A educação infantil e a física quântica: interseções

A Física Quântica, em traços gerais, estuda os fenómenos que acontecem com as partículas atómicas e subatómicas. Ou seja, partículas que são iguais ou menores que os átomos, como os elétrons, os prótons e os fótons…

Trata-se de um novo modo de pensar e fazer ciência. As micropartículas não podem ser estudadas e observadas através da Física Clássica, já que esse “micromundo” não é prioritariamente regido pelas leis que compõe a ciência tradicional, tais como a gravidade, a ação e a reação, etc.

O interessante é que apesar de todos os seus estudos se darem em relação aos fenómenos microscópicos, estes também se refletem nas questões macroscópicas, já que tudo o que há no Universo é composto por átomos, elétrons, etc…

Segundo experimentos da Física Quântica, é possível a existência de duas situações diferentes e simultâneas para um determinado corpo subatômico.

Se o comportamento desta partícula pode ser tão incerto e tão contraditório, de acordo com os estímulos externos, como é que isso não ocorreria também no macrocosmo das crianças, visto que somos todos um amontoado de elétrons e prótons, interagindo e reagindo uns com os outros?

Nesse sentido, o pensamento humano, como sendo ondas eletromagnéticas que irradiam, captam e devolvem ondas semelhantes, tem grande poder de realização.

Cada indivíduo é capaz de alterar o universo em seu redor com a capacidade de influenciar na disposição das micropartículas atómicas em torno das pessoas, como os observadores dos átomos são capazes de modificar o comportamento das partículas com as quais têm contacto.

É necessário sensibilizar o olhar e acolher essas crianças que estão perto de nós com todos os sentidos aguçados. Estão num ponto ótimo para serem conduzidas a criar realidades positivas, sob a orientação de um adulto que também caminhe na intenção de ser artífice do seu próprio mundo.

A interseção entre a Física Quântica e a Educação da Infância dá-se assim, no lugar do novo e do criativo, visto que nessa perspectiva, somos nós adultos educadores que construiremos conjuntamente às crianças, realidades mais significativas para todos.

Esta é uma proposta revolucionária que desde a base transformará os modos de pensar dos pequenos, formando cidadãos mais conscientes de seu poder de concriar realidades de equidade, equilíbrio, bondade, confiança e de todas as habilidades das quais o mundo tanto necessita.

Photo by frank mckenna on Unsplash

Tirar a chupeta sem dramas, é possível?

A sucção é um reflexo oral inato e primordial que surge e se desenvolve ainda dentro da barriga da mãe.

Enquanto Terapeuta da Fala, nas consultas iniciais questiono necessariamente ‘’usa chupeta?’’, ‘’chucha no dedo?’’, ‘’bebe pelo biberão?’’. Na maioria das vezes a resposta a todas as questões é ‘’não, já deixou de usar há muito tempo’’. Quando o sentido da conversa muda e se questiona o reportório alimentar, pedindo que descrevam o que a criança come e bebe durante um dia, lá vem com alguma frequência o ‘’leitinho no biberão, na caminha de manhã’’. O cenário é semelhante quando se descreve a rotina do dia-a-dia ou a rotina do sono, quando chega a casa depois da escola lá vem o dito ‘’bocadinho com a chupeta’’ ou ‘’a chupeta só para se deixar dormir’’.

A realidade é que a maior parte dos encaminhamentos realizados para terapia da fala estão relacionados com alterações na articulação. Quando avaliamos, acabamos por verificar alterações estruturais, palato duro alto, alterações na oclusão como a mordida aberta, mastigação e deglutição adaptadas, respiração oral, assimetrias posturais e tudo isto muitas vezes decorrente do uso prolongado de chupeta, sucção digital e/ou biberão e que torna necessária uma intervenção multidisciplinar.

Começando pelo início… O que é a sucção e qual a sua importância?

A sucção é um reflexo oral inato e primordial que surge e se desenvolve ainda dentro da barriga da mãe. Nos prematuros, dependendo do tempo de gestação, a maturação deste reflexo é realizado fora da vida uterina. Nestes casos é pertinente a avaliação e intervenção do terapeuta da fala para a promoção da organização do padrão de sucção.

Quando pensamos em sucção, imediatamente vem a ideia de amamentação e alimentação do bebé. Para além da função nutritiva, o reflexo de sucção encaixa-se dentro das funções estomatognáticas, sendo um mecanismo neuromuscular complexo que contribui para o crescimento craniofacial e desenvolvimento neuromuscular das estruturas orofaciais utilizadas durante a mastigação, deglutição, respiração e fala.

É importante lembrar que os músculos e estruturas utilizadas quando a criança realiza sucção, são os mesmo que irá utilizar para falar, mastigar, deglutir e respirar.

Neste sentido, este reflexo prepara os músculos e estruturas da face – lábios, língua, bochechas, palato, mandíbula – para as etapas seguinte de diversificação e introdução alimentar, comer com a colher, beber pelo copo e falar.

Associado ao reflexo de sucção poder-se-á encontrar hábitos orais de sucção normais, como a amamentação e hábitos orais nocivos como sucção digital, chupeta, bruxismo (ranger os dentes), onicofagia (roer as unhas), mordida de objetos e padrão de respiração oral, por exemplo.

Quando o período de retirada de um hábito oral é tardio não acompanhando o desenvolvimento global da criança pode ser classificado como compulsivo.

Existirá alguma relação entre a amamentação, tetinas e chupeta?

É hoje geralmente defendido que a chupeta poderá interferir com a amamentação. A amamentação promove a respiração nasal, a oclusão normal e o crescimento facial.

Ainda que existam inúmeras tetinas que se assemelhem o peito da mãe, mamar no peito da mãe é muito exigente. O bebé tende a realizar mais forço e a dispensa de energia é maior comparativamente à amamentação com o biberão.  Caso o bebé ainda se esteja a adaptar à sucção no peito da mãe, se for introduzida chupeta ou biberão, poderá surgir a confusão de bicos. Torna-se comum que  quando colocado à mama o bebé se mostre irritado, chorando e recusando morder o bico. Isto acontece pela maior dificuldade em mamar comparativamente à sução da chupeta ou biberão.

