Pais presentes criam filhos independentes e autónomos

Tão interessante perceber que o que os pais mais querem é filhos independentes e autónomos. Querem que façam as coisas por eles, que não dependam de ninguém. Querem que não estejam atrasados no desenvolvimento. Que não haja nada de errado quando parece que já deviam ter dado aquele passo ou ter dito aquela palavra.

O foco está todo em forçar a independência. E “forçar” é a palavra-chave aqui, que advém das nossas crenças. Da forma como nos sentimos perante a “dependência” e que nos leva agir de uma forma, por vezes, até inconsciente na relação com as crianças. Se a relação tiver um começo que é a dependência e um fim que é que independência, um fim como sendo um objetivo, o nosso foco está, na maioria das vezes, nessa independência.

E na verdade, famílias, o foco deveria estar nas seguintes perguntas:

O que eu posso ser agora para o meu filho para que ele venha a ser independente de uma forma saudável?

O que é necessário para que ele sinta que tem os recursos todos para ser quem é?

Quando nos focamos apenas no quer ser independente, estamos com toda a nossa atenção no futuro e a forçar o desenvolvimento da criança. Fora do ritmo da criança. É, por exemplo, quando pegamos o bebé pelos braços para ele começar andar, quando ele ainda não demonstrou sinais para o fazer. É o que fazemos quando começamos a forçar as palavras, sem que a criança comece a fazer sons com a voz. Com isto, não significa que o melhor seja não interagir com a criança. A diferença que eu quero reforçar aqui, é o quanto é importante estarmos presentes no agora.

Como?

Observando como estou a sentir-me. Reconhecendo, observando a criança, sendo um canal facilitador para o seu desenvolvimento, como as margens de um rio que vai desaguar no oceano.

Maria Montessori

Maria Montessori tem uma frase que ajuda a perceber esta questão: “ajuda-me a crescer, mas deixa-me ser eu mesmo”. Montessori diz que a criança nasce com um mestre interior. Uma vozinha que lhe diz o que precisa de fazer naquele momento. E essa vozinha, muitas das vezes, devido ao nosso ego, à falta de conhecimento, é lhe dito que não tem espaço para se expressar. É o exemplo da criança que quer subir as escadas e os pais acham extremamente perigoso. Neste caso, é necessário apenas que o adulto esteja a suportar aquilo que a criança quer fazer naquele momento.

O que seria se permitíssemos que a voz da criança se expressasse mais?

Para existir independência da criança, é necessário que haja uma dependência que lhe transmita segurança. Uma base de sustentação, um espaço único de expressão, de liberdade para ser quem ela já é.

A dependência e a independência fazem parte do mesmo círculo. Vivem muito bem uma com a outra. E são necessárias à nossa existência saudável quando nos ajudam a expandir e a crescer.

 

image@ Lorri Lang por Pixabay 

Não recompense o seu filho pelo bom comportamento. Reconheça-o positivamente

Antes de mais deixem-me explicar porque falo em reconhecer positivamente a criança e não em recompensar.

Não estaria totalmente errado visto que ambos os termos envolvem valorizar e gratificar. No entanto, recompensa está muito mais associado a algo palpável, um prémio, uma remuneração. Reconhecimento é constatar, condecorar e permanece na nossa vida e isso sim, faz a diferença na educação das nossas crianças com e sem necessidades especiais – o reconhecimento!

É tão importante saber reconhecer a criança pelas suas atitudes, conquistas e comportamentos como é importante perceber como agir perante as traquinices ou os comportamentos menos positivos da criança, com o intuito de ajudá-la a melhorar o seu comportamento e a crescer.

As recompensas materiais ou comestíveis são muito frequentes, no entanto, não são de todo as melhores para o desenvolvimento intelectual e emocional da criança:

Recompensas materiais

A longo prazo e como recurso frequente vão-se tornando cada vez menos gratificantes para a criança. Para além disso, fomenta a ideia de que para se sentir bem consigo própria o importante é “ter coisas”. Desta forma, mais dificilmente, aprenderá o valor do afeto, da ajuda mútua e o reconhecimento da importância das relações com os outros.

