filho pedir para eu ficar ao pé dele não é chato, é um grande reconhecimento da nossa relação. Ele querer só mais um bocadinho da nossa companhia não é desesperante, é fabuloso.

Sinto-me feliz e até divertida com as desculpas hilariantes que ele inventa e toda a rotina adquiriu uma maior leveza e equilíbrio para os dois.

E foi assim que devagarinho o sono foi aparecendo nos olhos do meu fabuloso menino.

 

Publicado originalmente em Mãe Catita

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A maternidade é a recruta das mulheres

Quando me perguntam qual foi a coisa que mais mudou na minha vida depois de ter sido mãe, além da resposta óbvia, – foi só toda a minha vida, desde a forma como a vivo todos os dias, à forma como a quero viver no futuro – eu costumo dizer que, para mim a maternidade foi uma espécie de recruta das mulheres.

Normalmente as pessoas ficam com aquela cara de poker, e então explico: passei a dormir muito pouco e a acordar com as galinhas. Aprendi a fazer tudo aquilo que tinha conseguido adiar durante uns anos, e sim, inclui algumas tarefas domésticas e  muito auto-controlo emocional (da emoções boas e más, porque uma mãe não pode estar sempre a chorar, caramba!). Aprendi a ser enfermeira, bombeira, educadora, professora, moderadora, entre tantas outras. E tudo isto por causa dos meus filhos. E tudo isto enquanto continuo a ser mulher, companheira, amante e amiga. Porque não podemos deixar de nos sentir nós próprias. 

Com a maternidade passamos a ter alguém totalmente dependente de nós.

Não dá para escapar uma refeição por não me apetecer cozinhar, porque a criança tem de comer sempre. Não dá para desligar o despertador para dormir mais uma hora, e sem querer, dormir mais três. Não dá. A criança precisa de acordar e de mudar a fralda, de tomar o pequeno almoço e mudar a fralda, precisa de ouvir uma música ou ler uma história. Hoje fazemos um puzzle logo depois de mudar a fralda. A criança precisa de almoçar e de dormir a sesta. A criança precisa. E nós mães, qual recruta apresentamo-nos ao serviço. Com a diferença que não conseguimos estar impecavelmente fardadas, e nem tão pouco tentamos. Depois de sermos mães, não podemos fingir que somos só nós. E ainda bem porque quando quando éramos só nós, a felicidade tinha outro sabor.

Quando comecei a escrever sobre este tema, como habitualmente faço, pesquisei no google para perceber se já alguém tinha feito esta comparação, e encontrei um artigo publicado no Público em 2013, da Sofia Anjos, chamado “Ser mãe é a tropa da mulheres”.

Será que o li na altura e que a minha expressão adveio daqui? Não faço a menor ideia. Não me lembro. Mas despeço-me aqui, porque tudo aquilo que eu tinha pensado está aqui tão bem descrito. Ora vejam:

“Ser mãe é a tropa das mulheres

Consigo segurar o biberão com o queixo. Foi uma questão de dias, após o bebé nascer, até descobrir umas quantas tarefas que podem ser feitas com uma só mão. Algumas com dois dedos apenas. Penso que se um dia ficar maneta, safo-me.

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Antes de ser mãe

Antes de ser mãe fazia as refeições quentes, não tinha nódoas na roupa e ficava horas a conversar tranquilamente ao telefone durante o serão.

Antes de ser mãe, dormia até me apetecer de manhã, não tinha horas para ir para a cama, e penteava-me e lavava os dentes várias vezes ao dia.

Antes de ser mãe, a minha casa era um brinco, e mesmo assim eu fazia limpezas diárias. Nunca tinha tropeçado em brinquedos espalhados, e sabia as letras das músicas todas.

Antes de ser mãe nunca me preocupei se as minhas plantas seriam ou não venenosas e nunca pensei muito sobre imunidade.

Antes de ser mãe nunca me tinham vomitado em cima, nem feito cocó ou xixi, cuspido, nunca me tinham mordido, e nunca tinha sido beliscada por dedos minúsculos que parecem pinças de lagostim!

Antes de ser mãe eu controlava totalmente os meus pensamentos, o meu corpo e a minha mente. E dormia a noite toda.

