Como lidar com Filhos impulsivos

Perante uma sociedade moderna com padrões cada vez mais exigentes e egocêntricos surgem crianças cada vez mais ativas e competitivas. Estas crianças estão, para além de sujeitas a exigências desmedidas, rodeadas de desenvolvimentos tecnológicos, onde há rapidez de informação – onde tudo está à distância de um clique.

Tais vicissitudes acarretam desafios e obstáculos ao comportamento das crianças. Isto porque, por um lado a sociedade impõe maiores responsabilidades e metas e, por outro lado, não as prepara para as mesmas (e.g. fazer um trabalho para a escola foi facilitado pela rapidez do clique à internet). Assim, estas crianças não apreendem ferramentas necessárias e indispensáveis para lidar com o tempo, com os fracassos e com as metas longínquas.

Comportamento impulsivo.

Não adquirem perseverança e, por outro lado, apresentam dificuldades de autorregulação e autocontrolo – assim como tudo se tornou uma questão de um clique e não aprenderam a esperar, gerir emoções e refletir sobre a melhor alternativa, também o seu comportamento se tornou um clique – comportamento impulsivo.

De forma sucinta

A criança começa por apresentar tamanha sensibilidade e desconforto com o momento presente, resultante numa tensão crescente. Neste sentido surge um planeamento de ação insuficiente e uma tomada de decisão pouco pensada e muito emotiva. Por fim, o sujeito age por impulso, sentido prazer no alívio da tensão.

Estes comportamentos impulsivos acarretam maiores riscos (e.g. agressividade, violência, comportamento social negligente e abuso de substâncias), menor discernimento e maior probabilidade de arrependimento e culpa.

Resta compreender que, apesar de a sociedade incitar a estes comportamentos disruptivos, a impulsividade consiste também num sintoma presente em várias perturbações, tendo também origem biológica. Uma perturbação, comummente referida em idade escolar, é a Hiperatividade e Défice de atenção.

Neste sentido a impulsividade deve ser, mais que controlada, trabalhada.

Aos pais de filhos impulsivos, o que fazer:

Funcionar enquanto modelo.

Perante algo indesejado, verbalize o que está a sentir e o que precisa de fazer para se acalmar.

Ensinar a criança a falar consigo mesma.

O diálogo interno ajuda a controlar os impulsos.

Ensinar a gerir emoções e esperar.

Propor pequenas recompensas imediatas ou grandes recompensas a longo prazo.

Evitar as críticas e julgamentos.

Apoiar e ajudar a repensar o que não correu como desejado, evitando as criticas que apenas aumentam as reações emocionais.

Jogos de Memória.

O controlo dos impulsos está intimamente ligado à memória a curto-prazo. Neste sentido, desenvolver as capacidades mnésicas, auxilia a criança na compreensão, interiorização e antecipação das consequências dos seus atos.

Atividades físicas.

O exercício e o movimento influenciam o foco e a atenção, melhoram a concentração e a motivação e tendem a diminuir a agitação e a impulsividade.

 

Por Catarina Lucas, Psicóloga Clínica

A crítica excessiva dos pais mutila o cérebro emocional dos filhos

A educação que recebemos em crianças e o tipo de relacionamento que estabelecemos com os nossos pais deixam-nos marcas profundas ao longo da vida.

A atenção ou a negligência, a crítica ou o elogio, determinam o estilo de apego que iremos desenvolver nas relações futuras. Terá um enorme impacto na imagem que formamos de nós mesmos, na nossa autoestima e na forma como encaramos a vida.

No entanto, tudo parece indicar que as consequências da crítica na infância não se limitam ao nível psicológico, mas também alteram a configuração do cérebro da crianças. Neurocientistas da Universidade Binghamton descobriram que, quando os pais criticam excessivamente os filhos, as áreas do cérebro dedicadas a processar estados emocionais, ficam afetadas.

Crítica constante dos pais bloqueia o processamento emocional das crianças

As crianças podem criticar a maneira como o cérebro percebe e processa a informação emocional? Esta foi a questão que alguns neurocientistas levantaram e, para responder, recrutaram 87 crianças com idades entre 7 e 11 anos.

Primeiro, pediram aos pais que falassem sobre os filhos durante cinco minutos. Assim, conseguiram avaliar o nível de crítica destes pais. Depois analisaram a atividade cerebral das crianças enquanto viam uma série de imagens de rostos que mostravam diferentes emoções. Descobriram que os filhos de pais muito críticos prestavam menos atenção às expressões faciais emocionais, sem conseguir distinguir emoções positivas de negativas.

Na prática, as crianças sujeitas a críticas constantes evitam prestar atenção aos rostos que expressam qualquer tipo de emoção. Obviamente, a longo prazo, tal comportamento poderá afetar as suas relações com terceiros e poderá ser uma das razões pelas quais as crianças expostas a altos níveis de crítica correm maior risco de sofrer de depressão e de ansiedade.