Como nos primeiros dias, os pais ainda se estão a adaptar às novas rotinas, o stress, a ansiedade, a privação de sono, a subida de leite e mamilos gretados poderão fazer com que desistam da amamentação, por pensarem, por exemplo, que o leite não é suficiente. É importante que saibam que existem diversos profissionais devidamente formados em aconselhamento em aleitamento materno a que podem recorrer nesta situação, a amamentação não tem que ser um processo doloroso, por vezes pequenos ajustes são suficientes para ultrapassar algumas dificuldades.

Mas afinal, devem ou não as crianças utilizar chupeta? Chupeta sim ou não?

O uso de chupeta assim como a idade a partir da qual deve ser retirada continua a ser um tema controverso.

Os hábitos de sucção não nutritiva, chupeta e sucção digital, estão interligados com a satisfação afetiva, conforto e segurança da criança.

O uso de chupetas/ sucção digital, biberão de forma prolongada poderão ser considerados nocivos. Poderão comprometer crescimento craniofacial em termos ósseos e musculares, alterar a forma das arcadas dentárias, o posicionamento da língua, o contacto labial e, consequentemente, prejudicar as funções de fala, mastigação, deglutição e respiração. O grau de alterações funcionais provocadas pelos hábitos orais está diretamente relacionada com a intensidade, frequência e duração da sua utilização.

O uso de chupetas/ sucção digital, biberão de forma prolongada poderão ser considerados nocivos e comprometer crescimento craniofacial em termos ósseos e musculares

Apesar de se falar na maioria das vezes apenas nos malefícios da chupeta, esta também tem um papel regulador. Este poderá ser importante para o desenvolvimento da criança, na medida em que poderá contribuir para a estabilidade emocional, estimular a sucção e facilitar a digestão, mais significativo ainda se se tratar de uma criança prematura.

Atualmente, devido à inúmera quantidade e variedade de chupetas que existem no mercado, a escolha nem sempre é fácil. Na hora da escolha é importante optar por uma chupeta/ tetina com bico ortodôntico e com tamanho ajustado à boca do bebé. O tamanho do bico deve acompanhar o crescimento e desenvolvimento maxilofacial do bebé, de modo a evitar alterações. O material da tetina poderá ser látex ou silicone, sendo que o último exige uma força de sucção maior. O tipo de material vai depender da maturação e organização do padrão de sucção do bebé.

A utilização da chupeta, como quase tudo, deve ser com ‘’conta, peso e medida’’. Para além disso, é fundamental estar informado sobre as consequências que o uso prolongado destes hábitos poderão trazer para o desenvolvimento da criança.

Então, ‘’Quando e como tirar a chupeta / biberão?’’

Convencer uma criança a tirar a chupeta ou biberão ou chuchar no dedo nem sempre é fácil e pode tornar-se uma verdadeira batalha. De facto, estamos a querer acabar com um/a amigo/a, algo que a criança gosta e a acalma.

A idade da retirada destes hábitos é um assunto controverso, sendo geralmente referidos os 2/3 anos. Efetivamente, quanto mais cedo ocorrer a eliminação deste tipo de hábitos maior a probabilidade de corrigir ou atenuar as alterações. Principalmente se ocorrer ainda durante a fase de dentição decídua. No entanto é preciso não esquecer de olhar para a criança como um todo. Tendo em conta que estamos a querer acabar com algo que gosta e acalma. Estamos a querer tirar a chupeta. Por exemplo se tentarmos fazê-lo em simultâneo com o desfralde ou até na altura em que tem um irmão/ã poderá não ser o momento oportuno.

Estratégias para abandonar o uso de chupeta/ biberão:

Analise bem a altura em que vai iniciar a retirada. Evite retirar quando estão a acontecer outras mudanças (ex.: desfralde, mudança de rotinas, mudar de quarto, cirurgias, entre outros). Aproveite oportunidades em que note alguma redução/desinteresse pontual pela chupeta/biberão.

Converse com a criança e inclua-a no processo!

Explique que já está a ficar crescida e que a chupeta/biberão vão fazer mal aos seus dentinhos. Pode mesmo mostrar fotos de alterações dentárias causadas pelo uso prolongado.

Ideias e dicas para tirar a chupeta :

  • combinem que vão deixar a chupeta na árvore das chupetas (existe uma na Quinta Pedagógica dos Olivais);
  • oferecer a chupeta/ biberão ao pai natal, coelho da páscoa, à fada das chupetas, etc. Ou até uma personagem que a criança goste para dar a outro menino ou bebé que precisa. Como agradecimento a personagem pode deixar uma surpresa. Crie uma história criativa à volta desse acontecimento. “A fada das chupetas levou a tua durante a noite para dar a outro bebe porque tu já estás crescido/a”.
  • Preparar leite e bolachas para o pai natal e deixar a chupeta/ biberão para ele levar a outro bebe;
  • Pode substituir a chupeta por um objeto de conforto na hora que mais precise.
  • Diminua os períodos de utilização de forma gradual (ex.: só utiliza para dormir);
  • Dê reforço positivo quando a criança não utilizar a chupeta ou beber pelo copo (caso a retirada seja do biberão);
  • Tente que seja a própria criança a deixar a chupeta/biberão. Pode fazer, um pequeno corte ou furos na chupeta/tetina, para que perceba que a sua configuração está alterada, já não dá para chuchar e que está estragada;
  • Se a criança tiver alguns momentos de reação negativa, tente acalmá-la, abrace-a e transmita-lhe conforto. A chupeta não substitui o carinho dos cuidadores;
  • não usar o termo “vamos tirar a chupeta”

O hábito de sucção digital pode ser mais difícil de eliminar.  Não conseguimos fazer com que o dedo desapareça…. O primeiro passo será sempre conversar com a criança.

É, também, importante valorizar os períodos em que não está com o dedo na boca. Caso aconteça em meninas, uma ida à manicure pode ser motivadora. Nestes casos pode ser necessária a colocação por médico dentista de aparelho que impeça o hábito.

Lembre-se que o abandono da chupeta é mais uma conquista desenvolvimental e não tem que ser “dramático”. Tirar a chupeta não tem de ser um drama. É perfeitamente possível promovê-lo de forma pacífica!