Recompensas comestíveis

Cria uma dependência do organismo da criança para se sentir bem consigo própria. Assim, para que a criança se sinta o seu cérebro vai pedir-lhe um doce…o que, obviamente, não é bom para a sua saúde!

ATENÇÃO: não digo que um chocolate ou uma prendinha irão fazer mal ao piolho mas se forem um recurso frequente, aí sim, torna-se num problema. Por isso, este tipo de recompensas (sim, aqui utilizo o termo recompensa e não reconhecimento) sugiro que as guardem para grandes momentos: passar de ano letivo, o natal, o aniversário, a chegada de um irmão,  etc…!

Qual a melhor forma de reconhecer o  meu filho promovendo o seu desenvolvimento emocional e intelectual?

O reconhecimento social e emocional são, definitivamente, os melhores: privilegiar, agradecer, felicitar, abraçar

Para nós adultos, talvez seja estranho que uma criança aprenda a dar-se por feliz com este tipo de reconhecimento mas nada é mais valioso para a criança do que sentir-se valorizada pela sua atitude ou comportamento tendo o reconhecimento, principalmente, daqueles que lhe são figuras de referência, como os pais ou os educadores.  Esta forma de reconhecimento motiva, ainda mais, a criança a ter comportamentos positivos de forma espontânea e intencional. Para além disso, desenvolve o sentido de responsabilidade para com os seus deveres e para com os outros,  a auto-estima, a segurança emocional e auto-confiança perante o medo de falhar e a sua autonomia.

As crianças deixam-se tocar pelo coração muito mais do que imaginamos…?

Ficam aqui algumas sugestões de reconhecimentos positivos para as vossas crianças:

Tempo

Dedicar tempo à criança para brincar, ler uma história. Dedicar-se de corpo e alma ao tempo com a criança.

Responsabilidade

Confiar-lhe uma responsabilidade como ajudar a levar o carrinho das compras (todas as crianças adoram empurrá-lo), deixá-lo levar as chaves do carro e abrir o carro, marcar o “ok” na hora do pagamento de multibanco…

Poder de escolha

Dar-lhe um privilégio como escolher o jantar, escolher o filme que a família irá ver no fim-de-semana, escolher o parque a que vão, se a criança foi para o banho sem contestar, deixe-a encher a banheira e dê-lhe um banho de espuma…!

Elogiar

Felicitar a criança dizendo-lhe o que fez bem algo. É importante que ao elogiar refira sempre aquilo que fez bem e não lhe atribua apenas o elogio. Por exemplo: “uau, pintaste tão bem dentro das linhas”, “adoro o teu desenho!”

Agradecer

Agradeça a criança o bom comportamento. Diga-lhe o quão feliz, orgulhoso e agradecido fica por aquela boa ação.

Relembro As crianças deixam-se tocar pelo coração muito mais do que imaginamos… <3 “. É mesmo simples assim…

image@iniciados

 

Por Beatriz Pereira, BLOG “MAIS Q’ESPECIAL”

A nossa tarefa principal enquanto pais é conseguir que as nossas crianças se tornem adultos capazes de se desenvencilhar no vasto mundo que existe para além das nossas paredes. Tudo o que lhes fazemos – alimentar, vestir, proteger, mimar, educar,… -, é com esse propósito.

Queremos que elas consigam um trabalho que as sustente, que as façam felizes, que consigam ter a sua própria família (se o quiserem, claro), que se rodeiem de pessoas que lhes queiram bem e que consigam realizar tudo o que se desejam. E começamos esse trabalho, consciente ou inconscientemente, desde que elas são pequenas.

