O pincel da coragem, o pincel da calma e o pincel da motivação

Eu sei que estão chateados comigo mas não percebo porquê

Estamos a começar a fase das provas de aferição do segundo ano dentro das expressões, tanto as físicas-motoras como as artísticas. As escolas estão a organizar-se para que as mesmas ocorram, sente-se alguma ansiedade no ar e é notório para quem costuma ir às escolas.

Eu sabia disto e estava preocupada.

Vera (nome fictício) era uma menina do segundo ano com grandes problemas de imagem corporal, auto estima, expectativas e com algumas dificuldades ao nível da realização motora, tanto fina, como global.

As provas não iriam ser fáceis para ela, isso eu conseguia prever.

A relação com o colégio não era óptima.

A Vera vinha de um jardim de infância pequeno. Passou para um colégio grande onde estava constantemente na sombra das irmãs, que também lá andavam. A relação que tem com a professora é sobretudo de medo, o que é aliás o seu padrão para com os adultos. Medo de que não esteja a fazer bem, medo de que vá desiludir, medo de fazer perguntas porque já devia saber as respostas.

Esta semana cheguei pela hora do habitual, dentro do período de almoço. Percorri os diversos espaços de recreio a procurar a Vera e nada. Acabei por me cruzar com o diretor que me informou que estava na sala, juntamente com outros colegas que não tinham acabado o trabalho da manhã. É uma prática habitual no colégio da Vera, o que a prejudica bastante, visto que necessita realmente daquele espaço de tempo para brincar e recarregar energias. Fui para a sala e bati à porta para pedir que a Vera me acompanhasse para a terapia.

As palavras são potentes armas

–  Ainda bem que veio! – disse a professora, bem alto, à frente dos 9 alunos que lá estavam, incluindo a Vera – A Vera está impossível! A semana passada foi a prova de expressão físico-motora e ontem a de expressão artística. A Vera não fez nada! Sabe o que é nada? Nada! E hoje está ali, olhe, ainda nem pegou no lápis, só olha para o caderno e para o teto. Nada! E olhe que eu sei que é fácil! É fácil e ela de certeza que sabe!

A Vera estava encolhida a tentar esconder as lágrimas.

– Se isto continua assim – continuou a professora – nem sei como é que vão ser as de português e de matemática!

Chamei a Vera e fomos para a sala. Pela má relação corporal que vive, a Vera tem realmente dificuldades em admitir que não consegue fazer e lida muito mal com a frustração. Detesta tentar coisas novas e diferentes. Mas por outro lado, é brilhante a matemática e escreve muito bem, numa letra muito bonita. No português também é boa, mas, pelas suas dificuldades em expressão, por vezes tem dificuldade em perceber o que não seja literal.

Comunicar eficazmente. O pincel da coragem, o pincel da calma e o pincel da motivação

– Vera, o que se passou ontem? – perguntei com calma – Não estou chateada, só quero que tu me contes o que se passou, porque não consegui perceber e quero entender se estás bem…

– Eu não fiz nada e portei-me muito mal – respondeu ela, olhando para as mãos que estavam sob o colo.

– Não fizeste nada, ou a professora disse-te que não fizeste nada? Percebeste o que era para fazer?

– Eu achava que sim… e fiz o que a professora me tinha mandado… o meu trabalho estava um pouco diferente dos outros, mas cada menino fez à sua maneira, não achava que estivesse mal… Mas depois a professora olhou, fez uma cara muito chateada e disse que eu não tinha feito nada… Eu sei que estão chateados comigo, mas não consigo entender o porquê…

– E não perguntaste, Vera?

– Não Ana, nem hoje… estamos a ler um poema muito difícil. Eu entendo as palavras que estão escritas, mas tudo junto não faz sentido… E nem vou perguntar à professora. Ela diz que é fácil e que eu tenho que saber, mas eu não consigo… E depois ela diz que as provas de aferição vão correr muito mal… Nem quero pensar…

– E como é que isso te faz sentir? – perguntei eu, tentando ser o porto de abrigo que precisava naquele momento.

