Há dias em que nem os sorrisos dos filhos nos salvam.

Tecnicamente estou acordada desde as duas da madrugada.

O mais novo, como quase sempre, acordou a chorar e, como quase sempre, acordou a irmã e, como quase sempre, foram os dois para a nossa cama. O circo estava montado.

Ele vira-se de cabeça para baixo, destapa-se, deita-se em cima do pai, puxa os cabelos à irmã, nós vamos acordando e adormecendo, sem coragem para ir vendo que horas são. Resmungamos, ralhamos, batemos com a cabeça na parede. Ela tosse, eu levanto-me e dou-lhe xarope, ela continua a tossir, o pai levanta-se e volta a dar-lhe xarope. Estamos a ficar malucos. A tosse acalmou. Passo a noite toda destapada, desisti de lutar por um pedaço do edredão.

O despertador toca às seis horas e quinze minutos, desligo-o e deixo-me ficar até sentir os pés do meu marido a expulsar-me da cama. Tenho frio. Levanto-me, meto o café a fazer, enfio-me no banho, visto-me, o meu marido faz o pequeno-almoço, tomamos o pequeno-almoço sentados no sofá, enquanto vemos as notícias. Os pequenos demónios ainda dormem. E eu com uma dor de cabeça a querer rebentar. Já passa das sete horas, caraças, está na hora de irmos acorda-los.

Damos o leite, vestimos, lavamos a cara e os dentes, o pai penteia, eu faço o totó, tudo a passo de caracol. “Mãe, o que é que eu levo para comer na escola?”, vestimos os casacos, metemos os gorros na cabeça, “Está de noite, mãe?”, “Não está de noite, é o nevoeiro.” Dói-me cada vez mais a cabeça. Quando nos sentamos no carro e respiramos fundo já são oito e dez.

Adeus mãe, bom trabalho!”, “Boa escola, meus amores.” Beijos e sorrisos, até parece que dormiram a noite toda.

Chego ao terminal dos barcos e apetece-me cortar os pulsos. Centenas de pessoas do lado de fora dos torniquetes, é o nevoeiro, são os barcos suprimidos, é a porra de um gajo bipolar que manda naquela porcaria toda. Junto-me à multidão. Tomo um comprimido para a dor de cabeça. Há um homem que fuma no meio das pessoas, filho da mãe. Tomo mais um comprimido para a dor de cabeça, que o dia ainda não começou. Os torniquetes abrem, as pessoas empurram-se, pisam-se, ninguém quer ficar de fora. Os carneiros, como dizia alguém um dia destes: “Somos todos uns carneiros”. Que se lixe. Junto-me à carneirada, não me posso atrasar mais.

O barco atraca em Lisboa e vou a correr para o metro. Faltam nove minutos para o próximo metro, em hora de ponta nove minutos são uma eternidade, outro bipolar a mandar nesta porcaria. Mudo da linha azul para a linha verde. É a pior linha de todas, juro, as pessoas cheiram a areia de gato com uma semana misturado com óleo de fritar chamuças. Consigo sentar-me e tenho à minha frente dois homens saídos do “Feios, Porcos e Maus”, não sei a que cheiram, mas envolve vinho e apetece-me vomitar, levanto-me e vou em pé, com o lenço a tapar-me o nariz. Respiro o menos possível.

Chego ao destino, lembro-me para onde vou e apetece-me fazer todo o caminho de volta para casa. Arrasto-me, pico o ponto, sento-me ao computador e finjo que vou fazer alguma coisa que gosto.

Há dias em que nem os sorrisos dos filhos nos salvam.

 

Dia do Pai. Dia de criar memórias felizes

As memórias felizes criam fios invisíveis que ligam a criança a todos aqueles que são importantes na sua vida. Uma rede que nos une, e que enche continuamente o nosso depósito emocional de amor.

