Todos somos mediadores da leitura

Há uns tempos a minha filha foi comprar uma garrafa de água e achou muita graça quando viu escrito no rótulo “és a melhor contadora de histórias mesmo que não saibas fazer as vozes” e claro que a guardou para me presentear com esta bela mensagem!

Adorei, rimo-nos todos, mas deixou-me a pensar.

Muitas vezes, nas minhas sessões com famílias, ou mesmo nas escolas muitas pessoas dizem-me “não tenho jeito para contar histórias”.

Eu sou contadora de histórias e mediadora da leitura por prazer, por vontade e com mais conhecimento, formação e experiência por o fazer profissionalmente. Mas, pais, educadores, professores e todos os adultos que contam histórias às crianças são mediadores da leitura.

Porquê?

Porque constroem pontes entre o livro e o leitor e todos aqueles que facilitam o acesso das crianças e jovens aos livros o são.

Uma das funções de um mediador da leitura é ajudar a ler por prazer, diferenciando a leitura obrigatória da leitura voluntária. Esta é uma tarefa sobretudo para pais, famílias, prestadores de cuidados, professores, educadores e comunidade escolar.

Como pais ou profissionais da educação há que estar atento na hora da escolha dos livros, escolher com critério e ter em atenção para disponibilizar às crianças e jovens livros diversificados e de qualidade. Mas, na hora de contar a história, é muito mais importante o empenho e a vontade com que se conta, o ambiente intimista e de afetividade que se cria, pois são essas as bases das pontes criadas entre o livro e o leitor. Mesmo que não saiba “fazer as vozes”, há que criar momentos de contacto entre a criança, o livro e o leitor, de afetividade e de partilha no dia-a-dia.

Boas leituras!

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Incentivar a leitura das crianças- como, porquê, para quê e quando?

Hoje em dia há uma grande variedade na oferta de bens de consumo para as crianças, todos incluídos (embora às vezes até de forma errada) na categoria dos “brinquedos”. Entre jogos, bonecos, consolas, tablets e outros materiais aparentemente mais apelativos e que apresentam resultados mais imediatos, os livros foram perdendo o seu lugar de destaque entre o público infantil
e juvenil.

Daí a necessidade de voltar a aproximar crianças, jovens e famílias dos livros e das histórias e de criar nas crianças e jovens o hábito e o gosto pela leitura, ou o gosto e o hábito (nunca sei qual deve vir primeiro!) um dia de cada vez, todos os dias.

Como?

  • Proporcionar espaços e tempos propícios e prazerosos para a leitura;
  • Ter à disposição livros em quantidade e qualidade e adequados;
  • Conhecer o gosto da criança ou jovem e respeitá-lo sem nunca perder a perspectiva de que é o adulto que deve ter a última palavra na escolha;
  • Ler histórias com e para as crianças.

Porquê?

Porque estimular a leitura é importante desde cedo. Porque ao ler podemos viajar e conhecer o mundo sem sair do lugar. Porque é divertido.

Quando?

Desde cedo. Desde que a criança consiga manusear objectos na mão deve começar a contactar a ter contacto com os livros para que não sejam “objectos estranhos”. Antes da criança aprender a ler as palavras, ela vai aprender a ler imagens e o gosto pelos livros começa aí.

Para quê?

Para estimular a criatividade; desenvolver capacidades pessoais; promover o conhecimento e cultura geral; melhorar a expressão oral e preparar a escrita; influenciar estados de espírito; ajudar a lidar com emoções e sentimentos.

Os livros antigamente serviam exclusivamente para ensinar. Tinham como objetivo serem veículos de transmissão de informação, de morais e bons costumes. Hoje em dia já não é assim, o livro ganhou outro estatuto. Foi sofrendo transformações ao longo dos anos, dando-se cada vez mais importância ao carácter estético e lúdico. Encara-se o livro como um objeto com o qual se pode
estabelecer uma relação afetiva, com muito mais potencialidades do que apenas o ensino formal de conceitos, teorias e retificação de comportamentos.

Por todas estas razões e mais algumas que não me ocorrem neste momento, leiam… ontem, hoje e sempre!

image@AnnHe

 

6 dicas para ensinar as crianças a serem organizadas

Não precisa gastar muito dinheiro. Use a imaginação. Ferramentas simples são suficientes para garantir uma boa organização. Algumas funcionam tão bem como as mais sofisticadas e dispendiosas.
Arrumar o próprio quarto, por exemplo, e ter algumas tarefas regulares, são a melhor forma de introduzir a organização na vida de uma criança – um grande desafio para todos os educadores.
Se os pais não forem organizados, dificilmente serão os filhos.