Antes de ser mãe nunca tinha pegado numa criança aos gritos para se auscultada ou vacinada. Eu nunca tinha ficado lavada em lágrimas só por ver alguém chorar. Nunca tinha ficado verdadeiramente feliz por ver alguém sorrir. Nunca tinha ficado acordada horas a fio a olhar para um bebé a dormir.

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A todas as Marias do mundo

Em tempos tive uma colega de trabalho que me parecia totalmente desorganizada e talvez um pouco obsessiva.

Na altura eu não tinha filhos e ela tinha dois em idade escolar.

Nunca chegava a horas. Aparecia sempre com alguns minutos de atraso, o que na minha cabeça não fazia qualquer sentido. Todos os dias havia um drama; ou eram as notas dos putos, o carro avariado, o ex-marido que não colaborava, uma consulta médica, a mãe ou a avó ou o cão ou o gato….

Hoje, por um comentário de uma colega de equipa percebi que agora sou eu a Maria.
Não chego atrasada porque felizmente tenho a ajuda do meu marido, mas nunca, nunca mais vou desvalorizar 30 segundos que seja.

Uma birra matinal, um xixi à última da hora, um abraço mais prolongado na despedida no colégio.
E sim, eu sou a pessoa que treme quando recebe um telefonema da educadora, mesmo quando é só para dar um recado.

Sou a pessoa que todos os dias tem mil e quinhentas coisas em que pensar. Almoço, escola, férias (meu Deus as férias!) horários, roupa, calendário das festas de anos, prendas para as festas de anos…
E muitas vezes tenho de sair mais cedo – são consultas médicas, festas de fim do ano, avaliações (e o mês de Agosto!?).

Eu sou a Maria!

A que coloca os filhos em primeiro lugar. A que tinha uma carreira e agora tem um emprego. A que saía todos os fins-de-semana e tinha uma vida social preenchida e agora foi promovida a motorista em part-time.

Eu sou a Maria! A que às vezes está perfumada e maquilhada e outras usa o cabelo apanhado porque não teve tempo de se pentear.

Eu sou a Maria, a que suporta os olhares reprovadores dos colegas sem filhos ou daqueles que já não se lembram quando tiveram filhos pequenos.

A que se contenta por ter um emprego. Porque eu sei que a minha verdadeira carreira, o que faço bem e que me dá maior retorno e prazer não acontece no horário das 9:00 às 18:00.
Eu tenho duas filhas e sei que, um dia, também elas terão esta capacidade maravilhosa de serem mulheres, mães, amantes, terem um emprego (com sorte uma carreira), gerir uma casa, controlar o choro, os nervos, a vontade de gritar ou desistir…, porque todos os dias ao acordar também elas serão Marias no seu tempo, e vão poder olhar para o rosto de seres maravilhosos e pequeninos e ter um grande motivo para sorrir e viver.

 

O que eu quero que os meus filhos se lembrem

Muitas vezes sinto que estou a dar cabo desta coisa chamada maternidade. Há dias que estou tão cansada que não consigo ter um pensamento coerente, quanto mais dizer uma frase com sentido. Estou cansada de mais para brincar com meus filhos. A minha paciência esgotou-se. Sinto que se mais alguém me pedir mais alguma coisa vou ter um ataque de nervos.

Passo os dias atrás dos meus filhos: “Toma o pequeno almoço!”, “Apanha as meias do chão!”, “Faz as pazes com o teu irmão!”, “Para de enfiar papel higiénico no lavatório!”, Por amor de Deus, faz pontaria para não fazeres xixi na tampa da retrete!”  Que cansativo!

Às tantas questiono-me se lhes estarei a proporcionar uma boa infância. Estaremos realmente a criar memórias? 

Quando eles tiverem a minha idade, o que será que lhes ficará na memória sobre a infância? E sobre a mãe?  Será que me vão ver apenas como a pessoa que os alimentou, que lhes deu deu ordens e lhes limpou o nariz? Ou como uma mãe que lhes trouxe felicidade imensa, que tinha sempre ideias giras para partilhar, que foi divertida e brincalhona, atenciosa e gentil?

Tenho a certeza de que se vão lembrar um pouco de tudo. 

Pelo menos, é assim que eu me lembro da minha própria infância e dos meus pais. Lembro-me dos gritos, das lágrimas, das preocupações. Mas há certos momentos que ainda estão guardados religiosamente na minha memória, momentos de pura felicidade e conexão. E espero conseguir dar alguns desses momentos aos meus filhos.

