O dia em que deixei de dizer despachem-se

Cada vez mais, as pessoas vivem constantemente apressadas. Desde que acordas até que te deitas é um desenrolar que rotinas e tarefas que só te apetece despachar tudo para poderes descansar.

Sentes que estás sempre a cumprir uma tarefa da lista, a olhar para um ecrã ou a saltar de compromisso em compromisso. Independentemente da forma como distribuis o teu tempo e do número de obrigações que realizas em multi-tasking, nunca há tempo suficiente para nada.

Isto foi a história da minha vida durante dois anos. O meu cérebro e consequentemente as minhas acções foram controlados por notificações electrónicas, toques de telemóvel e uma agenda superlotada. O militar que há em mim queria que conseguisse ter um grau de eficácia de 200% e cumprisse todas as actividades em agenda, mas nunca consegui estar à altura.

Sempre que os meus filhos faziam algo que me desviasse da minha agenda principal, eu pensava: “Não temos tempo para isto.”

Tenho 4 filhos que, como todas as crianças, não têm a noção de urgência. Podemos estar atrasadíssimos para qualquer coisa e um pede para parar para comer um bolo no café, outro quer ir ao parque brincar, pára numa montra para ver capas de telemóveis!

Quando temos de sair de casa, primeiro que consiga reunir os 4 à porta com tudo o que é necessário (mais o que cada um quer levar quer seja um brinquedo ou uma lancheira cheia de cuecas, como já aconteceu) é um verdadeiro desafio (aka caos).

Quando estou atrasada para qualquer coisa, mesmo que seja, para uma festa de anos de amigos deles (pensas que estás a favor da maré, mas não!), parece que está tudo contra nós. Até perdem tempo a pôr o cinto do carro à bola de futebol em vez de o porem a si próprios.

Se vamos a um fast-food comer qualquer coisa rápida para nos despacharmos, querem trocar o boneco 10 vezes, comer um gelado, e ficam a falar com amigos que acabaram de conhecer.

Os meus filhos, crianças felizes sem quaisquer preocupações, foram a maior chamada de atenção para o meu estilo de vida.

Eu tinha uma visão da vida em forma de túnel, como os cavalos que andam com palas nos olhos. O meu dia-a-dia era um cumprir de compromissos e obrigações, sem parar para pensar ou respirar. Qualquer coisa que não me permitisse fazer um check na minha lista de tarefas era, simplesmente,  uma perda de tempo.

Sempre que os meus filhos me faziam perder o foco da minha agenda principal, eu pensava: “Não temos tempo para isto.”

Consequentemente, a palavra que mais lhes dizia era: “Despachem-se”.

Começava o dia a dizer:

Despachem-se, estamos atrasados!
Despachem-se e vistam os casacos!

e terminava a dizer:

Despachem-se, lavem os dentes e, xixi cama!

Ainda que o reforço “despachem-se” pouco ou nada fizesse para aumentar a velocidade dos meus filhos, eu passava a vida a gritar, “DESPACHEM-SE”. Na verdade repetia mais estas palavras do que lhes dizia o quanto gosto deles. Daqui até à lua, dizem antes de dormir, sempre à espera de mais mimo e mais amor.

Despachem-se!

A verdade é difícil de reconhecer e de aceitar, mas ajuda-nos a crescer e aproximou-me da mãe que EU quero ser.

Até que em um dia fatídico, as coisas mudaram. Eu tinha ido buscar os meus filhos ao colégio e estávamos a sair do carro. Um dos meus filhos disse para o mais novo na altura (o 3º agora): “És muito lento! Estás a atrasar tudo”

Cruzou os baços e suspirou com ar de enfado. Neste momento eu revi-me ali. Foi uma sensação horrível. EU ERA ASSIM!

Eu era a bullyer que empurrava, pressionava e apressava 3 crianças (na altura), que simplesmente não estavam (ainda) minimamente formatadas para a obrigação de cumprir horários.

Foi um abre olhos; eu vi com clareza o dano que a minha forma de viver estava a causar aos meus filhos.

Com a voz trémula, olhei para o meu filho mais novo e disse: “Desculpa querido por te apressar constantemente. Eu adoro-te tal como és, leva o teu tempo e quem me dera ser mais como tu!”.

Os outros olharam para mim com um ar surpreso com a minha dolorosa confissão, mas a cara do mais novo sustentava o inequívoco brilho da aceitação e do reconhecimento.