Exemplo é a chave do sucesso: os pais são um espelho para os filhos.

Preste atenção e pondere seguir as seguintes dicas:

1. Um calendário familiar

Se for grande tanto melhor. Fixe-o na parede lá de casa, num local de fácil acesso. Organize o calendário de acordo com o agregado familiar, os compromissos pessoais, profissionais e escolares. As atividades a desenvolver em conjunto e em particular: a hora das refeições, da higiene, das tarefas de casa, de brincar, etc.

Convém estabelecer rotinas diárias.

Se o fizer tornar-se-á mais fácil ensinar a criança a ser organizada em casa e na escola, aumentando, assim, as probabilidades de enfrentar com sucesso o mundo quando for adulta. Uma criança organizada tenderá a ter uma carreira profissional mais bem sucedida, através do cumprimento de metas e objetivos a atingir desde os primeiros anos de vida.

O processo será mais fácil se usar um marcador de cor diferente para cada membro da família. Viver num ambiente organizado é fundamental para o bom desenvolvimento do raciocínio lógico da criança. Delegue competências, seguindo o princípio, segundo o qual, em casa todos ajudam.
Atenção, não a force a executar tarefas para as quais ainda não está preparada – o não cumprimento com sucesso de algumas responsabilidades pode provocar o sentimento de frustração e insegurança. O excesso de ordem pode, também, potenciar a procura obsessiva da perfeição e originar problemas a médio/longo prazo.

2. Lista de verificação visual

Dê-lhe as ferramentas certas para a organização. Em vez de palavras, por que não fotografias? Normalmente, as crianças são mais seduzidas por aquilo que veem em vez de aquilo que leem. E costuma ser menos stressante. As rotinas podem ser olhadas de forma divertida.

Use, por exemplo, fotos para ilustrar a lista de tarefas a executar. Seja criativo. Organize a rotina matinal por fotografias: fotos a sair da cama; escovar os dentes; vestir-se; pentear o cabelo e tomar o pequeno-almoço.

A lista de verificação visual é particularmente importante para as crianças mais pequenas que ainda não sabem ler e para as que apresentam problemas de aprendizagem e atenção. Verá que pouco tempo depois cumprirão todas as tarefas de forma intuitiva.

À medida que a criança vai crescendo comece a dar-lhe liberdade para cumprir as tarefas de forma independente, aumentando, assim, lentamente os níveis de responsabilidade.

Aos 8 anos a criança já deverá ser capaz de fazer tudo sozinha, ainda que nem sempre da forma mais eficaz. Organização e disciplina são conceitos essenciais para qualquer pessoa. Sempre que realizar uma tarefa sozinha não deixe de elogiar e, em alguns casos específicos, ofereça uma recompensa. O reforço positivo vai potenciar o aumento da confiança e da autoestima da criança.

3. Um relógio analógico

Ensine a importância do tempo. Um relógio pode ajudar as crianças a se situarem mais facilmente no tempo e no espaço. Permite, também observar como o tempo pode ser dividido em partes. Quantos minutos passaram e quantos restam. Considere a compra de quatro cores de papel celofane.
Divida o mostrador do relógio em blocos de 15 minutos e coloque celofane de cor diferente em cada uma dessas partes.
Esta estratégia permitirá à criança acompanhar com maior facilidade a passagem do tempo até que aprenda a ver as horas com normalidade, algo fundamental para saber como se organizar.

4. Um organizador de material

Um canto de estudo organizado é fundamental para que não sucedam as habituais distrações. Em vez de deixar o material escolar espalhado pela casa, guarde-o num local próprio, por exemplo, dentro de uma caixa facilmente transportável. Ensine a criança a organizar o material (lápis, marcadores, tesoura e cola) de uma forma funcional. Há caixas de brinquedos com alças que podem servir para armazenar e transportar todo o material escolar.

5. Dossiers/pastas coloridas

Pastas organizadas por cores costumam facilitar a vida dos alunos. Por exemplo, use uma determinada cor para colocar os papéis que precisam viajar com regularidade de casa para a escola e vice-versa, por exemplo, os trabalhos de casa. Escolha outra cor para os papéis que podem voltar para casa e não precisam de ser devolvidos.
E ainda outra cor para os trabalhos que precisam de ser acompanhados pelos pais e logo depois devolvidos à escola.

6. Caixas como portfólio

Caixas variadas são uma ótima solução para economia de espaço, num quarto de uma criança. Empilham-se facilmente uma em cima de outra e podem ser decoradas e rotuladas conforme o gosto de cada criança. Use-as, por exemplo, para guardar desenhos e outros materiais de forma cómoda e eficaz. Experimente utilizar, também, caixas transparentes com tampa, para que, de uma maneira simples e rápida, a criança consiga aceder aos brinquedos favoritos.

