O que eu me ri ao ler “Mãe do Ruca, odeio-te!“. A sério. Partilhei com amigas, li em voz alta ao meu marido e ri-me de novo sozinha. Obrigada Susana Almeida.

Ao ler alguns dos comentários que foram feitos ao texto percebi que muitas pessoas se identificam totalmente com a autora, outras ainda acrescentam aspectos da vida “animada” da mãe do Ruca sobre os quais eu nunca tinha reflectido e outras até discordam por achar que a senhora mãe é um óptimo exemplo a seguir. Todas me fizeram pensar, por isso, obrigada.

No meu caso, ainda que me identifique com o incómodo que a mãe do Ruca me traz, há uma coisa que me preocupa e com a qual me debato pessoalmente e que tem sido a base para os artigos que escrevo no meu blog. Para a minha vida pessoal nos últimos sete ou oito anos e até para o trabalho que desenvolvo com os meus alunos para que, em pequenos grupos de conversação nas aulas de inglês na escola que criei, consigamos vencer em cada aula o veneno da comparação.

Que maravilha, pensei, será o momento em que a nossa comparação pela positiva ou pela negativa com a mãe do Ruca não fica cravada nos nossos corações mais do que três ou quatro minutos. E que depois avançamos totalmente confiantes naquilo que somos. Imperfeitas e verdadeiras mulheres. Aqui não me refiro a uma falsa confiança super à defesa atrás da qual nos escondemos para nos sentirmos seguras. Mas de uma confiança que vem de estarmos alegres na nossa pele. A isto voltarei um pouco mais à frente porque penso que é importante.

Pessoalmente, posso dizer que nada me é mais difícil do que isto. Cedo aprendi a comparar-me. E agora como mãe da bebé Joana percebi que em nenhuma fase nos comparamos com outras mulheres e os outros nos comparam mais do que quando somos mães. Tantas expectativas, tantos modelos, visões, opiniões que por vezes só me fazem apetecer ir viver para uma ilha bem longe.

No meu percurso pessoal para acabar com este veneno e poder viver aqui e agora no meio das pessoas, recusando-me jamais a esconder-me por trás de ideias da vida que culpam tudo e todos pelas minhas inseguranças, uma das pessoas em que me tenho apoiado é a autora norte-americana Brené Brown. Recentemente estes dois textos ajudaram-me a reposicionar-me de novo nesta história da competição.

Em relação ao vários temas que ela aborda, o que aqui mais me interessa referir é o facto de defender que apontamos o dedo crítico às pessoas nas áreas da vida delas sobre as quais nos sentimos nós mesmos mais fracos.  Aqui entra a história da mãe do Ruca e o ponto que referi antes sobre sermos sinceras connosco. De não usarmos de uma falsa confiança. Penso que vivemos tempos em que a sinceridade de sabermos porque fazemos o que fazemos é difícil. A Brené Brown sugere-nos perguntas de sinceridade interior que exigem uma pausa. Uma pausa que me tem ajudado bastante a não me esconder por trás da máscara de comentários como “ah, mas eu também não queria ser como ela”.

Que venha o dia em que abraçamos a mãe do Ruca, a mulher que se irrita com o filho no supermercado e todas as outras com quem nos comparamos. Contentes com quem somos e apoiando a mãe diferente de nós que está ao nosso lado. Porque – e agora muito sinceramente – todas as mães que conheço desde que nasci se queixam de alguém que as criticou ou que comentou a forma como educaram e como se sentiram magoadas com isso. Mas quase nenhuma vi depois a não repetir a proeza com a mãe que vem a seguir. Vou tentar, quero mesmo tentar. Porque isto dói.

 

Por Ana Calha, Blog Prá Vida Real

 

imagem@google

O stress matinal está a prejudicar os momentos em família?

Oito e meia da manhã, o relógio a dar horas, o pequeno-almoço por tomar, a roupa por vestir, gritos, choro, birras, “não posso mais com isto!”, “despacha-te!”, “anda lá!”. Um stress. Cenário comum e que se repete em dezenas de lares portugueses. Rotina que se repete dia após dia. Será que passa com os anos? Será que os miúdos melhoram com a idade? Dúvidas, irritabilidade, culpa… E assim está montado o cenário perfeito para que a família comece a sentir que está a viver em stress constante.

Para os pais, há ainda o acumular das tarefas profissionais e de manutenção da casa. Para os miúdos, o acumular dos conflitos na escola, da dificuldade em algo que está a ser ensinado e dos trabalhos para casa.

Mas será que de alguma forma os comportamentos de cada membro da família acabam por alimentar o stress familiar?

Sim e com certeza!

Os filhos frequentemente testam os pais para verem até onde podem ir, e frequentemente exigem atenção através de coisas que irritam profundamente os pais. Por sua vez, os pais que se sentem soterrados em obrigações, frequentemente dão uma ordem acabando por contraria-la, ou seja, pedem para os filhos que executem determinada tarefa, e acabam por fazê-la.