Para evitar o desconforto causado pela crítica, o cérebro infantil é “desconectado”

Todos nós temos tendência a evitar coisas que nos fazem sentir desconfortáveis, ansiosos ou tristes. Mas  observou-se que as crianças cujos pais são muito críticos são mais propensas a usar estratégias para evitar pessoas ou situações que as deixem pouco confortáveis.

Na verdade, é um mecanismo básico de proteção: quando estamos perante uma situação da qual não gostamos mas não podemos escapar, o nosso cérebro tende a “desconectar-se”. É exatamente o que acontece connosco quando estamos numa reunião chata que não nos podemos livrar. No entanto, esta situação é perigosa quando repetida por um longo tempo durante toda a infância, pois o cérebro infantil não será capaz de estabelecer as conexões necessárias para processar adequadamente as informações emocionais.

As crianças que são vítimas de críticas constantes evitam focar e processar as expressões emocionais de raiva, nojo ou desconforto dos pais para não sentirem os sentimentos aversivos que estas geram. Como resultado dessa mutilação do sistema de processamento emocional, também se tornam incapazes de perceber as expressões positivas dos outros.

De facto, não é o primeiro estudo que analisa o impacto no nível cerebral de uma educação negativa.

Pesquisas anteriores realizadas na Harvard Medical School revelaram que os gritos danificam o cérebro infantil, especificamente o vermis cerebelar, uma área fundamental para manter um bom equilíbrio emocional.

Como criticar realmente construtiva para as crianças?

Existem dois tipos de críticas: críticas destrutivas, que não levam a lado nenhum e só geram desconforto; e críticas construtivas, que nos permitem crescer e melhorar algo. Infelizmente, estima-se que 9 em cada 10 críticas “construtivas” realmente não o sejam.

Como podem os pais garantir que as críticas que fazem aos filhos os ajudam realmente?

  • Concentrar-se no comportamento, e não na criança.

Isto significa não usar rótulos que generalizam tais com como “estás/és muito desorganizado”.

Os pais devem ser o mais precisos possível e dizer: “não arrumaste os brinquedos, vais ter de o fazer”.

  • Informe-se antes de criticar.

Muitas vezes criticamos supondo que as nossas conjecturas são verdadeiras.  Portanto, antes de dar vazão à raiva ou ao desapontamento, pergunte o que aconteceu. Ouça a versão da criança e tente entender sua perspectiva, embora não signifique que concorde. No entanto, uma crítica baseada na empatia é muito mais construtiva.

  • Foque-se na solução, em vez de enfatizar o erro.

Todos nós cometemos erros, mas se as críticas permanecerem a esse nível, isso não servirá para crescer. Portanto, é conveniente perguntar à criança o que pode fazer para resolver o problema ou propor diretamente algumas soluções.

  • Introduzir um elemento positivo.

Diz-se que para cada crítica cinco elogios são necessários. Uma no cravo outra na ferradura. Não devemos limitar-nos a destacar o negativo nos nossos filhos, mas também a reforçar as características positivas. Por exemplo, pode dizer: “Ontem apanhaste os brinquedo sem eu ter de chamar a atenção, muito bem. Eu gostava que fosse assim todos os dias. Era sinal de responsabilidade”.

 

Publicado em Rincon de La psicologia, traduzido e adaptado por Up To Kids

A importância de expressar as emoções na infância

O que pensa sobre as emoções?

Demonstrar emoções é sinal de fraqueza?

Não devemos chorar?

O medo e a raiva são emoções perigosas e por isso não devemos senti-las?

Pois bem… estas são algumas das crenças que por vezes são interiorizadas ao longo da infância, que se perpetuam na idade adulta e que inconscientemente os pais poderão passar para os filhos.

Quando uma criança cai e chora o adulto tem, por vezes, a tendência, em jeito de conforto, de dizer: “Não chores!” Se uma criança cai e se magoa pode demonstrar o que está a sentir. Importa que o adulto não contrarie a tendência de reprimir a emoção, para que a criança não interiorize que deve guardar dentro de si o que sente.

É benéfico para as crianças serem ensinadas desde cedo a entrar em contacto com as suas emoções e a saber como exprimi-las. É no seu porto seguro, na família que as vão conhecer e explorar. É aqui que vão ganhando confiança para futuramente experienciarem as emoções no mundo lá fora.

O que ajuda a criança a aprender a identificar o que está a sentir é que o adulto leia a emoção no seu comportamento e que a devolva à criança num discurso claro e empático.

Ora vejamos mais atentamente

A tristeza

Todos nós já estivemos tristes em algum momento. O contacto com a tristeza permite-nos saborear os momentos de felicidade, daí a importância de ser sentida. Imagine uma criança que chora porque um amigo lhe tirou um brinquedo. Em vez de o adulto dizer: “Não chores!” poderá dizer: “Compreendo que estejas triste, ficaste sem o teu brinquedo!”

O medo

Uma emoção que tendencialmente tende a ser evitada é imprescindível para a nossa sobrevivência.

Já imaginou se não tivesse medo de nada? Atravessaria uma estrada cheia de carros sem perceber que corria perigo de atropelamento. É bom sentir medo, mantém-nos vivos!

