Sabendo que em cada 100 casamentos há 70 divórcios, naturalmente que destes divórcios, há inúmeras famílias com filhos(as). Decorrente deste facto, encontramos cada vez mais famílias reconstruidas que, e ainda bem, tentam a sua felicidade novamente.

No entanto, as famílias reconstruidas encontram desafios diferentes daqueles por que passam as referidas famílias tradicionais, que normalmente se prendem com as inúmeras situações que tornam mais difícil a adaptação, nomeadamente a multiplicidade de laços afetivos envolvidos. Uma das questões que abala com frequência a segurança das pessoas aquando do seu envolvimento romântico com alguém com filhos de outro casamento diz respeito à hierarquização das prioridades. Nas famílias tradicionais, essa questão não se coloca pela naturalidade das relações.

Quando tudo está em equilibrio, sem confrontos, nunca irão haver problemas nas famílias reconstruidas tal como não há nas famílias tradicionais. A questão coloca-se quando os “que não são pais”, têm de “fazer de pais”, exercendo a autoridade necessária à situação.

Educar em consenso

Relevante torna-se assim o período de adaptação anterior ao casamento (ou mudança para a mesma residência). Sendo tudo feito de forma adulta e tranquila raramente os problema irão existir. Mas mais que tudo, o importante é que o novo casal defina regras. Normalmente o ideal é que se mantenha o princípio de que, quem manda em casa são os adultos, sejam eles os pais ou os não pais. Primordial também, é o facto dos pais ( mães) não reagirem mal sempre que um “não pai/mãe” chama a atenção, dá uma palmada ou põe de castigo. Esta é uma questão que até em famílias biológicas (ou adoptivas) acontece, ficando ainda mais relevante no caso de serem “não pais”. O que faz sentido, é ambos terem a autoridade de imporem as regras de acordo com o princípio acordado entre os dois ( algo que todos os pais deveriam fazer aquando da educação dos seus filhos).

Um bom pai ou boa mãe erra

Naturalmente que educar uma criança é muito díficil por não ser algo que siga uma metodologia única. Não há um livro de regras ou boas maneiras para fazer, nem tampouco instruções. Muitas vezes vamos por tentativa e erro. Daí a importância de ir partilhando as dúvidas, receios e medos do que fazer. Aparecem frequentemente em consulta pais com dúvidas acerca do que fazer, como fazer, com medo de que estejam a fazer errado. O que digo sempre é que um bom pai ou boa mãe erra e isso não faz mal algum. Aliás, repito sempre esta frase aos pais que procuram e que foi proferida por um dos melhores e maiores psicólogos que o mundo já conheceu, Winnicott, que diz que “ Quando somos capazes de ajudar os pais a ajudarem os filhos, o que fazemos na verdade é ajudá-los a eles mesmos”.

Regras

É relevante que, os pais antes de se juntarem falem sobre as regras que deverão reger a família, sendo que ambos devem ter autoridade sobre as crianças e jovens que coabitam com eles, ainda que não sejam filhos deles. Só assim haverá harmonia, pois os filhos não irão sentir apoio do pai ou mãe acerca das suas acções menos boas, e assim reagir mal. Aliás, reforço mais uma vez a ideia do princípio ser o mesmo de um casal com filhos seus. Na frente das crianças e jovens os pais devem sempre mostrar acordo e apoio, ainda que depois sozinhos possam conversar e discutir alguma discordância. Por outro lado, é importante manter a relação com os ex para que estes também sintam que os filhos estão a ser balizados e amados, e entender queixas dos filhos que possam existir.

Os filhos em primeiro lugar

O divórcio e novo casamento não é opção nem escolha dos filhos, pelo que os pais e novos companheiros devem agir em função do bem estar deles. Mas claro que nada é estanque, e o mais importante é sempre a comunicação e partilha entre o casal e com a restante família. E refiro ainda que há situações que tornam estas adaptações difíceis e que cada caso é um caso.

Para finalizar ficam aqui algumas ideias de como poderão colocar em prática esta nova realidade.

1 – Respeito

Para que haja relação entre os seus filhos para com o/a seu novo/a companheiro/a, e relação dos seus enteados consigo. Para tal, procure demonstrar interesse, verdadeiro claro, pelas atividades dos seus enteados, e evite compará-los aos seus próprios filhos. O objetivo é estimular a relação de amizade entre os mais novos e não a rivalidade.

