A solidão de ter um terceiro filho

Estou grávida. Estou grávida do terceiro filho.

Quando temos o primeiro filho a alegria é contagiante mesmo que não tenha sido planeado, mesmo que ainda tivesses planos para concretizar ou que não te sintas preparada,. Quando acontece ficas como que anestesiada, não sabes o que vai acontecer, não sabes como é, só sabes o que toda a gente à tua volta te diz, que é maravilhoso, que é lindo. Algumas pessoas assumem que não é fácil, mas todas elas concordam que é o melhor da vida. Quando ficas grávida pela primeira vez vives tudo intensamente, sentes-te acompanhada e nunca estás sozinha.

O segundo filho é sempre uma escolha tua, pode ser logo de seguida, podes esperar uns anos  mas é aquilo que  toda a gente espera de ti. O segundo filho. Acontece e novamente a onda de calor, de amizade de alegria gira à tua volta. É claro que tens medo, é normal. O primeiro ainda é pequeno, ainda precisa de atenção. Vais para a maternidade e deixas as gavetas etiquetadas e a roupa separada para um mês. Vais para a maternidade ter o segundo mas não consegues deixar de pensar no primeiro.

Aquilo por que não esperavas é que a intensidade de amor que tens pelo teu primeiro se multiplique pelo teu segundo. Não conhecias em ti a capacidade de amar tanto.  E não conhecias em ti a capacidade de aceitar o amor sem fronteiras, sem limites, sem prerrogativas que todos os dias recebes das pequenas criaturas de quem cuidas.

Voltas à rotina.

Ao trabalho, foco na carreira agora, aquela que deixaste em suspenso, tentas  ser o que eras mas nunca mais serás a mesma. Porque inevitavelmente as tuas prioridades mudaram. E aceitas. Aceitas que não consegues ser excelente, que talvez a tua evolução profissional seja mais lenta do que desejavas. Mas não sentes rancor. Tens a família que sempre imaginaste.

Um dia chegas a casa e percebes que alguma coisa está diferente e como que intuitivamente fazes um teste de gravidez. Positivo. Estás grávida outra vez. O choque é demasiado grande e choras, choras porque não planeaste, choras porque não querias, choras porque não queres deixar a tua vida perfeita para enfrentar mais desafios. Choras não sabes por quê. Pensas o que vais fazer e as opções que tens mas muito antes de tomar uma decisão o universo toma por ti, e assim de um dia para o outro, sem mais nem porquês o que encaraste como um problema deixa de existir. E assim, de um dia para o outro o que encaravas como um problema era, afinal,  tudo o que querias na vida. Um terceiro filho.

A partir desse dia passas a viver com essa ideia no coração e tu sabes que as ideias que se cravam no coração são sempre as que mais dificuldade tens em esquecer.

Mas falta-te a coragem, falta-te o apoio.

Ninguém fala sobre isso, ninguém imagina que o queiras, ninguém sabe do teu coração. Só tu.

Passam uns dias e fazes outro teste, e outro e dali a uma semana mais um… só para garantir. Dás a noticia ao teu marido num tom seco, confuso, não esperas foguetes, não esperas música, marcas consulta no médico e vais, sozinha. E é  a partir desse momento que a tua terceira gravidez te torna solitária. Solitária nas tuas escolhas, solitária nos teus pensamentos, nas tuas culpas, nos teus anseios.

Consideras todas as opções, fazes tantas contas à vida, à segunda casa que vais ter de vender, às escolas privadas que não vais conseguir pagar. Mas o amor não tem preço e não há suborno possível para a vontade do teu coração. E decides. Não sabes se bem ou se mal. Mas decides.

E suportas os enjoos, a má disposição, as quebras de tensão. Sozinha. E quando chega a hora começas a dar a notícia. Quase ninguém te dá os parabéns, quase ninguém te felicita. Mas não faz mal, ninguém sabe quando são as tuas consultas, não querem pormenores, afinal , já é a terceira. Devem pensar que foi um deslize ou que estás doida. O terceiro filho…

E nessa solidão caminhas grávida e orgulhosa. Só tu sabes.

Não falamos muito dos nossos mortos

Não falamos muito deles, pois não? Dos nossos mortos.

Às vezes, durante o banho, vem uma sensação de que não morreu.

