Play With Me, os bonecos únicos que os miúdos adoram

A Play Handmade é uma marca de produtos artesanais criada em 2016. Nasceu da paixão pelo crochet e pelo mundo do imaginário infantil.

O conceito da Play Handmade é poder-se brincar e criar brinquedos com  técnicas, materiais e formas diferentes dos usuais hoje em dia. Explorar novas formas de criar, ajudará o seu filhos a explorar novas formas de brincar.

Play with me

Por isso a Play criou os Bonecos Play with me, que são artesanais, únicos, feitos à mão em crochet e à medida do seu filho. Os bonecos Play With me são feitos de acordo com o gosto de cada criança. São para rapaz e rapariga, fáceis de transportar e laváveis.

Mais do que um simples boneco, os Bonecos Play With Me são o que o seu filho quiser: um companheiro de aventuras, um animal de estimação, um amigo e confidente, uma companhia para as noites mais longas, uma princesa para as festas de chá, ou até um herói para o defender dos monstros e fantasmas.

Cada boneco é feito com muito carinho e dedicação. É só escolher o tipo de boneco, as cores e nós fazemos!

Como são essencialmente feitos a pensar nos mais pequenos, a Play Handmade aposta na qualidade. Todos os bonecos são 100% algodão de uma marca portuguesa conceituada e o enchimento é anti-alérgico. Todos diferentes, mas todos iguais!

Play

 

Conheça mais sobre estes bonecos na página de facebook da Play

Imagens da Play e da Viela Concept Store

As mil e uma noites

Gosto de me manter atualizada sobre o que há no mercado editorial dos livros infantis.

Como mãe e como profissional da área da do livro infantil e da educação interesso-me por saber o que há nas prateleiras reais ou virtuais das livrarias e nas editoras. Perceber o que as famílias têm à sua disposição. Não tem que ser necessariamente o último livro editado ou sequer o mais falado, gosto de ter uma visão generalizada.

Nestas minhas pesquisas encontrei há pouco tempo mais um livro sobre AS MIL E UMA NOITES, uma coletânea de histórias e contos populares do médio oriente e do sul da Ásia que foram compiladas em árabe no Século IX. A versão final desta coleção foi publicada em 1889, depois de várias adaptações e traduções. Esta versão diz que é uma das mais fiéis à original e por isso despertou-me a curiosidade.

As mil e uma noites, a lenda.

Reza a lenda que o Rei Xariar, enraivecido por causa da traição da sua mulher com um escravo, manda matar ambos. A partir desse dia o Rei decide ter uma noiva diferente todas as noites e ordenar a sua morte na manhã seguinte.

Xerazade, filha de um dos conselheiros do Rei, voluntaria-se para ser sua noiva. Para evitar a morte certa, Xerazade conta histórias fascinantes ao Rei pela noite dentro. De manhã interrompe a narrativa e promete retomar na noite seguinte. O Rei fica tão encantado que não ordena a sua morte. Assim continuam por mil e uma noites até que o Rei decide não matar Xerazade. Confesso que não me lembrava muito bem das narrativas que fazem parte da coletânea, por isso fui reler algumas delas. Histórias como Sinbad, o Marinheiro, Aladino ou Ali Babá e os Quarenta Ladrões fizeram-me voltar à minha infância.

Mas desta vez li as histórias com outros olhos, outro entendimento e outra experiência. E o que mais me surpreendeu foi a capacidade de Xerazade prender a atenção e encantar o Rei durante as mil e uma noites.

Se acreditarmos na lenda, também acreditamos no poder que que as histórias têm. Nas crianças assim como nos adultos.

As histórias que ouvia…

Ultimamente tenho me interessado muito pelas histórias tradicionais e as de tradição oral. São contos que sobreviveram ao longo dos tempos, que foram sendo contados de geração em geração e que de alguma forma conseguiram sobreviver até aos nossos dias e são muito importantes. Quem não conhece uma história que ouviu contar quando era criança devia procurar rapidamente alguém mais velho e pedir que lhe conte uma. Todos os adultos devem conhecer pelo menos uma história do antigamente para que estas possam chegar ao futuro.

“Mas as histórias tradicionais nos tempos de hoje já estão desatualizadas! Porquê contá-las?”

É dos comentários que mais ouço, especialmente da parte dos pais. Eu digo-vos que a forma de escutar essas histórias é diferente hoje em dia, mas a essência não mudou. Elas continuam a servir para aproximar as crianças de sentimentos e de vivências no plano da imaginação para estas depois saberem lidar com eles na realidade. As histórias preparam-nas para a vida e as suas personagens como as bruxas, os lobos, os ogres e outras, têm uma função muito importante, que é a de estabelecer uma limitação entre o mundo das coisas reais e o das imaginárias.