– Mal Ana, muito mal… e já sei o que vais perguntar, onde é que me sinto mal, não é? Nas mãos, Ana, sinto-me muito mal nas mãos… Eu olho para elas mas elas não se conseguem mexer…

– Vera, acho que sei do que precisamos! Vamos buscar o pincel da coragem, o pincel da calma e o pincel da motivação! Aposto que se passarmos esses pincéis nas nossas mãos elas vão ficar cheias de força!

E ficaram.

Mensagens claras, crianças esclarecidas, crianças mais calmas

Os seus ombros voltaram para baixo, consegui ver o seu pescoço, as costas endireitaram-se e os pés pararam de bater repetidamente no chão. A minha Vera estava de volta. O mundo terá sempre desafios destes para a Vera e para as nossas outras crianças. É sempre importante dar-lhes estes pincéis da calma, coragem e motivação. Mas acima de tudo, temos de ser claros nas mensagens que passamos para as nossas crianças. Se lhes dissermos apenas que fizeram mal, sem indicar o que esperávamos delas, sem ouvirmos o seu feedback e sem elogiarmos o que fazem bem, não estamos a mostrar-lhes o caminho. Estamos apenas a ser ervas daninhas.

Aproximam-se semanas intensas, o ano letivo está no fim e o cansaço começa a aparecer em todos os elementos da escola. Mas que essa não seja a desculpa para sermos pedras no caminho, quando devíamos estar a regar as nossas flores.

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O que se passa com o meu filho?

Aceitar que se passa algo e pedir ajuda é um passo extremamente difícil de dar.

Os pais ficam muito assustados quando os seus filhos apresentam um problema. Quando andam sempre tristes, quando são rebeldes ou têm comportamentos inadequados. Alguns pais demoram a pedir ajuda pois sentem vergonha pelos comportamentos inadequados dos seus filhos. Sentem-se responsáveis ou têm receio de ser vistos como “maus cuidadores”.

Aceitar que se passa algo e pedir ajuda é um passo extremamente difícil de dar. O que se passa com o meu filho? É a questão a fazer. No entanto, só demonstra o amor pela criança e como o bem-estar dela é significativo para os pais. Este é o primeiro passo e o mais importante.

A procura do psicólogo pode dever-se à criança estar recorrentemente zangada, triste, assustada com alguma coisa.

Ou então,  porque algo negativo aconteceu com ela e precisa de ajuda para ultrapassar essa situação. Quando as crianças ficam doentes ou magoam alguma parte do corpo (exterior) vamos ao médico para que este ajude a criança a sentir-se melhor. Quando a criança vai a um psicólogo, a função dele é ajudar a securizar as “feridas internas”, os seus sentimentos. Os pais devem explicar aos seus filhos o motivo real pelo qual eles decidiram leva-los a um psicólogo, comunicando-lhe as suas preocupações.

A recuperação das más experiências é facilitada em terapia pela relação que se estabelece entre o terapeuta e a criança, num ambiente que se torna seguro, confidencial e de confiança. Este espaço terapêutico é bastante diferente da escola ou da sua casa; naquele espaço a criança sente que pode expressar o que nos outros não se sente confortável. Ali é um local seguro onde ela pode mostrar os seus problemas e os seus sentimentos, sem se sentir julgada ou com receios de magoar os sentimentos de alguém.

A relação terapêutica ajuda a criança a integrar as experiências de vida a dar-lhe sentido e até a expressar os sentimentos mais difíceis através do brincar. O terapeuta vai ajudar a criança a sentir-se melhor sem, necessariamente, ela ter de explicar as coisas. Na prática as crianças demonstram muito mais os seus sentimentos nas brincadeiras do que a falar sobre eles. O brincar é o meio primário de comunicação, o discurso torna-se secundário. As terapias com mais sucesso (bons resultados) são aquelas onde a criança brinca. Nem sempre é fácil para as crianças colocarem em palavras os seus sentimentos.

Brincar é vital para o desenvolvimento social, cognitivo e psicológico.

