Não tenhas medo | De Marta Coelho | Ilustrações Ana Rita Malveiro | Editora Máquina de voar | Uma parceria Up To Kids

 

Não tenhas medo é um dos primeiros dois álbuns ilustrados que nascem de uma parceria da Up To Kids com a editora Máquina de voar Editora.

 

SINOPSE

Não tenhas medo ilumina os possíveis obstáculos no caminho que, com os pais eternamente por perto, serão sempre ultrapassados. Palavras doces sobre auto descoberta e confiança nas características que nos tornam únicos, palavras que mesmo depois de lidas ficarão para sempre no subconsciente do amor.

FICHA TÉCNICA

Marta Coelho e aRita
32 páginas . 200 x 230 mm
ISBN: 9789899970661
PVP: 10,60 €
Preço site: 9,54 €

QUERO ENCOMENDAR

 

 

 

A timidez nas crianças

Encontramos muitos pais que se questionam e preocupam com a timidez dos seus filhos. Dizem que os filhos não conseguem olhar nos olhos, que qualquer palavra só tirada a ferros. Que estão muito metidos consigo próprios. Que não conseguem falar com estranhos, nem mesmo num café para simplesmente pedirem a sua torrada… Um conjunto infindável de pequenas grandes coisas que vão condicionando a vida dessas crianças e preocupando os seus pais.

O que afinal a timidez?

A timidez pode ser definida como um desconforto ou inibição em situações de interação pessoal, que interferem na concretização de objetivos pessoais, profissionais ou sociais.

Pode comprometer de forma significativa a realização pessoal. Constitui-se num fator de empobrecimento da qualidade de vida, mas, por si mesma, não é considerada como uma perturbação.

Passa a ser problemática quando inviabiliza o normal funcionamento da pessoa, das suas atividades, compromete relações pessoais e diminui a qualidade de vida.

O que está na base da timidez é que pode ser problemático ou indiciar questões que precisam ser resolvidas, nomeadamente:

  • Medo de falar;
  • Medo do desconhecido;
  • Falta de autoestima;
  • Dificuldade em fazer e manter amizades;
  • Dificuldade nos relacionamentos sociais;
  • Ou qualquer situação traumática que pode não ser consciente….

Num grau moderado, todos os seres humanos são, em algum momento de suas vidas, afetados pela timidez. Esta funciona como uma espécie de regulador social, inibidor dos excessos. A timidez funciona também como um mecanismo de defesa que permite à pessoa avaliar situações novas através de uma atitude de cautela e buscar a resposta adequada para a situação.

Fisiologicamente parece estar ligada à amígdala (responsável pelas emoções ligadas ao medo e à ansiedade) e ao hipocampo que fazem com que as pessoas se sintam constantemente ameaçadas e de forma mais intensa do que outras pessoas com um nível de atividade regular destas zonas cerebrais.

É muito importante que os pais procurem ajuda no momento em que reconhecem que esta característica já está a comprometer a qualidade de vida dos filhos.

E mais importante ainda é que diariamente incentivem as crianças a vencer esse medo e a entrar em relação.

Seja com os senhores do supermercado, seja com os do café que a família frequenta, tudo são boas ocasiões para lhes pedir que paguem a conta, peçam a fruta, etc. Que desmistifiquem esse movimento de se dirigirem aos outros, para que seguidamente possam ir estando mais preparados para o fazer com os colegas da escola e com os professores.

Uma criança excessivamente tímida vai ficar bloqueada nas suas competências de relacionamento interpessoal. Isso vai ser prejudicial ao seu desenvolvimento.

Precisamos de os apoiar e ensinar como fizemos para eles começaram a andar ou a falar. Isto para que não fiquem isolados e sem vida social. Convidar amigos para programas de fim de tarde ou fim-de-semana, conhecer os pais dos seus amigos de escola, providenciar atividades “sociais” para as nossas crianças é tão importante como tudo o resto. É nessa interação “supervisionada” que muitas vezes encontramos as palavras certas. Os conselhos sábios e a intervenção imediata correta para ir ensinando os nossos pequenos como é este mundo das relações!

Nem sempre nascemos com essa competência inata…

image@kidoz.in

Como reagir se o seu filho disser: “Não quero ir à escola”

A recusa em ir à escola é entendida na maioria das vezes como um ato momentâneo de preguiça e na maioria dos casos não passa disso mesmo. Mas a frase “não quero ir à escola” pode esconder um pedido de ajuda para o qual os pais devem estar atentos.

Antes de pensar castigar, ou obrigar, tente perceber o que leva o seu filho a acordar sem vontade de ir às aulas.

É normal que uma vez ou outra uma criança mostre vontade de ficar em casa, muitas vezes, na expectativa de ficar mais tempo com os pais. Mas se a recusa se repete é preciso ler para lá dos sinais.

AS DESCULPAS

“Doí-me a cabeça”, “doí-me a barriga”, são desculpas a que os mais pequenos recorrem com frequência quando não querem ir à escola. Por vezes o mal estar físico tem sintomas que são visíveis pelos pais como febre ou vómitos, mas que não encontram uma justificação médica. São os chamados sintomas psicossomáticos.

Uma reação do corpo a problemas que podem ser de natureza psicológica ou emocional. É importante perceber que o seu filho pode não estar a mentir quando se queixa de uma dor de barriga para a qual o médico não encontra resposta.

A criança pode ter dificuldade em expor e até compreender o que sente.

A dor é a porta que o corpo encontra para pedir ajuda.

RAZÕES PARA NÃO QUERER IR À ESCOLA

São vários os motivos que podem levar uma criança a rejeitar a escola de um dia para o outro.

Tente conversar com o seu filho perguntar-lhe o que tem de melhor e de pior na escola.

Esteja atento aos sinais.

Bullying

Há crianças que recusam levar determinadas roupas ou objetos para a escola, outras que acabam por admitir que “os meninos são maus”. São por vezes sinais de que são vítimas de agressões físicas ou psicológicas, o chamado bullying. Se for esse o caso dê confiança ao seu filho. Mostre-lhe que não está sozinho e que juntos vão resolver o problema. Tente identificar quem são os agressores e marque uma reunião com o professor ou o diretor de turma. Sugira também uma conversa em conjunto com os pais dos meninos responsáveis pelo bullying e tentem em conjunto encontrar uma solução.

