Principais sinais de alerta para a PHDA de acordo com diferentes idades

É difícil de detetar e fácil de confundir.

Sim, é uma alteração neurológica cada vez mais comum mas, ao contrário do que possa parecer, nem sempre é simples identificar os sintomas da Hiperatividade com Défice de Atenção (PHDA).

Não pense que esta perturbação é provocada por falta de empenho ou de dedicação e até de uma eventual má educação dada pelos pais em casa. Não! Se o seu filho tem este problema é porque se verificam fragilidades nas ligações neuronais em determinadas áreas cerebrais, normalmente mais pequenas se comparadas com as de outras crianças.

O que é a PHDA

A PHDA é uma condição física crónica que se caracteriza pelo subdesenvolvimento e disfunção de algumas partes do sistema nervoso central.  Manifesta-se, regra geral, por volta dos 3 anos e, quase sempre, antes de atingir os 7.

Consiste numa perturbação do desenvolvimento neurológico que provoca um excesso de atividade motora, baixo controlo da impulsividade e/ou dificuldades de concentração. Estas crianças têm dificuldade em selecionar informação e em prestar atenção a dois estímulos em simultâneo.

Surge, geralmente na primeira infância, com diversos sinais de alerta, que variam consoante o género e a idade. Podem prejudicar ou ter impacto na aprendizagem e no desenvolvimento social.  Estima-se que afete entre 5 a 7 por cento das crianças em idade escolar e cerca de 4 por cento dos adultos.

Os especialistas não têm dúvidas, as crianças com hiperatividade não tratadas a tempo terão mais dificuldades na adolescência, tanto ao nível do aproveitamento escolar, como, também, da socialização. A falta de intervenção adequada pode ter um efeito devastador ao longo da vida.

Para que não persistam dúvidas: regra geral, as crianças e os adultos com hiperatividade têm uma inteligência acima da média e podem vir a aproveitar o seu potencial, caso sejam bem acompanhadas à medida que vão crescendo.

Não existe, todavia, uma intervenção que suprima esta condição neurológica, mas quanto mais cedo o diagnóstico melhor.

A equipa do SEI tem vasta experiência em lidar com esta perturbação, nomeadamente ao nível da deteção precoce e da implementação de estratégias psico-educacionais capazes de minimizar o problema, melhorando o desempenho escolar ou profissional e as relações interpessoais.

Dentro da PHDA há diferentes níveis de intensidade, ou seja, os sintomas vão variando de pessoa para pessoa, do mais ligeiro ao mais grave.

Neste artigo pretendemos assinalar os principais sinais de alerta de acordo com a idade da criança. Consulte a lista e observe o seu filho por um período de tempo, nos diversos contextos do seu dia-a-dia, e verifique se apresenta alguns dos sinais de alerta.

Lembre-se que, ocasionalmente, todas as crianças manifestam comportamentos mais impulsivos, agitados ou desatentos. É necessário saber distinguir os diferentes comportamentos de acordo com os contextos.

Se suspeitar que o seu filho possa ter uma PHDA consulte um profissional e solicite uma avaliação especializada.

Principais sinais de alerta para a PHDA

Idades compreendidas entre os 3 anos e os 7 anos

  • Apresenta dificuldades em iniciar tarefas e/ou rotinas diárias, como vestir ou arrumar os brinquedos;
  • Frequentemente, ignora ou cumpre tardiamente as instruções/indicações/pedidos que lhe são dados;
  • Apresenta/Manifesta dificuldade em manter-se sentada durante as refeições ou na realização de atividades de grupo comparativamente com as crianças da mesma idade;
  • Levanta-se, mexe-se ou conversa em situações onde é pedido/suposto ficar sossegada ou em silêncio;
  • Apresenta dificuldades em terminar uma atividade para iniciar outra;
  • Esforça-se para fazer as atividades/tarefas com cuidado;
  • Necessita de ser relembrada, frequentemente, para parar ou ouvir;
  • Tem dificuldade em prestar/manter a atenção comparativamente com as crianças da sua idade;
  • Vai buscar coisas/materiais sem permissão;
  • É incapaz de esperar pelas instruções/indicações da tarefa antes de a iniciar;
  • Demora bastante tempo e/ou necessita de encorajamento para realizar as suas rotinas diárias;
  • Apresenta dificuldade em relembrar-se das indicações/pedidos;
  • Apresenta dificuldade em lembrar-se/recordar-se de factos que aprendeu recentemente;
  • Tende a ficar aborrecida ou irritada (frustrada) em situações de menor importância;

Idades compreendidas entre os 8 anos e os 12 anos

  • Apresenta dificuldades em iniciar tarefas/atividades, principalmente/especialmente quando a tarefa/atividade apresenta mais do que um passo;
  • Frequentemente, é inquieta/irrequieta;
  • Frequentemente, é irrequieta, conversadora em situações onde é pedido/suposto ficar sossegada ou em silêncio;
  • Tende a esquecer-se do que acabou de ouvir ou ler, a não ser que seja algo do seu interesse;
  • Frequentemente, realiza as tarefas/atividades de forma apressada e/ou descuidada;
  • No quotidiano não é capaz de demonstrar todas as suas capacidades/competências, na escola ou na realização dos trabalhos de casa;
  • Desconcentra-se, e/ou fica “no mundo da lua”, frequentemente;
  • Frequentemente, muda de tarefa/atividade sem terminar as anteriores;
  • Apresenta dificuldades em lembrar-se do que fez no seu dia-a-dia;
  • Tende a esquecer-se de entregar/fazer recados e/ou os trabalhos de casa;
  • Esforça-se para não perder as suas coisas;
  • Apresenta dificuldades em esperar pela sua vez, para se juntar numa conversa ou atividade;
  • Preocupa-se, que se vá esquecer do que quer dizer, a menos que o diga imediatamente;
  • Apresenta dificuldades em pensar nas consequências das suas ações;
  • Frequentemente, fala ou faz coisas sem pensar nas consequências;
  • Trabalha devagar;
  • Apresenta dificuldade em terminar tarefas/atividades dentro de um período de tempo razoável;