2 – Dar tempo ao tempo

É normativo que o ciúme , rejeição inicial ocorra. Não tenha pressa de se juntar ou casar. Dê tempo a que os seus filhos se habituem à ideia e a este novo companheiro/a.

3 – Criar regras

Tal como referido, é fundamental que o casal esteja de acordo com as regras da casa e da educação, e que irão permitir uma convivência saudável e feliz.

4– Procurar o dialogo

É fundamental que a comunicação flua acontecimento natural. A conversa entre os vários membros da família é a forma mais adequada para a criação de um ambiente familiar verdadeiro e tranquilo. Aproveitem um momento do dia onde estejam todos juntos, para ficarem juntos e debaterem temas importantes para as crianças, quer seja o seu quotidiano e questões escolares, quer outros assuntos relevantes para os mesmos. Fundamental usar o sentido de humor e brincar com respeito sobre as várias temáticas.

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Crianças e adolescentes face ao divórcio

 

Há dias assim. Há dias que as histórias nos aparecem como cogumelos, como se tivessem de vir ter connosco para que possam finalmente ser contadas. Hoje foi um dia assim.

De repente surge a história de uma mãe, que depois de um divórcio conturbado tem a cabeça e a vida da sua filha completamente minada pelo que o pai lhe diz. Surge em catapulta a história de outra mãe, que não tem qualquer contacto com o seu filho porque o pai condiciona a imagem que o mesmo tem da mãe. Um pouco mais tarde, recebo um telefonema de um pai que precisa de ajuda, porque a mãe do seu filho continua a dizer mal do pai ao filho. No meio destas histórias recordo uma outra, de um pai que procurava ajuda psicológica para conseguir lidar com a questão de alienação parental. Sim, a estas histórias damos o nome de alienação parental.

A alienação parental é o afastamento do filho de um dos progenitores provocado pelo outro, tendo origem no verbo latino “alienare” que significa afastar. Contudo, a  alienação parental (PAS, parental alienation syndrome, ou SAP, síndrome de alienacão parental) não é um fenómeno recente. Podemos afirmar que será tão antiga quando a existência da regulação do poder parental aquando de um divórcio. Na verdade, as feridas resultantes do rompimento duma relação conjugal são muitas vezes difíceis de ultrapassar, levando tantas outras vezes à  necessidade de magoar o outro a quem se imputa culpa na separação, e que acaba por determinar, consciente ou inconscientemente, que o  progenitor que tem a custódia do filho a usar este poder, por forma a atingir o outro progenitor,  punindo-o com o afastamento do(a) filho(a) ou incutindo neste, sentimentos negativos contra aquele.

No decorrer da vida destas pessoas que escolheram os seus companheiros com o objectivo de criarem uma família estável, organizada e cheia de amor, algures, não sabemos quando nem como, duas pessoas entraram em conflito, e uma delas, concentrada na sua frustração, focada na sua dor e mágoa, esqueceu-se que há uma criança. Uma criança que não pediu para nascer, não pediu para ter aqueles pais, e muito menos, para ter nascido numa família que, algures no tempo mais uma vez, se esqueceu que ela existia. Digo esqueceu, porque efectivamente, se tal não acontecesse, tínhamos pais que pensavam acima de tudo no bem estar desta criança e na sua saúde mental, e só depois na sua frustração, na sua mágoa, na sua dor.

Poderia centrar-me nos pais, mas não vou fazê-lo (noutro artigo o farei). Vou centrar-me nos que não escolheram esta história de vida. Nas crianças e jovens cujas cicatrizes irão ficar marcadas nas suas vidas, não pedidas, e que irão condicionar o adulto que serão no futuro. Um dia, uma destas crianças disse-me, em consulta, que eu era uma espécie de médica de cirurgia plástica da mente, porque eu “tratava de cicatrizes do coração e da cabeça”. Custa muito perceber, ainda que psicóloga, que é assim que se sentem….vazios, perdidos, confusos, mas com a noção de que nada disto seria suposto. Seria suposto sim, que esta criança ( crianças e jovens) apreendesse destes adultos significativos (seus pais), os seus super-heróis, que quando temos um conflito, conversamos, reflectimos, somos empáticos com a dor do outro, e resolvemos as coisas pacificamente. Seria suposto que estas crianças e estes jovens, apreendessem destes adultos significativos, os seus super heróis, o que é ser adulto, o que é viver em sociedade, e acima de tudo, como se relacionam com o outro.