Quando a criança diz que tem medo de algo, dizer-lhe: “Não tenhas medo!”, faz com que ela sinta que não deve sentir medo. Em vez disso, poderemos dizer: “Compreendo que tenhas medo, mas eu estou aqui contigo e não vou deixar que nada de mal te aconteça.”

É esta leitura emocional que faz com que a criança aprenda em situações futuras a identificar o que sente.

A educação emocional desde pequenos, torna-los-á CRESCIDOS com mais autoconhecimento, mais seguros de si, mais capazes de compreender o que os outros sentem. Crescerão mais disponíveis para a aprendizagem escolares e com mais capacidades relacionais com o mundo que os rodeia.

E, consequentemente, serão adultos mais saudáveis a nível psíquico.

Quase nunca me sinto cansado.

O mundo é um sítio enorme, cheio de coisas para descobrir, mas… tenho de ir para o colégio. Lá, tenho de fazer coisas que, às vezes, não me apetece nada.

Prefiro mil vezes brincar no recreio.

Eu sei que custa a acreditar, mas eu bem que quero e tento passar a matéria do quadro, só que é sempre nessa altura que tudo acontece. O meu colega do lado começa a conversar comigo, lá fora um carro apitou, ouço o Manel a falar baixinho lá atrás, um lápis caiu no chão, eu distraio-me e… Pronto! Quando volto a olhar para o quadro, já não sei onde é que eu ia. Fico baralhado e demoro a achar em que parte fiquei. Entretanto, já todos acabaram de passar a matéria, menos eu. Fico chateado…

A professora costuma dizer: – João, já acabaste de passar a matéria? Preciso de apagar o quadro!

Custa-me prestar atenção à aula e ao que a professora diz.

Ela pede-me para eu ser mais organizado com o material, mais atento à explicação da matéria, mas… Uma coisa é certa: concordo que me mexo muito, levanto-me da cadeira várias vezes, faço barulho com o lápis, falo muito e atrapalho a aula.

Acontecem-me quase sempre duas coisas: ou faço as coisas mal feitas porque quero fazê-las o mais depressa possível para ser o primeiro a acabar, ou então até quero fazer tudo bem feitinho e até ao fim, mas… não consigo! Começam os comentários: “preguiçoso”, “não te esforças”… Às vezes parece que ninguém me entende.

Por mais que eu tente, não consigo prestar atenção e terminar as tarefas tão bem como os outros. Como eu gostaria… A sério!

Quando estou com os meus amigos e vem à baila a matéria da aula, começam a rir. Às vezes até me chamam “totó”. Todos acham imensa graça… menos eu!

Quando estou na sala, sentado sozinho na mesa, sem perceber nada do que a professora está a dizer, começo a roer o lápis, a desmontar as canetas, a fazer desenhinhos no livro, a dobrar as pontas das folhas do caderno e a mexer com os pés sem parar.

Acho que preciso de estar em movimento para me sentir melhor.

A professora até diz que parece que tenho um tal de “bicho carpinteiro” no corpo. Às vezes também pergunta se a cadeira tem formigas porque não paro sossegado. Já reparei que quando a professora me faz uma pergunta eu respondo imediatamente. Na verdade, às vezes até respondo antes de ouvir a pergunta até ao fim. E só quando estou a responder é que reparo que não era nada daquilo…

E quando é para escrever? É complicado… Eu bem que gostaria de não ter de escrever aquilo tudo. Custa tanto!

Vou confessar um segredo: acho muito mais interessante ver o que se está a passar fora da sala de aula. Pela janela, vejo as folhas das árvores a balançarem, as nuvens a andar e o passarinho a voar. Pela porta, vejo quem está a passar no corredor.

Fico triste, irritado e confuso porque sei que as pessoas às vezes ficam cansadas de mim.

A minha professora já escreveu vários recados na agenda para a minha mãe: “ O João não fez os trabalhos de casa!”, “O João não trouxe o material”, “O João…”. Diz que sou distraído, que quando vou no corredor não olho por onde ando, que deixo cair as coisas das mãos, que vivo “no mundo da lua”. Fico triste. Às vezes tento disfarçar, finjo que não ligo… mas não é verdade!

Um dia, gostaria que todos dissessem: “- Olha, o João foi top! “ – Ah, como eu gostaria de ser top a fazer uma tarefa da escola. Lá em casa não é muito diferente da escola. Quando alguém faz alguma coisa de errado… “Foi o João!” E na verdade fui mesmo. Sei que não sou tão cuidadoso como deveria ser. Quando dou por mim… já fiz! E quando chega a hora de fazer os trabalhos de casa? É mau. A minha mãe começa a dizer para eu ir fazer os trabalhos de casa, eu enrolo, digo que vou já fazer, enrolo mais um bocadinho, digo que vou agora, ainda consigo arranjar mais uma desculpa, até ao ponto de ela ficar irritada e perder a paciência. Uma vez até fez o trabalho por mim… mas a professora percebeu logo!