Outras vezes, à noite, choramos sozinhos com saudade. Outras ainda, sonhamos um sonho real em que estão vivos. Tinha sido engano. Depois, quando acordamos, a verdade chega outra vez.
Um dia, pareceu-me que esperava que telefonasse. Que, simplesmente aparecesse. Não falamos muito deles. E dói.
Este dia repete-se.
Mas não queremos chatear. Desejávamos saber mais. Lembrar mais.
Este não querer chatear os outros, não querer partilhar, deixa os nossos mortos só para nós.
Ninguém imagina a falta.
Às vezes, tento pensar nas últimas palavras que trocámos. Às vezes, em vão…
E aí, resolvemos abraçar os que estão. Dizer o que falta. Que fazem falta.
E às vezes não falamos muito com eles, pois não?
Quando morrer não gostava que dissessem que parti. Não usem eufemismos. Digam morreu. Digam, lá está ele com aquelas coisas. Mesmo assim deitado, lá está ele.
E falem de mim.
Não me guardem.
Abracem quem amam.
Não me culpem. Já não vai valer a pena. Não usem frases feitas e aborrecidas*. Comam.
Não te culpes, claro. Como às vezes fazemos com os nossos mortos.
Sei que sofres mais do que eu. É assim mesmo. Há sempre alguém que sofre mais.
Mas isso não ilegítima a nossa dor.
Às vezes, no sonho, não queremos acordar.
Só às vezes.
*Amanhã é outro dia.

image@AdrianMurrey

 

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A morte contada às crianças

Morreu. E agora? Como vou dizer ao meu filho?

Mas, quando eu morrer, como é que vos encontro, como?

As mães também têm medo

 

“Comportamo-nos como se as pessoas de quem gostamos fossem durar para sempre. Em vida não fazemos nunca o esforço consciente de olhar para elas como quem se prepara para lembrá-las. Quando elas desaparecem, não temos delas a memória que nos chegue. Para as lembrar, que é como quem diz, prolongá-las. A memória é o sopro com que os mortos vivem através de nós. Devemos cuidar dela como da vida. ”  Miguel Esteves Cardoso

 

Não é por teres filhos que ele não vai aparecer. Vai de certeza. Ele chega quase sempre quando não estás à espera.

Às tantas, logo depois de teres deixado, à pressa, os miúdos na escola.

Que bom! Hoje ficaram bem. As segundas-feiras costumam ser difíceis! Ficaram bem!

Ou terás sido tu a “deixá-los” bem? Sem culpa. Sem insegurança. Sem hesitações. Vais estar com este pensamento entre a escola deles e o carro, quando ele chegar. O corre-corre, pareceu mais suado. A roupa, parece mais quente. Ele chegou. Culpas o cortisol, mas foi ele que chegou. Ou dir-se-à “a” cortisol? Bem, prometes a ti mesma que vais pesquisar. Há que estar informado sobre estas questões do stress.

A tua prioridade agora é dar-lhe atenção. Sorrateiro, acabou de chegar.

Ele também pode aparecer disfarçado de uma rapariga que passa por ti, aparentando boa forma, já com um tom de pele bronzeado, já com roupas a condizer.

Comparas-te com ela e fazes mal.

Algures em Março, aparece aquele dia quente que te lembra que deves ir para o ginásio. Que é como quem diz, aquele dia em Março que te lembra que tens que comer melhor.

Que é como quem diz, que tens que cuidar melhor de ti.

E assim, chegamos aqui:

Guia em 7 passos para enfrentar bem o dia algures em Março onde te lembras que tens que ir para o ginásio/cuidar de ti

1- Descobre qual é o exercício físico que melhor se adapta à tua vida;

2- Podes não ser “pessoa de ginásios”;

3- Pensa numa alternativa;

4- Treina, insiste, experimenta;

5- Faz uma lista de pessoas que podes desafiar para se juntarem a ti;

6- Descobre exercícios simples que até podes fazer em casa, poupando tempo e dinheiro;

7- Revê a lista, repete os passos.

A tua “onda” até pode ser uma prática de meditação, por exemplo, em vez de exercício físico. Ou podes mesmo estar a precisar de um psicólogo. Escuta-te. Não sejas surpreendida pelo dia. Que vai chegar. Sorrateiro. Soalheiro. Ou disfarçado daquela jovem que já não és. Não te compares.

Mas não é por isso que ele não chega na mesma.

imagem@weheartit

Estás a sair-te bem. Não importa o que os outros te digam nem o que pensam sobre as tuas opções, sobre o que deixaste  para trás ou a forma como vives a vida… Vai correr bem!