Dificuldades de aprendizagem e/ou atenção

Uma chamada para ir ao quadro ou para ler um texto em voz alta, para algumas crianças não passa de um desafio mas para outras pode ser um enorme fator de ansiedade.

O medo de cair no ridículo, de ser gozado pelos restantes, é habitual entre os mais pequenos, sobretudo quando existe uma dificuldade de aprendizagem de forma geral ou em determinadas matérias.

É importante estar atento, falar com o seu filho ao final de cada dia.

Se ele diz que “a escola é muito difícil, veja para lá do óbvio.

Talvez sinta vontade de dizer que tem de trabalhar mais porque a vida é dura e exige esforço. Mas o caminho deve ser outro. Pergunte-lhe que matérias acha mais interessantes na escola e em quais tem mais dificuldades. Elogie as capacidades que revela e mostre que o irá ajudar a superar os temas mais difíceis. Poderá também recorrer à sua experiência pessoal para lhe dar alguns exemplos de como superou determinados problemas.

Medos

“Não quero ir à escola”, pode querer dizer “quero ficar em casa”.

Na prática parece dar no mesmo, mas não é.

Por vezes o problema está no seio da família e não no ambiente escolar.

Há crianças que, por diversas razões, alimentam uma dependência pelo pai, ou a mãe e sentem receio sempre que se afastam. Acontece, por vezes, quando há uma perda ou um distanciamento. Em caso de morte, por exemplo, ou de divórcio. Se o seu filho perdeu a avó ou o avô, é natural que se questione que pode um dia perder os pais. Um receio que se pode traduzir em ansiedade e medo de sair de casa, de se afastar dos que mais gosta. Falamos de pessoas, mas pode acontecer também quando há a perda de um animal de estimação. Uma vez mais o diálogo é essencial para compreender e ajudar o seu filho.

Os motivos que podem levar uma criança a rejeitar a escola são muitos e podem ocorrer em simultâneo.

A boa notícia é que, na maioria das vezes, o problema é passageiro. Esteja atento. No final de cada dia, conversem, faça perguntas. O que aprendeu na escola? Que disciplinas gostou mais? Será que sentiu dificuldades nalguma matéria? E os amigos? Quem são? A que brincaram nos intervalos?

Não desespere e, acima de tudo, não castigue antes de saber a real razão do problema.

A criança precisa de sentir que é entendida.

Tente a via do diálogo. Reforce a importância dos estudos para a vida futura, mas realce também o lado mais lúdico da escola.

E já agora, avalie se o seu filho dorme horas suficientes. Será que não tem uma agenda demasiado preenchida com atividades escolares e extra-escolares.

Por vezes, algum cansaço pode ser a resposta que procura.

Lembre-se, poderá não acertar na melhor estratégia à primeira, tente uma vez mais, mas não hesite em procurar ajuda especializada, de um psicólogo, por exemplo, se entender que o problema persiste.

“A partir daqui dei-lhes todos os dias Melamil e foi um descanso.”

Eu dei Melamil aos meus filhos

Queridos pais:

Esta carta não pretende ser uma crítica em relação às vossas escolhas ou aos conselhos dos pediatras em relação ao sono dos vossos filhos. Pretende sim, ser um relato de uma mãe que se sentiu a perder o Norte e a afundar-se, numa zona sem pé.

Tenho 3 filhos e fiquei 6 anos sem dormir uma noite completa. Todos sabemos dos efeitos da privação de sono num adulto. Imaginem numa criança.

Os meus filhos mais novos sempre (desde os 4 meses) dormiram a noite completa, mas com a mais velha foi tudo diferente. Amamentei-a até aos 10 meses e, na altura, mamava a cada 4h durante a noite. A introdução de alimentos correu muito bem e as rotinas das refeições sempre foram muito regulares. Inicialmente, não estipulei um horário de sono rigoroso: aos 9 meses fazia 3 sestas por dia, e por vezes ficava acordada ao serão connosco. Era o tempo que tínhamos para estar em família e aproveitámo-lo muito bem. Depois mamava e adormecia. O problema é que, quando estava eu no 1º sono, ela acordava para mamar. Mais tarde, passou aos biberons, mas nunca deixou de beber o seu leite à noite.

Conto isto, porque acredito que se lhe tivesse “tirado” o leite à noite, talvez não crescesse com um ritmo de sono interrompido.

O sono é uma coisa muito estranha que precisa de ter uma rotina estanque.

Mesmo em adultos, nós sabemos que basta uma ou outra noitada para nos estragar o ritmo de sono de uma semana.

Quando a minha filha acordava à noite para beber leite, se não lhe desse o seu biberon chorava estridentemente. Nesta altura, já tinha uma irmã bebé, com quem partilhava o quarto. Sempre foi mais fácil dar o leite do que gerir o problema. Mas não me critiquem, eu já estava num grau de cansaço extremo. E estava grávida do meu 3º filho.

Quando os ia deitar, dava de mamar ao bebé e colocava-o no berço. Depois deitava as meninas. A mais nova adormecia enquanto rezávamos. A mais velha ainda bebia um biberão de leite sozinha e, já na cama, pedia-me que ficasse um bocadinho com ela. Eu sentava-me na sua cama ora a contar uma história, ora em silêncio. A sua dificuldade em adormecer era grande, e veio a piorar com aparecimento dos medos que desenvolveu depois dos 3 anos – da morte, do escuro, de estar sozinha e até medo de não conseguir adormecer. A hora de ir para a cama tornou-se também para ela um problema.

E eu ficava lá.

Porque ninguém quer deixar uma criança aterrorizada à noite. Porque seria pior se chorasse e acordasse os irmãos. Porque me sentia encurralada num túnel de um só sentido.

Deixei de ter serões com o meu marido porque quando acabava de adormecer a minha filha, já só tinha tempo para deixar roupas e almoços preparados para o dia a seguir. Eu chegava a ficar 1h30 ou 2h no quarto com ela e a luz de presença.