 

Por Marta Marreiros, Terapeuta da fala

 

Desfralde para Totós

Quem me conhece e me segue há algum tempo, sabe que sou uma adepta fervorosa do Slow Parenting – o mais curioso é ter começado a seguir esse modo de vida, sem nunca me ter apercebido que já existe uma teoria acerca disso.

Comecei o blog por brincadeira. Em parte, para poder acompanhar o crescimento dos meus filhos. Mas também porque adoro escrever. Desde pequenina que este meu hobby me faz sentir viva. Mas o meu blog nunca foi, nem nunca será um diário da minha família, ao estilo Big Brother. Apesar de partilhar fotografias dos meus filhos. sei que um dia eles podem não gostar de saber que eu partilhei os dias inteiros deles. As suas manias. As suas teimosias. As suas alegrias.

Daí que, de vez em quando estou um tempo sem por cá aparecer. Vou andando no instagram, para quem me quiser ver.

Mas hoje tive mesmo de passar por aqui e dar o meu testemunho: o desfralde do meu último filho.

O exemplo vivo de que cada criança é uma criança e tem os seus próprios timings. Para quê insistir com um bebé com 2 anos que não está nem aí para tirar as fraldas? Só porque os livros assim o dizem? Ou porque os filhos dos outros assim o ditam? Não, obrigada.

Cá em casa, o desfralde do Zé Maria foi simples. Prático. E rápido. Não houve cá potes, nem redutores, nem deslizes. Quando senti que o Zé Maria estava preparado, ensinei-o, sem pressas, a ir sozinho à casa de banho, E com dois anos e 10 meses largou definitivamente as fraldas. E não houve um ai. Nem um ui. Só alegrias e palmas. E não é porque o meu filho é melhor, mais esperto ou mais inteligente do que os outros. Simplesmente porque senti que já estava preparado. Porque ele deu sinais. Porque o Zé Maria mostrou confiança. Porque o senti seguro de si mesmo.

Já assisti algumas vezes a Mães que insistem com os filhos a largar as fraldas.

Com gritos, Com culpa. Com stress. Agora tem de ficar de castigo, só porque fez xixi fora do sítio. Agora não tem história antes de ir dormir, porque hoje não fez nada no pote. Não consigo perceber estas pressas. Estas manias dos Pais de insistirem com os filhos a crescer ou a serem independentes antes do tempo. Já ouviram falar de alguém que vai de fraldas para a faculdade? Ou que foi de chupeta para o liceu? Ou que ainda dormia na cama dos Pais quando resolveu pedir a namorada em casamento? Estas pressas não entram cá em casa.

Os meus filhos podem não ser os melhores nem os mais espertos, nem os mais rápidos em tudo. Mas são, sem dúvida, felizes, porque têm uns Pais e uma família que respeita os timings, as necessidades e os medos de cada um, deixando-os ser livres à maneira deles, sem exigências fora do seu controlo.

Só quero que eles nos respeitem também como Pais que somos, e que sejam muito, mas muito felizes.

E assim foi o desfralde do Zé Maria: sem regras, sem pressas, sem nada do que vem nos livros.

Só seguindo o ritmo dele e o instinto desta Mãe. Assim é que é!

O mimo não estraga as crianças. A falta de limites, sim.

Ser criança é muitas vezes concebido como um pano de fundo em que tudo parece perfeito, ou pelo menos, quase perfeito… Mas, Ser criança, não é sempre um arco-íris, cheio de cor, de vida e bem- estar, às vezes, ser criança é cinzento, umas vezes mais claro, outras cinzento escuro, quase negro, sem pontos de luz… Mas, afinal, que bicho papão é esse que parece tirar a cor à infância? Que bicho papão é esse que, às vezes, se torna tão grande dentro de cada criança que parece contamina-la em todas as áreas?

Quais os ingredientes para uma criança feliz?

A criança nasce e precisa de protecção, que cuidem dela e garantam o seu correcto desenvolvimento, é dependente! Mas se cuidarmos fisicamente do bebé, e depois nos esquecermos de lhe dar amor, a criança entra naquilo a que os técnicos de saúde mental chamam de ‘depressão analítica’, um estado que reflecte a não satisfação da necessidade de um amor seguro e incondicional.

O coração de mãe e também o coração de pai (sim, porque não nos podemos esquecer que o pai pode ter um coração tão grande como o da mãe, temos de deixar de o subestimar!) sabe bem no seu intimo que o principal ingrediente para uma criança feliz é o Amor. O amor seguro e incondicional, o afeto e o mimo – como só os pais de alma e corpo cheio sabem dar!

O mimo não estraga as crianças. A falta de limites, sim.

O mimo não estraga as crianças. Nunca uma criança ficou estragada por ter mimo a mais, ou amor a mais! O mimo e o amor funcionam como o combustível que nos faz mover, não só em criança, mas ao longo de toda a nossa vida. É o amor que nos prende à vida e só quando o amor nos segura podemos alcançar a felicidade.

Mas, então, o que é isso de “ele é mimado, ninguém faz nada dele”?, que ‘mimo mau’ é esse que afecta tantas das nossas crianças?

É a falta de limites.

Os Pais são capazes de sentir no seu intimo que só com limites claros a criança cresce segura de si! Quase todos os pais conseguem senti-lo, mas só os Pais conscientes, os que estão seguros de si, de alma e corpo cheio conseguem fazê-lo; só esses pais conseguem estabelecer as balizas sem resvalar para um lado de ‘general autoritário’, sem parecerem mais assustadores do que seguros.

A criança precisa de limites

Os limites – embora na fase inicial uma criança os rejeite – atribuem-lhe segurança e robustez. É como se o pai e a mãe lhe dissessem ao coração: “avança, que nós estamos aqui para garantir que tens o caminho seguro. Aconteça o que acontecer, nós não te vamos deixar cair”.

Uma criança sem limites é uma criança em auto-gestão que, mesmo que sinta com o coração todo, ainda não sabe onde pode pisar ou não, explorando, aos poucos, o mundo de forma assustada, sempre com a ideia que um dia, se for preciso, pode ninguém estar lá para a proteger.