Anda lá! Calça as sapatilhas! Temos que ir!” E… dois segundos depois está o pai ou a mãe em stress a calçar os miúdos.

Como estas situações alimentam o stress familiar?

Simples, os pais, enquanto adultos, passam num simples comportamento a mensagem de que ela não tem capacidade de se calçar sozinha, que receberá muita atenção se fizer fitas a vestir-se, e que tampouco precisa de obedecer porque, a tarefa vai aparecer feita na mesma. E assim a mesma cena perpetua-se manhã após manhã.

Mas, como resolver essa situação?

Com treino. Treino dos pais e treino dos miúdos. Num dia calmo em que não tenham horários a cumprir (como um fim de semana, por exemplo), tenha uma conversa honesta com os pequenos e proponha uma competição contra o relógio “tive uma ideia para que nós não tenhamos que discutir pela manhã!”, por exemplo: “Vou colocar aqui o alarme e quando tocar tens que estar já vestido(a) e com as sapatilhas calçadas. Se conseguires terminar antes do alarme, vais ganhar um prémio!”. Para tal, coloque um tempo no alarme que saiba que será viável para o seu filho realizar a tarefa com sucesso (5 min a 8 min). O que queremos aqui é que ele se sinta capaz de executá-la. Ah! Mais importante ainda, não ajude! Deixe que ele faça sozinho, incentivando-o a cada etapa concluída com sucesso “Boa! estás mesmo rápido, já conseguiste vestir a camisola! Fixe!! Agora já calcaste as meias!!”.

O prémio a ser dado, nesse caso, pode ser algo tão pequeno como um autocolante ou carimbos numa folha. Depois, podem ser estabelecidas metas para a semana juntamente com os miúdos (a começar por metas mais fáceis). Se os pequenos conseguirem vencer o alarme três vezes na semana ganham três autocolantes e esta soma de conquistas pode ser trocada por um prémio maior (um kinder surpresa, a escolha da sobremesa para o jantar, um jogo mais barato que queiram, enfim, algo que não tenha um valor elevado mas que seja do interesse deles). Esses pequenos prémios vão promovendo motivação para a realização de tarefas e o desafio deve ser aumentado a cada conquista. Após duas semanas, conseguindo vestir-se sozinhos e vencendo a meta de três vezes na semana, pode aumentar-se o desafio para conseguir fazê-lo os cinco dias da semana.

Este tipo de intervenção pode ser feita também para tomarem o pequeno-almoço ou para realizar qualquer outra tarefa, incentivando-os sempre com algum prémio pelo sucesso na execução e claro, com muita atenção!

A verdade é que as birras e a postura opositiva não passam com os anos, nem com a idade. Muito pelo contrário, a tendência é piorar se não for tomada nenhuma atitude pró-ativa por parte de quem cuida. O que faz os comportamentos mudarem são 4 coisas:

  • Treino, consistência por parte dos pais, regras e ordem.

Nesse sentido, os pais tem de ter atenção para não transmitirem exatamente aquilo que não pretendem.

Há pais que gritam frequentemente com os filhos pedindo para que estes não gritem.

Ora, quando gritas, o que estás a ensinar, é que ganha quem grita mais alto… Em vez de ensinar que com gritos não se ganha nada, ensinas que gritar é o importante. E, acredita, os miúdos vão aprender a gritar!

O que devemos fazer é exatamente o oposto: oferecer um elogio assim que a criança para de gritar “Fixe! Estou mesmo orgulhosa(o) de ti! Conseguiste acalmar-te e parar de gritar!”, assim conseguimos ensinar que gritar não serve de chamada de atenção, mas que parando de gritar se ganhar atenção e elogios dos pais!

Essas dicas funcionam muito bem quando bem executadas de forma consistente. É claro que algumas crianças são mais desafiadoras, mas há sempre maneiras de ajuda-las a compreender as regras e autoridade de forma positiva e não autoritária.

Quem poderá ajudar com mais precisão é um psicólogo especialista em atendimento infantil e de pais. Para além de promover rotinas menos conturbadas, um bom profissional ajuda na criação e manutenção de laços afetivos positivos nas famílias, mesmo perante os momentos de crise.

Se sente que sua rotina está a dar cabo do seu dia e da energia da sua família, procure ajuda. Acredite, as coisas não vão melhorar sozinhas e nem com o tempo. É necessário fazer modificações de forma organizada, consistente e coerente, e com ajuda profissional tudo fica mais claro e fácil.

imagem@trudnoca

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“Boa tarde, é da escola do pequeno catita. É a mãe dele?” “Sim…” digo eu já a pensar em “n” razões, nada positivas, porque me estão a telefonar, sendo que a maioria delas incluí algo digno de um episódio da Guerra dos Tronos“Era para avisar que amanhã há visita de estudo.” O meu batimento cardíaco volta ao normal, e o meu cérebro larga a historinha que estava a imaginar, focando-se agora na visita de estudo, cheia de material novo por onde elaborar. Nunca vos aconteceu?