No Dia do Pai, oferece-lhe um frasco cheio de memórias felizes e juntos relembrem, um a um, todos os instantes que geraram estas recordações. É mais uma oportunidade de criar outra memória feliz, papelinho a papelinho.

Para teres o teu KIT CATITA, basta salvar a imagem para o teu computador, imprimir e seguir as instruções. Imprime várias vezes para teres todos os papelinhos que precisas. Se tiveres dificuldades em tirar e imprimir a imagem, ou se a quiseres com mais resolução, manda-me um mail para maecatita@gmail.com e envio a imagem para ti.

FELIZ DIA DO PAI!

MATERIAL. Vais precisar de:

  • Frasco de Vidro
  • Tesoura
  • Cola ou fitacola dupla
  • memórias felizes
  • impressora

COMO FAZER?

  • Clica na imagem seguinte, e imprime.
  • Recorta o rótulo, e cola num frasco de vidro
  • recorta os papelinhos e preenche-os com os teus filhos (os que já escrevem fazem sozinhos)
  • Dobra ou enrola os papelinhos a teu gosto e coloca dentro do frasco!

Dica: para cada filho imprime uma das imagens para que cada um tenha o seu frasco para oferecer ao pai!

 

Dos filhos que fomos, aos pais que somos!

Quando os pais começam a desempenhar o seu papel, para além de um bebé, há todo um conjunto de novas personagens que nascem! Em volta de um bebé, há toda uma família que se alinha e re-alinha, há uns pais que se tornam avós, há um irmã que se torna tia, há um amigo que sente saudades, há um casal que inicia uma viagem… Quando os pais se tornam pais, tudo se mistura e se conjuga, o amor não se aprende, um filho não se desliga, mas a paternidade pode ser mágica se conseguirmos multiplicar tudo o que de bom há em nós.

Cada criança tal como cada um dos pais é singular, mas todas as crianças à sua maneira refletem os lados de heróis e de vilões dos pais. Afinal, como é que um Pai se pode tornar melhor?

Um Pai tem de olhar para o Mundo colocando-se no papel da criança.

Mas, acima de tudo, tem de olhar para um filho, livre daquilo a que ao longo da vida o foi condicionando aos poucos… A forma como cada um dos pais exerce o seu papel, é condicionada pela sua história, pelas suas expectativas, pela forma como foi filho, como foi irmão, como desejou ser Pai, como foi, ou não, sendo amado ao longo da sua vida e do seu crescimento, enquanto criança e enquanto adulto.

Muitas vezes, porque fomos filhos assustados, presos a um sistema parental rígido e autoritário, procuramos exatamente o oposto para os nossos filhos e tornamo-nos pais absolutamente liberais, não introduzindo segurança, regras e limites. Ou o oposto, porque fomos filhos em auto-gestão, exercemos um controlo absolutamente fora do vulgar com os nossos filhos, não lhes dando espaço e liberdade para serem crianças à sua maneira.

O difícil na montanha russa da parentalidade é que é preciso conjugar num só, os pais que tivemos, os filhos que fomos e os pais que somos, e, às vezes, é como se cada um andasse para o seu lado, como se estivessem zangados, como se dentro de cada um dos pais vivessem muitas personagens em vez de darem vida a um Pai. Naturalmente, essas personagens fraturam-no, tornando-se incompatível o filho que se foi, com o pai que se quer ser e com os pais que tivemos.

Por isso é que às vezes, é preciso parar, olhar para dentro de nós, separar e unir mundos, para fazer as pazes com a criança e com o filho que se foi, com os pais que se teve e assim, tornarmo-nos melhores pais e ficarmos cada vez mais perto dos pais que queremos ser.

Um pai, ou uma mãe, são sempre feitos de histórias, de amores e desamores, de conquistas e derrotas. Mas, não se pode desejar que seja um filho a ligar todos os nossos mundos e fazer-nos sonhar, muito menos, podemos querer que seja um filho a concretizar todos os nossos sonhos, a sarar as nossas feridas e dar as mãos às nossas infâncias.