Adolescência

  • Apresenta dificuldades em organizar-se ou estabelecer prioridades;
  • Apresenta dificuldades em iniciar os trabalhos de casa e/ou uma tarefa/atividade proposta/atribuída;
  • “Desliga”/Desconcentra-se quando está a ouvir alguém ou a ler;
  • Frequentemente, necessita de reler as informações dadas ou de pedir às pessoas que repitam o que disseram porque não se lembra;
  • Apresenta dificuldade em manter-se focada;
  • Frequentemente, se desconcentra da tarefa/atividade, a menos que a mesma seja do seu interesse;
  • Frequentemente, realiza as tarefas/atividades de forma rápida e desconcentrada/desorganizada, originando erros;
  • No quotidiano, não é capaz de demonstrar todas as suas capacidades/competências, na escola ou na realização dos trabalhos de casa;
  • Apresenta dificuldade em recordar-se/lembrar-se das informações quando necessário;
  • Esforça-se, na realização dos testes, para se recordar/relembrar o que estudou e/ou sabia na véspera;
  • Apresenta dificuldades em lembrar-se do que fez no seu dia-a-dia;
  • Frequentemente, esquece-se de escrever o que tem de fazer e de as fazer;
  • Frequentemente, age de maneira impulsiva;
  • Fala ou faz coisas sem pensar no que pode resultar;
  • Frequentemente, trabalha devagar;
  • Apresenta dificuldade em cumprir prazos e/ou em finalizar os testes dentro do tempo atribuído;
  • É inquieto/irrequieto frequentemente;
  • Frequentemente, não consegue parar de falar ou de mexer nos objetos com a mão.

Pais presentes criam filhos independentes e autónomos

Tão interessante perceber que o que os pais mais querem é filhos independentes e autónomos. Querem que façam as coisas por eles, que não dependam de ninguém. Querem que não estejam atrasados no desenvolvimento. Que não haja nada de errado quando parece que já deviam ter dado aquele passo ou ter dito aquela palavra.

O foco está todo em forçar a independência. E “forçar” é a palavra-chave aqui, que advém das nossas crenças. Da forma como nos sentimos perante a “dependência” e que nos leva agir de uma forma, por vezes, até inconsciente na relação com as crianças. Se a relação tiver um começo que é a dependência e um fim que é que independência, um fim como sendo um objetivo, o nosso foco está, na maioria das vezes, nessa independência.

E na verdade, famílias, o foco deveria estar nas seguintes perguntas:

O que eu posso ser agora para o meu filho para que ele venha a ser independente de uma forma saudável?

O que é necessário para que ele sinta que tem os recursos todos para ser quem é?

Quando nos focamos apenas no quer ser independente, estamos com toda a nossa atenção no futuro e a forçar o desenvolvimento da criança. Fora do ritmo da criança. É, por exemplo, quando pegamos o bebé pelos braços para ele começar andar, quando ele ainda não demonstrou sinais para o fazer. É o que fazemos quando começamos a forçar as palavras, sem que a criança comece a fazer sons com a voz. Com isto, não significa que o melhor seja não interagir com a criança. A diferença que eu quero reforçar aqui, é o quanto é importante estarmos presentes no agora.

Como?

Observando como estou a sentir-me. Reconhecendo, observando a criança, sendo um canal facilitador para o seu desenvolvimento, como as margens de um rio que vai desaguar no oceano.

Maria Montessori

Maria Montessori tem uma frase que ajuda a perceber esta questão: “ajuda-me a crescer, mas deixa-me ser eu mesmo”. Montessori diz que a criança nasce com um mestre interior. Uma vozinha que lhe diz o que precisa de fazer naquele momento. E essa vozinha, muitas das vezes, devido ao nosso ego, à falta de conhecimento, é lhe dito que não tem espaço para se expressar. É o exemplo da criança que quer subir as escadas e os pais acham extremamente perigoso. Neste caso, é necessário apenas que o adulto esteja a suportar aquilo que a criança quer fazer naquele momento.

O que seria se permitíssemos que a voz da criança se expressasse mais?

Para existir independência da criança, é necessário que haja uma dependência que lhe transmita segurança. Uma base de sustentação, um espaço único de expressão, de liberdade para ser quem ela já é.

A dependência e a independência fazem parte do mesmo círculo. Vivem muito bem uma com a outra. E são necessárias à nossa existência saudável quando nos ajudam a expandir e a crescer.

 

image@ Lorri Lang por Pixabay 

Perturbação de aprendizagem não verbal

Já ouviu falar?

É uma dificuldade ainda pouco conhecida, mas existe.

Há crianças que leem bem e escrevem de forma correta.

Revelam uma boa capacidade de memória.

Falam bastante e, muitas vezes, numa idade ainda precoce, mostram-se muito curiosas fazendo muitas perguntas, o que os leva a serem vistos como crianças com grande capacidade de aprendizagem.

Mas, com o tempo, revelam dificuldades de compreensão, expressão e relacionamento social.

Por exemplo, leem um texto, mas têm dificuldade de resumir o essencial, de realçar o mais importante.

As ironias, ou a expressão corporal são “pedras no sapato”, tão difíceis de entender, que se transformam num obstáculo a novas amizades e ao bom relacionamento social.

Sinais a ter em atenção:

RACIOCÍNIO LITERAL

Crianças com perturbação de linguagem não verbal tendem a encarar tudo de forma literal.