Isto da tradição oral tem ainda muito que se lhe diga…

Diz o sábio povo que “quem conta um conto aumenta um ponto” e no caso das histórias tradicionais ainda bem! A história raramente é recontada tal como nós a ouvimos. Há uma coisa chamada imaginação que nos leva a acrescentar ou retirar algo da história quando a recontamos. Por isso há tantas versões diferentes das mesmas histórias de tradição oral. Nalguns casos é com mais intenção do que outros.

Por exemplo Gianni Rodari (Jornalista, escritor e pedagogo nas décadas de 60 e 70) brinca com as histórias tradicionais baralhando-as ou alterando-as com um fim especificamente terapêutico e lúdico. Ele defendia que pessoas diferentes podem levar as histórias por caminhos diferentes e até mensagens diferentes. E este para mim é a beleza e o poder das histórias de tradição oral.

Na falta de melhores palavras para terminar este texto, peço emprestadas as do Eduardo Sá quando diz “(…) as histórias dão-lhes a História (que faz com que se chegue, no mesmo instante, ao passado e ao futuro)”.

Boas leituras, tradicionais e não só…

Inteligência Interpessoal. Teoria das inteligências múltiplas. Todos diferentes, todos especiais.

“O segredo para viver em paz com todos consiste na arte de compreender cada um segundo a sua individualidade”
– Federico Luis Jahn –

Todos nascemos diferentes e especiais. Todos temos dons para partilhar com o mundo. Todos temos características para aprender com os outros. Tal como Augusto Cury dizia, o sonho da igualdade só cresce no terreno do respeito pelas diferenças. Só quando aceitamos que são as diferenças que nos tornam únicos e especiais é que conseguimos integrar as especificidades de cada um como parte importante do todo.

Com interesses diferentes, motivações diferentes, formas de aprender diferentes, necessitamos de estímulos diferentes para avançar nas nossas descobertas, na forma como interpretamos o mundo, os outros e tudo o que nos rodeia. Uns são mais sensoriais, outros mais mentais. Há os que aprendem através da experiência no corpo, outros através da música. Uns aprendem através da lógica e da matemática, outros através dos mistérios da natureza… Se é verdade que não existem duas pessoas iguais, porque continuamos a insistir numa aprendizagem linear, “chapa 4” e homogénea?

Conhecer o que motiva as crianças de hoje em dia, o que as estimula, o que desperta a sua curiosidade ajuda-nos a escolher os melhores caminhos para chegar até cada uma delas. Se percorrer os mesmos caminhos nos leva sempre aos mesmos resultados*, o que nos impede de escolher um percurso alternativo?

No artigo anterior falei na Inteligência Corporal-Cinestésica, explicando que as crianças com este tipo de inteligência precisam movimentar-se, tocar e construir para conseguirem aprender, uma vez que processam o conhecimento através das sensações corporais. Hoje irei descrever a Inteligência Interpessoal e falar da empatia como força motora deste tipo de inteligência.

Inteligência Interpessoal

A Inteligência Interpessoal localiza-se no Lóbulo Frontal, que se encontra na parte da frente do cérebro e que tem grande importância em funções executoras, na flexibilidade mental, na resolução de problemas e é responsável por várias das características que definem a nossa personalidade. É neste lóbulo que acontece o planeamento das ações e dos movimentos, assim como o pensamento abstrato.

A Inteligência Interpessoal caracteriza-se por uma grande capacidade em sentir empatia com os outros, em compreender e interpretar as suas emoções, sentimentos, necessidades, intenções e motivações. É a capacidade de entender as outras pessoas e de trabalhar com elas, de relacionar-se com os outros e de fazer amigos. As pessoas que têm este tipo de inteligência mais desenvolvida são capazes de interagir e de comunicar de forma eficaz, utilizando uma comunicação verbal e não-verbal. Têm uma sensibilidade especial para compreender as expressões faciais, a voz, os gestos e a postura das outras pessoas, assim como uma grande habilidade para lhes responder de forma adequada, sem ideias pré concebidas. Muito empáticas por natureza, estas pessoas têm uma grande capacidade de identificar as qualidades das pessoas, encorajando-as e extraindo o melhor de cada uma delas.