Desde há algum tempo, os quadros de honra fazem parte das escolas (felizmente, não de todas) e, consequentemente, das famílias (algumas!).

Instituiu-se este método como um reforço positivo às boas notas e um incentivo ao empenho, para quem não as alcança.

Atente-se ao facto de que pertencer ao quadro de honra implica nunca escorregar do patamar das “boas notas” abaixo, ou seja, não é permitido falhar – há uma nota mínima definida!

Esta modalidade das escolas, com o objetivo de promover e parabenizar a excelência de uns, e despertar o interesse e empenho de outros, é uma falácia! Nem os que conquistam o estatuto precisam da pompa com que são brindados, nem os demais se empenham mais para alcançar essa meta.

Educar para a excelência académica, sim ou não?

Os quadros de honra acabam por passar duas grandes e erradas mensagens. Uma é a de que não se deve falhar. Como se a vida se escrevesse toda em papel imaculado, sem nódoas ou riscos; como se fosse possível crescer, de modo harmonioso e sereno, sabendo que não pode errar-se.

A outra a é a de fazer estes miúdos acreditarem na excelência do seu potencial. É sabido que, para pertencer ao quadro de honra, têm de ter, no limite, a nota mínima, em todas as disciplinas. E é possível ser bom a tudo?

Alguns destes miúdos, na sua sábia capacidade de ler nas entrelinhas, percebem que a sua inclusão no quadro de honra, se deve a batotices dos professores que, naquelas disciplinas que são os parentes pobres do currículo académico (música, E.T., E.V., Educação Física, etc), sobem as notas dos alunos para compor o ramalhete junto dos “parentes ricos” (matemática, português, etc…).

Tendo o nosso sistema de ensino como lema privilegiar o “ouve, regista e repete” (promovendo mais papagaios do que seres pensantes), deixar os miúdos acreditarem na sua excelência, encerra o erro de os frustrar no futuro – fora da escola, o sucesso é ditado por uma maior multiplicidade de fatores, sendo que muitos desses fatores fogem do controlo de ação de cada um.

Educar para a excelência académica, é não preparar esses supostos excelentes a lidar com a frustração de errar.  E vive-se sem errar? Aprende-se sem falhar?

A competitividade promovida nos moldes errados

O que se ensinamos com estes quadros de honra? Preparamos as crianças para a vida profissional? Ou condicionamo-las a acreditar numa realidade ilusória que, quando confrontados com o mundo real, e com as vicissitudes do quotidiano, se amedrontam; se diminuem; se sentem invadidos por uma ansiedade para a qual, na maioria das vezes, não desenvolveram recursos para gerir?

Paralelamente, também não preparamos para o mercado de trabalho e para uma vida em sociedade mais equilibrada, quando, a título da excelência, se promove a competitividade em excesso.

O desejo de pertencer e manter este patamar de mérito, promove uma maior competitividade, o que acaba por perder-se em cooperação com os pares. O mais alarmante é perceber que se criam seres que olham muito para os outros, mas não pelos outros. Olham para os outros como se estivessem em constante corrida e tivessem de manter o rival debaixo de olho – porque quem baixa a guarda, perde velocidade.

A competitividade é importante e saudável.

Cria o desafio que nos impele a prosseguir caminhos e que, com isso, nos desenvolve; acrescenta conhecimento e fornece recursos. No entanto, a competitividade deverá ser estimulada do ponto de vista interno. Não tanto na comparação com os outros mas, antes, como posso desafiar-me a procurar novas metas.

Não será de maior louvor fazer com que os miúdos, por si, reconheçam as diferenças relativamente aos demais, e ajudá-los, individualmente, a quererem superar-se a si próprios, em vez de competir com a nota do colega? Despertar-lhes a motivação pela superação pessoal, conquistando o orgulho, mais do que a vaidade, como diz o professor Eduardo Sá. Até porque as notas não traduzem inteligência, nem conhecimento. E também não predizem o sucesso da caminhada profissional.

Reforço, reconhecimento e resultados

O reforço positivo deve sempre surgir como gratificação do esforço, refletindo-o. Na infância / adolescência, o reconhecimento dos adultos / cuidadores tem uma dimensão de relevo. Serve de fio condutor da postura a manter / ter / criar. Na escola, e falando especificamente sobre o desempenho escolar, o melhor reforço positivo a ter são as notas, somado ao apoio dos familiares próximos. E basta!