Inconscientemente, por cansaço ou preguiça comecei a deitá-los cada vez mais tarde. Acho que o antecipar daquelas 2h começava a deprimir-me. Os meus outros filhos, por consequência, começaram também a deitar-se mais tarde. O que eu não previ foi que, passando a “hora do sono”, vem a excitação. E quando me apercebi disso, tinha os miúdos com 4, 5 e 7 anos, a deitar-se tardíssimo. Passavam metade do dia a chorar por tudo e por nada, começaram a comer MUITO pior, caíam e magoavam-se mais vezes, estavam sempre distraídos na escola, enfim. O cansaço tornou-se visível a olho nu. Tornámo-nos numa família que andava sempre aos gritos. E os miúdos também já gritavam uns com os outros.

Eu estava desesperada e resolvi agir.

Já tinha lido sobre o Melamil mas estava renitente em relação a medicar os meus filhos para dormir. Para quem não conhece, o Melamil  é um “suplemento alimentar natural à base de melatonina que ajuda a diminuir o tempo necessário para conciliar o sono.”

Foi a parte do “natural” que me convenceu. Pensei que sendo natural, mal não iria fazer.

Nem falei com o pediatra. Já estava decidida e agora não queria argumentos para voltar atrás.

Falei com umas amigas que me explicaram: “é maravilhoso para ajudar a adormecer, mas se for uma criança que acorda várias vezes à noite, vai continuar a fazê-lo.”

Tranquila. Agora só queria pô-los na cama cedo. Avancei.

Comprar Melamil

Comprei na farmácia onde não me perguntaram nada – nem se era a primeira vez, nem se foi o médico que recomendou, nada de nada. Parecia  tudo muito natural.

Li a posologia onde indica as doses recomendadas de acordo com as idades e adverte que o suplemento não deve ser administrado sem aconselhamento médico. Por isso, dei a dose mínima à minha filha para ver se resultava: 4 gotas, meia hora antes de se ir deitar.

Diz também que deve ser administrado durante 3 meses sempre à mesma hora. Achei um exagero: só precisava que se voltassem a deitar a horas decentes, e não faria sentido um tratamento tão longo.

No primeiro dia, 15 minutos após tomar as gotas, a minha filha mais velha pediu para ir para a cama. Eram 20h45. Nem queria acreditar. Entre lavar os dentes, deitar-se e eu dar um beijinho, já estava a dormir. Nem rezou. Não fiquei lá até adormecer. Não fiquei sem serão (pensei eu). Eu parecia maluca de radiante. Depois, tinha os outros dois, agora já com horários trocados, ainda a pé. Achei que vendo a irmã a dormir conseguia metê-los na cama sem stress ou demoras. Mas não foi assim. Começaram a chamar-me por tudo e por nada: um quer água, o outro tem frio e foi mais uma hora nisto.

No dia a seguir nem pensei duas vezes: gotas para todos.

Foi a loucura, antes das 21h estavam os três a dormir. Eles nem aguentavam os tais 30 minutos.

A partir daqui dei-lhes todos os dias Melamil e foi um descanso.

Até que um dia o frasco acabou. Nessa noite, sem gotas, tentei deitá-los à mesma hora destas últimas semanas, mas o sono chegou ainda mais tarde do que antes.

Lembrei-me que o tratamento deveria ser de 3 meses, então comprei mais uma embalagem.

E voltou a resultar. Nós começámos a descansar mais, os miúdos ficaram mais bem dispostos porque já estavam a dormir um número de horas apropriado à idade, verificaram-se melhorias a nível de rendimento escolar (nem falo em termos de avaliações, mas o entusiasmo e a concentração eram outros).

As rotinas de sono na nossa casa passaram a ser tão rigorosas como sempre foram as das refeições. Sentia-me feliz e orgulhosa.

Embalagem após embalagem, passaram 3 meses. O tratamento acabou.

Percebi que o tratamento tinha acabado e, sinceramente, nem me preocupei. As rotinas estavam tão bem impostas que seria impossível voltar perder o ritmo. Na verdade eu já nem me lembrava de como era quando eles se deitavam tardíssimo. Que estupidez… nem percebi como é que cheguei a esse ponto. Fui mesmo descuidada.

Às 20h30 pedi-lhes que lavassem os dentes e as mãos para irem para a cama. Assim foi. Mas enquanto estavam na casa de banho, a festa era grande porque um deu um pum e uma delas salpicou o espelho de pasta de dentes com a gargalhada que deu. A excitação era grande, e obviamente,  quando chegaram à cama não tinham sono.

A mais velha, ao aperceber-se que não estava a cair para o lado voltou a pedir que ficasse no quarto a fazer companhia. Não quis voltar atrás, agora já adormecia tão bem sozinha. Disse-lhe que não. Passados 15 minutos estava a chorar de pânico porque não conseguia adormecer. Os outros, mantinham-se na cama mas iam falando entre quartos. E eu, a tentar que acalmassem! Percebi que a confusão estava instalada, e que já não poderia voltar a usar o Melamil. Dei copos de água, fiquei um bocadinho em cada quarto, tinham calor, depois outra coisa qualquer.

O mais novo foi o primeiro a adormecer, eram 22h30. As meninas, adormeceram quase à meia noite.

O suplemento alimentar com melatonina criou nos meus filhos uma habituação tal que deixaram de conseguir adormecer sem ele. Sim, eu sei que dei sem aconselhamento médico. Aqui pensei que se calhar deveria ter dado outra dose, ou ter feito o desmame antes de completar os 3 meses… Mas estava completamente às escuras.

Comecei a imaginar que toda a vida iriam precisar de suplementos para dormir, e que a culpa era minha.

Rotinas

Resolvi então mudar alguns hábitos nas suas rotinas, e ao mesmo tempo, arranjar maneira de começarem a produzir melatonina de forma natural.

Deixaram de ver televisão e brincar com gadgets depois da hora do jantar. Está provado que o uso excessivo de gadgets tira o sono. É chamada a “Insónia tecnológica”(dizem).

A luz, também diminui a produção de melatonina, por isso, passei a luz de presença para o hall e gradualmente fui diminuindo a abertura das portas para os quartos, até que se habituaram a adormecer totalmente à escuras, e sem medos.

Todos os dias à mesma hora, começaram a ir para a cama cada um com o seu livro, para 15 minutos de leitura.

Alimentação

Depois investiguei sobre a alimentação: o que poderia dar-lhes que aumentasse a produção de melatonina (que é o que faz o melamil)?