Principais características das crianças que possuem a Inteligência Interpessoal mais desenvolvida:

  • Têm grandes capacidades de liderança;
  • Trabalham melhor em equipa, do que individualmente;
  • São bons comunicadores (comunicação verbal e não-verbal);
  • Bons mediadores de conflitos;
  • Criativos;
  • Gostam de cooperar;
  • Têm muitos amigos;
  • Interpretam bem as situações do dia-a-dia;
  • Preferem atividades em grupo;
  • Relacionam-se bem com os outros;
  • Conseguem “ler” bem os outros (as suas intenções, necessidades, desafios).

Como ajudar estas crianças?

Se for professor e tiver em sala uma ou mais crianças com este tipo de inteligência mais desenvolvida é importante que desenvolva dentro da sala de aula o trabalho cooperativo, em grupo, onde a criatividade e a aprendizagem ativa e divertida tenham espaço.

Estas crianças gostam de ajudar os outros.  

Assim podem ser tutores ou orientadores, ensinando os colegas mais novos ou aqueles com mais dificuldades. Se quiser trabalhar a confiança dos seus alunos fomente o trabalho em equipa: estas crianças têm grandes capacidades de liderança. Conseguem identificar e valorizar as mais-valias de cada colega. Desta forma estará também a fomentar uma auto-estima saudável nos seus alunos.

Muito empáticas e boas comunicadoras, estas crianças são boas a mediar conflitos entre os colegas. Esta capacidade em compreender o outro permite-lhes entender as diferentes posições, realçar os aspectos positivos e os mais desafiantes de cada perspectiva e comunicar de forma eficaz com cada parte envolvida no conflito. Se a sua intenção é ajudar estas crianças, coloque-as como responsáveis pela gestão dos conflitos da sala de aula. Elas irão sentir-se compreendidas, valorizadas e reconhecidas.

Para potenciar a Inteligência Interpessoal nos seus alunos aposte numa aprendizagem ativa, participativa, cooperativa e divertida, baseada em jogos. Aposte nas apresentações de grupo, pesquisas ativas, clubes académicos de discussão de ideias, reuniões sociais e partilhas criativas.

Em casa, pode ajudar as suas crianças a desenvolver este tipo de inteligência incentivando atividades com os restantes membros da família e da comunidade, tais como festas de aniversário, participação nas tarefas domésticas, em grupos juvenis, em trabalho voluntário, em festas da comunidade, grupos de escuteiros, etc.

“Diga-me e esquecerei.
Mostre-me e talvez eu me lembrarei.
Envolva-me e eu então compreenderei”
– Confúcio, 450 A.C  –

Como estimular a inteligência interpessoal em crianças onde este tipo de inteligência não está tão desenvolvido?

  • Fomentar a participação em atividades de grupo, principalmente aquelas que incentivam a cooperação como o desporto e o trabalho voluntário;
  • Incentivar a prática da escuta ativa (escutar para compreender, em vez de escutar para responder);
  • Participar em atividades que possibilitam o contato com outras pessoas como a dança, o teatro, terapia de grupo ou musicoterapia.

Professores, terapeutas, atores, médicos, vendedores e políticos são alguns exemplos de profissões que possuem este tipo de inteligência mais desenvolvida.

Acredito que é importante olhar para estas características com a intenção de potenciar mais-valias, ajudar nos desafios e integrar no todo. Todos somos necessários, todos contribuímos de forma única para a nossa realidade. Ter a capacidade de olhar para um grupo de crianças (e não só…), identificar as suas características fundamentais, e o centro de inteligência predominante (mental, emocional ou físico) ajuda-nos a conectar com cada uma delas em especial e com o grupo em geral.

*Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes
– Albert Einstein –

imagem@storyfox

As pessoas caladas costumam passar despercebidas. Poucas vezes se pensa o que se passa por trás da sua aparência serena, recatada e silenciosa. São pessoas observadoras, exploradoras dos sentidos que se conectam de forma mais intensa com a realidade, com os pequenos pormenores e com os mundos sensíveis que escondem universos variados e apaixonantes.

Cada um de nós processa a informação de forma diferente. Contudo, às vezes ignoramos que essas diferenças estão ligadas principalmente à nossa personalidade. Segundo Marti Olsen Laney, autora do livro “The Introvert Advantage”, as pessoas caladas, as que correspondem a um perfil introvertido, são mais pausadas, mais meticulosas e profundas.

Isto resulta de um simples e fascinante. Todos os estímulos no cérebro de uma pessoa introvertida realizam um percurso complexo  vinculado à memória emocional, à análise e ao planeamento. Por outro lado, as pessoas mais extrovertidas têm menor tolerância à sensibilidade e aos estímulos, e são mais rápidas a responder ou começar um processo.