Um adulto, já universitário, confessou-nos que passou muito tempo em criança assustado com a possibilidade de um dia ser deixado sozinho na linha do comboio, tudo porque, quando se portava mal, a mãe dizia-lhe: “vou-te pôr na linha”. Este tipo de compreensão à letra é próprio de quem tem dificuldades ao nível da linguagem não verbal.

A expressão corporal é outro desafio. Um sorriso nervoso, num meio de uma conversa triste, pode levar uma criança com perturbação de linguagem não verbal a rir à gargalhada porque não entende o peso do sinal que lhe foi transmitido.

Uma dificuldade que contribui, muitas vezes, para que estas crianças sejam geralmente muito dependentes dos pais, precisamente porque sentem grandes dificuldades em relacionar-se com os pares.

DIFICULDADES MOTORAS:

Problemas de coordenação e de movimento são comuns.

Geralmente estas crianças e adultos passam a ideia de “desajeitados”. Recortar um desenho com uma tesoura, por exemplo, ou até mesmo andar de bicicleta podem ser tarefas difíceis.

RELAÇÃO ESPAÇO-VISUAL:

Apesar das dificuldades de relacionamento que apresentam é comum estas crianças manterem-se demasiado perto da pessoa com quem comunicam. O que se justifica com a dificuldade que têm em relacionar o que veem com o espaço em que estão.

Pela mesma razão é bastante habitual que recordem facilmente o que ouviram, sem que o consigam relacionar com o que viram.

NA ESCOLA:

Devido à dificuldade em compreender conceitos mais abstratos são alunos geralmente com dificuldades ao nível da matemática, sobretudo na resolução de problemas com uma componente que exija uma compreensão escrita.

O que está na origem do problema e como procurar ajuda?

Por enquanto não se sabe ao certo que disfunção no cérebro provoca o Perturbação da Aprendizagem Não Verbal. Não há por isso um tratamento para o problema, mas é possível encontrar estratégias que o permitam superar da melhor forma.

Com a idade os sintomas tendem a ser mais evidentes. As crianças geralmente percebem que entendem o que os rodeia de uma forma diferente dos restantes amigos ou colegas de escola. Sem ajuda poderão desenvolver problemas de ansiedade, que no limite podem levar a comportamentos compulsivos.

Procure a ajuda de um especialista.

Um psicólogo educacional ou um psicopedagogo, será capaz de traçar uma estratégia que passará sempre por identificar quais são as maiores dificuldades do seu filho e as competências em que revela maiores potencialidades.

A intervenção envolverá sempre os pais, que querem ajudar os filhos, mas muitas vezes sem saber como o podem fazer.

Um especialista, dar-lhe-á instrumentos para que o dia a dia possa tornar-se mais fácil. Há truques de linguagem que podem, de forma imediata, levar o seu filho a sentir-se mais compreendido. O apoio especializado ajudá-lo-á também a fazer a ponte com a escola, com indicações que podem facilitar a abordagem dos professores.

Acima de tudo não desanime, ao tentar resolver um problema estará também a permitir que o seu filho descubra o que tem de melhor, uma aprendizagem que terá boas recompensas no futuro.

O grito das crianças ou será o grito dos pais?

Hoje trago-te uma partilha de uma conversa com uma mãe. Uma mãe que decidiu partilhar comigo a dor de uma criança que grita, que chora e que bate. Uma criança igual a tantas outras, com necessidades por preencher. Tal como nós, adultos.

Contava-me esta mãe que na escola da filha existia uma criança que demonstrava um comportamento totalmente descontrolado. Que fazia com que os pais das outras crianças ficassem sem saber o que fazer e demonstraram até a vontade de retirar os seus filhos daquela escola. Era uma criança com 10 anos que batia em todas as crianças e que gritava muito. Não conseguia ficar quieta e que usava frases como “Eu sou má”, repetindo vezes e vezes sem conta.

Esta escola está integrada num contexto que consegue dar às crianças todos os recursos necessários, excepto um.

O amor incondicional.

Eu consigo imaginar o sofrimento desta criança ao colocar na sua identidade esta palavra. Apesar de que eu com a idade dela era o oposto. A tímida, a caladinha, a sossegada. Palavras que ficam marcadas na nossa pele, rótulos carimbados nos nossos corações. Percebo também a insatisfação dos outros pais. Nenhum pai gosta que os filhos cheguem a casa a dizer outra criança lhes bateu. Enquanto, pais, criança, escola, educadores, pais das outras crianças se debatem em praça pública, quem mais sofre no meio disto tudo? A criança que até hoje pediu ajuda à sua forma e até agora não teve uma resposta que a pudesse ajudar. Em causa, não está o amor destes pais, também os pais precisam de ajuda.

Continuamos a conversa e dizia eu a esta mãe, que as crianças têm muitos dons e, por vezes, os filhos gritam pelos pais. Dão voz às dores internas, as frustrações, as insatisfações, aos sonhos não concretizados, à falta de auto-estima dos próprios pais. Se não queremos que os filhos gritem as nossas dores, é o momento exato de pedir ajuda.

Pais e filhos têm igual valor mas a responsabilidade por manter a relação saudável é dos pais.

São os pais que têm os recursos necessários para promover o bem-estar dos seus filhos. E está tudo na relação, os pais são a ponte para os filhos conhecerem o mundo, desde do primeiro dia. São a ponte para explorar e e a ponte para regressar quando precisam de amor, colo, cuidados e segurança.

A conversa continuou a desenvolver-se com esta mãe até que ela me questionou “Como podem outros adultos e outras crianças amar uma criança tal e qual como ela é, sabendo que tem este comportamento?”. E eu pergunto-vos, que respostas dariam? Se fosse na escola dos vossos filhos o que fariam?

