7 Princípios para olharmos para os professores com olhos de ver

De uma forma geral, será mais produtivo olharmos para os docentes, para o seu trabalho e para a sua missão, refletindo sobre estes princípios:

1 – A educação começa na família e depois segue no sistema de ensino

O maior sinal de que uma sociedade está doente, é começar a desrespeitar quem garante o futuro dessa mesma sociedade. E a educação é a base e a rampa de lançamento do futuro de uma nação que se preze. A educação começa na família e depois segue no sistema de ensino…

2 – Desrespeitar é, por exemplo, não desmontar ideias falsas.

Há dias, em Fátima, centenas de docentes (professores e educadores de infância,…) participaram com uma entrega poderosa, numa ação de formação que dinamizei. No fim de uma semana de trabalho, ainda conseguiram motivação e espaço no cérebro para evoluir. É que, porque há muita gente (e gentinha) que se esquece: Ser docente não é pêra doce! Já vão longe (espero eu!) os mitos das “progressões fáceis”. Já dormem as falsidades sobre as “férias gigantes”. Já estão esquecidas as comparações marotas com as “Finlândias”, até porque na Finlândia, o importante é o apoio aos docentes.

3 – O desgaste, o (mau) stress e as injustiças, existem.

Muitas profissões sofrem deste desgaste, no entanto, a carreira docente tem particularidades. Em Fátima, por exemplo, os docentes observavam-me com atenção, mesmo estando cansados. Escutavam-me com desejo, mesmo havendo uma certa desilusão com o rumo do país. Interrogavam-se com fervor, mesmo não havendo comunicação social para fazer eco daquele esforço. O desenvolvimento pessoal, a formação, a busca pela actualização, é feito, muitas vezes, na sombra. A meio da sessão, recebemos um telefonema. Era o Presidente da República! Pois não era. Ninguém telefonou.

4 – Eu fui a Fátima, amanhã estarei em Setúbal e segunda-feira, ainda nem sei.

Esta instabilidade de horários e locais, faz-me empatizar com os melhores professores. Aqueles que também viajam e chegam a lugares novos quase todos os anos, mantendo a maioria das vezes o espírito positivo, porque pensam no melhor para os seus alunos (que não têm culpa). Também eu faço Palestras e (trans) Formações em salas quentes, salas frias, longe de casa, muito longe de casa, muito cedo, muito tarde,…e faço com entrega…porque penso nos melhores. Porque o mundo está numa mudança abrupta e constante.

5 – Um educador deve estar consciente dessas mudanças, e deve estar atento a métodos mais eficazes, mais atuais.

As minhas sessões nem sempre acabam com “beijinhos e abraços”. O meu trabalho não é (apenas) motivar. Procuro agitar e dar caminhos. Procuro tocar nas feridas. As feridas existem. O cérebro humano está em constante mudança, por isso a formação é fundamental. Por vezes, sou mal interpretado. Outras vezes acham que sou “demasiado duro”. Não faz mal. Porque a maioria entende que o meu objetivo é nobre, sempre focado nos alunos e nas melhores práticas…se um docente é dos que (apenas) diz que faz (mas não faz) o natural é ele sofrer nas minhas sessões. Pretendo que eles saiam mais fortes. Mais próximos de fazerem o que sabem que tem que ser feito. E a psicologia pode doer. Tentamos ir pela positiva, mas pode doer. Mas é nessa luta que os melhores se colocam. Acertar, falhar, tentar, acertar, falhar…

6 –  É fundamental darmos estabilidade.

Um docente com estabilidade, fica mais aberto para ouvir. Mais capaz de escutar. Mais próximo de limar as arestas da sua ação pedagógica. Claramente, um dos maiores desafios: a estabilidade do docente. Felizmente, vejo cada vez mais equipas de psicólogos e afins, como uma equipa excelente em Sines, por exemplo. Ou no AE Cego do Maio, na Póvoa de Varzim. Ou os profissionais do “Afirma-te” em Idanha-a-Nova. E os docentes, os pais e os alunos precisam deste esforço de todos.