Chegou um dia que a professora chamou os meus pais à escola e aconselhou-os a levar-me a um psicólogo porque ele poderia ajudar-me. Claro que disse logo que não. Fiquei com medo que os meus colegas inventassem mais um apelido. Mas… não tive saída. Lá fui, e até gostei, senti-me mais tranquilo! Conversou comigo e pediu-me para fazer umas coisas.

Então, num outro dia, o psicólogo chamou os meus pais e recomendou que eu fosse a um médico.

Pensei: “Será que estou doente?”. Quando cheguei lá, o médico falou comigo, fez-me muitas perguntas e até me pediu para fazer umas coisas também. Bem simpático! Ele disse que eu tinha dificuldade em prestar atenção e em ficar quieto e até disse como é que isso se chamava, mas é um nome tão comprido que eu não me lembro agora. Aliás, o psicólogo e o médico disseram que eu sou um miúdo inteligente. Como eu gostaria que os meus amigos tivessem ouvido!

Às vezes fico a pensar: Mas porque é que eu não consigo prestar atenção e fazer as tarefas se sou inteligente? Porque é que eu consigo passar horas infinitas em frente à televisão? Porque é que eu consigo jogar tão bem no computador e até ganhar ao Duarte?

A verdade é que me sinto melhor desde que todos me estão a ajudar: a minha família, a minha professora, o psicólogo e o médico. E eu estou a fazer o melhor que posso: a minha letra melhorou, já consigo prestar mais atenção, agora penso mais antes de fazer alguma coisa. Às vezes relaxo um bocadinho, mas depois esforço-me e continuo. Um dia, já nem sequer irei lembrar-me da frase: “- João, já acabaste de passar a matéria? Preciso de apagar o quadro!”.

Esta história é para ti

A ti: A história do João foi escrita para ti. O João conta coisas que sabes melhor do que ninguém. Por exemplo, como é ter aquilo que tem um nome mais difícil e comprido que “otorrinolaringologista”, a “perturbaçãodehiperatividadecomdéficedeatenção”.

De certeza que já te passou pela cabeça conversar com os teus pais, com a tua professora, ou com um profissional sobre como é difícil prestar atenção ou permanecer quieto. Poderás ler a história com eles, contar-lhes no que te pareces com o João e no que és diferente dele, e fazer-lhes todas as perguntas sobre as tuas dúvidas.

A história do João poderá ajudar-te a ter essa conversa!

Photo by Eddie Kopp on Unsplash

As mães também choram

A maternidade é uma das coisas mais universal do mundo.

Se, por um lado, isso nos ajuda a sentir que somos como tantas outras mães, muitas vezes também sentimos que por isso, por ser tão universal e tantas mulheres o viverem os nossos dramas nos isolam. Sentimos culpa, sentimos que não devíamos sentir coisas menos positivas, que não devíamos perder a paciência, que somos mal agradecidas em algumas ocasiões.

Sermos mais uma na maioria em alguns dias faz-nos sentir pequenas.

À conversa com a mãe de um amigo da minha filha senti mais uma vez a importância de sermos sinceras umas com as outras e partilharmos também as nossas derrotas. Ela contava-me que num final de um dia mais complicado, com birras, se tinha sentado na cama e chorado. E que o marido lhe tinha perguntado por que estava ela a chorar, porque não se tinha apercebido de nada de extraordinário.

Às vezes é assim, cumprimos esta nossa missão com tamanha assertividade que é uma surpresa para as outras pessoas quando nos vamos abaixo.

Mas isso acontece e é comum a todas as mais, numa altura ou outra do seu caminho.

Há as que choram no pós parto, as que choram quando amamentam, quando deixam de amamentar. Quando têm de pôr os filhos na creche, quando os vão buscar à creche mais tarde do que gostariam, quando vêem as contas a aumentar e têm de fazer ginástica para fazer face a todas elas. Quando se separam e percebem que a vida dos filhos nunca será igual (nem a sua) à que planearam, as que choram simplesmente porque estão cansadas.

Há alguns meses eram raros os dias sem incidentes à saída da escola da minha filha. Foi uma fase de birras feias em que a maior derrotada fui eu e a parentalidade positiva. Mas aí percebi que nenhum tipo de parentalidade resultaria porque simplesmente a minha filha entrava em modo automático e não via nem ouvia nada. Era exasperante e ela acabava por adormecer no caminho de casa, exausta. E não foram raras as vezes em que acompanhei o seu sono com lágrimas silenciosas. Lágrimas que me escorriam pelo rosto enquanto revia uma e duas vezes o que poderia ter feito de outra maneira, onde podia melhorar, o que poderia fazer no dia seguinte para evitar este desgaste.

Aos poucos as coisas foram melhorando, até porque as crianças vão crescendo de dia para dia, ultrapassando as suas próprias barreiras.

Chorei em frente à minha filha – contra o que algumas pessoas me disseram que deveria fazer “para ela não perceber o efeito que tinha em ti”. Permiti-me chorar exactamente pelo contrário, para que ela pudesse testemunhar que as suas acções têm consequências. Naturalmente que não chorei para lhe imputar um sentimento de culpa, num discurso de “vês como a mãe fica quando te portas assim?”. Chorei porque não aguentava mais e em vez de ir para o quarto esconder-me, deixei que ela visse. Abri a porta ao diálogo.