A minha resposta foi, em primeiro lugar, a necessidade de toda a comunidade praticar compaixão por aquela criança e pelos pais. Perceberem que quando estão a colocá-la à margem de tudo e de todos pelo seu comportamento, não estão a ajudar a criança, pois ela própria já diz “Eu sou má”.

Se, em alguns momentos das nossas vidas, abrandássemos o ritmo, olhássemos sem julgamento e para além do comportamento, o que será que viríamos naquela criança que hoje não vemos?

Como podemos ajudar uma criança que já diz “Eu sou má”, a retirar da sua identidade palavras destrutivas?

Como podemos cuidar da auto-estima de uma criança e, até da auto-estima dos adultos?

Com palavras, amor incondicional e cuidados.

Se nos lembrarmos que a criança não é um comportamento, mas sim que a criança está a ter um comportamento, os rótulos deixam de existir e fica presente o amor incondicional. O amor incondicional é pela criança em si e não aparece e desaparece consoante o seu comportamento. Neste caso, esta criança não é sempre má, mas as palavras e o contexto fizeram-na acreditar que sim. Se não, porque repetiria tantas vezes para si própria “Eu sou má”? Nesta escola e noutras escolas, todas as pessoas conhecem os alunos “problemáticos”, só isso diz muito sobre o nosso sistema.

Que gritos internos darão estes pais? Como se sentem? Como se vêem? Que pedidos de ajuda já fizeram?

Pedir ajuda, hoje em dia, ainda é tabu, ainda nos leva a pensar o que vão pensar de nós. Enquanto que pedir ajuda devia ser visto como pedir uma mão, pedir um tempo, pedir uma pausa para escutar o que vai na alma dos pais. Por isso, é tão importante o sigilo e profissionalismo. Só assim, os pais sabem que podem contar connosco.

É necessário, cada vez mais, existir uma rede de apoio sólida e construtiva que veja para além do comportamento da criança, que veja toda a família. Quando ouvimos uma família e escutamos cada elemento, ajudamos cada um a encontrar-se no meio daquela família.

Aos olhos da Parentalidade Consciente, para além do que olhar para além dos gritos das crianças, devemos escutar com compaixão, sem julgamento, com total aceitação, o que está para além dos gritos dos pais. Pois somos nós, os adultos que mais precisamos de colo, de carinho, de afecto, de abraços, de palavras amigas e de respostas de ajuda. Isso é visível nas crianças. Não precisamos que nos digam como fazer e quando fazer. Não precisamos que nos digam que estamos a fazer mal e que há quem faça melhor. Precisamos que nos digam que estão connosco.

Quantas crianças gritam hoje em dia? Quantos pais gritam? Quantos de nós ajudamos quando nos é solicitado? E ajudar sem dizer “faz-assim-que-assim-funciona”?

Um abraço carinhoso.

Uma frase da Virginia Satir, terapeuta familiar muito reconhecida que nos pode ajudar a todos a colaborar em comunidade e em família:

“Eu quero amar-te sem te absorver,
Ver-te sem te julgar,
Juntar-me a ti sem te invadir,
Convidar-te mas sem exigir,
Deixar-te ir sem culpa,
Criticar-te sem te ferir e
ajudar-te sem te insultar.
Se eu puder ter o mesmo de ti, então podemos realmente encontrar-nos e beneficiarmo-nos mutuamente.”
– Virginia Satir

Frustração Positiva?

Como é que um sentimento que à primeira vista é tão negativo pode ser Positiva?

“Eu não gosto de me sentir frustrado!” – É o pensamento consequente a esta afirmação.

Pois bem… É mesmo sobre a Frustração Positiva que vamos falar neste artigo.

Sobre a frustração

No senso comum, a frustração é o sentimento que ocorre quando alguma coisa que era esperada devia acontecer e não aconteceu. Quer dizer: a nossa mente previa que que acontecesse determinada coisa, e não aconteceu contrariando assim a nossa necessidade de controlar tudo o que nos rodeia.

Nós adultos ainda sofremos muito ao nos sentirmos frustrados. É natural! No entanto, é preciso observar quais são as nossas atitudes depois da frustração pois seguramente, são estes modelos mentais de como lidar com a dor, com a perda e com o erro que estaremos a transmitir aos nossos filhos.

E não adianta pensar: “Que disparate! É só um bebé, nem se apercebe do que está a acontecer!”. Grande engano! As nossas crianças entendem e sentem tudo o que ocorre e acabam por refletir nos seu comportamento ainda que, num primeiro momento seja de forma inconsciente.

Mas se as as dores, desafios, perdas e obstáculos são inerentes à condição humana, como transformar estes acontecimentos em aprendizado?

É aqui que entra o nosso conceito de Frustração Positiva.

É a habilidade que os pais e educadores devem possuir para limitar o comportamento infantil, gerando um conflito que facilite a evolução. Em traços gerais trata-se de evitar a superproteção, não privando a criança de situações aparentemente mais difíceis.  São estas adversidades que as ajudam a crescer e que permitem a aprendizagem da tolerância à frustração.

A antropologia tem uma metáfora bastante pertinente sobre a Frustração Positiva: é a do sistema imunológico psicológico. Quando a partir da vivência de situações desafiadoras a criança desenvolve novos recursos e habilidades de adaptação. E isto é tão importante!

Como diz o provérbio, “A necessidade faz o engenho”

Por isto é que os limites são tão importantes no desenvolvimento psicológico das crianças. É a partir dos nãos que oferecemos aos nossos filhos, sempre somados ao nosso gigante amor de mãe, que os vamos preparando para receber com mais equilíbrio emocional, os nãos que chegarão no decorrer da vida.

Viver essa experiência, no reduto fraterno do lar é de grande valia para crianças e adultos. Ambos têm a possibilidade de (re)construir a sua relação com frustração, alterando padrões mentais enrijecidos, na constante aprendizagem de lidar com a dor de forma positiva, resiliente e empoderadora.