Verdade seja dita que, nem sempre a nota é diretamente proporcional ao empenho. Ainda assim, poderá servir de reflexão sobre o facto incontornável de as nossas vivências não estarem sob o nosso controlo total.

Devemos deixar de enaltecer resultados e focarmo-nos nos processos:

  • ensinar a escutar (a si e aos outros);
  • aprender o prazer da autonomia e da responsabilidade;
  • despertar a motivação pelo conhecimento. (Na humildade de que a diferença do outro é um valor acrescentado, e não o querer ser melhor);
  • promover a aprendizagem através do erro, em vez de querer colmatar a falha por antecipação (ex: fazer trabalhos pelos filhos; fazer-lhes os resumos…).

Mais do que preconizar quadros de excelência, urge que se preconize a inteligência emocional. Mais do que louvar o desempenho cognitivo em exclusivo, impera a importância de promover o equilíbrio entre a razão e a emoção.

De que serve o 20 a matemática se não tiver prazer num convívio social?

Precisamos com urgência que os miúdos desenvolvam a empatia  – que se reconheçam na felicidade e na dor do outro; que descodifiquem as suas emoções; que consigam parar para pensar, sem fugir para o evitar; que aprendam a respeitar o espaço dos outros, reservando o direito à opinião de cada um, sem que isso implique conflito; saber conviver com a diferença e aceitá-la pacificamente, seja de ordem física, atitudinal, religiosa, etc.

Neste mercado globalizado, a multiculturalidade das equipas, exige inteligência emocional. E, se o foco nas matérias escolares for excessivo, alguma coisa fica por aprender e por treinar… A base do trabalho em equipa é a capacidade de escutar os outros, compreender e saber dialogar e ceder. Isto requer discussão de diversas perspetivas / áreas. E não é uma competição!

Grandes empresas começaram já a cruzar informação dos resultados obtidos na avaliação de desempenho dos seus profissionais, contratados pelo mérito. A conclusão a que têm chegado é não existir qualquer relação entre o bom aluno e o bom profissional. Ou seja, enquanto têm passado uma vida a recrutar para os seus quadros com base na seleção dos melhores resultados académicos, percebem agora que este crivo tem conduzido os melhores profissionais para a concorrência.

Que propósito servem, afinal, os Quadros de Honra? Não sei!…

Pedir desculpas aos filhos: sim ou não?

Tenho verificado que, para muitos pais, o pedido de desculpas – quando é devido por eles – fica por dizer.

Há quem defenda que por uma questão de separação de águas e demarcação da hierarquia, os pais não devam pedir desculpas.

No meu caso tenho feito um trabalho que começa no que considero ser mais importante – o fomento da empatia.

Sei que como em todas as regras, estas têm de ser implementadas sem dar grande destaque à excepção, para que a dita regra não seja constantemente minada antes de ser apreendida. E, por isso, ensinamos os nossos filhos a pedirem desculpa sempre que se faz ou diz algo que não se devia ter dito ou feito.

O resultado é, muitas vezes, a criança acabar por pedir desculpa como um automatismo de resolução de um conflito, esteja ou não arrependida do que acabou de fazer. E por isso, para mim, é um pedido de desculpas vazio e que tenho relutância em aceitar (vindo de crianças mas tantas vezes de adultos…).

Por este motivo tento que quando a minha filha pede desculpas o sinta. Se ponha no lugar do outro. Mostre arrependimento, sem dramas. Ajustando naturalmente à cabeça e aos comportamentos de uma criança de quatro anos.

Assim sendo, e acreditando eu na educação através do exemplo, acho importante – se não mesmo essencial – que os pais encontrem em si a humildade suficiente para pedir desculpas no momento que assim o exige.

Isto não deforma negativamente a maneira como a criança olha o adulto, fortalece os laços de confiança e segurança.

Porque se vê no adulto de referência alguém que faz o que ensina (e não o “faz o que digo, não faças o que eu faço”) reconhece os erros e mostra vontade de, de forma saudável, revisitar o que aconteceu – para conversar sobre os motivos, para que não volte a acontecer, pelo menos da mesma forma.

Acredito que se assim não for então a relação que as nossas crianças vão estabelecer com as figuras de autoridade e com aqueles que estarão acima ou abaixo deles na hierarquia no trabalho, por exemplo, estará desde logo condicionada. Queremos todos que se transformem em adultos/trabalhadores/amigos/colegas/pais/pessoas capazes de pedir desculpas. E todos já sentimos como é importante que situações de injustiça sejam sanadas. Que ter um chefe que sabe reconhecer que devia ter seguido outro caminho, pode mudar a forma como encaramos as nossas relações com os outros.