Uma criança sem amor ou sem limites será sempre um adulto em apuros. Se queremos crianças felizes, precisamos de uma boa dose de amor em equilíbrio com uma boa dose de limites. Assim, de falha em falha, como só os bons pais se permitem a falhar, subtraímos birras, multiplicamos sorrisos e somamos felicidade em cada criança, em cada família.

Por Cátia Lopo e Sara Almeida Psicólogas Clínicas

Orientação Vocacional: o que é e para que serve.

Jovens ou adultos podem, portanto, em determinada fase do seu percurso escolar e/ou profissional, deparar-se com situações de indecisão quanto ao caminho a seguir. Para melhor decidir quanto ao seu presente e futuro profissional, é fundamental ter um bom conhecimento sobre si mesmo, assim como em relação à realidade educativa e profissional. É neste contexto que surge a Orientação Vocacional: para clarificar todas estas questões, ajudar a pessoa a conhecer as suas aptidões e a tomar consciência daquilo que mais o entusiasma e, através disso, facilitar a definição de linhas directrizes que ajudem a tomar uma decisão quanto ao futuro profissional.

Orientação Vocacional: O QUE É?

A Orientação Vocacional e Profissional é uma área de intervenção que pretende dar resposta às necessidades e indecisões que surgem em jovens ou adultos quanto à direção a dar à sua carreira académica e/ou profissional. É feita uma avaliação que permite analisar, por um lado, tudo aquilo que o motiva (ou seja, os seus interesses), e por outro lado, tudo aquilo para o que tem maior facilidade em aprender (ou seja, as suas aptidões). A orientação vocacional pretende, enfim, valorizar a visão que o estudante tem sobre si mesmo, quais os seu aspectos que considera mais importantes, e as suas expectativas em relação ao futuro. Enfatiza-se a ideia de que a construção do futuro depende das suas vivências e escolhas do presente.

Orientação Vocacional: COMO DECORRE?

O processo de avaliação de Orientação Vocacional inicia-se com uma entrevista cujo objetivo é recolher informação sobre o historial da pessoa em termos de percurso escolar e/ou profissional, assim como dos seus planos e aspirações. O restante processo de avaliação é realizado através de três ou quatro sessões (dependendo dos casos, poderão ser necessárias mais de quatro sessões) onde, através da aplicação de diferentes provas estruturadas de avaliação psicológica, é traçado o perfil vocacional do jovem ou adulto.

As provas têm por objetivo avaliar o seu perfil cognitico, os seus interesses, as áreas que mais o motivam, assim como as suas capacidades de desempenho mais desenvolvidas. No final do processo de avaliação é entregue um relatório que apresenta o perfil da pessoa, assim como a delineação de um projeto académico e/ou profissional, onde são sugeridos cursos, formações e/ou áreas de estudo ou profissionais mais adequadas ao seu perfil vocacional.

Orientação Vocacional: QUANDO DEVE FAZER-SE?

Indecisões quanto à direção a tomar relativamente à carreira académica e/ou profissional podem acontecer em qualquer altura da vida de uma pessoa, pelo que não existe “data marcada” para a necessidade de recorrer à orientação vocacional. No entanto, o período correspondente ao final do terceiro ciclo (9º ano) é particularmente importante na vida do adolescente, na medida em que será esta a primeira vez na vida em que terá de decidir sobre o seu futuro profissional. É também nesta fase do desenvolvimento que ocorrem as transformações cognitivas e psicossociais mais visíveis e significativas e, ao mesmo tempo, em que o planeamento vocacional se torna intimamente ligado à construção da identidade do adolescente. Trata-se de uma escolha com grande impacto no percurso vocacional do adolescente e, portanto, é natural que surjam muitas dúvidas e incertezas relativamente ao caminho a escolher.

No final do 9º ano, o adolescente poderá optar por um de três caminhos: Curso Científico Humanístico, Curso Profissional ou Curso Artístico Especializado. Embora qualquer uma destas vias permita concorrer ao ensino superior, importa realçar que uns são mais orientados para isso do que outros.

1. Curso Científico Humanístico

O Curso Científico Humanístico é a opção mais adequada para o jovem que pretenda prosseguir um percurso académico ao nível do ensino superior, já que é este o curso que melhor o prepara em termos de aprendizagens teóricas. Nesta fase, é importante que o jovem escolha uma de quatro áreas principais, para a qual revele simultaneamente interesse e aptidão: Ciências e Tecnologias, Línguas e Humanidades, Ciências Socio-Económicas ou Artes Visuais.

2. Curso Profissional

O Curso Profissional é a melhor opção para quem prefira quer ir directamente para o mercado de trabalho, já que este apresenta uma componente mais prática, preparando mais eficazmente o jovem para o trabalho concreto (por exemplo: administração, serviços e comércio, agroalimentar, ambiente e recursos naturais).

3. Curso Artístico Especializado

O Curso Artístico Especializado será o caminho a seguir para o jovem que pretenda uma carreira mais relacionada com a área artística e creativa (por exemplo: artes do espetáculo, dança, música) .

Mais tarde, no final do ensino secundário (12º ano), os estudantes já estão nos últimos anos da adolescência e, portanto, numa fase de desenvolvimento mais amadurecida, com uma visão mais realista acerca de si mesmos e daquilo que os rodeia. Para quem escolheu o Curso Científico Humanístico, o jovem tem agora a hipótese de candidatar-se ao Ensino Superior, para o qual terá de realizar exames nacionais às disciplinas que se adequam ao curso que pretende desenvolver. Também nesta fase o jovem poderá sentir dúvidas quanto à escolha da especialidade profissional, assim como em relação às oportunidades de formação e cursos existentes. Nestes casos, a orientação vocacional poderá ser útil para tornar mais eficaz qualquer tomada de decisão e ajudar a fomentar o desenvolvimento da carreira que melhor se adeque aos seus interesses e aptidões.

Orientação Vocacional: ONDE SE FAZ?

O Centro SEI conta com uma equipa de técnicos especializados na área da Orientação Vocacional. As sessões decorrem nas instalações do SEI, e também em escolas, para pequenos grupos de alunos.