7 – A esperança é a última a morrer

No fundo, eu sei que um dia as condições podem melhorar. Terão os sindicatos que melhorar também. E a classe política terá que ser mais capaz. Entretanto, alguns professores vão desistir. Outros vão adoecer. Outros vão ter um esgotamento. Outros serão perseguidos por uma turma vítima da ausência dos pais.

Mas a maioria seguirá. Sem precisar de boa imprensa, ou de um telefonema de um famoso. Mesmo com a desilusão de estarmos num país onde o tal pilar, a tal base, é tantas vezes alvo de ingratidão. Seguirá empatizando comigo, quando tento que melhorem. Seguirá buscando o seu equilíbrio, com ou sem apoio da equipa de psicologia. Seguirá buscando a estabilidade interna, no que pode controlar.

A intensidade do amor não é sempre igual.

Como a intensidade da fé também não é sempre constante. Lembrei-me disto em Fátima…

Não são constantes, mais isso não significa algum erro. É mesmo assim. Nem o sol tem sempre a mesma radiância. Agora, tem que existir amor, isso tem. E o sol não foi um sonho.E os melhores docentes lá seguirão, tentando ter uma maior quantidade de momentos onde são capazes de persistir, capazes de melhorar práticas, capazes de enfrentar injustiças, exercitando o amor à escola, aos alunos, mas, principalmente, o amor a si mesmos.

 

Imagem de Pexels por Pixabay 

 

O que desejo neste dia é que todos os pais tenham em si um pouco do pai da Malala.

Malala Yousafzai cresceu num país onde as mulheres são vistas como seres inferiores. Onde é proibido frequentarem a escola. Onde a taxa de iliteracia ronda uns chocantes 70%.

Malala foi criada como o ser humano capaz que é, independentemente do seu género. Foi educada da mesma forma que os irmãos rapazes. E conforme foi crescendo quis ser mais, quis ser maior. Acreditava num mundo diferente daquele onde vivia.

Onde a educação tinha um papel crucial, principalmente pela forma como o seu pai, professor, via a realidade. E o seu pai não a calou. Podia, afinal viviam num país machista e misógino onde as raparigas deveriam ficar em casa e aprender a cozinhar para o pai e os seus irmãos rapazes. Mas o seu pai, professor e ele próprio activista do direito à educação, amou-a incondicionalmente. Inspirou-a a perceber como a educação era essencial. Fê-la acreditar que a sua voz importa. Apoiou-a, apesar do medo que sempre sentiu. Porque apoiar as convicções de Malala era aceitar que ela corria perigo. E ele poderia ter feito o seu trabalho e apoiado as raparigas que queriam deixar a iliteracia para trás e conseguir independência sem deixar a filha ser o seu maior exemplo.

Mas o pai de Malala fez o oposto. Viu-a fazer frente às autoridades paquistanesas e, por isso, ser cobardemente atingida por tiros. Tinha 15 anos.

Malala foi ferida mas não silenciada.

E teve o pai sempre do seu lado.

O seu nome é Ziauddin Yousafzai e decidiu lutar pelos direitos das mulheres porque, ao crescer, nunca viu escrito o nome das suas irmãs em lado algum – como se não fossem dignas de existirem, serem contabilizadas e deixarem a sua marca por serem mulheres. Porque as deixava em casa quando ia para a escola e não percebia por que motivo não havia a partilha de conhecimento com elas.

O meu desejo para este dia e todos os que a ele se seguem é que todos os pais do mundo sejam capazes de lutar pelos direitos dos seus filhos.

Os oiçam e valorizem.

Lhes dêem a mão quando o caminho é difícil.

Os amem incondicionalmente, os aceitem e os ensinem a falar por si.

A procurar a verdade.

A defender a justiça e a igualdade.

Os ensinem a brincar.

A estudar. E não falo apenas dos manuais escolares, falo do mundo.

O mundo que chega às crianças pela nossa mão. Que seja um mundo interessante, com lugar para curiosidade (e curiosidades), histórias de países próximos e distantes e dos seus povos, dos artistas e dos grandes homens e mulheres que determinaram a história. Das invenções, das descobertas. Do desporto, da música e das artes em geral. A natureza e a necessidade de nos equilibrarmos com ela.

Os ensinem a importância de corrigir os seus erros.

A sentir e a permitirem-se expressar emoções.