Brincar é a forma mais simples que a criança tem de se expressar, é algo que vem “de dentro” da criança. Crianças que não brincam não se desenvolvem saudavelmente, fisicamente e psicologicamente. O brincar é a forma pela qual a criança contacta com o seu ambiente e dá sentido ao seu mundo.

O psicoterapeuta está treinado para usar o brincar (forma natural da criança se expressar) para dar sentido aos sentimentos, pensamentos e comportamentos da criança e ajuda-la a compreende-los. Ele é especialista em compreender e dar significado ao brincar da criança.

É crucial as crianças sentirem e saberem que os pais apoiam a terapia e o processo terapêutico. Estes devem ser consistentes e encorajarem as crianças indo as sessões regularmente, sem fazer perguntas sobre o que se passou nas sessões.

Através do suporte emocional a criança vai conseguir compreender sentimentos confusos e aprender a lidar, de forma mais apropriada, com situações de conflito nos vários contextos. A terapia vai promover a resiliência da criança e a esperança de descobrir novos pontos de vista. Vai ajudá-la a diminuir a ansiedade e a melhorar a sua auto-estima.

A psicoterapia permite à criança a oportunidade de explorar e de se conhecer, de dar sentido ao seu mundo. Vai ajuda-la a encontrar meios saudáveis de mostrar o que sente. A desenvolver relações mais saudáveis e a preparar-se para encarar as dificuldades futuras de forma mais assertiva e tranquila.

 

Por Joana Duarte, psicóloga clínica na Psicomindcare, baseado em: British Association of Play Therapists, para Up To Kids®

A Musicoterapia aplicada a crianças e jovens com necessidades educativas especiais.

O Som da Essência

A musicoterapia é a utilização da música e/ou dos seus elementos (som, ritmo, melodia e harmonia), exercida por um técnico habilitado, em ambientes hospitalares, educativos, clínicos ou institucionais, com um ou mais pacientes, num processo relacional que facilita e promove a comunicação, a relação, a aprendizagem, a mobilização, a expressão, a organização do pensamento e outros objetivos terapêuticos relevantes no sentido de ir ao encontro das necessidades físicas, cognitivas, emocionais e sociais dos pacientes (Federação Mundial de Musicoterapia, 1996, 2011).

Em Musicoterapia, o poder da música é utilizado para atingir objetivos terapêuticos mantendo, melhorando e restaurando o funcionamento físico, cognitivo, emocional e social do indivíduo. É a partir desta relação que a Musicoterapia estabelece a sua base de trabalho. Trata-se de uma abordagem que utiliza toda e qualquer manifestação sonora para produzir efeitos terapêuticos. Através do uso da música, de sons e de movimento, estabelece-se uma relação de ajuda, onde a Musicoterapia tem como objetivo auxiliar o paciente a vários níveis, como a prevenção, a reabilitação, o desenvolvimento, bem como na melhoria da sua interação com a sociedade. A música e o som são o canal de comunicação.

A musica com fins terapêuticos

A música vem sendo utilizada com fins terapêuticos desde os primórdios da humanidade, mas estabeleceu-se como ciência somente após a Segunda Guerra Mundial. Atualmente, o investimento da ciência tem sido galopante no que diz respeito à investigação sobre a relação e o impacto direto da música a vários níveis, mas, essencialmente, a nível neurológico. A Associação Portuguesa de Musicoterapia, existente desde 1996, é a entidade de referência, reconhecida pela Federação Europeia de Musicoterapia, que regula e orienta o processo da acreditação dos musicoterapeutas em Portugal.

A Musicoterapia tem inúmeras aplicações, a várias populações e tipologias, entre elas síndromes genéticas como Down, Turner e Rett, distúrbios neurológicos, distúrbios emocionais, deficiências sensoriais, visuais e auditivas, autismo, dificuldades de aprendizagem, entre outras.