Links úteis

Currículo e programas do Ensino Secundário

Rede de Cursos Profissionais – 2013/2014

Acesso ao Ensino Superior

 

Pode parecer estranho. Muitas vezes uma condição cerebral incompreendida. Não é preguiça mental nem falta de motivação. É considerado uma perturbação neurológica. Afeta especialmente a capacidade de entender, trabalhar com números e conceitos matemáticos. Se for o caso do seu filho, não desespere! Há formas de o ajudar.

Conheça os sinais da Discalculia  Uma criança com esta perturbação tem dificuldade em quantificar as coisas. Tende a apresentar dificuldades ao nível da perceção real entre o número e a quantidade. Como se 8 canetas fossem 15 ou 20. Apresenta dificuldades em compreender, por exemplo, que 8 é o mesmo que 4+4, ou 7+1.

São sinais que podem indiciar uma disfunção neurológica. Quanto mais cedo o diagnóstico, maiores as probabilidades de a ajudar.

Preste atenção ao comportamento do seu filho – Tome notas. Observe e registe as suas dificuldades. Tenha em conta que a Discalculia pode causar várias dificuldades, não apenas ao nível dos conceitos matemáticos. Esta Perturbação Específica do Cálculo também tende a manifestar-se através de dificuldades na noção do tempo e nas medidas de grandeza.

Discuta a vida escolar – Pergunte ao professor de matemática se o seu filho tem manifestado problemas na aprendizagem dos conceitos. Se a resposta for afirmativa, pergunte se está a implementar estratégias de ensino compensatórias. Os apoios informais também podem ser um importante contributo.

Crianças com Discalculia costumam ainda apresentar outras dificuldades de aprendizagem e também, de atenção. Considere solicitar uma avaliação educacional (nas áreas da psicologia e/ou psicopedagogia). As informações obtidas podem ajudar o seu filho. Marque de seguida uma reunião na escola. Apresente as respetivas conclusões aos professores que poderão ponderar a criação de um Plano de Educação Individualizado.

Fale com o médico do seu filho – Discuta todas as dúvidas e preocupações, sem a presença da criança. Transmita ao pediatra as notas diárias que foi recolhendo. Questione as opções de tratamento, incluindo a terapia psicomotora. Alguns alunos com discalculia têm dificuldades visuo-espaciais na leitura e escrita de números. Não se sabe, ao certo, qual a causa concreta da Discalculia. Alguns investigadores acreditam que poderá estar relacionada com vários fatores: herança genética, lesões cerebrais, nascimento prematuro, pouco peso e, por exemplo, exposição ao álcool durante a gestação.

Discalculia dura para a vida mas não impede o sucesso profissional. É possível minimizar as dificuldades com o acompanhamento certo e estratégias compensatórias. Todas as crianças com este distúrbio podem destacar-se em outras áreas.

Explore as capacidades do seu filho. Poderá surpreender-se.

A criança e o corpo humano

Uma criança considera o seu corpo como sendo igual ao de outras pessoas, e parte, portanto do princípio de que todas as outras crianças têm um corpo como o seu. A mãe e o pai são considerados da mesma maneira, são eles mesmos, e a criança não vê qualquer semelhança entre os corpos grandes e peludos e o seu próprio corpo, pequeno e macio.

As primeiras perguntas aparecem normalmente quando a criança repara numa outra criança, do seu sexo oposto, despida. “O que é aquilo?”. Perguntará então, e tudo o que ele quer é que lhe digam o nome (vagina) e talvez o nome correspondente para aquilo que ele próprio tem (pénis).

Não há motivo nenhum para que este assunto seja abordado com uma excessiva carga de embaraço ou atrapalhação por parte dos pais. Procure, portanto, aceitá-lo com calma e concentrar-se de modo a conseguir dar ao seu filho uma informação simples e precisa que responda exatamente à pergunta específica que ele lhe fez. É evidente que não terá de «pôr todo o assunto a nu», contando-lhe tudo, até aos mais pequenos pormenores.

É preferível deixar que a criança vá fazendo as perguntas sobre as partes que ainda não compreende à medida que ela própria sente que há ainda  mais qualquer coisa por explicar. Não será, senão por volta dos cinco, seis ou sete anos que o seu filho lhe fará a tal pergunta crucial: “Como é que o pai põe a semente na mamã?” Ao fim de anos de respostas curtas, mas sempre específicas, verá que lhe é perfeitamente fácil de responder.

Se deixar que se forme uma atmosfera estranhamente «especial» de cada vez que o seu filho lhe dirige uma pergunta qualquer respeitante ao sexo, acabará por se ver arrastada para uma pura farsa.

Cada família a sua educação

Algumas famílias acham que é preferível permitir que os filhos vejam o pai e a mãe nus para que possam ter a possibilidade de ver a diferença entre os sexos quando adultos. Outros pais acham que é preferível exatamente o contrário, isto é, não permitir que os filhos os vejam despidos. No que diz respeito ao sexo e às crianças pequenas, provavelmente a melhor atitude é não fazer da questão um problema de grandes proporções. Não interessa saber se a criança vê ou não os pais nus, desde que a atmosfera seja simples, descontraída e perfeitamente normal. Uma timidez exagerada que a leva a soltar um grito e a agarrar apressadamente numa toalha de cada vez que o seu filho entra inesperadamente na casa de banho só fará com que a criança se admire e pergunte a si mesma por que motivo a mãe terá ficado embaraçada.

Da mesma maneira, uma «passagem de modelos nus» cuidadosamente preparada irá, muito possivelmente, deixar a própria criança embaraçada, porque não saberá como é que os pais querem que ela reaja.

Portanto, comporte-se como sempre se comportou e não procure ser deliberadamente «antiquada» ou conscientemente «moderna».

 

Paula Norte, psicóloga na Psicomindcare para Up to Kids

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Sabia que este dia eventualmente chegaria.

Nunca pensei que fosse tão depressa, por isso não tinha resposta ensaiada. E ainda bem, porque nisto da maternidade já aprendi que de pouco importa o ensaio geral as coisas no dia da estreia saem sempre ao contrário.

Nunca gostei que levasses bonecos para a escola e consegui evitar até há bastante pouco tempo. Como fazemos um percurso de cerca de dez minutos a pé em que cantamos e conversamos, às vezes gostas de aproveitar a companhia do teu brinquedo preferido.