Os nossos filhos serão sempre uma parte dos seus pais.

Que essa parte seja a melhor.

Feliz Dia do Pai.

Como licenciado em psicologia (ramo educacional) que escolheu criar um projeto independente de “formação” para escolas, entendi logo que as minhas próprias competências de comunicação, de colaboração e a criatividade, eram fundamentais.

Quer para o sucesso do projeto em termos de modelo de negócio, quer em termos de sucesso no objetivo principal: ajudar a desenvolver competências e soft skills ou competências transversais. Para chegar aos docentes com quem trabalho, tenho que ser o exemplo, pelo menos de algumas, dessas competências. Também nós aprendemos pelo exemplo, não são só as crianças. E também pela inspiração que nos pode dar alguém entusiasmado e com resultados.

Mais do que levar informação, procuro agitar e colocar a refletir. E esse deve ser também o caminho do docente do século XXI.

O próprio Perfil do Aluno alerta para esta necessidade. Criar conhecimento numa era em que a informação (que não é o mesmo que conhecimento!) está ao alcance de todos, é imperativo! Porque “saber” é diferente de “ter consciência”.

Há uma preocupação que marca o meu trabalho:

Como vamos desenvolver competências transversais nos alunos, se não as tivermos?

As escolas (à atenção do Ministério da Educação) deviam ter mais capacidade e autonomia de investimento em sessões de formação capazes de ajudar os docentes a ganhar competências, em vez de, muitas vezes, os ajudar a ganhar (apenas) créditos.

O educador que deseja ajudar os alunos a desenvolver competências transversais (soft skills) tem que ser o primeiro a refletir sobre as suas e a querer melhorar, sendo um exemplo de colaboração, capacidade de comunicação e de inovação.

Como formador, procuro também proporcionar experiências que coloquem os participantes a refletir. Dar o exemplo é fundamental.

Da reflexão virá a mudança.

Mais do que passar informação, é necessário dar ferramentas para cada um criar o seu conhecimento. As minhas próprias metas, cruzam-se com o impacto que pretendo ter nos docentes presentes nas sessões. Pretendo:

1. Manter-me entusiasmado;

2. Procurar as minhas próprias experiências de formação;

3. Exercitar a empatia;

4. Provocar a minha reflexão, trabalhar de forma colaborativa e inovar(…);

5. Comunicar;

Se eu fizer, serei mais capaz de o ajudar a fazer. E assim, todos juntos faremos uma escola (ainda) melhor

Fale com o professor do seu filho antes que a escola termine

Nem de mais, nem de menos. Há que saber encontrar a justa medida na gestão dos contactos com os professores durante o ano letivo. Nem sempre é fácil esse equilíbrio. A escola quer pais proativos, que se envolvam na vida académica dos filhos, mas também dispensa reuniões desnecessárias.

Agora que as férias estão à porta e as aulas quase a terminar, impõe-se um balanço sobre a evolução escolar e emocional do seu filho.

Marque uma reunião e não regresse a casa com dúvidas.

Esclareça o que mais o preocupa. Vá direto aos pontos essenciais: identifique as dificuldades; os pontos fortes e fracos, ou seja, as áreas em que o seu filho apresentou maior facilidade e mesmo entusiasmo e as áreas que suscitaram maiores dificuldades, desinteresse ou mesmo desmotivação; os conhecimentos adquiridos e não assimilados; as formas de o ajudar a melhorar e a promover o seu verdadeiro potencial académico não se cingindo apenas às classificações/notas finais,  procurando dar, cada vez, mais primazia ao processo, à qualidade dos desempenhos.

Esteja sobretudo atento ao reflexo que a atmosfera escolar tem no seu filho. Se lhe faz despoletar sentimentos de pertença, de competência (tentando averiguar onde se sente mais e menos capaz), motivação/ empenho ou se lhe faz suscitar em algumas circunstâncias alguma ansiedade, desinteresse e desmotivação.

Muitos pais, devido aos compromissos profissionais cada vez mais exigentes, tendem a delegar a responsabilidade de ensinar apenas à escola. Um erro que costuma pagar-se caro. Pais e professores têm funções complementares, indissociáveis.

Não esqueça: a participação da família nas atividades letivas é fundamental para o desenvolvimento da criança.

