Não sejas a miúda que vai no metro, ao lado das amigas, mas não tira os olhos do telemóvel.

Não te preocupes mais com a selfie em que pareces mais gira do que com a maneira como falas com a tua mãe.

Não digas que sim ao teu namorado só porque não estás com cabeça para discutir.

Não tires fotos ao jantar no restaurante com uma hastag toda pomposa quando te esqueces de dizer ao teu pai ou a quem quer que tenha feito o jantar em casa que está delicioso.

Não vejas sempre o lado negativo das coisas, nem te vitimizes.

Não sejas demasiado cruel ou exigente contigo, as coisas acontecem quando têm de acontecer e se puderes ajudar a que aconteçam, melhor – se não puderes então não te preocupes.

Não sejas aquela miúda que se esconde atrás do manto da sinceridade para dizer tudo o que pensa (doa a quem doer).

Não faças planos irrealistas, mesmo que tendes a chamar-lhes sonhos.

Não esperes dos outros o que não estás disposta a dar.

Não sejas imodesta, mesmo que sintas que és boa naquilo que fazes.

Não faças coisas só para que os outros reparem e te dêem palmadinhas nas costas.

Não faças vista grossa em situações de injustiça por teres medo de te envolver.

Não escolhas o caminho mais fácil porque parece mais rápido.

Não te menosprezes só porque os outros não vêem as tuas capacidades.

Não tenhas medo de dizer o que pensas, mesmo que isso signifique perderes alguma “popularidade”.

Não concordes com os outros se não estiveres a par do que se trata. Reconhece que não estás por dentro – e se te interessar o tema, investiga.

Não mintas a ti mesma sobre o que sentes.

Não finjas que não estás a ver aquela senhora com bebé ao colo nos transportes ou o senhor que tem dificuldades em manter-se em pé em pleno metro. Levanta-te. Faz a coisa certa.

Não aspires a ser perfeita.

Simplesmente não sejas pior miúda do que podes ser.

Não é tão difícil quanto parece.

Tu consegues.

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Não tenho o sonho de ser mãe. Se acontecer, aconteceu.

Não tenho o chamado instinto maternal e o meu relógio biológico, à semelhança da minha idade metabólica, deve estar avariado. A minha mãe diz que nunca fui de brincar aos pais e filhos e que os meus bonecos eram isso, bonecos, nunca foram meus “filhos”.

Já percebi que há quem olhe para mim com estranheza e quem torça o nariz (devem pensar, que sou incompleta, que me falta um chip qualquer) mas, sinceramente, eu vivo bem com isso. Sou eu que mando no meu corpo (quer dizer, tirando este 10 kgs a mais que apareceram sem ser convidados e mais um outro aspecto chato que não controlo) e na minha vida. Faço as minhas escolhas mediante as opções que tenho.

Ser mãe é uma opção. Ir para a faculdade é uma opção. Desistir da faculdade é outra opção. Sou egoísta? E então? Não posso? Temos todas de casar, ter uma casa com jardim, um cão e dois filhos? Que bom que era, se assim fosse. Uma vida estável, férias no estrangeiro, os miúdos em colégios privados e com fios de prata ao pescoço.

Quando era mais nova e dizia que não queria ter filhos as pessoas afirmavam com convicção “isso dizes tu agora”, e a coisa ficava por ali. Hoje em dia fazem um ar mais espantado “mas porquê? Tens tanto jeito para crianças”. “– Porque não!” E é essa a única resposta que tenho para dar: porque não, porque não tenho motivos concretos. Porque nunca me virei para aí. Porque acho que não preciso de ser mãe para ser mulher. Porque se acontecer, acontecerá e talvez até me safe nesse papel. Mas se não acontecer tudo impecável na mesma. Não sonho com esse momento.

Hoje, não tenho o sonho de ser mãe.

Se calhar, a própria vida acabou por desviar-me da maternidade. Aos (quase) 33 anos ainda não tenho um emprego estável. Ainda não consegui viajar como queria. Ainda sinto que estou a começar qualquer coisa. Ou se calhar eu é que sou demasiado ponderada e gosto de ter tudo controlado e o meu ficheiro excel já me mostrou que o que sobra no final do mês não dá nem para uma embalagem de fraldas.