  • Abacaxis
  • Arroz
  • Aveia
  • Azeite
  • Bananas
  • Cebola
  • Cerejas
  • Cevada
  • Espargos
  • Gengibre
  • Laranjas
  • Milho doce
  • Nozes
  • Sementes de linhaça, sementes de abóbora, sementes de chia
  • Tomates
  • Uvas

Estes foram alguns dos alimentos que descobri que estimulam a produção de melatonina, e que dei aos meus filhos.

É importante ressalvar, que o ideal é dar estes alimentos em cru, para que sofram o mínimo de alterações e cumpram mais eficazmente a sua função.

Estas alterações resultaram e, hoje em dia, os meus filhos deitam-se a horas normais para as idades.

Mas este processo não foi do dia para a noite.

Passámos mais de 6 meses a cumprir rigorosamente uma rotina “tolerância zero” quer fosse fim de semana, férias, ou dia de escola.

Obrigou-me a repensar muitas vezes os menus, para conseguir incluir ao máximo os alimentos em questão, tanto ao almoço como ao jantar. A melatonina estimulada por alimentos não deve ser ingerida apenas ao jantar: “o organismo habitua-se a produzir a hormona e depois torna-se um acto continuado, que sincronizado com as rotinas e um ambiente propício, ajudará a criar e a manter um ritmo saudável do sono.”

Esta é apenas a minha história que já foi criticada por muitas mães de crianças que nunca foram um problema para adormecer e por tantas outras, que tendo o mesmo problema, deram Melamil aos filhos durante um curto período de tempo, e resultou. Sabemos que todas as crianças são diferentes, e o que funciona para umas não funciona para todas.

Por isso, antes de se porem a achar que fui má mãe saibam que fui a mãe melhor que consegui ser. E continuo.

 

Por Margarida Alvim, carta de leitora, para Up To Kids®

Medo e Ansiedade: Crianças e Adolescentes na hora de ir para a cama

Cinco de outubro de 2015, já era de madrugada, quando ouvi um barulho vindo da cozinha (copos a partirem-se), levantei-me e fui a correr ver o que se passava.  Parei junto à porta quando me deparei com a minha mãe caída no chão, com um ar pálido e sem qualquer sinal de respiração. Comecei a gritar bem alto e o meu pai veio a correr, chamou uma ambulância e pediu-me para ir chamar os vizinhos. A ambulância chegou, o meu pai disse que ia com a minha mãe para o hospital e que eu tinha de dormir em casa dos vizinhos. Passei a noite toda acordado. Finalmente, às 9h da manhã, os meus pais chegaram a casa. Segundo o meu pai, estava tudo bem, tinha sido só um desmaio decorrente de uma quebra de tensão. O dia foi passado em família e foi muito divertido.

Chegou a noite, eram 22h30 quando os meus pais disseram que eu tinha de ir para cama. Fui para o meu quarto, deitei-me e passados cerca de dez minutos, comecei a tremer, com falta de ar e fui a correr para o quarto dos meus pais. Depois de tudo o que aconteceu e pensando que seria uma situação excecional, os meus pais deixaram-me dormir com eles.

O que eles não estavam à espera foi o que sucedeu nos dias, semanas e meses seguintes. Nos primeiros dias, eu ainda chegava a ir para o meu quarto deitar-me, mas passado cinco minutos já estava no quarto dos meus pais a chorar e a pedir para dormir com eles.

Os meus pais diziam que eu já tinha onze anos, que não podia dormir no quarto deles e então um deles tentava levar-me de volta para o meu quarto, mas eu não queria… chorava, gritava a dizer que queria os dois. Chorava tão compulsivamente que eles ficavam assustados e acabavam por me deixar dormir no quarto deles. Nos dias seguintes, já ia direto para o quarto dos meus pais. Desesperados, os meus pais, recorriam a todos os argumentos para me tentarem convencer a voltar para a minha cama, mas eu sabia que se chorasse mais um bocadinho, eles iam ceder. E assim foi…dias tornaram-se em semanas, que se tornaram em meses.

Um dia, eles ainda experimentaram colocar a minha cama no quarto deles, mas de nada adiantou, eu queria dormir com os dois! Assim que eu conseguia adormecer, o meu pai ia dormir para o sofá da sala ou para minha cama. Durante meses, eu dormia apenas três horas por noite e nem os comprimidos para dormir que o médico receitou, faziam efeito. Após seis meses nesta situação e já desesperados, os meus pais resolveram levar-me a uma consulta de psicologia.

Uma das coisas que fizemos foi desenhar um círculo, que representava um ciclo com o pensamento, a emoção e o comportamento. Depois da minha psicóloga me explicar como funcionava o ciclo, tentámos em conjunto analisar a minha situação segundo essas três variáveis:

  • Pensamento: No momento que antecedia a minha ida para a cama, eram muitos os pensamentos que me ocorriam, alguns através de imagens:
    “Os meus pais vão morrer enquanto eu estou a dormir.”;
    “Um ladrão vai assaltar a nossa casa e matar-nos.”;
    “Eu posso morrer enquanto estou a dormir.”
    Estes pensamentos e muitos outros que escrevi numa folha, fizeram-me perceber que o meu medo não era o de dormir sozinho, era outro muito maior e muito mais assustador. Segundo a minha psicóloga, estas “crenças” ativavam todo um conjunto de emoções e sensações corporais.
  • Emoção: Este medo desproporcionado e fora do controlo gerava em mim uma resposta emocional – ansiedade e às vezes pânico – que eram traduzidas em sensações corporais:  palpitações, dificuldades em respirar, insónias e choro compulsivo. Tudo isto por sua vez, gerava uma resposta comportamental.
  • Comportamento: Correr para a cama dos meus pais e agarrar-me a eles, evitar dormir no meu quarto.

Tudo isto foi muito difícil para mim, porque eu estava tão perturbado e descontrolado que não conseguia prestar atenção ao que me passava pela cabeça. Em conjunto com a minha psicóloga chegámos à conclusão, que a reação dos meus pais à situação, apenas reforçava as minhas crenças de que: “Eu precisava dos meus pais ao meu lado para conseguir dormir. ”; “Sem eles ao meu lado, algo de mau podia acontecer”. Sem querer, todas as noites que os meus pais cediam e me deixavam dormir no quarto deles, iam alimentando em mim a confiança de que bastava eu chorar um pouco, para me deixarem dormir com eles e assim o meu medo ia crescendo. Eu era um rapaz de onze anos de volta à cama dos pais, sem qualquer hipótese de voltar para o meu quarto porque isso era demasiado devastador para mim e eu não ia aguentar perder os meus pais, pelo menos era assim que eu pensava.