Em suma, devemos exercitar-nos no aprendizado de que nem tudo está sob o nosso controle. Nem tudo acontece como planeamos. Nem todas as nossas vontades são atendidas.

E quer saber mais?

Está tudo bem!

Photo by Caleb Woods on Unsplash

Dificuldades de aprendizagem na criança

Quando falamos do encaminhamento de dificuldades de aprendizagem, muitas vezes surgem dúvidas sobre a necessidade de psicomotricidade, ou qual o seu sentido. Afinal, o que estamos a dizer é que a criança não consegue ler, escrever, somar, subtrair ou decorar…

O que é que o corpo dela tem para estar relacionado com estas dificuldades?

Dificuldades de aprendizagem

Antes de passar para a analisar esta questão, sinto que é importante falarmos um pouco das dificuldades de aprendizagem em si… As dificuldades de aprendizagem, ou DA, são palavras tantas vezes ouvidas na escola, em relatórios médicos ou ditas por pais sobre crianças que tiveram más notas no teste de inglês, na ficha de leitura ou no exame de matemática. Mas na realidade, as dificuldades aprendizagem são uma área muito mais específica, alvo de inúmeros estudos, definições e de uma complexidade enorme.

Quociente de Inteligência

Parte do problema que faz a definição desta área tão difícil é o ensino e a aprendizagem de hoje estarem tão centradas no chamado Quociente de Inteligência (QI), fazendo com que muitas crianças que realmente têm DA se vejam privadas de apoio, por terem um QI dentro do esperado, e por outro lado, existirem encaminhamentos orientados como DA, quando na realidade existe uma dificuldade cognitiva maior, ou um diagnóstico ou síndrome escondido por trás de uma dificuldade específica. É importante compreender: uma criança apenas com DA é uma criança que tem dificuldade a aprender e apresenta resultados escolares mais fracos, apesar de nada no seu QI indicar que isso fosse expectável.

Assim, e apesar da sua definição estar constantemente a ser debatida e atualizada, podemos ver as DA como um grupo variado de desordens que se refletem em dificuldades significativas, tanto a aprender, como a utilizar o seu conhecimento, ao nível da compreensão auditiva da fala e leitura, da escrita e do raciocínio matemático. Estas dificuldades são da criança e estão no fundo relacionadas com uma disfunção do sistema nervoso central. É importante compreender que, apesar das DA estarem presentes em crianças com outras deficiências ou síndromes, não são o resultado das mesmas.

Tendo isto em conta, é importante ter em atenção que as dificuldades de aprendizagem são um campo efetivamente largo, levando a que cada criança apresente comportamentos ou um perfil diferente. Ainda assim, existe um conjunto de sinais psicomotores que costumam estar presentes nestas crianças, levando a que a intervenção psicomotora tenha interesse para estas crianças.

As dificuldades de aprendizagem e o sistema nervoso central

Como vimos, as DA derivam de uma disfunção ao nível do sistema nervoso central. Ora, se pensarmos, a maturação do sistema nervoso central parte do nosso desenvolvimento motor, inicialmente, passando este a ser integrado a partir do momento em que vamos crescendo e vamos sendo capazes de dar significado e de integrar novas aprendizagens. Assim, as crianças com DA têm muitas vezes dificuldades em controlar o seu tónus – tensão muscular permanente – alternando entre movimentos impulsivos e descontrolados, com uma postura completamente oposta, de quase ausência de movimento. Ao não controlarem o seu corpo na base, têm também dificuldades ao nível do equilíbrio, provocando que o seu referencial de aprendizagem não seja fixo, e dificultando ainda mais a aprendizagem.

Estas alterações na maturação do sistema nervoso central fazem como que os próprios referenciais de organização no espaço sejam percebidos de forma diferente, o que se reflete em sinais tão simples como distinguir letras ou números que sejam parecidos (como o “q” e o “p” ou o 6 e o 9).

O próprio corpo desta criança começa a ser sentido pela mesma como um corpo com dificuldades, não capaz, baixando a sua auto-estima e diminuindo a sua disponibilidade para a aprendizagem. E mesmo o movimento, tanto global, como fino, são afetados por todas as questões de base que já falámos.

E nisto, a psicomotricidade pode aparecer como uma ajuda.

Se a criança com DA tem dificuldades ao nível da percepção da informação, da memória, atenção, organização e retenção da mesma e da sua expressão, o uso do corpo pode ser essencial nas várias fases do processo ensino-aprendizagem. Com o nosso corpo podemos fazer letras, em vez de olharmos apenas para elas. Com as nossas mãos podemos contar pequenas argolas ou fazer bolas de plasticina e derrubar pinos, percebendo a noção de quantidade e relacionando com o número, em vez de olhar apenas para cadernos e ardósias. Podemos usar legos para construir palavras e tintas para memorizar sequências. Podemos usar o corpo e os materiais tanto na percepção do meio que nos rodeia, como em estratégias de chamamento e em formas de expressão.

Assim, e numa avaliação dinâmica e transdisciplinar, compreendendo a origem das dificuldades, podemos com a psicomotricidade encontrar estratégias que nos permitam ultrapassar-nos. Damos desta forma às crianças com DA uma igualdade de oportunidades para elas aprenderem, segundo o que lhes faz sentido, para que elas possam crescer, aprender e também ensinar.

Neste artigo iremos explorar em que consiste a Disortografia, respetivos sinais de alerta, como se realiza o diagnóstico e qual a intervenção mais adequada para crianças que manifestam esta perturbação da aprendizagem.

O que é a disortografia?