Mesmo que às vezes tenhas dúvidas, sabes que a vida é um processo e, enquanto tiveres confiança em ti próprio, as coisas vão seguir o seu rumo com tranquilidade e harmonia.

É este o tipo de reflexão que frequentemente precisamos de ouvir da boca de alguém. Precisar não significa, que procures a aprovação alheia ou que duvides de ti. Por vezes, um reconhecimento, um simples reforço positivo no momento exato e no instante adequado, resulta como um carinho emocional e um impulso vital.

Por exemplo, a frase “Estás a sair-te bem” é essencial no universo pessoal de uma criança. Um elogio é na verdade muito mais do que um simples reforço positivo. É um modo de incentivar a criança a continuar, a seguir em frente, enquanto alimentamos a autoestima, a confiança e a sensação de segurança. Ao mesmo tempo, também se apresenta como uma expressão que se foca no processo, mais do que no próprio resultado

Os adultos também precisam desse tipo de interação positiva na qual por um lado, está o reconhecimento pessoal e por outro, o apoio. Por exemplo, a mãe e o pai que dia após dia realizam a complexa tarefa da criação e da educação de um filho. Uma pessoa que em determinada altura decide fazer uma mudança na sua vida e alguém do seu círculo próximo hesita em dizer-lhe que sua decisão é correta, que esse passo é um acto de coragem…

Os diferentes tipos de apoio pessoal que podemos encontrar no dia a dia

Nós já calçamos sapatos de adultos. Servem-nos perfeitamente e nós  sentimo-nos confortáveis. No entanto, as solas podem estar gastas do grande caminho que percorremos, pelas pedras e poças que encontramos ao longo do caminho. Mas esta viagem ainda está a meio, falta-nos viver uma série de experiências, e há um aspecto que ainda continua a afetar-nos de várias maneiras.

Falamos, sem dúvida, do apoio, da consideração e da proximidade que recebemos dos que nos rodeiam. Podemos dizer que “nada nos afeta”,  que já chegamos a um ponto do nosso desenvolvimento pessoal em que as palavras das outras pessoas são como ar viciado, e que “entram a 100 e saem a 200”…. Mas a verdade é que,  por mais que queiramos nem sempre funciona assim. O que os nossos pais ou irmãos nos dizem, às vezes, atinge-nos. Os comentários dos amigos e do nosso companheiro ou da nossa companheira têm importância.

Por isso é que, às vezes, ouvir um “Estás a sair-te bem” é tão gratificante e nos confirma que essa relação, esse vínculo, valioso é muito importante. Assim, ao longo da vida, teremos três tipos de apoio pessoal.

Pessoas que ajudam, pessoas que habilitam e pessoas que dificultam

Niall Bolger é um investigador do departamento de psicologia da Universidade de Columbia, especialista em realizar estudos sobre relações pessoais e seu impacto no nosso bem-estar psicológico. Num dos seus trabalhos, demonstrou que a forma como o nosso círculo mais próximo nos confere ajuda ou apoio pode basear-se em três tipos de dinâmicas.

  1. Pessoas que habilitam.
    Quem nos “habilita” não nos apoia. Quem habilita procura, acima de tudo, dizer-nos como fazer bem as coisas segundo os seus desejos, crenças ou valores. São amigos, familiares ou companheiros que, longe de entender a nossa perspectiva ou de aceitar os nossos desejos ou escolhas, tentam “habilitar-nos” para que nos encaixemos no seu universo pessoal.
  2. Pessoas que dificultam.
    São pessoas que estão constantemente a convencer-nos que querem o melhor para nós, mas ao mesmo tempo têm comportamentos que dificultam as coisas. Neste perfil não encaixam expressões como “Estás a sair-te bem, mas lembra-te que já agiste assim e correu mal, e é provável que aconteça outra vez. Só estou preocupado contigo” ou “sabes que te adoro e admiro, mas acho que é melhor acabares com essa pessoa”…
  3. Pessoas que ajudam.
    O doutor Bolger, responsável por este estudo, definiu um terceiro tipo de relação, tendo sido considerada a mais importante. São pessoas que não só têm a capacidade inata de dizer as coisas mais sensatas no momento certo, mas que também nos conferem um “apoio invisível”. Ou seja, às vezes não precisamos de ter a pessoa por perto para saber que temos todo o seu apoio, o seu interesse e preocupação…

Assim, o melhor apoio é aquele que “deixa ser” e que nos transmite a todos os momentos a sensação de eficiência, de segurança e de apoio constante.