Cedi, sempre com a condição de chegadas à escola o brinquedo ficar guardado na tua mochila. Encaro a escola como um local comunitário, em que tudo é e deveria ser de todos, que todos terão de respeitar e aceitar partilhar aos poucos.

A partir do momento em que as crianças levam os seus brinquedos para a sala, as coisas são deles, criam momentos de tensão quando os outros também querem brincar e o dono não gosta ou até empresta mas o brinquedo acaba por se estragar ou perder. Acho que são situações evitáveis. A escola tem bonecos mais que suficientes e na maior parte das vezes as crianças estão entretidas com outros tipos de actividades.

Com a minha filha tem havido dias em que tenho de esperar um pouco mais pelo abraço ao boneco preferido, que lhe diga até logo para o depositar na mochila: porque por ela levá-lo-ia consigo. Entendo, dou tempo mas às vezes tenho de ser rígida e lembrar que não levamos brinquedos para a sala da escola.

E foi aí que aconteceu.

A resposta: “mas os outros levam!”. Recuei umas boas dezenas de anos, lembrei-me dos colegas que diziam aos pais que a sua má nota não era assim tão má porque mais de metade da turma se tinha saído mal no teste. E a resposta era invariavelmente: “mas a outra metade da turma não é minha filha”. Foi isso que quis responder, que os outros não são meus filhos, que é lá com eles e com os pais.

Respirei fundo e expliquei-lhe que na nossa casa são aquelas as regras. Assim ela não perde nem estraga os brinquedos na escola e brinca com todos sem se aborrecer nem fazer birras porque seria evidente que dificilmente ficaria a ver enquanto os outros queriam brincar horas sem fim com os seus bonecos. Ali todos têm de partilhar, tudo é de todos.

Ela resmungou mas aceitou, não tinha outro remédio.

Eu senti-me velha.

Foi apenas o primeiro de muitos embates que aí vêm.

E sei que serão uma infinidade deles, porque faço questão de evitar uma série de coisas que para alguns pais são corriqueiras – os doces diariamente, os tablets constantemente no colo, os gelados cheios de chocolate a toda a hora e a lista não tem fim.

Um dia em que o pai foi buscá-la à escola e a levou directamente ao consultório médico para uma vacina coincidiu com um dia de festa de uma colega. Na mochila havia um chupa-chupa miniatura e o pai achou que ela até merecia o mimo por se ter portado tão bem (e a Mariana nunca na vida comeu rebuçados ou sugos, ou chupas, foi mesmo uma estreia para ela e sim, com quase três anos?).

Ainda hoje, quando estamos a falar de comida e se lembra do chupa-chupa de laranja da festa da Leonor, diz “o meu pai deixa”. Tivesse eu outro tipo de relação com o pai e seria motivo para discórdia e discussão. Felizmente somos uma frente unida e entendo o que ela quer dizer, mas corrijo. O que não significa que sempre que vai ter uma vacina ela não pergunte: depois vou comer um chupa?

Não vai, mas não é preciso atormentá-la com isso. Daqui a uns anos vai encher-se de porcarias se quiser, mas acredito que a educação alimentar e as bases que lhe estamos a dar a farão tomar melhores decisões no que toca a alimentação.

Mas estou a preparar-me para nos próximos tempos ter de enfrentar as suas questões.

É tranquilo, daqui a cinquenta anos acho que já me safei delas!

imagem@weheartit

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Ama os teus filhos todos os dias

A arte de perder não é difícil de dominar; há tantas coisas que parecem preenchidas com a intenção de se perderem que a sua perda não é nenhum desastre. Perde algo todos os dias. (…) Depois pratica o perder mais e perder mais rápido: lugares e nomes, até de sítios que desejavas conhecer. Nada disso será um desastre”

O poema de Elizabeth Bishop, One art, deveria ser leitura obrigatória e diária para aqueles pais que se recusam a perder os filhos para o mundo. Em vez de acompanhá-los nessa viagem que, à partida, não será desastrosa, querem ampliar o tamanho do mundo que controlam. O mundo em forma de família. O mundo em forma de prisão.

Na arte de imbecilizar crianças, os currículos tiranos, as seleções baseadas em exercícios de mnemónicas e as rotinas escolares pouco significativas concorrem fortemente com o receituário pouco inteligente dos pais. Neste sentido, a primeira tática para imbecilizar crianças consiste em protegê-las exaustivamente de problemas. Evitar contacto com as verdades dolorosas. A bruxa e a madrasta malvada devem ser banidas juntamente com o lobo mau. Em cima do piano já não há um copo com veneno, mas um sumo azedo. A morte é apenas uma viagem. A forma afirmativa, pessoal e direta “Atirei o pau ao gato” deve ser vertida para o mais sóbrio e correto “Não atires o pau ao gato porque isso não se faz”. Corta-se assim o suporte imaginário necessário para que a criança elabore o seu sadismo, bem como o masoquismo social que a cerca. De facto, a palavra “imbecil” provém do latim baculum, bastão de pastor.  Alguém sem bastão é alguém que deve ser pastoreado pelos outros; alguém que não fará uso algum do seu bastão para se defender será, pois, um fraco e frágil… Sem pau para atirar.

A segunda tática para não perder os filhos para o mundo consiste na sua cretinização. Os cretinos eram crianças que habitavam os vales da Suíça, onde o sal continha pouco iodo. Sem iodo desenvolviam uma deficiência cognitiva associada à disfunção da tireóide. Como já não podiam ser educadas pelos pais, eram transferidas para as comunidades religiosas, daí o termo chrétien (cristão). E assim, fazem os pais que entregam seus filhos à escola como se esta tivesse não apenas de os ensinar, mas educar, controlar, disciplinar, cuidar e por aí adiante. E assim concorre com os que terceirizam a educação dos filhos.

A terceira técnica na arte de não perder as crianças para o mundo consiste em mantê-las isoladas, em situação de indivíduo privado ou, como os gregos chamavam, estado de idiotez.  A escola é um obstáculo para o novo espírito do neoliberalismo, que advoga que cada um de nós é uma espécie de livre empresa que deve escolher livremente os seus fornecedores e aplicar os seus investimentos segundo os princípios de otimização de resultados. Esses pais empreendedores sentem-se, segundo a prerrogativa de pagantes e clientes, no direito de elevar os princípios individuais e privados à dignidade da coisa pública. Educação é um empreendimento público, não é uma associação privada de interesses ampliados da família. Contudo é assim que agem os que querem proteger a criança das normas, das leis e das regras, cuja razão de ser é pública.