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Por Cátia Lopo e Sara Almeida Psicólogas Clínicas

 

No dia 16, eu e o pai catita fizemos 10 anos de namoro. Para comemorar a data decidimos criar um painel da história da nossa família.

O pequeno catita, como qualquer outra criança, tem uma grande necessidade em saber de onde veio, o que o ajuda a definir para onde vai.

Ele delira com as histórias do “quando eu tinha a tua idade…”, com as espatifadelas do mini-pai catita mais-arranhão-menos-arranhão na sua bicicleta, com as aventuras da mini-mãe nas aulas de ciências. Com todos os medos e desafios que cada um enfrentou, tão semelhantes aos que agora ele está a viver.

“No meu tempo não havia televisão. Tu tens é muita sorte!” não conta como história construtiva e inspiradora. Apenas os pormenores, as personagens tão conhecidas, os problemas, aprendizagens e as emoções experienciadas constroem a riqueza e profundidade da mensagem. 

Contar histórias de família tem inúmeros benefícios. Ajudam as crianças a fazerem relatos mais ricos e pormenorizados do seu dia a dia, a compreenderem e identificarem os pensamentos e as emoções do outro lado, favorecem o crescimento de uma autoestima saudável, e de uma noção mais forte do seu “eu”. As suas identidades ficam mais definidas, resultando numa maior resiliência e capacidade de lidar com os desafios da vida.

Estas histórias criam fios invisíveis que ligam a criança a todos aqueles que são importantes na sua vida, criando uma rede robusta onde a criança se sente amparada e protegida.

Contar a nossa história conta muito!

O painel chegou a semana passada, e o pequeno catita não conseguia tirar os olhos dele. De certa forma lembrou-me o poder hipnotizante das pinturas rupestres, ou dos hieróglifos do Egito. Desde sempre que os seres humanos se juntam para passar histórias de geração em geração. A nossa estava impressa em PVC, e era mais na onda da banda desenhada, mas o poder da história era claramente visível nos seus pequenos olhos fascinados.

“Ó Mãe e aqui? Foi onde conheceste o pai?” Apontava entusiasmado com o seu dedinho para o desenho do primeiro encontro.

Contámos várias vezes cada episódio. VÁRIAS, várias vezes…

No pedido em casamento no Japão, ele descobriu que a mãe tem dificuldade em responder rapidamente a perguntas difíceis, daquelas que podem mudar a vida de uma pessoa. Desde aí, responde “vou pensar um bocadinho” antes de responder a perguntas que ele acha que merecem o seu tempo.

Descobriu que a mesma música que ainda hoje cantamos para ele, era a música que o embalava ainda estava ele na minha barriga, o genérico do “Conan, o rapaz do futuro” (o pai catita tem uma “ligeiríssima” adoração pelo Japão).

Apercebeu-se que gostar de uma pessoa é crescer com ela, e isso leva tempo, como todas as coisas que valem mesmo a pena.

E descobriu que a vida dele é uma enorme tela, onde vão nascer muitas memórias maravilhosas que um dia ele também vai contar a alguém, muitas e MUITAS vezes.

O bom humor também ajuda os filhos a serem perseverantes com os seus objetivos e a ter uma visão mais realista das pessoas e da vida em geral.

As famílias precisam de aprender a educar os filhos para o riso. Saber sorrir e ter sentido de humor é fundamental para aumentar a alegria de viver dos nossos filhos.

Neurologicamente falando, estudos do Jornal de Neurociência e de Psicologia da Universidade de North Carolina mostraram que a gargalhada é uma grande libertadora de endorfina no cérebro através dos receptores opioides para os neurotransmissores.

De acordo com reportagem publicada no jornal Estadão, o riso tem um efeito benéfico  e transporta-nos para uma euforia saudável , e por isso é que é tão contagioso socialmente.