Mas uma coisa eu vos prometo, se nos próximos tempos baixar em mim o tal santo ou santa da maternidade não farei nenhum ritual estranho para os afastar e darei a mão à palmatória. Aliás até escrevo qualquer coisa sobre pés inchados, vómitos, enjoos, barriga pesada, mamas gigantes e bexigas hiperactivas. Até lá… continuo feliz e de bem com a vida, na esperança que compreendam esta minha opção mais ou menos assumida.

O importante é que cada pessoa se sinta feliz no seu papel, seja ele qual for, e que se sinta respeitada e compreendida por quem a rodeia.

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Mariana,

Foste hoje para a escola depois de um mês em que estivemos juntas praticamente vinte e quatro sobre vinte e quatro horas por dia.

Primeiro as férias no Algarve, depois o regresso a casa e a procura de uma escola substituta para aquela com a qual não nos identificámos e que não queríamos que frequentasses.

Hoje, depois de te deixar na escola, regressei a casa e encontrei silêncio. Não sabia que me ia aperceber dele, mas habituei-me aos nossos barulhos.

À televisão sintonizada nos desenhos animados (só ao pequeno-almoço, depois disso só está ligada para ouvirmos música), às tuas conversas com os bonecos, aos ruídos que fazias quando deixavas cair uma caixa, quando pousavas mal a bicicleta, quando rias a ouvir uma história, a tua atenção e perguntas pertinentes quando fazíamos actvidades-a-fingir-que-estamos-na-escola, ou simplesmente quando subias para a cadeira para me ajudar a cortar os legumes para a sopa.

Não estou habituada a este silêncio e fez-me confusão.

Sem ti há pouca vida cá em casa, é como se a música estivesse no pause à espera que regressasses para podermos saltar para o sofá e dançar.

Foram dias cansativos, para as duas. Foram dias atípicos, mas uma mãe habitua-se a ter os filhos debaixo da asa.

Hoje está a sobrar-me tempo para o trabalho e estou a demorar três vezes mais a fazê-lo.

E depois, é este silêncio.

Já liguei a música, abri a janela para deixar os barulhos da rua entrarem, para me esquecer que posso estar aqui sem me preocupar com a hora da sesta ou com um almoço que complemente o jantar.

É bom estarmos de volta aos nossos devidos lugares e sei que vamos entrar nessa rotina bem depressa (já entrámos, de manhã estava já tudo oleado para tomarmos o nosso pequeno-almoço sentadas, com calma para depois sairmos sem pressas), mas sinto falta do movimento, da correria, de estares a perguntar “e depois, o que vamos fazer?”, que é agora a pergunta de eleição.

Sei que vou almoçar. E depois? Vou continuar a trabalhar. E depois? Paro para comer mais qualquer coisa. E depois? Depois trabalho mais um pouco até serem horas de te ir abraçar.

E aí a música, mesmo que em forma de barulhos que não se complementam harmoniosamente, vai voltar.

E dançarei contigo.

Em cima do sofá, no chão, no jardim, no elevador.

Até que a música seja silêncio outra vez e eu anseie por ela.

Seremos parceiras de dança, mesmo que a música passe a ser apenas um murmúrio: nunca te deixarei esquecer que até sem música somos capazes de dançar.

Para sempre, meu amor.

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Desculpa filho, não foste planeado

Já estava doente há duas semanas. Todos os dias tinha diarreia. Hipocondríaca como sou, sabia que estava à beira da morte, só era preciso descobrir qual a doença que me iria matar. Farta de estar à espera, numa segunda-feira de manhã, depois de chegar ao trabalho e de me sentir cada vez mais fraca, fui às urgências do Hospital da Luz.

Fui atendida por uma médica que, entre várias perguntas, quis saber se eu poderia estar grávida. Respondi logo que não, acho até que gritei. Nem pensar, eu tomava a pílula. Notei-lhe um ligeiro ar de gozo. Imagino que já tivesse ouvido a mesma resposta centenas de vezes. Fiquei irritadíssima, não sou uma adolescente, caraças, eu sei o que é o planeamento familiar, tomo a pílula desde que me conheço mulher.

A minha indignação não durou as três horas que esperei pelos resultados das análises que a médica me tinha mandado fazer. Quando me recebeu no gabinete com um sorriso de orelha a orelha, já eu tinha esquecido a pergunta que me tinha feito. Mas ela não. Como não tinha ficado convencida da minha certeza absoluta e como poderia ser preciso fazer mais exames, entre as várias análises que pediu, estava um teste de gravidez.

– Parabéns, está grávida!