Não se trata de exaltar um estilo de personalidade em detrimento de outro. De facto, a maioria de nós pode ter traços de ambos os perfis, embora estejamos mais próximos de um deles O que queremos dizer com isto é que mesmo hoje em dia, o silêncio de  uma pessoa introvertida continua a ser mal interpretado e inclusivamente a ser ignorado nos centros educacionais.

Pessoas caladas, aves raras num mundo de extrovertidos

Diariamente, professores e educadores vêem nas suas salas de aula estes alunos que, sentados nas últimas filas, passam a aula inteira em silêncio, absorvidos num ponto no espaço ou a rabiscar secretamente os cadernos. Não gostam de responder em voz alta às perguntas, nem de participar nas aulas. Não funcionam assim. Contudo, os centros educacionais, e inclusivamente as universidades, continuam a valorizar um aluno que participa, que disserta, que põe a mão no ar e que contagia entusiasmo e interesse com a sua atitude.

O estereótipo que associa a extroversão ao êxito ou eficácia continua muito evidente nas nossas mentalidades e na sociedade. Os especialistas em psicologia social, por exemplo, indicam que nas últimas décadas o perfil das pessoas extrovertidas, carismáticas mas e simultaniamente egocêntricas e pouco sensíveis às necessidades alheias, continua a ser valorizado nos contextos profissionais e nas elites políticas.

Ou seja, é valorizado este tipo de traços comportamentais e de personalidade como eficazes sem se verificar realmente o desempenho produtivo, ou a capacidade de criar um clima de harmonia entre os grupos de trabalho. No entanto, o mais contraditório é que, as atuais pesquisas sobre liderança mostram que as pessoas introvertidas, caladas, reflexivas e pacientes, propiciam um rendimento muito mais elevado e um entorno humano mais agradável.

A professora e investigadora Francesca Gino, da Universidade de Harvard, realizou uma pesquisa onde demonstrou que os líderes com perfil de personalidade introvertida não predominam atualmente. São aves raras num mundo onde a extroversão continua a predominar. Contudo, verifica-se que nos contextos profissionais onde a diretoria conta com líderes low profile, reflexivos e sensíveis ao que os rodeia, facilita a  potencialização das aptidões dos funcionários.

Os funcionários são muito mais proativos, mais criativos e sentem-se mais felizes, porque esse líder introvertido lhes traz confiança e novas oportunidades.

As pessoas caladas e as suas mentes

As pessoas caladas não são necessariamente tímidas. São tranquilas, têm outro ritmo, outros tempos e outras necessidades. Para elas, o mundo anda rápido demais e não conseguem analisar cada aspecto, cada pormenor, como gostariam. Porque cada nuance da sua realidade precisa de ser filtrado pelas emoções, e essa delicadeza, essa meticulosidade leva o seu tempo, a sua linguagem e a sua arte.

As pessoas caladas não se sentem confortáveis sendo o centro das atenções. Não são o satélite de ninguém e preferem circular em espaços privados, às vezes até solitários. Este estilo de comportamento pode suscitar certa estranheza perante olhares alheios, por isso, muitas vezes as pessoas mais silenciosas são rotuladas como tímidas, desconfiadas, reservadas ou com falta de interesse. É importante saber que este estilo de personalidade esconde os seus tesouros e as suas belezas numa zona profunda do seu ser.

Vejamos agora detalhadamente quais as suas características.

As 5 características das pessoas silenciosas e introvertidas

Antes de mais é importante referir a extensa bibliografia que existe relativamente a este tema. Livros como “O líder introvertido: aproveite o seu talento silencioso” de Jennifer B. Kahnweiler, são exemplos interessantes para ampliar o nosso conhecimento sobre este perfil de personalidade.

Não obstante, e em linhas gerais, estas seriam algumas características básicas sobre a mente das pessoas mais reservadas e silenciosas.

  1. Pensam antes de falar. São cautelosos quando comunicam, sabem ouvir, refletir, e respondem depois de pensar.
  2. Não gostam da superficialidade. O seu foco de interesse navega nas profundezas da realidade, são criativos, gostam de relacionar ideias, conceitos, são sonhadores e costumam falar sozinhos com frequência.
  3. As pessoas caladas costumam caracterizar-se por uma autoconfiança elevada. Não se deixam levar por opiniões alheias, têm valores sólidos e ideias claras.
  4. Preferem escrever para comunicar. Sentem-se mais confortáveis com a palavra escrita.