“A mãe promete ser mais paciente a partir de hoje”, disse-lhe enquanto abraçava o meu filho caçulo. Ele estava radiante diante da promessa recém-descoberta de sua mãe.

Foi facílimo banir o “Despachem-se” do meu vocabulário.

O que não foi nada fácil foi adquirir a paciência para esperar pelos meus filhos. Para nos ajudar a lidar com o tempo que o mais novo precisa para realizar as suas tarefas, comecei a acorda-los mais cedo, a ir busca-los mais cedo e a dar-lhes os tempos que precisavam para que não andássemos todos a toque de caixa. Mesmo assim, a maior parte das vezes ainda nos atrasamos mas, pelo menos, os meus filhos não estão sujeitos a pressões constantes.

Agora, quando vamos a algum lado, deixo que o mais novo, o 4º filho, defina o ritmo. Quando pára para ver qualquer coisa (descoberta), eu simplesmente fico a estudar as expressões que faz, muitas delas que EU nunca tinha visto com olhos de ver. Adoro ver como consegue fazer tantas coisas e é tão habilidoso, apesar da idade, e do tamanho mínimo das suas mãos. Percebi que as pessoas lhe respondem quando ele pára para conversar. Raparei que todos os dias ele descobre novos insectos ou flores na rua. Ele é um miúdo observador e isso é uma qualidade a preservar. Devemos estimular essa vontade dando-lhe o tempo que precisa.

Desde este episódio, que aconteceu há cerca de 3 anos,  comecei simultâneamente a minha jornada de me soltar de distrações diárias e agarrar-me ao que importa na vida. E viver sem pressa, num ritmo mais calmo obriga a um esforço extraordinário. Os meus filhos são o lembrete vivo do porque é que tomei esta opção de vida.

E de facto, há dias, o meu filho accionou o lembrete: tínhamos ido ao parque e no fim paramos para comer um gelado. Os irmãos já tinham terminado o deles e de repente ficou a olhar para mim e perguntou: “Tenho de me despachar, não é mãe?

Deu-me vontade de chorar. Se calhar as cicatrizes de uma vida stressada nunca desaparecem completamente.

Enquanto ele olhava para mim à espera de resposta, eu percebi que tinha duas opções. Ou continuava ali sentada melancolicamente a pensar na quantidade de vezes que o apressei até hoje, ou… eu podia celebrar o facto de que hoje estou a tentar fazer as coisas de outra maneira.

Eu escolhi viver o hoje.

Não. Come o gelado com calma. Temos tempo”. O sorriso foi imediato, enquanto os ombros desciam de alivio.

Ficamos ali sentados a falar sobre coisas que, por vezes, o tempo é curto para partilharmos.

Decidi que nunca mais quero dizer: “Não temos tempo para isto”.

Pode ter sido tarde, mas percebi que esta frase basicamente assume que não temos tempo para viver.

 

 

Adaptação do artigo publicado em handsfreemama

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Todos nós, pais, somos diferentes. Se, como seres humanos, não podíamos ser mais complexos, seria de esperar que nesta coisa da maternidade/paternidade fosse igual.

Por esse motivo tento ao máximo não julgar. O que funciona dentro de uma casa não é obrigatoriamente melhor do que o que se faz na outra. Sei disto e sei também que muitos de nós tomamos decisões e depois, mais tarde, olhamos para trás e pensamos que tínhamos muitas certezas na altura, mas se fosse hoje faríamos diferente.

No outro dia no parque encontrei uma senhora que tem quatro filhos e que costumamos encontrar várias vezes durante a semana. Os mais velhos têm nove e sete anos, os mais novos três e seis meses. São idades muito diferentes e não imagino o caos que muitas vezes deve acontecer dentro de casa.

Neste dia ela estava sozinha com os quatro, o mais novo a dormir no ovo, os mais velhos a saltarem no escorrega e o segundo mais novo andava a correr e a fazer disparates. A certa altura ouvi alguma comoção e prestei atenção ao que estava a acontecer. A mãe chamava o de três anos para vir ter com ela, naquele tom de “imediatamente, não me obrigues a chamar outra vez”. Sei como é, estamos juntas, adorava que a minha filha viesse só de lhe abrir os olhos como os meus pais me faziam, mas a ela falta-lhe esse chip, ou talvez me falte a mim o chip da autoridade que os meus pais tinham.