Na minha sala tenho uma daquelas tábuas com frases que ditam as regras da casa. Duas delas são “sê agradecido, pede desculpas”

Por aqui as regras são como o amor. São universais.

E valem para todos.

Como licenciado em psicologia (ramo educacional) que escolheu criar um projeto independente de “formação” para escolas, entendi logo que as minhas próprias competências de comunicação, de colaboração e a criatividade, eram fundamentais.

Quer para o sucesso do projeto em termos de modelo de negócio, quer em termos de sucesso no objetivo principal: ajudar a desenvolver competências e soft skills ou competências transversais. Para chegar aos docentes com quem trabalho, tenho que ser o exemplo, pelo menos de algumas, dessas competências. Também nós aprendemos pelo exemplo, não são só as crianças. E também pela inspiração que nos pode dar alguém entusiasmado e com resultados.

Mais do que levar informação, procuro agitar e colocar a refletir. E esse deve ser também o caminho do docente do século XXI.

O próprio Perfil do Aluno alerta para esta necessidade. Criar conhecimento numa era em que a informação (que não é o mesmo que conhecimento!) está ao alcance de todos, é imperativo! Porque “saber” é diferente de “ter consciência”.

Há uma preocupação que marca o meu trabalho:

Como vamos desenvolver competências transversais nos alunos, se não as tivermos?

As escolas (à atenção do Ministério da Educação) deviam ter mais capacidade e autonomia de investimento em sessões de formação capazes de ajudar os docentes a ganhar competências, em vez de, muitas vezes, os ajudar a ganhar (apenas) créditos.

O educador que deseja ajudar os alunos a desenvolver competências transversais (soft skills) tem que ser o primeiro a refletir sobre as suas e a querer melhorar, sendo um exemplo de colaboração, capacidade de comunicação e de inovação.

Como formador, procuro também proporcionar experiências que coloquem os participantes a refletir. Dar o exemplo é fundamental.

Da reflexão virá a mudança.

Mais do que passar informação, é necessário dar ferramentas para cada um criar o seu conhecimento. As minhas próprias metas, cruzam-se com o impacto que pretendo ter nos docentes presentes nas sessões. Pretendo:

1. Manter-me entusiasmado;

2. Procurar as minhas próprias experiências de formação;

3. Exercitar a empatia;

4. Provocar a minha reflexão, trabalhar de forma colaborativa e inovar(…);

5. Comunicar;

Se eu fizer, serei mais capaz de o ajudar a fazer. E assim, todos juntos faremos uma escola (ainda) melhor

Sim, saímos sempre com as nossas filhas com autismo

“As nossas filhas serão pessoas autónomas com uma vida própria. Por isso, como todos os pais, queremos prepará-las ao máximo e daremos sempre o melhor que soubermos e conseguirmos.”

Muitas pessoas me têm indagado e questionado acerca das nossas saídas, em especial, no que toca à questão “piolhas”. E a todas respondemos: “não faz sentido, nesta fase, sairmos sem elas. Onde nós vamos, elas irão connosco, gostem ou não gostem.”

“Ah e tal, mas e não têm fins de semana a sós?”

Não. Para já, não faz sentido deixá-las algures para comemorar algo. Encaremos que deva ser comemorado em família. Além disso, quando elas tiverem aí uns 15 ou 16 anos não deverão querer andar com os cotas dos pais para todo o lado. Acreditamos que, nessa altura, já possam ficar com os avós sem lhes dar uma carga de trabalhos.

“Ah e tal, mas e por que não ficam com os avós?

Sim, ficam. Ficam com os avós umas horinhas ou um dia inteiro mas nunca passam a noite por lá para que nós possamos ir a algum lado. Nunca surgiu essa oportunidade. O marido trabalha por turnos, e, para já, não faz sentido.

“Ah e tal, como é que consegues que elas fiquem tão sossegadas e se portem bem?”

A verdade é que há aqui muito muito muito trabalho, muitos anos de treino e prática. Lembro-me que a primeira médica de desenvolvimento que nos acompanhou nos dizia em agosto de 2010 que, em dezembro iríamos conseguir ir a uma área de restauração com elas. E eu pensava que havia de ser dezembro mas sabia-se lá de que ano…

Mas há aqui três fatores chave: persistência e resiliência e negociação.

Nunca desistimos de as levar a todo (mas mesmo todo) o lado para que soubessem e conseguissem aprender o saber-estar em diversas situações e espaços diferentes.