A escola, por si só, não é suficiente para garantir um bom rendimento escolar. As tarefas devem, por isso, ser partilhadas de maneira transparente, em nome de um objetivo comum.

Em vez de, por exemplo, responsabilizar os professores por um eventual fracasso do seu filho em alguma disciplina, procure saber de que forma poderão trabalhar em conjunto para superar as dificuldades de aprendizagem e, eventualmente, reformular o processo de ensino-aprendizagem de maneira mais eficaz e mais adequada ao perfil educativo do seu filho.

Regra geral, os estudos indicam que os filhos de pais participativos têm melhores resultados do que os filhos de pais ausentes. Tente saber como pode intervir de forma positiva no trabalho do seu filho em ambiente escolar e que medidas complementares devem ser adotadas em casa. Procure saber, por exemplo, que competências deverão ser estimuladas, antes do arranque do novo ano letivo.

Uma relação positiva com os professores contribuirá para elevar os níveis de confiança, autoestima e, consequentemente, o aproveitamento escolar do seu filho.

Valorize sempre as reuniões presenciais.

Nada como uma conversa olhos-nos-olhos com quem acompanha diariamente o seu filho. Regularmente, recorra, também, à caderneta do aluno ou até ao correio eletrónico e outros recursos tecnológicos, para manter o diálogo aberto com a escola.  Não se silencie perante as preocupações.

É fundamental que o processo educativo, que eventualmente, possa parecer tão simples para alguns, mas que acarreta uma elevada complexidade, deva ser integrador da conciliação de diferentes perspetivas, não só as dos pais, nem exclusivamente as dos professores, mas sim de todos os intervenientes no processo de ensino-aprendizagem (como por exemplo, educadores naturais e profissionais, alunos, assistentes operacionais, técnicos de diferentes índoles).

Deste modo, é permitido usufruir da diversidade de pensamentos/ideias para a resolução de eventuais problemas e/ou situações dilemáticas, estabelecendo contextos de parceria não só intra-escola mas para com a sociedade envolvente, dando primazia à supressão de necessidades escolares identificadas na promoção do sucesso escolar.

Esta dinâmica relacional, ativa, de proximidade, permite ainda a todos os educadores formais e informais a difusão de responsabilidade partilhada, promovendo o sentimento de pertença e aceitação da individualidade na diferença reforçando diariamente a manutenção de atmosferas positivas que trespassem a realidade exclusivamente escolar e objetivem não só o bem-estar físico como psicológico de cada aluno.

Não há nada mais importante do que o tempo que dedicamos à educação dos nossos filhos.

 

Eu sei. Estás preocupada.

Todos os dias o teu filho chega a casa com uma história sobre AQUELA criança.

Aquela que está sempre a bater, a empurrar, a beliscar, a arranhar e até a morder às outras crianças.
Aquela que tem de ir sempre de mão dada comigo na fila para a sala.
Aquela que tem um lugar especial no tapete, e às vezes senta-se numa cadeira em vez de se sentar no chão.
Aquela que teve que sair da sala de brinquedos, porque os brinquedos não foram feitos para ser atirados.
Aquela que trepou a cerca do parque exatamente enquanto eu dizia para não o fazer.
Aquela que entornou o leite do colega no chão num acesso de raiva.

De propósito. Enquanto eu estava ali, a olhar para ela. E depois, quando eu pedi que limpasse, acabou com o rolo de papel inteiro! De propósito. Enquanto eu observava. Aquela que diz PALAVRÕES à séria na aula de educação física.

Estás preocupada porque acreditas que esta criança poderá prejudicar a experiência de aprendizagem do teu filho.

Tens medo que esta criança ocupe grande parte do meu tempo e da minha energia, e que o teu filho não receba a atenção necessária e merecida.
Tens medo que esta criança  magoe alguém a sério um dia. E tens medo que esse “alguém” seja o teu filho.
Tens medo que o  teu filho também comece a ser agressivo.
Tens medo que o teu  filho possa ficar para trás porque eu talvez não consiga aperceber-me de que ele está com dificuldades a fazer a pega do lápis. Eu sei.

O teu filho, este ano, com esta idade, não é AQUELA criança.