Estás a sair-te bem porque…

Sabemos que esses reforços verbais e emocionais por parte das pessoas mais próximas são úteis em muitas situações. Ajudam-nos a seguir em frente. No entanto, também não podemos esquecer-nos de que é impreterível que procuremos incentivar-nos, validar-nos, motivar-nos de forma a proporcionar-mos apoio emocional adequado para encontrar essa energia vital para enfrentar o dia a dia.

Nunca é demais refletir e interiorizar as seguintes frases:

  • Estás a sair-te bem porque, estás conseguir viver em harmonia contigo próprio, com os teus valores e necessidades. Não importa os momentos difíceis porque esse é o custo de seres coerente contigo próprio.
  • Estás a sair-te bem porque cada dia é uma pequena vitória onde alcanças algo novo e enriquecedor.
  • Estás a sair-te bem porque deixaste para trás o que te atrasava, pessoas e dinâmicas próprias que faziam mal, que não te ofereciam nem equilíbrio nem felicidade.
  • Estás a sair-te bem porque viver é arriscar, é pores-te em movimento e não parar. A felicidade é um processo e estás no bom caminho, o caminho que tu escolheste.

Vamos pôr em prática estas premissas.

Afinal de contas, não custa nada e traz-nos muitas coisas boas.

 

Publicado em A mente é maravilhosa, adaptado por Up To kids®

imagem@e-volos

Este texto é para todos os homens que, num determinado momento da sua vida, se despiram do papel de pai e abandonaram os filhos. Aos homens que se separam não só das mulheres, mas também dos filhos. A todos os pais ausentes.

Para ti o que é ser pai? Aparentemente, pagar uma pensão mensal (ou não) e telefonar de vez em quando? É postar no Facebook fotos “felizes” dos filhos de um fim de semana raro de visita?

Falo com conhecimento de causa.

Perdeste um grande aprendizado na vida. Perdeste a oportunidade de ensinar os teus filhos a dar os primeiros passos. Perdeste noites de sono recompensadas com sorrisos e um cheirinho incrível de bebé. Não viste a tua filha vestir-se de princesa e acreditar na fada dos dentes. Não percebeste que o teu filho não gosta de futebol, mas adora o mar e uma prancha de surf.

Depois da separação achaste que não tinhas mais obrigações na educação dos teus filhos. Concluíste que não dás conta da nova mulher e dos filhos antigos. Eles já não se enquadram na tua nova vida, não é?

É uma pena que não tenhas enlouquecido como eu com os TPC, as zangas e os morreres de amores com os amiguinhos, a conversa sem fim a seguir à escola, as febres, as viroses, as atividades, as contas por pagar.

Tenho pena que seja uma chatice para ti ficares com os teus filhos de vez em quando.

Mal pensas nos teus filhos que abandonaste nas mãos de uma mulher que, teve de ser forte e de criar um ser humano e um futuro cidadão completamente sozinha. Que pena que não te lembres da data de aniversário da tua criança. E que nem vás saber se um dia vai entrar na faculdade ou se vai passar dificuldades na vida.

Não é para o teu colo que o teu filho vai correr quando precisar de chorar. Ufa, certo?

Não é o carinho dele que vais sentir sempre que caíres sem ninguém para te amparar. Não são aquelas mãozinhas pequenas com verniz vermelho que vais segurar depois de um dia de trabalho.

Felizmente, não terás preocupação nenhuma, até porque está alguém a criar (e bem) os teus filhos. Felizmente, não vais perder horas de sono quando o teu filho for sair à noite. Nunca terás vontade de bater na parede para aguentar uma birra terrível sem te passares. Que sorte, não terás cabelos brancos tão cedo.

Não vais dormir exausto depois de fazer os TPC, ir à  natação, ao ballet, ao inglês. Não vais chorar ao veres o teu filho chorar também.

O fim de semana é só por tua conta! Que maravilha! Nunca vais ter de ensinar alguém a andar de bicicleta e não vais ficar com dores nas costas de tanto empurrar. Nunca sentirás aquela alegria de veres o teu filho a pedalar sozinho depois de várias tentativas. Nunca perderás o teu tempo a ver o pôr do sol ao lado do teu filho, nem a falar sobre o universo e as coisas mais estapafurdias da vida.