E já repararam que quando perguntamos a alguém “Então, como estás?” abrimos a porta para uma corrente de coisas negativas? E que estas, levam-nos logo a pensar em outras tantas negativas que estão a acontecer na nossa vida? Mas quando alguém diz “Estou óptima e super feliz!”, pensamos “Hum, deve andar a fazer meditação ou qualquer coisa new age!”

Porque raio parece que o nosso cérebro está sempre atento ao que pode correr mal?

Esta caraterística humana que leva o homem moderno ao esgotamento e ao stress, salvou-nos a vida enquanto caminhávamos pela natureza sem fim, rodeados de animais selvagens. O cérebro, funciona como um radar ligado que detecta perigo, e exagera a sua importância para nos deixar física e mentalmente preparados para a ação. Perante um estímulo, se não tivermos conscientes dos nossos pensamentos, entramos num ápice numa espiral de nuvens negras umas atrás das outras que montam um cenário dantesco. Ironicamente, no fim do turbilhão, o estímulo inicial nem aparece na equação.

Na parentalidade, o nosso cérebro está assim, biologicamente ligado ao que pode correr mal. Normalmente vemos o quadro bem mais negro do que parece (negativity bias), e temos bastante dificuldade em aproximarmo-nos de qualquer situação de um ponto de vista neutro, meramente de observador.

Há poucos dias, na reunião de pais do primeiro ano, os pensamentos negativos saltitavam aceleradamente de cabeça em cabeça. As preocupações dos primeiros trabalhos de casa, saltavam para a necessidade de irem para a sala de estudo para fazerem tudo bem, para passarem de ano com distinção, terem boas médias, irem para uma boa faculdade, terem um bom emprego. Ufa. Os pais saíram de lá esgotados, stressados e rodeados de pensamentos-nuvem, apenas com as historinhas que iam sendo inventadas nas suas cabeças.

Mas como posso contrariar esta espiral de nuvens negras?

Está cientificamente provado que para anularmos um pensamento negativo temos de ter 3 positivos. Se o nosso radar está sempre virado para o mau, nunca damos oportunidade para o bom crescer. Por isso, se eu apenas me foco no que corre mal na minha relação com o meu filho, no seu comportamento mais desafiante, nas lutas do trabalho de casa, nunca dou oportunidade para o positivo crescer, nem nele e nem em mim.

Ao alimentar o que não funciona, contribuo para que ele se sinta incapaz, errado, incompetente e sem espaço ou vontade para se focar no que pode fazer bem. Pelo contrário, quando nos sentimos bem connosco próprios, isso naturalmente reflete-se no nosso comportamento e na nossa produtividade.

É igualmente importante perceber que pensamentos, não são factos, e que antes de os aceitarmos como tal, devemos olhar para eles com consciência e distanciamento.

Para treinares o teu cérebro a não ir automaticamente para o dark side, tenho um TPC só para ti! Quando surgir um pensamento negativo, repara nele com curiosidade “Olha eu a pensar nisto!” e compensa com 3 positivos. Vais ver como o pensamento-nuvem desaparece mais depressa do que uma estrela cadente.

Experimenta, e como dizia o Obi-Wan Kenobi “MAY THE FORCE BE WITH YOU.”

 

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Hoje de manhã encontrei à saída do metro um pai que participou no workshop de Disciplina Positiva que dei no início do mês.

Trocámos os bons dias e algumas palavras de circunstância, perguntei pelos filhos e quando eu me preparava para seguir caminho, percebi pela sua expressão inquieta que queria falar. Desabafar.

Não tardou a contar-me que andava a sentir-se em baixo, frustrado, desesperado. Tudo por causa dos constantes ataques de fúria do filho mais velho de 5 anos. Disse-me que já tinha tentado tudo. E que ralhar ou castigá-lo só estava a piorar as coisas.

Convidei-o para um café e expliquei-lhe que uma criança que se porta mal é uma criança desanimada. E que a melhor forma de enfrentar aquele tipo de comportamento é através do estímulo. Vi-o torcer o nariz enquanto eu falava, percebi que achou a ideia um disparate. E verbalizou-o: “Estímulo? Mas assim estarei a premiar o mau comportamento dele”. Respondi que não, que uma criança se porta melhor quando se sente melhor.

Ficou a pensar uns segundos no que lhe disse e decidiu experimentar uma sugestão que lhe dei, que tem tido bons resultados em minha casa, com os meus filhos. Combinámos falar uma semana depois, para saber como tinha corrido.

Voltámos a falar uns dias depois, como acordado. E nem foi preciso eu fazer perguntas. “Anteontem, quando o filho começou a fazer uma birra daquelas, pus-me de joelhos à altura dele e disse-lhe: ‘Preciso de um abraço!’

Perguntei-lhe como tinha reagido a criança. “Ficou surpreendido e disse-me, entre lágrimas: ‘o quê?’ Voltei a dizer-lhe que precisava de um abraço e ele, atónito, perguntou: ‘Agora?’ Respondi-lhe que sim e, a custo, lá me abraçou”.