A Disortografia deriva das palavras “dis” (desvio) + “ortho” (correto) + “graphos” (escrita), isto é, a dificuldade em escrever corretamente. Assim sendo, a Disortografia é uma Perturbação da Aprendizagem Específica com Défice na Expressão Escrita que afeta a precisão ortográfica, a precisão gramatical e da pontuação e a clareza ou organização da expressão escrita.

Apesar de a Disortografia poder ser uma perturbação por si só, é frequente coexistir com a Dislexia, isto é, com a Perturbação da Aprendizagem Específica com Défice na Leitura.

Sinais de alerta de disortografia?

São vários os sinais indicadores de uma possível Disortografia. Num texto típico, escrito por uma criança com disortografia podemos observar:

  1. Incorreções ortográficas diversas:

– Omissões de letras/sílabas (e.g. banco-baco);

– Adições de letras/sílabas (e.g. comer-comere);

– Inversões de letras/sílabas (e.g. barco-braco);

– Substituições de letras com sons semelhantes (e.g. verde-ferde);

– Substituições de letras com formas semelhantes (e.g. bola-pola);

– Aplicação incorreta das regras gramaticais (e.g. ajudam-ajudão);

  1. Dificuldades ao nível da pontuação:

O mais habitual é os textos das crianças com Disortografia apresentarem pouca ou nenhuma pontuação. Em outros casos, pode ocorrer uma tentativa por parte da criança, nomeadamente quando são mais velhas, de utilizarem os diferentes sinais de pontuação, no entanto nem sempre os aplicam da forma mais adequada, tornando o texto confuso.

  1. Dificuldades na precisão gramatical:

É frequente estas crianças saberem explicar com precisão as diferentes regras gramaticais de forma isolada. Contudo, no momento em que as têm de aplicar de forma autónoma (pois têm de escrever a um ritmo que não lhes permite refletir com calma nas diferentes regras), acabam por cometer esses mesmos erros de precisão gramatical.

  1. Dificuldades no encadeamento/organização das ideias:

É crucial ensinar estas crianças a planear os textos antes de os escrever. Uma das características desta perturbação da aprendizagem é exatamente a dificuldade em produzir um texto escrito com uma sequência lógica e bem estruturada ao nível das ideias (mesmo quando bem estruturadas oralmente).

  1. Ritmo lento na escrita:

Uma vez que estes alunos necessitam de recorrer a diferentes estratégias, para conseguirem escrever sem erros, para saberem qual a regra gramatical a ser aplicada, para saberem qual o sinal correto de pontuação adequado, isto ao mesmo tempo que tentam elaborar um texto com uma boa construção frásica, acabam por revelar um reduzido ritmo de produção textual.

Como diagnosticar a disortografia?

Tal como a Dislexia, também a Disortografia deverá ser avaliada por um técnico especializado em Dificuldades de Aprendizagem (Psicólogo, Psicopedagogo, Neuropsicólogo), em estreita colaboração com os pais e professores.

Como em qualquer Perturbação da Aprendizagem Específica, a criança só poderá ser formalmente diagnosticada após dois anos de estimulação formal da leitura e da escrita (o que não significa que não seja possível despistar sinais de alerta previamente) e se o seu desempenho nas competências de escrita for significativamente abaixo do esperado para o seu nível escolar (avaliado através de provas formais e informais) e não consequentes de uma deficiência auditiva/visual, de uma Perturbação Específica da Linguagem ou de uma fraca estimulação escolar.

Qual a intervenção mais adequada?

A intervenção ao nível da Disortografia consiste na reeducação e treino das competências fonológicas (características desta dificuldade de aprendizagem) e visuo-espaciais, tendo como foco principal o processamento fonológico. As sessões de intervenção ao nível da estimulação das referidas competências deverão, sempre que possível, privilegiar uma estimulação multissensorial.

É importante referir que o sucesso da intervenção será tanto maior quanto mais cedo estas dificuldades forem detetadas e intervencionadas. Tal como na avaliação, também a intervenção deverá ser realizada em colaboração com o contexto familiar e escolar.

A importância de ouvir as nossas crianças

Hoje trago-vos um tema um pouco diferente, que sai um tanto de dentro do nosso espaço terapêutico e abre antes as portas da sala de aula e da escola, mostrando a importância que tem escutarmos as nossas crianças no seu processo de ensino e de aprendizagem.

Mas antes de chegarmos à voz delas, importa compreender alguns conceitos primeiro.

O processo de ensino

Em primeiro lugar temos de compreender que o processo de ensino e aprendizagem não é algo tão linear e direto como poderia parecer. Numa primeira visão, temos um aluno, receptor, que escuta uma fonte de conhecimento, sendo ela o professor. No entanto, esta é uma visão unidirecional e que não reflete assim tanto o que realmente acontece numa sala de aula.

O espaço/local de aprendizagem

A sala de aula, ou escola, ou mesmo em casa e ainda a terapia, são espaços compostos por indivíduos, com as suas próprias características e oportunidades de intervenção.  No caso da escola, temos os professores, com as suas próprias características cognitivas e afetivas e com os seus atos pedagógicos e currículo para aplicar. Por outro lado, temos a criança, que tem também as suas próprias características afetivas e cognitivas, e que tem as suas necessidades de participação e as suas manifestações comportamentais.

Ou seja, temos efetivamente o professor que pretende ensinar, mas depois temos de ter em conta um conjunto de processos mediadores socioafetivos, cognitivos, motores, emocionais, até se chegar à aprendizagem da criança.

Características e envolvente

Estas características, tanto da criança, como do professor, ou do espaço e do próprio currículo podem levar a situações de maior stress ou de questionamento, sendo que algumas características podemos alterar e trabalhar, mas outras não. Ou seja, podemos mudar uma criança de lugar caso ela não consiga ver o quadro, mas dificilmente conseguimos alterar um diagnóstico que traga, ou o seu envolvimento social e económico.