RIR É O MELHOR REMÉDIO

Quando uma pessoa começa a rir, as outras à sua volta também tendem a abrir um sorriso ou a rir. Através do riso, as conexões sociais no grupo melhoram, porque gera uma sensação de segurança e proximidade.

Também o riso e o sorriso fazem parte do bom humor.

Quanto mais bem-humorados os nossos filhos forem, melhor conseguirão levar a bom porto as adversidades da vida e de transformar as obrigações diárias e convivências em momentos mais leves ou alegres, através de sorrisos refrescantes.

Ao bom humor estão associadas a diversão, os jogos e a brincadeira; todas são manifestações afetivas de amizade e amabilidade.

FELICIDADE

Segundo Hugo de Azevedo, escritor do livro: “O bom humor”, uma pessoa que não aprecia uma piada ou não se sabe rir de si própria, não sabe “brincar” e nunca poderá alcançar a plena felicidade.

Contrariamente, uma pessoa com bom humor sabe relativizar as coisas e não se leva tão a sério. Os nossos filhos precisam de aprender a conhecer-se e a aceitar as próprias limitações.

Uma inteligência emocional bem desenvolvida leva ao realismo e a uma escala de valores equilibrada. As crianças aprendem a relevar pequenas adversidades e a não fazerem “tempestades em copo de água”.

SOLUCIONAR PROBLEMAS

O bom humor também ajuda os filhos a serem perseverantes com os seus objetivos e a ter uma visão mais realista das pessoas e da vida em geral, o que permite que descubram melhor as causas de eventuais problemas e, consequentemente, possíveis soluções.

O bom humor está unido ao espírito desportivo, ao desporto e ao jogo, à virtude da eutrapelia, ou seja, de saber divertir-se mas saber moderar quando preciso.

Brincar é uma coisa séria e é uma coisa mais séria ainda para os adultos que jamais devem desaprender a brincar.

SUGESTÕES PARA OS PAIS

  1. Aprenda a rir-se de si próprio.
  2. Seja sempre grato pelo que tem.
  3. Evite focar-se em problemas e pensamentos negativos.
  4. Habitue-se a fazer pausas, a desfrutar de uma boa música, uma dança, um bom filme, um livro, um passeio no parque ou contemplar a natureza.
  5. Brinque e tenha momentos de diversão com os seus filhos e dêem umas gargalhadas em família
  6. Aprenda a não dramatizar.
  7. Sorria sempre para as pessoas, o que é uma forma de demonstrar carinho por elas.
  8. Aprenda a alegrar-se com cada minuto desse precioso dom que é a vida.

 

Publicado em O estadão, adaptado por Up To Kids®

Surgiu esta semana em conversa.

“A maioria dos pais, homens, não estão presentes na vida dos filhos”.

A frase chocou-me. Ainda mais porque foi seguida de vários exemplos reveladores, lançados porque alguém com conhecimento de causa, que trabalha com famílias e em contexto escolar. Eram 8 as coisas que um Pai não faz.

Não serei o melhor Pai do mundo, longe disso, mas posso orgulhar-me por nunca ter faltado a um momento importante da vida dos meus filhos. Por vezes, com sacrifício da minha vida profissional. Mas foi sempre simples decidir, porque são eles a minha prioridade.

No dia a dia, é também para eles que reservo o tempo de maior qualidade. E isso passa também por desempenhar tarefas que, tradicionalmente, costumam ser entregues à Mãe.

Para os pais (homens) que se “esquecem” que ser Pai é mais do que pôr uma criança neste mundo, deixo o alerta. Elas precisam de mais. Aqui vão 8 coisas que a maioria dos pais (homens) não fazem… mas deviam fazer:

1 – Vestir a criança.

Ok, em princípio vai correr mal. Muito mal. Pelo menos à primeira tentativa. E à segunda. E à terceira. O babygrow está mal posto, o macacão fica largo, a camisola mal amanhada e fora das calças e os ténis não condizem com a camisola. Mas se não nos deixarem tentar, nunca aprenderemos, certo.