E senti a empatia dela.

Ajudou-nos a falar do que tinha corrido mal.

E foi a excepção, naturalmente. Não tenho qualquer memória de ver os meus pais a chorar. E não quero que essa seja uma memória activa da infância da minha filha. Mas ali foi orgânico. Porque ao pé dela já chorei de felicidade, de emoção.

Por que motivo nos escondemos quando as nossas emoções não são positivas?

E quando a mãe do amigo da minha filha, que eu considero uma super mãe, super assertiva e firme, sempre no controlo de tudo, me disse que tinha chorado eu senti-me abraçada. Acompanhada. Compreendida. Senti que fazia parte para todas nós.

As mães mais ou menos seguras.

As mães mais ou menos disciplinadoras.

As mães mais ou menos sensíveis.

As mães.

Porque as mães choram.

E não há mal nenhum nisso.

As palavras positivas e o aumento da auto-estima dos nossos miúdos

Há uns dias assisti a um programa onde a convidada era uma professora com formação na área da psicologia que desenvolvia um trabalho muito interessante junto das escolas.

Começou a fazê-lo quando se apercebeu que as crianças do primeiro ciclo, nomeadamente as de sete e oito anos, tinham dificuldade em utilizar palavras positivas para se descreverem.

Enquanto pais acredito que achemos isto estranho porque se pedirmos aos nossos filhos para falarem de si eles apontarão a cor do cabelo, dos olhos e por aí. Mas é das emoções que se trata e da forma como se vêem a eles próprios. Nenhuma das crianças dizia que era divertida, bem-disposta ou forte.

Tenho uma rotina com a minha filha depois de a ir buscar à escola que passa por a fazer enumerar as duas coisas que gostou mais no seu dia e as duas que gostou menos. Invariavelmente as negativas são as chamadas queixinhas. Comecei por não aceitar mas percebi que ao fazer-me as tais queixas havia emoções por trás das acções que as desencadeavam.

Assim, quando ela me diz “o que gostei menos foi quando o X me empurrou no recreio” ou “quando a Y disse que não queria ser minha amiga” tento, em vez do automático “pois, isso não se faz”, enveredar pelo “e como é que isso te fez sentir?”.

Porque é importante as crianças conseguirem identificar as suas emoções.

Só estando estas emoções devidamente identificadas podem ser descritas e só assim se pode explicar por que motivo são consequência dos comportamentos dos outros e, acima de tudo, o que gostaríamos que tivesse acontecido. E o que faríamos no lugar do outro.

Não raras vezes quando a minha filha está a brincar ao faz de conta ralha com os amigos. Aponta o que estão a fazer de errado. Outras vezes até diz “a não sei quantas não quer ser minha amiga, não sejam amigos dela”. Isto existe desde sempre, lembro-me quando era eu a estar no meio deste ritual. Tinha uma amiga mais nova com a qual nunca brincava no recreio da escola, apesar de sermos amigas fora da escola, porque havia uma amiga sua que não a deixava. A marca que isso me deixou foi a da irritação, mais do que a da mágoa. Porque tinha a sorte de ter outros amigos e de não sentir esta falta. Mas há crianças cujo núcleo duro de amizades próximas se reduz a mais um amigo. E nestes casos estas atitudes podem ter um impacto muito grande.

Ainda na semana passada, ao falar com uma das meninas novas da sala da minha filha que sempre que me vê me abraça, perguntei: “o teu dia foi bom?” E ela disse que não porque uma das amigas não quis brincar com ela.

Faz parte? Claro que sim.

Queremos que os nossos filhos cresçam para serem emocionalmente independentes dos outros, mas o crescimento, o verdadeiro crescimento, faz-se das relações que se estabelece com o meio e com os que nos rodeiam.

Por isso tento explicar à minha filha que se não gostou de se sentir excluída não deverá fazê-lo quando a situação for oposta. E isto serve para tudo na vida.

Outro exercício que tento fazer com a minha filha é “gostas da X porquê?” e só aceito as respostas quando têm alguma profundidade, quando chegam ao “ela tem paciência para brincar comigo” ou “quando estamos juntas cantamos e isso deixa-me feliz”.

Trabalho muito a questão da imagem própria valorizando o que se é e não o que se aparenta.

Valorizo as conquistas.

Elogio o esforço.

Evito que a minha filha me oiça falar de forma menos positiva das outras pessoas.

É expressamente proibido criticar os mais velhos. Quando ela me aponta um comportamento que supostamente vai contra aquilo que lhe foi ensinado eu texto explicar. E muitas vezes explico que há coisas que não têm explicação, as pessoas fazem coisas que não devem. Erram. Porque somos todos humanos, mesmo os mais crescidos.

E os mais crescidos também ainda estão a aprender.

Acredito que miúdos que têm as suas emoções reconhecidas têm menor tendência para as retrair. 