É uma pena que sejas apenas pai de certidão de nascimento (às vezes nem isso), e nunca vás experienciar nada disto. Nem a parte boa nem a parte má. Não saberás o que é amor incondicional. O que é ter um companheiro para o resto da vida que vai te amar com todas as forças que tem.

Mas sabes, podes ficar tranquilo. Os teus filhos vão crescer saudáveis, inteligentes, com alguns traumas, mas como se costuma dizer, “o que não te mata torna-te mais forte”. Nada que os marque para sempre, porque os teus filhos ficaram com a mãe.

A Mãe de verdade. Que às vezes sente vontade de fugir, que se tranca na casa de banho a chorar, que fica exausta e irritada com os choros, as manhas e as malcriações. Esta mães consegue ter os mais variados sentimentos dentro de si e ainda assim amar tanto os seus filhos que aguenta tudo por eles.

Por isso, descansa, fica tranquilo.

Os teus filhos estão a ser bem cuidados.

E tu podes continuar livre e desocupado.

 

Por Aline Rolo em ObviousMagazine

 

Há momentos da vida em que tudo está bem.

Por vezes, duram apenas uns segundos.

Não há problemas, não há amanhã. Nem ontem. Apenas o presente. Deve ser isso o mindfulness…

Há momentos tão saborosos que nem têm sabor. E amanhã quero lembrar-me desses momentos, nem que seja ao reler este “artigo” que viajará nas redes. Quero. Claro que tenho guardado no peito. Mas é mais uma ajuda. Uma surpresa. Como encontrar dinheiro num bolso de um casaco velho.

Há momentos da vida em que não há contradições. Apenas o bem. O bom.

Ela dormiu. E eu fiquei a ver.

Amanhã quero dizer: A girafa comia estrelas, contei-lhe. Aprendi com o Agualusa.

Amanhã quero mais desses momentos.

Esses momentos são como a auto-estima. Frágeis bolas de sabão…enche-os com um sobro breve. Deixa-os voar…ao mínimo susto, podem rebentar…

E rebentam. E seguimos. Outros momentos da vida virão.

Assim espero.

 

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“É exatamente disso que a vida é feita, de momentos. Momentos que temos que passar, sendo bons ou ruins, para o nosso próprio aprendizado. Nunca esquecendo do mais importante: Nada nessa vida é por acaso. Absolutamente nada. Por isso, temos que nos preocupar em fazer a nossa parte, da melhor forma possível. A vida nem sempre segue a nossa vontade, mas ela é perfeita naquilo que tem que ser.”

Chico Xavier

 

“A vida não teria graça nenhuma se fosse feita só de momentos bons, quanto mais ela me desafia mais eu quero vencê-la.”

amanda almeida

 

Um dia vamos voltar a ser dois

O talvez não, porque nunca seremos apenas dois. Não regressamos ao que éramos antes de passarmos a três, quatro e cinco. Quando voltarmos a ser, quase sempre os dois, vamos sempre continuar a ser cinco.

Eu sei que ainda falta muito tempo, ou talvez apenas algum, e já dou comigo a pensar nisso quando nos observo ao longe, penso, afastando o medo, que um dia (e talvez já não falte assim tanto tempo) vamos voltar a ser, quase sempre, apenas os dois.

Vamos ter silêncio de mais e lembrar-nos das vezes em que nos queixámos do barulho.

Vamos voltar a ter a cama só para os dois e saudades de ouvir os pezinhos pequenos, frios e descalços, que sabem de cor o caminho para o meio de nós. Vamos ter mais tempo para ler os tão adiados livros, mas ninguém a pedir-nos para contar uma história na cama. Vamos ter menos migalhas no chão da cozinha, menos iogurtes no frigorífico e menos pratos na mesa. Mais tempo para conversar e outro tanto para namorar. Quem sabe até mais dinheiro e ainda mais vontade de viajar.

Mas enquanto somos cinco e estamos os cinco, eu só peço mais cinco beijinhos de boa noite, mais cinco abraços no pescoço (que é onde as crianças abraçam), mais cinco minutos a contempla-los quando adormecem (haverá melhor sensação que olhar para uma criança a dormir?). Mais cinco dias de férias, mais cinco viagens os cinco, mais cinco pedidos de desejos por realizar, os cinco e a cinco.

Não esquecendo no meio dos cinco, de cuidarmos os dois, e de sabermos viver os cinco sem adiar os planos dos dois, para agora e depois.