Não é uma tarefa fácil. Requerer, tantas vezes, uma paciência que achamos que não temos. É certamente mais fácil dar a comida à boca da nossa criança do que deixá-la tentar acertar sem entornar tudo.

Mas o mais espantoso é que ela rapidamente será um ás na arte de comer sozinha! E será com um grande orgulho que ela o quererá mostrar a todas as pessoas. Claro que também será com muito orgulho que ela irá querer mostrar o domínio da arte de pintura com marcadores – e aí geralmente a tela escolhida será a parede da sala…

À medida que a criança cresce, mais complexas serão as tarefas a si atribuídas, desde vestir-se, tomar banho sozinha, pôr a mesa, escolher a sua roupa, alimentar os animais de estimação, limpar o pó, pôr a loiça na máquina até ir fazer umas pequenas compras na mercearia da esquina. E deixá-la fazer tudo isso, e errar tantas vezes quantas as necessárias, é prepará-la para ser um adulto saudável. Claro que devemos sempre ter em conta sua idade e maturação e evitar dar-lhe tarefas que a frustrem demasiado ou que a possam pôr em perigo: ninguém espera que uma criança de 6 anos consiga fritar um ovo sem ajuda, da mesma forma que ninguém espera que uma de 16 anos não o consiga fazer.

Continuará a ser mais cómodo, rápido e simples fazer as coisas por elas, especialmente quando estamos atrasados, cansados, irritados, com pressa.

Mas vê-los a crescer de forma responsável e saudável, valerá, certamente, mais esse sacrifício.

As tarefas domésticas são atividades essenciais na educação de crianças independentes, organizadas e responsáveis. Ao incluir os seus filhos nestas tarefas desde pequenos está a educá-los para a vida, ensinando-lhes a importância da organização e da cooperação.

Os benefícios de envolver as crianças nas tarefas domésticas vão desde a disciplina à solidariedade – aprendem a trabalhar em equipa, com os pais ou irmãos, para o objetivo comum que é manter a casa organizada. E ao ser-lhes atribuída uma responsabilidade relacionada com tarefas fora do universo infantil, as crianças também ganham autoconfiança e desenvolvem a sua autoestima.

Dependendo da idade, há diferentes tarefas que podem ser introduzidas no quotidiano de uma criança.

2 a 3 anos

São crianças ainda pequenas, mas já podem começar a ajudar com as tarefas mais simples. Os pais precisam apenas de estar disponíveis para lhes ensinar todos os passos com calma e de ter alguma paciência.

  • Arrumar os brinquedos, livros e jogos depois de usados.
  • Ajudar a fazer a cama.
  • Limpar o pó de móveis ao seu alcance.
  • Varrer a cozinha com uma vassoura pequena.
  • Ajudar a limpar bebidas entornadas ou comida espalhada.

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4 a 5 anos

Nesta idade as crianças já começam a assimilar melhor a importância da organização e limpeza. Os pais podem introduzir, além das tarefas anteriores, outras tarefas de mais responsabilidade e que as crianças possam fazer com menos supervisão.

  • Ajudar a alimentar e a cuidar dos animais de estimação.
  • Pôr e levantar a mesa às refeições.
  • Colocar a roupa suja dentro da máquina de lavar.
  • Ajudar a lavar o chão com uma esfregona.
  • Ajudar a guardar as compras do supermercado.

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6 a 8 anos

Estas crianças já estão na escola, já começam a saber ler e escrever e precisam de tarefas domésticas mais estimulantes, que possam iniciar e terminar sozinhas, para não perderem o interesse em ajudar os pais em casa.

  • Separar a roupa suja. (Pode consultar os símbolos de lavagem na Cleanipedia.)
  • Dobrar e guardar a roupa lavada.
  • Arrumar e ajudar a limpar o quarto.
  • Ajudar a preparar refeições (fazer sandes, lavar legumes, fazer bolos).
  • Deitar o lixo fora.
  • Ajudar a lavar a loiça.

tarefas-criancas

9 a 12 anos

Nesta fase as crianças sentem-se mais independentes, confiantes e orgulhosas de partilhar as tarefas domésticas com os adultos. E como são mais velhas requerem uma aprendizagem mais avançada, por isso os pais já podem ensiná-las a trabalhar com alguns eletrodomésticos, por exemplo.