Todo o trabalho com a psicóloga passava por conseguir analisar, perceber e mudar essas crenças disfuncionais, aprender técnicas de relaxamento e gradualmente estabelecer objetivos de mudança de comportamento.

A minha psicóloga transmitiu-me a confiança de que eu, com a sua ajuda, iria conseguir superar tudo isto. E a sua certeza, tornou-se a minha força! Eu não queria mais continuar a viver em função de um medo que condicionava o meu sono, a minha energia, a minha vida e a dos meus pais, e sobretudo a minha felicidade.

 

imagem@amazonaws

O Quarto da Criança

– Um reflexo do “espaço interno​” –

Com alguma frequência, mães de crianças entre os ​7 e os 11 anos pedem-me ajuda porque os filhos não adormecem sozinhos. A mãe tem de se sentar/deitar ao seu lado até adormecer, e sempre que acorda à noite chama pelo pai ou pela mãe. Existem muitas teorias, crenças e falsas ideias sobre esta questão. Por essa razão, gostaria de partilhar algumas reflexões que me parecem importantes.

 

  1. Entender a Situação

​Cada criança, família e situação é única. E por essa razão, é fundamental primeiro entender, explorar e contextualizar. A idade da criança, por exemplo, faz toda a diferença. Por outro lado, não existem fórmulas mágicas, nem universais. É por essa razão, que antes de mais nada, é preciso responder a algumas perguntas.

​P​or exemplo, porque é que a mãe tem de se deitar com ele? O que acontece se não o fizer? Como é que ele reage? Chora? Fica triste? Zanga-se? Levanta-se? Apenas insiste? Não consegue adormecer? Alguma vez a criança dormiu sozinha​? Se sim, quando é que começou a precisar de companhia? O ​quarto dos pais fica muito longe do da criança? Como seria se a mãe ou o pai, ao invés de se deitar com o filho, lhe fizesse apenas companhia durante algum tempo, sentada na cama, ou numa cadeira ao lado da cama? Os pais já conversaram com o filho acerca da situação? Se for o caso, quais são as razões que ​a criança dá para querer a sua presença ao adormecer e durante a noite?

​É frequente responderem que o filho tem medo de​ “estar só​”. Aí, é importante perceber melhor o que é estar só. É estar habituado a estar sempre acompanhado? Tem medo? Se sim, do quê? Sente-se ansioso, triste ou angustiado?

Por fim, seria importante saber como a mãe ou o pai se sente​m​ com esta situação? Preferem dormir ao lado do filho, ou na sua cama (ao lado do seu ​companheiro/a, se for o caso)? Já se sentaram os três e conversaram sobre o que cada um sente relativamente a esta questão​, e como se poderão ajudar uns aos outros? O que é que cada ​elemento da família precisa?

  1. A capacidade da criança dormir no seu quarto

A capacidade de dormir sozinho, envolve na pessoa (da criança ao adulto) uma série de recursos e competências que são fisiológicas numa fase inicial, e gradualmente, cada vez mais emocionais. Se considerarmos um bebé, que acaba de chegar ao mundo e que não tem em si ainda a capacidade de se ver e reconhecer como um ser individual e “separado” da sua mãe, e que, para além disso, necessita de mamar de duas em duas ou de três em três horas, faz-nos todo o sentido, pensar que o seu lugar será precisamente junto à mãe. Desta forma, sentir-se-á mais seguro, poderá interiorizar a ideia de que as suas necessidades têm resposta, e, em termos logísticos, dar mama à noite fica claramente mais fácil.

Mas a verdade é que o ser humano, pelo “bicho” complexo que é, vai evoluindo gradualmente da necessidade de cumprimento de necessidades básicas (sejam fisiológicas e/ou de afecto), e começa a desenvolver em si, uma estrutura psíquica, que ainda que em constante transformação, o irá acompanhar ao longo de toda a sua vida. A qualidade desta mesma estrutura, irá determinar a forma como vai viver, fazer as suas escolhas e sentir-se, ao longo de todo o caminho. Pois bem, cabe aos pais, estarem atentos a este processo evolutivo, e é aqui que entra a questão do dormir no seu próprio quarto e da capacidade de “estar só”.

Importa dizer que dormir no seu próprio quarto e dormir sozinho, são coisas diferentes. Veja-se o caso de crianças que têm irmãos mais velhos e nunca chegam a dormir efectivamente sozinhas. Isso não é um problema. A grande questão, é que, se numa fase inicial faz sentido o bebé estar junto à mãe, gradualmente, é importante que sinta que pode afastar-se dela e retornar a ela, sem danos para si mesmo, nem para a mãe. Isto, permite-lhe desenvolver o sentido de existência “dos objectos”, para além da sua presença física. Onde os vai encontrar? Dentro de si. Dentro da tal estrutura psíquica. Com o desenvolvimento da capacidade de guardarmos pessoas (e não só) “dentro de nós”, aprendemos a sentir-nos mais seguros. É isso que permite à criança ficar na escola durante o dia, sem se desestruturar, permite-lhe pensar em si mesma como um ser que poderá estar longe, estando muito perto. Aqui, eu voltaria a perguntar: o que é estar só?

Pense no adulto, que podendo estar a dormir na cama com outra pessoa, pode igualmente sentir-se profundamente só, e estando a dormir sozinho num quarto, pode sentir-se absolutamente acompanhado, seguro e amado. O verdadeiro sentido de proximidade é vivido dentro de nós. Está na capacidade de confiar que as pessoas significativas estão cá para nós, no sentido lato da expressão e não apenas no sentido físico.

A par com esta competência profundamente estruturante para o Ser Humano, existe outro aspecto que entra em acção nestas situações. O sentimento de segurança interna. O que há de tão ameaçador na vida ou neste mundo, que leve a que ​a ​criança não possa dormir num quarto (provavelmente separada​ do quarto dos pais apenas por uma parede), sozinh​a​? A resposta é nada. É isso que temos que sentir, e que temos que passar aos nossos filhos.