Mais importante ainda, temos algumas questões que são visíveis e que reparamos logo, como por exemplo a criança ter uma cadeira de rodas, ou não vir asseada de casa, ou mesmo chegar notoriamente com fome; mas há questões que não são visíveis, que continuam a ser de extrema importância, como a briga que a criança assistiu antes de chegar à escola, ou a medicação que tem de tomar, algum diagnóstico relacionado com o seu comportamento, ou mesmo uma dificuldade que tenha na aprendizagem, e que se sinta inibida de dizer.

Neste caso, nós, enquanto adultos ou professores, temos várias escolhas.

Ser diretivo ou ouvir as crianças

Podemos optar por um processo mais fechado em que não partilhamos objetivos, em que decidimos tarefas e tempos, em que somos diretivos e em que decidimos tudo. Ou por outro lado, podemos optar por ouvir o que as crianças têm a dizer sobre as suas próprias histórias, dificuldades ou formas de alcançar os objetivos propostos.

Esta escolha, que não é linear e que não se situa no preto ou no branco, pode ser vista como uma opção por levar a criança a ser o foco do processo de ensino e aprendizagem, aumentando a sua motivação para a escola ou para a aprendizagem, e ainda tornando a mesma significativa para ela.

Criar objetivos em conjunto com as crianças

Assim, partilhando com a criança os objetivos que pretendemos que esta alcance e partilhando a tomada de decisões neste processo de ensino e aprendizagem, temos a oportunidade de apresentar tarefas que são mais desafiantes e diversificadas. Oferecemos opções de escolha e promovemos a autonomia e liderança da criança dentro do seu próprio desenvolvimento. Por outro lado, temos um processo de feedback que é individualizado e não por comparação. Aqui a própria criança também pode entrar e permite que o professor, pai, auxiliar ou terapeuta vão, junto com a criança, ajustar os objetivos intermédios e atividades consoante as suas próprias capacidades e necessidades.

Claro que este processo é um desafio, e claro que muitas vezes as próprias infraestruturas ou sistemas colocam em causa esta alteração. Mas pensemos, serve de muito pouco ensinar uma criança a escrever, se ela não vir a possibilidade que tal abre para a criação das suas próprias histórias. Serve de muito pouco aprender os números se a criança não conseguir contar as suas conquistas. E serve de muito pouco mandar uma criança sentar-se e calar-se, quando falamos do seu caminho e da sua história.

Por isso, fica o desafio:

Que consigamos ultrapassar-nos e ouvir as nossas crianças sobre algo que nos interessa mutuamente, o seu crescimento.

 

Image by mozlase__ on Pixabay 

As palavras positivas e o aumento da auto-estima dos nossos miúdos

Há uns dias assisti a um programa onde a convidada era uma professora com formação na área da psicologia que desenvolvia um trabalho muito interessante junto das escolas.

Começou a fazê-lo quando se apercebeu que as crianças do primeiro ciclo, nomeadamente as de sete e oito anos, tinham dificuldade em utilizar palavras positivas para se descreverem.

Enquanto pais acredito que achemos isto estranho porque se pedirmos aos nossos filhos para falarem de si eles apontarão a cor do cabelo, dos olhos e por aí. Mas é das emoções que se trata e da forma como se vêem a eles próprios. Nenhuma das crianças dizia que era divertida, bem-disposta ou forte.

Tenho uma rotina com a minha filha depois de a ir buscar à escola que passa por a fazer enumerar as duas coisas que gostou mais no seu dia e as duas que gostou menos. Invariavelmente as negativas são as chamadas queixinhas. Comecei por não aceitar mas percebi que ao fazer-me as tais queixas havia emoções por trás das acções que as desencadeavam.

Assim, quando ela me diz “o que gostei menos foi quando o X me empurrou no recreio” ou “quando a Y disse que não queria ser minha amiga” tento, em vez do automático “pois, isso não se faz”, enveredar pelo “e como é que isso te fez sentir?”.

Porque é importante as crianças conseguirem identificar as suas emoções.

Só estando estas emoções devidamente identificadas podem ser descritas e só assim se pode explicar por que motivo são consequência dos comportamentos dos outros e, acima de tudo, o que gostaríamos que tivesse acontecido. E o que faríamos no lugar do outro.

Não raras vezes quando a minha filha está a brincar ao faz de conta ralha com os amigos. Aponta o que estão a fazer de errado. Outras vezes até diz “a não sei quantas não quer ser minha amiga, não sejam amigos dela”. Isto existe desde sempre, lembro-me quando era eu a estar no meio deste ritual. Tinha uma amiga mais nova com a qual nunca brincava no recreio da escola, apesar de sermos amigas fora da escola, porque havia uma amiga sua que não a deixava. A marca que isso me deixou foi a da irritação, mais do que a da mágoa. Porque tinha a sorte de ter outros amigos e de não sentir esta falta. Mas há crianças cujo núcleo duro de amizades próximas se reduz a mais um amigo. E nestes casos estas atitudes podem ter um impacto muito grande.

Ainda na semana passada, ao falar com uma das meninas novas da sala da minha filha que sempre que me vê me abraça, perguntei: “o teu dia foi bom?” E ela disse que não porque uma das amigas não quis brincar com ela.

Faz parte? Claro que sim.

Queremos que os nossos filhos cresçam para serem emocionalmente independentes dos outros, mas o crescimento, o verdadeiro crescimento, faz-se das relações que se estabelece com o meio e com os que nos rodeiam.

Por isso tento explicar à minha filha que se não gostou de se sentir excluída não deverá fazê-lo quando a situação for oposta. E isto serve para tudo na vida.