A birra tinha terminado. E pai e filho ficaram ali, envolvidos num longo abraço.

E depois do abraço?

“E depois do abraço, o que é que faço quanto ao mau comportamento? Deixo passar?”. É a pergunta que quase todos os pais me fazem quando lhe falo desta “ terapia do abraço ”, uma das técnicas mais utilizadas na Disciplina Positiva.

Muitas vezes um simples abraço é suficiente para pôr fim, no imediato, ao mau comportamento. Mas nem sempre. Há alturas em que a criança está de tal forma alterada que não está disposta a dar ou receber qualquer tipo de estímulo. Nessas situações pode sempre arriscar dizer-lhe:  “gostava que me desses um abraço, quando estiveres pronta”.

Um abraço serve pelo menos, na maioria das vezes, para criar um ambiente mais desanuviado e motivador. E pode ser a oportunidade ideal para criar conexão – ou recuperar a conexão perdida -, fazendo perguntas, dando opções limitadas, distraindo, fazendo coisas juntos… e comprometendo-se juntos a procurar uma solução para o problema.

Atenção ao castigo!

Infelizmente, são muitos os pais acham que os filhos devem sentir na pele o mal que fizeram. E a forma que encontram para que tal aconteça é fazendo com que sintam culpa, vergonha ou dor (castigo, por outras palavras). Em vez disso, pode sempre tentar dar ou pedir um abraço.

Caso este método não funcione aí em casa, não desespere. Afinal, não há uma receita única para todas as crianças. E há outras alternativas para lidar com o comportamento dos mais pequenos, de que tenho vindo a falar (e continuarei a fazê-lo) neste site.

Se acha que tem “tentado tudo” e não consegue resolver a questão, é provável que se encontre numa luta de poderes ou num ciclo de vingança com o(s) seu(s) filho(s). O que só que aumenta neles a desmotivação. Experimente partilhar os seus erros com eles. E peça-lhes ajuda para melhorar, comecem de novo. Admitir os seus erros é uma das coisas mais estimulantes que pode haver para uma criança.

imagem@aftenposten

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Todos nós, pais, somos diferentes. Se, como seres humanos, não podíamos ser mais complexos, seria de esperar que nesta coisa da maternidade/paternidade fosse igual.

Por esse motivo tento ao máximo não julgar. O que funciona dentro de uma casa não é obrigatoriamente melhor do que o que se faz na outra. Sei disto e sei também que muitos de nós tomamos decisões e depois, mais tarde, olhamos para trás e pensamos que tínhamos muitas certezas na altura, mas se fosse hoje faríamos diferente.

No outro dia no parque encontrei uma senhora que tem quatro filhos e que costumamos encontrar várias vezes durante a semana. Os mais velhos têm nove e sete anos, os mais novos três e seis meses. São idades muito diferentes e não imagino o caos que muitas vezes deve acontecer dentro de casa.

Neste dia ela estava sozinha com os quatro, o mais novo a dormir no ovo, os mais velhos a saltarem no escorrega e o segundo mais novo andava a correr e a fazer disparates. A certa altura ouvi alguma comoção e prestei atenção ao que estava a acontecer. A mãe chamava o de três anos para vir ter com ela, naquele tom de “imediatamente, não me obrigues a chamar outra vez”. Sei como é, estamos juntas, adorava que a minha filha viesse só de lhe abrir os olhos como os meus pais me faziam, mas a ela falta-lhe esse chip, ou talvez me falte a mim o chip da autoridade que os meus pais tinham.

Mas o miúdo não só não ia ter com a mãe como recuava com ar de medo. Depois percebi porquê, tinha feito uma asneira grande, tinha mandado pedrinhas (que compõem o chão do parque) à cara da mãe. A mão cedeu em ir ela aproximando-se e chegando a um palmo dele, encheu a mão das pedrinhas e zumba, mandou-lhas à cara. Acompanhado de um “vê lá se gostas que te faça isso. Gostas? Não gostas, pois não? Então não faças!”.

Toda eu estremeci. Repito que tento não julgar, mas eu não o faria. Conheço quem use o método, a outros níveis, mas assim nunca tinha visto.

A verdade é que pode resultar, mas está a formatar aquele miúdo para agir assim. Há algumas crianças no parque que algumas vezes fazem exactamente isso, apanhei já uma miúda adorável que quando via os mais pequenos mandarem pedras ia atrás deles a fazer o mesmo e a dizer o tal “não gostas, pois não?”. Devem ter-lho feito a ela também.

Isto pode preparar os miúdos para o imediato, da próxima vez talvez não façam a mesma coisa, com medo que lhes venham fazer a eles a seguir, mas é o que eu considero um mau princípio.

Quando forem adultos e cometerem um erro não terão, ou não deverão ter, alguém a fazê-los passar pelo lado do outro para compreenderem. Porque não é preciso ser quase atropelado para se ter mais cuidado quando se está a passar de carro na passadeira.

Acredito que devemos ensinar a empatia. Que devemos corrigir os erros. Que devemos mimetizar as atitudes que gostávamos que os nossos filhos tivessem.