Raio da médica, eu estive três horas na sala de espera a ler revistas cor-de-rosa e ela esteve três horas nos copos.

Eu tomava a pílula, que parte é que ela não percebeu? Ela insistiu que o resultado era aquele e eu insisti que não podia ser. Farta de mim, ligou para a obstetrícia para confirmar se o que ela estava a ver era mesmo o que ela estava a ver, disseram-lhe que sim, ela deu-me as análises e, novamente com aquele ar de gozo, mandou-me ir à obstetrícia que já estavam à minha espera.

Enquanto eu pensava se devia ir ou fugir daquele manicómio, uma assistente segurou-me o braço e, com um sorriso típico dos hospitais privados, levou-me à obstetrícia.

Lá se tinha ido a minha hipótese de fuga.

Na obstetrícia, para não restarem dúvidas, fizeram-me uma ecografia e lá estava a confirmação: um saquinho bem redondinho dentro do meu útero. A minha cara de felicidade devia ser tão evidente que a médica me disse para ter calma, que ainda estava no início e que a decisão de continuar com a gravidez seria minha.

Eu estava calmíssima, ou pelo menos fingi bem o suficiente para me deixarem sair do hospital rapidamente.

A primeira coisa que fiz foi ligar para o meu marido. Pouco tempo antes tínhamos falado sobre ter mais filhos e ambos concluímos que dificilmente isso iria acontecer. Gostávamos de dar mais um irmão à nossa filha, (ela já tinha o mano mais velho, o meu enteado), mas ter filhos é caro, a mensalidade da creche, as fraldas, as vacinas, o pediatra, a renda da casa, a pensão de alimentos, bla, bla, bla, bla. Tomem lá e embrulhem.

O meu estado de espírito era o de quem estava a comunicar uma fatalidade, um olha não sei como é que isto aconteceu, desculpa lá qualquer coisinha e o meu marido do outro lado a rir, genuinamente feliz, que venha com saúde, disse ele. Também esteve a beber com a médica, só pode. Então e as contas? Nós fizemos contas, como é que vamos conseguir?

Quando desligámos, liguei para a minha mãe e chorei, chorei, chorei, chorei tanto. Só pensava na minha filha. Era tão pequenina, ainda era tão bebé. O que é que eu lhe fui fazer? E a minha mãe ria, genuinamente feliz e eu só me lembro de andar dentro do Colombo às voltas a chorar e a dizer-lhe para não estar feliz.

Nesse dia senti-me atropelada pela vida. Não era nada disto que eu tinha planeado, mas desde esse dia, em que a vida mandou as minhas certezas absolutas para as urtigas e escolheu outro caminho, que eu sou ainda mais feliz.

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Se, antes de ter filhos, eu soubesse;

Sabendo que em cada 100 casamentos há 70 divórcios, naturalmente que destes divórcios, há inúmeras famílias com filhos(as). Decorrente deste facto, encontramos cada vez mais famílias reconstruidas que, e ainda bem, tentam a sua felicidade novamente.

No entanto, as famílias reconstruidas encontram desafios diferentes daqueles por que passam as referidas famílias tradicionais, que normalmente se prendem com as inúmeras situações que tornam mais difícil a adaptação, nomeadamente a multiplicidade de laços afetivos envolvidos. Uma das questões que abala com frequência a segurança das pessoas aquando do seu envolvimento romântico com alguém com filhos de outro casamento diz respeito à hierarquização das prioridades. Nas famílias tradicionais, essa questão não se coloca pela naturalidade das relações.

Quando tudo está em equilibrio, sem confrontos, nunca irão haver problemas nas famílias reconstruidas tal como não há nas famílias tradicionais. A questão coloca-se quando os “que não são pais”, têm de “fazer de pais”, exercendo a autoridade necessária à situação.

Educar em consenso

Relevante torna-se assim o período de adaptação anterior ao casamento (ou mudança para a mesma residência). Sendo tudo feito de forma adulta e tranquila raramente os problema irão existir. Mas mais que tudo, o importante é que o novo casal defina regras. Normalmente o ideal é que se mantenha o princípio de que, quem manda em casa são os adultos, sejam eles os pais ou os não pais. Primordial também, é o facto dos pais ( mães) não reagirem mal sempre que um “não pai/mãe” chama a atenção, dá uma palmada ou põe de castigo. Esta é uma questão que até em famílias biológicas (ou adoptivas) acontece, ficando ainda mais relevante no caso de serem “não pais”. O que faz sentido, é ambos terem a autoridade de imporem as regras de acordo com o princípio acordado entre os dois ( algo que todos os pais deveriam fazer aquando da educação dos seus filhos).