Por isso respirem fundo, mamãs, e deixem-nos assumir o risco. Vão ver que, com o tempo, nos tornaremos nuns verdadeiros especialistas!

2 – Mudar a fralda.

Aí está uma coisa que nunca percebi: porque é que tem que ser sempre a mãe a chegar-se à frente na hora de mudar a fralda à criança? Quando nascem, a desculpa é porque são muito pequeninos. E porque nós, homens, somos uns brutos e podemos magoá-los (já ouvi isto muitas vezes, acreditem). Mais para a frente, tudo serve de razão para o Pai se descartar. Ora é porque está a dar a bola ou um “filme” qualquer, ora é porque a Mãe “tem mais jeito para isso” ou porque “limpa melhor” o rabinho do bebé.

Verdade seja dita, a verdadeira razão para um Pai assobiar perante o vislumbre da mal cheirosa tarefa é a preguiça. Porque custa levantar o rabo do sofá depois de um dia de trabalho. E assim se perde a oportunidade de criar um momento divertido a dois. E de criar vínculo.

 3 – Cozinhar.

Porque é que pôr as mãos na massa (literalmente) continua a ser, na maior parte das famílias, um (quase) exclusivo das mães? Porque é que ainda há tanta resistência do Pai em preparar uma refeição para os filhos? Se ambos trabalham, porque é que tem que ser sempre a Mãe a chegar a casa (cansada) e a tratar do assunto?

Vá lá homens, estamos em 2017! Sejam evoluídos e dividam (também) esta tarefa. Cá em casa é um prazer que não dispenso. E os miúdos agradecem. Às vezes até já me chamam chef. E soa tão bem ?

4 – Preparar o lanche para a escola.

Não fosse a Mãe a lembrar-se de colocar na mochila o pacote de leite ou o sumo, a sandes ou a fruta para o dia seguinte, e a maioria das crianças morreria de fome na escola.

Os pais (homens) que conheço nem se lembram desta tarefa diária. E antes que sejam chamados à atenção, disparam a frase: “amor, preparas o lanche da escola dos miúdos?”. Vá lá, deixem-se disso e cheguem-se à frente!

5 – Ir às consultas.

Uma chatice. É assim que muitos pais (homens) encaram uma ida com os filhos ao médico. E evitam pôr os pés nas consultas, não porque não possam mas porque acham que deve ser “território” das mães.

“Elas é que fixam tudo o que os médicos dizem, nós não vamos ali fazer nada…”, já ouvi de um Pai. Nada mais errado. Acompanhar o crescimento das crianças também é isto, e nem tudo são rosas, ok?

6 – Ir às reuniões e eventos escolares

São manhãs ou tardes “perdidas”, acham alguns pais (homens) que conheço. Outros, percebe-se a seca que estão a apanhar pelo sorriso amarelo quando lá aparecem.

Delegar sempre na Mãe essa responsabilidade é demitirmo-nos de educar. E são oportunidades perdidas para reforçar o vínculo.

7 – Pedir guarda partilhada ou conjunta

Deixei a mais polémica para o fim. Apesar de me parecer que o paradigma começa a mudar, ainda há muito por fazer.

Porque é que a maioria dos homens que se separam (dizem-me amigos juristas, mas corrijam-me se estiver errado) continua a contentar-se em ver os filhos de 15 em 15 dias? É assim que querem criar uma boa relação com eles? E que espécie de adultos estarão a criar?

Desculpem o sermão, mas às vezes é preciso ler… para crer. Ou querer!

imagem@jetosoft

Desculpa, desculpa, desculpa filho! Milhões de vezes desculpa.

Até diria que nem mereço que me perdoes, porque tu, és tão puro e inocente que nem sentes que precisas me perdoar. Tu és tão incondicional que és meu, com todos os meus defeitos… Ainda assim, quero pedir-te desculpa!