Sim, saímos sempre com as nossas filhas com autismo

Inicialmente, levávamo-las nos carrinhos. Quando eu saía sozinha, iam num bengala com lugares lado-a-lado – parecia o circo, tudo a olhar – porque era-me impossível usar os meus únicos e insuficientes dois braços para as segurar. E trelas nem pensar – opinião do marido. Andámos nisto até quase aos 5 anos. Desenvolvi uns músculos dos braços fenomenais. Levava uma parafernália de brinquedos para que se sentissem acompanhadas por algo familiar. As suas mãos tinham de estar sempre ocupadas.

Depois começaram a ficar demasiado crescidas para andarem de brinquedos nas mãos e lá conseguimos negociar com o nosso telemóvel mas só quando se espera ou num local onde seja necessário muito silêncio. Com o passar do tempo e com aquele click maravilhoso da maturidade, até isso já se tornou desnecessário.

Passámos por muitas vergonhas, muitos espetáculos deprimentes, muitos apontar de dedo, muitos cochichos, muitos olhares de esguelha e sei eu o que mais. Passámos por muitos meltdowns nos momentos e locais mais inapropriados e pensámos que era daquela que nos fechávamos em casa até nos transformarmos em pó… Felizmente, o nosso mau feitio e teimosia não deixaram e levámos nós a melhor.

Agora sofremos da cura.

Se passarmos um dia num shopping, mesmo que depois fiquem rabugentas, estamos a dar-lhes a provar o sabor do arco-íris. O que acaba por nos facilitar a vida para outros contextos, como uma sala de espera num hospital ou uma repartição pública. As piolhas já estiveram na véspera de natal, durante 3h comigo, na loja do cidadão de Coimbra com gente até ao tecto… E no mês passado, com a avó, nos HUC, devido a um “problema no sistema” mais de 5h (só cedi o telemóvel quando uma delas começou a chorar de frustração, um choro baixinho e doloroso…).

Só as sujeito as estas esperas quando não tenho hipótese de as deixar com alguém. Mas não deixam de ser fatores de aprendizagem.

“Ah e tal, como é que fazes?”

Sempre que sei que vamos apanhar uma seca algures, vou preparando para o que se avizinha. No dia, reforço os nossos passos e o que faremos e preparo uma mochila com materias básicos de sobrevivência: cadernos, um estojo com lápis, borracha, canetas e afia, pequenos brinquedos do estilo Littlest PetShop ou Shopkins. O telemóvel com acesso à net e o  jogo Water Heroes de que tanto gostam só é dado em ultimo recurso.

Quando vamos de passeio, costumamos deixar que levem os tablets mas só podem usar em pequenas partes da viagem e só no carro (ou no quarto de hotel, por uns minutos, enquanto tomamos banho) e acedo a que levem, para dormir, uns My Little Pony miniatura de peluche. É algo que lhes traz conforto e familiaridade, por isso, para já, nesta fase, ainda não me importo e vamos cedendo.

“Ah e tal, e elas portam-se bem?”

Sim, na maioria das vezes, sim.

Mas é aí que entra a negociação: se souberem portar-se bem, se não houver birras nem fitas, se não fizerem barulho, no final, quando sairmos podemos… (exemplos: sair para comer um gelado, tomar um café fora, almoçar no Mc Donald’s, dar um passeio a pé, comprar um miminho, etc, dependendo da seriedade da espera/da saída/da situação). Há um incentivo e uma recompensa.

Nem sempre é fácil! Muitas vezes, passo o tempo todo tensa que nem uma tábua. Com mil olhos na cara e expressões de aviso que fariam um mimo morrer de inveja e chego ao final do dia cansadíssima.

Mas se não for assim, como aprenderão?

Se não sairmos, se não nos / as sujeitarmos, como saberão o que fazer? Por isso, vou arriscando. Vamos arriscando, gostem os outros ou não. Não é por eles nem para eles que fazemos o que fazemos. As nossas filhas serão pessoas autónomas com uma vida própria. Por isso, como todos os pais, queremos prepará-las ao máximo e daremos sempre o melhor que soubermos e conseguirmos.

Para já, todas as nossas saídas e planos incluem as piolhas. A curto prazo, estamos a planear conhecer o Algarve de ponta a ponta e fazer a rota da EN2. Com as piolhas, de carro, com planos bem definidos.

Conhecer a Escócia, viajar para a Irlanda e conhecer tudo de lés a lés com mochilas às costas.

O jantar romântico em Paris, fica para depois. Um dia as piolhas hão-de pedir para ir dormir a casa da tia ou para ficar com os avós. Hão-se achar que andar com os cotas não é cool. Hão-de ter vergonha de ver a mãe e o pai aos beijinhos :).