Peço a todos os pais e mães, que ao passarem por situações de divórcio, se centrem nos seus filhos, nas suas necessidades, em não deixar sequelas nas suas vidas, no seu crescimento emocional e psicológico saudável. Peço algo tão simples como, amem os seus filhos!

Sejam verdadeiramente os super heróis da vida deles.

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Divorciados mas não separados

 

 

 

 “Dá-me um abraço que seja forte,  E me conforte a cada canto, Não digas nada que nada é tanto, E eu não me importo (…)” –Miguel Gameiro

A História do abraço

Em Psicologia, o referido toque tem a função do contacto e da carícia, com um objectivo  terapêutico. A sua história tem como alicerce – antropológico, clínico e experimental – uma origem histórica. Jesus Cristo curava as pessoas com o toque das suas mãos; tradições da India davam importância às carícias (Tantra e Kamasutra). Antecedentes antropológicos evidenciam que, nas tribos,  o contacto corporal nas suas diversas funcionalidades, é uma necessidade primordial, tanto entre os animais quanto os humanos.

Por outro lado, e já enquadrados na clínica psicológica, Erik Fromm, Winicott, Carl Rogers, Freud Melanie Klein, e Piaget, demonstraram a importância do contacto e dos laços afectivos e emocionais na vida do ser humano durante o seu desenvolvimento, nomeadamente no concerne à relação mãe – filho.

Segundo Toro por exemplo, refere que na clínica médica existem várias evidências que fundamentam que, os transtornos dermatológicos na criança, como por exemplo a psoríase e os eczemas, entre outros, estão associados a doenças psicossomáticas, ou seja com origem emocional. É detectado uma relação tóxica com a mãe, medo do abandono, carência de afecto na primeira infância, fobias e ansiedade.

Do ponto de vista experimental, autores como Spitz (1983) e Montagu (1988) demonstraram, através de pesquisas cientificas, que o toque humano é responsável pela adaptação do ser humano ao ambiente onde se insere, pelo desenvolvimento motor, cognitivo, psíquico da criança, pelo desenvolvimento da linguagem e dos comportamentos saudáveis assim como de uma boa socialização.

O efeito de um abraço

Abraçar diariamente cria um movimento de cooperação que tanto promove o crescimento como a cura, para além de preencher o vazio dos nossos corações. Aquando de um abraço num momento de  compreensão, mostramos os nossos sentimentos ao outro e reafirmamos a nossa crença no que sentimos.

A partilha que fazemos com alguém quando a abraçamos vai para além do mensurável. Partilhamos o nosso calor, parte do nosso corpo ao toque. Refira-se que podemos beijar alguém na face quando a conhecemos como parte de um cumprimento social, mas abraçar alguém….só o fazemos com quem mantemos uma relação realmente próxima, intima. Por vezes nem palavras são necessárias, o silêncio do momento fala por si.

Muitas vezes as crianças quando se magoam procuram instintivamente por um abraço, e nós adultos automaticamente lho damos. Nem pensamos no que fazer, oferecemos logo um abraço. Quando encontramos alguém em trauma emocional, oferecemos imediatamente um abraço, apertando e prolongado muitas vezes.

É quase que como se o abraço estivemos incorporado no nosso ADN, numa forma instintiva de diminuir o sofrimento em alguém, como se de uma cura se tratasse.

A psicologia do abraço

Do ponto de vista psicológico, inconscientemente, quando estamos em sofrimento psicológico e não temos ninguém com quem partulhar o mesmo, temos a tendência para abraçar uma almofada, um cão ou gato, um peluche… A psicoterapeuta Virginia Satir, refere que precisamos de quatro abraços por dia para sobreviver. Precisamos de oito abraços por dia para nos manter. Precisamos de doze abraços por dia para crescer. Segundo investigadores da Universidade da Carolina do Norte, ainda que breve (bastam 20 segundos) um abraço dado por um amigo, companheiro, ente-querido, pode ajudar não só a reduzir os níveis de cortisol que contribuem para o stress, mas também a reduzir a pressão arterial.