Eu quero que os meus filhos me vejam em primeiro lugar, como uma mãe, mas também como uma mulher, como um ser humano imperfeito com todo este amor incondicional livre e sem pretensões.

Eu sei que ainda faltam alguns anos para que a infância dos meus filhos se torne em memórias distantes. E (bate na madeira) espero, com todas as minhas forças, ainda estar presente em muito anos do crescimento deles. 

Quando penso na nossa vida agora e naquilo que quero que fique na memória dos meus filhos é tudo muito simples e pouco concreto. São pequenas coisas que não consigo dizer por palavras mas que espero que eles estejam a ”apanhar” e a arquivar tudo.

Meus queridos filhos, vou escrever-vos algumas das coisas que quero que se lembrem de mim.

Eu quero que se lembrem das noites em que eu disse repetidas vezes que estava cansada de mais para fazer qualquer coisa divertida mas às 7h da tarde de sábado vestimos os casacos por cima do pijama e fomos à rua comprar guloseimas e sentamo-nos na varanda a comer e sentir a magia da noite.

Que se lembrem das vezes que vos pegava ao colo como se fossem bebés, sempre que estavam doentes. Como vos embalava nos meus braços, enquanto vos cantava as vossas músicas preferidas numa espécie de sussurro e desafinação num tom baixo de mais, até que adormecessem com a cara encostada ao meu peito, ao meu coração. Details

Eu exijo que exijam de mim!

Há mães que não contam que os filhos não são sempre queridos e fofos.

A verdade é que os filhos também são chatos. Acordam de mau humor, repetem vezes sem conta as mesmas palavras e frases, fazem reiteradamente as mesmas perguntas às quais por vezes ou não temos resposta ou não queremos responder, insistem em modo burro do Shrek se estamos a chegar, mal saímos da nossa rua! Ainda falta muito? nem há 5 segundos dissemos que estamos a chegar e fazem birras do nada e sem razão, choram e gritam nos sítios e ocasiões menos apropriadas. Definitivamente, os filhos não são sempre queridos e fofos.

Mas e as Mães?

Eu também não sou sempre querida e fofa e aposto que há mais Mães que não o sejam.

Mas o problema  é que exigimos demais. Exigimos que as crianças se portem sempre bem, exigimos que não interrompam as conversas dos adultos, exigimos que façam as coisas ao nosso ritmo, exigimos que cumprimentem as pessoas, às vezes até que beijem e abracem alguém que só vêem uma vez por ano. Exigimos que emprestem os brinquedos, exigimos que os partilhem, exigimos que se entendam com o(s)  irmão(s), primo ou amigo, exigimos que aceitem se o amigo raivoso lhe bateu, exigimos que não batam de volta, exigimos que não chorem. Exigimos que não falem quando não for o seu tempo, exigimos que não interrompam as refeições, exigimos simplesmente que não interrompam porque, por exemplo, têm um desenho muito bonito e o querem mostrar.

– Não vês que estou a comer, ai que lindo que está, agora vai lá continuar a pintar para eu e o Pai almoçarmos sossegados…

Espera lá, um desenho? Mas que desenho é este? Ah, sou eu, a Mãe!

Pára tudo…

Tu querias interromper-me para mostrar-me o desenho que aprendeste a fazer?

Querias tão somente a minha presença, a minha atenção, o meu amor?

Queridos filhos, desculpem-me! Vocês também têm o direito de exigir! Aliás, eu exijo que exijam de mim!

Exijam que eu pare para vos olhar, exijam que vos oiça, exijam que eu pare para me dedicar a vocês em exclusivo nem que seja por meia hora, exijam que brinque com vocês, exijam que eu esqueça os adultos, o telemóvel, o trabalho, o cansaço, a casa e as suas obrigações, exijam que me sente no chão a brincar com vocês, exijam que eu vos oiça, exijam que eu vos ensine, exijam que eu vos dê atenção, exijam que entre com vocês no mundo do faz de conta, exijam que eu não me esqueça que são crianças, exijam que eu deixe de exigir.

Sejam exigentes comigo!

*para lerem quando crescerem

Pedir um intervalo ao tempo

Ela foi mãe tarde, mas sempre sonhou com esse dia.

Leu todos os livros, preparou-se para tudo o que aí vinha e levou o marido a fazer o mesmo. Acreditava que se soubesse tudo, não haveria razões para não ser uma boa mãe.