Mas o miúdo não só não ia ter com a mãe como recuava com ar de medo. Depois percebi porquê, tinha feito uma asneira grande, tinha mandado pedrinhas (que compõem o chão do parque) à cara da mãe. A mão cedeu em ir ela aproximando-se e chegando a um palmo dele, encheu a mão das pedrinhas e zumba, mandou-lhas à cara. Acompanhado de um “vê lá se gostas que te faça isso. Gostas? Não gostas, pois não? Então não faças!”.

Toda eu estremeci. Repito que tento não julgar, mas eu não o faria. Conheço quem use o método, a outros níveis, mas assim nunca tinha visto.

A verdade é que pode resultar, mas está a formatar aquele miúdo para agir assim. Há algumas crianças no parque que algumas vezes fazem exactamente isso, apanhei já uma miúda adorável que quando via os mais pequenos mandarem pedras ia atrás deles a fazer o mesmo e a dizer o tal “não gostas, pois não?”. Devem ter-lho feito a ela também.

Isto pode preparar os miúdos para o imediato, da próxima vez talvez não façam a mesma coisa, com medo que lhes venham fazer a eles a seguir, mas é o que eu considero um mau princípio.

Quando forem adultos e cometerem um erro não terão, ou não deverão ter, alguém a fazê-los passar pelo lado do outro para compreenderem. Porque não é preciso ser quase atropelado para se ter mais cuidado quando se está a passar de carro na passadeira.

Acredito que devemos ensinar a empatia. Que devemos corrigir os erros. Que devemos mimetizar as atitudes que gostávamos que os nossos filhos tivessem.

Eu sei que há dias de cão, em que o cansaço nos faz cometer erros. Talvez tenha assistido a um desses dias. Espero que sim.

Odiaria ver aquela mãe ser chamada à escola porque o filho anda a pisar os colegas, porque um deles o pisou e agora precisa de ver como é. Ou anda a dar encontrões porque lhe deram a ele. Ou a chamar nomes e dizer palavrões porque foi o receptor dos ditos.

Todos os dias são bons para recuarmos um pouco e pensarmos onde podemos melhorar.

Eu todos os dias tenho uma lista sem fim.

Mas tende a ser menor que a do dia anterior.

Que seja assim para todos nós.

 

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Espelho meu, espelho meu… serão as outras mães melhores do que eu?

Alguém parece ter inventado uma lista de qualidades e habilidades que se deve ter para ser uma ”boa mãe”. Nesta lista infindável, para além de saber cozinhar paleo-chic-bio-gourmet, costurar, fazer os mais variados DIY dignos de uma revista de decoração. Ir ao ginásio com regularidade, ensinar os filhos a serem extremamente precoces numa área qualquer. Levar os miúdos à piscina e sair de lá maravilhosa, e não como alguém que acabou de sair vestida da sauna. Ser capaz de apanhar todas as promoções da história versão “extreme couponing”. Encadernar primorosamente os livros da escola. Identificar TODO o material com dezenas e dezenas de etiquetas, repetindo dezenas e dezenas de vezes o nome dos pequenos catitas… (depois desta leva do regresso às aulas em que perdi a conta das vezes em que escrevi ”Guilherme”, pensei seriamente que era bem mais fácil ter-lhe chamado “Ivo”).

Ser fabulosa a ajudar as crianças com os trabalhos de casa, brincar pelo menos 30 minutos por dia com eles, enquanto se faz uma tarte veggie e meia dúzia de agachamentos. Ou seja, resumindo a “lista” é fundamental trabalhar, ser bem sucedida, uma inspiração para tudo e para todos, dormir no máximo umas 5 horas e acordar cheia de energia. Basicamente, é ser um daqueles copos da minha infância, um sempre em pé.

Quando não são os outros que nos avaliam com tamanha exigência, somos nós. Aliás, nós somos a nossa maior crítica, sempre na primeira fila a apontar o dedo. No entanto, parecemos ignorar o importante facto de todos os dias estarmos lá, a dar o nosso melhor.

Quando mães exaustas me perguntam “Estou a fazer tudo bem?” só me apetece… dar-lhes colo. Somos tão pouco tolerantes connosco. Exigimos tanto. Carregamos um peso tão grande. Queremos tanto fazer a coisa certa. Sempre.