5 razões para abraçar diariamente os seus filhos e as pessoas que mais ama

  1. Abraçar liberta oxitocina no sangue.
    Esta hormona é responsável pelo fortalecimento de laços entre os entes queridos e assim como pelo aumento da resposta de solidariedade entre estranhos, levando a um aumento do bem-estar. Não tem efeitos secundários negativos!
  2. Abraçar reduz o stress e a pressão arterial.
    Não há nada melhor do que um abraço para reduzir a ansiedade, porque tem como consequência o fluidizar do sangue que contribui para a redução da pressão arterial.
  3. Abraçar é uma boa acção recíproca.
    Nunca sabemos quais as emoções pelas quais as outras pessoas estão a passar, porque tradicionalmente não demonstramos os nossos sentimentos, nem a nossa vulnerabilidade. Contudo, um abraço pode mudar a vida de qualquer pessoa ao quebrar o esquema mental de um dia menos bom, devolvendo-lhe uma sensação de felicidade.
  4. Abraçar faz a pessoa sentir plenitude e êxtase.
    Sabendo que os nosso corpos possuem muitas terminações nervosas, ao tocarmos noutro corpo estamos a permitir a satisfação de um desejo subconsciente que é o do toque.
  5. Abraçar permite realinhar a mente com o corpo.
    No stress do dia-a-dia fazemos as coisas de forma pouco consciente, dado o pouco tempo que tempo para viver a vida. O abraço dá a sensação de um novo fôlego, de um dia infinito e de uma satisfação plena gerada pelo realinhar do corpo com a mente

Devemos assim valorizar a possibilidade de partilharmos com o outro algo tão simples mas tão poderoso como um abraço.

Permitir parar um pouco neste stress do mundo, no nosso próprio stress, e olhar para quem está à nossa volta, para nós, e partilhar essa energia em pleno.

Comecem hoje a fazê-lo!

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O poder de um abraço

Já deu um abraço aos seus filhos hoje?

 

O “castigo” faz parte do processo educativo de qualquer criança.

É fundamental a criança perceber que, quando faz algo que quebra as regras sociais impostas pela cultura e pelos pais, estas ações têm de ter uma repercussão. Essa função serve para que ela possa apreender o que deve e pode, ou não deve e não pode fazer, sempre com a finalidade de vir a sentir-se integrada na sociedade enquanto adulta. Mas será que a palavra castigo terá realmente este valor na cabeça de uma criança em formação?

Quando nos debruçamos sobre o valor linguístico da palavra castigo deparamo-nos com o seguinte significado:

“punição que se inflige a um culpado; mortificação, tarefa penosa ou grande dificuldade; dar castigo; punir; obrigar (fonte: in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2008-2013) que, por si só, é já penoso e negativo.

A criança sabe que a mãe, o pai ou o educador a vai pôr de castigo se fez algo negativo e errado, sendo que na cabeça de muitas crianças isso até pode ter um efeito aterrador, potenciando a mentira como um fator de fuga ao castigo (se eu não disser que  tive má nota, não irei ser castigado, por exemplo).  Contudo, se usarmos a palavra consequência, encontramos como significado: “resultado natural, provável ou forçoso, de um facto; dedução tirada por meio de raciocínio de um princípio ou de um facto; conclusão dimanada das premissas; [Figurado]  importância, alcance (fonte: in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2008-2013)  que tem um valor mais educador, construtor, digamos assim, potenciando a aprendizagem.

Castigo ou Consequência – O peso da palavra

O valor e o peso da palavra têm muita importância no entendimento do significado da mesma, ainda mais para uma criança. Dito isto, a utilização da palavra consequência cumpre mais o objetivo já referido, fazendo com que a criança aprenda que o que acabou de fazer não está certo, por forma a que ela não volte a realizar a mesma ação, apreendendo a razão pela qual não deve voltar a fazê-la. Assim, a palavra consequência, porque se alia a coisas mais construtivas, permite à criança sentir que para qualquer situação há consequências, positivas e negativas, com as quais ela tem de lidar, enquanto que o “castigo” tem um valor muito limitado porque a criança não reage por compreensão mas sim por medo.