O primeiro filho nasceu e depressa percebeu que faltavam vários capítulos aos livros que tinha lido. Ela poderia escrever praticamente uma colectânea com as coisas que tinha aprendido – aprendido que não sabia.

Deixou-se levar ao sabor do vento, seguindo o seu instinto, dando o melhor de si. O marido, vendo que afinal as coisas não eram como lhe tinham dito, foi-se afastando aos poucos – ao ponto de ser quase um estranho para o filho, para a mulher. Ela continuava a sua luta, queria dar o melhor ao filho, mesmo que isso significasse apenas estar lá. Mas a preocupação constante com aquilo que lhe parecia escapar fez com que se esquecesse do mais importante – conhecer o seu primogénito. Falar com ele, mesmo quando ele mal respondia. Não que não lhe falasse, mas não ouvia a resposta que vinha do outro lado. Foi fazendo as vontades todas, para que não faltasse nada à criança. Esta, sem outra opção, acabou por ficar mimada. De fora, viam-se alguns comportamentos a corrigir, mas apenas isso. Para ela, que estava dentro da bolha, parecia começar a tornar-se insustentável. Afinal, estava sozinha – apesar de acompanhada – com uma criança a que não sabia o que fazer. Depois de muitas noites em claro percebeu a solução: dar-lhe um irmão. Isso abriria os horizontes do primeiro filho, ajudá-lo-ia a partilhar, a perceber que as coisas não são sempre como ele quer (apesar de serem assim porque a mãe se esforçou sempre nesse sentido).

Ela guardou numa parte recôndita da sua alma o facto de se sentir perdida e sozinha mesmo tendo uma pessoa ao seu lado. E segundo filho veio. Para ajudar o mais velho, repetia vezes sem conta.

Mas o mais velho, já capaz de tomar conta de si, viu a sua realidade mudar do dia para a noite. O segundo filho passou a ser o centro de tudo: da atenção, dos cuidados, do amor. Como nunca tinha sido ouvido, o mais velho não falou. Faltou-lhe a coragem e a voz. Foi crescendo e aprendendo, à sua própria conta, o seu novo lugar naquela casa. Deixou de ser mimado, naturalmente, o mimado agora era outro. Passou a ser um espectador dentro da sua própria casa. Não podia fazer isto e aquilo por causa do mais novo, se este lhe batia ou estragava os brinquedos nunca era repreendido – e o mais novo tornou-se o dono da casa.

O cansaço fazia-a lembrar-se que estava sozinha, mas a quantidade de coisas que os filhos (mesmo que o mais velho se limitasse a seguir a onda) exigiam deixavam-na sem tempo para perceber o que estava a acontecer debaixo do seu tecto.

Passaram-se vários anos e, apesar das suas boas intenções, o amor não bastou. Não bastou no início, para que o marido percebesse que ela precisava de ajuda para conseguir dar conta do recado; não bastou para que um filho ainda a ser educado fosse compreendido com a importância que tinha e tem; não bastou para que o mais novo tivesse uma educação melhor, com erros a serem corrigidos.

O amor não bastou.

E a ela, hoje, sobra-lhe cansaço. Luta diariamente sem perceber que lá atrás podia e devia ter parado para pensar. Ainda hoje pensa tão depressa que não respira. Toma as decisões com o coração e sofre com elas.

Esta mãe tem dois filhos. O mais velho perdido sem saber o seu lugar. O mais novo por achar que todos os lugares são seus.

Tem uma luta pela frente. Mas a primeira que devia travar era consigo mesma. Parar. Ouvir. Chorar. Descansar. Criar uma estratégia. Acima de tudo mudar. Mas a mudança assusta, principalmente quando nos sentimos (e estamos) sozinhos.

Esta mãe podíamos ser nós.

Como ela, temos também muito a corrigir, a pensar. Como ela, damos o nosso melhor. Como ela, às vezes merecíamos ter uns segundos para parar.

Mas o tempo não pára, a vida segue e temos de ser.

Mães, mulheres, educadoras, amantes, amigas, trabalhadoras. Animadas, interessantes, interessadas, informadas, cultas, divertidas e de bem com a vida.

Que a história desta mãe nos lembre que não faz mal não saber tudo. Que é bom pedir ajuda.

Que é sempre tempo de mudar.

Para melhor.

Pelo bem dos nossos filhos.

Para nosso bem.

 

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