Muitas vezes podem não nos parecer legítimas ou justas (“nunca me compras nada, não me deixas fazer nada”) mas é importante que sejam valorizadas no contexto, nem que seja para a criação do diálogo.

Quantas vezes estamos a fazer uma coisa e nem nos apercebemos do quão errados estamos? Este feedback também nos ajuda a ser melhores pais. E a ganhar confiança nas opções que tomamos quando elas correm bem.

Queremos que os nossos filhos sejam adultos saudáveis e isso só é possível se esta saúde lhes for proporcionada por nós. Seja em forma de sopa e legumes, seja em forma de amor e inteligência emocional.

Como estimular a inteligência emocional do seu filho

O que é a inteligência emocional?

Daniel Goleman, psicólogo e escritor americano, define Inteligência Emocional como sendo a capacidade de reconhecer, compreender e gerir os nossos próprios sentimentos e emoções, assim como uma maior facilidade em reconhecê-los e compreendê-los nos outros.

Seja através de expressões faciais ou do tom de voz, tem-se uma maior empatia para com aquilo que se sente e para com quem nos rodeia. De acordo com este investigador, a inteligência emocional é o que nos permite reconhecer variações emocionais mais subtis, e utilizar as emoções para facilitar o próprio pensamento e raciocínio.

Estimular a inteligência emocional

A inteligência emocional pode e deve ser estimulada desde cedo na vida de uma criança. Crianças que desenvolvem a sua inteligência emocional têm maior capacidade para gerir as suas emoções internas. Apresentam maior habilidade no relacionamento com os outros e maior auto-motivação para concretizar objectivos. Têm, em suma, maior probabilidade de vir a ter sucesso – pessoal e profissional – enquanto adultos.

Neste sentido, a equipa do Centro SEI, dá-lhe algumas dicas de como pode estimular a inteligência emocional do seu filho:

1 – Seja empático com o seu filho

Imagine que o seu filho está triste ou desiludido com qualquer coisa. Um brinquedo que se partiu, um balão que voou, um amigo com quem se zangou, um jogo que perdeu… Mesmo que não possa fazer nada de concreto para resolver o seu sentimento de tristeza, e que até lhe pareça que ele está a ter uma reacção exagerada, tente ser empático com ele. O pai poderá dizer-lhe: “imagino como te sentes. Provavelmente sentes-te triste e frustrado. Estavas à espera de ganhar e lutaste por isso, mas depois perdeste. Eu lembro-me quando tinha a tua idade também perdi um jogo e o que senti foi parecido… O que fiz na altura foi tentar aprender com a derrota para jogar melhor da próxima vez!”. Deste modo, a criança sente-se compreendida e aceite, e a crise passa.

Ser-se compreensivo é tudo quanto basta para ajudar alguém a libertar-se de sentimentos angustiantes. Sejam eles causados por assuntos sérios ou por um simples acumulado de eventos insignificantes. Explodir permite-nos libertar-nos dessas emoções negativas e seguir em frente sem o peso delas.

Lembre-se que empatizar com o seu filho não significa necessariamente que concorde com ele. Mas tão somente que é capaz de ver a sua perspectiva e de ser solidário com o que ele está a sentir.

As vantagens:

– ao sentir-se compreendida, há libertação de elementos bioquímicos calmantes na criança, através de um processo neurológico que será fortalecido sempre que a criança vive essa sensação de alívio. Será este processo fundamental que ela irá usar para se acalmar a si própria, mais tarde, enquanto adulta.

– a empatia é “contagiante”.  As crianças desenvolvem empatia através da empatia que vivenciam através dos outros.

– ao fazê-lo, estará a a ajudar o seu filho a refletir sobre a sua própria experiência e a tomar consciência das suas emoções. A própria verbalização do seu sentimento é, por si só, uma valiosa ferramenta para aprender a gerir as emoções ao longo da sua vida.

2 – Permita ao seu filho expressar-se

Dado que as crianças não conseguem distinguir as suas emoções do seu “eu”, sempre que não aceitar ou tiver tendência para minimizar as emoções do seu filho, estará a transmitir-lhe a mensagem de que alguns dos seus sentimentos são vergonhosos ou inaceitáveis.

Ao desaprovar o medo ou a raiva do seu filho, não só estará a impedi-lo de viver esses sentimentos, como poderá estar a forçá-lo a reprimi-los. Ao contrário das emoções que são expressas livremente, as quais tendem a desaparecer, sentimentos que são reprimidos tendem a ficar “presos” dentro da criança, como que à procura de uma saída. Acabam por sair cá fora de forma não modulada. Por exemplo através de gestos agressivos, tiques nervosos ou pesadelos durante o sono. Pelo contrário, ao permitir que o seu filho se expresse livremente, estará a ensinar-lhe a aceitar e a compreender que toda a gama de sentimentos é compreensível e parte integrante do ser humano, mesmo que algumas ações devam ser limitadas.