Mas a questão é que os pais vivem com os seus próprios medos (muitas vezes inconscientes) de que poderão perder os seus filhos, ou de que este mundo é efectivamente uma ameaça. Quando confrontados com a fase normal e saudável dos medos, pesadelos e terrores nocturnos da criança, são os pais quem mais se assusta. Depois, perante as suas inseguranças, enviam mensagens confusas aos seus filhos. Alguns exemplos são os pais que abrem os armários para mostrar que não está lá nenhum monstro (se eles não existem, porquê que é preciso espreitar?), outros dizem aos filhos para rezar muito quando chegam os medos (para estarem protegidos, do quê?), ou dizem que mandaram embora o que quer que fosse que estivesse no quarto (então mas se não existe…). Estas mensagens são contraditórias. Tanto quanto ficar a dormir com o seu filho. Está a dizer-lhe indirectamente que ele precisa que fique ali com ele, para que possa estar protegido (e consiga dormir em paz) – “Se a minha mãe fica aqui, é certamente porque eu preciso disso para estar bem”.

Dormir sozinho põe ainda à prova e ajuda a desenvolver, uma terceira competência que me parece digna de ser mencionada aqui​: ​a capacidade da criança gerir as emoções (e os seus fantasmas pessoais). A noite é óptima para lhe ensinar isso mesmo. Quando dizemos a um filho -“o teu lugar não é na minha cama e o meu lugar não é na tua cama”, estamos a permitir-lhe viver algumas das frustrações que fazem parte da vida e que ele vai ter que aprender a gerir. Quando dizemos a um filho, “eu percebo e é normal teres medos, vou ajudar-te no que me for possível, mas sei que boa parte da conquista vai ser tua”, estamos a ajudá-lo a gerir os seus próprios medos, e a entender que se a mãe não fica assustada e o deixa lidar com eles, então não deverão ser assim tão “gigantescos”. Quando diz ao seu filho – “eu consigo estar fisicamente separa de ti, continuando a amar-te da mesma forma”, está a dizer-lhe que o amor é constante, genuíno e seguro. 

Sempre que se aborda este tema, normalmente os pais focam a questão da autonomia, como sendo um ponto ou uma preocupação central. Pensam, na maioria das vezes, em autonomia funcional. Esquecem, no entanto, que a verdadeira autonomia, é a autonomia emocional. A capacidade de enfrentar desafios sem se desestruturar, a capacidade de ser ver como um ser individual e único (que não se funde ou baralha com os outros), capaz de construir o seu próprio caminho, encontrar as suas próprias soluções, ainda que, possa escolher fazer esse caminho acompanhado (e escolher, é muito diferente de precisar). Ou seja, escolher aconselhar-se com os pais sempre que tem um problema, é diferente e muito mais libertador do que acreditar que precisa da ajuda dos pais sempre que enfrenta um desafio.

  1. Ajudar o seu filho/a a dormir no seu próprio quarto

​Para ajudar a criança a dormir no seu próprio quarto, aceitando que os pais façam o mesmo, ​​é fundamental que possam todos conversar abertamente sobre esse tema, sem acusações, recriminações ou castigos. Os pais devem falar sobre o que cada um pensa e sente sobre a situação. Depois, pergunt​ar ​ao filho o que pensa, sente, e acha que consegue fazer.

​É igualmente importante que sejam clar​os sobre a organização familiar,​ e a vivência do espaço da casa,​ definindo as regras e explicando o que as coisas são. “Eu e o pai somos um casal e, por isso, dormimos na mesma cama. Um dia, poderás querer o mesmo para ti”, “​t​u és nosso filho, e por isso, preparámos o teu quarto, um espaço teu, e que fica junto ao nosso quarto”. ​Para o seu filho, o respeito pelo quarto torna-se ainda mais importante na adolescência, ​altura em que os pais não deverão entrar sem bater, por exemplo.

​Porque me perguntam muitas vezes, devo dizer que quanto a mim, deixar chorar não é uma opção. Na minha opinião, nunca foi. Fazer escolhas claras, ser coerente e determinada​/o​ não é deixar de ser sensível às necessidades do seu filho​/a​. O que acontece às vezes, é confundirmos o que ​a criança pede, com o que el​a realmente precisa, e o que el​a​ pensa que não consegue fazer, com uma verdadeira incapacidade. Ora, ​a criança não sabe até onde consegue ir, até chegar lá. Precisa por isso, que alguém acredite por el​a​ numa fase inicial, para que el​a​ possa começar a acreditar sozinh​a​, numa fase mais adiantada. Todo este processo de conquista, pode e deve ser feito com o seu acompanhamento. Precisa de alguém ao seu lado para adormecer? Não se deite com el​a​. ​E​steja ao lado del​a​. Tem pesadelos, acorda e chama os pais? Vá lá, confort​e-a​, diga-lhe que virá sempre que ​ela​ precisar, mas que​,​ ​uma vez que esteja mais calm​a​ ou te​nha​ ​adormecido, ​voltará para a sua própria cama. Isto é muito cansativo no in​í​cio, mas gradualmente, el​a​ deixará de sentir necessidade de chamar ​os pais ​(estará a desenvolver ​um​ sentimento de segurança).

Outra estratégia importante é, se ​ambos os pai​s​ fizer​em​ parte do agregado, que alternem “os turnos”. Um dia fica para um, no outro dia, é o outro. Tenha em atenção que são os pais que decidem, e se organizam, e não o seu filho. Ou seja, hoje será o pai porque eu tenho que fazer umas coisas, amanhã serei eu porque o pai vai estar mais ocupado, etc. Uma das coisas que mantém muitas vezes, este tipo de comportamento, é uma falsa sensação de controlo sobre a mãe e sobre a relação dos pais. A criança fica refém dessa necessidade, e acredita que só pode sentir-se segura se controlar as pessoas à sua volta. Imagine o que é crescer com este sentimento!

Organize e crie uma rotina “amiga” do sono. Tente que o horário durante a semana seja estável, sendo que podem fazer do fim de semana, a exceção. Actividades mais calmas e relaxantes perto da hora de dormir são benéficas. Por outro lado, a hora de ir para a cama, pode ser um bom momento para partilhas com o seu filho, conversar calmamente sobre os seus sentires, planos para o dia seguinte, etc. Se houver medos, ou ansiedades, falar sobre elas é benéfico. O papel dos pais é estar ali, ouvir, entender, conter. Não minimize, desvalorize ou tente resolver as questões à sua maneira. Esteja apenas lá, e diga-lhe que entende que aquilo esteja a ser difícil, abrace-o sempre que for preciso, e diga-lhe que confia que ele vai conseguir lidar com a situação.