A arte de imbecilizar crianças, como se vê, é o contrário do que nos recomendava a poeta americana. Esta arte consiste em reter para nós o que devia ser do mundo, em temer desastres quando o pior desastre já está a acontecer. É uma vida sem bastão, sem sal ou sem via pública. Quando percebemos o quanto dominamos esta arte, geralmente já é tarde demais e os nossos filhos já se foram e da pior maneira possível. De modo mais lento para um mundo que os condenou a uma minoria penal perpétua.

Artigo originalmente publicado na edição de Agosto de Mente e Cérebro, , adaptado por Up To Kids®

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Ensino Doméstico / Home Schooling, um ano letivo de crescimento

Já nos habituamos às expressões de dúvida e espanto quando dizemos que a Francisca este ano está a fazer educação doméstica (Home Schooling). “Isso é possível em Portugal?” Perguntam-nos. Sim desde 1977! Pelo menos como a conhecemos hoje.

Dados disponíveis relatam que, os números têm vindo a duplicar de ano para ano, especialmente nos primeiros anos de escola. As razões são as mais variadas: pais e alunos desiludidos com o ensino em geral, pais que viajam, alunos com as mais diversas dificuldades na escola ou por motivo de doença. O Home Schooling pode ser frequentado até ao 12º ano.

Este é o relato da nossa aventura na Educação Doméstica, onde o percurso tem sido de tentativa erro e muita vontade de aprender num sistema que apesar de o permitir, ainda não o faz adequadamente.

Durante a instrução primária fui uma mãe bastante resignada. Não me queixei de nada, conheci professores que deram o seu melhor dentro das possibilidades que tinham, auxiliares que vestiam a camisola a troco de um salário e condições de trabalho que por vezes impossibilitam a sobrevivência básica. Sempre com gesto carinhoso para com a minha filha ou um sorriso para mim, mãe! Um professor diferente por ano; professores forçados a trabalhar com problemas de saúde mental a beira de exaustão e desgaste acumulado. Matéria despejada e dada para atingir sabe-se lá que objectivos. Exames nacionais, que em nada reflectiam o que os alunos realmente aprendiam. Escolas mantidas com a boa vontade de associações de pais e pais disponíveis para pintar paredes ao fim de semana.

Isto para nós foi o que que mais nos marcou, os afectos a meio de tanta coisa a correr menos bem. Culpa, na minha opinião, de um sistema há muito com falta de atenção concreta e assertiva, de um olhar mais critico e com desenvolvimentos e acções contínuas a pensar no aluno, independentemente de vontades de governos de cores diferentes.

Durante a escola primária viajamos a meio do ano letivo, duas vezes, ambas em Janeiro. Estas viagens eram inevitáveis, mas tiveram um impacto nos resultados escolares da minha filha. No segundo e quarto ano fomos para a Guiné Bissau e Brasil respectivamente, onde eu fui trabalhar e para o Brasil, para onde fomos para a minha filha conhecer a família

Apesar de ter muita sorte por ter uma família que me dá apoio e fica com a Francisca quando me desloco em trabalho, (sendo uma família mono parental), por vezes tenho que a levar comigo. Adoro e prefiro, mas nem sempre foi possível.

No 5º ano fomos viver para Paris. A Francisca ficou numa das muitas escolas internacionais em França onde existem as chamadas secções de vários países incluindo a de Portugal. Geridas pela Fundação Camões no âmbito da Lusofonia, pelos Ministérios da Educação e dos Negócios Estrangeiros, os pais podem garantir o ensino de Português ao mesmo tempo que o Francês, gratuitamente.

Um ano numa Escola Internacional em França

Foi durante este ano, que aprendi que o ensino em geral está todo errado!

Ao chegar a uma escola nova num pais novo, intitulada como uma das melhores de França, a pressão esteve presente desde o inicio com exames vários e entrevistas. Se isto não era o suficiente, numa espécie de ameaça velada, um professor de Português disse na primeira aula aos alunos, que se não mantivessem notas altas seriam posteriormente colocados nas escolas satélites.

Como se fosse um castigo maior para quem não desempenhasse bem o seu dever de estudante. Falamos de a miúdos de 10 e 11 anos. Isto fez com que as crianças sentissem uma pressão e competição desmesurada entre alunos. Estes questionavam-se constantemente sobre sua própria prestação e desenvolveram um medo absurdo de não permanecer na escola principal, a “desejada para os melhores”, entre os melhores. Insinuar que estas escolas não eram boas resultaram num impacto negativo para a secção Portuguesa que geria, então, excesso de alunos para o espaço existente. Muitos teriam de ir para as escolas satélite – que na realidade são escolas normais e boas. Apenas, não estão inseridas no ensino regular Francês e por isso são considerada fora do elitismo que estas escola internacionais tentam manter.

No final do ano, tanto pais como alunos da secção Portuguesa não queriam os filhos nessas escolas. Essa situação seria vista como um falhanço. A secção, sem qualquer transparência ou critérios claros estipulados e publicados, decidiu. A Francisca foi uma das muitas crianças que teria de mudar de escola no ano seguinte – teve o seu primeiro grande desgosto. “Mãe, o meu trabalho e esforço, não foi o suficiente!” Disse-me com os olhos vidrados de lágrimas. Estava tudo errado neste processo.

Saia das aulas diariamente às 16h e à quarta-feira não tinha aulas a tarde. Todos os dias carregava cerca de 8 quilos as costas e nos dias que tinha aulas de Português o peso aumentava quase mais 4Kg. Os TPC eram diários, enviados por email e com data limite cerca de 15 dias, mas quem não entregasse nos primeiros dias tinha direito a uma reprimenda por mail ou verbal. “Minha Senhora, a Maria não esta a avançar o suficiente!” ou “Minha Senhora, a Maria é muito lenta, alguns dos seus colegas entregam tudo com muito tempo de antecedência” Dizia-me o professor de Francês. A pressão foi aumentando e tivemos de abdicar de tempos livres para ficar a estudar até às 22h.