Por enquanto não gostam nada de caminhadas nem de dias demasiado cheios de estímulos. Claro que, se quiserem, levamo-las a todo o lado. Nessa altura, acredito que seja mais fácil negociar.

Até lá, vamos passeando bastante pois, já se sabe, #agentegostaédelaró

imagem@americawolf

Sabia que a música tem uma grande influência no desenvolvimento da linguagem das crianças?

Muitos estudos demonstram a importância da estimulação precoce em aulas de músicas, mas também no quotidiano da criança, tanto em casa como no jardim de infância, tendo um grande potencial nos vários níveis de desenvolvimento infantil.

A conexão estabelecida entre as pessoas e os sons é tão primordial que se inicia antes mesmo do nascimento. Sabe-se que a formação das estruturas auditivas no bebé se dá por volta do 5º mês de gestação. Nesse período, o bebé tem contato com a sua primeira referência de ritmo musical: o batimento cardíaco materno.

Antes de nascer, ele já reconhece o timbre da voz da mãe e já responde a estímulos sonoros: Após o sistema auditivo estar formado, já aprecia todo o reportório musical e os sons com os quais a mãe tem contacto.

Como reage o nosso cérebro à música

O nosso cérebro parece ser moldado pelas experiências proporcionadas nos primeiros anos de vida, e o cérebro de um músico tem características diferentes do cérebro de uma pessoa que não tenha tido contacto com a música na infância.

Muito se tem investigado acerca da influência da música no desenvolvimento da criança, bem como na possibilidade de ajudar na recuperação de lesões no cérebro, tanto em crianças como em adultos.

Esses estudos comprovam a influência da música nas capacidades comunicativas da criança, verbais e não verbais, na sua autoconfiança, nas suas capacidades espácio-temporais, no desenvolvimento cognitivo e motor, nas funções executivas, na memória e na aprendizagem de línguas estrangeiras.

Ao fazer música ativamos sinapses dos sistemas sensorial, cognitivo (simbólicos, linguísticos e da leitura), motivacional, sinapses que veiculam a aprendizagem, a estimulação da memória, o planeamento de movimentos, etc.

Várias investigações sugerem que a música altera a forma como o cérebro processa os componentes da linguagem, melhorando a perceção dos sons, incluindo os sons da fala e, consequentemente, a sua relação com a leitura e escrita.

A música e a aprendizagem

Para aprender a ler, a criança deverá já ter desenvolvido a consciência de que as palavras são constituídas por sílabas e estas por sons (consciência fonológica). A criança deve ser capaz de se abstrair do significado das palavras para pensar, discriminar, comparar e manipular os sons que as compõem e, dessa forma, conseguir realizar tarefas:

  • Dividir frases em palavras.
  • Encontrar ou evocar palavras que rimam.
  • Dividir palavras em sílabas.
  • Encontrar palavras que comecem pela mesma sílaba ou som, entre outras.

Estas atividades são fundamentais para a aprendizagem da leitura e da escrita mais tarde, no seu percurso escolar. Deverá ter desenvolvido também a percepção auditiva e este é um processo complexo, que depende do processamento auditivo e é constituído pela receção e interpretação dos padrões de fala; discriminação entre sons (espectro, características temporais, sequência e ritmo) reconhecimento, memorização e compreensão da fala.

A música e a linguagem

A música e a linguagem são dois estímulos auditivos, estruturados de uma forma semelhante (ambas consistem num determinado número de sons que se organizam segundo determinadas regras) e que utilizam o mesmo sistema auditivo e aparelho vocal.

A aprendizagem destes elementos musicais e linguísticos parece ser semelhante, recorrendo aos mesmos processos auditivos e a partilha destes mecanismos parece ser responsável pela influência da música no desenvolvimento das capacidades de consciência fonológica.

A música e os seus elementos (som, ritmo, melodia e harmonia) podem ser utilizados para estimulação da linguagem pelos pais e/ou educadores, mas também como método de intervenção nas perturbações de leitura e escrita, perturbações fonológicas, perturbações do processamento auditivo, entre outras. Podem ser feitas diversas atividades tendo sempre em conta os objetivos delineados para trabalhar com a criança. Beneficiando não só o desenvolvimento da consciência fonológica, mas também a perceção/sensibilidade auditiva, o processamento (motor e auditivo), a atenção e a comunicação verbal e não-verbal.

A música tem então um papel muito importante no desenvolvimento da criança, em especial na aquisição e desenvolvimento da linguagem. Portanto incentive desde cedo ao gosto pela música, oiça e explore a música em família.

O seu filho já ouviu musica hoje?