Numa situação em que o seu filho se sinta em conflito, em vez de censurá-lo ou atropelá-lo, poderá ajudar o seu filho a traduzir em palavras o que acha que ele sente e que ele ainda tem dificuldades em nomear: “Eu acho que te deves estar a sentir frustrado. Eu também sinto isso às vezes quando não consigo fazer aquilo que quero… O que normalmente faço é ver o lado positivo das coisas que acontecem!”. Deste modo, a criança aprende a identificar sentimentos, sente-se compreendida e aceite e a crise passa.

As vantagens:

– o seu filho vai aprender a aceitar as suas próprias emoções.
Por conseguinte terá maior capacidade de as regular. Isto é fundamental para permitir-lhe resolver os seus próprios sentimentos e conseguir seguir em frente.

– a criança aprende que a sua vida emocional não é perigosa nem vergonhosa.
Mas sim universal e passível de ser gerida. Desta forma, ela descobre que não está sozinha e aprende a aceitar-se tal como é, incluindo as suas partes menos agradáveis .

3 – Ensine-o resolver problemas

Emoções não são mais do que mensagens que o nosso cérebro emite para nos comunicar qualquer coisa. Se conseguir ensinar o seu filho a assumir essas emoções, a senti-las e a tolerá-las sem o impulso de agir sobre elas, estará a contribuir para que ele aprenda a gerir os seus próprios dilemas.

Na maioria dos casos, assim que a criança (ou o adulto) sinta que as suas emoções são compreendidas e aceites, os sentimentos negativos que lhe estejam associados perdem importância e começam a dissipar-se, criando-se um espaço para a resolução de problemas.

Por vezes, as crianças podem desenvolver essa capacidade sozinhas. Noutros casos talvez precisem de apoio para melhor compreender o que se passa. Em todo o caso, resista ao impulso de tentar imediatamente resolver o problema da criança, a menos que ela lhe peça ajuda directamente. Isto é fundamental para que ela sinta que você tem confiança na sua capacidade de lidar consigo mesmo e de encontrar soluções construtivas para os problemas.

Crianças que desenvolvem a sua inteligência emocional têm maior probabilidade de vir a ter sucesso – pessoal e profissional – enquanto adultos.

A importancia de deixarmos que as crianças se sintam tristes

No nosso dia a dia, temos por hábito supervalorizar tudo aquilo que é bom e positivo. Querer sempre que as crianças estejam a rir e felizes.

É inquestionável que, é bom que as crianças estejam felizes e a rir, no entanto, só gostamos que estejam a assim, porque genuinamente o estão a sentir.

O que nos preocupa, é que, cada vez mais, na ânsia de querermos crianças felizes, exercemos uma grande força de bloqueio a tudo o que é socialmente considerado como negativo. Ou seja, é como se não permitíssemos que as crianças fiquem tristes, ou sintam medo, por exemplo.

Assim, aos poucos, as crianças vão interiorizando, ao longo do seu crescimento, que não devem chorar, que não devem estar tristes, que não se devem zangar com ninguém e que sentir medo é para os fracos. Estamos a abrir espaço à contenção daquilo que as crianças vão sentido, estamos subtilmente a ensina-las que não aceitamos esses estados  socialmente considerados como menos bons, com os quais elas se vão deparando. Estamos a fazer com que a criança se vá distanciado de si, e que só nos mostre os lados bons de si própria e todos os outros os atire para debaixo do tapete.

O grande problema é que ao atirar todos os outros lados para debaixo do tapete, embora nos pareça à partida que resolveu essas questões, todas elas estão a acumular-se dentro de si. Estão todas dentro do seu coração sem que ela lhe consiga dar sentido. Vão-se acumulando até ao dia em que a criança explode e de repente, uma criança que até aí parecia perfeita, desenvolve um quadro depressivo, perturbações do comportamento ou até a tão característica agitação, entre tantas outras fragilidades que vão comprometendo os seus recursos saudáveis.

As crianças e as emoções

As crianças – tal como os adultos – vivem com um sem fim de coisas dentro de si, que se não lhe permitimos em tempo real expressar, vão ficando a pairar dentro dela.  A criança não consegue dar um nome a estas emoções. Não consegue pensar sobre isso, e estas vão-se acumulando sobre a forma de ruído.

O essencial é que quando a criança está triste, permitamos que chore. Permitamos que se sinta triste e sejamos capazes de suportar essa tristeza. O mesmo quando a criança tem medo, ou se zanga – sim ela pode zangar-se, desde que à custa de se zangar não bata nos colegas, ou nos pais. A criança precisa de aprender que pode sentir tudo e que há uma linha que a permite expressar as suas emoções de forma a que não se magoe, nem aos outros.

No fundo, a premissa é simples: ninguém está feliz todos os dias.

Por isso, não o podemos exigir a uma criança, e temos de lhe ensinar que é normal e desejável que assim não seja, para que, de tristeza em tristeza, de decepção em decepção, de zanga em zanga, de medo em medo, a criança aprenda a expressar e reciclar em tempo real tudo aquilo que vai sentido.

Pois, só somos plenamente felizes se aceitarmos, integrarmos e dermos sentido a tudo o que se vai passando dentro de nós e na relação com os outros. Só assim nos estamos a respeitar e a criar um espaço de encontro com a felicidade e o bem-estar pessoal.