Ler também A importancia da Rotina e do sono para uma criança

Para terminar, é fundamental ​que os pais saibam que é seguro deixar o​s​ seu​s​ filho​s​ crescer. Não o​s​ est​ão​ a perder. A relação está apenas a transformar-se e ​a criança a fazer um caminho saudável.

​Como nota final, deixo o alerta de que se estas estratégias não forem suficientes, ou se houver outros sintomas associados (alimentação, auto-estima, comportamento, aprendizagem, etc.), ​então não deve hesit​ar em procurar a ajuda de um psicólogo. A questão pode ser mais profunda e é fundamental que não deixe o seu filho crescer logo à partida com estas dificuldades.

Medo da trovoada, do escuro, dos monstros, de dormir sozinho…
Os medos podem manifestar-se por diversos motivos e sob diversas formas na vida de uma criança, e o papel dos pais, ou cuidadores, é fundamental para ultrapassá-los, evitando que se tornem traumas mais dificeis de superar.

O termo “trauma” deriva do grego e a sua tradução literal é “ferimento”.

Para lidar com os medos de uma criança o primeiro passo é oferecer segurança.
Acima de tudo deve respeitar-se a situação, nunca substimando o medo, pois o mesmo poderá ser um alerta sobre algo que tenha acontecido.

O que é que, perante uma criança que sofreu um trauma ou desenvolveu algum medo, podemos fazer? Como remediar? O que fazer primeiro?
Todo o esforço, por menor que seja, no sentido de proteger o desenvolvimento infantil, terá o seu efeito. Devemos, portanto, focar-nos em ajudar a criança, tentando ultrapassar o “ferimento” através dos meios que estiverem ao nosso alcance.

Em crianças muito pequenas podemos pensar, por exemplo, nas massagens, preferencialmente com um óleo adequado pois, através do toque e do calor das mãos, transmitimos cuidado e relembramos o corpo do seu ritmo metabólico.

Um brinquedo de conforto (também conhecido por doudou ou «ó-ó») será um pequeno amigo para o bebé, que nele encontra uma referência, algo que permanece com ele. Novamente, passa pelo conforto físico e pelo ritmo, por ser algo que está sempre lá, trazendo descanso.

Também uma swaddle, para embrulhar o bebé de poucos meses, poderá ajudá-lo a sentir-se apaziguado e seguro, além de o manter quentinho. O calor do corpo (não em excesso, obviamente) é importante para que a criança se sinta confortável, se sinta bem com o seu corpo, num momento em que possivelmente há uma debilidade que, sem grandes surpresas, passa pelo sistema metabólico. Quanto mais suaves e macias  forem as roupas, mais conforto poderão trazer à criança. Tudo o que possa contribuir para um conforto físico (seja o da pele ou o do meio envolvente), será benéfico para ajudar a ultrapassar o trauma.

Até aos 3, 4 anos, poderemos optar por manter a criança perto de nós, num porta-bebés. É sabido que um pano ou mochila ergonómica tem um valor inestimável no que toca à confiança que se vai gerando ao longo do tempo na criança transportada, graças ao contacto muito próximo que se cria, revelando cuidado por parte do utilizador do porta-bebés.

Para crianças mais crescidas há outros recursos igualmente importantes, como pintura, desenho, música e dança, enquanto meios de expressão e de cura – nomeadamente quando as crianças não conseguem falar sobre as suas experiências. Brincar é uma ferramenta vital para qualquer criança, pois  é na brincadeira que geralmente se reflecte o seu estado anímico. Assim, é imprescindível observar a criança enquanto brinca. Fornecer-lhe brinquedos que tenham qualidade, quer ao nível pedagógico como sensorial, para trabalhar os vários sentidos (tato, audição, visão) e o movimento. Quanto mais naturais forem os materiais dos brinquedos, mais próximos se encontram da própria natureza da criança.

Ler também O seu filho tem medo de ir dormir sozinho? 8 Dicas para o ajudar

Se a atuação dos pais não for suficiente e os temores se tornarem excessivos, passando de um medo natural para uma fobia permanente, causando alterações físicas e psiquicas, inclusivamente, a atuação dos pais deve ser complementada por uma ajuda mais especializada e profissional.

Em resumo, nunca devemos negligenciar o medo de uma criança. A compreensão e a conversa serão, sem dúvida, otimas ferramentas para o ultrapassar. Além disso, todo o cuidado que possamos oferecer-lhes, seja através do toque, do calor físico e anímico de um porta-bebés, da roupa confortável que os envolve e/ou brinquedos que lhes dão alegria, valerá a pena. Porque o mais importante é trazer de volta a merecida alegria à criança.

imagem fornecida pelo autor

O seu filho tem medo de ir dormir sozinho? 8 dicas para o ajudar

O medo de ir dormir sozinho está relacionado com os medos que a criança desenvolve sobre o mundo. Por vezes no seu imaginário, por vezes sendo medos reais.

O medo é um sentimento intrínseco ao ser humano, tal como a alegria ou a desilusão, por isso é normal todas as pessoas terem medo. Nas crianças o medo faz parte da aprendizagem, e constitui uma parte importante do seu desenvolvimento.

O medo do escuro desenvolve-se normalmente a partir dos 2 ou 3 anos. Mas antes dessa fase a criança já começou a construir o seu mundo através da exploração do imaginário, experienciando diversos sentimentos, incluindo o medo.

Durante a noite, na hora de ir para a cama, o medo apodera-se do seu filho. Primeiro porque se sente desprotegido por ter de ficar separado dos pais; 2º porque assim que as luzes se apagam tudo o que é palpável e que ele conhece desaparece, dando lugar a que criaturas estranhas saiam debaixo da cama alegremente, só para o assustar.

Ensinar o seu filho a lidar com o medo durante a infância é fundamental para prepara-lo para o futuro.

Se o seu filho tem medo de ir dormir sozinho, estas são 8 dicas simples, que são comuns à literatura especializada que foi por mim consultada:

  • Converse com o seu filho. Ouça-o e tranquilize-o.