Desculpa por todas as vezes que me pediste colo e eu não to dei. Nada justifica não o dar. Tu não vais ser mimado, não vais ficar mal habituado, e eu nem estou assim tão cansada. A verdade é que um dia muito em breve, já não vais querer o meu colo, e eu vou estar ainda mais arrependida pelas vezes que não to dei.

Desculpa por todas as vezes que te falei mais alto. Pela paciência que me faltou, pelos afazeres que me exacerbaram e que me fizeram falar-te mais alto e de forma impaciente. O certo é que tu recorreste a mim, e eu não te correspondi.

Desculpa pelo cansaço… pela exaustão que às vezes toma conta de mim e que não me deixa acompanhar as tuas correrias, as tuas emoções ou a tua alegria! Nunca deixes de ser assim. Mesmo que a mãe te diga que está cansada, não desistas de mim.

Desculpa por ter que trabalhar. Por te deixar a maior parte do dia com pessoas que não sou eu. Por apenas estar contigo um par de horas por dia. Por não conseguir estar mais tempo contigo e acompanhar mais o menino em que te estás a tornar. Eu prometo que tento, e que estou contigo todos os minutos que consigo.

Desculpa por ter sono quando ao Domingo de manhã queres ir jogar à bola. Por ir muitas vezes ainda meio ensonada e a esfregar os olhos, e muitas vezes tentar dissuadir-te da ideia.

Desculpa por ter muitas coisas para fazer. Roupa, loiça, pó… E ainda que tente sempre fazer disso uma brincadeira, se eu pudesse as nossas brincadeiras seriam sempre outras.

Desculpa filho, se a vida é injusta! Se o mundo não está preparado para me deixar ser completamente tua mãe! Muito disto não é a minha culpa, mas ainda assim, tu és o mais importante da minha vida, e o que lhe dá sentido. E por isso mereces o meu pedido de desculpa, hoje e sempre, mesmo que não o queiras.

Este texto é para todos os homens que, num determinado momento da sua vida, se despiram do papel de pai e abandonaram os filhos. Aos homens que se separam não só das mulheres, mas também dos filhos. A todos os pais ausentes.

Para ti o que é ser pai? Aparentemente, pagar uma pensão mensal (ou não) e telefonar de vez em quando? É postar no Facebook fotos “felizes” dos filhos de um fim de semana raro de visita?

Falo com conhecimento de causa.

Perdeste um grande aprendizado na vida. Perdeste a oportunidade de ensinar os teus filhos a dar os primeiros passos. Perdeste noites de sono recompensadas com sorrisos e um cheirinho incrível de bebé. Não viste a tua filha vestir-se de princesa e acreditar na fada dos dentes. Não percebeste que o teu filho não gosta de futebol, mas adora o mar e uma prancha de surf.

Depois da separação achaste que não tinhas mais obrigações na educação dos teus filhos. Concluíste que não dás conta da nova mulher e dos filhos antigos. Eles já não se enquadram na tua nova vida, não é?

É uma pena que não tenhas enlouquecido como eu com os TPC, as zangas e os morreres de amores com os amiguinhos, a conversa sem fim a seguir à escola, as febres, as viroses, as atividades, as contas por pagar.

Tenho pena que seja uma chatice para ti ficares com os teus filhos de vez em quando.

Mal pensas nos teus filhos que abandonaste nas mãos de uma mulher que, teve de ser forte e de criar um ser humano e um futuro cidadão completamente sozinha. Que pena que não te lembres da data de aniversário da tua criança. E que nem vás saber se um dia vai entrar na faculdade ou se vai passar dificuldades na vida.

Não é para o teu colo que o teu filho vai correr quando precisar de chorar. Ufa, certo?

Não é o carinho dele que vais sentir sempre que caíres sem ninguém para te amparar. Não são aquelas mãozinhas pequenas com verniz vermelho que vais segurar depois de um dia de trabalho.