Só quando permitirmos que uma criança esteja triste sem dizermos “pára de chorar” estamos a permitir a verdadeira expressão das suas emoções e dar-lhe espaço para a verdadeira felicidade.

imagem@siraplimau

A meditação na escola é cada vez mais uma prática corrente nos Estados Unidos, Canadá, Bélgica e Suécia que são países vistos como referência nesta prática e está a dar os primeiros passos em Portugal. Os estudos já são inúmeros e as vantagens também já são visíveis.

Fique a saber mais sobre esta prática e conheça as escolas portuguesas que já o praticam!

Em que consiste a meditação?

É uma prática maioritariamente associada ao yoga ou budismo, mas é na verdade comum a várias religiões. No entanto a sua prática não tem de estar, necessariamente, associada a nenhuma delas.

O seu objetivo é treinar corpo e mente a viver no momento presente para que possamos apreciar cada momento em pleno.

Quais os benefícios de meditar?

Fortalece a capacidade cerebral – Aumenta o foco e concentração, o que por sua vez, melhora o processamento de informação nas salas de aula e durante o estudo

Ajuda a que os jovens se conheçam melhor – Através da meditação, as crianças podes descobrir melhor os seus interesses, avaliar quais as suas prioridades e compreender melhor a vida e o que os rodeia

Desenvolve o sistema imunológico – A meditação regular protege contra doenças, diminuindo o stress e a ansiedade que afeta tantos dos nossos alunos

Beneficia as relações – Ao aprenderem a viver no momento presente e ao sentirem mais calma e segurança, as relações com a família, amigos e professores acabam por sair beneficiadas e mais fortes

Melhora os índices motivacionais – Vários estudos já comprovaram que os jovens que praticam meditação aumentam a sua autoestima e confiança, o que se traduz em alunos mais motivados e criativos

Exemplos de escolas portuguesas

Em Gondomar, o Agrupamento de Escolas de Valbom já iniciou esta iniciativa no ano de 2015 com a introdução de reiki como parte do projeto “Escola em Movimento”.

Com o objetivo de ajudar os alunos a terem um melhor desempenho na escola, os docentes verificaram também que esta prática tinha outros benefícios, entre os quais ser uma atividade onde os alunos podem falar abertamente sobre o que os preocupa, já que muitos demonstraram essa necessidade. Assim, esta experiência já foi alargada com a introdução de yoga, meditação e tai chi.

O Agrupamento de Escolas da Marinha Grande já iniciou também esta iniciativa de introduzir a meditação em ambiente escolar. Os alunos do ensino básico já estão a ficar habituados aos 60 segundos de silêncio e concentração na respiração que os professores praticam com eles todos os dias.

As melhorias já começam a ser visíveis e os níveis de concentração, autoestima e confiança já se fazem notar. Com alunos mais motivados a aprender e professores mais tranquilos, este projeto vai continuar a fazer parte do dia-a-dia escolar.

Conheça aqui a história.

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Não falamos muito dos nossos mortos

Não falamos muito deles, pois não? Dos nossos mortos.

Às vezes, durante o banho, vem uma sensação de que não morreu.

Outras vezes, à noite, choramos sozinhos com saudade. Outras ainda, sonhamos um sonho real em que estão vivos. Tinha sido engano. Depois, quando acordamos, a verdade chega outra vez.
Um dia, pareceu-me que esperava que telefonasse. Que, simplesmente aparecesse. Não falamos muito deles. E dói.
Este dia repete-se.
Mas não queremos chatear. Desejávamos saber mais. Lembrar mais.
Este não querer chatear os outros, não querer partilhar, deixa os nossos mortos só para nós.
Ninguém imagina a falta.
Às vezes, tento pensar nas últimas palavras que trocámos. Às vezes, em vão…
E aí, resolvemos abraçar os que estão. Dizer o que falta. Que fazem falta.
E às vezes não falamos muito com eles, pois não?
Quando morrer não gostava que dissessem que parti. Não usem eufemismos. Digam morreu. Digam, lá está ele com aquelas coisas. Mesmo assim deitado, lá está ele.
E falem de mim.
Não me guardem.
Abracem quem amam.
Não me culpem. Já não vai valer a pena. Não usem frases feitas e aborrecidas*. Comam.
Não te culpes, claro. Como às vezes fazemos com os nossos mortos.
Sei que sofres mais do que eu. É assim mesmo. Há sempre alguém que sofre mais.
Mas isso não ilegítima a nossa dor.
Às vezes, no sonho, não queremos acordar.
Só às vezes.
*Amanhã é outro dia.

image@AdrianMurrey

 

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“Comportamo-nos como se as pessoas de quem gostamos fossem durar para sempre. Em vida não fazemos nunca o esforço consciente de olhar para elas como quem se prepara para lembrá-las. Quando elas desaparecem, não temos delas a memória que nos chegue. Para as lembrar, que é como quem diz, prolongá-las. A memória é o sopro com que os mortos vivem através de nós. Devemos cuidar dela como da vida. ”  Miguel Esteves Cardoso