  • Aprender a usar a máquina de lavar roupa e a de lavar loiça.
  • Mudar os lençóis da cama.
  • Ajudar a estender e a apanhar a roupa.
  • Ajudar a limpar a cozinha e a casa de banho.
  • Ajudar a lavar o carro.

E se precisa de mais dicas para estimular a organização nos seus filhos leia Como estimular a organização nas crianças!

 

Por Joana Teixeira para Up To Kids®

Imagens@pixbay/stocksnap

Como promover a autonomia, responsabilidade e competências de organização em função do ano de escolaridade

Eis que recomeçaram as aulas!

O início do ano lectivo é tipicamente turbulento, mais ainda para quem começa agora a caminhada de um novo ciclo, seja como aluno ou como encarregado de educação. Esta é também uma fase crítica para pôr em marcha um ano escolar pleno de sucessos.

Na preparação de mais um ano escolar, e vendo toda a azáfama de compras de material escolar, não pude deixar de me recordar de uma conversa com um aluno de 3.º ano.

Perguntava-lhe eu onde estava a ficha que tinha levado para casa para terminar. Respondeu com um descansado “não sei”.  Estranhei. Se fosse “esqueci-me” eu percebia, mas não saber de todo pareceu-me estranho. Questionei. “A mãe deve ter-se esquecido de arrumar”, respondeu-me. Curiosa, procurei perceber. Para aquela criança, arrumar a mochila ou guardar os tpc’s era tarefa para os adultos. Olhámo-nos com igual expressão de incompreensão: eu pela surpresa de ser não ser óbvio para um aluno de quase 9 anos de idade que a responsabilidade era sua, e ele porque a minha surpresa lhe era estranha.

Imaginei o que será para os pais organizar o cenário familiar de banhos, jantares e tarefas várias filhos em casa. Vejo um adulto naturalmente cansado a perguntar-se “ensino-o a fazer isto ou faço eu por ele? Hoje já é tarde, amanhã logo ensino!”. E assim se criam rotinas de organização do material que não favorecem o envolvimento da criança com a escola.

O espólio escolar é vasto e a sua gestão autónoma é difícil para alunos do 1.º e 2.º ciclos, mas pode ser também um instrumento de promoção da autonomia, responsabilidade e competências de organização.

Adaptando a tarefa à idade e competências da criança, esta pode desempenhá-la com relativa facilidade, cabendo ao adulto apenas a supervisão da mesma.

Assim, deixamos algumas sugestões em função do ano de escolaridade:

  • 1.º e 2.º anos

Nesta etapa da escolaridade as crianças ainda enfrentam alguns desafios com a escrita. Uma forma eficaz e divertida de agilizar a tarefa de “arrumar a mochila” será fazer uma tabela com ilustrações (legendadas) dos objetos a arrumar. A criança poderá ter de colocar um “visto” à frente de cada item que já arrumou. Caberá aos pais confirmar se tudo está ok. Podem criar um código de pontos convertíveis em algum prémio agradável. Existem à venda quadros magnéticos com pequenos ímans que poderão ser uma boa solução.

  • 3.º e 4.º anos

Nesta fase as crianças já dominam a linguagem escrita pelo que as ilustrações são opcionais (mas continuam a ser apelativas). Agora podem complexificar a tarefa e eventualmente acrescentar aspetos mais difíceis, como arrumar o saco da ginástica ou definir dias para limpar o estojo ou fazer uma limpeza às folhas soltas.