Felizmente, não terás preocupação nenhuma, até porque está alguém a criar (e bem) os teus filhos. Felizmente, não vais perder horas de sono quando o teu filho for sair à noite. Nunca terás vontade de bater na parede para aguentar uma birra terrível sem te passares. Que sorte, não terás cabelos brancos tão cedo.

Não vais dormir exausto depois de fazer os TPC, ir à  natação, ao ballet, ao inglês. Não vais chorar ao veres o teu filho chorar também.

O fim de semana é só por tua conta! Que maravilha! Nunca vais ter de ensinar alguém a andar de bicicleta e não vais ficar com dores nas costas de tanto empurrar. Nunca sentirás aquela alegria de veres o teu filho a pedalar sozinho depois de várias tentativas. Nunca perderás o teu tempo a ver o pôr do sol ao lado do teu filho, nem a falar sobre o universo e as coisas mais estapafurdias da vida.

É uma pena que sejas apenas pai de certidão de nascimento (às vezes nem isso), e nunca vás experienciar nada disto. Nem a parte boa nem a parte má. Não saberás o que é amor incondicional. O que é ter um companheiro para o resto da vida que vai te amar com todas as forças que tem.

Mas sabes, podes ficar tranquilo. Os teus filhos vão crescer saudáveis, inteligentes, com alguns traumas, mas como se costuma dizer, “o que não te mata torna-te mais forte”. Nada que os marque para sempre, porque os teus filhos ficaram com a mãe.

A Mãe de verdade. Que às vezes sente vontade de fugir, que se tranca na casa de banho a chorar, que fica exausta e irritada com os choros, as manhas e as malcriações. Esta mães consegue ter os mais variados sentimentos dentro de si e ainda assim amar tanto os seus filhos que aguenta tudo por eles.

Por isso, descansa, fica tranquilo.

Os teus filhos estão a ser bem cuidados.

E tu podes continuar livre e desocupado.

 

Por Aline Rolo em ObviousMagazine

 

Meu amor, tem sido este o mote de maior parte das nossas conversas, de tal modo que quando eu começo a frase “somos todos…” tu acabas por terminá-la por mim, dizendo “diferentes”. Somos todos diferentes!

Estás numa fase em que estás a construir a tua identidade e te apegas ao que te rodeia. às pessoas de quem gostas. Aos colegas (preferidos) da escola. E isso é normal.

Chegas a casa a brincar aos super heróis, resultado da tua interação com os rapazes do teu grupo e a cantar músicas da Elsa e da Ana, consequência da tua ligação  a uma ou duas das tuas referências da escola. Deixo-te ser, dou-te espaço para brincares ao que quiseres, desde que não haja tiros imaginários a serem disparados (e às vezes há) nem “chapadas” (que são, na verdade, espadas :)) a serem brandidas.

É claro que os exemplos não ficam por aqui. Queres fazer o que os outros fazem, porque eles o fazem, queres ter as mesmas experiências, queres sentir que estás a falar de igual para igual quando um assunto vem à baila: “eu também vi, eu também fui, eu também tenho, a minha mãe também diz”, etc. E é aí que eu entro, com a diplomacia possível, para lembrar que não somos, efectivamente, todos iguais, nem temos de ser. Há os colegas que à saída da escola comem gomas (e tu não), há os amigos que levam três brinquedos para a sala da escola (e tu não) e por aí fora.

No Natal a tua prima e tu estavam a comer a sopa e ela disse que não gostava e tu, de imediato, declaraste o mesmo. Claro que quando percebeste que isso significava que a tua prima não ia comer a sopa dela, rectificaste porque querias comer a tua. “Afinal eu gosto”, disseste. E essa é a lição: se vais fazer o mesmo que os outros não sendo fiel a ti, perderás sempre coisas no caminho.

Tens ainda três anos e meio e a procissão vai no adro. Esperam-nos anos de queres os mesmo ténis que X, usar o cabelo como Y, ler o mesmo que W. Terás várias referências ao longo da vida e espero que elas sejam positivas, mas por vezes não serão.