Um bom pai ou boa mãe erra

Naturalmente que educar uma criança é muito díficil por não ser algo que siga uma metodologia única. Não há um livro de regras ou boas maneiras para fazer, nem tampouco instruções. Muitas vezes vamos por tentativa e erro. Daí a importância de ir partilhando as dúvidas, receios e medos do que fazer. Aparecem frequentemente em consulta pais com dúvidas acerca do que fazer, como fazer, com medo de que estejam a fazer errado. O que digo sempre é que um bom pai ou boa mãe erra e isso não faz mal algum. Aliás, repito sempre esta frase aos pais que procuram e que foi proferida por um dos melhores e maiores psicólogos que o mundo já conheceu, Winnicott, que diz que “ Quando somos capazes de ajudar os pais a ajudarem os filhos, o que fazemos na verdade é ajudá-los a eles mesmos”.

Regras

É relevante que, os pais antes de se juntarem falem sobre as regras que deverão reger a família, sendo que ambos devem ter autoridade sobre as crianças e jovens que coabitam com eles, ainda que não sejam filhos deles. Só assim haverá harmonia, pois os filhos não irão sentir apoio do pai ou mãe acerca das suas acções menos boas, e assim reagir mal. Aliás, reforço mais uma vez a ideia do princípio ser o mesmo de um casal com filhos seus. Na frente das crianças e jovens os pais devem sempre mostrar acordo e apoio, ainda que depois sozinhos possam conversar e discutir alguma discordância. Por outro lado, é importante manter a relação com os ex para que estes também sintam que os filhos estão a ser balizados e amados, e entender queixas dos filhos que possam existir.

Os filhos em primeiro lugar

O divórcio e novo casamento não é opção nem escolha dos filhos, pelo que os pais e novos companheiros devem agir em função do bem estar deles. Mas claro que nada é estanque, e o mais importante é sempre a comunicação e partilha entre o casal e com a restante família. E refiro ainda que há situações que tornam estas adaptações difíceis e que cada caso é um caso.

Para finalizar ficam aqui algumas ideias de como poderão colocar em prática esta nova realidade.

1 – Respeito

Para que haja relação entre os seus filhos para com o/a seu novo/a companheiro/a, e relação dos seus enteados consigo. Para tal, procure demonstrar interesse, verdadeiro claro, pelas atividades dos seus enteados, e evite compará-los aos seus próprios filhos. O objetivo é estimular a relação de amizade entre os mais novos e não a rivalidade.

2 – Dar tempo ao tempo

É normativo que o ciúme , rejeição inicial ocorra. Não tenha pressa de se juntar ou casar. Dê tempo a que os seus filhos se habituem à ideia e a este novo companheiro/a.

3 – Criar regras

Tal como referido, é fundamental que o casal esteja de acordo com as regras da casa e da educação, e que irão permitir uma convivência saudável e feliz.

4– Procurar o dialogo

É fundamental que a comunicação flua acontecimento natural. A conversa entre os vários membros da família é a forma mais adequada para a criação de um ambiente familiar verdadeiro e tranquilo. Aproveitem um momento do dia onde estejam todos juntos, para ficarem juntos e debaterem temas importantes para as crianças, quer seja o seu quotidiano e questões escolares, quer outros assuntos relevantes para os mesmos. Fundamental usar o sentido de humor e brincar com respeito sobre as várias temáticas.

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As 10 coisas que eu mais detesto que os meus filhos façam:

  1. Birras;
  2. Birras;
  3. Birras;
  4. Birras;
  5. Birras;
  6. Birras;
  7. Birras;
  8. Birras;
  9. Birras;
  10. Birras.

A minha filha mais velha sempre foi especialista em birras. Desde as birras que com um mês fazia para mamar e para adormecer, às birras que faz com quatro anos porque não vê o arco-íris há muito tempo ou porque não quer ir para a escola porque está chateada com as amigas. Acorda todos os dias de mau humor (herdou os meus genes) e qualquer rabanada de vento a faz desatar num berreiro com cascatas a escorrer-lhe dos olhos.

Passou em força por todas as fases ditas terrible: terrible one, two, three e está no auge dos fucking four. Que vos digo já que dão quinze a zero aos terrible two. A parte boa é que não há birra que me surpreenda, tudo é motivo e a qualquer momento.