Outro exercício que tento fazer com a minha filha é “gostas da X porquê?” e só aceito as respostas quando têm alguma profundidade, quando chegam ao “ela tem paciência para brincar comigo” ou “quando estamos juntas cantamos e isso deixa-me feliz”.

Trabalho muito a questão da imagem própria valorizando o que se é e não o que se aparenta.

Valorizo as conquistas.

Elogio o esforço.

Evito que a minha filha me oiça falar de forma menos positiva das outras pessoas.

É expressamente proibido criticar os mais velhos. Quando ela me aponta um comportamento que supostamente vai contra aquilo que lhe foi ensinado eu texto explicar. E muitas vezes explico que há coisas que não têm explicação, as pessoas fazem coisas que não devem. Erram. Porque somos todos humanos, mesmo os mais crescidos.

E os mais crescidos também ainda estão a aprender.

Acredito que miúdos que têm as suas emoções reconhecidas têm menor tendência para as retrair. 

Muitas vezes podem não nos parecer legítimas ou justas (“nunca me compras nada, não me deixas fazer nada”) mas é importante que sejam valorizadas no contexto, nem que seja para a criação do diálogo.

Quantas vezes estamos a fazer uma coisa e nem nos apercebemos do quão errados estamos? Este feedback também nos ajuda a ser melhores pais. E a ganhar confiança nas opções que tomamos quando elas correm bem.

Queremos que os nossos filhos sejam adultos saudáveis e isso só é possível se esta saúde lhes for proporcionada por nós. Seja em forma de sopa e legumes, seja em forma de amor e inteligência emocional.

Sabia que a música tem uma grande influência no desenvolvimento da linguagem das crianças?

Muitos estudos demonstram a importância da estimulação precoce em aulas de músicas, mas também no quotidiano da criança, tanto em casa como no jardim de infância, tendo um grande potencial nos vários níveis de desenvolvimento infantil.

A conexão estabelecida entre as pessoas e os sons é tão primordial que se inicia antes mesmo do nascimento. Sabe-se que a formação das estruturas auditivas no bebé se dá por volta do 5º mês de gestação. Nesse período, o bebé tem contato com a sua primeira referência de ritmo musical: o batimento cardíaco materno.

Antes de nascer, ele já reconhece o timbre da voz da mãe e já responde a estímulos sonoros: Após o sistema auditivo estar formado, já aprecia todo o reportório musical e os sons com os quais a mãe tem contacto.

Como reage o nosso cérebro à música

O nosso cérebro parece ser moldado pelas experiências proporcionadas nos primeiros anos de vida, e o cérebro de um músico tem características diferentes do cérebro de uma pessoa que não tenha tido contacto com a música na infância.

Muito se tem investigado acerca da influência da música no desenvolvimento da criança, bem como na possibilidade de ajudar na recuperação de lesões no cérebro, tanto em crianças como em adultos.

Esses estudos comprovam a influência da música nas capacidades comunicativas da criança, verbais e não verbais, na sua autoconfiança, nas suas capacidades espácio-temporais, no desenvolvimento cognitivo e motor, nas funções executivas, na memória e na aprendizagem de línguas estrangeiras.

Ao fazer música ativamos sinapses dos sistemas sensorial, cognitivo (simbólicos, linguísticos e da leitura), motivacional, sinapses que veiculam a aprendizagem, a estimulação da memória, o planeamento de movimentos, etc.

Várias investigações sugerem que a música altera a forma como o cérebro processa os componentes da linguagem, melhorando a perceção dos sons, incluindo os sons da fala e, consequentemente, a sua relação com a leitura e escrita.

A música e a aprendizagem

Para aprender a ler, a criança deverá já ter desenvolvido a consciência de que as palavras são constituídas por sílabas e estas por sons (consciência fonológica). A criança deve ser capaz de se abstrair do significado das palavras para pensar, discriminar, comparar e manipular os sons que as compõem e, dessa forma, conseguir realizar tarefas:

  • Dividir frases em palavras.
  • Encontrar ou evocar palavras que rimam.
  • Dividir palavras em sílabas.
  • Encontrar palavras que comecem pela mesma sílaba ou som, entre outras.

Estas atividades são fundamentais para a aprendizagem da leitura e da escrita mais tarde, no seu percurso escolar. Deverá ter desenvolvido também a percepção auditiva e este é um processo complexo, que depende do processamento auditivo e é constituído pela receção e interpretação dos padrões de fala; discriminação entre sons (espectro, características temporais, sequência e ritmo) reconhecimento, memorização e compreensão da fala.

A música e a linguagem

A música e a linguagem são dois estímulos auditivos, estruturados de uma forma semelhante (ambas consistem num determinado número de sons que se organizam segundo determinadas regras) e que utilizam o mesmo sistema auditivo e aparelho vocal.

A aprendizagem destes elementos musicais e linguísticos parece ser semelhante, recorrendo aos mesmos processos auditivos e a partilha destes mecanismos parece ser responsável pela influência da música no desenvolvimento das capacidades de consciência fonológica.

A música e os seus elementos (som, ritmo, melodia e harmonia) podem ser utilizados para estimulação da linguagem pelos pais e/ou educadores, mas também como método de intervenção nas perturbações de leitura e escrita, perturbações fonológicas, perturbações do processamento auditivo, entre outras. Podem ser feitas diversas atividades tendo sempre em conta os objetivos delineados para trabalhar com a criança. Beneficiando não só o desenvolvimento da consciência fonológica, mas também a perceção/sensibilidade auditiva, o processamento (motor e auditivo), a atenção e a comunicação verbal e não-verbal.

A música tem então um papel muito importante no desenvolvimento da criança, em especial na aquisição e desenvolvimento da linguagem. Portanto incentive desde cedo ao gosto pela música, oiça e explore a música em família.

O seu filho já ouviu musica hoje?

Marta Nunes, terapeuta da fala