Uma criança em situação de castigo não reflete, apenas reage emotivamente e sente a reação do castigador (zangado, furioso, chateado…).

Por isso, o castigo não pode atuar adequadamente, porque não exige entendimento. Em vez de se “castigar “deve-se levar a criança a sofrer as consequências do seu agir percebendo o que a levou a cometer a ação, e permitir-lhe um movimento de reparação. Pedir desculpa ou consertar o que estragou podem ser medidas eficazes, não culpabilizam e aliviam a criança da pressão do ato. Em suma, queremos acima de tudo que a criança compreenda o que fez e porque não deve voltar a fazer, não apenas que ela tenha medo da consequência, sem refletir sobre o que fez.

O envolvimento dos pais ou educadores

Há contudo um pormenor que pode ou não ajudar a criança neste processo construtivo: a existência ou não de uma relação/disponibilidade entre a criança e o adulto. Para que a criança consiga fazer este percurso de entendimento das consequências das suas ações, o adulto tem de estar em relação com ela, demonstrando disponibilidade afetiva e capacidade de empatia.

E isto porquê?

Porque, muitas vezes, quando um adulto atribui uma consequência negativa, essa consequência vai refletir apenas uma defesa do adulto face ao que tem de investir na relação com a criança ou adolescente. Ou seja, muitas vezes a tal consequência é mais uma reação de raiva ou frustração do próprio adulto face ao acontecimento, sendo até muitas vezes desmedida essa reação. E, quando isto acontece, quando os adultos atuam sob o sentimento da raiva ou da vingança pela impotência que sentem face à criança ou adolescente que desautorizou ou infringiu alguma regra, ele passa a estar presente na vida da criança, mas de forma negativa. Isto porque ou a ignoram ou reagem de forma desmedida.

Chamadas de atenção

Certamente que já observaram a cena em que adultos se divertem e conversam, esquecendo-se das crianças ao lado. De repente uma criança parte algo para chamar a atenção dos adultos.

Esta ação inconsciente da criança ( fazer uma asneira como chamada de atenção) na verdade, pretende castigar a atitude dos adultos que a ignoraram. Tal como um objeto que a criança partiu para reclamar atenção do adulto, também o comportamento indesejado, por exemplo mentir, roubar, fazer xixi na cama, agressividade entre outros, tem sempre motivos inconscientes (pese embora a noção de que essa mesma asneira tem um objectivo concreto na cabeça da criança).

É fundamental que o adulto esteja disponível para perceber por que a criança teve uma reação descontextualizada.

Se não estiver disponível, a consequência não tem o seu valor, a  criança não aprendeu nada e o adulto lavou as mãos. Não se envolveu. E passa uma mensagem de desamor, o que pode ter  consequências catastróficas para a vida social futura da criança. Não se pensa, apenas se reage ou age! E como podemos pedir a uma criança que consiga controlar o seu comportamento, quando o adulto não o consegue fazer? É igualmente importante refletir sobre o facto de o mais forte levar o outro apenas a calar-se mas só depois de ter perdido a razão, passando-se assim a uma não relação.

A palmada na hora certa

Daí a ideia de que, muito embora possamos naturalmente dar uma palmada (refiro que jamais uma chapada, porque tem um peso ofensivo e pessoal) em situações em que a criança se comporta de forma desadequada, na verdade não é elemento fundamental à educação de uma criança. Podemos, e até arrisco dizer que devemos, educar sem usar a força física e naturalmente a verbal.

As crianças refugiam-se no seu cativeiro da imaginação, da solidão e reagem segundo a sua personalidade e a sua relação com os educadores.

O amor e a estima, são fundamentais para toda a educação, e são muitas vezes ignorados.

O amor e a admiração adquirem-se por identificação e não por consequências. O educador que dá consequências de forma desmedida e não explicada, não sabe amar nem serve de modelo positivo para que a criança tenha um crescimento mental saudável. Nestes casos acontece muitas vezes que a adoção de regras e limites se façam por interiorização e imitação das atitudes e dos valores de um outro que não o educador, de uma figura de referência mais próxima, pais, educadores, professores, ídolos da juventude, entre outros.