As mães do liceu internacional sentam-se com os filhos a fazer os trabalhos de casa!” Disseram-me inúmeras vezes. As dificuldades de adaptação a uma língua nova numa escola nova tinha sido ultrapassada, mas com um custo – o de ser criança.Nesta escola os miúdos não tem tempo para ser crianças” Dizia-me uma mãe de um miúdo de notas excelentes mas que muitas vezes sentia o vazio da pressão e saudades de ter tempo para o desporto e para estar simplesmente com os amigos. Havia dias em que dizia à minha filha para largar o computador, e parar de trabalhar, ao qual respondia “Mas mãe, assim vão-me ralhar! E o pior é que se não trabalhar o suficiente vou para a outra escola!”. Eu sempre lhe disse “Se queres, esforça-te filha, as pessoas conseguem atingir objectivos quando se dedicam! Se no final do ano não ficares na escola mas tiveres dado o teu melhor, isso bastará para mim. Porque tu és o suficiente!”

No entanto, sentir que todo o sacrifício fora em vão e desvalorizado, foi um golpe muito duro de digerir aos 10 anos de idade. Para ajudar a aceitar, pedi ao director da secção que lhe explicasse quais eram os critérios de selecção da escola. No meio de um discurso quase desconexo de tom paroquial, não o soube fazer apenas disse, agora quase no final do ano, que afinal a outra escola era muito boa! Não ajudou, e assim decidi que não ficaríamos em Paris. Sendo este ensino o oficial, para mim não era o que precisávamos ou queríamos. O ensino é que não era o suficiente.

Home Schooling em Portugal

Antes de regressarmos já tínhamos decidido fazer educação doméstica. Liguei para o ministério da educação para me informar e inscrevemo-nos numa escola oficial. O processo demorou mais do que o previsto pois levantou-se a questão da equivalência do ano escolar. Apesar de a secção Portuguesa estar sob a tutela do Ministério da Educação, o cruzamento de informações não foi simples. Agradeço à Fundação Camões em Franca que fora extremamente prestável e célere.

Depois de a inscrever neste sistema de ensino, percebemos que tem de realizar os exames anuais a todas as disciplinas excepto a Educação Física. Isto inclui Música, Educação Visual e Educação Tecnologia, sendo que nestes testes além da parte escrita é contemplada uma parte oral e outra prática em determinadas disciplinas. No 2º ciclo paga-se uma taxa única de 10€ para a realização dos exames. Obter informação para as matérias tem sido uma luta, principalmente para as disciplinas de Musica e EVTs. Talvez por não haver directivas expressas para estes alunos, a escola apenas nos facultou cópias dos exames de 2015, último ano que tiveram uma aluna do 6º ano neste sistema.
Nos sites do Ministério da Educação a informação é escassa ou nenhuma. Na internet a informação é pouca e muitas vezes incorreta. Há um grupo de apoio a pais, mas não há neste momento nenhum movimento que pressione para que se reveja a Lei de 1977 que regula o ensino doméstico.

Nomeadamente questionar haver teste de Música e EVT. Valorizo bastante estas áreas, mas como se resumem num exame? Como é que se prepara uma criança para estas disciplinas? Parece-me ingrato e dispendioso! Se estiverem a fazer Home Schooling e a querer trabalhar de forma diferente ficam de pés e mãos atadas porque não há critérios e objectivos estipulados que dêem uma maior liberdade a pais e alunos de forma a que possam demonstrar o conhecimento adquirido nas mais diversas áreas.

Da escola Francesa aprendeu a falar e ler fluentemente, e apesar da loucura dos trabalhos, desenvolveu métodos de estudo e organização.

Passamos a tirar notas e a aprender com amor as matérias de História, Ciências e Literatura. Fazer trabalhos de pesquisa e apresentações sobre temas das várias matérias. Visitamos museus, principalmente nos dias gratuitos, porque para estes alunos não estão contemplados descontos de estudante.

Os livros foram escolhidos por matérias e sem listas fixas, em bancos de livros escolares e o restante adquirimos nas livrarias, principalmente na livraria solidaria de Cascais a Déjà Lu, onde somos também voluntárias para a despertar para a solidariedade e a ensinar a valorizar o trabalho. O exercício físico está nas caminhadas, as obrigatórias porque andamos a pé para todo o lado. O ballet é paixão da minha filha. As aulas de Matemática, matéria em que a mãe é nula, após muita procura optamos pelo Brain Alive, um espaço onde se aprende pela valorização do erro e a preços acessíveis. Aqui aproveita para conviver com outros alunos. No primeiro teste teve 20%, após 3 meses estava a vencer o desafio do mês! Ganhou autoconfiança e passou a acreditar em si e nas suas potencialidades. Sente-se um individuo com algo para dar a sociedade. Vê filmes educativos e opina sobre vários temas que começou a explorar recentemente. Usa termos e expressões pouco usuais para a sua idade, tem tempo para ler, passear a nossa cadela Concha, para brincar e criar, sonhar e ter apenas os 11 anos que tem.

O desgosto da minha filha com a escola em França, também foi uma lição que eu não poderia  nem deveria evitar. Tornou-a mais forte, mais empática e mais preparada.

Foi e tem sido um ano e meio de muita aprendizagem a vários níveis. No próximo ano penso em voltar a inscrevê-la na escola, até porque a matéria a partir do 7º ano tem que ser dada de outra forma.

Acredito no ensino, na educação e sei pelo meu trabalho as consequências da falta da mesma. Sei que há vontade de melhorar, mas tem de haver abertura de espírito e maior liberdade para incluir no curriculum outras aptidões tão ao mais importantes, para quem está a estudar em casa.

O resultado a nível de avaliações só podemos conhecer no fim do ano letivo. Para já, para mim o seu esforço, a sua atitude perante aprendizagem e o conhecimento são o que mais valorizo. Os números são importantes, mas valem o que valem. E não fazem dela nem uma melhor pessoa, aluna, cidadã e futura trabalhadora.

Agora estou neste momento a educar uma cidadã do mundo. Utópico? Sim, deixem, já há tão pouco de utopia por estes dias que eu vou aproveitar!

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