Eu sei que há dias de cão, em que o cansaço nos faz cometer erros. Talvez tenha assistido a um desses dias. Espero que sim.

Odiaria ver aquela mãe ser chamada à escola porque o filho anda a pisar os colegas, porque um deles o pisou e agora precisa de ver como é. Ou anda a dar encontrões porque lhe deram a ele. Ou a chamar nomes e dizer palavrões porque foi o receptor dos ditos.

Todos os dias são bons para recuarmos um pouco e pensarmos onde podemos melhorar.

Eu todos os dias tenho uma lista sem fim.

Mas tende a ser menor que a do dia anterior.

Que seja assim para todos nós.

 

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Alguém parece ter inventado uma lista de qualidades e habilidades que se deve ter para ser uma ”boa mãe”. Nesta lista infindável, para além de saber cozinhar paleo-chic-bio-gourmet, costurar, fazer os mais variados DIY dignos de uma revista de decoração. Ir ao ginásio com regularidade, ensinar os filhos a serem extremamente precoces numa área qualquer. Levar os miúdos à piscina e sair de lá maravilhosa, e não como alguém que acabou de sair vestida da sauna. Ser capaz de apanhar todas as promoções da história versão “extreme couponing”. Encadernar primorosamente os livros da escola. Identificar TODO o material com dezenas e dezenas de etiquetas, repetindo dezenas e dezenas de vezes o nome dos pequenos catitas… (depois desta leva do regresso às aulas em que perdi a conta das vezes em que escrevi ”Guilherme”, pensei seriamente que era bem mais fácil ter-lhe chamado “Ivo”).

Ser fabulosa a ajudar as crianças com os trabalhos de casa, brincar pelo menos 30 minutos por dia com eles, enquanto se faz uma tarte veggie e meia dúzia de agachamentos. Ou seja, resumindo a “lista” é fundamental trabalhar, ser bem sucedida, uma inspiração para tudo e para todos, dormir no máximo umas 5 horas e acordar cheia de energia. Basicamente, é ser um daqueles copos da minha infância, um sempre em pé.

Quando não são os outros que nos avaliam com tamanha exigência, somos nós. Aliás, nós somos a nossa maior crítica, sempre na primeira fila a apontar o dedo. No entanto, parecemos ignorar o importante facto de todos os dias estarmos lá, a dar o nosso melhor.

Quando mães exaustas me perguntam “Estou a fazer tudo bem?” só me apetece… dar-lhes colo. Somos tão pouco tolerantes connosco. Exigimos tanto. Carregamos um peso tão grande. Queremos tanto fazer a coisa certa. Sempre.

A parentalidade é um caminho. Não há escolhas certas ou erradas. Existem as que nos levam mais perto de onde queremos chegar, e as que nos fazem dar umas voltas à rotunda.

Cada um faz o seu caminho, tal como na vida. Se o meu filho não é igual ao teu, porque é que a minha forma de lidar com ele deveria ser igual à tua? Não haverá uma forma só nossa de sermos felizes? Não haverá uma forma só nossa de sermos mães?

São esses caminhos que cada um tem de descobrir. Quando largamos a lista, o peso, a expectativa, o caminho abre-se, passo a passo, lágrima a lágrima, sorriso a sorriso.

Temos todas muitas dúvidas e medos, desde o primeiro momento. Achamos todas que a mãe que está ao nosso lado, é melhor do que nós, sabe mais do que nós, vale mais do que nós. Mas sabes, aos olhos do teu filho tu és a melhor mãe que ele poderia ter, só pelo simples facto de seres TU a mãe dele.

Resolver uma Birra

A cena parecia tirada de um filme. De terror. O meu filho, de 6 anos, aos gritos e a espernear na sala. Parecia possuído por um espírito maligno qualquer. Tudo por causa de um episódio de um desenho animado que ele queria ver e que eu não deixei, porque já era hora de ir dormir.

O episódio já tem algumas semanas, mas usei-o esta semana como exemplo, quando uma amiga me pediu conselhos sobre como lidar com as birras do filho, mais ou menos da mesma idade.

No momento apeteceu-me ralhar, ameaçar com um castigo se ele não parasse imediatamente com aquele comportamento. Mas, em vez disso, resolvi aplicar uma “ferramenta” que aprendi em Espanha, durante a formação que fiz para Educador de Famílias em Disciplina Positiva. E resultou.

Sair de cena… mas voltar ao assunto

Comecei por avisá-lo que eu estava a sentir-me irritado, pelo que iria sair da sala para me acalmar. E que falaríamos sobre o que aconteceu quando ambos nos acalmássemos.