Se os adultos, pais ou educadores têm atitudes repressivas em vez de educativas, até podem conseguir resultados, mas será sempre pela via do medo (castigo), onde a criança tem medo de perder o amor do adulto e reprime o comportamento. Torna-se pois, fundamental, mudarmos de paradigma. É necessário abandonar os modelos de educação pela força, pela lei do mais forte! É urgente educar num ato construtivo positivo, pela compreensão e pela atenção e disponibilidade interna dos educadores para escutarem ativamente as crianças e os seus apelos!

Acima de tudo, educar com amor e humildade.

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Revisto por Babelia Traduções para Up To Kids®

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“A educação especial prossegue, em permanência, os princípios da justiça e da solidariedade social, da não discriminação e do combate à exclusão social, da igualdade de oportunidades no acesso e sucesso educativo, da participação dos pais e da confidencialidade da informação.” – art. 2º do DL n.º 3/2008

Quando pensamos em escola inclusiva, pensamos numa escola adaptada a todas as crianças onde possam desenvolver os temas académicos e simultaneamente competências sociais e pessoais que as irão ajudar a transformar-se em adultos felizes e inseridos.

Resumidamente, a educação inclusiva assenta num novo conceito de escola, com uma estrutura organizativa própria, inovadora, aberta à mudança, e que se baseia no respeito pela diferença. Deve-se assumir a diversidade, criar respostas adequadas através da realização e aplicação de um currículo aberto e flexível em construção permanente perante as necessidades de cada criança. Só criando uma rede adequada de recursos e privilegiando a coadjuvação dos intervenientes do processo educativo, é que se poderá conseguir e possibilitar o sucesso de todos. Neste sentido foi publicado o Decreto-Lei n.º 3/2008, de 7 de Janeiro que define os apoios especializados a prestar na educação pré escolar e nos ensinos básico e secundário dos setores público, particular e cooperativo.

Mas na verdade, esperando que assim seja em algumas escolas portuguesas, infelizmente não acontece em todas. Basta não funcionar em apenas uma, para ser precisa uma reflexão sobre o assunto.

Durante a minha experiência enquanto psicóloga clínica em escolas, o que aí se faz diariamente são pequenos milagres que resultam do esforço e dedicação de todos os técnicos e professores que trabalham com crianças com necessidades educativas especiais. Infelizmente de entre todas estas dificuldades, temos também a falta de preparação de alguns técnicos e professores nesta área.

A reflexão pode levar-nos um pouco mais atrás nesta discussão, e pensaremos que na formação dos professores deveria ser suposto equacionar-se a temática assim como estratégias para o ensino na diversidade. Mas não parece ser assim.

Decidi escrever este texto, porque estou a seguir um caso clínico  em que estas dificuldades são diárias, principalmente por parte do meu paciente, um jovem com “Síndrome de Asperger”, actualmente e de acordo com a nova classificação no DSM-V, Trantorno do Espectro Autista (TEA), e respectiva família.  As principais características deste transtorno são:

A – Deficiências persistentes na comunicação e interação social:

1.Limitação na reciprocidade social e emocional;
2.Limitação nos comportamentos de comunicação não verbal utilizados para interação social;
3.Limitação em iniciar, manter e entender relacionamentos, variando de dificuldades
com adaptação de comportamento para se ajustar as diversas situações sociais.
B – Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades, manifestadas pelo menos por dois dos seguintes aspectos observados ou pela história clínica:

1.Movimentos repetitivos e estereotipados no uso de objetos ou fala;
2.Insistência nas mesmas coisas, aderência inflexível às rotinas ou padrões
ritualísticos de comportamentos verbais e não verbais;
3.Interesses restritos que são anormais na intensidade e foco;
4.Hiper ou hiporreativo a estímulos sensoriais do ambiente.
C – Os sintomas devem estar presentes nas primeiras etapas do desenvolvimento. Eles podem não estar totalmente manifestos até que a demanda social exceder suas capacidades ou podem ficar mascarados por algumas estratégias de aprendizado ao longo da vida

D –  Os sintomas causam prejuízo clinicamente significativo nas áreas social, ocupacional ou outras áreas importantes de funcionamento atual do paciente.

E – Esses distúrbios não são melhores explicados por deficiência cognitiva ou atraso global do desenvolvimento.