O teu filho não é perfeito mas geralmente segue as regras. Ele é capaz de partilhar brinquedos pacificamente. Ele não atira os brinquedos. Ele põe o dedo no ar para falar. Ele trabalha quando é para trabalhar, e brinca quando é para brincar. Sempre que vai à casa de banho volta direto para a sala de aula sem se distrair. Ele nem conhece os palavrões. Eu sei.

Eu sei, e também estou preocupada.

Eu estou sempre preocupada. Com TODOS os meus alunos.

Preocupo-me com a pega do lápis do teu filho, com os sons das letras de outra criança, com a timidez do mais pequeno da sala e com a lancheira vazia de outros. Eu preocupo-me que o Lucas não venha suficientemente agasalhado e que o pai de Talita grite com ela por escrever a letra B ao contrário. Penso neles enquanto vou a conduzir para casa e quando estou a tomar banho de manhã, porque os meus pensamentos estão sempre com eles.

Mas eu sei, que queres falar sobre AQUELA criança.

Porque os Bs ao contrário de Talita não vão deixar o teu filho com um olho roxo. Eu também quero falar sobre aquela criança, mas há tantas coisas que eu não te posso dizer.

Eu não te posso dizer que ele foi adotado aos 18 meses.

Eu não te posso contar que está a fazer uma dieta de eliminação de possíveis alergias alimentares, e que por isso está SEMPRE com fome.

Eu não te  posso dizer que os pais daquela criança estão, neste momento, a meio de um divórcio horrível, e ela tem ficado com a avó.

Eu não te posso dizer que desconfio que a avó beba demais… Eu não te posso dizer que a medicação que toma para a asma faz com que fique muito agitado.

Eu não te posso dizer que a mãe daquela criança é uma mãe solteira, e deixa-a na escola todo o dia, desde que abre até fechar e que, de seguida, a viagem até a casa leva 40 minutos.

Eu não te posso dizer que aquela criança foi vítima de violência doméstica.

E tu entendes que eu não possa partilhar informações pessoais ou da família. Só queres saber quais as medidas que estou a aplicar em relação ao comportamento daquela criança.

Eu adorava contar-te. Mas também não posso.

Eu não te posso dizer que aquela criança recebe serviços fonoaudiólogos, porque numa avaliação apresentou um grave atraso na linguagem, e que o terapeuta sente que a agressão está relacionada à frustração por ser incapaz de comunicar.
Eu não te posso dizer que tenho reuniões com os pais daquela criança TODA as semanas, e que costumam chorar nessas reuniões.

Eu não te posso dizer que aquela criança e eu temos um sinal secreto para me dizer quando precisa de se estar sozinha por um tempo.

Eu não te posso dizer que aquela criança passa o intervalo enrolado no meu colo porque “me faz sentir melhor ao ouvir seu coração, professora“.

Eu não te posso dizer que tenho rastreado os seus incidentes agressivos meticulosamente, e que diminuíram de 5 incidentes por dia, para cinco incidentes por semana.

Eu não te posso dizer que a chefe da secretaria da escola concordou em deixar-me mandar aquela criança para o escritório para “ajudar” sempre que eu achar que precisa de “mudar de ares”.

Eu não posso te dizer que na última vez que tive de sair da sala, IMPLOREI de lágrimas nos olhos aos meus colegas que ficaram a tomar conta  para serem gentis com aquela criança, mesmo estando frustrados porque acabou de dar um soco a alguém OUTRA VEZ, e mesmo à frente do PROFESSOR.

A questão é, há TANTAS COISAS que eu não te posso dizer sobre AQUELA criança. Eu nem sequer te posso dizer as coisas boas.

Eu não te posso dizer que o seu trabalho na sala de aula é regar as plantas. Que ele chorou desconsoladamente quando uma das plantas morreu durante as férias de natal.

Eu não te posso dizer que ele dá um beijinho de adeus na sua irmã bebé todas as manhãs, e diz-lhe “és o meu sol” antes da mãe ir embora.

Eu não te posso dizer que ele sabe mais sobre as tempestades do que a maioria dos meteorologistas.

Eu não te posso dizer que muitas vezes ele me pede ajuda para afiar os lápis durante o intervalo.