A parentalidade é um caminho. Não há escolhas certas ou erradas. Existem as que nos levam mais perto de onde queremos chegar, e as que nos fazem dar umas voltas à rotunda.

Cada um faz o seu caminho, tal como na vida. Se o meu filho não é igual ao teu, porque é que a minha forma de lidar com ele deveria ser igual à tua? Não haverá uma forma só nossa de sermos felizes? Não haverá uma forma só nossa de sermos mães?

São esses caminhos que cada um tem de descobrir. Quando largamos a lista, o peso, a expectativa, o caminho abre-se, passo a passo, lágrima a lágrima, sorriso a sorriso.

Temos todas muitas dúvidas e medos, desde o primeiro momento. Achamos todas que a mãe que está ao nosso lado, é melhor do que nós, sabe mais do que nós, vale mais do que nós. Mas sabes, aos olhos do teu filho tu és a melhor mãe que ele poderia ter, só pelo simples facto de seres TU a mãe dele.

Em férias, e não só, um dos passeios mais comuns de todos os pais, são as visitas ao supermercado. Todos temos a mesma ideia, ou a mesma necessidade, e os supermercados junto aos locais invadidos nas férias enchemmmmm.

Eu e o pequeno catita fomos à aventura e entrámos num deles. Não tinha hipótese. Eu tinha MESMO de comprar uma série de coisas.
Assim que as portas automáticas abriram, o frenesim começou. Pareciam piranhas que devoravam as montanhas de pão, as paletes de leite, os caixotes de frescos e as frutas empilhadas. Sentia-se uma excitação no ar. Uma urgência. Uma vontade de comprar.

O motor do pequeno catita começou a aquecer. A aquecer. As perninhas a ganhar velocidade… o dedo apontador a esticar… Ui cá vamos nós. “Mãeeeeeee! Eu quero isto! Eu quero aquilo! E bolachas. Estas bolachas. Este sumo! Eu querooooooo!” A minha cabeça rodopiava com tanto pedido.

Quem me conhece, sabe como valorizo uma alimentação equilibrada. As comidas processadas e os refrigerantes não são visitas normais na nossa casa. Tudo para que ele apontava, eram “alimentos” que não me sinto nada confortável em comprar. Enquanto ele apontava e pedia, cada vez com mais insistência, o meu motor também aumentava as rotações. Ou eu começava a disparar “NÃOS!” à velocidade da luz, o que certamente iria acelerar ainda mais o motor do pequeno catita, ou tinha de pensar noutra coisa qualquer. Rapidamente. Tinha de o ajudar a passar do cérebro reactivo para a parte que consegue pensar, equacionar e tomar decisões.

Comecei a pensar em mim. Porque razão é que eu não gosto de comprar aquelas coisas? O que me faz tomar a decisão de comprar ou não? Os ingredientes! Leio sempre os ingredientes e com base nisso, tomo a minha decisão. Decidi dar ao pequeno catita a mesma opção, num jogo acabadinho de inventar, chamado “O incrível jogo do adivinha se isto é bom para a saúde”. As regras eram simples (tinham de ser, foram inventadas ao pé dos congelados e eu já estava cheiiinha de frio). Pegar em cada uma das coisas que o pequeno catita queria comprar, ler cada um dos ingredientes, e deixar a ele a tarefa de, com o polegar para cima, ou para baixo, definir se era um ingrediente fixe, ou nada-fixe.
“3, 2, 1, começar!” Pegou num pacote de bolachas e lá fomos nós: “Farinha de trigo!” E um polegarzinho para cima, apareceu do outro lado. (Este é discutível mas achei que tinha de manter as coisas simples). “Açúcar!” Polegarzinho para baixo. “Butil-hidroxianisol butilado e hidroxitolueno!” Baixou o polegar e largou o pacote. “Não quero isto!” No meio de vários polegares para cima, e muitos polegares para baixo, todos os pacotes ficaram pelo caminho.
Agora com a ajuda dele, voltei às minhas compras. Num instante estávamos de volta ao nosso carro com a bagageira recheada de alimentos avaliados pelo pequeno catita, ao pormenor. MÃE, EU QUERO IR PARA CASA! gritou do banco de trás. “EU TAMBÉM QUEROOOOOOOOOOOOOO!” gritei alegremente do banco da frente.