  • 5.º e 6.º anos

Novo ciclo, novas regras. O horário semanal passa a ser a bússola nesta tarefa. Gerir as várias disciplinas e materiais afetos a cada uma delas é ainda difícil. Uma boa estratégia será construir uma agenda onde, associados a cada disciplina, apareçam os materiais que esta exige (por exemplo: Matemática – manual+livro de fichas+caderno+régua…). Para muitas crianças conferir item a item continua a ser importante, bem como a supervisão parental.

O caminho para a autonomia faz-se caminhando. Um passo por dia desde o primeiro dia. Com estes e outros pequenos grandes detalhes damos um importante contributo e reforçamos progressivamente o sentido de auto-eficácia e bem-estar. Crescer, mais do que adquirir conhecimentos, é formar-se, desenvolvendo competências duradouras que promovem o sucesso académico das crianças e jovens.

 

Por Dra. Helena Almeida para Up To Kids®

Os benefícios da parentalidade preguiçosa. Adeus mães helicóptero

Ultimamente, parece que as outras pessoas estão mais interessadas na segurança dos meus filhos do que eu. Vêem um miúdo pendurado a balouçar nas escadas do parque ou a minha filha a fazer recortes com uma tesoura e saltam disparados em seu socorro. Já perdi a conta da quantidade vezes que um estranho me vem dizer que “deixar andar” não é seguro para as crianças. As pessoas tendem a apontar e julgar.

Gostava de poder dizer que isto só acontece on-line. Que é o resultado de ser uma blogger e expor a nossa vida para quem quiser ler e criticar. Mas não é o caso. Na verdade, acontece mais vezes no meu dia-a-dia do que on-line. Há tempos houve uma pessoa que chegou mesmo a acusar-me de abuso e negligência infantil, por deixar o meu filho de dois anos andar sozinho por cima de um murete que não tinha mais de 40 cm de altura.

Eu estou a prestar atenção.

Eu estou ali ao lado, a observa-los, a incentiva-los e a desafia-los, dando-lhes espaço e liberdade para se testarem.

Eu fico afastada em vez de mergulhar de braços abertos atrás deles. Porque quero que eles ganhem confiança nas suas habilidades e competências. Quero que desafiem as suas capacidades. Para que não tenham medo de explorar ou experimentar algo novo. Para que aprendam a entreter-se sozinhos e a usar a criatividade.

Eu mantenho-me à distancia porque quero que eles se tornem autónomos e independentes.

E apesar de muitos pais nos rotularem como preguiçosos, este método resulta muito bem para nós. Quando caem ou batem em qualquer coisa, eu estou lá para lhes pegar ao colo, dar um abraço e os beijinhos que forem precisos. Mas, na maioria das vezes, não é preciso. Na maioria das vezes eles levantam-se sozinhos, correm para o próximo obstáculo enquanto dançam o Gangnam Style sem uma lágrima na cara.

Como é obvio, não vou dar uma faca de mato à minha filha de 7 anos. Nem tão pouco objectos muito pequenos ao meu filho de 2 anos que adora meter tudo na boca.

Mas essa é a vantagem de ser pai… nós conhecemos os nossos filhos.

Sabemos como é que eles agem. Conhecemos os seus pontos fortes e fracos e as suas capacidades para realizar determinada brincadeira sozinhos. Nós sabemos quando é que podemos ficar a acompanhar à distância, e ser “preguiçosos”

Não deixes que um estranho qualquer te impeça de seres pai à tua maneira. A parentalidade deve ser vivida de uma forma que te seja natural e que permita que os teus filhos sejam livres para se descobrirem e se desenvolverem autonomamente, e serem felizes!

 

Por Stephanie Oswald, em Parentingchaos

Mães desnecessárias

“A boa mãe é a que vai se tornando desnecessária com o passar do tempo.”

Um amigo psicanalista costumava dizer esta frase, e sempre me soou estranha.