O que me tem lixado verdadeiramente por estes dias é que o meu filho, que de terrível só tinha o não nos deixar dormir há dois anos (coisa pouca), entrou a pés juntos nos terrible two. Um miúdo que mesmo não dormindo acorda sempre bem-disposto, que leva o dia a cantar e que tem um sorriso que ilumina o dia mais cinzento que já possam ter visto, tem ensaiado umas birras que me deixam louca.

Se por um lado as birras dos quatro anos são monstruosas, cheias de porquês e eu quero porque quero e pés a bater no chão, por outro as birras dos dois anos têm muitas lágrimas, muita baba, muito ranho e poucas palavras e eu já me tinha esquecido como era isto tentar adivinhar qual é o raio do motivo da birra.

Já vos disse que detesto birras?

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O segredo das birras

O dia 4 de Maio de 2012 calhou a uma sexta-feira, eu estava grávida e fazia as doze semanas na segunda-feira seguinte.

Estava a trabalhar, fui ao wc, limpei-me e vi o sangue no papel higiénico. Não sei quanto tempo fiquei ali a olhar para o sangue. Era sangue vivo, era abundante.

Vesti-me, fui ter com uma colega, das poucas que sabia que eu estava grávida e pedi-lhe para ir comigo à Maternidade Alfredo da Costa. Pelo caminho liguei ao meu marido, que em pouco tempo estava lá.

Abraçámo-nos.

Existe aquele mito de que não devemos contar que estamos grávidas antes das doze semanas. Eu já tinha estado de baixa, porque às 6 semanas o feto não estava a evoluir, mas depois disso parecia tudo normal, um coração que batia forte, as medidas supostas para o tempo e eu esqueci aquele pesadelo. Estava feliz, estava grávida e notava-se.

Quando cheguei à MAC tudo me pareceu demorar uma eternidade. Eu estava a perder sangue e a calma dos outros parecia-me uma ofensa. Fazer o registo, mostrar o cartão do cidadão, o cartão de saúde, dar a morada, contactos, por favor, eu só quero ouvir um coração a bater.

Entrei para a triagem e depois das explicações habituais, mandaram-me deitar numa maca. Ali fiquei deitada, num corredor, sozinha. Ao longe ouvia o som de outros corações, portas a abrir e fechar. Uma enfermeira passava de tempos a tempos e pedia-me para ir ver se ainda perdia sangue.

Depois do que me pareceu serem cem anos, fui chamada por uma médica sorridente. Deitei-me, fez-me uma ecografia, o sorriso desapareceu e disse-me que eu tinha sofrido um aborto espontâneo.
Não percebi nada. Eu continuava a querer ouvir um coração a bater.

Rapidamente me explicou que o feto teria parado de se desenvolver por volta das nove/dez semanas e só agora o corpo estaria a tentar expulsá-lo.
É muito comum, disse-me. Alguma coisa não estaria bem com o feto e o próprio corpo impediu que se desenvolvesse, era bom sinal. Falou em percentagens, casos de sucesso após aborto e mandou-me para casa esperar que o corpo fizesse o resto do trabalho.

Contei ao meu marido, à minha mãe, mas eu só pensava que o meu corpo tinha dentro dele o que foi um filho muito desejado e tudo tinha acabado.

Não sei se chorei muito ou pouco, ou o quão dolorosa foi esta perda. Todo o processo demorou um mês, entre idas ao hospital, colocar comprimidos e mais comprimidos para provocar a expulsão, contracções dolorosas e ecografias e mais ecografias, que mostravam sempre restos, que tudo se resumia a essa necessidade de tirar o feto de dentro de mim. Não havia lugar para a dor psicológica.

Fui maltratada no hospital por não querer fazer uma raspagem, não tinha filhos, não queria arriscar. Li de tudo na internet. Tomei banhos de água quente, bebi chá de canela, perdi a conta aos comprimidos, às dores, ao sangue que perdi.

Mudei de médico, encontrei a calma, era só esperar e não fazer mais nada. E assim foi.
A 27 de Junho de 2012 tudo terminou e eu chorei de alívio.

Durante o processo percebi que a médica da MAC tinha razão, uma grande percentagem de mulheres sofre abortos espontâneos, mas não falam sobre isso. Regra geral acontecem antes das doze semanas de gravidez e a sabedoria popular diz que dá azar contar, agoira, é preciso ter cuidado com o mau olhado e as mulheres sofrem sozinhas, como se fossem culpadas ou estivessem estragadas.