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Estes adultos estão loucos

Ainda não percebi bem o que querem de mim…
Enquanto sou bebé, passo 8 ou 9 horas por dia na creche, até que a minha mãe ou o meu pai, me venham buscar.
Chego a casa cansado como os meus pais, cansados, olham para mim, dizem blá-blá-blá, eu rio-me, eles também e vou para cama.
Ando assim 5 ou 6 anos.

Depois entro na escola.
Entro logo de manhã, às vezes debaixo de chuva, vento e muito frio e estou dentro da escola, 6 ou 7 horas, até que a minha mãe ou pai me venha buscar.
Em casa, faço os TPC’s, com a ajuda possível dos meus pais, que estão cansados, frustrados, revoltados com o trabalho, que mal dá salário para vivermos com dignidade, até que chega a hora do jantar, feito pela minha mãe.
Depois olham para mim, com os olhos cansados, mas ainda com energia para dizerem blá-blá-blá. Eu ainda me rio, eles também, lavo os dentes e vou para a cama.
Ando assim mais 4 anos.

Entro na escola secundária. Tenho muitos professores e muitas disciplinas. Fico lá 6 ou 7 horas, até tocar para a saída.
Nos primeiros tempos ainda espero pelo meu pai (é ele que tem o carro), e vou para casa. Mas, alguns 3 ou 4 anos depois, já vou sozinho para casa. Apanho os transportes públicos, cheios de adultos que até me pisam para entrarem primeiro que eu, mostro o “passe” e chego a casa. Cansado!
Beijo o meu pai, também cansado, Beijo a minha mãe na cozinha, também cansada, e tento fazer os TPC’s. Por vezes adormeço. Muitas vezes não consigo fazê-los. E então já sei que os professores vão escrever um “recado” ao meu pai. E depois vou ser castigado. Mesmo que esteja cansado!
No dia seguinte, o professor grita comigo e pergunta se os meus pais não têm tempo para me dar educação.

Eu não respondo, mas apetece-me!
Alguns dos meus colegas, respondem!
E os professores dizem que não são educadores. Que os educadores devem ser os pais.
Só que os professores estão comigo 7 horas por dia, se não faltarem às aulas.
Os meus pais, estão comigo, talvez, 2 ou 3 horas por dia, o resto é para comer e dormir.

Fico a pensar, quem é que me pode educar?
Acho que os adultos estão loucos!
Vou começar a fazer birra!
Talvez me olhem de outra maneira…
Acho que vou começar a fumar nas traseiras da escola. Está lá a malta da turma.
Eles até não se importam de “partilhar aqueles cigarros que eles próprios fazem”. Eles dizem que aquilo é um paraíso.
Talvez experimente.
Os professores não vão dizer nada porque não são meus educadores.
Os meus pais não vão dizer nada porque na escola ninguém tem obrigação de me vigiar e em casa os meus pais estão cansados e só estão comigo (acordados) 2 ou 3 horas.

Os adultos dizem que eu sou mal educado mas não é verdade, eu não tenho educação nenhuma mesmo.
Porquê?
Porque os adultos não têm tempo!
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NOTA:
Não tenho nada contra os Pais ou os Professores, mas tenho contra esta Sociedade desequilibrada!
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Por João Pessoa publicado em Associação Portuguesa para a Igualdade Parental e Direitos dos Filhos

LER MAIS TARDE…

Nunca tivemos uma geração tão triste

A triste geração que virou escrava da própria carreira

Geração Inabilitada

 

“Quando saio do trabalho ainda tenho que arranjar paciência para os miúdos”. Ouvi esta frase à mesa, durante um jantar com amigos. O desabafo era de uma mãe, cansada da rotina diária casa-emprego e frustrada por não conseguir tem disponibilidade mental para os dois filhos.

Se perguntarmos aos pais sobre se os filhos são para eles a prioridade, a maioria responderá que sim. Que são a sua prioridade máxima. Só que, na prática, não é isso que acontece. Muitas vezes sem nos apercebermos, é no trabalho e nas preocupações do dia a dia que gastamos a maior parte da nossa energia. E os nossos filhos? Ficam, tantas vezes, em segundo plano. Levam com as nossas frustrações e angústias. Com o autoritarismo de quem quer ter tudo sob controle. Ou com a permissividade de quem não está para se chatear.

É possível fazer diferente?