Este tipo de abordagem possibilita um enquadramento não-verbal através do qual as pequenas diferenças de comportamento se tornam evidentes nos processos intra ou inter pessoais em crianças com perturbações da relação e da comunicação. Essas diferenças podem ser encontradas no comportamento musical. O musicoterapeuta pode a este nível contribuir para a avaliação e diagnóstico global dos pacientes em musicoterapia ao nível da avaliação específica das capacidades sensoriomotoras, cognitivas (atenção, memória, jogos de antecipação e sequência lógica) perceção visual e auditiva e comunicação interpessoal.

Objetivos e plano terapeutico

Em Musicoterapia, existe um plano terapêutico, elaborado pelo musicoterapeuta, em consonância, ou não, com os técnicos da equipa multidisciplinar. Os objetivos gerais variam de acordo com as características do grupo ou indivíduo, das suas necessidades e peculiaridades. Contudo, alguns objetivos da musicoterapia com crianças ou jovens com necessidades educativas especiais são: Estimular a comunicação (verbal e não verbal); Estimular a expressão corporal, vocal e sonora; Melhorar a autoestima; Explorar as potencialidades e a conscientização dos próprios limites; Estimular a coordenação motora grossa e fina através de atividades musicais, utilizando instrumentos musicais de percussão simples; Desenvolver a orientação espacial e corporal através de vivências musicais; Desenvolver a capacidade de atenção e concentração; Estimular a imaginação e criatividade; Promover um melhor relacionamento intra e interpessoal.

A importancia e influencia da música nos seres humanos

A importância e influência da música e dos seus elementos sonoros no desenvolvimento do ser humano, tem-se tornado cada vez mais evidente. A investigação sobre esta temática vem comprovando a sua importância na relação simbiótica entre o indivíduo, desde a sua forma mais precoce, e o meio envolvente.

Independentemente das necessidades provenientes de cada patologia, a Musicoterapia valoriza a expressão de cada indivíduo, respeitando as suas particularidades e auxiliando-o nas suas dificuldades, como um ser global.

Por Rita Maia, Mestre em Musicoterapia, Doutoranda em Ciências da Educação, Especialização em Necessidades Educativas Especiais, Licenciatura em Educação de Infância | maia_rita20@hotmail.com

Hoje escrevo sobre ti

Hoje quis mesmo escrever sobre ti, sobre o orgulho que tenho pela caminhada que fizeste, pela enorme admiração que mesmo nos momentos mais difíceis sempre tive por ti, pela forma como me encanta ouvir-te falar e acima de tudo pela pessoa que és!!!

Faz dois anos que entrou no meu consultório, uma jovem de 16 anos, que utilizava a franja para que eu não pudesse focar os seus olhos desconfiados, mas com muita necessidade de falar. Apesar da queixa base apresentada pela mãe, muito preocupada com os sintomas de isolamento, agressividade, baixa autoestima e ainda alguns episódios de automutilação, para ela a sua principal preocupação centrava-se na sua ansiedade, que considerava ser um dos principais fatores que interferia na sua qualidade de vida, nos seus relacionamentos interpessoais e no cumprimento das suas tarefas, nomeadamente as escolares.

Na verdade a sua vida estava totalmente virada do avesso e ela estava a ser “engolida” pela sua ansiedade, pelo medo que a vida lhe tinha literalmente cristalizado em todas as células do seu corpo….

Precisava de aprender a confiar, a relaxar, a amar e a deixar-se ser amada, para poder pouco a pouco ir-se libertando das amarras do medo e mudando as lentes com que via a vida. Vivia em permanente estado de sobressalto, de tensão e evidenciava todos, ou quase todos, os sintomas físicos decorrentes da ansiedade.