Agora os meus filhos já não são bebés e chegou a minha vez de reprimir o impulso natural materno de querer manter a cria debaixo da asa. De querer proteger de todos os erros, tristezas e perigos. Uma batalha hercúlea, confesso. Quando começo a esmorecer na luta para controlar a super-mãe que tenho dentro de mim (temos todas!), lembro-me logo desta frase.  Hoje tornou-se absolutamente clara.

Se eu criei os meus filhos para serem adultos autónomos, tenho de me tornar desnecessária.

Antes que alguma mãe mais rápida me acuse de não amar os meus filhos, passo a explicar:

As mães desnecessárias não deixam que o amor incondicional, que sempre existirá, crie vício e dependência nos filhos. Como uma droga ao ponto de não conseguirem ser autónomos, confiantes e independentes. Prontos para traçar o seu rumo, fazer as suas escolhas, superar as suas frustrações e cometer os seus próprios erros.

Em cada fase da vida, vamos cortando e refazendo o cordão umbilical. Em cada nova fase uma nova perda é um novo ganho para os dois lados. Para  a mãe como para o filho. Porque o amor é um processo de libertação permanente e esse vínculo não pára de se transformar ao longo da vida.

Até o dia em que os filhos se tornam adultos, constituem a própria família e recomeçam o ciclo.

O que eles precisam é de ter a certeza de que estamos lá, firmes, na concordância ou na divergência, no sucesso ou no fracasso, com o peito aberto para o aconchego, o abraço apertado, o conforto nas horas difíceis. Mas no dia a dia somos mães desnecessárias.

Pai e mãe solidários criam os filhos para serem livres.

Este é o maior desafio e a principal missão da parentalidade. Ao aprendermos a ser “desnecessários”, transformamo-nos no porto seguro para quando eles quiserem atracar.

 

Por Márcia Neder, Psicanalista e Psicóloga Clínica

Criar espaço e oportunidade para as crianças conseguirem dar os primeiros passos sozinhas é uma demonstração de amor e afecto verdadeiramente notável por parte de qualquer cuidador. Mas estimular a independência nos mais pequenos pode ser muito difícil, sobretudo quando esta parece representar simultaneamente uma ameaça ao território de domínio dos pais. Muitas vezes, na minha prática clínica, deparo-me com pais que insconscientemente alimentam esta dependência, como forma de garantir o controlo  dos seus filhos, numa espécie de “miminhos continuados”, que podem vir a custar um preço elevado no crescimento dos jovens.

Se queremos que as crianças de hoje se tornem adultos autónomos e responsáveis é conveniente ir fazendo pequenas atribuições de responsabilidade, de forma gradual e sem exageros! Uma criança que está sempre “colada” aos pais, sendo estes a resolver todos os problemas e questões que vão surgindo no dia-a-dia, ou tomando todas as decisões por si…  pode tornar-se um adulto inseguro, sem consciência da responsabilidade e muito dependente da opinião e aceitação dos outros.

Incentivar as crianças a crescer com segurança, implica abdicar do monopólio lá de casa e ir dando voz, responsabilidades e “poderes” aos mais pequenos… Porque mais cedo ou mais tarde os seus filhos precisam resolver problemas e tomar decisões sozinhos! Estarão realmente preparados? A autonomia e independência não é um processo imediato e biológico; pelo contrário exige um treino e desenvolvimento que muitas vezes não lhes proporcionamos.

Comece por pequenas tarefas em casa, como arrumar as suas próprias coisas (brinquedos, roupas, outros objectos…), até como uma oportunidade dos mais novos desenvolverem uma noção de organização e arrumação… atitudes que irão ajudá-los pelo resto da vida.

Tarefas domésticas, como arrumar o quarto, juntar a roupa suja, arrumar os livros, pôr e levantar a mesa, lavar a loiça. São pequenas atividades que fazem muita diferença na vida adulta dos filhos (sobretudo nos filhos rapazes que são tendencialmente mais poupados nestas tarefas… lembre-se que um dia, ele irá sair de casa e ser “desenrascado” vai ser-lhe muito útil!).