Tive dúvidas sobre se resultaria. Fui até à cozinha, respirei fundo e um minuto depois estava de volta. Já não tinha vontade de o agredir verbalmente. Nem ele continuava com a birra. Sentei-me no chão à altura dele, e perguntei o que estava a sentir. E porque tinha feito aquela cena. Disse que não sabia. Tentei procurar as respostas. E encontrei-as. Disse-lhe que compreendia que se sentisse assim, mas tentei que compreendesse que já não era hora para ver bonecos. “Não achas?”, perguntei. Disse-me que sim com a cabeça, timidamente. “O que é que podemos fazer para evitar que isto se repita, filho?”, acrescentei, com a voz tranquila. “Ver os bonecos mais cedo?”, respondeu. Dei-lhe um abraço e fomos contar a história antes de dormir. E birras do género, nem vê-las desde então.
Não sabe resolver uma birra, saia de cena.

Sair de cena não é premiar!

Durante os momentos de conflito, voltamos a um estado primitivo com o nosso cérebro de réptil (e os répteis comem as suas crias!). Em que a única solução é discutir (luta de poderes) ou fugir (má comunicação).

E que tal se sairmos de cena até nos sentirmos melhor? Isto de forma a que possamos resolver o problema baseando-nos na proximidade e na confiança e não na distância e na hostilidade?

Imagino que para muitos dos pais que me estão a ler, provavelmente a maioria, é difícil imaginarem que uma solução destas resulte. “Então o meu filho está a fazer uma birra e eu vou-me embora?” Eu também achava o mesmo. Mas lá em casa resultou!

Sair de cena, mas avisando sempre que se vai fazer isso para acalmar, não é premiar ou deixar que eles “levem a melhor”. Às vezes bastam 5 segundos para nos acalmarmos e voltarmos ao nosso cérebro racional. Depois é tempo de voltar ao assunto e voltar a criar conexão, já com a cabeça mais fria. E isso faz toda a diferença.

imagem@citrix

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Como lido com as birras?

Em férias, e não só, um dos passeios mais comuns de todos os pais, são as visitas ao supermercado. Todos temos a mesma ideia, ou a mesma necessidade, e os supermercados junto aos locais invadidos nas férias enchemmmmm.

Eu e o pequeno catita fomos à aventura e entrámos num deles. Não tinha hipótese. Eu tinha MESMO de comprar uma série de coisas.
Assim que as portas automáticas abriram, o frenesim começou. Pareciam piranhas que devoravam as montanhas de pão, as paletes de leite, os caixotes de frescos e as frutas empilhadas. Sentia-se uma excitação no ar. Uma urgência. Uma vontade de comprar.

O motor do pequeno catita começou a aquecer. A aquecer. As perninhas a ganhar velocidade… o dedo apontador a esticar… Ui cá vamos nós. “Mãeeeeeee! Eu quero isto! Eu quero aquilo! E bolachas. Estas bolachas. Este sumo! Eu querooooooo!” A minha cabeça rodopiava com tanto pedido.

Quem me conhece, sabe como valorizo uma alimentação equilibrada. As comidas processadas e os refrigerantes não são visitas normais na nossa casa. Tudo para que ele apontava, eram “alimentos” que não me sinto nada confortável em comprar. Enquanto ele apontava e pedia, cada vez com mais insistência, o meu motor também aumentava as rotações. Ou eu começava a disparar “NÃOS!” à velocidade da luz, o que certamente iria acelerar ainda mais o motor do pequeno catita, ou tinha de pensar noutra coisa qualquer. Rapidamente. Tinha de o ajudar a passar do cérebro reactivo para a parte que consegue pensar, equacionar e tomar decisões.

Comecei a pensar em mim. Porque razão é que eu não gosto de comprar aquelas coisas? O que me faz tomar a decisão de comprar ou não? Os ingredientes! Leio sempre os ingredientes e com base nisso, tomo a minha decisão. Decidi dar ao pequeno catita a mesma opção, num jogo acabadinho de inventar, chamado “O incrível jogo do adivinha se isto é bom para a saúde”. As regras eram simples (tinham de ser, foram inventadas ao pé dos congelados e eu já estava cheiiinha de frio). Pegar em cada uma das coisas que o pequeno catita queria comprar, ler cada um dos ingredientes, e deixar a ele a tarefa de, com o polegar para cima, ou para baixo, definir se era um ingrediente fixe, ou nada-fixe.
“3, 2, 1, começar!” Pegou num pacote de bolachas e lá fomos nós: “Farinha de trigo!” E um polegarzinho para cima, apareceu do outro lado. (Este é discutível mas achei que tinha de manter as coisas simples). “Açúcar!” Polegarzinho para baixo. “Butil-hidroxianisol butilado e hidroxitolueno!” Baixou o polegar e largou o pacote. “Não quero isto!” No meio de vários polegares para cima, e muitos polegares para baixo, todos os pacotes ficaram pelo caminho.
Agora com a ajuda dele, voltei às minhas compras. Num instante estávamos de volta ao nosso carro com a bagageira recheada de alimentos avaliados pelo pequeno catita, ao pormenor. MÃE, EU QUERO IR PARA CASA! gritou do banco de trás. “EU TAMBÉM QUEROOOOOOOOOOOOOO!” gritei alegremente do banco da frente.