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Quando se trabalha com crianças, trabalhamos a brincar…. Utilizamos a brincadeira como meio de expressão afectiva. Brincamos de pintar, brincamos de faz de conta, brincamos de casinha, usamos jogos, bolas, raquetes, bonecos e o corpo. Tudo serve para estabelecermos relação com aquela criança, para observarmos, “avaliarmos” e pouco a pouco, semana a semana irmos entrando nesse mundo infinitamente maravilhoso que os caracteriza. Os seus sentimentos, as suas crenças e falsas crenças, a forma como compreendem e interiorizam as situações, as suas opiniões, as suas dores e as suas alegrias. No fundo brincamos de coisas sérias e é nesse brincar que eles se projectam e podemos aceder ao mundo inconsciente que navega dentro de cada um deles. Por vezes o mar está bravo, cheio correntes desorganizadas que fluem para a esquerda e para a direita sem encontrarem o caminho por onde correr, mas na superfície só conseguimos ver a espuma a borbulhar, como o sintoma desse turbilhão interno, mas sem conseguimos ver e identificar as correntes que o estão a provocar. É geralmente nesse momento que os pais procuram ajuda.

Na terapia, tudo se passa de forma natural e espontânea. É um espaço no qual criança e terapeuta devem estar presentes, entregues, mas também livres para aprenderem a identificar e nomear as suas emoções, tudo aquilo que o corpo sente, mas que por vezes ainda não tem nome. Crescemos juntos! Ao contrário do que se possa imaginar, aprendo imenso sobre mim própria com cada criança com a qual tenho o privilégio de estar. Aprendo sobre a Ana adulta, sobre a Ana criança, sobre os meus filhos, sobre o mundo, sobre a honestidade, simplicidade e espontaneidade do ser-humano… É um estar em dupla presença que me permite ver, ouvir e sentir os dois lados. Enquanto estou a escrever, relembro com muito carinho, uma menina de 6 anos, que um dia, enquanto me contava um episódio de conflito com uma colega da escola, relativamente ao qual eu ia tentando compreender o lado dela, mas também o lado da colega, me disse: “Olha Ana, eu aprendi a expressar os meus sentimentos, não tenho culpa que ela não o saiba fazer. Acho que então é melhor ela vir para aqui por que assim eu também já não consigo aguentar!” Rimo-nos as duas às gargalhadas com o comentário que ela de forma totalmente espontânea e honesta acabava de fazer.

É nesse brincar de forma presente, intuitiva e livre que em cada palavra, gesto, postura e brincadeira podemos ir ao encontro “dessas correntes”, do conflito que está a provocar os sintomas pelos quais procuraram terapia. Muitas vezes as próprias crianças não têm consciência do que se está a passar dentro de si próprias e o terapeuta tem que servir como “tradutor” dos seus sentimentos. É uma enorme responsabilidade explicar a uma criança que o que está por detrás da sua agressividade é a sua insegurança ou que o que está por detrás da sua hiperactividade é a tristeza e a necessidade de fuga dos seus sentimentos, mas é muito importante dar palavras aquilo que antes não tinha nome nem lugar. É apaziguador e fonte de crescimento.

É fundamental criar um espaço de acolhimento e confiança para que as crianças se possam expressar com toda a honestidade que lhes caracteriza mas que nós adultos nem sempre permitimos. Muitas vezes, para pouparmos os nosso filhos do sofrimento, como se isso fosse possível, acabamos por lhes negar informação e possibilidade de expressão que os deixa confusos e sem entendimento. Na confusão, tudo o que a nossa mente elabora é mais trágico, difícil e doloroso do que o que a realidade nos trás.

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Mito ou facto?

A terapia da fala e o desenvolvimento da linguagem

A terapia da fala é uma profissão pouco conhecida pela população em geral, originando mitos e ideias sobre as suas áreas e formas de actuação. Assim, com o propósito de desmistificar alguns desses mitos, neste caso sobre o desenvolvimento da linguagem, surge este artigo com 10 exemplos.

Mito 1: A terapia da fala é para as crianças que não falam bem.”
Podemos dizer que a terapia da fala não se limita à fala propriamente dita, como a designação da profissão indica. O terapeuta da fala pode apoiar crianças, adultos e idosos, nas mais variadas áreas de intervenção.
De um modo geral temos a: linguagem, comunicação verbal e não-verbal, consciência fonológica, leitura e escrita, deglutição, motricidade, sensibilidade oro-facial, voz e fala.

Mito 2: “Não precisa de terapia, isso com a idade passa e fala bem.”