Ensine-o a ter opinião formada: converse com ele e discuta sobre assuntos da actualidade e que passam na televisão ou até mesmo sobre assuntos da escola. Incentive-o a falar sobre diversos temas e a dar sua opinião. Ouça com atenção, com curiosidade, sem julgamento, apenas questionando, com o objetivo de estimular a sua capacidade de pensar e reflectir os mais variados temas.

Não faça as coisas por ele (nomeadamente trabalhos de casa!). Orientar não é fazer por ele. A responsabilidade de fazer os trabalhos de casa é do seu filho, o seu papel é de “participante consultor”, apenas apoiando sempre que ele tiver uma dúvida ou esteja com dificuldade em entender uma questão… caso contrário que mensagem lhes estamos a passar? O que lhes estamos a ensinar?

Estabeleça regras e horários: ensine-o a ter responsabilidade quanto aos horários, por exemplo, não permita que chegue atrasado à escola, estabeleça horários para ver televisão, jogar e brincar. Isso faz com que a criança se discipline e se torne um adulto responsável;

Seja efectivamente um exemplo para o seu filho: as crianças copiam os modelos dos pais, portanto seja um exemplo de responsabilidade para ele.
Faça com que ele veja como deve ser quando adulto.
Não basta exigir… é importante mostrar como se faz.

Por Vera Lisa Barroso, para Up To Kids®
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O tema da liberdade e da responsabilidade é um dos temas centrais da educação dos filhos e deve ser alvo de análise e reflexão por parte do casal. Educar na liberdade é, efetivamente, o mais difícil de conseguir, mas é, todavia, o mais necessário. Por um lado, existem pais que, por afãs de liberdade, acabam por não conseguir colocar limites aos filhos. Por outro lado, há outros que, por afãs educativos, acabam por não respeitar a liberdade dos seus filhos impondo-lhes vontades alheias.

Ao preparar as crianças para a liberdade, os pais estão a permitir que elas possam alcançar a sua máxima grandeza – uma liberdade constitutiva que, se bem orientada, conduz à liberdade de escolha, baseada em critérios orientados para o bem. Atingir essa liberdade – a capacidade do homem poder negar a realização do que é mais próprio do seu modo de ser e da sua natureza – requer esforço pessoal e educação. Garrido, em Educar en liberdad y responsabilidad, afirma que “educar es enseñar a los niños a usar bien su libertad, de modo que quieran adherirse al bien con su conducta, superando la rebeldía negativa”.

Desde cedo, os filhos testam os limites dos pais. E, desde cedo, os pais devem educar os filhos, tendo o cuidado de adequarem as estratégias utilizadas à fase de desenvolvimento de cada um, para que eles entendam o fundamento das escolhas e das tomadas de posição que lhes são sugeridas. Por isso é tão importante que os pais coloquem regras e limites bem claros, sob pena de estarem a criar um futuro candidato à indisciplina.

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Para que aprenda a ser livre, a criança, antes de mais, deve aprender a confiar e a obedecer. Aos pais cabe o exercício irrenunciável da autoridade, algo que se revela decisivo e estruturante num crescimento socio-emocional saudável da criança. Para que ela aprenda a obedecer, os pais devem dar-lhe motivos elevados e encorajadores que a faça entender o propósito de tais ações, ajudando-a a compreender que a obediência é a chave para a convivência com os demais, para que um dia saiba usar a sua autoridade com sabedoria e sensatez.

Se os filhos crescerem percebendo que a obediência se deve ao bem moral, entendem os motivos, forjam o seu caráter e aprendem a ser autenticamente livres. Dessa forma estarão a melhorar como pessoas e a contribuir para que esse bem se estenda ao seu redor.

 

Por Luís Pereirinha, Professor do 1.º Ciclo do Ensino Básico a Assessor Educativo e Familiar no Crescer com Afecto – Saúde Pais e filhos,

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