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Na semana passada o medo invadiu a nossa casa. O pequeno catita tinha medo de fazer cocó e eu tinha medo que ele não fizesse. Depois de uma semana doente, o intestino não estava a funcionar como de costume. Após uma ida à casa de banho mais difícil, o medo instalou-se para ficar.

Desde aí, por muitas explicações conscientes que desse, por mil e uma dicas médicas e outras tantas mézinhas variadas, nada funcionava. Ele não queria ir à casa de banho. Ponto.

A cada dia que passava o medo crescia dentro dele. A cada dia que passava, o medo crescia dentro de nós. Eu conseguia sentir como ele estava sempre assustado, como se sentia sempre encurralado, e isso, estava a dar cabo de mim.

Para nos ajudar neste processo, tentei descobrir mais sobre o medo. Uma das coisas que já sabia, é que deve ser ouvido e respeitado. Mesmo que nos pareça um medo idiota e sem sentido, tal como qualquer emoção, deve ter espaço para existir. É fundamental aceitar o que está a ser vivido do outro lado, ouvir sem tentar mudar nada. Dar tempo para o medo, ao seu ritmo, dar lugar à ação.

Várias vezes engoli o meu medo. Lembro-me que não tinha espaço para ele. Ficava presa nos olhos cheios de expectativas dos outros e enfrentava o que lá vinha. Mas a força motora não vinha de mim, vinha do outro. Eu não estava a utilizar os meus próprios recursos para lidar com a situação, e esta dependência externa apenas aumenta o nosso medo e o nosso sentimento de incapacidade.

O medo é uma antecipação negativa de alguma coisa, só o próprio a pode transformar numa antecipação positiva. Só o próprio pode dar o primeiro passo, de dentro para fora.

Tinha de ser o pequeno catita a decidir que estava preparado e munido dos recursos necessários para enfrentar o que o assustava.

Muitas pessoas encaram o medo como algo muito negativo, mas ter medo é saudável e natural. Coloca o nosso corpo em alerta para quando temos de dar uma resposta rápida a nível físico e mental. Também existem os outros medos que nos limitam, congelam e aterrorizam. Estes devem ser igualmente respeitados, e devem ser olhados como mensagens ou pedidos de ajuda dos nossos filhos.

Segundo a Isabelle Filliozat, é importante dar as informações necessárias à criança sobre o que se está a passar. No meu caso, expliquei ao pequeno catita o processo digestivo de uma forma simples e divertida. Mostrei-lhe como funcionavam todos estes “canos” dentro de nós. Também lhe perguntei o que poderíamos fazer para ele se sentir mais seguro na ida à casa de banho.  Do que é que ele precisava? Surgiu uma lista de coisas: os vários octonautas na beira da banheira a olhar para ele, a música do Despacito a tocar em loope um banquinho colorido para ele colocar os pés enquanto estava sentado na sanita. Segundo ele, este era um “plano perfeito”.

Por vezes, quando confrontado com a iminência de ter de ir à casa de banho a raiva subia-lhe à ponta do nariz. Eu ficava lá, com ele. Presente. O medo e a raiva andam muitas vezes de mão dada. O medo engolido gera raiva. Para transformar o medo, a raiva tem de conseguir vir cá para fora e tem de ter espaço para o fazer.

Filliozat refere algumas das fases fundamentais nesta viagem através do medo onde devemos respeitar sempre o ritmo dos nossos filhos (e o nosso); Primeiro, é essencial aceitar o medo. O que é, como é, sem tentar mudá-lo. Apenas compreender e receber o medo que o nosso filho tem.

Depois, ajudar a criança a aceder aos seus recursos internos. Para isso, contei-lhe de outras vezes em que ele tinha ido à casa de banho, uma delas até tinha sido num avião em pleno voo! Juntos tivemos a tentar adivinhar quantas vezes fez cocó desde que nasceu e descobrimos que, na verdade, ele era um grande especialista no assunto. Relembrámos também outras situações em que ele também teve medo, as ferramentas que usou na altura, e como se sentiu orgulhoso no final com a sua conquista.

Mais tarde, falei de mim. Das coisas que me assustaram e principalmente das vitórias e aprendizagens a que estas deram origem. A nossa experiência com o medo acolhe a deles. Inspira-os e ajuda-os a não se sentirem sozinhos ou tontos com as suas inseguranças. Somos todos iguais. Temos TODOS medo de alguma coisa.

A regra mais importante? Não devemos insistir. A não ser que seja uma situação de vida ou de morte. E não era. Ele tinha de decidir fazê-lo por ele, e não para me fazer a vontade. Ele tinha de se sentir livre para fazer essa escolha. Aí está o poder. Aí reside a nossa força. Aí o medo que inibe transforma-se no medo que estimula à ação.

Um dia, estava na sala e comecei a ouvi-lo cantarolar o Despacito. A música vinha da casa de banho. Alguns minutos mais tarde chamou-me. Quando cheguei estava sentado, olhou-me determinado e disse “Mãe quero tentar. Vou confiar em mim e em ti e vou fazer força.” Estava pronto. Era agora.