E que um dia, quando quase sempre formos dois, que seja nos cinco que encontremos a paz e a vontade de um regresso, nem que seja para um fim-de-semana ou um almoço de domingo, no rebuliço de todas as boas recordações e de todos os alhos e trabalhos que agora reclamamos.

 

imagem@Tom Merton | Getty Images

Ilustração de Mônica Crema

Comecei a escrever sobre este ano e dei por mim a escrever um texto morninho e cheio de pensamento positivo. Depois de me olhar ao espelho e confirmar que eu era eu, penitenciei-me com dez chapadas e apaguei o texto.

Este ano foi um ano filho da mãe.

Não há lugar a palavras doces. Repito: foi um ano filho da mãe. Testou a nossa família com golpes duros, muitas viroses, muitas ausências do pai, a mudança de escola dos miúdos, muitas birras e muitas noites mal dormidas. Olho para trás e o que vejo é uma mulher esgotada, cheia de sono e a viver em piloto automático.

Não li os livros que gostava de ter lido, aturei demasiadas birras, pensei que fosse enlouquecer, não peguei na máquina fotográfica uma única vez, ainda não foi este ano que fomos ao teatro, será que fomos a algum concerto?

Não me lembro.

Apanhei várias camadas de nervos, como diria a minha querida avó. Acho que fomos duas vezes ao cinema, ou terá sido uma? Fiz a depilação menos vezes que o desejável, a tinta para pintar os cabelos brancos ficou muitas vezes esquecida, não tivemos o tempo merecido a dois, sexo, isso existe depois da maternidade? O emprego continuou a ser a minha pedra no sapato, não cuidei de mim como deveria, adormeci vezes demais no sofá enquanto o meu marido conversava comigo, as várias dietas que comecei duraram dois dias, passei a detestar pessoas ainda com mais convicção.

Os miúdos estiveram doentes a porra do ano todo, um de cada vez e os dois ao mesmo tempo. A minha paciência conheceu novos limites, gritei vezes demais ou talvez não, que a parentalidade positiva não é para mim e esqueci-me muitas vezes de existir para além dos filhos ou para ser mais justa, não tive muito tempo para existir para além dos filhos.

Estamos quase no final do ano e se, por um lado, a vida não se compadece com calendários, por outro, sinto em mim todo o peso do ano que está a acabar e não desfazendo de tudo o que de bom aconteceu e foi muito, é impossível olhar para trás sem desejar que chegue depressa um novo ano, com doze meses inteirinhos, para eu o encher de planos que não vou concretizar, de noites mal dormidas, de camadas de nervos e de birras dos meus filhos.

Podes vir Ano Novo, mal posso esperar.

O que eu quero para 2018

Chegando a esta época que aquece os corações todos nós fazemos votos, para nós e para os que nos são mais queridos.

Mas a verdade é que passamos um ano inteiro à espera dele e pufff, o Natal passa mais depressa que aquelas férias com que andamos a sonhar meses a fio.

Por isso, este ano, os meus votos serão alargados a todo o ano – o que está a terminar e o que se avizinha:

Menos coisas e mais tempo para estarmos uns com os outros.

Menos julgamento e mais capacidade de olharmos em volta e colocarmo-nos na pele de quem nos rodeia.

Mais elogios que vêm do fundo do coração, menos tendência para adiarmos para amanhã algo que pode fazer alguém feliz.

Ensinar aos miúdos que apesar de serem bombardeados com anúncios de bonecada, o mais importante é que saibam brincar entre si e até sozinhos, que nunca se cansem de explorar e se desafiar, que nenhum mal vem ao mundo por não ter o boneco A ou a princesa X e que o que as histórias têm de bom é o que aprendemos com elas.

Menos culpa, seja imputada a nós seja para nos livrarmos de alguma responsabilidade.

Não esperar dos outros mais do que aquilo que são capazes de dar e sermos agradecidos pelo seu esforço.

Valorizar o que vale realmente a pena e deixar o acessório ter, o seu pequeno, espaço no nosso dia-a-dia.

Dar sem esperar receber.

Abraçar sempre e nunca deixar para depois aquele “amo-te” que devia fazer parte de todos os dias.

Corrigir sem humilhar, agradecer as críticas construtivas que nos chegam de todos os lados se estivermos abertos para as ouvir.