Marta Nunes, terapeuta da fala

Afinal para que serve a Escola?

Há muita gente que casa por casar. Que vota por votar. Que anda cá por ver os outros andar. Há muita gente que vive por viver.

E a escola? Porque vão à escola os nossos filhos?

Às tantas vão à escola porque nós também fomos, porque “toda a gente vai”… Não será importante pensarmos as razões que nos levam a acreditar na escola? Até há uns anos, acreditávamos que a escola traria emprego.

Hoje, num mundo em mudança, sabemos que não é bem assim. Há muitos empregos que ainda nem foram inventados. E, por outro lado, cada vez mais empresas estão atentas a algo mais do que apenas “o currículo”, na hora de escolher colaboradores.

Quando nos colocamos em bicos de pés e exigimos dos nossos filhos apenas que tenham boas notas, estaremos a pensar verdadeiramente no futuro deles? Ou será que, como adultos, desejamos ter filhos com boas notas, numa espécie de competição com outros pais?

Há muita gente que diz que deseja filhos felizes. Mas depois, exige notas. Quadros de honra e afins.

Não estou, de forma alguma, a fazer a apologia das “más notas”. Mas sei que há crianças e jovens infelizes nas nossas escolas. Sei que há crianças e jovens infelizes por causa das nossas escolas. Sei que há professores que desejavam fazer diferente. Debater mais. Falar mais da vida nas entrelinhas do currículo escolar. E sei que há pais a “apertar” com os professores por causa dos exames.

Sabemos que as máquinas, as tecnologias, estão a chegar.

Se queremos crianças com um futuro, com uma ocupação, com um trabalho, não será importante reforçar neles as características que nos distinguem das ditas máquinas? É fundamental saber. As matérias são, no geral, importantes.

E ser? E entender? E compreender o mundo? E saber pensar? E criar? Se é importante saber, então se pensarmos nestas outras competências, teremos um caminho diferente a percorrer.

Queremos que eles tenham boas notas. Neste exame que é a vida

A rotina é essencial para um adormecer e um sono mais tranquilo

Eu sou uma pessoa de rotinas. Ajudam-me a organizar, embora não ache que seja demasiado rígida ou inflexível. Mas acredito que para as crianças a rotina não é só uma questão de gosto ou preferência, é uma questão de equilíbrio mental e emocional. Faz com que se sintam protegidas e ajuda a reduzir a ansiedade.

Nós, cá em casa, tentamos cumprir uma rotina de hora de ir para a cama. Nada muito rígido ou inflexível, apenas uma forma de acalmar os ânimos de modo a que adormeçam com mais facilidade. E consequentemente, tenham um sono mais tranquilo. Gostamos de contar / ouvir uma história antes de adormecer. Não fazemos isto como obrigação, mas como um ritual. Desde o escolher da história, que normalmente fica ao critério dos meus filhos até à forma que encontramos de nos encaixarmos os quatro no sofá de modo a que estejamos todos confortáveis até à escolha de quem é o contador de serviço.

Normalmente essa tarefa cabe-me a mim (por razões óbvias) ou à minha filha mais velha que já é uma leitora autónoma e tem muito prazer em contar a história. O meu filho mais novo está agora a começar a ler as primeiras palavras por isso gosta que leiam para ele. O pai diz que é melhor ouvinte do que contador! No entanto, não utilizo a história como obrigação antes de dormir. É um prazer ou um privilégio que lhes proporciono nesse momento como outros noutros momentos do dia.

Às vezes, há crianças com alguma dificuldade na hora de ir dormir.

O livro acaba por ser uma boa estratégia para acalmar estes momentos que podem gerar mais stress ou conflitos.

Não encarar a história como uma obrigação ou não a ligar diretamente à hora de deitar é uma boa opção.

Como abordar a questão da hora de ir para a cama?

Em vez de “está na hora de ouvir a história porque tens que ir para a cama”, experimente: “vai escolher qual é a história que gostarias de ouvir hoje”. Ou “posso escolher uma história para me contares?”.

Fazer da hora da história um momento prazeroso para pais e filhos (por isso pais, nada de bufar ou refilar na hora de contar a história) e depois, com os ânimos mais calmos, encaminhar para a hora de dormir.

O sítio onde se conta a história também tem muita importância. Há famílias que preferem contar com a criança já deitada na cama, outras no sofá… enfim, onde quiserem. É preciso é que estejam todos descontraídos, confortáveis e dispostos a desfrutar deste momento que se quer divertido, relaxante e, sobretudo, de conexão e afetividade.

Por agora só me resta desejar boa noite e bons sonhos…