Sim, é possível. É possível educar sem que a vergonha, os sentimentos de culpa ou a dor (física ou emocional) façam parte do léxico familiar. É possível educar pela positiva, evitando modelos extremos de controlo ou permissividade mas utilizando firmeza e amabilidade ao mesmo tempo, apelando ao respeito mútuo e à cooperação, como bases para ensinar habilidades para a vida, responsabilidade e autocontrolo.

Cabe aos pais criarem as condições para que os filhos aprendam a ser autónomos, cooperantes e responsáveis. No caso da responsabilidade, esta deve ser vista em relação direta com os privilégios de que dispõem. Sem prémios ou castigos. Caso contrário, como diz Jane Nelsen, co-fundadora da Disciplina Positiva, as crianças “não serão mais do que meros receptores, dependentes, e sentirão que a única forma de sentirem que pertencem a algo ou que são importantes para alguém é manipulando os outros”. 

Dicas úteis para obter ajuda dos miúdos

Eis os 4 passos para obter a cooperação das crianças, segundo os princípios de Disciplina Positiva:

  1. Expressar compreensão pelos sentimentos.
    Escutar em vez de ouvir, mostrar que se percebe aquilo que a criança está a sentir, mesmo que não se concorde com a atuação.
  2. Mostrar empatia sem condenar.
    Não significa estar de acordo, apenas que compreende a perceção da criança. Dica: pode, por exemplo, partilhar uma situação em que se sentiu da mesma forma que o seu filho, que se identificará com ela.
  3. Compartilhar os seus sentimentos e perceções.
    Muitos pais evitam mostrar ou dizer como se sentem aos filhos, acham que isso é sinal de fragilidade. Não é. Pelo contrário, reforça a empatia e conexão. Afinal, todos somos humanos, erramos. E os erros são magníficas formas de aprender
  4. Convidar a criança a focar-se na solução.
    Pergunte-lhe se tem alguma ideia do que fazer no futuro para evitar que o problema se repita ou para melhorar/resolvê-lo. Se a criança não tem nenhuma, faça sugestões até que cheguem a um acordo, que respeite ambos.

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A resposta é sem margem de dúvida SIM. A criança precisa de regras e precisa que os pais sejam consistentes na implementação dessas regras. A maioria das crianças tem pais que implementam e até conversam com as crianças sobre as regras mas depois muitos não são consistentes e quando isso acontece baralham aquela cabeça pequenina.

Imagine que eu quero muito jogar à bola na sala e sei porque já me explicaram o motivo de não o poder fazer, mas percebi que sempre que grito ou digo que estou com sono já posso jogar e ainda oiço a minha mãe comentar “ela está com sono é melhor não contrariar”, qual será o meu pensamento seguinte?

A criança pede regras e as regras dão-lhe segurança. Claro que não devem ser excessivas, até porque a criança deve poder experimentar o mundo. Houve um tempo em que a maioria das crianças tinham regras em excesso, não podiam isto, não podiam aquilo, não, não, não, o que também não era positivo.

Hoje a moda é diferente, muitas vezes elas não existem porque é extremamente difícil ser coerente com o nível de cansaço que os pais têm ao final do dia.  Mas não se esqueça, que mesmo sendo difícil numa fase, ser firme nas regras vai diminuir o desgaste da sua relação com o seu filho e isso terá consequências muito positivas a médio prazo.

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É muito importante que esteja atento a alguns sinais de tensão nas crianças, ninguém melhor que os pais para conhecer o seu filho e perceber que ele não está bem, mas para isso tem que estar atento às pistas que a criança lhe dá.

Alguns sinais de alerta

A criança que deixa de comer; que volta a fazer xixi na cama; que não dorme ou passa a ter um sono agitado; que desenvolve fobias; mais do que todos estes, preocupa-me quando uma criança evita o contacto olhos nos olhos em situações do dia a dia e demonstra apatia.

Quando uma criança está zangada é normal que evite olhar para si e não deve insistir que o faça, mas se o seu filho habitualmente conversa consigo e a olha nos olhos e de um momento para o outro a evita, principalmente quando lhe pergunta se está tudo bem, então é sinal de alerta. Fiz já alguns despistes em que se conseguiu evitar situações mais complexas porque pais atentos perceberam os sinais e recorreram a mim para que os ajudasse a perceber o que se passava. Por vezes não se passa nada de grave à luz de um adulto mas muito grave na cabeça de uma criança e se ela está em sofrimento temos que agir o quanto antes. Outras vezes infelizmente passa-se algo de grave, pode mesmo ser no interior de uma família e quanto mais cedo se analisar a situação menos danos provocará na criança.