Quando estamos perante um jovem que tem um comportamento completamente integrado num determinado meio, e não o consegue ter no ambiente escolar, perguntamo-nos automaticamente o que se estará a passar. E o que se está a passar, é que este jovem está inserido numa escola, onde os recursos humanos não só são escassos, como não têm qualquer preparação para lidar com a diversidade escolar. Quero apenas salientar que este jovem não é diferente por ter uma necessidade educativa especial…ele é diferente porque todos nós somos diferentes, quanto mais não seja porque geneticamente somos todos diferentes

A referida falta de recursos, que aparentemente pode parecer não ter grandes repercussões, tem efectivamente um custo muito grande na vida deste jovem. Embora tenha recursos cognitivos, ele não se sente motivado para a escola como seria suposto, não se consegue integrar no grupo, não acede à autoridade do adulto, é reactivo com os demais da sua idade…curiosamente algo que não se verifica no contexto do ATL, onde a rotina é muito semelhante. Aqui ele interage com o grupo, reage positivamente à autoridade do adulto (referindo a teimosia natural de um qualquer adolescente), mantém contacto visual e de tacto com os outros, controla os comportamentos repetitivos e estereotipados.

A escola falha sempre que uma situação destas acontece.

Assim, é importante dotar os assistentes operacionais de formação específica para acompanhar jovens como o que estamos a falar. Para terem esta profissão tiveram que ter formação específica, mas não tiveram qualquer tipo de formação orientada para lidar com crianças e jovens com necessidades educativas especiais.

Recordo-me a propósito deste assunto, de uma formação que fui dar a uma escola em Benavente, que ia receber uma criança com paralisia cerebral em cadeira de rodas, e que queria dotar os assistentes operacionais com essa competência para que o percurso escolar dessa criança fosse adequado.

E os recursos financeiros para essas formações?

Algo fundamental em qualquer sociedade será sempre a educação (a par da justiça e da saúde). E assim sendo não podemos justificar a falta de formação com a falta de recursos económicos. Relembro que o papel da escola é formar as crianças e jovens com recursos escolares e sociais (Neste caso, essa formação foi totalmente oferecida por mim). Referindo novamente a situação do meu jovem paciente, eu  (em conjunto com a mãe), fiz proposta para formação aos professores e assistentes operacionais, em pro bono novamente, mais que 3 vezes, sendo que só à 4ª vez é que houve disponibilidade para tal. Contudo, e para bem estar emocional do jovem em questão, foi solicitada transferência para outra escola, o que acabou por acontecer.

Igualmente grave é encontrarmos professores que não têm qualquer vocação para tal (minoria, mas basta que haja um que não tenha para ser relevante). Que revelam, mais ainda, falta de vontade para receberem nas suas aulas crianças e jovens com necessidades educativas especiais, referindo muitas vezes que não estudaram para dar aulas a estas pessoas e ou que não sabem o que fazer com eles, pois têm outras crianças e jovens que têm de aprender o curríclo escolar.

Seria importante, diria, fulcral, que a formação dos professores fosse igualmente exigente nas competências pedagógicas para o ensino destes alunos. É necessário que psicólogos, terapeutas da fala, psicomotricistas, terapeutas ocupacionais, professores de educação especial, médicos de família ou pedopsiquiatras, directores de turma, professores, assistentes operacionais e pais, em conjunto, desenvolvam estratégias específicas para estes alunos.

Deixo, assim, a reflexão de que toda a sociedade civil deve ser responsabilizada sempre que temos uma pessoa, com ou sem necessidade educativa especial, que não se sente inserida nem feliz na escola. E essa responsabilidade é acrescida quando nos referimos aos profissionais que trabalham directamente com essa pessoa.

 

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Numa época de grande revolução mundial com inevitáveis repercussões individuais, a questão é pertinente.

Quantas vezes nos questionamos se somos felizes….temos a certeza que não nas alturas em que estamos tristes ou desiludidos, e a certeza que sim nas alturas em que a vida nos corre bem.

Então mas o que é a felicidade?