Por fim, como dissemos anteriormente, a solidão é um refúgio comum nas pessoas introvertidas. Convém perceber que não a procuram como mecanismo de fuga, e sim como espaço para recuperar a energia e a clareza quando o mundo as satura com seus estímulos, as suas vozes, a pressa e os seus rumores.

Porque no fim das contas, as pessoas caladas são cúmplices da sabedoria que nasce da reflexão, da imaginação, e acima de tudo, do tranquilo silêncio.

image@vidaescola

Artigo publicado em A mente é maravilhosa, adaptado por Up To Kids

 

Pintar dentro dos contornos é que é normal

Tinha o pequeno catita 4 anos acabadinhos de fazer quando a educadora, cheia de boa vontade, chamou-me à parte com um ar preocupado e disse: “Ele quando desenha nunca faz contornos. E quando lhe pergunto porquê ele diz que o desenho é isto tudo”, apontando para lá da folha de papel. Eu fiquei feliz, ela ficou preocupada.

Pensei que era maravilhoso ele não limitar a sua imaginação e sentir que as coisas vão muito para além dos limites que lhes queremos colocar. Ele estava a descobrir uma visão única e especial do mundo e isso era uma ótima ferramenta para usar pela sua vida fora.

Se pensarmos bem, as grandes descobertas só são feitas quando olhamos para o mesmo problema de um ângulo diferente. Ou quando vemos o problema como um ponto de partida e não um problema. Se olharmos todos da mesma maneira para a mesma coisa, vamos sempre ver o mesmo e a humanidade não evolui.

Muitas das características únicas do teu filho, que hoje não “encaixam” nas tabelas de excel, vão ser as mesmas que o vão tornar um profissional único, com uma visão inovadora e verdadeiramente pioneira.

O miúdo teimoso.. torna-se um adulto que não desiste. A miúda que questiona tudo…torna-se uma cientista quântica. A criança que não faz contornos… torna-se um adulto que não constrói barreiras e percebe que a humanidade, afinal, “é isto tudo”.

 

Publicado originalmente em Mãe Catita

O meu filho tem um amigo imaginário!

Para dizer a verdade, eu sei que na realidade o Zé não existe. Que é o meu amigo imaginário.

Estava eu no meu quarto quando comecei a ouvir gritos vindos da sala, de novo… outra discussão. É quase sempre nestas alturas que ele aparece, o meu irmão e meu melhor amigo – o Zé.

Brincamos à luta de almofadas, aos super-heróis para salvar o mundo na luta contra os maus. Também falamos muito e ele faz-me rir, conta piadas e eu também lhe conto as anedotas que o pai me ensinou. Nessa noite estava eu prestes a derrotá-lo na batalha final com a minha espada azul quando, de repente, o meu pai entrou no quarto e me ouviu a brincar com o Zé e disse aos berros: “Vês, o teu filho é maluco, está sempre a falar sozinho! Pára com isso, amanhã vais ao médico dos malucos!” Bateu a porta do meu quarto com força e saiu.

De um momento para o outro o Zé desapareceu, eu senti o corpo todo a tremer com medo, deitei-me na cama, comecei a chorar e pensei para mim, “teu filho”? mas eu também sou filho dele.

O meu pai fica sempre muito irritado quando me ouve a falar com o Zé. Para dizer a verdade, eu sei que na realidade o Zé não existe. Mas enquanto estou naquela luta de almofadas ou dos super-heróis, não oiço as coisas horríveis que os meus pais dizem um ao outro e não imagino a possibilidade dos meus pais se separarem.

Eu sei que o Zé é o meu amigo imaginário!!

Hoje à tarde fomos à “pesicóloga”, o meu pai chama-lhe a “médica dos malucos”.

Eu estava com muito medo de ser maluco, do que iria acontecer se realmente fosse, se o meu pai iria deixar de gostar de mim. Entrámos na sala e os meus pais estiveram a contar o que aconteceu, enquanto ela também me ia fazendo perguntas. No final, lembro-me que a “pesicóloga” disse que na minha idade (cinco anos), ter um amigo imaginário era comum. Que havia muitas crianças que também tinham um amigo imaginário.

Continuou a dizer que era normal e que servia como conforto emocional, ou lá o que isso queria significar. Que os estudos científicos referiam que ter um amigo imaginário até estimulava a criatividade e o desenvolvimento emocional e social das crianças. Pensei: “Estudos? Como é alguém estuda sobre isto?! Não têm mais nada para fazer, se não estudar o Zé? O meu amigo imaginário? Que seca!”

O mais importante é que ela disse que eu não era nenhum maluco. Até porque tinha noção de que o Zé não era real. Toma lá pai, BUMMM! Não sou maluco!