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A frase ecoa na minha cabeça há já alguns dias: “ O meu pai diz que faço tudo mal ”. Ouvi-a no metro, da boca de um menino que não devia ter mais de 7 anos. Falava com uma menina da mesma idade e disse-o com uma expressão triste, cabisbaixo. Apeteceu-me confortá-lo, dar-lhe um abraço e uma palavra de estímulo.

Como dizia Rudolf Dreikurs,  famoso psiquiatra educador que inspirou o modelo educativo da Disciplina Positiva, “Um joelho magoado pode curar-se, mas a autoestima ferida pode durar para a toda a vida”. Pois é.

Enquanto formador de Disciplina Positiva tenho contactado, tanto nos workshops como nas sessões de coaching parental, com pais e mães cujos filhos apresentam uma baixa auto-estima. Crianças que acham que não são capazes, por isso convencem quem os rodeia a não esperarem nada deles. Sentem-se muitas vezes inúteis, que não vale a pena tentar pois não farão nada bem.

Ajudar estas crianças (e os pais) a dar a volta ao problema não é um trabalho fácil. Exige tempo, paciência, coerência e muito reforço positivo. Mas os resultados têm sido animadores.

O sentimento de pertença

Todas as crianças precisam de se sentir importantes. E que pertencem (à sua família, escola, grupo desportivo, etc.). Para atingirem esse objetivo, optam muitas vezes pelo “mau” comportamento, que tem sempre por detrás uma mensagem que estão a querer passar.

De acordo com a Tabela das Metas Erradas, uma das principais “ferramentas” de Disciplina Positiva, a mensagem tácita que uma criança com baixa autoestima nos quer passar, com o seu “mau” comportamento, é esta: Não te dês por vencido comigo. Não desistas. Mostra-me um pequeno passo que eu possa seguir.

A chave para descodificar essa mensagem é a forma como nós, pais e educadores, nos sentimos perante esse comportamento. Depois há um caminho a percorrer, que desagua na aplicação de respostas produtivas e estimulantes. E quais são essas respostas?

Aqui ficam algumas, de acordo a Tabela das Metas Equivocadas da Disciplina Positiva:

1 – Ofereça pequenos passos

2 – Evite todo o tipo de crítica

3 – Anime em qualquer tentativa positiva

4  – Confie nas habilidades da criança

5 – Foque-se no que ela faz bem

6 – Não tenha pena

7 – Não se renda

8 – Crie ocasiões para que ela tenha êxito

9 – Ensine-lhe habilidades/como fazê-lo mas não o faça por ela

10 – Disfrute da companhia dela

11 – Anime, anime, anime

12 – Faça reuniões familiares/turma

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TIPS FOR PARENTS 9 | Gritar é descontrolar uma situação

O grito é uma forma descontrolada de agir que provoca comportamentos negativos em espiral, isto significa que cada vez que grita a probabilidade de se tornar cada vez menos eficaz é enorme. Quando a criança ou o aluno se habitua a só alterar o seu comportamento perante o grito cria-se um ciclo difícil de quebrar. Gritar é descontrolar uma situação, é aumentar o risco do problema e descarregar no outro a nossa incapacidade de nos controlarmos e é modelar o comportamento do outro numa situação semelhante.

São muitas as famílias que relatam situações de gritos regulares em suas casas ou na rua, o primeiro passo para que isso não aconteça é você acreditar que tem o poder e a capacidade de não gritar e de utilizar essa energia para desenvolver comportamentos mais assertivos e com menor impacto negativo no outro.

Já pensou quanto tempo fica a ressoar na cabeça de uma criança os gritos dos pais e dos professores?

A criança, ao contrário do adulto, não tem filtros tão desenvolvidos para que isso não a afete, ainda que depois o demonstre de formas muito pouco perceptíveis.

Não vale a pena sentir-se frustrada se os gritos já fazem parte do seu dia a dia, ou se aconteceu uma ou outra vez. O que interessa é que daqui em diante faça o exercício de tentar controlar este impulso e acredite que é capaz.

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