Estarei aqui para te orientar no que me couber fazer e no que não couber a observar e a esperar que depois me digas “lembras-te há uns anos quando eu queria aquelas calças xpto que eram horríveis? E a banda que eu ouvia, como é que era possível???”. Chama-se a isso crescer.

Vais construir a tua individualidade e, para isso, seguirás o teu coração mais vezes que a tua cabeça, dependendo na pessoa que te fores tornando. Terás à tua volta exemplos dos amigos, da família, do que vês na TV, dos autores que lês, das exposições que visitas, dos activistas que te fazem ver o mundo com outros olhos, das bandas que ouves, das escolas que frequentas e amigos que conquistas.

Acabarás por perceber que sermos diferentes uns dos outros é o que nos torna únicos e que se alguém te afastar por seres quem és é porque certamente não merecia a tua companhia. Mas não te esqueças que teres o direito de seres quem és não te autoriza a esquecer como te deves relacionar com os outros e o respeito que lhes deves.

Lembro-me muitas vezes de uma frase que li algures: “In a world where you can be anything, chose to be kind” / “Num mundo onde podes ser o que quiseres, escolhe ser gentil”. Se essa máxima se aplicar à tua vida, então todos os pequenos “eus” que fazem parte de ti já valerão a pena.

Somos todos diferentes e ainda bem. É isso que vai garantir que as diferenças que não são aceitáveis (de tratamento, de pagamento com base no género, de conduta social, etc) serão excluídas aos poucos.

Porque tudo muda.

Tudo, menos o meu amor por ti. Esse nunca será diferente.

imagem@weheartit

Ilustração de Mônica Crema

Comecei a escrever sobre este ano e dei por mim a escrever um texto morninho e cheio de pensamento positivo. Depois de me olhar ao espelho e confirmar que eu era eu, penitenciei-me com dez chapadas e apaguei o texto.

Este ano foi um ano filho da mãe.

Não há lugar a palavras doces. Repito: foi um ano filho da mãe. Testou a nossa família com golpes duros, muitas viroses, muitas ausências do pai, a mudança de escola dos miúdos, muitas birras e muitas noites mal dormidas. Olho para trás e o que vejo é uma mulher esgotada, cheia de sono e a viver em piloto automático.

Não li os livros que gostava de ter lido, aturei demasiadas birras, pensei que fosse enlouquecer, não peguei na máquina fotográfica uma única vez, ainda não foi este ano que fomos ao teatro, será que fomos a algum concerto?

Não me lembro.

Apanhei várias camadas de nervos, como diria a minha querida avó. Acho que fomos duas vezes ao cinema, ou terá sido uma? Fiz a depilação menos vezes que o desejável, a tinta para pintar os cabelos brancos ficou muitas vezes esquecida, não tivemos o tempo merecido a dois, sexo, isso existe depois da maternidade? O emprego continuou a ser a minha pedra no sapato, não cuidei de mim como deveria, adormeci vezes demais no sofá enquanto o meu marido conversava comigo, as várias dietas que comecei duraram dois dias, passei a detestar pessoas ainda com mais convicção.

Os miúdos estiveram doentes a porra do ano todo, um de cada vez e os dois ao mesmo tempo. A minha paciência conheceu novos limites, gritei vezes demais ou talvez não, que a parentalidade positiva não é para mim e esqueci-me muitas vezes de existir para além dos filhos ou para ser mais justa, não tive muito tempo para existir para além dos filhos.

Estamos quase no final do ano e se, por um lado, a vida não se compadece com calendários, por outro, sinto em mim todo o peso do ano que está a acabar e não desfazendo de tudo o que de bom aconteceu e foi muito, é impossível olhar para trás sem desejar que chegue depressa um novo ano, com doze meses inteirinhos, para eu o encher de planos que não vou concretizar, de noites mal dormidas, de camadas de nervos e de birras dos meus filhos.

Podes vir Ano Novo, mal posso esperar.