Fiquei tão aliviado quando ela disse aquilo, fogo, estava a ver que não me safava desta, sou normal! 

De repente, oiço um “mas”, acompanhado de: “seria aconselhável o acompanhamento por motivos de uma possível instabilidade emocional, bem como vocês enquanto casal beneficiariam de alguém que os orientasse numa terapia de casal”, o que traduzido pelos meus pais significa que tanto eles, como eu precisávamos de ir à “pesicóloga”. Pensei: “Hã? Bolas, ela tinha acabado de dizer que eu não era maluco e agora preciso de ir à “pesicóloga”?” Foi então que a “pesicóloga” me explicou que os meninos que iam à psicóloga não eram malucos, apenas tinham alguns problemas, tal como os adultos, e que a psicóloga os ajudava a conseguir resolver, para serem mais felizes.

Mais importante ainda, ela disse que queria conhecer o Zé e brincar connosco. Fiquei espantado. No final, isto até foi fixe. Fiquei a saber que não sou maluco e que os meus pais também precisam de uma ajudinha da “pesicóloga” para ver se resolvem as cenas entre eles, só isso já valeu a pena!

imagem@mamaextrema

Vivemos numa sociedade que muito tem evoluído em termos de taxa de alfabetização. Nos últimos 40 anos, em Portugal, a curva destes gráficos é significativamente muito positiva.

Por força de circunstâncias várias, tornámo-nos mais atentos ao desenvolvimento cognitivo e, desde muito pequenos, os miúdos são muito estimulados para o conhecimento e a aprendizagem e recebem de pais e professores a expectativa avantajada de que o caminho é esse e “não deves falhar”.

O tempo de brincadeira fica encurralado nos intervalos do conhecimento e das atividades extra-curriculares. Que é como quem diz que não há tempo para brincadeiras livres. Aquelas em que não há o adulto a dirigir o momento, em que as regras e o cumprimento delas, cabe apenas aos miúdos. Aqueles momentos em que eles trocam experiências e aprendem com isso e que, dessa forma, ficam a conhecer-se melhor; que têm oportunidade de realmente empatizar uns com os outros. Agora, não há tempo! Agora, terminam a pré-primária a saber ler…

Os adultos, os cuidadores, tendem a ficar muito orgulhosos de verem os filhos crescer e já tão dotados de tanto conhecimento; já com tão boas notas que recebem como resultado dos testes de avaliação que fazem na escola. E estes factos ganham uma dimensão tão grande que não tem termo de comparação com a dimensão social. Parecem sobrevalorizar o aspeto escolar (cognitivo) e secundarizar o aspeto social/individual (emocional). “Está bem inserido no grupo?” “Como funciona a relação com os pares?” “A integração parece adequada, mas conhece os limites e as regras do seu comportamento em relação ao outro – da sua idade e do adulto?” “Como gere as suas frustrações?” “Descarrega-as nos amigos ou consegue uma forma mais elaborada (tendo em conta a idade)?” “É sensível ao amigo ou passa-lhe por cima sem perceber o impacto que isso pode ter nele?”

Ler também Criada por pais com Inteligência Emocional Baixa

Negligenciar a importância de que as crianças se confrontem consigo e com os outros, para reconhecerem sentimentos, receios, motivações e intenções – suas e dos demais -, é progredir num caminho que nos conduz à insensibilidade, à indiferença e até ao desprezo pelos outros. É ir a trote de uma sociedade que apesar de mais instruída, mais culta e bem falante, os elementos que a compõem (pessoas) parecem ir perdendo o conhecimento básico de relacionar-se com os seus iguais.

É importante perceber se os filhos que vemos crescer conseguem desenvolver tão bem o famoso Quociente de inteligência (QI), mas sem descurar a importância do Quociente emocional (QE). Afinal de contas, de que nos serve um cérebro pejado de conhecimento, se não tiver a capacidade de reconhecer os seus sentimentos e os dos outros; se não souber interagir em grupo?

A escolarização incute erradamente a ideia de que saber pensar é saber gramática, é saber fazer contas, resolver problemas e por aí adiante. Tem o cunho de que saber pensar e fazer tudo isto bem feito é ser inteligente. Mas, na realidade, as boas notas na escola não definem a capacidade, ou não, de pensar da criança. Saber pensar vai para além da linguagem escrita que a escola ensina. Ainda que seja inteiramente útil e necessária (matéria indiscutível!), não pode encerrar por si só o capítulo do conhecimento. Não pode anular a importância do falar, dialogar e do brincar.