Fechar os olhos e respirar fundo quando é preciso, dizer uma palavra ou outra mais dura quando os momentos assim o pedem e nunca, mas nunca, pedir desculpa apenas para terminar uma discussão – ou seja dizer o que se sente e sentir o que se diz.

Abrandar a correria, as pressas e ficar mais.

Agradecer mais.

Pedir menos.

Ser mais felizes com quem somos e com o que temos. Apesar do que temos.

Olhar para o futuro como aquilo que ele é: um manancial de coisas boas prontas a acontece.

Que venha o novo ano.

Estamos prontos.

imagem@wetransfer

Acordamos a correr, tomamos o pequeno-almoço sentados no sofá a tentar ver as noticias, despachamos os miúdos, penteio-me à pressa, devia meter base nesta cara de morta viva, não tenho tempo, voamos pelas escadas abaixo, a mãe não pode perder o barco, chegamos aos barcos, um beijo, até logo, vou ver se ainda apanho este, eu sigo para Lisboa e o meu marido vai levar os miúdos à escola, antecipo a mensagem quando vou a meio do rio, os miúdos ficaram bem, sem choros, eu sorrio, trocamos e-mail’s durante o dia, tantas vezes sobre os miúdos, as compras, o que vamos jantar, o raio das despesas, é preciso pagar a visita ao circo, pagar, pagar, pagar, uma ausência, para o ano vou não sei onde, eu suspiro, a cabeça regressa ao trabalho, estou farta disto, se eu pudesse mandar tudo mais alto que as estrelas, chega a hora de sair, ligo a avisar, o meu marido vai buscar os miúdos, os nervos do metro sempre com perturbações, as conversas dos outros, detesto pessoas, meto a música cada vez mais alta, envio mensagem a dizer qual o barco em que vou, chego ao outro lado do rio e já estão à minha espera, tentamos conversar no carro entre as birras dela e as cantorias dele, as perguntas sobre o dia com respostas tortas, afinal quero voltar para o trabalho, chegamos a casa, voamos pelas escadas acima, eu dou banho aos miúdos, o meu marido faz o jantar, birras para lavar a cabeça, vamos para a mesa, birras para jantar, não gosto disto, tu gostas disso, camadas de sono, mal conseguimos conversar, vão lavar os dentes e já para a cama, eu adormeço o mais novo, o meu marido a mais velha, levantamos a mesa, a loiça fica para lavar amanhã, arranjo a roupa para o dia seguinte, quem se despacha primeiro é o primeiro a adormecer no sofá, acordamos todos tortos depois da meia noite e arrastamo-nos para a cama, adormecemos até um deles acordar e vir para a nossa cama.

Na pressa dos dias, no carrossel das rotinas, envoltos em sono e cansaço, umas das coisas mais difíceis é não nos esquecermos de existir enquanto casal. Somos uma equipa do caraças que leva o barco para a frente haja o que houver. A casa, os filhos, o trabalho, as responsabilidades, mas também somos o que nos trouxe aqui, um homem e uma mulher que se amam e que se desejam.

As rotinas colam os nossos dias, não tenho medo delas, quero-as todas, o casamento não é feito só de fogo-de-artifício, mas o fogo-de-artifício faz parte e também o quero todo. Sem ele, sem o tempo para os dois, para o desejo, para o picante da vida, é fácil o afastamento. O casamento não é feito só de sexo, mas o sexo, para além de ser bom, é o reflexo da nossa intimidade enquanto casal. Sentirmo-nos desejados, homem e mulher, apesar de sermos pai e mãe é fundamental. É fácil ceder ao cansaço e adormecer no sofá, mas manter a chama acesa não é assim tão difícil. Um jantar a dois ou uma ida ao cinema que acaba num motel da beira da estrada, deixar os miúdos na avó uma tarde e regressar a casa sem medo de sermos apanhados pelos filhos e sermos obrigados a gastar as poupanças em terapia, uma escapadela de fim-de-semana no sitio mais improvável só para passarmos uma noite noutra cama, beber vinte cafés no sábado à noite para conseguirmos ficar acordados depois de adormecermos os miúdos ou mensagens provocadoras durante o dia. Vale tudo o que resultar.

Os filhos são a nossa prioridade, vinte e quatro horas por dia, todos os dias da semana, todos os meses do ano, eles esgotam a nossa energia e enchem o nosso coração de alegria e de vez em quando procurarmos lembrar-nos que somos mais que o pai e a mãe e arranjamos tempo para o fogo-de-artifício.

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