Não estão e devemos falar abertamente sobre o assunto. Desmistificar.

A 12 de Setembro de 2012 voltei a ouvir um coração a bater e dessa vez a história foi feliz.

imagem@guu.vn

 

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No outro dia estava a trocar mensagens com uma amiga que me confidenciou que estava a tentar engravidar do segundo filho e numa pergunta que foi já em si uma afirmação, disse-me: será boa ideia? Fica o dobro mais difícil?

Eu gostava que a minha amiga não me tivesse feito aquela pergunta. Todo o cansaço que ela sente agora não é nada comparado com o cansaço que ela vai sentir, todas as birras que ela agora atura são poucas comparadas com as que ela vai aturar, todos os berros que ela agora dá são poucos comparados com os berros que vai dar e o pouco tempo que agora tem para ela vai-se transformar em ainda menos tempo para ela.

Não queria ter de lhe dizer estas coisas, quando ela está naquele lugar mental em que o segundo filho ainda só é uma ideia que não dá trabalho. E eu que não sou dada a floreados e a paninhos quentes, que prefiro mil vezes uma chapada da verdade à surpresa do desconhecimento, senti-me culpada por lhe dizer que sim que vai ficar difícil, muito mais difícil, incrivelmente difícil.

Penso nos meus filhos e lembro-me como foram duros os primeiros tempos. As birras que a minha filha fazia quando eu estava a amamentar o irmão. Subia móveis, deitava tudo para o chão, pedia coisas que não lhe podia dar naquele momento e chorava, chorava muito. Queria que eu lhe desse colo ao mesmo tempo que amamentava, queria segurar-me na mama para ajudar, para fazer parte de tudo. Lembro-me como ainda é difícil quando estou sozinha com os dois. Despachar os miúdos de manhã, deixá-los na escola, o final do dia a correr, os banhos, a hora do jantar e o terror de ter de os adormecer, a minha maior inabilidade enquanto mãe. As birras e os choros vezes dois, as guerras pelos mesmos brinquedos ou porque um quer ver uma coisa na televisão e outro quer ver outra e a mais velha sempre a querer mandar no mais novo e ele a resistir. E os gritos deles.

A verdade é que fica mesmo tudo mais difícil e mais cansativo, chega a ser desesperante às vezes, mas pensando mais uma vez nos meus filhos, fica também tudo muito, mesmo muito melhor. Mais completo e mais feliz, apesar do caos.

A minha filha amou o irmão desde a primeira vez que o viu. Os olhos brilham quando fala dele e trata-o muitas vezes pelo “nosso menino”. Sempre me quis ajudar, desde mudar a fralda, ao banho e a dar-lhe o biberão. É protetora e preocupada, está sempre atenta e faz o relatório de tudo o que aconteceu na escola. Já estão naquela fase em que brincam muito um com o outro, a outra, em que os irmãos mais novos são uns bebés desinteressantes que só comem e dormem, ficou lá atrás. São companheiros apesar dos gritos, adoram-se e não se largam, irritam-se e aprendem um com o outro e nada me emociona mais que vê-los sentados lado a lado a lerem um livro.

À minha amiga, não lhe mentindo sobre a dificuldade e o cansaço, não posso deixar de lhe dizer o maravilhoso que vai ser, a felicidade e o amor a dobrar que vai sentir e a certeza inabalável de que os irmãos são o melhor presente da vida.

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De repente cresceste, meu filho

De repente cresceste. Tanto que me disseram que o tempo passa rápido, que passou mesmo. E de repente, estás um crescido.

Aproveitei cada minuto e cada segundo. Nunca te neguei mimo ou colo, e fiz tudo para estar cada minuto possível contigo, mas mesmo assim, o tempo passou rápido e tu cresceste.

De repente, já não eras um recém-nascido, tão pequenino, tão frágil e tão dependente de mim.

Já comias sólidos, atiravas a comida ao chão e sujavas tudo à tua volta.

De repente já escolhes o que queres comer, o que gostas e o que não gostas, e não há quem te demova dos teus gostos.

De repente sentaste-te e bateste palminhas… Gatinhavas e eu corria pela casa atrás de ti…

De repente já andas, corres e exploras o mundo, e deslumbras-te com tudo o que vês.