Eu não te posso dizer que ele gosta de fazer cafuné no cabelo dos amigos no intervalo.

Eu não te posso que, quando um amigo está a chorar, ele é o primeiro a vir do canto de histórias com o seu ó-ó para o confortar.

A questão, querida mãe, é que eu só posso falar contigo sobre o TEU filho.

Então, o que eu posso dizer-te é o seguinte:

Se em algum momento, o TEU filho, ou qualquer um dos Teus filhos, se tornar NAQUELA criança…

Eu não vou partilhar os teus assuntos familiares com outros pais na sala de aula.
Eu vou comunicar contigo com frequência, de forma clara e gentil.
Eu vou certificar-me de que terei sempre lenços de papel por perto nas nossas reuniões e, se deixares, eu vou agarrar-te na mão enquanto choras.

Eu vou defender sempre o teu filho e a vossa família, para que recebam os serviços especializados de melhor qualidade, e eu vou cooperar com esses profissionais da melhor forma que for possível.

Eu vou certificar-me que o teu filho recebe sempre amor e carinho quando mais precisar.

Eu vou ser uma voz para a tua criança na nossa comunidade escolar.

Eu vou, independentemente do que aconteça, continuar a procurar e encontrar as coisas boas, surpreendentes, especiais e maravilhosas sobre o teu filho.
E eu vou-te lembrar dessas coisas boas, incríveis, maravilhosas e especiais, várias e várias vezes. Sempre que precisares.

E quando outras mães vierem ter comigo preocupadas com o TEU filho…

Eu vou dizer-lhes exactamente o que te disse.
Palavra por palavra.

Com amor,
A professora do teu filho

 

Publicado no Blog  Miss Night’s Marbles,
traduzido e adaptado por Up To Kids®

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Cuidar de Quem Cuida dos Nossos Filhos

Dizemos frequentemente que as crianças mudaram, mas ainda que isso possa ser em parte verdade, na realidade fomos nós, adultos, que passámos a ver a infância com outros olhos. Fomos nós que, revendo-nos em criança e perspectivando o nosso futuro, passámos a desejar mais e melhor.

Desta transformação nasceu uma sede de conhecimento, uma necessidade de tornar consciente o que se fazia por instinto, a ambição de desvendar os “segredos” dos nossos filhos, e de dominar as estratégias para o “perfeito” desenvolvimento da criança.

No percurso, por vezes, esquecemos a melhor e maior aprendizagem das nossas próprias histórias de vida, que é o que todas as pessoas que cruzaram o nosso caminho nos deixaram.

O que é que nos marca mais na infância?

Ainda hoje me recordo daquela professora de substituição, que vi poucas vezes, mas cujos cabelos longos de cor cinza nunca vou esquecer, “só” porque me disse, num tom doce, o contrário do que sempre ouvira até ali. “Tens uma letra tão bonita”. Essas palavras nunca mais me deixaram, nem a doçura e a sabedoria com que foram ditas.

O que mais marca as nossas crianças não são os conhecimentos e o domínio de todas as suas etapas de desenvolvimento. O melhor que lhes podemos dar, são experiências emocionais gratificantes, saudáveis e equilibradas. E isso só se consegue através de relações de afecto.

No momento de pensarmos em quem está a cuidar das nossas crianças, é certo que se devem valorizar requisitos gerais, como gostar de crianças, ser paciente, ser responsável, ser criativo e ter os conhecimentos necessários para exercer a profissão. Mas o que é que faz que cada um de nós esteja disponível para dar respeito, carinho e atenção a outra pessoa? O que nos faz ter a capacidade de ouvir? Se, por um lado, existem as características inerentes à nossa personalidade, a verdade é que podemos ser dotados das melhores “qualidades”, mas não estarmos capazes de fazer uso delas.

Quem Cuida dos Nossos Filhos

Quem trabalha com crianças, trabalha com a relação, e a nossa capacidade de nos relacionarmos é afectada pelo nosso bem estar geral e a nossa saúde mental em particular.
Para que uma pessoa se possa dedicar e realizar um bom trabalho com crianças, é importante que tenha condições físicas e ambientais para isso. É importante que o número de crianças pelas quais é responsável, seja adequado. É preciso trabalhar em sintonia com as famílias (demasiadas vezes pais e professores agem como se tivessem interesses opostos). É preciso reconhecer e ver reconhecida a importância do seu trabalho.