O precursor desta questão foi Sócrates (469 a.C-399 a.C), mas Aristóteles é quem sistematiza a mesma (384 a.C-322 a.C).  Na sua principal obra ética, “ Ética à Nicômaco”,  Aristóteles refere : todas as coisas buscam o seu fim (“télos”), que é sinônimo de bem; o fim do homem é a felicidade (“eudaimonia”). Para ele é uma meta e não um estado temporário, e depende da aquisição de um carácter moral, que inclui a coragem, generosidade, justiça e cidadania por exemplo. Hoje em dia, a  felicidade é geralmente representada por um sentimento de paz interior, sentimento de ligação com o outro, experiência espiritual,  otimismo na vida….  Num estudo publicado em 2010, considerado um dos maiores já realizados sobre felicidade, Grant Study  analisou entre 1939 e 1944, um grupo de 268 estudantes de Harvard. Concluiu que a felicidade é fazer bem aos outros, fazer coisas em que o individuo é bom, e fazer o bem para si próprio. Percebendo então que a felicidade se amplifica em áreas muito diferentes das nossas vidas, tais como o trabalho, a vida familiar, os recursos financeiros, o ambiente em que se vive, as relações sociais entre outras, concluiu-se que é um factor importante na promoção da saúde física e mental. Para Tal Ben-Shahar, especialista em Psicologia Positiva e professor na Universidade de Harvard, igualmente autor do livro “Being Happy”, refere que “aceitar a vida como ela é irá liberta-lo do medo do fracasso e das expectativas perfeccionistas”.

Nas suas aulas, refere as seguintes sugestões para promoção da felicidade:

  1. Perdoe seus fracassos e celebre-os.
    “Assim como é inútil queixar-se do efeito da gravidade sobre a Terra, é impossível tentar viver sem emoções negativas, já que fazem parte da vida e são tão naturais quanto a alegria, a felicidade e o bem-estar. Aceitando as emoções negativas, conseguiremo-nos abrir para desfrutar a positividade e a alegria
    ”. Errar faz parte de quem somos, e é a partir desses erros que aprendemos e crescemos.  Para Mauger e colaboradores ( 1992), o perdão também deve ser trabalhado em nós, sendo que os baixos níveis de perdão estão directamente relacionados com a presença de transtornos como depressão, ansiedade e baixa autoestima.
  2. Não veja as coisas boas como garantidas.
    Sinta-se grato quer sejam elas grandes ou pequenas. “Essa mania que temos de achar que as coisas são garantidas e que estarão aqui sempre, tem pouco de realista.”
  3. Pratique desporto.
    Pratique qualquer tipo de desporto que lhe dê prazer. Bastam apenas 30 minutos para que o cérebro segregue endorfinas, substâncias que nos fazem sentir-nos felizes, sendo na verdade opiáceos naturais produzidos pelo nosso próprio cérebro, que reduzem a dor e geram prazer.
  4. Simplifique.
    Simplifique a vida quer seja no trabalho ou no lazer. “Precisamos de identificar o que é verdadeiramente importante e concentrarmo-nos sobre isso” refere Tal Ben-Shahar.
  5. Aprenda a meditar.
    A meditação é hábito simples que combate o stress. Segundo Miriam Subirana, doutorada pela Universidade de Barcelona, escritora e professora de meditação e mindfulness, “a longo prazo, a prática regular de exercícios de meditação ajuda as pessoas a enfrentar melhor as armadilhas da vida e a superar as crises com mais força interior”. Tal Ben-Shahar acrescenta que a meditação é também um excelente momento para orientar os nossos pensamentos para o lado positivo.
  6. Treine a resiliência.
    A felicidade depende do nosso estado mental e não da nossa conta corrente. “O nosso nível de felicidade vai determinar aquilo ao qual nos apegamos e a força do sucesso ou do fracasso”. A isso chamamos de locus de controle , termo descoberto e definido pelo psicólogo Julian Rotter em meados do século 20: os pacientes depressivos tendem atribuir os seus fracassos a si próprios e o sucesso a situações externas à sua pessoa. “Nas pessoas, a resiliência expressa a capacidade de um indivíduo enfrentar circunstâncias adversas, condições de vida difíceis e situações potencialmente traumáticas, e conseguir recuperar, saindo delas fortalecido e com mais recursos”, refere o psiquiatra Roberto Pereira, diretor da Escola Basco-Navarra de Terapia Familiar.

Assim sendo, mãos à obra e sejam felizes!

 

 

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