De repente trepas tudo, cais e esfolas os joelhos. De seguida levantas-te, sacudes as mãos e continuas a correr…

De repente disseste mãe, e de repente já dizes um monte de coisas …

De repente começaste a expressar-te. Tornaste-te consciente das tuas emoções, que são tantas e tão intensas e expressas o que sentes da forma que sabes.

De repente concentras-te. Sabes o que queres fazer, e sabes focar-te na tua tarefa abstraindo-te de tudo o resto.

De repente folheias um livro e rabiscas um papel, ou uma parede do teu quarto.

De repente adoras carros, bolas, adoras marcar golos e dizer os sons dos animais.

De repente fazes birras quando não tens o que queres. Gritas, choras, e empurras-nos para demonstrar o teu desagrado.

De repente dás-me um abraço só porque sim, ou empurras-me para que continues a brincar sem que os meus beijos te atrapalhem.

De repente já não és um bebé. De repente cresceste. O tempo passou e por mais que eu queira fazer o tempo parar, não posso. E tu vais continuar a crescer, a aprender, e definir quem és! De repente deixarás de ser o meu bebé pequenino porque de repente és um rapazinho.

E eu estou tão orgulhosa de ti! E eu gosto tanto, mas tanto de ti, mesmo que de repente… tenhas crescido!

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O momento das refeições em família vai muito além da nutrição do corpo. É encher o copo do coração com energia, saborear cada história que se conta sobre as coisas mais interessantes que aconteceram no dia, partilhar alimento físico e emocional.

É fácil imaginar a ligação que esta experiência, dia após dia, pode ditar da relação que a criança vai ter com a comida a longo prazo – além da questão social. O que os filhos vivenciam à refeição vai projetar parte da sua postura e opções em adultos. Por exemplo, quando uma criança é obrigada a comer, «à força», pode mais tarde desenvolver distúrbios alimentares – além destes distúrbios terem, geralmente, a ver com a relação entre mãe e filho. Por outro lado, se o ambiente for tranquilo, a relação com a comida será também mais equilibrada.

Também o aspeto social torna a refeição uma ocasião importante. Desde o aprender, a pouco e pouco (por imitação), a usar os talheres e o copo, a estar à mesa, até ao apreciar a comida, enquanto ouve os outros e espera para se levantar, tudo reflete a ambiência social.

Mas criar este momento, a refeição em família, e torná-lo um ato de amor, requer prática.  Talvez as férias sejam a altura ideal para fortalecer esta experiência familiar/social, que requer saber coisas para alguns simples e óbvias, para outros não tanto: desde fazer as compras, cozinhar e levar a refeição a bom porto.

Aproveite cada passo do processo para instituir hábitos saudáveis, tanto do ponto de vista alimentar como social e educacional. Acima de tudo, envolva os elementos da família.

Alguns pontos de partida:

  • Conte com a participação das crianças para planear as refeições, escrever a lista de compras, preparar os alimentos, cortar os vegetais e a fruta, pôr a mesa… tudo são tarefas que podem ser divertidas e pedagógicas.
  • Escolha o mercado ou mercearia locais, onde os sentidos ficam mais despertos: escolhemos alimentos frescos e coloridos, interagimos com os vendedores do costume, com quem mais cedo ou mais tarde criamos laços. Ah, não se esqueça: leve os sacos de panos ou um cesto em vez de comprar sacos de plástico.
  • Opte pelas ervas aromáticas para temperar, bem como especiarias; pelos guardanapos de pano; por loiça e talheres «verdadeiros» em vez de plástico para os mais pequenos (além de que os integra mais).
  • Permita que a criança se sirva. Mesmo que requeiram alguma ajuda, reforce a autonomia dos mais pequenos.
  • Conversem à mesa. À mesa fala-se, sim. A empatia pode ser fortalecida ao perguntar ao seu filho pelos amigos por um  momento divertido que ele teve no dia. Converse também com o seu companheiro/a, sobre assuntos leves, com contacto visual.
  • Agradeçam a refeição. Quando expressamos conscientemente palavras e sentimentos positivos perante a refeição partilhada, a relação da criança com a comida será também mais saudável.
  • Haja flexibilidade. É claro que as refeições cozinhadas em casa são as ideais. Mas se de vez em quando estiver tão cansada/o ou aborrecida/o que decida comprar comida de fora, ou mesmo ir jantar fora, não vai nenhum mal ao mundo. Aproveite, sem culpas, a refeição «menos saudável».

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