Alguns segundos depois, puxávamos o autoclismo em tom de celebração. Se eu tivesse “confetti” tinha feito um pequeno carnaval naquele instante. É muito importante que a criança sinta orgulho na sua vitória de forma a fortalecer e consolidar a sua confiança na vida, e em si mesmo.

E foi assim… tal como apareceu, o medo do meu pequeno catita desapareceu pelo cano.

 

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“Todos começamos esta viagem, cheios de sonhos, de esperança e de amor. Muito antes do mundo nos ensinar o medo temos momentos puros. Momentos em que os ratos são mais espertos que grufalos, vacas conseguem saltar luas e os gatos vivem em chapéus.” – Eric Christian Olsen

Todos nós nascemos livres. Seres cristalinos. Seres de amor. Puros. Com uma marca própria, uma assinatura única a deixar no mundo.

Depois, o ambiente que nos acolhe, os lugares onde nos movimentamos, as respostas que vamos recebendo às nossas necessidades e as nossas próprias vivências, vão marcando profundamente as fundações da nossa existência e conduzindo a nossa jornada.

O início da nossa viagem como pais não é muito diferente.

Antes de sermos pais, temos uma visão incrivelmente deslumbrante dos pais que vamos ser. Calmos. Pacientes. Controlados. Sábios.

E de repente… BOOM. Somos esmagadoramente abalroados pelo despertador da realidade.

Quando somos pais, é fácil sentirmo-nos arrebatados. Triturados pelo medo. Ofuscados pela rotina. Confusos pela incerteza. Desgastados pelas noites sem dormir. Alérgicos com o chão por aspirar. De cabelos em pé com os brinquedos espalhados. Descompensados pelos Himalaias de roupa suja para lavar.

Porque que é que a roupa não se lava sozinha? Porque é que a minha filha não pára de chorar? Porque é que não come? Porque é que não dorme? Porque é que não se veste sozinha? Mas não estava tudo bem agora mesmo? O que é que se passa?????

Comecei a aperceber-me recentemente que sermos pais é assim como uma longa e surpreendente travessia de mota. E consoante a nossa condução, assim as duas rodas nos vão respondendo. Consoante o estado da mota que conduzimos e as condições do terreno e do tempo, assim a nossa viagem por entre os desertos e os vales, as planícies e as encostas vai exigindo uma adaptação na nossa condução. Pode estar chuva. Pode estar sol. E quando chove, podemos sempre decidir se queremos levar o fato de chuva, se queremos seguir caminho ou se paramos um pouco, à espera que a chuva passe. Ou se avançamos mesmo assim e aproveitamos a ventura.

Apesar da nossa visão antes de sermos pais possa contrastar ofuscantemente com a realidade, no segundo em que escutamos, no momento em que prestamos atenção, em que nos conseguimos sintonizar com o grande esquema das coisas, conseguimos recordar o início da viagem. Sintonizar com a nossa visão. Com o nosso sonho.

E aí estamos prontos para dar um novo passo e reconectarmo-nos com o nosso ponto de partida.

Por vezes, encontramo-nos a navegar uma estrada oleosa, esburacada, cheia de curvas e contracurvas. Em rota descendente com curvas bem apertadas. Umas a seguir às outras. De repente, a gravilha no caminho parece ameaçar a resistência da nossa condução. O óleo da estrada ameaça fazer-nos tombar na próxima volta. Literalmente.

E os sonhos, a esperança e o amor que orientaram a visão inicial da nossa viagem parecem ser colocados à prova. Momento sim, momento sim.

Maya Angelou dizia que quando sabes melhor fazes melhor. Com conhecimento adequado, podemos mesmo tornar-nos pais calmos. Mesmo quando estamos exaustos. Fora de nós. À beira de um ataque de nervos.

Por vezes damos por nós a ouvir a voz – uma ou mais vozes –  tão longe no tempo, mas tão perto agora a ressoar dentro dos nossos ouvidos.

Damos por nós, aniquilados pela pressão, pelo stress, pelos eventos da vida, a fazer exactamente as mesmas coisas que sempre criticámos, a dizer aquilo que sempre detestámos e que jurámos a pés juntos que nunca iríamos fazer.  Ficamos mal. Estamos a dar o nosso melhor com o que temos, mas cá dentro sabemos que podemos fazer melhor. Queremos fazer melhor.

A nossa intenção é a melhor. No entanto, parece que, por mais que queiramos, no momento, não conseguimos fazer de outra forma. E é na fragilidade, na vulnerabilidade, que o nosso piloto automático fica no comando. Apesar dele nos despertar aquilo que sabemos já não se coadunar com aquilo que queremos fazer, acontece. O piloto automático fica no comando. Recorremos ao que conhecemos. Ao nosso próprio padrão interno. Que na grande maioria das vezes é fundado no nosso estado de não- consciência.

Então, procuramos culpados, culpamo-nos a nós próprios. Sentimo-nos incapazes. Um falhanço. Ficamos zangados, frustrados.

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