Em alguns casos, isso acontece e a criança ultrapassa a dificuldade com a continuidade do seu desenvolvimento. Contudo, não é algo observável em todos os casos e esperar que tal aconteça, poderá agravar o problema e aumentar o atraso no desenvolvimento da linguagem.

Mito 3: “Os bebés prematuros começam a falar mais tarde.”
Os bebés prematuros que nascem saudáveis, geralmente, apresentam um ritmo de aprendizagem e desenvolvimento igual ao dos bebés que nasceram com o tempo de gestação completo (40 semanas). Apenas em casos de bebés prematuros, que ficaram com sequelas neurológicas ou físicas, poderão vir a ter dificuldades no desenvolvimento da linguagem. Nesses casos, o acompanhamento em terapia da fala é aconselhado.

Mito 4: “O nascer dos dentes atrapalha a fala.”
O nascimento dos dentes requer uma adaptação da língua, porém, esse processo é imperceptível à criança. Podem sentir dor e ficar irritadas com o aparecimento dos primeiros dentes, mas isso não significa que afecte o desenvolvimento da linguagem.

Mito 5: “A criança que não fala com 2 anos, tem problemas auditivos.”
Para ter a certeza, é aconselhável realizar um exame auditivo com um audiologista, pois a causa do atraso na linguagem poderá estar relacionado com a audição ou não. Poderá fazer uma avaliação com um terapeuta da fala, para melhor compreender o que poderá originar esse problema na criança.

Mito 6: “Antes dos 3 anos, não vale a pena fazer terapia.”

A intervenção do terapeuta da fala não se restringe a idades. O desenvolvimento da linguagem tem início na gravidez, porque o cérebro humano está “pré- programado” para a linguagem, O percurso dos bebés começa por uma fase pré-linguística em que as palavras ainda não são utilizadas. Assim, ao observar e interagir com a criança, o terapeuta da fala pode verificar se o desenvolvimento da linguagem decorre normalmente ou não, evitando alterações maiores e mais complicadas no futuro.

Mito 7: “Agora não fala, mas quando começar a falar diz logo frases”
Conforme antes de começar a correr aprendemos a andar, também não começamos a produzir frases antes de conseguirmos dizer palavras isoladas. Por vezes, quando a inteligibilidade da fala da criança está comprometida, os cuidadores, família ou profissionais que cuidam da criança, poderão não entender que esta usa palavras com significado. Assim, os cuidadores acham que a criança passou directamente para a construção frásica porque, nessa fase, através do contexto, compreendem o que ela quer transmitir.

Mito 8: “Ele é preguiçoso, quando quer diz o som sozinho mas não o diz nas palavras.”
É normal que a criança consiga repetir determinado som quando lho pedimos, mas não o pronuncie correctamente em palavras. Não é uma questão de “preguiça”, mas sim um hábito que a criança adquiriu e que agora terá de substituir pela forma correcta. Poderá precisar de apoio para aprender a produzir o som correctamente, para depois passar a produzi-lo em palavras seguindo uma linha de dificuldade gradual..

Mito 9: “Quando a gaguez aparece na infância, torna-se crónica.”
A disfluência fisiológica, conhecida como gaguez, é comum até aos 5 anos de idade e tende a desaparecer com o desenvolvimento da criança. Tal acontece por consequência do processo de aprendizagem que a criança está a passar, isto é, o seu pensamento poderá ser mais rápido que a capacidade de produzir as palavras que quer transmitir.

Mito 10: “A terapia da fala é para os gagos e sopinhas de massa.”
A terapia da fala intervêm em casos de gaguez e de sigmatismo (“sopinha de massa”), contudo essa é apenas uma pequena parte daquilo que o terapeuta da fala faz. Os profissionais desta área podem se especializar numa destas alterações de
fala, trabalhando só com casos desse género. No entanto, a maioria não se restringe apenas a uma área.

Por Catarina Olim, licenciada em Terapia da Fala, Directora geral da empresa Arte & Fala,
para Up To Kids®

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