Os parágrafos que se seguem são exemplos de meninos que mostram aos adultos como se pensa. Como têm a capacidade de PENSAR…

O M. de 7 anos, relativamente à importância que sentia dada à nota “Muito bom” (que ele próprio também tem) perguntou à mãe se “Satisfaz” é um mau resultado. Quando a mãe disse que também é uma boa nota, ele respondeu que “os amigos que têm “Satisfaz” depois chegam ao recreio e sabem brincar, mas os que têm “Muito Bom”, não sabem”.

O G., de 7 anos, sobre um amigo que chora na sala de aula, sempre que se sente questionado pela professora, dizendo não saber a matéria: “ Ele lá dentro dele, ele sabe. Por fora, é que ele pensa que não sabe”.

Menino a quem perguntaram o que é um segredo “Um segredo é uma coisa que os adultos dizem ao ouvido uns dos outros até toda a gente saber” in Santos, João dos (1988), “Se não sabe por que é que pergunta? conversas com João Sousa Monteiro”, Assírio & Alvim

imagem@vivomaissaudável

Como é que se explica a Páscoa a crianças? Parece complicado, mas deve ser um processo natural. Tal como o Natal, a Páscoa é um feriado cristão, uma festa pagã.

Obviamente que parece mais fácil explicar o Natal: celebra-se o nascimento do Menino Jesus, os presentes aparecem dos 3 Reis que seguiram a estrela para conhecer o Menino. Celebra-se o amor. E, inicialmente, é o suficiente. Com o crescimento e maior entendimento da vida, torna-se mais fácil acrescentar informação de valor a esta história.

Agora a Páscoa… Como se explica a ressurreição de Cristo? Como se explica a morte de “Menino” Jesus?  E, sendo filho de Deus, como deixa Deus morrer o seu filho? Onde entra o Coelho?

Tudo isto é muito complicado na cabeça de uma criança. Tal como uma história, onde podemos acrescentar pormenores, aqui devemos ir por partes. Não vale a pena explicar tudo de uma vez. Uma criança muito pequena não terá capacidade de compreender Cristo a ser crucificado. Mas se for uma criança habituada a ir à missa, de certeza que já começou a apanhar alguma parte da história, nem que seja pelas imagens e estatuárias. Agora, trata-se de unir os pontos. Assim, deixamos algumas dicas

Para explicar a morte de Cristo, escolha um momento em que tenha tempo para contar uma história. Sim, deve começar como se se tratasse de uma história infantil. Não é preciso entrar em grandes pormenores. Cristo era muito bom e ajudou muita gente. Na sua época conseguiu mudar muita coisa, e por isso apareceram alguns inimigos, que acabaram por pendurá-lo na Cruz.

Logo de seguida, pode passar à parte em que Cristo ressuscitou. E foram apenas três dias depois. É isso que celebramos, a ressurreição de Cristo.

Aqui chegamos aos ovos da Páscoa: os ovos representam o renascimento. Inicialmente eram pintados à mão com cores vivas e motivos florais, para representar a Primavera. Ah, porque a Páscoa celebra-se no solstício de Primavera! O que nos leva ao Coelho da Páscoa: que animal poderia representar melhor a fertilidade e a primavera?

Deixamos um vídeo que pode mostrar aos seus filhos. Quem poderá explicar melhor a Páscoa às crianças, do que as próprias crianças?

E lembre-se, o mais importante a explicar não é a morte e a ressurreição de Cristo, mas sim aquilo que todos aprendemos com isso.

 

Os pequenos grandes atletas

Há muitos anos atrás, não teria mais de 5 anos, encontrei-me subitamente na presença de um espírito.
Fui imediatamente tomada por ele. Como se a partir daquele momento todos os meus movimentos, todos os meus sentidos, tudo o que fazia de mim uma banal menina de cabelos loiros tivesse subitamente desaparecido e aquele espírito selvagem, que ninguém sabia de onde vinha, se fundisse em mim, para sempre.
Dir-se-ia que para afastar novamente aquele vendaval do meu corpo, seriam necessárias muitas horas de delicadas intervenções cirúrgicas, para me separar daquilo que eu até hoje chamo de a minha irmã siamesa.
Ninguém entendia o que aquilo era. Eu compreendo agora que talvez fosse [naquela época] muito mais fácil identificar outros espíritos, talvez por serem mais comuns, mais audíveis, mais extraordinários.