Compreender a origem dos medos das crianças é essencial para os podermos ajudar. Desmistifique os medos reais: se o seu filho tem medo de cães, mostre-lhe na internet vídeos de cães a brincar com os seus donos. Por vezes esse medo é fruto do desconhecido e, quanto mais familiarizados com o objecto do medo, mais seguros ficam em relação ao mesmo. Tranquilize-o sempre que esteja com medo. Reforce a ideia do sentido de segurança sempre que ele precisar.
Converse com o seu filho sobre os seus medos durante o dia. Ajudá-lo a construir a sua autoconfiança à luz do dia, é meio caminho andado para fazê-lo sentir mais seguro à noite. E uma criança segura, irá tornar-se por certo mais autónoma.

cjoyo5ket0m1mn29vqo9c00qb

  • Seja criativo, use técnicas adaptadas à idade do seu filho.

Para combater medos imaginários, como monstros, extraterrestres e outros seres que, inexplicavelmente, teimam em habitar os quartos dos nossos filhos, seja criativo. Muitos Pais já aderiram ao “pulverizador antimonstro” por ser um sucesso para acalmar os mais pequeninos.
Os animais de estimação também são óptimos guardiões do sono e sonhos infantis. Até mesmo um aquário com peixes colocado no quarto, pode ajudar as crianças a controlar e dominar o seu espaço contra os seres imaginários.

21

  • Nunca desvalorize os medos do seu filho.

Os medos de uma criança são reais, ainda que os monstros não sejam. Desacreditá-los e desvalorizá-los só implicará que os deixe de partilhar consigo. Já o mal-estar interior e a ansiedade vai reflectir-se fisicamente através de falta de atenção, tiques, mãos transpiradas, dores de cabeça ou de estômago, entre outras. As crianças precisam da protecção dos pais, para se sentirem seguras e perderem os medos. Não os deixe perder esse direito.

b061141b42d0797f3f3ced36f41a37df

  • Ajude a criar mecanismos de defesa e técnicas de relaxamento.

A coragem não é a ausência de medo: é sim saber enfrentá-lo. Partilhe episódios seus de medos que tinha quando era mais novo e como os conseguiu ultrapassar. O seu filho vai entender que, se os pais enfrentaram os seus medos e estão bem, também a eles nada lhes irá acontecer. As técnicas de relaxamento farão com que o medo não se apodere dos seus pensamentos na hora de ir dormir: por exemplo, treine-o a visualizar uma cena relaxante, como estar na praia, assistir a um pôr-do-sol ou a observar as estrelas. Isso vai ajudá-lo a ter a mente ocupada afastando os pensamentos que o inquietem. Além disso é fisicamente impossível estar relaxado e assustado ao mesmo tempo.

cama-contar-histórias-4

  • Estabeleça limites, regras e rotinas

A coisa mais importante que podemos dar aos nossos filhos, além do amor incondicional, é a disciplina. De modo não fundamentalista, criar regras, estabelecer limites e seguir rotinas pode fomentar a criação dessa disciplina.
A rotina é essencial para que tudo aconteça de acordo com as expectativas geradas na cabeça da criança, criando a desejável habituação. Este ciclo fará com que a criança se sinta protegida, reduzindo-lhe a ansiedade e proporcionado uma hora de ir para a cama mais tranquila.

criança-dormir

  • Evite televisão em excesso durante o dia e mantenha-a desligada depois da hora de jantar.

Hoje em dia, os miúdos adoram passar horas em frente à televisão e a oferta de programas infantis é permanente. A todas as horas do dia há canais dirigidos ao público mais novo, fazendo com que desde muito cedo as crianças dominem os comandos da casa. A televisão estimula a criatividade e a imaginação das crianças, fazendo com que isso se possa reflectir na ansiedade gerada na hora de dormir. Aproveite os momentos antes de ir para a cama para passar tempo útil com os seus filhos. Leia uma história, façam jogos de palavras ou de tabuleiros, cantem em conjunto, ou simplesmente aproveitem para conversar.

Captura-de-tela-2012-03-02-às-13.20.45

  • Peluches e ó-ós (bonecos de segurança)

Ajude o seu filho a ficar ligado a um boneco que lhe transmita a segurança que precisa. Normalmente as fraldas, óós e afins, aparecem e fazem parte da vida da criança desde que nasce. Se esse não é o caso do seu filho, ofereça-lhe um boneco macio de alguma personagem de que gosta muito. Fomente todas as noites a relação entre os dois, colocando esse boneco na cama do seu filho. Ele vai sentir-se mais acompanhado e relaxado e estará a pensar no boneco, desviando o pensamento dos assuntos que lhe criam ansiedade. (ler artigo sobre bonecos papa-medos)

 

menina-dormindo-com-boneca

  • Luz de presença

Chega uma altura em que o seu filho lhe pede uma luz acesa. A luz é uma óptima companhia e solução para acabar com alguns dos seus medos. O facto de conseguir ver o quarto todo faz com que os monstros não consigam sair debaixo da cama e que os extra-terrestres não entrem no seu território, dando-lhe um sentimento de controlo e poder sobre o espaço que o rodeia. Isso deixa-o mais tranquilo e seguro.

Deve também deixar as portas e gavetas dos armários fechadas, para não dar azo à imaginação.
As luzes de presença, podem dar origem ao aparecimento de sombras que são tão assustadoras como a escuridão. Opte por deixar uma luz difusa, que vai tranquilizá-lo sem o prejudicar, até que seja mais velho. Um dia, há-de esquecer-se de pedir que deixe a luz, ou até dizer que já não precisa dela.Se o seu filho não tem medo do escuro e divaga pela casa a meio da noite, clique aqui

 

me·do |ê|
(latim metus, -us)
substantivo masculino
Estado emocional resultante da consciência de perigo ou de ameaça; reais, hipotéticos ou imaginários. = FOBIA, PAVOR, TERROR
[“medo”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa]

 

Bibliografia:

  1. Take Charge of Your Child’s Sleep: The All-in-One Resource for Solving Sleep Problems in Kids and Teens”.  by Judith A. Owens  and Jodi A. Mindell
  2. “O grande livro dos medos e das birras! de Mário Cordeiro
  3. outras fontes aqui e aqui