Assim como em muitas outras profissões, quem trabalha com crianças tem que gerir na sua dimensão profissional as relações (tanto com colegas e chefias, como com as crianças e suas famílias), o desgaste inerente à própria actividade, factores de realização e/ou falta de reconhecimento e valorização do trabalho, factores da vida pessoal (saúde, finanças, conflitos familiares, etc.). No entanto, acresce a isto, um trabalho que envolve gestão de afectos, disponibilidade emocional e um agir (inevitavelmente influenciado pelo estado em que se encontra o cuidador) que resultam num maior ou menor bem estar das crianças.

Os professores, educadores e auxiliares.

É por isso que acredito que professores, educadores e auxiliares que amam, cuidam e respeitam as crianças, só o conseguem fazer se os respeitarmos, valorizarmos e cuidarmos. Professores, educadores e auxiliares que humilham, batem e por vezes até aterrorizam crianças, não é uma opção, e só acontece sob um olhar pouco atento (e cuidador) de todos nós.

Hoje, ultrapassámos a visão meramente funcional dos cuidados à criança, e não vivemos tranquilos apenas com o facto de um filho estar entregue a um adulto.
Faz sentido que sejamos mais exigentes na sua protecção (que é também a do nosso futuro). No entanto, querer mais, deve estar aliado a dar mais. Parece-me incoerente a crescente valorização da infância, com  uma simultânea desvalorização da função dos “cuidadores de infâncias” (amas, auxiliares, educadores de infância, professores, e tantos outros).

É importante continuarmos a preocupar-nos com o desenvolvimento físico e cognitivo da criança, sim. Mas, fundamental, é não esquecer a importância de um desenvolvimento emocional saudável.

É por isso que cuidar das nossas crianças é, também, estar atento e cuidar de quem cuida dos nossos filhos.

 

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COMO AJUDAR CRIANÇAS COM PHDA

Este é o resumo de algumas estratégias que o podem ajudar a lidar com o seu filho/aluno com sintomas de hiperactividade/hipoactividade, impulsividade e défice de atenção. Leia e aplique se lhe fizer sentido mas acima de tudo isto, não se esqueça que a distractibilidade tem uma origem emocional e que a criança precisa da sua ajuda e compreensão para integrar os seus “demónios” internos e poder aprender a adequar o seu comportamento.

O nosso comportamento é sempre o reflexo do nosso estado de alma.
As estrelas são o limite!