Lembro-me por exemplo do espírito que tomou a minha amiga Alexandra. Um espírito artístico, de traço muito fino, que a tomou em ombros fazendo-a desenhar quase na perfeição as caras das bonecas que lhe ofereciam pelo Natal, e depois, numa admirável arquiteta. Ou o espírito do pianista que aterrou em cheio na cabeça da Marisa, um prodígio das teclas, um encanto de menina.

O meu espírito tomou-me e virou-me do avesso.

Não era nenhum espírito especial, aliás, era antes um espírito que trazia sempre água no bico, recados da professora e chinelada no rabo.
Espírito indomável que me possuía inteira, roubando-me a pacatez de menina e o amor da vizinhança.
Tornei-me elástica, nasceram-me asas, cresceram-me fios de cola na ponta dos dedos que me colavam às paredes, às ombreiras das portas, às árvores, aos telhados, a tudo.
A minha mãe, debulhada em lágrimas, ria-se às escondidas para evitar que a tomassem por maluca, e foi talvez a única pessoa que acolheu, parcimoniosa, o meu novo espírito, e que agarrou nele e em mim, e nos foi entregar aos préstimos do professor Lelo, o mais famoso professor de ginástica do subúrbio.

A menina precisava de quem a domasse.

Não era viável que andasse às rodas, aos flics e às espargatas no meio da estrada íngreme do bairro. Tornou-se até perigoso deixá-la andar em cima dos patins, sem o medo que caracteriza os adultos, rua abaixo, travando apenas na parede da loja da Leonor, uma senhora que sofria do coração e que não parava de dizer: esta menina tem o diabo no corpo!
Ela não sabia o nome do espírito que me acompanhava. Talvez fosse um diabo de espírito. Talvez. Mas se fosse hoje era certo que tinha proposto à minha mãe a Ritalina para me acalmar os nervos. Talvez o boxe se o houvesse assim como há agora. Ou o judo, o desporto para rapazes e meninas ‘estranhas.’

A minha avó entendeu que para domar o meu espírito o baptismo e as aulas de catequese seriam prudentes.

Infelizmente (para ela) redundaram num completo falhanço. Faltei a todas as aulas para ir apanhar pássaros.

Dou graças por não haver na minha altura a fobia dos psicólogos infantis e de tudo o que actualmente se faz para agrilhoar um espírito mais mexido.
Fico feliz quando vejo os pais levarem os meninos para o futebol, para a natação, para o judo, para o balett, para a ginástica, para o hip hop. Para as actividades físicas imprescindíveis ao correto desenvolvimento da criança.
Mas também fico desesperada por ver pais que levam a mesma criança para todas estas actividades sem preceito e contrariadas. A mesma criança não precisa de fazer trezentas coisas com o corpo e é prudente que os pais saibam reconhecer nos filhos o espírito que se manifesta com mais fulgor.

Poderemos até, no decurso do crescimento dos nossos filhos, verificar que o antigo espírito pianista deu lugar ao espírito ciclista ou até mesmo ao cientista, ou perceber que o miúdo fica mais atento aos colegas que jogam ténis no campo ao lado do que ao jogo de futebol em que participa.
A partir de certa altura as mudanças de interesse acontecem. Devemos ser prudentes e experimentar estes novos espíritos, conscientes de que são exactamente os espíritos que temos lá em casa, e que não estamos a empurrar as nossas filhas para o ballet quando o que elas gostam é de surf.
Os pequenos grandes atletas são espíritos compreendidos, são espíritos apoiados, não são os espíritos cujo desejo é fabricado por modas. Os meninos, ou quase todos os meninos gostam de jogar à bola, mas apenas 2 é que serão futebolistas.

Fui uma pequena grande atleta porque alguém percebeu o que eu gostava de fazer.

Se depois aquilo deu em nada, se depois desisti, se depois não fiz da ginástica o meu futuro, foi porque na realidade não tinha de ser, ou porque as circunstâncias da minha vida assim o entenderam, mas posso jurar que as horas do dia em que me sentia mais feliz e mais livre, foram aqueles em que pude ser uma pequena grande atleta, em comunhão com o meu espírito hiperactivo, a minha irmã siamesa.
À parte disto, nasceram-me amigos que nunca chegaram a chutar uma bola ou a fazer uma espargata, mas também eles foram pequenos grandes atletas, espíritos compreendidos, os melhores de todos, nos puzzles, no xadrez, nas letras, na música, e em tudo o que o espírito deles ditou.

Há muitos anos atrás, não teria mais de 5 anos, encontrei-me subitamente na presença de um espírito.
Hoje, com 39 anos, encontrei-o outra vez nas rodas de uma bicicleta de BTT.
Oxalá não me abandone nunca este vendaval.