ESTRATÉGIAS PARA OS PAIS

  1.  Estabelecer prioridades
    Tendo em conta o acréscimo de problemas apresentados por uma criança com PHDA, muitas vezes os pais tentam resolver todos os problemas de uma vez só, o que geralmente é pouco eficaz e acaba por ser mais negativo do que positivo. O descontentamento crescente por parte dos pais acaba por provocar um aumento da frustração na criança e consequentemente problemas ao nível da sua auto-estima e auto-imagem.
  2. Pensar antes de agir
    O comportamento hiperactivo/impulsivo das crianças faz com que muitas vezes os pais reajam também de forma rápida e impulsiva sem pensar nas consequências dos seus actos. É importante que os pais não se esqueçam que eles são o modelo de identificação dos seus filhos e quanto mais calma e tranquilidade transmitirem no seu comportamento, mais expectável será obter isso dos seus filhos. Quanto mais pensar nas alternativas que tem para diminuir um determinado comportamento por parte do seu filho, mais hipóteses tem de que prevaleça em si o bom senso, necessário à situação. Por exemplo quando uma criança não consegue ficar quieta na mesa e está sempre a mexer em tudo à sua volta, provavelmente a atitude mais eficaz será reduzir ao mínimo os estímulos à volta da criança, para que esta se possa concentrar apenas nos que são necessários à tarefa que está a realizar.
  3. Usar o reforço positivo antes da punição
    É sabido que crianças com PHDA precisam mais de reforço positivo que as outras crianças, para que os comportamentos esperados/desejados aconteçam. É importante que os pais se foquem mais em elogiar os filhos quando eles conseguem comportar-se da forma considerada correcta, do que em depreciar quando não o fazem. Isto não significa que os pais devam deixar em branco as asneiras e as faltas de comportamento dos seus filhos, mas sim, uma inversão na forma como o demonstram e verbalizam. Por exemplo em vez de verbalizarem à criança que ela não foi capaz, que se porta mal…. Verbalizar que com certeza ela vai ser capaz de fazer o que é expectável para a situação e elogiar sempre que consiga fazer.
  4. Ser perseverante nas estratégias
    É fundamental para estas crianças que o ambiente seja previsível e constante, com uma rotina diária perfeitamente definida e estruturada. Ambos os pais devem estar de acordo relativamente à estratégia definida e todas as alterações na rotina diária devem ser previamente conversados com a criança.
  5. Antecipar os problemas
    Antecipar o comportamento dos filhos numa determinada situação, como por exemplo o horário de estudo, permite que os pais possam conversar/negociar com o filho, incentivando inclusive a sua participação na definição de estratégias a serem implementadas, com vista à adequação do comportamento.
  6. Frequência de uma actividade física regular
    A actividade física é fundamental para todas as crianças e mais ainda para crianças com esta perturbação. É uma forma de gastarem energia, relacionarem-se com os parceiros e trabalharem regras e limites.
  7. Horários de estudo
    O tempo de estudo deve ser curto e intercalado por períodos livres, dada a dificuldade que apresentam na atenção sustentada (manter a atenção por um período longo de tempo sobretudo se a actividade não for motivante para a criança em questão).

O ambiente de estudo deve ser o mais sossegado possível e com o mínimo de estímulos externos que possam desviar a atenção da criança, para que ela possa manter a sua atenção focalizada na tarefa que esta a realizar.


ESTRATÉGIAS PARA PROFESSORES

  1. Planeamento e organização das actividades
    É importante que o professor mantenha o esquema de trabalho o mais constante e previsível possível. O ambiente deve ser favorável a que a criança estruture externamente o que não consegue estruturar internamente. Planeie previamente as actividade e previna a criança das transições ou mudanças no esquema de trabalho. Um mapa de actividades afixado na parede da sala de aula é uma boa estratégia e os professores podem começar o dia por fazer referência ao cronograma afixado, relembrando as tarefas/actividades do dia.
  2. Aumentar a atenção sustentada
    Promova estratégias de ensino participativo, nomeadamente através de jogos e tente intercalar actividades mais desinteressantes com actividades mais interessantes para os alunos.
    Dividir as tarefas grandes em várias tarefas pequenas (incluindo testes) e intercalar com períodos livres e estabelecer estratégias de recompensas. Utilizar outros recursos de ensino que não somente a voz. A aprendizagem através de recursos visuais é facilitada e as cores ajudam a manter a atenção. Esquematizar os conteúdos da aula, não apenas no início da aula como ferramenta de apoio ao planeamento como durante a própria aula, o que ajuda a estruturar e integrar as aprendizagens. Estimule as crianças a lerem em voz alta, o que ajuda à manutenção da atenção.
  3. Focalizar a atenção
    Dada a dificuldade que estas crianças têm em focalizar a sua atenção numa única tarefa é importante que estejam sentadas junto do professor, longe de janelas, com o mínimo de estímulos externos, quer na própria carteira, quer na sala de aula e evitar os trabalhos em grupos grandes. Por vezes o próprio estojo em cima da carteira é motivo de distracção, reduza o material ao mínimo necessário.
  4. Reduzir o comportamento hiperactivo/impulsivo
    Manter sempre o reforço positivo relativamente ao comportamento esperado, explicar o que espera que seja o comportamento da criança em cada situação e evitar estratégias punitivas que agravam a sua auto-estima. Qualquer estratégia punitiva que seja necessária, deverá ser imediata e devidamente explicada, para que a criança possa estabelecer a conexão causa-efeito.

Por Ana Galhardo Simões, Psicoterapeuta Corporal
para Up To Lisbon Kids®

Todos os direitos reservados

Com base no livro “Transtorno do défice de atenção hiperactividade”, Benczik E. e Rohde L., Edições Artemed, 1999

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